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Aspectos Gerais de um Processo Conferência proferida no Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro a 10 de junho de 1962, a convite da Federação das Associações Portuguesas do Brasil Foi com emoção que entrei hoje, pela mão dos ilustres directores da Federação das Associações Portuguesas do Brasil, nesta casa já histórica. Com emoção acabo de ouvir as palavras de Leonardo Jorge Pessoa Lopes tão animadas de inteligência quanto impregnadas de sensibilidade ao momento, também histórico, que vivemos, portugueses e brasileiros. Com emoção ocupo, agora, e igualmente sob a impressão de momento tão dramático, esta tribuna abrilhantada, no decorrer já de longos anos, pela eloquência de alguns dos maiores homens públicos e pelo saber de alguns dos maiores homens de letras de Portugal e do Brasil. Constato a presença, nesta solenidade, no meio de tantos portugueses e de tantos brasileiros que não sabem separar os destinos do Brasil dos de Portugal, de destacados representantes da cultura brasileira e da inteligência portuguesa, alguns deles líderes dos mais altos da diplomacia, da política, da administração, do magistério, do jornalismo, das ciências, das letras, das artes, nos dois países. Meus agradecimentos a quantos, pela sua presença, participam este ano, no Rio de Janeiro, da comemoração do Dia de Camões, vindo ouvir a palavra de quem, adepto da "vária cor" camoneana, tanto se opõe à mística da "negritude" como ao mito da "bronquitude": dois extremos sectários que encontrariam a já brasileiríssima prática da democracia racial através da mestiçagem: uma prática que nos impõe deveres de particular solidariedade com outros povos mestiços. Sobretudo com os do Oriente e os da Áfricas Portuguesas. Principalmente com os das Áfricas negras e mestiças marcadas pela presença lusitana. É, porém, uma voz como a minha que deve ser ouvida pelos brasileiros e pelos portugueses que hoje aqui se reúnem para a comemoração de mais um 10 de junho? É uma palavra como a minha que, num dia como o de hoje, deve ser escutada, em ano tão inquieto como o de 1962, pelos brasileiros que mais fraternalmente se preocupam com Portugal e pelos portugueses que, residentes no Brasil ou em Portugal, nas Áfricas ou no Oriente, já sentem hoje doer-lhe Portugal tanto quanto a Espanha, sangrando das terras arrancadas ao seu domínio ainda materno por um poder em rápida ascensão imperial, doía a espanhóis do fim do século XIX. Tenho dúvidas. A voz reclamada pelas circunstâncias excepcionais em que vivemos, brasileiros e portugueses, talvez seja, como em nenhum outro ano, a de um orador eloquente. Eloquente, profético, apocalítico. A palavra exigida pelo momento talvez seja, como em nenhum outro 10 de junho, a de um brasileiro que ao sentimento lusitano juntasse aquela eloquência em que o verbo se faz, em vez de carne, com no Novo Testamento, fogo, como no Velho. Não vos trago eloquência nem retórica. Nem a minha voz é a dos oradores que exaltando veementemente as glórias e salientando brilhantemente as virtudes de um povo, procuram deixar na sombra os por si mesmos já sombrios e ásperos problemas desse povo. Venho-vos falar de problemas. Examinar dois ou três deles com franqueza. Considerá-los criticamente em alguns de seus aspectos. Talvez nessas críticas cometer inconveniências. Mas tal é o meu amor a Portugal, tão igual ao meu amor ao Brasil, tão desinteressado de recompensas, tão desdenhoso de condecorações, tão indiferente a agradecimentos oficiais ou consagrações académicas, que me dá talvez o direito, além de me impor o dever, de dizer a portugueses, numa solenidade como esta, inconveniências iguais às que tenho dito em circunstâncias semelhantes a brasileiros. Dos brasileiros não preciso hoje nem precisarei nunca que me agradecessem com ministérios, com embaixadas, com medalhas oficiais, com prémios académicos, os possíveis serviços que se venho prestando ao Brasil é pelo puro facto de ser um escritor independente, nunca um literato acomodado a instituições ou a empresas; ou um intelectual subserviente a ricos ou a políticos, a partidos ou a seitas ideológicas. Nunca um escritor que, ao aceitar convites de governos ou de instituições, se possa murmurar dele que é dos que transigem com governos e instituições mediante agrados de qualquer espécie. Daí o facto de, pouco depois de ter visitado as províncias portuguesas do Oriente e da África, a convite do governo português, haver recebido convite semelhante da União Soviética; e mais recentemente, convite da República Popular da China para visitar suas terras e conhecer suas gentes. Ao sentimento lusitano nunca, em tempo algum deixei de juntar o ânimo honestamente crítico em face do comportamento mais caracteristicamente português. Português e brasileiro. Somos - sou dos que mais o proclamam - sociològicamente uma só realidade: portugueses e brasileiros. Venho insistindo há anos neste ponto. Quem em termos sociológicos toca no Brasil, toca em Portugal; quem nos mesmos termos, toca no que é português, toca no que é brasileiro. Ferida portuguesa é dor brasileira. São, há mais de um século, o Brasil e Portugal, dois Estados, é certo. São hoje dois regimens políticos antagônicos, é verdade. São agora duas nações separadas - demasiadamente separadas - é facto. Os caminhos políticos de uma não são actualmente os da outra. Nem os caminhos nem os desígnios; nem os métodos de acção nem a sistemática de convivência especificamente política. Não cabe, assim, ao brasileiro ser, em Portugal, isto ou aquilo em termos especificamente políticos e especificamente nacionais. Ser isto ou ser aquilo, nesses termos, e agir em função de tais convicções, é exclusividade portuguesa. Até lá não se compreende que chegue a solidariedade que nos prenda a portugueses. Nem se compreenderia que portugueses, enquanto nacional e politicamente portugueses e só portugueses, agissem no Brasil, tornando-se isto ou aquilo em política especificamente nacional, e por conseguinte, peculiar aos brasileiros. O comportamento de portugueses só portugueses que aqui agissem, nesse plano, como se fossem brasileiros, se tornaria, no actual estado de relações políticas entre os dois Estados, o de intrusos. Da minha parte, durante anos já longos de íntimo contacto com Portugal, tenho evitado sempre ser intruso na sua política especificamente portuguesa, por aí se explicando ter tantos amigos entre gente das oposições como entre gente do governo. Os que me agridem em Portugal, agridem-me no mesmo tom dos que me agridem no Brasil e me agridem por vezes - nem sempre - em Moscou, em Paris, nos Estados Unidos. São os que não se conformam com uma interpretação do passado social do Brasil e das constantes do comportamento ibérico, em geral, e português, em particular, em terras quentes, e com uma análise de problemas da actualidade não só brasileira como do mundo euro-tropical, que deixe em crua evidência mistificações sòmente úteis aos ismos especializados em fabricá-las e em propagá-las, tantas vezes servindo-se para essa propagação da mais lamentável espécie de inocentes. Inocentes portugueses e inocentes brasileiros, inocentes americanos dos Estados Unidos e inocentes americanos da América Latina, inocentes