FÉ, ESPERANÇA E CARIDADE


     ESTAMOS vivendo os últimos instantes de uma luta e os primeiros momentos de uma vitória: do voto livre sôbre o voto escravo. A vitória, no Recife, de João Cleofas sôbre o outro candidato.

     Nós todos sentiríamos vergonha do nome de pernambucano se o voto escravo cobrisse agora, neste decisivo 3 de outubro, o voto livre. Se os votos, de que os últimos coronelões do interior dispõem como se fôssem coisas, e coisas passivamente suas – votos de eleitores que são para êles, coronelões, iguais a cabeças de gado e a pés de café ou a pés de cana – fôssem em número maior do que os votos dos pernambucanos das cidades e dos municípios livres. Os votos verdadeiramente de Pernambuco. Os votos que não se compram, porque o voto do pernambucano livre não se compra como se compra galinha ou se compra couve. Os votos que ninguém consegue pedindo, rogando mendigando, porque o voto do pernambucano livre não é voto de caridade para os pedintes de véspera de eleição, mas de fé nos homens que considera de passado limpo, e de esperança nos homens que lhe parecem de palavras honrada. ( Aplausos).

     Nossa fé é em João Cleofas. Nossa esperança está em João Cleofas. Nossa caridade será para o outro candidato. ( Aplausos).

     Mas não agora, essa caridade: só depois de 32 de outubro. Só depois de derrotado por Pernambuco livre e cruel, aquêle que, vitorioso, sua vitória seria talvez., o fim de Pernambuco livre e, quando necessário, cruel. Poderiam então os amantes de antiguidades fazer da juba e das garras daquele povo que sempre se chamou " Leão do Norte", por saber como nenhum do Brasil estraçalhar os ladrões de suas liberdades e os assassinos de seus direitos, relíquias melancólicas e frias de museu.

     Sabemos que êste gôsto não terão os antiquários: vossos aplausos, neste comício de pernambucanos livres, já soam como o rugir de um leão zangado que não se deixa domesticar pelos agrados macios porém falsos dos que lhe mataram os filhos, dos que lhe feriram a honra, dos que quiseram reduzi-lo a leão tão de mentira como as falsas cooperativas, como a falsa campanha contra os mucambos, com os falsos favores aos pobres, como as falsas reduções do poder dos muito ricos. Tão falsas essas reduções do poder dos muito ricos, que eu vos pergunto agora, não "onde está o dinheiro", porém "com quem está o dinheiro dos muitos ricos", nesta campanha memorável ? Com quem está o dinheiro dos reis do coronelismo dos sertões, senão com o falso amigo dos pobres, e amigo verdadeiro dos muitos ricos enquanto muito ricos, e dos muito poderosos enquanto muito poderosos?

     Os muito ricos em política não se colocam nunca ao lado das causas populares: se êles estão, não com João Cleofas, mas com o outro, é que êles têm de ser agradecidos ao outro, é que êles sabem o que podem esperar do outro, é que êles sabem que contam com a polícia secreta do outro para resolver suas questões com o operário, com a gente do povo mais altiva, com o pobre mais impertinente na defesa dos seus direitos. ( Grande aplausos).

     Tudo que o outro fêz nos seus dias sinistros de dono de Pernambuco, não pela vontade dos pernambucanos, mas por decreto do Poder Central – por decreto do protetor generoso que êle trairia na mais H das horas HH – foi obra de devastação.

     Devastação de tudo que fôsse esfôrços de gente humilde ou serviço útil a gente humilde, para que os ricos se tornassem mais ricos, e os pobres mais pobres; e a polícia mais polícia, embora a Justiça menos Justiça. Foi assim que derrubou os mucambos da pobreza, abandonada com seus cacarecos no meio da lama das ruas sujas, para que nos terrenos das palhoças se levantassem casas, não para a pobreza extremamente pobre, mas para os camaradas, os protegidos, os amigotes do Govêrno. Foi assim que destruiu o serviço de bonde – essencial ao pobre e ao homem médio – deixando sem transporte fácil e barato, não só o operário, como a desprezada gente média que em Pernambuco vive hoje vida heróica para poder pagar aluguel de casa, educar filho, tratar dos dentes, comprar remédio, comer manteiga aos domingos, andar calçada, vestir-se, enterrar seus mortos, abrandar a dor dos seus doentes, adoçar a velhice dos seus velhos. Foi assim que quis derrubar instituições de valor e homens de brio, numa fúria de lobisomem a cumprir sina em noite aziaga de Sexta-feira: sina do despeitado, do amarelecido pela inveja, do envenenado pelo ódio. Foi assim que quis sufocar por sua polícia de capangas, que, com a outra – a elevada, moralizada, engrandecida pela reforma Jurandir Mamede, a brava polícia militar de Pernambuco (aplausos) que não se presta a ser capitão-do-mato de coronéis do interior, para quem eleitor livre é o mesmo que negro fugido – êle nunca pôde verdadeiramente contar para os seus abusos; foi assim – dizia eu – que quis sufocar com sua polícia de capangas a voz do operário que clamasse por seus direitos, a voz do homem do povo que revelasse sua dor e sua fome, a voz do estudante que não traísse a sua mocidade para aceitar, ainda quase menino, emprêgo de espião policial contra os colegas e os mestres, a voz do jornalista, a voz do professor, a voz do médico independente como êsse que se chamou Ulysses Pernambucano e foi o mais pernambucano dos pernambucanos. (Aplausos).

