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A experiência portuguêsa na América é parte de um complexo: a experiencia portuguêsa nos trópicos. Esa experiência incluiu a princípio só o contacto do português com terras africanas; depois tambem com asiáticos; e, durante séculos, o contacto simultâneo desse europeu com rigiões quentes do Oriente, de Africa e da América. São regiões pelas quais sua predileção se vem manifestando com a aparente força de uma vocação ou predisposição. Mais do que isto: quase com o rigor de uma sistemática de ação, precedida ou acompanhada de estudo senão sempre científico, quase semple para-científico, das condições de natureza e de vida nas mesmas regiões e das possibilidades de nelas se desenvolver o esfôrço lusitano com num meio ou espaço antes ideal, messiânico, desejado que hostil, ou grandemente desfavorável, ao europeu: a atitude -esta última de quase todos os outros europeus com relação aos trópicos e à sua patologia. Tendo sido um dos primeiros povos da Europa -talvez o primeiro- a ter contacto com a Terra Nova e com o extremo meridional da Africa do Sul, e havendo, nas suas "bandeiras" transamericanas, chegado ao Perú, atravessando terras frias, o português parece nunca se ter empenhado com o seu melhor fervor em fixar-se em espaços nevoentos ou em adaptar-se a climas mais frios que o de Portugal. Seu clima messianico ou ideal -a emigração portuguesa para países frios, como os Estados Unidos, tem sido principalmente de açoreanos- parece ter sido sempre o mais quente que o de Portugal. Contra os proprios ventos frios da Espanha tem se manifestado muito significativamente seu folclore, juntando-os aos casamentos com espanholas, tidas por mulheres menos ternas que as portuguesas ou as tropicais: "Da Espanha nem bom vento nem bom casamento". Por outro lado, o erudito Luis de Camões, n'Os Lusiadas, mais de uma vez se torna o interprete desse gôsto da sua gente pelas climas quentes e pelas terras ardentes; e do repudio português pelas terras frias e pelas regiões nevoentas. Ha n'Os Lusiadas um evidente pendor da parte do poeta para a idealisação de paisagens claras e luminosas: aquelas cujo esplendor melhor se revela em ambientes tropicaies. E pela biografia desse grande português, tão tipico da sua gente no modo aventuroso de ser ao mesmo tempo fidalgo e homem simples, guerreiro e poeta lírico, letrado e homem de ação, sabe-se que foi individuo alvo e louro, muito sensivel aos encantos da mulher de côr: encantos a que se teem rendido nos trópicos tantos portuguêses assim ruivos como morenos, assim nórdicos como tocados de sangue semita, mesmo quando lhes tem sido dado escolher entre mulheres brancas e pardas; ou entre brancas e amarelas; e até entre brancas e pretas. Preferência notada na Baía dos primeiros séculos coloniais por viajantes francêses que visitaram a então capital do Brasil. Esse melanismo talvez seja inseparável do que se possa denominar pan-tropicalismo do português, isto é, a tendência que a gente lusitana parece vir revelando mais do que qualquer outra da Europa para encontrar em terras ou climas quentes o ambiente ideal para a transeuropéisação da sua atividade e até da sua cultura: espécie de paraiso perdido que as descobertas dos séculos XV e XVI Ihe permitissem recuperar, a princípio -depois dos primeiros contactos, no tempo do Infante, com a Africa negra -principalmente, no Oriente; depois do seculo XVI, principalmente no Brasil, e quasi sempre, subsidiàriamente, durante essas duas fases, na Africa Negra, Entretanto, desde os meados do século XIX a Africa negra tomaria tambem côres messiânicas aos olhos de portuguêses com a velha fibra pioneira e o antigo gôsto por aventuras nos trópicos -inclusive a aventura da evasão, da fuga, naquela época de afrancesamento e de anglicisação das elites portuguêsas-- em revolta contra a proximidade, em que se passou a viver na metropole, aos excessos mecânicos e aos requintes ao mesmo tempo técnicos, cientificistas e "decadentistas" em arte e literatura, da Europa. Excessos, estes, que seriam duramente ridicularisados por um escritor português de gênio, cuja figura avulta do Portugal da segunda metade do mesmo século XIX com um extraordinário relêvo: Eça de Queiroz. E' que Queiroz, sob a aparência de simples diletante em tôrno de assuntos sociológicos e históricos relacionados com Portugal --os da especialidade do seu amigo e sob alguns aspectos, mestre, Oliveira Martins- fêz a vezes, neste particular, obra de analista social arguto, e parece ter sido dos que começaram a compreender, no fim da vida, depois de êle próprio ter sofrido do mal do "francezismo" e um tanto de "anglicismo", haver no passado da sua gente constantes capazes de concorrerem, bem reorientadas e rearticuladas, para um rejuvenescimento português, que se processasse sob um novo sistema de relações dos portuguêses modernos com aquêle seu passado -com as sugestões mais fortes vindas daquele passado dinâmico: sugestões para contactos viris, masculos, renovadores, de portuguêses com os trópico agrestes: como os africanos e os sertanejos do Brasil, antes capazes de avigorar energias europeias que de enfranquecê-Ias como os famosos contactos com o Oriente civilisado. Uma dessas sugestões que parece vir evidenciando ou revelando, como, que experimentalmente no decorrer dos ultimos cinquenta anos, sua validez ou o poder dinamico de certos mortos influirem sôbre os vivos -como acreditava Comte ser tendência sociológica, pelo menos em certas sociedades -está na constancia, regularidade e sistematisação dos relações do Portugal europeu com os Portugais tropicais: relações que garantam ao mesmo Portugal a condição de cultura transeuropeia, sem a qual esta cultura corre o risco de perecer de claustrofobia, isto é, sob a angústia de ser asfixiada ou sufocada pela falta de outro ar, alem do europeou. Pois o ar europeu na verdade nunca Ihe bastou para a sua vida; e a angústia, o quase desespêro que os Eças de Queiroz vieram a sentir na segunda metade do século XIX, parece ter decorrido principalmente do considerável afastamento em que se viveu então, intelectualmente, em Portugal, da tradição portuguesa de contacto de melhor inteligência lusitana (o Infante Dom Henrique, Gil Vicente, Camões, Fernão Mendes Pinto, joão de Barros, Dom João de Castro, Garcia de Orta, Padre Antonio Vieira, Alexandre de Gusmão, Pombal, Lacerda, Garret) com a realidade que alguns veem chamando ultimamente lusotropical. Isto é, uma realidade constituida pela inseparàbilidade dos problemas portuguêses de composição étnica e de organização social, das condições portuguêsas de existência, dos motivos portuguêses de vida, das inspirações mais artística e literalmente válidas para portuguêses -de suas bases ou projeções