APOLOGIA PRO GENERATIONE SUA


      Eu vos não venho exaltar o novo em detrimento do velho, á maneira das caricaturas de Anno Novo e Anno Velho nas revistas de natal.

      Há entretanto um espirito, ou consciencia de geração; e a esse espirito ou consciencia sou agudamente sensivel.

      É uma especie de patriotismo. Os da mesma geração somos uns como compatriotas ligados uns aos outros pelos communs destinos e pelos deveres de lealdade reciproca. Somos como o navio de que nos fala Alphonse Daudet: "un bateau dont les passagers participent des mêmes clartés et des mêmes erreurs".

      E nunca u'a mocidade teve tantos destinos em commum nem tamanhos deveres de lealdade reciproca como a inquieta mocidade d'aprèsguerre - mocidade de desencantados e dolorosos, sem saber ao certo para onde drenar a seiva ainda virgem das suas forças, um tanto duvidosos do valor, sinão espiritual e moral, pelo menos social, do holocausto de sangue dos seus irmãos mais velhos.

      Ao falar dum Rupert Brooke, dum Otto Braun, dum Ernesto Psichari tenho a impressão de falar de compatriotas. Elles fundaram com o sangue a patria que é a geração dos que hoje somos os homens de vinte e de trinta annos.

      Sobre muito sangue fundou-se de facto nossa geração. Sobre muita dôr. Sobre muito sacrificio. Guardo ainda nos olhos a triste paisagem dos cemiterios de guerra: milhares de cruzes de pau preto sob as quaes apodrece tanto corpo joven. E vi ao Sol dos parques restos macabros de mocidade, molambos de carne ainda joven, esses 2/3 e 3/4 de homens que são os mutilados da guerra.

      Cheio de extranhas instrucções, de quase premonições, Psichari, como Peguy, advinhára os annos tragicos. Os annos de sacrificio. Annos que haveriam de levar não o sangue podre de syphilis dos empreiteiros da guerra, mas o das gerações novas, no frescor da intelligencia e da vida. Ora vêde quem a morte nos levou durante a guerra: Otto Braun, José Lotte, Carlos Peguy, Ernesto e Miguel Psichari e esse Rupert Brooke que um amigo meu ainda conheceu em Oxford, louro e claro como um Sol.

      Três ou quatro annos antes da guerra, Psichari, repetindo um pouco Peguy, sentindo-se já daquelles "qui ne sont faits pour le bonheur", escrevera: "Tout se joue sur nos têtes..." "Nous ne sommes pas des amateurs ni des touristes..." Era a antecipação do holocausto. Peguy escrevera: "Nous ne savons pas si nous serons heureux mais nous savons que nous ne serons pas petits".

      Não seria de facto uma geração de touristes, passando pela vida como um tropel de americanos ricos pela cathedral de Toledo, a dos adolescentes de 1914. E era facil sentir-lhe o excepcional do destino e da vocação, mesmo antes da guerra, no verbo plastico e no espirito ancioso de clarificar-se de tanto Jean-Christophe inquieto: nos Estados Unidos, em Randolph Bourne e Wan Wick Brook; na Inglaterra, em Rupert Brooke; na França, em Peguy, em Psichari, em Jacques Maritain; na Italia, em Giovanni Papini; em Portugal, em Fidelino de Figuerêdo e Antonio Sardinha; no Brasil, em Jackson de Figuerêdo.

      Desses Jean Christophes inquietos é que hoje vos falarei. Principalmente de dois: Randolph Bourne e Ernesto Psichari.

      De Randolph Bourne fui quase contemporaneo na Universidade de Columbia, que encontrei ainda impregnada do halito do seu espirito.

      Um raro espirito, o desse Randolph Bourne a quem a volupia das idéas, a pura tensão mental, a inquieta analyse pareciam communicar verdadeiras luxurias physicas. É por isso que nelle, tendo o intellectual vencido ao instinctivo, o critico ao puro emotivo, ainda assim é de um tão acre sabor pessoal e quase lyrico a suL'oeuvre. Lendo-o é como estar a ouvil-o falar, tão puro é o frescor da expressão, tão fluido é o verbo e tão agil, a mudar como por encanto de momento musical.