franceses e inocentes ingleses. A solidariedade que prende os brasileiros aos portugueses, fazendo que grande parte dos problemas portugueses sejam preocupações brasileiras, não é política no sentido restrito da palavra: é de outra espécie. Vai a outra profundidade. Desce a raízes. Projecta-se apoliticamente sobre o futuro. Ela decorre do facto de constituirmos um conjunto sociocultural que se caracteriza por tradições, tendências e desígnios comuns a Portugal e aos grupos de descendentes e continuadores de portugueses mais ou menos profundamente integrados em ambientes tropicais, o Brasil sendo hoje o maior, o mais importante, o mais expressivo desses grupos de origem e formação lusitanas. Dai poderem tais grupos, em termos sociológicos, ser considerados uma comunidade. Comunidade luso-brasileira, dizem uns, parecendo não admitir nessa comunidade senão duas presenças nacionais: a de Portugal e a do Brasil. Comunidade lusotropical, venho há anos sugerindo que se diga, admitindo que as presenças nacionais passem das duas que são hoje às três ou às quatro que possam vir a ser, brasileiramente, fraternalmente, josebonifàciamente, amanhã. Mas considerando sempre que essas presenças, condicionadas de modo decisivo pela sua condição de exprimirem senão em todos os casos, simbioses, interpenetrações, mais ou menos completas - simbioses e interpenetrações lusotropicais mais ou menos profundas - correspondem a uma situação generalizada que sociològicamente deixe caracterizar por sua lusotropicalidade: uma situação que, da realidade socioecológica hoje característica da América, da África e do Oriente tropicais colonizadas por portugueses, ou, principalmente, por portugueses, se admitisse vir-se reflectindo de tal modo sobre o Portugal europeu que o Portugal europeu, pelo reflexo de suas cada dia mais vigorosas ex-colónias sobre sua talvez já sociològicamente extinta ou talvez já concluída missão de metrópole de feitio clássico ou de estilo convencional, passasse a ser considerado membro sociològicamente tropicalizado daquele conjunto. Porque Portugal sem deixar de ser europeu é, cada dia mais, na Europa, pela população e pela cultura, uma expressão do trópico por ele civilizado e cristianizado; mas que por sua vez o revitalizou e até o recriou com seus sangues e com suas culturas: com suas culturas mais intuitivas do que racionalistas. Atente-se de início no seguinte: não considero aqui a matéria em termos políticos e sim em termos sociológicos. É ponto que insisto em deixar claro. Em termos políticos é possível dar-se outra interpretação à actualidade de relações entre os mesmos sociológicos do conjunto também sociológico que se denomine lusotropical. Admito que se possa oferecer de tais relações essa outra interpretação, em plano puramente político. Repito, porém, não ser o aspecto político da matéria o que procuro aqui, e o que venho procurando em vários trabalhos, considerar; e sim o sociológico ou o socioecológico. Sim o antropossocial ou o sociocultural. Sim o que corresponde a relações de grupos e de culturas com espaços: relações caracterizadas pelo seu sentido mais profundamente humano, existencial, social, separado quanto possível do formalmente e transitòriamente político. Considerando-se o assunto destes pontos de vista, que traço principalmente caracteriza o que há de comum às sociedades e culturas que se vêm desenvolvendo dentro de normas inicialmente portuguesas em áreas tropicais e que dão a essas sociedades e a essas culturas condições de membros de uma só comunidade ou de um só tipo de civilização? Não creio haver dúvida sobre este ponto: é a tendência para a miscegenação, no plano biológico, com a língua portuguesa tornando-se cada dia mais a língua de povos de várias cores e enriquecendo-se de indianismos, africanismos, orientalismos, brasileirismos, tropicalismos que também lhe dão, camoneanamente, várias cores, além de vários ritmos. Tendência, note-se bem; admitindo-se, por conseguinte, desvios e deficiências que a perturbem como política social que se considerasse sempre e sistemàticamente seguida naquelas áreas e entre aquelas sociedades bi- ou pluri-raciais nas suas origens. Que a perturbem até de modo ostensivo como sucede dentro dessa monstruosidade anti-portuguesa e anti-brasileira que é na Angola actual e no que diz respeito a relações entre brancos e pretos, a terra dominada pela sob outros aspectos admirável Companhia dos Diamantes; e onde os métodos de coexistência de europeus com não-europeus, longe de ser os portugueses desenvolvidos pelo Brasil, são os belgas que resultaram no Congo Belga. É também a tendência para a interpenetração de culturas, a europeia e as não-europeias, com a europeia preponderando, por conveniência comum a europeus e não europeus, sobre as não-europeias, sem que essa preponderância venha implicando em opressão sistemática das culturas não-europeias pela europeia: ou - a não ser em casos excepcionais de perversão ou negação da tendência - em exclusivo ou, quase exclusivo, domínio da cultura europeia como cultura, imperialmente civilizadora sob a qual as não-europeias devessem desaparecer por absolutamente inferiores à imperial. Conheço de perto várias áreas africanas e outras tantas asianas onde se vêm verificando contactos de europeus com não-europeus nos trópicos. Vi até onde chegam os extremos de ódio entre homens de cor diferente. Os extremos de miséria de uns e de esplendor de outros. Meninos, eu vi. Adultos, eu vi. Velhos, eu vi. Vi até morrer-se de fome nas ruas de Bombaim. Vi brancos em hotéis de luxo do Joahnesburgo dos quais me disseram ser brancos que não ousavam sair - nem ousam hoje - do centro da sua cidade por temor aos negros que os cercam. Brancos sociològicamente ilhéus cercados por todos os lados de ondas do negros enfurecidos. Enquanto na ilha lusotropical de São Vicente vi todo um Palácio do Governo sem um só soldado branco ou um só militar europeu a guardá-lo. Desguarnecido. Desprotegido. Entregue à população docemente mestiça da ilha por excelência lusotropical que é São Vicente. Conheço algumas das áreas americanas em que contactos do mesmo tipo - isto é, de europeus com não-europeus - vêm ocorrendo de vários modos desde o século XVI. Vi o Peru: onde esse contacto produziu a admirável pintura cusquenha, produziu o Inca Garcilazo, produziu o mulato agora Santo da Igreja Martin Porres. Mas onde também há toda uma população ainda indígena tratada de resto pela europeia e em crescente revolta contra Lima. Vi o Paraguai: o bravo Paraguai hispanoguarani, vítima, no seu passado, de tanto governo estèrilmente ditatorial. Conheço as Antilhas: um pouco das que foram inglesas e um tanto das que foram espanholas. Sei o que sofrem índios e cholos no Equador e na Bolivia. O que sofriam camponeses em Cuba de usineiros inumanos, alguns deles anglo-saxões, alvos barões de um açúcar também alvo produzido com tanto sofrimento pelos mestiços e pelos negros daquela ilha, outrora infeliz por essa espécie de exploração da sua gente mais humilde, agora infeliz pela ameaça de tornar-se colónia do império russo-soviético; ameaçada, portanto, de sofrer novas formas de exploração e de opressão. Sei, também, o que sofrem os negros e negroides mais segregados do Sul dos Estados Unidos: o sofrimento dos desprezados por serem não só pretos como mestiços de "vária cor". Não me parece que a caracterização que há anos sugiro, das áreas marcadas pela presença portuguesa - as áreas de uma população em grande parte de "vária cor" - possa ser aplicada, com igual generalidade e igual vigor às situações emicoculturais apresentadas por outras áreas onde se vêm verificando contactos de europeus com não-europeus. Não se aplica decerto às áreas marcadas pela colonização anglo-saxónica - tão cruamente desdenhosa, até há pouco, das populações de cor; nem às áreas de colonização holandesa; nem às de colonização inglesa; nem às de colonização belga; nem mesmo, considerando-se a amplitude do ânimo melanistamente democrático dos portugueses, a todas as áreas de colonização espanhola, embora de várias dessas áreas - da venezuelana, da paraguaia e da cubana, por exempto - se possa afirmar que se apresentam, na América tropical, iguais a área brasileira, quer nos aspectos biológicos, quer em alguns dos sociológicos, do seu desenvolvimento em áreas de populações em grande parte mestiças e de culturas em grande parte mistas e até simbióticas. Sendo assim, como se admitir como justa a campanha que se vem fazendo nos últimos dois anos, metòdicamente, tècnicamente, dispendiosamente, contra Portugal, em livros, em jornais e em revistas de vários países - até em revistas como a excelente The New Leader, de Nova Iorque - e com repercussão no próprio Brasil, sob a alegação de que as chamadas províncias de Portugal no Oriente e na África são colónias do mesmo tipo das até há pouco colónias inglesas, holandesas, francesas, belgas; ou das que restam a esses poderes europeus, hoje impérios em dissolução, no Oriente, na África e na própria América? Como dizer-se que nessas províncias se humilham populações de cor e se conservam suas culturas à parte ou à distância, das europeias, com o mesmo rigor sistemático com que ingleses, holandeses, belgas e mesmo franceses vinham praticando nos trópicos sua política como que profilática de minorias europeias intransigentemente "superiores", em suas atitudes e em seu procedimento, a maiorias de gentes de cor consideradas "inferiores"? Ou separando, em escolas, negros e mestiços de negros, de brancos, segundo práticas também em vigor não só em alguns dos Estados do Sul dos Estados Unidos como até na União Soviética, onde os jovens de cor são internados na chamada Universidade da Amizade destinada só, ou quase só, a esses estrangeiros de "vária cor" ? Pode-se criticar nos modernos portugueses, nas suas relações de europeus com não-europeus, na África e no Timor, não só a imitação, por vezes, da parte de alguns dos administradores menos genuinamente portugueses, de subprovíncias e de empresas, de exemplos belgas e ingleses, como a demasiada lentidão dos seus métodos de elevação - se é que os podemos chamar sempre de elevação - dos nativos, à condição de civilizados. Em 1950 - observa em livro recente um crítico extremamente severo desses métodos, o inglês Basil Davidson, a quem devo aliás generosas citações de trabalho meu - apenas menos de um em cada grupo de cem nativos da Angola se achava, por cálculo estatístico, na condição chamada de "assimilado". Grande, portanto, era, ainda há doze anos, e deve continuar a ser hoje, o número de africanos, na Angola, integrados em tribos; ou destribalizados sem se terem elevado à condição chamada até há pouco, ao meu ver ineptamente, de "assimilados", essencial à cidadania portuguesa. Não nos espantemos, porém, demasiadamente, os brasileiros, com essa situação que sou o primeiro a lamentar vir-se prolongando nas África portuguesas além de limites razoáveis. Não nos espantemos demasiado porque também entre nós, brasileiros, um número não de todo desprezível de indígenas se conservam em tribos com as quais os contactos dos chamados civilizados se vêm processando de modo quase sempre desvantajoso para a saúde física e para a saúde moral desses primitivos. Sem que se venha desenvolvendo e aperfeiçoando neste particular L'oeuvre de assistência aos indígenas iniciada, já na República, pelo grande Rondon, como organizador de um Serviço Nacional de Protecção aos índios que teve por algum tempo, a seu serviço, um antropólogo-sociólogo do porte de Roquette Pinto. Por outro lado, sabemos ser também considerável, entre nós, o número de brasileiros que não vêm sendo preparados para a cidadania: para o status de cidadão do qual tantos se conservam ainda distantes ou à margem. Pois que são muitos dos caboclos brasileiros sendo descendentes de ameríndios, puros ou mestiços, em prolongada situação de destribalização? Que são, senão destribalizados em estado ainda um tanto cru, muitos dos cabras brasileiros descendentes de pretos africanos? Que direito, então, nos cabe, a nós que ainda temos a Amazónia, o Mato Grosso, o Nordeste, de atirar pedras aos portugueses pelas suas na verdade lamentáveis deficiências, neste particular, entre populações angolanas, grande parte das quais conservam-se ainda incapazes de cumprir deveres e de desfrutar direitos de cidadãos de uma república politicamente moderna? Do que, porém, não se apercebem certos estrangeiros que criticam hoje, com excesso de melindres democráticos, os portugueses, com relação à África, e poderiam criticar, com igual ânimo, os brasileiros, com relação a numerosos rústicos que são sociològicamente brasileiros sem o serem também civicamente, é que entre os angolanos ainda aquém da condição de cidadãos, são numerosos os indivíduos já integrados no status, ou aproximados do status sociológico, de portugueses. O que se deve - como venho procurando sugerir em, vários dos meus trabalhos - ao, sistema patriarcal que tendo sido o principal factor da formação brasileira, também concorreu em Angola e em Moçambique para o desenvolvimento social de várias de suas populações tribais, étnica e culturalmente heterogéneas, em sociedades pré-nacionais e até quase nacionais; para o desenvolvimento de destribalizados em lusotropicais sociològicamente intitulados "portugueses". Portugueses tão sòmente. A verdade, de que não se apercebem certos observadores estrangeiros mais superficiais, é que entre portugueses e entre brasileiros, quem diz português e quem diz brasileiro, referindo-se a indivíduo ainda rústico vindo de cultura primitiva para a civilizadora e dominante, diz na realidade português ou brasileiro: mesmo quando esse indivíduo, por não saber ler nem escrever, não se acha ainda integrado no status, às vezes puramente decorativo, de cidadão. É o caso do caboclo brasileiro. Tem sido também o caso, no Brasil, do negro, filho de escravo e afilhado e, posteriormente, compadre, de branco: branco em cuja família tantas vezes se processou, através do sistema patriarcal de convivência, o abrasileiramento ou o aportuguesamento, dentro da cristianização, do negro ainda criança e até do já adulto. Processo quase sempre lento. Contou-me certa vez Octávio Mangabeira que, em suas excursões cívicas pelo interior da Baía, ainda encontrou caboclos que lhe perguntavam como ia o Imperador Pedro II. Eram gente civicamente fora de portas e politicamente fora de época, embora sociològicamente já, há anos, brasileira. Abrasileirada lentamente por estilos patriarcais