tropicais: o Oriente, a America, a Africa tropicais, ligadas de modo especialíssimo á experiencia transeuropeia dos portuguêses. Esta experiência vem do século, XV e não poderia ser hoje repudiada sem que Portugal perdesse os seus característicos principais, de uma forma que não ocorreria talvez a nenhum dos outros povos europeus que teem tido possessões ou dominio, em áreas tropicais --com exceção, até certo ponto, da Espanha, tambem muito prêsa a uma experiência transeuropéia em terras quentes que Ihe torna quase impossível viver de todo isolada dessa sua projeção dos trópicos e da projeção dos trópicos senão sôbre sua atualidade mais ostensiva, sôbre aquela sua intrahistória -para usarmos a caracterisação de Unamuno- que não é entre espanhois passado inteiramente morto mas, de alguma maneira, vivo. Acresce que, se politicamente, Portugal é hoje uma nação separada do Brasil --sua projeção no trópico americano sob o aspecto cultural os dois vêem sendo há mais de um século como partes igualmente vivas da mesma realidade lusotropical, ainda em pleno desenvolvimento. Desenvolvimento na América e desenvolvimento na Africa; e sobrevivência –que aqui sónos interessa sob o puro aspecto cultural--no Oriente. De modo que estamos--ao que parece diante de um processo de formação, de um terceiro, homem ou de uma terceira cultura --um homern simbióticamente lusotropical, uma cultura simbióticamente lusotropical-- que vem resultando numa realidade ainda inacabada; e que se vem formando por ter o português ido, ao, extremo, em época decisiva para o seu desenvolvimento extraeuropeu, de ter renunciado, como nenhum outro europeu até hoje, sua pureza, quer étnica, quer cultural, à favor de formas híbridas de homem e de cultura, das quais veem participando raças, ambientes e culturas tropicais transeuropéisados pela presença entre elas do mesmo português. Este português há séculos que não, age sozinho como português ido, da Europa para os trópicos; mas tem a colaborar com êle, na criação de formas biológica e sociológicamente híbridas -lusotropicais- de homem, de comportamento e de cultura, não só seus descendentes (conservadores e renovadores nos trópicos, da parte lusitana ou hispânica ou europeia daquela étnica e daquela cultura), como europeus: de outras origens integrados no que o processo de transeuropéisação tem de essencial. No último caso, a parte étnica do processo vem perdendo toda sua importância sob a ação da parte cultural, que é a que decisivamente tem caracterisado, o processo, pondendo-se até incluir entre os agentes de expansão de formas lusotropicais de homem e de cultura noutras Africas, que não hoje portuguêsas, descendentes de escravos; africanos que no Brasil adquiriram comportamento e cultura lusotropicais; e que regressando, livres, á Africa, durante o século XIX, introduziram na mesma Africa formas lusotropicais de comportamento e de cultura. De alguns dêsses casos, deveras interessantes, de presença, ainda hoje, nas Africas inglêsa e francêsa, de formas lusotropicais, desenvolvidas no Brasil, de homem, de comportamento e de cultura, um pésquisador francês, em fraternal colaboração com um colega brasileiro, cujas idéias Ihe teriam despertado perspectivas novas na observação, de influências europeias na Africa negra -M. Pierre Verger- reuniu evidências que confirmam general sações do mesmo investigador brasileiro voltado há anos, com especial atenção, para o estudo do assunto. São casos de importância considerável por parecer não haver outros, de conservação, na Africa, de formas de comportamento e cultura semi-européia, semi-tropical, num equilíbrio semelhante ao brasileiro-como semelhantes ao brasileiro são outras interpenetrações de raça e culturas européias com tropicais, características do Oriente e da Africa portuguêses--adquiridas no trópico americano por escravos africanos; e por descendentes dêsses mesmos escravos resguerdadas, até hoje, de dissolução, quer nas culturas africanas, quer nas sub-européias -francêsas ou inglêsas- a que ali são admitidos negros africanos civilizados. Se tais formas de cultura e de comportamento vêem por si mesmas -isto é, por espontâneo apêgo aos valôres característicos dessas culturas, da parte de descendentes de antigos escravos Africanos no Brasil- resistindo, na Africa, áquelas absorções, e que parece haver naquelas formas alguma coisa que talvez as torne polivalentes nos trópicos em fases de alteração de vida e de culturas tropicais sob a influência da européia, pelo fato de exprimirem ou representarem uma integração de valôres europeus com tropicais em correspondência com os principais desejos, necessidades, ou solicitações de grupos ou comunidades; em fase de transição, da pura tropicalidade á tropicalidade fecundada pela influência ou pela presença européia. Essa integração não há evidências de ter sido alcançada nas mesmas circunstâncias nem por inglêses nem por francêses, nem por holandeses, alemãs e dinamarqueses nem sequer por italianos, em seus - contactos mais demorados e sistemáticos com populações e culturas tropicais: só por portuguêses e, com menor intensidade, mas com igual disposição de animo para a vida transeuropeia nos mesmos trópicos como vida normal e capaz das mesmas expressões de cultura que dentro dos confins europeus, por espanhois. Parece-me igualmente nítida -sociológicamente nítida -essa disposição de animo espanhol para o que se pode denominar, com Don Mariano Picon-Salas, de "equilibrio" entre "a destruição" causada pelos mesmos espanhois no trópico americano e "las adquisiciones nuevas", isto é, o aproveitamento de valôres indotropicais por eles realizado. Tais valôres foram incorporados, em várias áreas, através da mestiçagem e da assimilação, á cultura espanhola, que assim se expandiu quase tanto como a portuguêsa em cultura simbiótica que poderiamos chamar hoje de hispanotropical, como não podemos chamar de cultura anglotropical á de Jamaica ou a das Rodesias; nem de galotropical, a de Martinica ou a do Senegal. Aqui tocamos no que talvez seja o essencial da diferença entre os dois processos de contacto demorado e sistemático dos europeus, desde o século XV, com os trópicos, em geral, e desde o século XVI, com o trópico americano em particular: o processo hispânico --do qual o português se apresenta como a intensificação máxima no sentido, por assim dizer, pantropical, de completar o hispano o seu destino ou a sua missão extraeuropéia de povo ou cultura inquietamente européia, integrando-se em espaços tropicais não com em espaços de todo hostis á sua raça e á sua cultura mas como em espaços para o português, a mesmo para o espanhol, sob vários aspectos, ideais; e a processo não -hispânico, que tem consistido na dominação e exploração de recursos e populações tropicais