      Em pequeno, foi Randolph o mais só e o mais triste dos meninos. Amargavam-lhe as memorias da meninice, como uma vez em conversa me informou um seu amigo, dos que em plena festa de natal de 1918 lhe levaram saudosos o corpo á sepultura, a passo de enterro pela neve molle. Horrivelmente aleijado, nascera Randolph; e muito novo perdeu pae e mãe. O que, desde pequeno, possuia de fazer inveja, eram as mãos. U’as mãos finas e nervosas. Espirituaes. Dessas de que as teclas do piano depressa se tornam amigas. E levado pelo que os psychologos chamam o "mechanismo de compensação", na leitura e no estudo do piano refugiou-se Bourne dos primeiros desencantos da vida.

      Estaes a dizer: puro Jean Christophe! E com razão. Quando mais tarde, Randolph, voluptuoso da leitura, teve seu primeiro contacto com o romance de Romain Rolland, logo em Olivier deve ter sentido um irmão. E pela epopéa toda, Randolph deve ter vagado como por uma sala de Espelhos ao geito da classica, de Versailles, encontrando-se a cada passo, surprehendendo-se numa variedade de aspectos.

      De modo que Romain Rolland não lhe veio crear um ideal de vida e cultura: Romain Rolland clarificou no joven pensador as experiencias e as idéas ainda turvas. Renovou-lhe as forças interiores de resistencia, aguçou-lhe a tendencia que lhe era propria de "savoir au plus épais de l’ombre inventer la clarté". Em "crear claridade no mais espesso da sombra" consumiu-se a juventude de Randolph.

      Ninguém como elle conseguiu ser tão forte de forças interiores num corpo que era antes um triste retalho de corpo; nem tão bello de belleza intima num physico que fazia escancarar em faceis risadas as dentuças sujas dos garotos. Não deixou Randolph que lhe ensombrassem a clara vida interior nem a sordidez do meio nem a fatalidade organica. Virou pelo avesso quase tudo quanto é dogma determinista. Desmentiu ao proprio Spinoza quando affirma crear-se nosso ser moral á imagem dos nossos orgãos, fibras, visceras. Aliás, já a Spinoza desmentira Roberto Louis Stevenson, escrevendo entre hemoptyses, os pulmões quase todos roidos, o corpo que era um mulambo de sôpor, as paginas de victorioso optimismo que são as cartas de Valima.

      Na Universidade de Columbia, onde ainda hoje pontifica o maior dos discipulos de William James, o professor John Dewey, Randolph foi a principio pragmatista. Mas teve o bom senso de passar pelo pragmatismo como se deve passar pelo pragmatismo, pelo pantheismo hegeliano, pelo intuitivismo bergsoniano: atravessando-o como se atravessa um corredor, em busca dalguma sala. Infelizmente, mal teve tempo de chegar á porta da sala.

      Já o pragmatismo representava no caso de Randolph uma victoria sobre a philosophia de pés de chumbo incapaz de desprender-se do laboratorio. O que Randolph não teve tempo de vencer em si mesmo foi a superstição da logica que é ainda uma superstição intellectualista; e a volupia da razão individual, que tantas vezes adquire o ranço de "revolta do individuo contra a especie". Ninguém, entretanto, nos Estados Unidos, se elevou ainda como Randolph na coragem de ser só. Só "no meio de todos" e ás vezes "contra todos" - exactamente como doutrina Romain Rolland. E quase sempre pela ancia de clarificar-se; pelo desejo que algumas vezes se aguçava todo em tortura de interpretar o sentido intimo das cousas; pela volupia quase dolorosa da introspecção individual e social. Morrendo aos 30 annos, a mocidade toda foi para Randolph uma como longa e terrivel noite de São João que elle passou a procurar-se a si mesmo, debruçando-se sobre o proprio eu como sobre a agua negra dum poço.

      Mas não venceu, como disse o intellectualismo que na sua escalada foi lama viscosa a pegar-lhe nas solas dos sapatos. É verdade que nos seus ultimos annos parecia o sentido directo das cousas querer dominar-lhe os processos de comprehensão puramente logicos e deductivos.

      A intelligencia de Randolph experimentava na controversia verdadeira luxuria: era como se fosse um dos seus motivos de viver. Mas a controversia nos justos limites que impõe o bom senso a esse "sport" mental, tão facil de passar de disciplina a indisciplina.

      Entre nós brasileiros, raro é a controversia indisciplina mental ou mesmo dos nervos. Vence quem berra mais forte: as controversias oraes, principalmente assumem, no Brasil, o ar horrivel de ataques de nervos.