de convivência. Compreendeu-o, lendo, talvez, estudos brasileiros em que o carácter predominantemente patriarcal, dos métodos portugueses, quando castiços, de colonização, vem sendo destacado nos seus aspectos positivos e à base do estudo e da análise de factos sociològicamente expressivos, lúcido observador europeu - Herwig Weber - que há pouco visitou a Angola e Moçambique com olhos mais atentos à realidade do que os dos jornalistas do tipo infelizmente mais comum. Encontrou ele significativo exemplo do carácter das relações de ordinário dominantes entre europeus e não-europeus em Moçambique - como outrora no Brasil - em "l'attitude d'un noir employé dans une firme et qui parlant de la famille blanche pour laquelle il travaillait, s'exprimait toujours et de la façon la plus naturelle à la première personne du pluriel". Registrou-o em artigo na Frankfurter Allgemeisse Zeitung, de 8 de Fevereiro de 1962, que vem repercutindo na imprensa europeia mais idônea de língua francesa. Não são poucos os africanos, em processo de destribalização, que na Angola tanto quanto em Moçambique vêm passando da situação perigosa de destribalizados à de membros de um para eles novo sistema de convivência, através da sua condição de afilhados de famílias portuguesas ainda patriarcalmente organizadas. O prolongamento, por conseguinte, do mesmo sistema patriarcal de integração de nativos em uma cultura sociològicamente cristã, - admito que sistema crescentemente arcaico, a exigir sua substituição por formas sindicais de organização capazes de realizar a desejada integração de "nativos" em africanos modernos - que permitiu ao Brasil fazer de tantos ameríndios arrancados às matas e de tantos negros vindos, como escravos, das Áfricas, brasileiríssimos brasileiros criados na convivência familial dos seus senhores, mais padrinhos, em vários casos, do que senhores desses filhos sociológicos. É certo que numerosas vezes essa integração de carácter familial, patriarcal, sociològicamente cristão, se fez, no Brasil, e se vem fazendo em várias partes - não em todas, admito - da África Portuguesa, por meio de castigos físicos impostos aos recém-vindos de culturas primitivas, para melhor consolidação do seu aprendizado de uma nova cultura. Mas lembremo-nos de que nos sistemas ortodoxamente patriarcais tais castigos físicos se estendiam - e até certo ponto ainda se estendem - no Brasil e em Portugal, aos filhos, sendo raro o brasileiro ou o português de formação castiçamente patriarcal que tenha crescido sem ter experimentado a acção da palmatória ou da vara ou da chibata disciplinadora empunhada por pai ou por mãe. Os cidadãos dos Estados Unidos, ao contrário dos súbditos de Sua Majestade Britânica, desconhecem esse gênero de disciplina familial e pedagógica e escandalizam-se com o facto de haver ainda povos com pretensões a civilizados que o praticam, com relação, quer a filhos biológicos, quer a filhos sociológicos. A verdade, porém, é que talvez faça falta à sob tantos aspectos exemplar civilização dos Estados Unidos um pouco de rigor disciplinar nos modos por que os pais tratam os filhos e, nas escolas primárias, os mestres os alunos. Daí, talvez, tantos americanos dos Estados Unidos se tornarem adultos psicossocialmente instáveis, desajustados e até transviados. O excesso oposto vem, é certo, prevalecendo, de modo às vezes lastimável, em áreas como a Angola, como Portugal, como a Espanha. Mas, em períodos de transição como o que o mundo atravessa em várias regiões, compreendem-se que se prolonguem certos arcaísmos até que possam ser vantajosamente substituídos por novos estilos de convivência; e não por aventurosas modernices. Certa vez fui recebido com a melhor das hospitalidades pelo já velho patriarca de uma pequena fazenda do interior da Angola que me informou, dando sinais de estar profundamente triste, ter a mão direita um tanto intumescida: precisara na manhã daquele dia, disciplinar um jovem servo africano seu afilhado. Disse-me o nome do jovem algum António ou Manuel - pois o português ou o descendente ou continuador de português patriarcal, na África ou no Oriente, não trata nunca um nativo, simples e impessoalmente, como boy, à maneira dos ingleses e de outros europeus; e sim, afectuosamente, cristãmente, pelo nome de cada um. Imaginei o assombro de um dos meus colegas de universidade dos Estados Unidos - o professor Melville Herskovits, africanologista ilustre, por exemplo - em face de uma confissão daquela espécie: a de um português branco da Angola que não hesitava em informar a um estranho ter castigado com vigorosos golpes um dos seus jovens servos africanos. Eu, porém, lembrei-me imediatamente dos meus dias de menino: dos castigos físicos que eu próprio recebera de um pai patriarcal às vezes severo com os filhos; dos castigos que vi serem aplicados pelos mais velhos da casa ao jovem Severino, preto afilhado de minha Mãe e companheiro de brinquedos do meu irmão mais velho. Patriarcalismo. Familismo. Educação de filhos e de afilhados por um método - o patriarcal cristão, português e até há pouco, brasileiro - difícil de ser compreendido por aqueles liberais dos Estados Unidos mais impregnados de modernices pedagógicas ninguém sabe ao certo hoje se de facto psicológica e sociològicamente tão válidas como pareceram nos seus primeiros tempos: antes do aumento de 1000 por 100 de delinquência juvenil nos países mais atingidos por tais modernices como os mesmos Estados Unidos da América. Não nos esqueçamos de que a modernice difere da modernidade em ser quase sempre precária em seu modo radical de ser nova. Donde vermos às vezes a gente mais jovem reagir contra as modernices da simplesmente jovem, porém dominante, recorrendo, para sua revolta de jovens mal saídos da adolescência contra os pais, ao que lhe parece a sabedoria de antepassados tidos pela geração simplesmente jovem, isto é, a dos pais, por arcaica; e reabilitada, em mais de um caso, pelos mais jovens, desencantados com as modernices que lhes foram impostas como messiânicas pelos simplesmente jovens, isto é, pelos pais. Não estou a justificar arcaísmos. Apenas a repelir a substituição radical de quanto seja uso antigo pela pura modernice, várias vezes, quando imposta de repente a uma população de ritmo lento de vida, perniciosa a essa população e ao seu desenvolvimento. Não estou a fazer a apologia de qualquer arcaísmo - no caso o arcaísmo patriarcal. De modo algum. Os arcaísmos devem ser sepultados. Apenas estou sugerindo que nem toda a sabedoria dos velhos se torna desprezìvelmente arcaica sob as modernices às vezes precárias inventadas ou adoptadas por seus filhos; e contra as quais os netos tantas vezes se levantam, rectificando-as e retomando, das lições vindas dos avós, sugestões das que constituem aquele "passado utilizável" já identificado por um pragmatista não só moderno como ianque como essencial ao desenvolvimento de qualquer nação. O professor Horkcheimer, que é um dos sociólogos europeus mais ilustres do nosso tempo, com estudos especializados sobre a Sociologia da Família, é de opinião - conversou ele comigo, em Paris, toda uma tarde, sobre o assunto - que tende a ser psicossocialmente desajustado o indivíduo a cuja formação falte a presença de pais disciplinadores; ou