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Conferência lida no Salão de Conferênciasda Biblioteca do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, no dia 29 de outubro de 1940. A Anna Amelia de Queiroz Carneiro de Mendonça, aos seus colaboradores e a todos os estudantes da C.E.B., que representa um esforço tão simpático de bom brasileirismo e, ao mesmo tempo, de generoso internacionalismo, Palavras da Senhora Anna Amelia de Queiroz Carneiro de Mendonça, Presidente da Casa do estudante do Brasil, por ocasião da conferência realizada pelo Professor Gilberto Freyre, como iniciativa do Departamento Cultural da C. E. B., no Salão de Conferências da Biblioteca do Ministério das Relações Exteriores; no dia 29 de outubro de 1940, sob a presidência do Ministro Mauricio Nabuco: A Casa do Estudante do Brasil sente-se imensamente feliz por ter podido oferecer, com o amável acolhimento do Ministério das Relações Exteriores, neste lindo salão da Biblioteca do Palácio Itamaratí, a êste público numeroso e culto, a palavra erudia do Professor Gilberto Freyre, discorrendo sôbre Atualidade de Euclydes da Cunha. Ao receber em Recife o convite do nosso Departamento Cultural, através do seu jovem Diretor, o Dr. Arquimedes de Melo Neto, não hesitou o mestre em atender à solicitação do discípulo querido, e aquí veio prender a nossa atenção no comentário de assunto tão palpitante qual a obra e a personalidade daquele que tão pouco tem sido estudado e compreendido entre nós. A obra de Euclydes da Cunha deve ter realmente, para o espírito do Professor Gilberto Freyre, a mesma atração que nêle tem exercido o panorama social e histórico do Brasil. Vasta e complexa como a imagem do Brasil mesmo, compacta como as nossas selvas, intacta, quasi, como a riqueza acumulada da nossa formação social, essa obra deveria, por certo, atrair a curiosidade científica e a ânsia de investigação social que caraterizam a mentalidade e o trabalho de Gilberto Freyre. Êle tem sido, no Brasil, um desbravador de regiões abandonadas da nossa geografia humana, um coordenador de valores e de símbolos da nossa cultura. E por falar no Brasil e na nossa cultura, ocorre-me evocar aquí outra recente conferência de Gilberto Freyre, realizada há pouco em Recife, e na qual a sua palavra autorizada, erguida em comemoração dos Centenários de Portugal, denuncia desassombradamente aos brasileiros as ameaças que cercam, neste angustioso momento internacional, a cultura luso-brasileira. Ouvindo, entretanto, agora, a palavra do ilustre conferencista de hoje, na leitura de um trabalho que confirma a profundeza e a segurança com que êle estuda os fenômenos sociais, históricos e literários da civilização brasileira, a gente pode estar segura de que aquelas ameaças não chegarão a atingir mortalmente a nossa cultura enquanto houver no nosso passado vultos da envergadura intelectual de Euclydes da Cunha, e no nosso presente, analisando-o e construindo o nosso futuro, vultos do valor e da competência de Gilberto Freyre. Atualidade de Euclydes da Cunha Alega-se, e com razão, que Euclydes da Cunha, nos seus ensaios sôbre a formação social do Brasil, concede importância exagerada ao problema étnico, parecendo não ter atinado com a extensão e a profundidade da influência da chamada "economia agrário-feudal" sôbre a vida brasileira. Ou seja: despreza o sistema monocultor, latifundiário e escravocrata na análise da nossa patologia social; e exalta a importância do processo biológico - a mistura de raças - como fator, ora de valorização, ora de deterioração regional e nacional. São recentíssimos, aliás, os estudos que vão estabelecendo o primado do fator cultural - inclusive o econômico - entre as influências sociais e de solo, de clima, de raça, de hereditariedade de família, que concorreram para a formação da sociedade brasileira, em geral, e, particularmente, para as suas formas agrárias ou pastorís caraterizadas pelo latifúndio, pela exclusividade de produção e pelo trabalho escravo o semiescravo, com todos os seus concomitantes psicológicos de agricultura sem amor profundo à terra. Não nos deve espantar que a Euclydes da Cunha - a quem faltavam estudos rigorosamente especializados de antropologia física e cultural ainda mais que os de geologia, nos quais nos