      É que a controversia só se desenvolve intelligentemente nestas condições: dentro do assumpto e entre eguaes. Nunca devemos discutir com os nossos inferiores. Com os inferiores manda o bom senso que se concorde em absoluto, sondando-se-lhes veladamente as tendencias ou convicções para adaptar a ellas o juízo o mais depressa possivel. Era mais ou menos o que fazia Eça de Queiroz. "Vi-o successivamente em um minuto - escreve o sr. Alberto de Oliveira - proclamar que o tempo estava optimo e que estava pessimo, ao notar quanto a primeira these, embora tão innocente, desagradava ás arraigadas convicções de um seu conhecido".

      "Creiam-me os novos" - aconselha o Visconde de Santo Thyrso - "da discussão não nasce a luz. Quando sahe alguma cousa é muita pancadaria". E Shopenhauer, que escreveu sobre a arte da controversia todo um vasto tratado, era de opinião que a dialectica cria nos debatentes um interesse não pela verdade mas pela proposição de cada um, como si afinal se tratasse duma batalha "pro aris et focis". O que explica porque das controversias, mesmo das conduzidas dentro do assumpto e entre eguaes, o resultado é sahirem os debatentes mais convencidos que nunca das suas proposições. Deste typo de controversia seria injusto dizer mal mesmo quando acabamos sem convencer nem convencidos, ha um grande valor em acabarmos clarificados.

      Randolph Bourne, que tanto amava a discussão, chegou mesmo a formular uma como theoria da controversia, não sem certo sabor de parodoxo. "É ahi - escreveu da controversia - que todo cahos indisciplinado de idéas e impressões adquiridas com a leitura é posto em ordem e movimento para a lucta. Sem a controversia, toda a experiencia intellectual se reduz a puro exercicio de gymnastica sueca na sala de banhos... Mas uma bôa discussão não se limita a lucta de idéas. É no intimo um processo de cooperação. Abre caminho para o entendimento mutuo. Isto não quer dizer que toda controversia deve resultar em accôrdo ou contemporização. Valeu a pena ter desenvolvido uma discussão quando outro resultado não se obteve afóra a clarificação do objecto de controversia nos seus pontos essenciaes... Com a controversia desdobram-se na mente idéas que teriam permanecido occultas sem o incisivo contacto com as idéas oppostas. O simples esforço para dizer exactamente o que se quer, aguçando o pensamento, dando-lhe a tensão necessaria para convencer os outros é em si mesmo um tonico para a intelligencia".

      Saborosamente dito. Apenas não occorreu a Randolph destacar o que me parece essencial: que a discussão só realiza aquellas funções clarificadoras e mesmo creadoras, quando se desenvolve entre eguaes. Só neste caso a controversia assume o ar dum esforço de cooperação das intelligencias.

      U'a mocidade de acção, ou antes de reacção, a de Randolph. A' tendencia para o conforto mental caracteristica das burguesias de ventre cheio; ao pendor tão americano para as soluções materiaes; ao patriotismo optimista, inimigo de qualquer esforço de instrospecção ou critica social, elle oppoz um espirito amigo, até á volupia, das idéas, da especulação, da controversia, da claridade. Amigo sobretudo da claridade. E agudo - tão agudo que a sua critica dos vicios americanos de vida e de cultura foi uma como serie de incisões em madeira pôdre. Elle como que sentia o pôdre da madeira antes de a ferir: dahi a certeza dos golpes.

      Como ideal de cultura, ao dominante, que era e ainda é entre muitos de nós, americanos, um ideal de transposição, de absorpção, em ultima analyse, pura solução material baseada no "apropriar-se do que ha de melhor" de Matheaw Arnold, Randolph oppoz o da cultura nacional desenvolvida pelo esforço proprio. Ideal que não é outro sinão o da cultura nietzscheana. "Culture as a living effort", queria Randolph, comprehendendo bem o ridiculo dessa cultura que se adquire sob pressão exterior.

      De facto, o "apropriar-se do que ha de melhor", de Arnold, não será pura solução material dum problema intimo e espiritual? Dá a lembrar aquelle "Will you accept Christ?" que o Sr. Paul Bourget achou parecido á offerta dum xarope. Não é cultura como não é religião o que somente é acquisição. Póde ser formidavel sciencia ou erudição, como entre nós a erudição de Ruy e mesmo a de Tobias. A cultura, no sentido a que a elevou Nietzsche, tem de ser um esforço creador, e - peçamos ao grego a palavra magica - heuretico. Repelle soluções materiaes. Ninguém se provê de similhante cultura. O ridiculo da theoria de Arnold, experimentamo-lo bem reduzindo-a a um simile. E num simile resulta nisto a famosa theoria: prover-se de cultura é como prover-se de bonita dentadura postiça.