que temam, ser rigorosamente disciplinadores dos seus filhos pelo pavor de parecerem pais autoritàriamente patriarcais. E ninguém ignora que em alguns dos modernos países intitulados democráticos essa espécie de temor faz numerosos pais se comportarem quase como covardes diante dos filhos mais anárquicos e mais rebeldes: covardia que se estende a numerosos mestres em relação com alunos de estudos primários e secundários. Daí vários desses adolescentes chegarem aos cursos superiores sem terem experimentado qualquer espécie de disciplina em sua formação, vários deles só adquirindo consciência de necessitarem de alguma ordenação no seu procedimento, de seus instrutores de serviço militar; ou paradoxalmente - de chefes Comunistas, quando se subordinam, a tais chefes - duros, autoritários e exigentes - nas actividades de partidarismo político a que alguns jovens se vêm entregando, ultimamente, no Brasil, quase sempre só por algum tempo, durante os estudos universitários. Donde, paradoxalmente, poder concluir-se que os Comunistas, com sua disciplina imitada da dos Jesuítas - hoje imitadores, vários deles, ninguém sabe ao certo de quem - estão concorrendo, até certo ponto, para disciplinar jovens brasileiros abandonados aos próprios caprichos por pais comodistas, por pedagogos comercializados e até por padres desorientados. Aos métodos patriarcais de integração de gentes primitivas em sistemas de convivência sociològicamente cristã deve-se atribuir, em grande parte, o facto de terem os portugueses, juntando ao autoritarismo necessário ao sistema patriarcal de família a transbordante democracia da miscegenação, lançado as bases de uma nação do porte, da importância e da extensão da brasileira - talvez a maior, a mais autêntica, a mais completa das democracias raciais que o mundo já viu; e de virem lançando as bases de possíveis nações lusotropicais que poderão, em futuro próximo, tomar rumos semelhantes aos do moderno Brasil. No momento difícil que Portugal atravessa tanto na Europa como na África - tendo já sofrido brutal ultraje em Goa: uma Goa arrancada violentamente, pelo semimperialismo indiano, ao domínio político de Lisboa mas não desprendida ao sistema lusotropical de civilização cumpre aos brasileiros, sobretudo aos brasileiros mais jovens, pensarem em Portugal e nas Áfricas acima do que Portugal e as actuais relações políticas das Áfricas Portuguesas com Lisboa signifiquem como expressões de um regime ou de uma sistemática apenas política. É sistemática que repugna - ninguém o ignora - ao idealismo democrático de numerosos brasileiros; de muitos dos intelectuais do Brasil; de grande parte da mocidade brasileira. Mas esse repúdio, precisamos cuidar que não nos leve ao extremo de tornar-nos uma multidão de inocentes, úteis a qualquer dos imperialismos que hoje pretendem substituir, na África, os antigos; e na Europa ibérica, os regimes há anos em vigor, por ditadores "made in Moscow". O imperialismo russo-soviético é o mais avassalador de todos os novos imperialismos que operam na África. O imperialismo - ou, admita-se: contra-imperialismo dos Estados Unidos, o seu maior rival. O imperialismo chinês é outro rival poderoso do da União Soviética na África. O semi-imperialismo indiano, ainda outro, embora de menores possibilidades. Enquanto a União Sul-Africana sonha em se opor a todos esses imperialismos, tornando-se ela própria um império de dominadores brancos sobre populações mestiças e negras; e anexando a esse império, junto com as Rodésias, Angola e Moçambique. Uma Angola e um Moçambique de brancos, de negros e de mestiços; e quase todos - brancos, negros civilizados, mestiços - de olhos voltados para o Brasil e de ouvidos abertos não só à música como à voz dos brasileiros. Dizia-me há dois anos, de regresso de rápida viagem às Áfricas Portuguesas, um professor estrangeiro - homem extremamente liberal em suas idéias políticas e que, por isso mesmo, enxerga "reaccionários" ou "conservadores" em todos aqueles que não sejam de todo da sua ideologia - não ter surpreendido tendências à democracia racial nem na Angola nem em Moçambique. Tendências que se exprimissem em numerosos e actuantes mestiços. Parece que seu contacto com as populações dessas duas terras foi demasiadamente turístico e demasiadamente simplista: o dos que na África - mesmo na Portuguesa só enxergam brancos e pretos. Só os extremos. Do contrário teria numa e noutra terra - sobretudo em Angola encontrado, como tantos têm encontrado, numerosos intermediários: pardos, alaranjados, morenos-escuros de várias nuances. Gentes de "vária cor". Mestiços. Mestiços mais numerosos na realidade do que nas estatísticas. Mestiços, alguns deles, em franca ascensão social. Não tão numerosos, é certo, como no Norte do Brasil e em Cabo Verde. O ritmo de miscegenação tem sido infelizmente mais lento naquelas terras do que no Brasil e nas ilhas do Cabo Verde. Mas constituem já, os mestiços, um elemento considerável, pela sua actuação social e cultural, na população de Moçambique e sobretudo na de Angola. Avantajam-se em ascensão social e intelectual aos negros puros dos quais, com efeito, as administrações portuguesas não têm cuidado, corno deviam vir cuidando, nem na Angola nem em Moçambique, em elevar a cursos universitários e superiormente técnicos que os preparassem para posições de liderança e responsabilidades de chefia - política, industrial, agrária - nas duas Áfricas. Mas esta é também, em ponto menor, é certo, uma deficiência do Brasil com relação a elementos mais rústicos ou mais arcaicos da sua população de "vária cor", nem toda ela - quem o ignora? - inteiramente nacional: em parte, ainda subnacional. Que o diga o ainda quase pária do hoje tão em voga Nordeste. A África Portuguesa tem 300.000 brancos em Angola, 200.000 em Moçambique, aos quais se juntam, nessas duas áreas, mais de 300.000 mestiços e 19.000 asianos, muitos deles portuguesíssimos goeses. Quase um milhão de brancos e mestiços aos quais devem ser acrescentados, nas mesmas duas áreas, os não poucos negros já sociològicamente portugueses; e noutras áreas do continente africano, os brancos, os mestiços, os assimilados da Guiné; e também os muitos madeirenses estabelecidos na África do Sul; os portugueses residentes nos Congos; os caboverdeanos numerosos - quase todos mestiços - que vivem no Senegal. Mais, como base de população nacional, do que a base de população nacional predominantemente negra, de várias das novas repúblicas africanas. É assim sua população de mestiços, de brancos sociològicamente mestiços e de negros sociològicamente portugueses, uma das maiores de toda a África, na qual existem, segundo os cálculos mais actualizados, para cima de 3.000.000 de mestiços, sem contarmos 60.000.000 de árabes e 1.000.000 de asianos; gentes também de cor, entre as quais são muitos os mestiços. Poucos, é certo, em termos apenas quantitativos, as gentes de "vária cor" e com sangue europeu e asiano, para os 170.000.000 de negros de várias étnias - entre os quais, aliás, os fulas e outros impuros - e de contraditórias culturas, espalhados pela pouco povoada África. Porém consideráveis - mais de quarta parte do total da população do chamado continente negro - dado o facto de virem sendo elementos mais socialmente