     Por tudo isso é que o momento não é ainda o da caridade com o devastador, mas o de uma firmeza de ânimo democrático que vá até à crueldade na repulsa àquele que, no govêrno do Estado, seria o mais cruel dos policiais para com o povo que sofre e para com a inteligência que ilumina os problemas do povo sofredor, e o mais doce dos camaradas para com os amigotes podres de ricos que hoje lhe dão dinheiro para os caros letreiros escandalosamente luminosos e para outras ostentações asiáticas de luxo de propaganda eleitoral: insultos a um povo pobre a quem tudo falta. (Grandes Aplausos).

     Contra êsses insultos, contra essas ostentações do dinheiro dos ricos a fazer reclame do seu preferido, tu, recifense, tu, Recife, tu, terceira cidade do Brasil em população e primeira em brio, primeira em bravura, primeira em ânimo democrático, tu, Recife de 17, de 24, da Praieira de Nunes Machado, de Feitosa, de Nabuco, de José Mariano, de 3 de Março – tu saberás cumprir o teu dever de cidade cruel com os cruéis, com os maus, com os traidores das tuas tradições e do teu futuro.

     Águia ferida, pelicano rasgado no peito como o da lenda imortal, leão a quem mataram os filhos pequenos – sê cruel com quem de nôvo quer subir ao teu dorso, agora para furar de vez os teus olhos, sangrar mais fundo o teu peito, matar outros dos teus filhos inermes. Cidade chamada "cruel", sê de verdade cruel. Aguça tuas garras para estraçalhar o atrevido que pretende ser teu senhor, teu opressor, teu explorador, com a própria caridade do teu voto. ( Aplausos que se prolongam durante minutos.)

     Repele o atrevido. Abate o afoito. Estraçalha-o. Rasga-o. Despedaça-o. Que tôdas as mãos que votem a 3 de outubro se agucem em garras. Que tôdas as garras se agucem numa garra única. Que esta garra terrível destrua para sempre o Don Juan de gentes inermes, o conquistador de populações ingênuas, o sedutor de eleitores inocentes. Conquistador pelo terror. Sedutor pela palavra falsa.

     Tu, Recife, já és uma cidade adulta, e não nova. Sábia, e não inocente. Materna, e não virgem. Tua responsabilidade é suprema. De ti não deverá sair um voto de homem livre, que não seja para João Cleofas: todo voto recifense para o outro será um vitupério para Pernambuco.

     Porque tu, Recife, és livre. (Aplausos) Tu, Recife, não temes os secretas de polícia. (Aplausos) Tu não tens donos. ( Aplausos) Tu és o ponto mais alto da consciência e da cultura de Pernambuco. Tu és exemplo para os jovens. Tu és guia para cegos. Tu és voz para os mudos. Tu és a fúria mais furiosa do velho Leão brasileiro que é Pernambuco: guarda da honra e vigia das tradições brasileiras de altivez e independência. ( Aplausos).

     Por isso, Recife, eu, que nada te peço para mim; eu, que nunca busquei o teu voto para mim; eu, que não peço nem busco teus aplausos para meu nome, mas me sinto honrado e enobrecido quando me dás teu voto espontâneo e o teu aplauso de gente livre e fidalga, eu te peço, eu te rogo, eu te imploro que cumpras o teu dever de "cidade cruel", não só estraçalhando de vez nas garras do teu voto o maior dos teus inimigos, para quem é cedo tua caridade de cidade cristã, como fazendo o governador de Pernambuco o pernambucano da tua fé e da tua esperança: João Cleofas. ( Aplausos prolongados.)



Source: Freyre, Gilberto. Fé, esperança e caridade. Discurso proferido na Câmara Federal, Rio de Janeiro, 30 set. 1950.

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