      Para arrancar a cultura de sua joven patria do parasitismo da européa, elevando-a a uma cultura espontanea, viva, que partisse do actual para o classico e não do classico para o actual, Randolph agitou um movimento de "place aux jeunes", procurou reunir as forças da mocidade em vasto esforço collectivo, á maneira, diz o seu amigo Wan Wick Brooks, "dum emprezario que ajuntasse elementos para immensa orchestra". Randolph Bourne reuniu em torno de si uma "élite" de novos, nos quaes sabia estimular as especialidades individuaes e dellas obter, pelo accordo das forças, bellos effeitos em massa.

      Bourne abrira os olhos, aquelles seus grandes olhos de menino guloso a se escancararem para a vida como duas boccas com fome, no meio da mais sombria paisagem social. No meio duma caricatura moderna das communidades gregas de que fala George Sorel: "des populations urbaines, commerçantes et riches, qui pouvaient regarder le monde comme un immense magasin rempli de choses excellentes, sur lesquelles leur convoitise avait la faculté de se satisfaire". Puro dominio dos "possessive impulses" sobre os "creative impulses". Dahi a força que nesse meio social tomára o verbo "to get", engraçadamente applicado ao que ha de mais espiritualmente fluido e de menos material: "to get religion", "to get culture", "to get an education".

      Preoccupou-se muito Randolph com os problemas sociaes e até de economia e de politica, não procurando crear belleza nem exercer a critica esthetica, independente delles. Justifica-o o Sr. Wan Wick Brooks, no prefacio á "History of a Literary Radical": "Bourne foi arrastado á politica como em tempo de guerra um especialista é arrastado á pratica da cirurgia geral, na qual elle muito póde fazer, é certo, mas a custa ou pelo sacrificio da sua especialidade". Em guerra viveu de facto Randolph a vida inteira. Guerra contra as "forças hostis á arte" de que nos fala Ibsen. O esthetismo de Croce é ainda no seu rigor, inapplicavel a essa situação de guerra em que vivemos os americanos: a minoria ridicula de Marias contra a maioria formidavel de Marthas.

      Não será exaggero dizer que, feita uma só excepção, a do Sr. George Santayana, ninguém penetrou tão intelligentemente quanto Randolph no que ha de mais intimo na vida social e economica dos Estados Unidos - nos seus antecedentes como nas suas actualidades. E não se limitou a fazer obra de reportagem ou inquerito: fez obra de interpretação e clarificação. No pungente esforço de autopsychologia que é "History of a Literary Radical", sondou-se Randolph a si mesmo não desgarrado do meio, mas em relação ás forças sociaes, na maioria hostis. E é um estudo, esse, ao mesmo tempo de introspecção individual e de introspecção social.

      Com a sua idéa um tanto a Wells de u'a America trans-nacional conciliava Randolph um nacionalismo, que por ser dos mais criticos, era dos mais fortes. Nacionalismo que se aguçou no contacto com as patrias européas, principalmente com a França. A Randolph espantava que o genio da reclame, a ancia de publicidade do americano, tão forte no caso de sabonetes, automoveis e pastas de dentes, toda se recolhesse em humildade no caso dos Walt Whitman, dos William James, dos Saint Gaudens. Elle queria, contra a dominante "cultural humility", um orgulho creador. De "cultural humility" soffremos mais ou menos todos os americanos: dahi o prestigio mystico que assume aos nossos olhos a citação dum francês ou dum italiano ou dum inglês.

      Não importa que o francês seja o Sr. Hermant; nem o italiano o Sr. D'Annunzio; nem o inglês o Sr. Wells, - esse delicioso Julio Verne cuja autoridade ainda ha pouco invocava o Sr. Ronald de Carvalho a proposito de não me lembra que ponto meio dubio de historia italiana.

      São paginas as de Randolph a gritarem ás vezes estridentemente por um traductor ao português e ao hespanhol: paginas de um americanismo muito mais fundo, mais sincero, mais intelligentemente critico e introspectivo, que o de José Enrique Rodó, tantas vezes superficial e xaroposo.