informou uma vez Arrojado Lisboa, a mim e a Rodrigo Mello Franco de Andrade, ter o autor dOs Sertões recebido forte auxílio técnico de Orville Derby - impressionasse de modo particular o aspecto étnico, ou ostensivamente étnico, da geografia humana do Brasil. Nem que, nos seus ensaios, resvalasse como resvalou, em mais de uma página eloquente, no pessimismo dos que descrêem da capacidade dos povos de meio-sangue - ou de vários sangues - para se afirmarem em sociedades equilibradas e em organizações sólidas de economia, de govêrno e de caráter nacional. Descrença baseada em fatalismo de raça. Em determinismo biológico. Não é de espantar, porque dos contemporâneos de Euclydes da Cunha, o próprio Nina Rodrigues, com estudos especializados de antropologia (e cuja diagnóstico de psiquiatra do caso do Conselheiro, Euclydes seguiu muito de perto), não escapou a exageros etnocêntricos na análise e na interpretação da nossa sociedade. Exageros que seriam seguidos por largos anos, quasi sem retificação, por vários discípulos do sábio maranhense; e retomados pelo Professor Oliveira Vianna em obra erudita, publicada depois de 1920, quando no Museu Nacional já se esboçara, com Lacerda, a tendência, depois acentuada pelo Professor Roquette Pinto, no sentido de rehabilitar-se experimentalmente o mestiço brasileiro, vítima de preconceitos cientificistas com aparência de verdades antropológicas. Tais preconceitos foram gerais no Brasil intelectual de 1900: envolveram às vêzes o próprio Sylvio Romero, cuja vida de guerrilheiro de idéias está cheia de contradições. Só uma exceção se impõe de modo absoluto: a de Alberto Torres, o primeiro, entre nós, a citar o Professor Franz Boas e suas pesquisas sôbre raças transplantadas. Outra exceção: a de Manuel Bomfim, turvado, entretanto, nos seus vários estudos, por uma como mística indianista ou indianófila semelhante à de José de Vasconcellos, no México. Daí não nos surpreender o pendor melancólico de Euclydes para o fatalismo de raça. Aquêle seu - "ante as conclusões do evolucionismo, ainda quando reaja sobre o produto o influxo de uma raça superior, repontam vivíssimos estigmas da inferior. . . de modo que o mestiço é, quasi sempre, um desequilibrado . . . um decaído sem a energia física dos ascendentes selvagens, sem a altitude intelectual dos ascendentes superiores" (Os Sertões, 3ª ed., pág. 109) - é bem característico dos seus momentos de fatalismo étnico. Vê-se que Euclydes da Cunha se viu às vêzes arrastado pelo que considerava a antropologia científica na sua expressão única e definitiva, a acreditar na incapacidade do mestiço: incapacidade biológica, fatal. Mas o certo é que não se extremou em místico de qualquer teoria de superioridade de raça. O perfil que traça do sertanejo não é de um devoto absoluto de tal superioridade. Nem é fácil de conceber que um homem como Euclydes da Cunha, animado do culto da personalidade humana tanto quanto do entusiasmo pelos planos arrojados de socialização dos grupos regionais ou nacionais, pudesse ser hoje o etnocentrista desdobrado em totalitarista que entrevêem nêle alguns críticos de belas-letras, para quem a caracterização psicológica dos indivíduos e dos povos é um jogo fácil, ao sabor de caprichosos de momento ou de entusiasmo doutrinário de ocasião. Em Euclydes da Cunha, o pessimismo diante da miscigenação não foi absorvente. Não o afastou de-todo da consideração e da análise daquelas poderosas influências sociais a cuja sombra se desenvolveram, no Brasil, condições e formas feudais de economia e de vida já mortas na Europa ocidental; traços aparentemente cacogênicos mas, na realidade, de patologia social, que o isolamento de população, no sertão e mesmo nas proximidades do litoral, conservaria até aos nossos dias. Aquêles fazendeiros do sertão que o escritor conheceu a usufruírem "parasitàriamente as rendas das terras dilatadas, sem divisas fixas", eram bem o prolongamento, no espaço e no tempo, dos sesmeiros da colônia. Uns e outros, senhores de escravos ou de semiescravos "perdidos nos arredores e mucambos". Semiescravos, os dos sertões "cuidando a vida inteira, fielmente, os rebanhos que lhes não pertencem". (Os Sertões, 3ª ed., pág. 122). Aliás, é possível que o movimento messiânico de Antonio Conselheiro tenha tido