dinâmicos, do ponto de vista da modernização da África em nações, que muitas das populações negras em estado apenas e estàticamente tribal; e de ordinário indiferentes, por sua condição tribal, a aspirações ou a interesses pròpriamente nacionais, que são aspirações e interesses encarnados quase sempre por negros destribalizados e arabizados; e por mestiços e por brancos sociològicamente mestiços já integrados nos trópicos, embora alguns deles, europeus em grande parte da sua formação intelectual, com os quais rivalizam, aliás, vários negros intelectualmente europeizados, como os das elites das Áfricas chamadas de expressão francesa. Ou as das Áfricas sob domínio até há pouco, ou ainda hoje, britânico. O que se verifica, porém, é que os negros "assimilados" e os mestiços das Áfricas Portuguesas, além de por vezes beneficiados por essa intelectualização, gozam quase sempre de regalias que lhes são negadas nas inglesas e sobretudo na União Sul-Africana. Podem mestiços e até negros casar, nessas Áfricas nisto afins do Brasil, com brancas, sem que tais uniões constituam o escândalo que foi, há alguns anos, no democrático mundo anglo-saxónico, o casamento de uma filha de Sir Stafford Cripps - grande inglês moderno de quem cheguei a receber, estando ele já mortalmente enfermo, uma das cartas mais compreensivas e mais fraternas que já recebi dentre as que me têm sido dirigidas em língua inglesa - com um negro retintamente africano. É certo que, mais do que os portugueses, os ingleses e até os franceses vinham fazendo, nos últimos decénios, de negros das suas Áfricas, bacharéis e graduados de universidades, aptos a desempenharem funções políticas nas novas repúblicas que viriam a ser criadas tão de repente. De alguns desses bacharéis note-se, porém, que são descendentes de escravos que do Brasil regressaram no século XIX à África, constituindo-se ali em grupos chamados de "brasileiros" que modificaram em várias áreas estilos de arquitectura, hábitos de alimentação, ritos religiosos, recreações, danças, música, dando-lhes um colorido brasileiro que permanece até hoje e que cabe a nós, brasileiros, reavivar. A presença da moderna cultura brasileira não só nas Áfricas Portugueses como noutras Áfricas, vizinhas das portuguesas e ameaçadas pela sombra do arianismo sul-africano, venho há anos insistindo em ser uma presença necessária à animação, à orientação e ao desenvolvimento em nações democráticas de gentes ainda presas a complexos tribais ou destribalizadas apenas em alguns dos seus elementos: gentes de quem se sentem afins tantos brasileiros de procedência em parte africana; gentes em quem se encarnam culturas que concorreram fortemente para a formação da moderna civilização lusotropical do Brasil; gentes cujos sentimentos, cujos problemas, cujas aspirações o brasileiro está em situação única de compreender, tornando-se o mediador, hoje tão necessário, entre europeus e não-europeus. Entre europeus empenhados em desenvolver estilos verdadeiramente democráticos de convivência com os povos não-europeus desejosos de se afirmarem, ante europeus, em nações quanto possível democráticas tanto no que se refira à democracia política - tão valorizada pelos anglo-saxões - como, principalmente, no que signifique democracia económica - a supra-glorificada pelos russos-soviéticos - e democracia racial. A democracia além de racial, social: a que o Brasil vem desenvolvendo como um brasileirismo de valor, sem nenhum exagero, universal. A que vem sendo elevada a ideologia brasileira por pensadores e sociólogos nacionais. Creio ter sido em algumas dessas ideias que o Presidente Jânio Quadros se inspirou para iniciativas de renovação da política exterior do Brasil, que vêm sendo seguidas pelo actual e ilustre Presidente da República brasileira. Mas num e noutro caso, ao aspecto positivo dessa renovação juntou-se o lamentàvelmente negativo de incluir-se com alguma precipitação e não menor simplismo a presença portuguesa no Oriente e na África entre aquelas formas cruamente "colonialistas" de relações de europeus com não-europeus que repugnam, como não podiam deixar de repugnar, ao Brasil. Donde vir sendo, neste particular, o Itamarati injusto com a gente portuguesa, falho de solidariedade com as gentes genuinamente lusotropicais do Oriente e da África e prejudicial à própria gente brasileira e à sua missão de líder do uma democrática política social de "vária cor" que se contraponha tanto à de "branquitude", de europeus, como à de "negritude" que vem sendo animada entre africanos por nacionalistas de intenções dúbias. Não faz muito tempo, o chefe da delegação da Cruz Vermelha Internacional ao Congo, o dinamarquês Jorgen Norredam, tendo visitado nessa categoria várias partes da África, comunicou ao jornal Svenka Dagbladet de Stokolmo, de 20 de Março último - depoimento recentíssimo, portanto - ter encontrado na Angola a parte da África onde mais avançadas se apresentam, do ponto de vista democrático, as relações entre europeus e não-europeus. Compreende-se assim - segundo esse dinamarquês idóneo - o afã de certos políticos africanos - refere-se evidentemente aos que, incitados, em alguns casos, por agentes russos-soviéticos, fazem da africanidade uma seita e da "negritude" (não é o caso do admirável Leopold Senghor) uma mística intransigentemente anti-europeia - em considerarem a Angola o principal obstáculo à deseuropeização da África. Deseuropeização do que poderia resultar a fácil ianquisição ou a rápida sovietização ou a suspirada indianização ou a calculada sinonização de grande parte do continente africano. Que os políticos africanos de consciência política e de ânimo democrático, se empenhem em movimentos, mesmo prematuros, que visem a descolonização total da África, compreende-se. Mas não que se extremem, por mística sectàriamente anti-europeia, na deseuropeização e até na descaracterização daquelas culturas africanas já impregnadas, como a de grande parte da Angola - onde a quatro milhões de pretos, quer em estado tribal, quer, segundo uma já arcaica terminologia portuguesa, "assimilados", se junta mais de meio milhão de brancos, de goeses e de mestiços - de influências saudàvelmente europeias; e que são culturas, dado o sistema de relações entre europeus e não-europeus que vêm condicionando seu desenvolvimento em culturas mistas, muito mais fluidas do que noutras partes da África; e marcadas já por numerosos casos de ascensão de pretos e de mestiços a postos de direcção na vida administrativa da Província, a posições de responsabilidade em actividades intelectuais, clericais e económicas, ao casamento de pretos e pardos com brancas e de goeses com pretas, ao convívio em termos de igualdade de pretos e de mestiços com europeus. Os políticos africanos que se entregam àqueles extremos de mística sectàriamente deseuropeizante da África revelam-se racistas tão repugnantes aos brasileiros social e racialmente democráticos quanto os racistas arianistas da Europa e dos Estados Unidos e os castistas da Índia. Tão repugnantes quanto os brancos racistas, imitadores do belgas e de ingleses, que ainda agora existem nas Áfricas Portuguesas. Que estes são de todos os elementos que comprometem a presença portuguesa na África, aqueles que mais concorrem para turvar a