      De um frescor de idéas egual ao de Randolph, ainda mais agudo na ancia de introspecção, mais completo pelas realizações do pensamento e da vida, foi Psichari. Ernest Psichari. O neto de Ernesto Renan. O outro Ernesto.

      Delle também, ao lel-o, tem-se a impressão de estar a ouvil-o falar: mas uma voz á surdina, debussyana cuja vibração é toda interior. Voz que se diria educada pelos Benedictinos de Solesmes, para os encantos mais intimos da melodia gregoriana.

      Em Ernesto o patriotismo de geração teve quase o rubro ardor dum coração de Jesus, ardendo e sangrando da volupia do sacrificio. Ernesto Psichari, que será talvez um dia Santo da Igreja, já tem para nós, seus irmãos mais moços, os d'après-guerre, a ala recemchegada de forças jovens, alguma cousa de Santo. Ninguém, a não ser Peguy, teve tão clara a consciencia dos destinos de sua geração: "tout se joue sur nos têtes".

      Elle foi um dos primeiros a sentir o paradoxo desses destinos, isto é, o paradoxo da attitude que urgia aos jovens assumir em face dos seus paes, as gerações de 50, 60, 70. Era nada menos que a inversão de papeis sociaes: reaccionarios os filhos diante dos paes neophilos.

      O romance de Psichari, "L'Appel des Armes" como que dá contorno e expressão plastica á these de Peguy: "prende le parti de ses pères contre son père". É o proprio Psichari, disfarçado em Maurice, quem reflecte: "Ainsi l’ordre ordinaire des facteurs se trouvait-il renversé, le père se disant nouveau, et, l’enfant, au contraire, faisant office de vieil homme".

      É curioso como tantos dos elementos pensantes da nova geração, nestes ultimos dez ou quinze annos, temos pelo esforço heuretico de cada um, tomado o rumo da tradição contra o furor neophilo em que se desgarrou a geração dos nossos paes. Em Portugal, em plena orgia de liberalismo, de scientificismo, de intellectualismo estreou-se na philosophia e na critica sociaes a mocidade do Sr. Fidelino de Figueredo, clamando pelos direitos do espirito historico, oppondo-o á nevrose de impulsos reformistas, prestigiados pelos vastos cabellos brancos de Theophilo Braga e pela espessa barba patriarchal do Sr. Magalhães Lima. E com um "programma de geração" parecido ao de Peguy, agitando uma "élite" de novos diante da qual sentia Ramalho Ortigão que a dos velhos devia inclinar-se, appareceu o Sr. Antonio Sardinha.

      Em Psichari a reacção não foi só contra o pae: foi tambem contra o avô. Contra duas gerações. As duas gerações que principalmente constituiram na França o "stupide XIX ème siècle" de que nos fala Leon Daudet.

      Extranho caso, o de Ernesto: de sangue, francês, gascão, celta, hollandês, grego. E a esta diversidade correspondiam uma fé protestante, uma fé catholica-romana, uma fé catholica-grega. As quaes, refluindo sobre si mesmas para se tolerarem sob o mesmo tecto, davam em perigosa neutralidade.

      Desse cahos de ascendencias e de tendencias haveriam de vencer em Psichari, depois de muita tortura e de muita dôr, o senso de ordem e a ancia de fixidez: haveriam de vencer o soldado francês e o filho, apenas desviado, da Santa Igreja. O estudo rigorosamente disciplinador da historia haveria de ensinar-lhe que "ce n’est pas seulement le père que eduque l’enfant, mais aussi, surtout peut'être, les pères, ses pères, les milles forces du passé, les conseils obscurs des forêts et des pâtis, melés aux voix innonbrables des penseurs et des poètes. Voilá ce que prevaut contre une deviation particulière. La route, un instant perdue, se retrouve".

      "La route, un instant perdue, se retrouve..." Dir-se-ia que o caso de Psichari voltando á ordem, á tradição, á continuidade historica foi todo um drama intimo; que o avô Renan quebrára um dia em mil e um pedaços o crucifixo da familia; e veio o neto e o recompoz. Tão simples, tudo - mas Deus sabe quanto custou á juventude de Ernesto Psichari reunir um a um os fragmentos.