alguma coisa de revolta de oprimidos, entrevista apenas por Euclydes. Foi assim que Canudos ficou para a opinião européia mais aguçada no diagnóstico de revoluções exóticas: como revolta de classe oprimida. A resenha do Hechette, de París, para o ano de 1897, pode ser considerada típica daquele diagnóstico quando faz o Conselheiro - um dos raros sul-americanos que alcançaram então fama mundial - curiosa figura de profeta que prègava "le communisme em même temps que le rétablissement de la monarchie...". O aspecto "comunista" e ao mesmo tempo "monarquista" encontra-se noutros movimentos brasileiros do século XIX, classificados vagamente como surtos de misticismo doentio entre grupos isolados: sertanejos do Nordeste, restos de quilombolas, "fanáticos" do Contestado, europeus mal assimilados pela civilização brasileira do litoral. Entre os últimos, os colonos alemães e os descendentes de alemães que, ainda sob a Monarquia, esboçaram, perto de São-Leopoldo, no Rio-Grande-do-Sul, o seu Canudos ou a sua Pedra-Bonita, o seu Quebra-Quilos ou a sua guerra de Cabanos, tendo por profeta uma mulher: Jacobina Mentz. E por ideal de organização social, certo comunismo cristão a que talvez não fôssem estranhos sugestões dos Mormons e restos de influência da tentativa de colonização socialista do Dr. Mure, em Santa-Catarina. O próprio aspecto de sebastianismo político do movimento de Canudos - exagerado na época pelos devotos da República mas desprezado hoje pelos estudiosos daquele capítulo dramático de história brasileira - está a pedir a atenção de algum pesquisador mais pachorrento que se disponha a acompanhar - tarefa difícil - a atividade de agentes ou de simples amadores da restauração monárquica no nosso país, nos fins do século passado e nos começos do atual. Agentes ou amadores a quem a revolta do Conselheiro talvez tenha se apresentado como fôrça de fácil utilização política. Tais agentes e amadores não só existiram como atuaram, às vêzes inteligentemente, a favor de sua causa. E sua atividade - se não francamente política, de sondagem prepolítica das condições brasileiras e de colheita de dados para o que se pode hoje denominar de economia ou sociedade planificada dentro da concepção monárquica de reorganização da vida nacional (pois a tanto se estendeu o preparo para a restauração do Império no Brasil na pessoa do Príncipe Dom Luiz, a quem não faltavam idéias moderníssimas de governo junto com o senso político, o gôsto de ação e o entusiasmo pelas coisas brasileiras) - foi até ao interior do Brasil. Foi até ao estudo meticuloso e literalmente germânico de zonas remotas que sòmente agora estão interessando de-novo aos responsáveis pela política e pela administração do nosso país. E foi até a tentativas francas ou sutís no sentido de atrair grandes intelectuais do Brasil para a causa monárquica. Tentativas que alcançaram Oliveira Lima - que chegou a ser convidado pelo Príncipe para ministro das Relações Exteriores de um possível govêrno monárquico que da noite para o dia se estabelecesse no Rio-de-Janeiro - e se estenderam, de modo muito vago, ao próprio Euclydes. Admitido o aspecto vagamente político de Canudos - aquela mistura de "comunismo" com "monarquismo" - a verdade é que o movimento do Conselheiro foi principalmente um choque violento de culturas: a do litoral modernizado, urbanizado, europeizado, com a arcaica, pastoril e parada dos sertões. E êsse sentido social e amplamente cultural do drama, Euclydes percebeu-o lùcidamente, embora os preconceitos cientificistas - principalmente o da raça - lhe tivessem perturbado a análise e a interpretação de alguns dos fatos da formação social do Brasil que seus olhos agudos souberam enxergar, ao procurarem as raízes de Canudos. A mesma lucidez afastou-o da exagerada idealização da atividade missionária e política dos Jesuítas - organizadores de outros Canudos - na formação brasileira. Idealização a que se entregaram com tôda a alma Joaquim Nabuco e Eduardo Prado. A Euclydes foi preciso ter havido o Anchieta - o mesmo Anchieta no qual os historiadores ofificiais da expansão inaciana no Brasil colonial recusam-se a enxergar a figura máxima daqueles dias, do ponto-se-vista jesuítico - para que êle, Euclydes da Cunha, se sentisse reconciliado com a Companhia de