solidariedade do Brasil, não só com o Portugal europeu como com aquelas populações lusotropicais da Angola e das outras partes do mundo, integradas no mesmo sistema de civilização racial e socialmente democrático que o Portugal de sempre - hoje já não extra-europeu como europeu - vem criando; e com deficiências e erros, alguns enormes, procurando desenvolver. Ilustre porta-voz do racismo que orienta a certas empresas para alguns de nós, pouco lusitanas, da Angola e de Moçambique, chega a ser desdenhoso do que considera, com o mais arcaico dos esnobismos, o mulatismo brasileiro. E nisto é acompanhado, infelizmente, por alguns portugueses que, sociològicamente, não são portugueses: são talvez belgas dos que administraram eficientemente o Congo e com igual eficiência fizeram dos negros do Congo os mais terríveis anti-europeus da África. Portugueses com vergonha de gostar de mulheres de cor. Portugueses anti-camoneanos. Portugueses contrários à "vária cor". Portugueses anti-portugueses. Enquanto se pronunciam anti-lusitanamente aqueles raros portugueses desviados, na África, da vocação social e racialmente democrática de Portugal, que escreve, em livro de fervorosa apologia dos africanos que se descolonizam, o inglês Basil Davidson? Que a África deu ao Brasil colonizado por portugueses, negras como a célebre matriarca Jacinta, fundadora de famílias hoje ilustres, de Minas Gerais; e que por essas Jacintas se pode fazer idéia exacta do valor que a gente tribal africana representa para a formação de novas sociedades de tipo nacional. Também na África Portuguesa há hoje Jacintas desse alto valor humano. Conheço algumas. Admiro-as. Respeito-as. Também com elas e com seus filhos - mestiços de sociedades lusotropicais semelhantes à brasileira e culturas afins da brasileira. São sociedades e culturas a que nós, brasileiros, continuadores dos portugueses e de suas responsabilidades de criadores de sociedades e de iniciadores de culturas democráticas nos trópicos, não podemos conservar-nos indiferentes. Somos fraternamente sensíveis às aspirações de independência desses povos. Somos fraternamente sensíveis às manifestações lusotropicais dessas culturas, já diferenciadas da do Portugal europeu. Mas somos também sensíveis - repita-se - às tentativas de novos imperialismos no sentido de absorverem pela violência comunista esses povos e de descaracterizarem pela força capitalista essas culturas. São agressões que nos atingem. São violências que nos ferem. Há para os brasileiros, e não apenas para os portugueses, uma África, hoje, talvez, já mais irmã, politicamente adolescente, do Brasil do que filha ainda menor politicamente de Portugal, que nos dói. Que nos preocupa. Que nos inquieta. Que desperta nossa indignação quando violada por intrusos. Que levanta nosso brio, quando agredida por estranhos. Que deve fazer os nossos dirigentes clamarem com todo o vigor de suas vozes contra os novos imperialistas de garras prontas para absorverem Angola e descaracterizarem Moçambique, através de falsos libertadores que nem angolanos são; que em vez de português falam francês e inglês; estranhos a Moçambique; nascidos fora da Angola. Que Angola e Moçambique se tornem novos Brasis: mas pela vontade da sua gente e não por imposição de agentes deste ou daquele império. Pela sua gente e não por tais agentes. Quando António José de Almeida, Presidente da República Portuguesa, exclamou em 1922 na Câmara dos Deputados brasileira: "Venho agradecer ao Brasil o ter-se tornado independente de Portugal" houve quem não o compreendesse entre portugueses. Entretanto Almeida falara certo. Sociològicamente certo. A independência brasileira, no plano político, não fez sendo reforçar a interdependência entre todos os povos de língua portuguesa, no plano cultural, no plano social, no plano económico, no plano da convivência supranacional em que vivem fraternamente esses povos, cada dia mais conscientes das tradições e dos destinos comuns que os prendem. A interdependência nesses planos é mil vezes mais importante que a dependência no puro plano político. Saibam agir como continuadores de José Bonifácio os actuais líderes dos movimentos que procuram para as províncias portuguesas mais distantes do Portugal europeu, maior autonomia que a actual, e a interdependência entre os povos de língua portuguesa se ampliará e se aprofundará com essa maior autonomia de cada uma das partes que compõem a vasta comunidade, hoje madura para constituir-se em vigorosa federação lusotropical. Luso-brasileira só, não: lusotropical. O que é preciso e que aventureiros fantasiados de portugueses não usurpem, a serviço de qualquer dos quatro ou cinco imperialismos agora em conflito, na África e no Oriente, o comando desses movimentos autonomistas a novos e honestos Josés Bonifácios que se empenhem em criar quanto antes autonomias quase nacionais ou mesmo nacionais sem destruírem ou comprometerem a interdependência essencial ao desenvolvimento dos vários povos de expressão portuguesa no maior sistema de democracia exemplarmente racial e Deus queira que também de democracia social, de democracia económica, de democracia política jamais espalhado pelas quatro partes da terra: aquelas de que falava Camões ao saudar no Brasil a "nova quarta parte". Camões. Quem cita Camões no Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro está na obrigação de recordar Joaquim Nabuco. Foi no Rio de Janeiro que o nome do brasileiro Joaquim Nabuco ligou-se para sempre ao do autor d'Os Lusiadas. Ao nome, ao pensar, ao sentir do autor d'Os Lusiadas. Há oitenta e dois anos, a 10 de Junho de 1880, dizia em conferência proferida na então capital de um Brasil ainda monárquico, a convite dos portugueses do Rio de Janeiro, o maior intelectual-político brasileiro da sua época e, de todos os grandes brasileiros de qualquer época, o mais lucidamente devotado ao culto camoneano, ver no sentimento de Pátria "um sentimento que se alarga, abate as muralhas da China que o isolam" para tornar-se "cada vez maior" e cada vez mais "um instrumento... de enlaçamento entre os povos". É como se apresenta hoje a muitos de nós a interdependência que cresce entre os povos de expressão portuguesa: como uma expansão do sentimento de pátria no de comunidade. Pátrias independentes e comunidade interdependente. Povos enlaçados numa federação de pátrias e de quase pátrias que se completem tanto com suas diferenças como com suas semelhanças. E que serão a afirmação definitiva da capacidade de povos em grande parte mestiços - gentes de "vária cor": mestiços de europeus com não-europeus e contando em seu número negros, amarelos, pardos - para desenvolverem altas formas de civilização moderna e de convivência sociològicamente cristã em terras tropicais. Que estes são os nossos destinos comuns, de brasileiros e de portugueses: destinos que ultrapassam a mística dos estreitos nacionalismos e não apenas dos inumanos racismos. Dos dois grupos nacionalistas que se batem pela chamada libertação de Angola sabe-se que um chega a ser sectàriamente, fanàticamente, racista em sua mística de "negritude", nele estimulada, em grande parte, pelo maquiavelismo de estranhos, interessados em lançar africanos contra europeus. São expressivas, a esse respeito, as palavras de