      "Nós é que somos os paes dos nossos paes" é a conclusão paradoxal a que chega Ernesto na sua reacção contra duas gerações de desgarrados da continuidade historica. "C'est nous qui sommes la plus haute autorité. C’est nous que sommes le plus vieux droit ... C’est nous qui sommes leurs pères. Et ils sont de bien mauvais fils..."

      Os estudos de Maritain, Mile. Goichon e Paul Bourget e, sbretudo, os romances que são antes biographias disfarçadas, L'Appel des Armes, Le Voyage du Centurion e Les Voix qui crient dans le Desert permittem-nos seguir em Psichari a serie de reacções pessoaes que o reintegraram na linhagem dos avós.

      Alumno do lyceu Montaigne e depois do Henri IV foi entretanto no Condorcet que Psichari iniciou seus estudos que lhe haveriam de inquietar a adolescencia. Era então um meninote fino e mesmo franzino, meio descuidoso da rotina collegial e gostando muito de estar só. Collegial ainda, acamaradou-se com Jacques Maritain; e juntos se deixaram encantar pelas bellezas do socialismo.

      Como Randolph Bourne, Psichari deliciava-se na controversia; e tinha esse gosto pelo paradoxo que é um tão vivo signal de aristocracia de intelligencia. Diz-nos Mile. Goichon que elle revelava "un plaisir extrème á étonner les autres et une faculté de s'étonner lui-même qui doublait le plaisir".

      Por intermedio de Maritain fez Ernesto o conhecimento de Carlos Peguy, que tanto o devia encantar pela bizarria e sabor todo exotico das suas idéas. Marxista, anti-militarista, dreyfusista - ninguém mais ardente na revolta contra o estabelecido e o acceito que o Ernesto, discipulo de Peguy.

      Pela influencia do pae, o Professor Jean Psichari, foi Ernesto desenvolvendo nos estudos o senso de ordem que lhe faltára; e teve por essa época o primeiro contacto com Bussuet e Pascal, Theocrito, Verlaine, Mallarmé, Baudelaire, Laforgue, Rimbaud, Ovidio, leu-os com a fome de belleza que em certas adolescencias tão aguda é ás vezes como a propria fome sexual. Seu estudo de philosophia no Condorcet, em vez dum curso de passiva absorpção, foi todo de activas reacções pessoaes; e ao contacto duma theoria nova sentia essa volupia do inedito que Mlle. Goichon chama "le plaisir de la decouverte".

      Já rapaz, no Collegio da França, atravessando pela mão do proprio Bergson esse longo corredor illuminado a luz electrica que é o bergsonismo, é que Ernesto se deveria libertar dos preconceitos scientificistas, predispondo-se assim para a agonia de reintegração que se approximava.

      Inquieto, faz-se soldado. A vida de soldado vae aprofundar-lhe o senso de ordem; vae aguçar-lhe o espirito ou consciencia de geração; vae accelerar-lhe o rythmo da vida interior.

      É verdade que ao primeiro contacto o clima da Africa, para onde o transporta o dever militar, vence-o pelo molle langor, dando-lhe umas como ferias do esforço de pensar. Dahi a molleza impressionista de tantas paginas do primeiro livro de Psichari: Terres de Soleil et de Sommeil.

      O segundo livro de Psichari --L'Appel des Armes é que verdadeiramente fixa seu primeiro passo reaccionario, ainda que Mlle. Goichon o considere "un essai de stabilisation d'un état moral essentiellement transitoire". É o Psichari de L'Appel uma especie de Barrès. O Barrès de La Grande Pitié des Eglises de France. O Barrès que escreveu defender a igreja em nome da vida interior de cada um, separando-se assim dos que, á maneira do sr. Charles Maurras, apenas a defendem como elemento de disciplina social e reacção contra a erosiva acidez do individualismo anarchico; mas, humilhando o sentimento perante a Igreja, não chegou Barrès a humilhar a razão - parecendo temer que nesse ultimo passo se lhe amollecesse em langor de sacristia a vibratil tensão mental.

      Psichari, pela dôr creadora da introspecção, deveria execeder a Barrès. Deveria elevar-se acima do sentimental e do moral ao puramente religioso.

      Fazenddo segunda viagem á Africa, desta vez é a vibrar de empathia que elle enfrenta a paisagem: já não é o todo cêra impressionista de Terres de Soleil et de Sommeil. É um reflexivo. Elle e a paisagem vão agir um sobre o outro. Percorrendo a doce passo de camello, sob o sol forte, o areial desolado, Ernesto pôe-se em contacto com os intimos valores moraes da terra e da paisagem; e ao côro das vozes que clamam no deserto começa a conversão do neto de Renan.