Jesús. Mas não nos antecipemos sôbre êste ponto. * Além de Orville Derby - que segundo Arrojado Lisboa teria fornecido a Euclydes da Cunha notas valiosas sôbre a geologia do Brasil (assunto em que o sábio norte-americano naturalizado brasileiro era mestre) - o autor dOs Sertões teve em Theodoro Sampaio não só um colaborador mas um orientador no estudo de campo de geografia e de história geográfica e colonial do Nordeste; e talvez - me aventuro a acrescentar - um tradutor de trechos mais difíceis da língua inglesa, em cujo conhecimento parece que Euclydes da Cunha era patriòticamente fraco. No seu "Terra sem história" (À Margem da História, 1908, pág. 21) surpreendo-o a traduzir drinking, gambling and lying por "bebendo, dansando, sambando". Tradução demasiado livre. Um critico baiano, o Sr. Carlos Chiacchico, destacou há pouco, em sugestivo ensaio - Euclydes da Cunha, aspectos singulares (Baía, 1940) - o auxílio prestado ao escritor dOs Sertões por aquêle seu amigo e, em certo sentido, mestre de geografia e de história - tanto quanto Orville Derby de geologia: Theodoro Sampaio. O próprio Sampaio recordara, em artigo para a Revista do Instituto Histórico e Geográfico da Baía (Baía, 1919, pág. 252): "Levou-me [Euclydes] algumas notas que eu lhe oferecí sôbre as terras do sertão que eu viajara antes dêle em 1878. Pediu-me cópia de um meu mapa ainda inédito na parte referente a Canudos e vale superior do Vaza-Barrís, trecho do sertão ainda muito desconhecido, e eu lho fornecí...". E para Sampaio é que Euclydes da Cunha foi lendo depois, aos domingos, "os primeiros capítulos, os referentes à natureza física dos sertões, geologia, aspecto, relêvo", escritos "naquela sua caligrafia minúscula". Poupou, talvez, ao mestre de geografia a leitura das páginas mais acres de pessimismo sôbre os povos híbridos. Pedira ainda Euclydes a Theodoro Sampaio "apontamentos históricos", que - diz Sampaio naquele seu artigo - "eu assim como os possuía, enfeixados em cadernos de notas, de bom grado lhos fornecia, resultando disso, por acaso, êsse manuscrito da lavra de nós ambos que o Instituto hoje possue, isto é, notas distribuídas em capítulos por mim escritos na primeira parte do livro, observações outras da lavra de Euclydes, feitas com a mesma letra miudinha que ambos adotávamos para simples anotações". Das notas de Theodoro informa o Sr. Carlos Chiacchio que se referem a "cartas régias, roteiros, alvarás, crônicas de jesuítas, biografia, manuscritos coloniais, múltiplos veeiros, em suma, codificados em Casal, Accioly, Pedro Taques, Araújo Porto Alegre, Alexandre Rodrigues Ferreira, pesquisas e documentos de institutos, bibliotecas, arquivos de Rio e Baía, tudo isso esmerilhado, escoldrinhado, loteado e recolhido não em um ou dois ou três anos de afogadilho mas longamente, metòdicamente, pertinacìssimamente". Juntando-se a colaboração do paciente pesquisador de geografia física e humana e de história colonial do Brasil que foi Theodoro Sampaio à do geólogo Orville Derby e, ainda, à orientação do psiquiatra Nina Rodrigues quanto ao diagnóstico do Conselheiro e os fanáticos de Canudos, o próprio esfôrço de pesquisa de Euclydes nos arquivos da Baía, e, de campo, no interior do Estado, vê-se como é precária a posição dos que ingenuamente exaltam nOs Sertões um livro improvisado. Nem improvisado nem fácil. Nem tampouco caprichosamente individual, de quem tivesse se retraído dos especialistas seus amigos ou conhecidos para escrever sòzinho um livro de tamanha complexidade. Nas suas pesquisas de técnico, no extremo Norte, Euclydes da Cunha teve outro bom colaborador, êste seu primo e, como Theodoro, amigo íntimo: o engenheiro Arnaldo Pimenta da Cunha. Do então jovem engenheiro. Pimenta da Cunha é que escreveu a José Rodrigues Pimenta da Cunha - pai de Arnaldo e tio de Euclydes - o médico da Comissão de Reconhecimento do Alto Purús: "A parte técnica da comissão foi muito principalmente obra sua. Foi talvez o anjo tutelar do chefe..." De modo que colaborações técnicas de amigos não faltaram ao grande escritor. É de Euclydes esta caraterização de sua própria vida: "romance mal arranjado". Nesse "romance mal arranjado" um dos seus maiores consolos foi de-certo a da amizade. Amizade que mais de uma vez se estendeu em colaboração