por europeus de outras origens, aos quais tem faltado, -a não ser em individuos ou sub-grupos excepcionais- o ânimo e gôsto pela integração nos trópicos; a disposição confraternisante para com os valôres tropicais quer de raça, quer de cultura; o empenho para outra utilisação dêsses volôres senão a volutuosa, a comercial, a econômica, estratégica. Do que há de essencial nessa diferença se apercebeu há um século, um historiador mexicano, don Lucas Alaman, cuja apologia de metodo hispânico de agir no Sul do continente americano vem resumida no capitulo segundo do estudo de don Mariano Picon-Salas sobre "tres siglos de historia cultural hispanoamericana", intitulado De la conquista a la independencia; e publicado tambem no México em 1944. Para Alaman -resumido pelo historiador venezolano- o espanhol na America "a diferencia del ingles, quiso incorporar-se formas indigenas", que eram formas -acrescente-se--em sua predomância, tropicais de vida, comportamento, cultura. Sendo assim, enquanto a colonisação da América por inglêses teria sido, "mero, desplazamiento europeo, hacia menas tierras", o espanhol teria feito brotar na America, "sobre un subsuelo autoctono primario" uma cultura nova -a hispanoamericana. Hispanoamericana segundo a concepção de Alaman em sua Historia de Mexico (1849-1852), revivida, quasi um sécolo depois, em ensaio magistral, por Picon-Salas; hispanotropical, diriamos hoje, embora com o risco de não incluir na generalisação toda a America de colonização espanhola. Mas sem que esse risco importasse em desatencão -da parte dos que pretendemos interpretar as relizações dos europeus com os tropicos, sugerindo o contraste da atitude hispanica com a não - hispanica, de forma de tal modo sistematica que nos fosse possivel falar numa hispanotropicologia e, particularmente, numa lusotropicologia que se especialisasse no estudo, na descrição e na tentativa de explicação do que vem sendo o método hispanico e, particularmente o lusitano, de desenvolvimento de populações e culturas nos trópicos, simbióticas em sua maneira especialissima de realizar íntima e profunda integração, dos valôres europeus com os tropicais -ao que nos parece um fato: o de que, fôra dos espaços tropicais e subtropicais da América, pouco se apresenta, nas próprias areas de colonisação espanhola, de original ou novo como cultura, ou como, tipo humano; de novo, de transeuropeu, de extraeuropeu. Daí muito do que na cultura da Argentina ou do Uruguai ou do Chile mais frios se distingue por excelencia técnica ou primor intelectual se apresentar como excelência ou primor antes quase-europeu sub-europeu que como afirmação transeuropéia ou extraeuropéia -o que de modo algum implica em manifestações antieuropéias- de tipo, étnico, novo pela mestiçagem, o de configuração cultural nova pela profunda interpenetração entre valôres europeus e valôres tropicais de cultura. Em comentario ás idéias de Alaman, apologeticas do método espanhol de colonisação da America em oposição ao método inglês, o historiador Picon-Salas expõe idéas que coincidem com um critério por mim sugerido, desde 1933, para uma possivel interpretação do processo socialmente ecologico de ocupação de áreas tropicais por portuguêses, em contraste com o processo, tambem socialmente ecológico, de ocupação e invasão das mesmas áreas, por europeus de outras origens: coincidencia que muito me honra. O ensaista venezuelano diria hispanico, e não apenas português; pois sua tese é precisamente a de que "si los británicos fueron buenos colonizadores cuando, como en la America del Norte, en el Sur de Australia e en Nueva Zelandia encontraron tierras de clima templado, donde parecía fácil trasladar los costumbres y el estilo de vida de la metrópoli, no desplegaron igual esfuerzo en sus colonias del trópico. Nunca fueron equiparables las tradiciones de vida europea, de cultura y refinamiento intelectual con que Espafia marcó su huella en Cuba y Puerto Rico con el inferior estilo de factoria que en las mismas aguas del Caribe mantuvo la británica Jamaica". E lembra que "documentadamente há estudiado este problema el escritor cubano Ramiro Guerra en su valioso libro Azúcar y población en las Antillas"-Iivro, na verdade, capital, para os estudos de hispanotropicologia que venham a sistematisar-se em ciência: tão essencial a esses estudos quanto alguns dos brasileiros. E' que, ao contrário do espanhol e, principalmente, do português, nos trópicos tanto americanos como asiáticos, o, inglês "prefiriu mantenerse al margen de los grupos elógenos, sin otra relación casi con ellos que la de patrón a siervo". E ainda nos lembra -um tanto apologético da colonisação espanhola por algum tempo vitima de excessos de crítica desfavorável e sociológicamente mal ou tôda da parte de vários hispanoamericanos- o, ensaista venezuelano, não terem saido da "Jamaica tórrida, buena produtora de ron y de caña de azúcvar" nem um Hostos; nem um Rizol que como en Porto Rico e nas Filipinas hispanicas fôssem intérpretes de nacionalidades nascentes. E ainda: "Domesticar la tierra caliente, Ilevar una cultura urbana hasta los climas mis desapacibles y duros de la América Tropical --Cartagena de Indias, Panamá, Guayaquil, etc.- fue una hazaña española, lograda con la pobreza de medios técnicos que existieron entre los siglos XVI y XVII". Aliás, a referencia que aí se fêz aos climas tropicais como, em alguns casos, "desapacibles y duros", é contrária á idéia dominante entre europeus do Norte de virem esses climas sempre concorrendo para o amolecimento da energia europei em áreas quentes em vez de virem por vêzes se extremando em desafios a essa energia como no Oriente, na Africa e na própia América. Quem ainda hoje visitar Goa e Moçambique depara com ruinas sem nenhurn exagero monumentais de obras em que se exprimiu de modo verdadeiramente grandioso, naquelas epocas tropicais, a energia portuguesa; a qual só foi contrariada de modo considerável naqueles arrojos (nos quais se exprimia o animo de permanência ou a vontade de plena integração nos tropicos), pela malaria --Como, aliás, a energia francesa no Panamá e parece que a alemã em Catucá (no Norte do Brasil). Á Venezuela e á Amazônia -trópico americano de clima tropical do pior- se sabe ter chegado com o mesmo vigor a energia hispânica: espanhola, em Barinas, San Carlos, Ospino, Guanare, no alto Orinoco no Norte Paraguaio; portuguêsa no alto Amazonas (onde a engenharia portuguêsa levantou em plena selva o Forte do Principe da Beira) ; e tambem ao centro de Goias e de Mato Grosso, onde igualmente se fundaram cidades, vilas e lavouras portuguêsas, em resposta aos desafios de urn clima tido por inhumano por outros europeus. Tivesse o português ou o hispano podido se aparelhar científica e técnicamente, entre os