      Nos livros desta sua phase de dolorosa volupia - Le Voyage du Centurion e Les Voix que crient ha paginas de rara belleza. Dalgumas escreve o sr. Paul Bourget, com o seu agudo e experimentado senso de avaliação, que "sont... parmi les plus belles dont puisse s'enorguéillir notre litterature mystique".

      Os três annos de Africa são para Psichari uma especie de Trappa. "Car la Règle de l’Afrique est le silence", escreve elle em Le Voyage du Centurion. E em Les Voix qui crient: "Maintenant laissons agir le silence, c'est un grand maitre de verité".

      O Silencio - mestre da verdade! Já Carlyle nos falára no "silencio creador". E que silencio mais creador que o silencio do deserto, no meio duma paisagem severa e dura, como que riscada a incisões de esfuminho – "silencio fecundo".

      Como uma vez m'o descreveu um amigo viajado pelo Sahara?

      Pois é assim o Sahara que serve de Trappa a Psichari: duro, severo, sem côr. "De la lumière sans couleur. Un seul Personnage compte, et c'est le ciel". E no meio desse silencio enorme, cheio de salas profundas e de vozes interiores, talvez o unico que tivesse conseguido dominar e disciplinar a alma inquieta de Carlyle - pobre querido Carlyle! - Psichari exclama: "Malheur á ceux qui n’ont pas connu le silence".

      O silencio - mestre da verdade! Porque dá langor á intelligencia? Não: porque faz pensar. Porque dá a volupia dolorosa de pensar. Porque aguça a dôr creadora da introspecção.

      Sobre Psichari é esta a acção do silencio: eleva-o, disciplina-o, fal-o pensar. Eleva-o porque dentro da regra do silencio, Psichari, como o Maxence de Le Voyage du Centurion, "écout pieusement les heures tomber dans l'éternité qui les encadre". Eleva-o ainda porque para Psichari o silencio não é só o mestre da verdade: é também o mestre do amor. O silencio não o atemoriza como a Pascal, ainda que elle compare seus dias de sol na Africa ás noites de agonia do pensador de Port Royal: "silence qu'écoutait Pascal dans les nuits de Port Royal". No silencio encontra Psichari uma força que lhe parece "um peu de ciel qui descendait vers l'homme pour le rendre meilleur". Força que lhe parece vir "des grands espaces interstellaires, des parages sans remous de la lune froide".

      Três annos leva o mestre formidavel a agir sobre a juventude pensadora de Psichari: e agir sobre elle pela excitação da intelligencia. Ninguém menos disposto que Psichari a resolver o problema religioso, que é também um problema de intelligencia, numa facil emoção de sacristia. Além disso "rien n’est plus contraire á la tradition française que la foi du charbonnier... Ce qui fait le fond de la tradition frarnçaise, c'est une foi solide - celle de la religion catholique, apostolique et romaine - appuyée sur une large culture, ou parallele á une large culture intellectuelle". Parece Newman.

      É a mesma ancia de clarificação. É quasi a mesma voz. É Newman falando francez.

      Psichari chega a escrever que "un français croira toujours que le péché est plus agréable á Dieu que la bêtise". E numa carta ao sr. Jacques Maritain, de que este publica alguns trechos no seu bello e forte livro Anti Moderne, Ernesto confessára: "Abêtissez-vous, me dit Pascal. Mais c'est impossible. On ne peut pas plus s'abêtir que se donner de l'intelligence". E para Maritain a converãso do seu amigo illustra a doutrina thomista do acto da fé: um acto de intelligencia.

      Sem sacrificar na sua essencia os direitos da intelligencia, apenas humilhando-os intelligentemente a uma luz maior e melhor, chegara Newman á Igreja. O proprio Randolph Bourne, intellectualista até á alma, reconhece em Newman uma intelligencia sempre em vibração, mesmo quando elle acceita o dogma da infallibilidade. E a explicação de Bourne é esta: que o dogma da infallibilidade foi para a intelligencia de Newman antes libertação que limitação: libertou-a da vulgaridade das discussões theologicas, em que se deliciam os protestantes. A infallibilidade da Igreja era assim para Newman, segundo Bourne, não tanto a garantia de valores, como a garantia de protecção de titulos ou acções. De facto, o que a Igreja eleva a dogmas, não são valores correntes, que precisem de estar sempre vivos e moveis, presos ás urgencias e actualidades da vida e do mundo dynamico: a Igreja eleva a dogmas as transcendencias. Dahi a intelligencia na acceitação dos dogmas, a começar pelo da infallibilidade: si elles não são anti-scientificos, mas apenas excedem á experimentação scientifica e tem o direito á vida de que ainda ha pouco nos falou em Pernambuco o sr. padre Gonzaga Cabral, como dizer que o dogma e a intelligencia se repellem?