ou em auxílio técnico dos amigos - dos mais jovens como dos mais velhos - nas pesquisas e nos trabalhos necessários a ensaios de modo nenhum improvisados. Raro o escritor, o artista ou o cientista que tenha tido amigos e colaboradores tão bons como os que Euclydes da Cunha teve na Baía e no Amazonas, em São-Paulo e no Rio. Nas suas viagens de aventura científica, à saudade dos filhos se juntou sempre a dos amigos: "as imagens dos amigos constantemente evocadas e cada vez mais impressionadoras à medida que se aumentam as distâncias". E aos amigos - diz numa carta a Oliveira Lima - aos amigos "elejo-os sempre incorruptíveis confessores desta minha vida". A Vicente de Carvalho escreve meses antes de ser assassinado no Rio: "Tranqüiliza-me, homem! Imagina as atrapalhações em que vivo. . ." O critico baiano Carlos Chiacchio me parece acertar na interpretação da angústia de Euclydes da Cunha, já fixada pelo Sr. Eloy Pontes, num livro que é um esfôrço admirável de reconstituição da personalidade do autor dOs Sertões: a falta de um amor. Angústia atenuada pela constância dos amigos e pelos encantos da aventura científica nos ermos: "o meu deserto, o meu deserto bravio e salvador. . . o sertão . . . e a vida afanosa e triste de pioneiro". E não a "Europa, o bulevar, os brilhos de uma posição". O que não o impediu de ter pensado muito na Europa - que teria sido para êle outra espécie de êrmo. Nem de se apresentar candidato à Academia Brasileira de Letras. Sente-se, na sua correspondência, que Euclydes da Cunha procurou em vão a imagem que prolongasse na sua vida de adulto triste a da mãe morta quando êle tinha apenas três anos; e idealizada pelo órfão numa espécie de Nossa Senhora das suas dôres de menino, das suas esperanças de adolescente, dos seus sonhos de adulto mal definido. Cuidou encontrar a imagem ideal na "República" - para êle quasi pessoa, quasi mulher: tanto que a confundiu com a figura de moça que mais o impressionou na mocidade. Mas a confusão durou pouco. A identificação do símbolo com uma figura particular de mulher não foi além do seu desejo. Nem era possível que êsse sonho de homem romântico e talvez neurótico tivesse interia realização. Daí o narcisismo confundido com o apego à figura ideal de mulher que parece o ter acompanhado sempre: até em visões sob a forma de um "vulto branco de mulher" (Coelho Netto), de uma "dama branca" (Firmo Dutra), de uma mulher "de asas abertas, ora descerrando reposteiro escuro e pesado, em salão de luxo, vestida de túnica, ora envolvida em levíssimas vestes, tôda de alvo, igualmente com asas, munida de trombeta e já agora numa espécie de bosque" (A. Pimenta da Cunha). Narcisismo, o seu, deformador de sua visão da natureza e dos homens dos sertões. Deformador, porém, no sentido de acentuar a realidade congenial. No sentido de estilizá-la. Deformador no sentido profundamente realista da arte só na aparência violentamente mórbida de El Greco. Como tantos brasileiros do tempo do Império - o próprio Imperador, talvez - e dos seus dias de homem feito - parece que o próprio Rio Branco - Euclydes da Cunha foi um indivíduo que nunca se completou em adulto feliz ou em personalidade madura e integral, a quem a colaboração doce e inteligente, ou simplesmente a inspiração constante de uma mulher, tivesse acrescentado zonas de sensibilidade, de compreensão e de simpatia humana, que o homem sòzinho não percorre senão angustiado; ou não percorre nunca. É possível que do incompleto de sua vida tenha resultado o enriquecimento de sua obra e de nossa literatura, pela exploração e intensificação de zonas particularíssimas de sensibilidade e de compreensão da natureza e do homem tropical. A-final, não é uma frase de efeito a que atribue à angústia, ou ao desajustamento do indivíduo ao meio, um singular poder criador. Aos homens de gênio como Robert Browning - que completado pela sua querida Ba foi o equilíbrio, a saúde, a alegria, a sociabilidade, a felicidade em pessoa - se opõem, mesmo fora do Brasil terrìvelmente monossexual na sua formação; exemplos de indivíduos que produziram grandes obras à sombra de angústias enormes a êles impostas pela falta ou pelos erros de amor. Nos seus desajustamentos, como que se desenvolveram condições favoráveis à produção de obras intensas de