séculos XVI e XVIII, contra a malaria, e suas lnstalações urbanas, e não apenas agrárias, nos trópicos, teriam alcançado, talvez, uma grandeza julgada impossível, em espaços quentes, por outros europeus da mesma epoca: sempre marginais em seus contactos com os trópicos; transitórios; sem ânimo para, em tais espaços, levantarem igrejas, mosteiros, colégios, palacios, residências -e não apenas fábricas- como os erguidos pelos hispanos, dos quais os espanhois--excedendo-se neste ponto, aos portuguêses -chegaram a erguer ou fundar universidades em plenas áreas tropicais: desdenhosos de quanto mito norteeuropeu já circulasse então contra as possibilidades de se desenvolverem ern climas quentes as formas mais elevadas de cultura intelectual, moral e artística. Contemplando a America do Sul, tal como ela viria a apresentar-se no começo do século XX a olhos criticamente norte-europeus, James Bryce chegou a generalisar, como que investido da missão de confirmar, já no século atual, aquela descrença em possibilidades julgadas por muitos nortecuropeus tão remotas: "Climate has told for much in compelling the inhabitants of the colder regions to work hard and enabling those of the hotter to take life easily". Pelo que "the tropical states have on the whole lagged behind the temperate ones..."" (Bryce, p.431.) O que não impediria o México e Cuba, a Venezuela, o Brasil, de virem a ultrapassar a Argentina, o Chile e o Uruguai, em afirmações de vigor cultural resultante de integração de energias hispânicas em áreas ern grande parte rudemente tropicais nas suas condições de vida. Bryce hoje teria, talvez, que retificar-se a si mesmo; e reconhecer com outros anglosaxões como o angloamericano Charles Morrow Wilson no livro The Tropics, World of Tomorrow (N. Y. 1951), que dos tropicos, hoje habitados por populações mestiças cuja côr -ao contrário, da arianisação sonhada por alguns arianistas- "tend to grow darker",(Wilson, .121.) muito ha que esperar, sob vários aspectos culturais; -artísticos, médicos, intelectuais, industriais, agrarios- ainda que o esforço humano, ---em grande parte de mestiços- venha precisando de enfrentar, em áreas como as hispanotropicais, obstaculos imensos: terras ácidas, como em parte considerável do Brasil amazônico, por exemplo; doenças das chamadas tropicais, contrárias tanto ao desenvolvimento humano como ao de animais e vegetais úteis; irregularidades d'aguas. Desafios, todos êsses, á capacidade dos povos tropicais para vencerem, nos espaços por êsses ocupados, obstaculos, que sendo consequencias do clima não são imposições absolutas do mesmo clima, mas problemas de solução possível através de uma ciência e de uma técnica que se libertem das convenções norteeuropéias e considerem ecologicamente tais problemas como se apresentam em condições tropicais de vida. Talvez no desenvolvimento dessas especialisações --dessas adaptações de ciência ou técnica norteeuropéia ou angloamericana a condições tropicais de vida- o moderno povo hispanotropical que mais venha avançando em experimentos úteis aos demais povos na mesma situação ecológica e da mesma tradição cultural, seja o brasileiro de formação principalmente lusitana. O que talvez se deva a vir o português possivelmente se compensando de sua inferioridade, em relação ao espanhol, quanto a recursos de instrução acadêmicamente universitária nos tropicos-recursos que madrugaram na América Espanhola- por meio de experimentos extraacadêmicos que desde o período colonial fizeram de mosteiros como os dos Beneditinos, no Rio de Janeiro, de hortos botânicos, como o de Olinda e de engenhos como o de Muribeca --onde o erudito Morais estudou, ainda na época colonial, alterações sofridas pela língua portuguêsa no Brasil- centros de experimentação científica em tôrno de problemas peculiares aos trópicos: ao Brasil ou á America tropical. Ao desenvolvimento de formas de vida, de economia e de cultura hispânicas e cristãs em espaços tropicais. Tais os experimentos dos Beneditinos no Rio de Janeiro em tôrno de quais os tipos étnicos --os negros, os cafusos, os mulatos- mais capazes de trabalho eficiente ou de atividade inteligente no Brasil. Ou os experimentos em tôrno de plantas tropicais capazes de ser utilisadas no tratamento de doenças dominantes no Brasil, rebeldes a remédios europeus. Ou, ainda, aqueles outros em torno de alimentação de homens e animais empregados no trabalho agrário, empreendidos por fazendeiros. Ou -mais ainda- os estudos de José Bonifacio sobre minerais brasileiros: estudos extraacadêmicos realizados no Brasil que Ihe valeram, consagração acadêmica na Europa, inclusive o título de doutor que Ihe deu acesso, á cátedra na Universidade de Coimbra. Ainda ha pouco, depois de visitar Venezuela, escreveu um brasileiro ilustre que é tambem um dos homens de hoje que melhor conhecem os problemas sulamericanos; de economia, o Sr. Assis Chateaubriand (Diario de Pernambuco, 28 de Julho de 1955), ter verificado, basear-se a moderna pecuária venezuelam "em tres mananciais brasileiros, melhor utilizados ali que no Brasil, onde o português ou o brasileiro os desenvolveu demonstrando suas virtudes ecológicas: "o capim de Angola, o capim jaragui e o gado Gyr". E acrescentava em sua correspondencia de Caracas para os Diarios Associados do Brasil: "Só vendo a lavoura venezuelana em Turem se pode ter idéia de modo como as estações experimentais e o laboratorio aqui (na Venezuela) tratam aquellas gramíneas brasileiras. Tanto o jaraguá como o capim de Planta ou de Angola (êsse é aqui chamado em inglês de Pará grass) são gramíneas luxuriantes e ricas. Uma e outra são capazes de alimentar grande número de cabeças de gado por hectare". E ainda: "Depois de dezenas de anos de tentativas de formação de uma pecuaria nacional com as linhagens bovinas europeias, convenceram-se os zootecnistas venezuelanos de que sem uma percentagern de rusticidade não fôra possivel obter uma pecuaria adaptavel às condições locais", isto é, tropicais. Esses zootecnistas "foram buscar a experlência brasileira, ou seja, de um país tambem tropical, onde depois de se haver tentado tudo em matéria de pecuária, se acabou no zebú cruzado como o padrão de uma pecuária própria para a nossa terra ao invés de uma pecuária europeia ou asiática". Trata-se de uma das soluções obtidas por ciência ou técnica lusotropical através de meios característicamente lusotropicais de pesquisa ou experimentacão extraacadêmica para problema econômico comum aos trópicos; e dos quais vizinhos hispanotropicais do Brasil como os modernos venezuelanos vêem utilizando às vezes com maior esmero ou perícia do que no proprio país de origem. O ponto, entretanto, a ser fixado aquí é que, entre os portuguêses colonisadores dos trópicos, a ausência, nas áreas, quer