recente panfleto afroracista divulgado na África contra Angola: "Angola não é dos brancos ... que lá nasceram nem dos mestiços. Angola é dos negros, apenas dos negros! Os brancos e os mestiços terão que desaparecer!". Palavras que ferindo o que Angola tem de mais democrático - a sua democracia social através daquela mestiçagem que vem sendo praticada por numerosos luso-angolanos, ao modo brasileiro - fere o Brasil; e torna ridícula - supremamente ridícula - a solidariedade que certos diplomatas, certos políticos e certos jornalistas do Brasil de hoje pretendem, alguns do alto de responsabilidades oficiais, que parta de uma população em grande parte mestiça, como a brasileira, a favor de afroracistas. Que afinidade com esses afroracistas, cruamente hostis ao mais precioso valor democrático que vem sendo desenvolvido pela gente brasileira - a democracia racial - pode haver da parte do Brasil? Tais diplomatas, políticos e jornalistas, assim procedendo, ou estão sendo mistificados quanto ao afroracismo, fantasiado de movimento democrático e de causa liberal, ou estão sendo eles próprios mistificadores dos demais brasileiros. Nós, brasileiros, não podemos ser, como brasileiros, senão um povo por excelência anti-segregacionista: quer o segregacionismo siga a mística da "branquitude", quer siga o mito da "negritude". Ou o da "amarelitude". Tais segregacionismos são, no mundo crescentemente inter-relacionado, em que vivemos, absurdos sociológicos. Absurdos biológicos. Tão absurdos que a própria África do Sul, a despeito de todas as suas leis segregacionistas, está cheia de mestiços. Cheio de mestiços está o Sul dos Estados Unidos. Mestiços aos quais também se estende a solidariedade brasileira. Há dezenas de anos, Wells já observava, no seu famoso Outline of History, resumindo o melhor saber biológico de sua e de nossa época, terem as variedades de Homo Sapiens resultado de diferenciações sòmente tornadas possíveis pelos longos períodos de segregação vividos por vários grupos humanos em diferentes partes do mundo, por falta quase absoluta de meios físicos de comunicação entre eles. Essa segregação se tornara impossível com as modernas comunicações, com a moderna riqueza de contactos entre homens dos grupos mais distantes uns dos outros no espaço físico. Já não estaria, provavelmente, ocorrendo, - pensava Wells há quase meio século - nenhuma diferenciação do ponto de vista biológico mas, ao contrário, crescente reunificação das variedades de Homo Sapiens: "Men mingle more and more. Readmixture is now a far stronger force than differentiation". O que fez outro anglo-saxão ilustre, Roy Nash, considerar o brasileiro, mais próximo do que qualquer outro povo de constituir uma síntese completa, no sentido daquela reunificação; e a expressão, como tal, de um drama biológico de "tremenda importância" - palavras de Nash - para todos os homens. Drama biológico desdobrado em drama sociológico é o que é hoje não só o Brasil como todo o mundo de expressão portuguesa. Somos a antecipação de uma tendência que não tardará a generalizar-se a outros povos. Toda a antecipação importa, porém, em dor. A mestiçagem em que nos antecipamos, os brasileiros, a outras democracias modernas, por vezes nos aflige. Por ela temos sido mais de uma vez ridicularizados. Desprezados por povos com pretensões a serem de raça pura. Insultados por esnobes convictos de pertencerem a raças superiores aos grupos mestiços. Mas é através dessa dor que estamos contribuindo, os brasileiros, como descendentes de portugueses e continuadores de portugueses, mais do que qualquer outro povo, para a reunificação do Homem. A mestiçagem reunifica os homens separados pelos mitos raciais. A mestiçagem reúne sociedades divididas pelas místicas raciais em grupos inimigos. A mestiçagem reorganiza nações comprometidas em sua unidade e em seus destinos democráticos pelas superstições raciais. A mestiçagem completa Cristo. A mestiçagem é o verbo feito homem - seja qual for a sua raça - e não feito raça divinamente privilegiada: hoje a branca, amanhã a amarela ou a parda ou a preta. A mestiçagem é a democracia social em sua expressão mais pura. Sem ela fracassa o próprio Marx no que a sua ideologia tem de melhor. Somos nós, brasileiros, descendentes de portugueses, continuadores de portugueses, os maiores responsáveis modernos pelo êxito dessa mensagem, hoje de significação tão grande para os homens de todas as partes do mundo. Que em todas as partes do mundo há quem ponha acima de regimes que dêem, ou procurem dar, às populações, o puro bem-estar material que os belgas davam aos negros do Congo, sistemas de convivência em que o negro possa ser, através de iguais oportunidades, igual ao branco, o pardo igual ao amarelo, o moreno igual ao louro, o judeu igual ao ariano. Sendo assim, quando Goa deixa de ser portuguesa para correr o risco de voltar aos extremos do regime de castas, que ainda degrada a Índia; quando da Angola se quer fazer, em vez de outro Brasil, outro Congo, dividido pelo ódio de negros contra brancos e de pretos contra mestiços; quando de Moçambique se pretende fazer colónia da União Indiana em vez de província portuguesa a caminho de ser também novo Brasil - a perda não é só para Portugal: é também, no plano ético e no plano cultural, para o Brasil; para o que o Brasil representa como moderna população, em grande parte, mestiça; e como civilização mista em que a valores europeus se juntam fecundamente valores não-europeus. Mais: é perda para toda a humanidade em marcha para a reunificação do Homem através de uma mestiçagem de que Portugal já não se envergonha e o Brasil já não se desculpa perante ingleses ou escandinavos, argentinos ou canadenses. Pois como meia-potência o Brasil em grande parte mestiço não pé inferior a nenhuma meia-potência de brancos de hoje. Como novo tipo de civilização moderna nos trópicos o Brasil não é inferior a nenhum outro tipo de civilização moderna em terras ardentes. Suas possibilidades, que apenas se esboçam, são, sem nenhum exagero, imensas. Desmoralizam todos os Gobineau. Porque com os modernos triunfos brasileiros se afirmam as vantagens da democracia racial e se desmancha o mito daqueles perigos mortais outrora atribuídos por sociólogos levianos e por biólogos precipitados tanto à mistura de raças como à vida em espaços tropicais: dois riscos que o português soube enfrentar em larga escala, unindo seu sangue aos de gentes de cor e espalhando-se por algumas das mais ásperas regiões quentes da Ásia, da África e da América. E triunfando. Criando Goas e criando Brasis. Criando Cabos Verdes e criando Angolas. Criando Moçambiques. Criando mestiços. Criando o bandeirante. Criando o sertanejo. Abandonando o frio das Terras Novas aos ingleses e o temperamento das Áfricas do Sul a holandeses, a brancos, dos chamados puros: povos cheios de pavores dos trópicos. E aceitando o desafio dos trópicos. Respondendo a esse desafio com a mestiçagem. Valorizando terras quentes e demonstrando a capacidade das gentes mestiças e o valor das culturas mistas para desenvolverem, nessas terras ásperas, as mais altas formas de civilização. Source: FREYRE, Gilberto. O Brasil em face das Áfricas negras e mestiças.
Rio de Janeiro: Federação das Associações Portuguesas, 1962. 48p. |