arte, de ciência e de pensamento. Mas êsses exemplos não nos devem fazer esquecer os daqueles que completos, integrais e felizes é que produziram grandes obras: obras de valor permanente e de significação universal. Êsses são os grandes homens completos. Euclydes quasi nada teve dêsses homens completos, bem equilibrados e saudáveis, de que Nabuco foi, no Brasil, uma expressão magnífica. O autor dOs Serões foi um homem com uma grande dôr, nem sempre disfarçada nas cartas aos amigos nem nos livros que escreveu. Retraído e calado, era um indivíduo triste para quem a vida tinha poucos encantos; a quem o mundo oferecia raras alegrias. Natural, portanto, que não gostasse de Nabuco: o Nabuco bonito, elegante, mundano, afrancesado, idéias e roupas à inglesa, que lhe parecia artificial: tanto que numa de suas conversas com Oliveira Lima comparou o autor de Minha Formação a um "ator velho". Pelo menos a voz: voz de ator velho. Por sua vez Nabuco achava que Euclydes como que escrevia com um cipó. O brasileirismo intensamente concentrado, retorcido e agreste de Euclydes da Cunha se apresenta melancòlicamente incompleto em suas expansões e em suas afirmações. Êle foi o "celta", o brasileiro, o baiano raro que não riu; ou riu tão raramente que nunca o imaginamos rindo nem mesmo sorrindo. Ao contrário do brasileiro típico - isto é, o típico em cuja composição entrasse a quasi totalidade dos subtipos regionais - não foi nenhum "homem cordial", de riso fácil e gestos camaradescos; nem nenhum guloso de mulher bonita ou simplesmente de mulheres, do gênero que se extremou em Maciel Monteiro e se vulgarizou em Pedro I, a quem as próprias mulecas interessavam. Nem mesmo um simples guloso de doces, de bons-bocados, de quitutes feitos em casa. Varnhagen cozinheiro e Rio Branco regalão, curvado em mangas de camisa sôbre alguma peixada à brasileira, devem lhe ter parecido ridículos. Varnhagen quituteiro - ridículo e até desprezível para a sua masculinidade convencional de "he-man" e para a sua temperança de caboclo ou "tapuio". Theodoro Sampaio contou-me uma vez - por sinal que à sobremesa de um excelente jantar de peixe de côco em casa de Annibal Fernandes, organizado e presidido pela artista ilustre do tempêro e não apenas da pintura que è Dona Fedora - que Euclydes da Cunha era a torturada das donas de casa. Traço da personalidade do grande escritor que aquêle seu mestre e amigo baiano já registrara em artigo na Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Baía (pág. 253): "À mesa o Euclydes era um torturado a quem as iguarias faziam mais mêdo do que as carabinas da jagunçada revôlta. Comer fôsse o que fôsse era-lhe um tormento, por mais inocente que lhe parecesse a iguaria e isso notei-lhe sempre, antes como depois de sua visita a Canudos". E ainda: "Não tinha prazer à mesa, onde se assentava, de-ordinário, conviva taciturno e desconfiado e neste estado de espírito tudo lhe servia de escusa aos obstáculos e oferecimentos. - Que é que se há-de oferecer a Euclydes? Era a pergunta da dona da casa tôda vez que se aguardava a vista do autor dOs Sertões. E o Euclydes, a bem dizer, só se considerava tranqüilo à mesa, quando nada via de especial a se lhe oferecer". Nem moças bonitas, nem dansas, nem jantares alegres, nem almoços à baiana, com vatapá, carurú, efô, nem feijoadas à pernambucana, nem vinho, nem aguardente, nem cerveja, nem tutú de feijão à paulista ou à mineira, nem sobremesas finas segundo velhas receitas de iaiás de sobrados, nem churrascos, nem mangas de Itaparica, abacaxís de Goiana, assaí, sôpa de tartaruga, nem modinhas ao violão, nem pescarias de Semana Santa, nem ceias de sirí com pirão, nem galos de briga, nem cenários do Império, nem caçadas de onça ou de anta nas matas das fazendas, nem banhos nas quedas-d-águas dos rios de engenho - em nenhuma dessas alegrias caraterìsticamente brasileiras Euclydes da Cunha se fixou. Nem mesmo no gôsto de conversar e de cavaquear às esquinas ou à porta das lojas - tão dos brasileiros: desde a rua do Ouvidor à menor botica do centro de Goiaz. Principalmente dos baianos - dos quais Euclydes procedia, embora sua personalidade se enquadre menos no tipo regional do baiano do Recôncavo que no do sertanejo. "Raro na palestra se animava" - é a informação que nos dá, a êsse