orientais e africanas, quer americanas ocupadas, de universidades, não tem necessàriamente significado entrave ao desenvolvimento de ciências e técnicas adaptadas e á tentativa de solução de problemas tropicais peculiares a essas áreas; ou ás condições tropicais em que tem sido, obrigadas a viver instituções ou valôres europeus our boreais, importados ou trazidos pelos portuguêses para essas mesmas áreas. Ao contrário: a ausência, sob vários aspectos lamentável, de tais universidades que em áreas lusotropicais teriam sido, como nas de colonisação espanhola da América, centros de ciência ou de saber europeu nas suas formas mais ortodoxamente acadêmicas, importou, por outro lado, em favorecer, entre os portuguêses estabelecidos nos trópicos, desenvolvimento de audácias experimentais em que, de modo empirico, se considerariam problemas tropicais em toda a sua tropicalidade e se procurariam soluções extraacadêmicas e extraeuropeias para tais problemas. Audácias que viriam até aos dias já nacionais do Brasil, exprimindo-se, fora ou antes de universidades -as universidades que a America Portuguesa só viria a ter depois de já ostensivarnente adulta em sua condição nacional- em experimentos, creações e sistematisação científicas de repercussão senão, universal, americana. Mesmo sem recordar-se L'oeuvre de mineralogista de José Bonifacio de Andrada e Silva, o chamado "patriarca da independência brasileira", e a de filólogo, Morais, do Dicionario, podem ser sem favor incluidas entre trabalhos americanos coroados por aquela repercussão consagradora, a sistemática jurídica de Teixeira de Freitas, adoptada em varios pontos pela Argentina e pelo, Chile; as pésquisas de africanologista, especialisado no estudo de formas afrobrasileiras de comportamento e de cultura, de Nina Rodrigues; as investigações folclóricas de Silvio Romero; as indagações antropológicas e antropométricas de Roquette Pinto; as médicas, de Osvaldo Cruz; os experimentos aeronáuticos de Santos Dumont; os agrários de Manuel Cavalcanti em tôrno da cana de açúcar; os econômicos de "valorisação do café", os históricos de Varnhagen, Oliveira Lima, Capistrano de Abreu; as explorações do Brasil central realisadas pelo sertanista-geografo Candido Rondon. Diante do que, James Bryce, ao visitar o Brasil em 1911 -quando, já iniciados ou realisados todos êsses experimentos ou estudos brasileiros, vátios deles em tôrno de assuntos tropicais, americanos, regionais, pela primeira vez considerados como objetividade científica- se acertou, ao lamentar o fato de serem então, "learning and the abstract side of natural science undervalued in a country which has no university, nothing more than faculties for teaching the practical subjects of law, medicine, engineering and agriculture", foi um tanto leviano ao afirmar dos brasileiros terem "a quick susceptibility to ideas, like that of Frenchmen or Russians, but have not so far made any great contributions to science, philology, or history". 0 que lhe pareceu "deficiency of a taste for and interest in branches of knowledge not directly practical...(Bryce,p.418.) Ainda mais leviano, neste particular, foi o economista angloamericano, Roger Babson, no seu livro The Future of South America (Boston 1815), ao acolher de "um dos seus amigos" brasileiros a pergunta maliciosa: "There is something here in the tropics which takes the ginger out of all of us. Did you ever hear of a great inventor, artist, writer, or any other man of real note who did his work in the tropics?" No Brasil já havia toda uma legião; nos países espanhois da América tropical, outros tantos. Babson e os seus amigos os ignoravam. Mas já os trópicos hispânicos -princlpalmente o Brasil- haviam produzido ou continuavarn a produzir obras notáveis. Ao mesmo, sentido pratico de resolver problemas tropicais de economia, de arquitetura e de convivência humana peculiares ás terras onde o português decidiu radicar-se desde os seus primeiros contactos com a India -aí iniciou-se, aliás, fora da Europa, por iniciativa de Afonso de Albuquerque, a política dos casamentos mistos, ou lusotropicais- parecem ter obedecido, outras das iniciativas do português que lhe dão categoria de pioneiro entre os colonisadores europeus dos trópicos; e pioneiro cujas antecipações se apresentarn hoje, consideradas em sua justa perpectiva, como impulsos –ainda em expansão das relações da Europa, em geral, e não, apenas de Portugal, nem sómente da Europa Ibérica com os trópicos; e de umas áreas tropicais com as outras. Do tropico, americano com a Africa, por exemplo; e com o tropico asiatico. Para o desenvolvimento de tais relações muito concorreu o sistema de trabalho --o escravo- de que o português, com fundador da moderna agricultura nos trópicos, julgou essencial utilisar-se, seguindo, mais o exemplo, ou o método arabe de escravidão de regiões pessoais, patriarcais, familiais, de relações dos senhores com os cativos- que o método impessoal, característico da escravidão industrial ou da semi-escravidão praticada por europeus do Norte: o método seguido principalmente por norteeuropeu em suas empresas nos trópicos. O que não, importa em afirmar-se daquele tipo mais pessoal e menos industrial de escravidão que não, implicasse por vezes em crueldade da parte das senhoras para com os escravos, do mesmo modo que para corn espôsas e filhos. Parece, entretanto, ter o sistema pessoal de escravidão, seguido ern sociedades hispanotropicais e particularmente em lusotropicais, por sugestão, talvez, de exemplos arabes, concorrido, de modo por que não concorreu o tipo mais industrial de escravidão ou semi -escravidão --mesmo quando requintou-se em não permitir ao patrão castigar o escravo como o senhor ao filho, dentro da disciplina patriarcal- para a integração do africano nas sociedades e culturas hispano e lusotropicais, das quais o mesmo africano se tornaria, com relativa facilidade, participante, a despeito de sua condição de escravo. A escravidão de que o português se utilizou tão largamente na América, para fundar no Brasil a agricultura moderna nos trópicos, repita-se que o mundo, moderno deve uma série de vigorosos impulsos culturais que modificaram quase de repente o antigo sistema de relações entre áreas: não, só entre a Europa e o trópico, em geral -acentue-se mais uma vez- como, entre áreas tropicais. Áreas que, de outro modo, teriam se conservado menos relacionadas, como prejuizo, para as suas populações: para a alimentação, a recreação e o bem estar dessas populações. O português, empenhando em desenvolver principalmente a lavoura tropical de cana de açucar, concorreu para o devenvolvimento de lavouras então ancilares da de cana de um modo que veio beneficiar populações ou da sua própria inércia. O geografa inglês Professor R. J. Harrison