      Assim, pela intelligencia intelligentemente dominada pelo rythmo interior da alma, voltou Ernesto Psichari á ordem de que sahira o avô, pela orgia da mesma intelligencia. "Rectificou o avô", disse Mauricio Barrés no seu ultimo discurso, o de 28 de fevereiro de 1923, no Centenario de Renan. Ernesto e Miguel Psichari rectificaram o avô. "Vous êtes venus rectifier et completer le temoignage de votre aïeul", falou Barrès ás sombras dos dois heróes. De facto, um Ernesto, passada uma geração, corrigiu o outro. Completou-o. Rectificou-o.

      E por toda a parte o programma de pensamento e acção da mocidade é hoje um programma de rectificação. No Brasil, é preciso que rectifiquemos os falsos valores de que ha cincoenta annos vivemos, reintegrando-nos no Brasil brasileiro dos nossos avós.

      Contra o ideal absorvente de transformar o paiz num vasto 202 de Jacintho, ideal que é desde a Republica a tendencia, agora accentuada pela fartura de dinheiro, ergamo-nos, os novos homens do Brasil. Que exceda o conforto dos fogões a gaz, dos water closets de porcellana, da luz electrica, o ideal de cultura e de vida brasileira. Que a Nossa Senhora do Brasil tenha mais de Maria do que de Martha.

      Felizmente, da nova geração brasileira surgem esboços de "leaders" e sombras de prophetas: Agrippino Grieco, Oliveira Vianna, Jackson de Figueirêdo, Antonio Torres, Gilberto Amado, Ronald de Carvalho, Renato Almeida, Tristão de Athayde, Perillo Gomes, Andrade Muricy e Tasso da Silveira. Em recentissimo trabalho sobre O Pensamento Philosophico no Brasil destaca o sr. Renato Almeida, na geração que se forma, "pendores para a critica, a analyse e a indagação", ausentes nas gerações predecessoras. Nós precisamos de pôr ao serviço durn grande esforço de introspecção nacional esses plasticos recursos do espirito critico.

      Parallelo a um esforço de reacção contra os falsos valores de vida, economia e cultura que nos impuzeram uma philosophia e um liberalismo sem raizes nos nossos antecedentes e nas nossas actualidades, similhante inquerito está a impôr-se como o programma da nossa geração. Quase se póde dizer que "tout se joue sur nos têtes".

      Decididamente não se trata, no caso da nova geração brasileira, de mero sebastianismo de "les jeunes". Nem creio se possa accusar a um grupo tão sincero de aucto-didactas - cujos dentes de senso critico podem ser ainda de leite mas cousa nenhuma teem de postiços - dessa petulancia em que ás vezes se requintam as mocidades cheias da pretenção de ser o "sal da terra". Croce nos adverte contra os "jeunes" das que cervejarias vivem a chocarrear nos velhos e nos mestres, sem se mostrar capazes de serios esforços creadores, numa esteril rebellião contra o estabelecido e o tradicional.

      O nosso caso é outro. Não se passa impune atravez duma epocha como aquella por onde passou nossa adolescencia: 1914 -1920.

      Ala recemchegáda da geração que fez a guerra com o seu sangue e a sua carne, também estivemos no carro que uma acrobacia macabra quase precipitou no fundo das aguas: carro parecido ao que ia lançando Pascal dentro do Seine; donde sua "doença do abysmo". Estamos, todos os que seguimos o rythmo deste seculo e nascemos quase com elle, no mesmo barco: prende-nos uns aos outros a consciencia de experiencias e de destinos em commum. O excepcional dessas experiencias e desses destinos impõe-nos o dever, antes de nos ceder o direito de pensar e de agir acima da mediocridade.



Source: FREYRE, Gilberto. Apologia pro generatione sua. Parahyba, 5 abr. 1924.

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