respeito, Theodoro Sampaio, que acrescenta: "Não era verboso, nem álacre, nem causticante no discretear ordinário. Preferia pensar, refletir, ouvir antes que dizer, o que traía natural propensão mais para colhêr do que para dispartir as jóias do seu espírito". Aquí se impõe um esclarecimento: causticante, Euclydes da Cunha o era, e muito; parente, na mordacidade, daquele outro caboclo retraído mais bisbilhoteiro a seu jeito de songa-monga, Capistrano de Abreu, do qual já se disse que se tôdas as suas cartas fôssem publicadas dissolvia-se a Sociedade Capistrano de Abreu. Euclydes foi às vêzes terrível nessa outra forma de "discretear ordinário" que é a carta, a conversa, o "gossip" com o amigo distante, a correspondência. Que sirvam de amostra alguns trechos de cartas suas a Gastão da Cunha, conservadas no arquivo do diplomata mineiro, do qual Rodrigo M.F. de Andrade, em transcrições publicas em 1926, nO Jornal, nos deixou entrever a natureza vulcânica. Êsse pendor para o comentário vivo, às vêzes agreste e até cruel às figuras do dia, não se manifesta sempre na correspondência de Euclydes, da qual Venancio Filho publicou recentemente, em livro, trechos interessantes. È nas cartas mais íntimas a amigos também causticantes - como Oliveira Lima e o já referido Gastão da Cunha - que o pendor de Euclydes para aquela espécie de comentário ou de cavaco mais cru melhor se revela. * Como todo estudioso da formação brasileira. Euclydes da Cunha teve de defrontar-se com a figura do missionário jesuíta e com a vasta obra de arquitetura social da Companhia de Jesús na América. Saliências da nossa história de uma sedução particular para quem tinha, como Euclydes, a obsessão quasi bizantina do escultural e, em arquitetura - material ou moral - o gôsto dos arrojos verticais. E nesses arrojos o missionário jesuíta na América portuguesa se excedeu ao colonizador. Quer nos seus planos, em parte realizados, de construção intelectual de elites e de segregação de indígenas dispersos, quer no sentido concretamente arquitetônico de edificações de pedra e cal, logo que lhes foi possível o emprêgo de material nobre no levantamento de igrejas e colégios. No colonizador português o sentido de construção quasi sempre se contentou com o "terrìvelmente chato" da arquitetura "feia mas forte" das casas-grandes do interior e dos sobrados do litoral. Sentido que se exprimiu no horizontal monótono mas sólido que caracteriza as linhas da nossa chamada arquitetura colonial de preferência ao vertical dos palácios de Lima e das catedrais da América espanhola. Não foi, entretanto, por influência dessas suas predisposições acentuadas para a admiração dos arrojos verticais de construção - quer no sentido real, quer no figurado - que Euclydes se deixou "reconciliar" com a Companhia de Jesús, cuja história européia, lida talvez superficialmente, tanto lhe repugnara. E aquí nos surpreende o paradoxo que marca o humanismo do escritor a prevalecer sôbre o seu verticalismo de geômetra: a "reconciliação" se operou através da figura lírica de Anchieta - o menos típico daqueles jesuítas dramáticos que enchem a história do Brasil de uma gravidade mais castelhana do que portuguesa. O menos dramático e o mais lírico. Foi entretanto o suficiente para que Euclydes da Cunha descobrisse na Companhia de Jesús na América a negação maciça de sua ação na Europa, para êle repugnante nos aspectos políticos: "Incoerente e sombria, prègando no século XVI, exageradamente através da justificação singular da estranha teoria do regicídio de Mariana, a soberania do povo, e combatendo, aliada aos tronos, essa mesma soberania quando surgia triunfante no século XVIII; precipitando ora os reis sôbre os povos, ora os povos sôbre os reis; traçando, através da agitação de três longos séculos atumultuados, os meandros de espantosas intrigas - ela foi, na América, coerente na missão civilizadora e pacífica, seguindo a trajetória retilínea do bem, heróica e resignada, difundindo nas almas virgens dos selvagens os grandes ensinamentos do Evangelho". ("Anchieta", em Contrastes e Confrontos, 3ª ed., pág. 128). O trecho é bem caraterístico de Euclydes da Cunha orador: passa de-repente do tom quasi maçônico de inimigo da Companhia ao de panegirista da obra de jesuíta na América. Mas