Church, no seu Modern Colonization (Londres 19 5 1 ), destaca á pág. 20 ter sido com o fim de alimentar na Africa escravos a ser enviados para o Brasil, e para a alimentação desses grupos consideraveis de africanos durante a viagem da Africa para a America, que o português introduziu na Africa Ocidental vasto número de plantas novas" ("a vast number of new plants"), como --dentre "'as mais importantes" a mandioca, a batata doce, o milho, o Côco, frutas cítricas. As laranjas, provavelmente vindas diretamente de Portugal. Mais tarde -acrescente-se ao Professor Church- o cacau. Fôsse qual fôsse o motivo para a introdução de tão valiosas plantas alimentares da America tropical na Africa -introducão a que correspondeu a transplantação de vegetais da Africa e da Asia tropicais, e não apenas da Europa temperada para as terras quentes da America, como a mangueira, a jaqueira, a caneleira, a fruta-pão, côco da India- o certo é que a ação do português como modificador da ecologia vegetal da Africa, da America, da própria India --onde introduziu o cajueiro, em beneficio de populações humanas e animais e de economias e culturas, vitimas algumas delas da escassez ou penuria de alimentos, foi talvez o movimento mais consideravel no sentido da modificação -modificação dirigida- de distribuição intra-tropical de vegetais úteis ao homem. Ao mesmo tempo parece caber ao português o mérito de ter sido, com o espanhol e talvez mais que o espanhol, o europeu que pioneiramente levou dos trópicos para a Europa maior número de valôres e técnicas capazes de alterar a vida, a economia, a cultura européias, no sentido de sua tropicalização processo que vem até aos nossos dias, exprimindo-se na propria modificação do trajo europeu de verão -o moderno slack-, por exemplo. Essa modificação, realisada pioneiramente pelo português na India, valeu-lhe a crítica de inglêses para os quais a dignidade imperial dos europeus nos trópicos não devia implicar em alteração do seu trajo no sentido de sua adaptação a condições tropicais: a atitude portuguêsa no Oriente segundo reparos de viajantes europeus não-portuguêses que visitaram então aquelas areas orientais marcadas pela presença de portuguêses residentes do trópico asiatico e não transientes dele, á maneira de outros europeus. Tanto que à adaptação do trajo às condições tropicais os portugueses juntaram ali o gôsto pela construção de igrejas, mosteiros, residencias sólidas, em cuja arquitetura tambem começou a exprimir-se o desejo de combinar valôres e técnicas ibéricas com valôres e técnicas orientais ou tropicais de construção. Várias dessas combinações, simbióticamente lusotropicais realizadas como que experimentalmente na India e mesmo assim de forma às vezes monumental - o português trouxe-as para o tropico americano, onde elas, com aspecto menos pomposo, talvez, mas igualmente sólido, se tornariam parte de tôda uma sistemática de ocupação européia do trópico com objetivos de residência, de permanência, de estabilidade. A casa-grande de residencia senhorial do senhor de engenho no Brasil tropical, foi -pensamos alguns- a principal das expressões dêsse objetivo, ou desejo português de permanência no trópico americano; ou de simbiose lusotropical na América. A generalisação do Professor Church de que "although white settlers have affected the pattern of many tropical colonies, it remains true that most colonization is by association and is economic in character", não se aplica ao que vem sendo o processo português de transeuropeisação dos trópicos, e, ao mesmo tempo, de tropicalização dos europeus e dos sues descendentes; fixados nos mesmos trópicos; e também da própriapria cultura matriz portuguêsa enraizada na Europa e de culturas européias com elas mais relacionadas, através de meios de convivencia intraeuropeia. Todas essas culturas têm sido afectadas pela tropicalização de portugês nos seus gostos de vida e nos seus estilos de vida: inclusive, o gôsto pelo maior uso de roupa íntima, de algodão ou tecidos tropicais, camisas, ceroulas, etc. -que parece datar dos primeiros contactos do português com o Oriente tropical, embora o inglês pretenda ter sido o introdutor do pijama no moderno vestuário doméstico de sabor europeu. Da rede -da rede característica do trópico americano- o português parece ter sido o principal propagador na Europa e na Africa e noutras areas tropicais que a desconheciam. Note-se, aliás, que o Professor Church admite entre as exceções á sua afirmativa de vir a colonisação tropical sendo, em sua maior parte, apenas "by association" e simplesmente "economic in character", o caso, na verdade extraordinário para ter-se verificado em parte ou região já civilizada do Oriente tropical, de Goa, que destaca ser caracterisada por "considerable intermarriage" -resultado, como se sabe, de política planeada, dirigida e inaugurada por Alfonso de Albuquerque há quatro séculos- por um "esprit" no qual ainda hoje se reflete o antigo fervor missionário que animou os primeiros contactos do português tanto quanto os do espanhol com os trópicos, juntando ao "caráter económico" da colonisação dessas áreas impulsos culturais e psiquicos de outra natureza. Daí o desenvolvimento de Goa num complexo que o geografo inglês reconhece refletir os caractesísticos tanto de europeus como de orientais: "which reflects the characteristics of both peoples"(Church, p. 61.). Outro não tem sido o sentido do desenvolvimento do Brasil, complexo, hoje, de ecologia e de cultura lusotropicais, em que se juntam a contribuições e caracteristicos europeus, até agora os decisivos, os de duas fortes culturas e populações tropicais: a amerindia e a africana. Enquanto nas modernas províncias da Africa portuguêsa, o complexo lusotropical---simbiose sociocultural ou étnicocultural e não simples "associação" de puro "caráter económico"- vem se constituindo de modo a refletir característicos africanos e, em algunas áreas , também, indianos, de cultura e de composição étnica, justamente com os europeus; e todos dentro de configuração até o momento decisivamente --decisivamente e não exclusivamente européia e cristã, de cultura. Cultura, é claro, no sentido sociológico. Isto a despeito dêsse processo simbiótico vir sendo perturbado por vêzes, em áreas como Moçambique, pelo contágio de suas populações brancas com as populações intransigentemente européias das Rodesias e da Africa do Sul; e também em Angola, em sub-áreas de exceção, como a constituida pela poderosa Companhia de Diamantes, cujos líderes portuguêses parecem ser adeptos da política belga ou inglêsa de "associação" com "segregação" dentro de objetivos quase exclusivamente económicos de ocupação ou exploração dos trópicos por europeus. Embora ainda se discuta o problema biosocial de ser ou não possível a brancos permanecerem nos trópicos, como residentes depois da terceira geração, o português vem se fixando em áreas tropicais com objetivos de permanência e pondose em barmonia como os ambientes extraeuropeus ai encontrados, sem preocupar-se -a não ser por exceção: quando, procura imitar nórdicos ou sofre a pressão de nórdicos sôbre o seu comportamento a sua pureza étnica per se. Entretanto em alguns casos a ocupação lusitana das mesmas áreas tem assumido desde o século XVI caráter aristocrático, como na India e em Pernambuco, por exemplo. Mas aristocracia antes de família ou de casta familial, constituida pelo endogamia que etnica ou preocupada com a purêza absoluta de sangue europeu. Ao contrario: animada desde os seus começos de tendencias para a idealisação de casamentos mixtos, lusotropicais, sempre que representado o stock tropical por expressões de nobreza ou de equivalentes de nobrêsa européia: filhas de caciques amerindios intituladas princesas, por exemplo. Guerreiros tambern amerindios enobrecidos com títulos de "capitles"' ou "alferes". Ha quem pense, como Ilse Schividetzky, em seu estudo Grundzüge der Vökerbriologie (traduzido do alemão ao espanhol por Heriberto F. March sob o título de Etnobiologia -Bases para el estudio biológico de los pueblos y el desarrollo de las sociedades México, 1955 ), que ha limites naturais para a expansão do homem do norte da Europa, ao qual seria quase impossível a estabilização em massa nos trópicos.(P.121.) O impaludismo vária agindo como um dos impedimentos por assim dizer ecológicos a essa estabilização de determinado tipo etnogiológico de homern em espaço ou área tropical; e a favor de outros, desde que parece hoje a alguns especialistas médicos que "a pigmentação da pele "não é estranha à "resistencia a esta enfermidade", antes se mostra "diretamente relacionada" com ela. O português, em particular, como o hispano, em geral, por serem Portugal e as outras Espanhas, em parte consideravel de sua população, gente morena, penetrada de sangue judeu e principalmente mouro, viria oferecendo maior resistência ao impaludismo tropical que outros europeus desejosos de se estabelecerem em espaços tropicais; e por esse criténo se explicaria até certo ponto seu sucesso de estabilização em tais regiões. Além do que, para a resistência a doenças tropicais possivelmente correlacionadas com a pigmentação, estaría o português sendo auxiliado pelo seu gôsto pelo casamento com mulher de côr, criador de híbridos lusotropicais que já parecem constituir um tipo especificamente biocultural em sua figura seu comportamento, sua cultura. E' ainda Shividetzky que,(P.281.) no seu mesmo ensaio, Etnobiologia, destaca dos europeus do Norte não parecerem sentir repugnância -isto é, repugnancia fisica- pelas mulheres de côr: de outro não se teriam produzido populações mestiças na Africa do Sul e na Indonesia. 0 que lhes tem repugnado -ponto por mim salientado em ensaio publicado no Rio de Janeiro em sua primeira edição ern 1933- é a união legitima com tais mulheres, "o matrimonio seguido de todas as suas consequencias biológicas e, principalmente, com propósitos de convivencia permanente". Foi assim -reconhece Schividetzky-- que "os colonisadores espanhois e portugueses deram entrada em seus conjuntos étnicos a grandes massas de mestiços, admitindo-os em seu círculo de procreação: isto deu origem a formação de povos por completo novos" Não me parece perfeita a expressão "por completo novos", com enfase em "por completo", dado o fato de virem tais mestiços nas áreas tropicais de formação hispânica, em geral, e portuguêsa, em particular, conservando no fisico, no comportamento e na cultura-inclusive na dança, na música, na culinária -característicos tanto europeus como tropicais de populações e culturas maternas. O que nêles é novo é o seu modo simbiótico de juntarem tais csaractersticos como em Goa, por exemplo; ou em Salvador da Baía; ou em Belém do Pará; ou na Ilha de Moçambique; ou nas de Cabo Verde. Que nesse modo simbiótico de criar o hispano no trópico novo tão de homem -principalmente de mulher -de comportamento, de cultura, o português vem se mostrando mais intenso na expressão ou realização do mesmo processo biosocialmente simbiótico, é sugestão que decorre das minhas tentativas de reinterpreação da experiência do luso no trópico como intensificação de experiência ou da sistemática hispânica; e não como negação dessa sistemática em qualquer ponto essencial; ou diversificação dela sob aspecto decisivo. A intensificação de processo, porém, tem sido tal, da parte do português estabelecido nos tropicos, que parece autorizar-nos a particularizar o esfôrço lusitano nos mesmos trópicos e as realizações ou criações decorrentes dêle, sob uma unidade menos de formas que de objetivos -o do estabelecimento da civilização cristã nos trópicos- que falta aos esforços espanhois. Alias, em meu modo de considerar o assunto -no relêvo dado á unidade cristocêntrica do esforço português nos trópicos- já sugeriu eminente historiador mexicano especializado no estudo da colonização das Americas pelo espanhol, o Professor Silvio Zavala, que talvez ressurja remota tendência manifestada por um jesuita francês do principio do século XVIII, o Padre J. L. Lafitau, em sua Histoire des découvertes et conquêtes de Portugais dans le Noveau Monde, publicada em Paris em 1733: esquecidL'oeuvre de que foi o Professor Zavala o revelador, ao resumir as idéias do jesuita no excelente livro América en el espíritu francés del siglo xviii, aparecido no México ern 1949. Não me parece que havia semelhança sinão aparente nos dois critérios; e do própio Professor Zavala é o reparo de que Lafitau propondo-se "a tratar en conjunto de la expansión portuguesa en Asia, Africa y America, de suerte que las historias de Brasil, Etiopía, Molucas, las classifica como "morceaux detachés", segue "antecedentes portuguêses". Esses antecedentes portuguêses ---e não L'oeuvre do padre francês -terão vagamente concorrido para a idéia brasileira, esboçada no livro 0 Mundo que o Português creou, de virem as áreas tropicais de formação portuguêsa constituindo uma "federação de cultura"; e essa federação-traço que supomos, ter sido o primeiro a destacar -antes sociològicamente cristocêntrica- a ponto de o português ter se tornado conhecido de varias populações orientais como "cristão" e a lingua portuguêsa como lingua cristã -do que etnocêntrica. 0 merito do livro de Lafitau sobre o esfôrço português consiste em, como obra de jesuita numa época, como acentua o Professor Zavala, de atuação simultanea dos jesuitas nos domínios coloniais da Espanha, Portugal e França -situacão que lhes permitiu "una visión internacional por encima de los puntos de vista engendrados por las rivalidades entre las potencias europeas"-destacar nL'oeuvre de um Portugal no século XVIII já decadente, virtudes que vinham sendo esquecidas sob a glorificação quase exclusiva de conquista talvez mais dramaticas, porém não mais importantes que as suas, como a do Mexico e a do Perú, pelos espanhois. Para Lafitau -resumido velo Professor Zavala- as "conquistas espanholas -refere-se evidentemente as que se verificaram nos trópicos- erarn inferiores ás portuguesas em muitos respeitos, animadas estas por uma diversidade no caráter das pessoas e nas formas dos acontecimentos que Ihe pareciam faltar ás espanholas. 0 Professer Zavala resume as conclusões do jesuita francês do século XVIII, sobre L'oeuvre portuguêsa que o jesuita chamava o "Novo Mundo" e que para Lafitau compreendia as Indias Orientais, compreendendo na verdade, ao que parece, todos dos portuguêses. Destaca-se dessas conclusões a admiração de Lafitau por aquela atividade realizada, segundo o jesuita, com trabalhos inmensos, perigos inumeros, ações de valor surpreendente ás vezes incrível, domando e subjugando nações numerosas, humilhando os reis mais soberbos e levando a toda parte a fé de Jesus Cristo, sob o amparo dos seus descobrimentos e progressos. . ." Fervor apologético, talvez em excesso. Mas não deixa de ser significativo esse animo apologético, com relação aos portuguêses e á suL'oeuvre nos trópicos, vindo não apenas de um francês, mas de um jesuita com a "visão internacional" das atividades européias nos trópicos: "visão international" destacada pelo Professor Zavala. Em Lafitau parece ter se antecipado a moderna tendência mais para reabilitar que para exaltar tais atividades, em vez de se glorificarem apenas em nórdicos como a Conde Mauricio de Nassau a importância de suas contribuições para o desenvolvimento do Brasil em complexa civilização tropical. Civilização que alguns dos interpretes atuais de sua formacão histórica destacam ser antes sociológicamente cristocêntrica que étnicocêntrica em seu modo de ser civilização; e á qual contribuições não portuguêsas de étnica e de cultura podem continuar a enriquecer não tendem os mesmos interpretes -de maneira valiosa, sem Ihe comprometerem a unidade de formas básicas. Essa unidade de formas básicas é que vem tornando possível o desenvolvimento da hoje chamada civilização lusotropical em diferentes áreas e naqueles aspectos em que mais tem se afirmado sua originalidade. E si é certo, como pretende o angloamericano Marston Bates, ern seu Where 'Winter Never Comes -A Study of Man and Nature in the Tropics (N. Y. 1952), que a cultura latino-americana vem se apresentando mais interessante naquelas areas e naqueles aspectos em que mais tem divergido da tipica cultura ocidental ou européia -como na parte mexicana---também parece ser exato da cultura ou civilização que se possa chamar, hoje, lusotropical, que a sua virtude parece estar cada vez mais na sua capacidade de divergir da civilizacão européia ou portuguêsa, sem negá-la, contraría-la ou combatê-la, mas tornando-a mais simbiótica com as diversas culturas tropicais a que se tem juntado. 0 fato de o trópico ser sob várIos aspectos essenciais, naturais, ecológicos, senão o mesmo, quasi o mesmo, quer se trate do Oriente, da Africa ou da América, e da atitude portuguêsa diante desses varios trópicos -de sua natureza, de suas populações e de suas culturas -vir sendo quasi a mesma em seu animo confraternizante, é que explica a unidade de formas básicas característica de uma civilização dispersa em vários continentes; cercada de vizinhos diversos; contrariada por inimigos, dos chamados geopolíticos, tambem diversos. Mas sempre a mesma na sua constância de ocupar espaços tropicais não procurando submete-los étnica, social e culturalmente á Europa ou a Portugal de modo absoluto mas através de contemporizações étnicas, socias e culturais, de que veem resultando simbioses e não apenas associações de europeus com tropicais. Conclusao A experiência portuguêsa na América é parte de um complexo: a experiência portuguêsa nos trópicos. Ela vem obedecendo á tendência talvez mais acentuada no português, do que em qualquer outro povo europeu, para encontrar em terras quentes, povoadas por mulheres de côr, uma especie de área messiânica e uma espécie de mulher sexualmente ideal. A experiência portuguêsa, contudo, se assemelha á espanhola na América tropical. Os espanhois souberam nesta parte do mundo, ao contrário de outros europeus e superados apenas neste particular pelos portuguêses, assimilar populações tropicais e formas tropicais de cultura, criando, através dessa civilização, com novas formas de homem, novas formas de cultura, predominantemente espanholas, mas de modo algum exclusivamente espanholas em seus caracteristicos. 0 português na América tropical, como no Oriente, extremou-se nesssas aventuras de criação de formas de cultura mistas, com predominância do elemento europeu e cristão, apenas nos traços decisivos; e dessas aventuras é que resultaram sínteses como a de Goa e como a do Brasil, às quais se vão acrescentando novas sínteses em formacão na Africa. Essas aventuras, no sentido de sínteses étnicas e culturais a urn tempo, nem sempre se veem realizando em áreas tropicais animadas pela presença portuguêsa, como simples aventuras, quando muito intuitivas ou "instintivas". Elas veem sendo orientadas em vários casos por experimentos de caráter científico ou quase-científico, não só em relação às uniões sexuais de europeus com populações tropicais, como com relação á utilização de substâncias tropicais dentro de formas européias de agricultura, culinaria, criação de animais. Pode-se assirn falar numa sistemática lusotropical de ocupação portuguêsa de terras quentes e de confraternização portuguêsa com populações e culturas tropicais, sem sacríficio para valôres essenciais de civilização européia e de ética cristã. O valor de alguns dêsses experimentos vem sendo reconhecido por outros povos de origem européia, hoje constituídos em nações em áreas tropicais. Tanto assim que alguns dêsses povos veem recorrendo a exemplos brasileiros --ou lusotropicais- para a consolidação, nessas outras áreas, de emprêsas agrárias, estabelecimentos industriais e de pecuária, em larga escala e tambem de tipos de habitação ou de arquitetura correspondentes ao mesmo tempo a exigências de civilização européia e de condições tropicais de clima e vegetação. 0 mesmo é certo quanto, a alguns experimentos brasileiros ou lusotropicais no sentido, de sínteses de alimentação, vestuario, farmacopéia, dormida (a estilização da rede em moveis funcionais modernos), jardinagem-paisagistica, etc. Gilberto FREYRE. (Recife). Source: FREYRE, Gilberto. A EXPERIENCIA portuguesa no trópico americano. México: Editorial Cultura, 1957. 29p. |