mesmo assim - repito - a generalização enfática nos deixa ver um Euclydes superior, neste particular, em lucidez crítica, àqueles dois ensaístas seus contemporâneos - Joaquim Nabuco e Eduardo Prado - ainda mais que autor dOs Serões turvados, em algumas de suas páginas mais famosas de evocação do passado brasileiro, pela exaltação sentimental do missionário da S. J. ou pelo ardor apologético de entusiastas da Companhia. Há evidentemente nas páginas comovidas de Euclydes sôbre Anchieta o desejo de "fixar em bronze" - sempre o artista a querer pôr a estatuária simplificadora a serviço das complexidades da história ou da biografia - a figura enternecedoramente lírica do padre mestiço, que o escritor dOs Sertões - contra interpretações mais autorizadas e melhor documentadas - considerou típica dos ideais e da ação missionária dos inacianos no Brasil. E bem pouco do ânimo ou do espírito tranqüilamente crítico diante daqueles ideais e daquela ação em suas relações com o desenvolvimento do Brasil em nação mestiça e em cultura plural. Ânimo ou espírito de que se encontram evidências noutros trabalhos do autor de A' Margem da História. Não se compreenderia, aliás, dentro da crítica psicológica dos processos de acomodação de antagonismos sociais e de cultura (critica que se mostre tão útil em completar a simplesmente histórica dos atos humanos), exceção tão considerável como a que Euclydes sugere para a ação da Companhia na América. Sociedade diversa na sua técnica de catequese e de política - uma na Europa, outra no Oriente, ainda outra na América - a Companhia de Jesús foi, e é ainda, por tôda a parte, a mesma nos seus fins corajosamente militantes e agudamente combativos a favor de uma ortodoxia católica definida quasi sempre a seu jeito pelos seus próprios e vigorosos teólogos; sempre a mesma, também, nos seus esforços de absorção de prestígio dentro e fora da Igreja. Esforços que no Brasil, como noutros países da América, levaram a Companhia a conflitos com os governos, com o próprio Rei, com os bispos, com as outras religiões ou ordens. E as "missões" ou "reduções", cuja sombra de obra monumental ainda hoje se proteja sôbre a paisagem e a cultura do extremo Sul do Brasil, dificilmente podem ser apresentadas como exemplo de técnica persuasiva de evangelização e de método de assimilação lenta de uma lenta de uma cultura por outra. Ao contrário: nelas se antecipou, do ponto-de-vista de pura experimentação sociológica de formas, a técnica moderna de sujeição por todos os meios - inclusive a reeducação da gente grande através das crianças - de grandes massas humanas a determinados modos de vida e a estilos improvisados de associação e de arte considerada social; de rápida arregimentação das massas em grupos operosos de artífices. Artífices quasi sem tradições de grupos, por um lado, e sem espontaneidade individual na sua expressão artística e religiosa, por outro: a pessoa de cada um sacrificada ao interêsse considerado geral; e êsse interêsse imposto quotidianamente ao todo pelos executores da ortodoxia sociológica desdobrada da teológica. A "história dolorosa das reduções jesuíticas" a que se refere Euclydes - tomando vicàriamente por um instante as dôres do indígena do qual ficou até hoje o grito romântico: "me mata mas não me reduz" - é, ainda, um capítulo a escrever na história antropológica dos primeiros contactos dos europeus com os ameríndios; e também um capítulo na história das grandes experiências sociológicas não só de economia como de cultura dirigida. E quando êsse difícil capítulo da história da cristianização da América e da socialização do mundo moderno fôr escrito, é possível que se confirme a sugestão esboçada aquí: nas "reduções", os jesuítas se anteciparam em métodos de arregimentação de massas, empregados na civilização rápida de povos chamados naturais - métodos verdadeiramente admiráveis, na as pureza técnica, como esforços de ordenação externa e até certo ponto interna da vida - a modernos experimentadores da Europa. A atualidade da técnica dos jesuítas das "reduções" é vivíssima: na América êles tentaram há três séculos, com povos primitivos, o que agora se tenta na Europa como povos de cultura avançada. É certo que para Euclydes da Cunha o resultado da obra jesuítica das "missões" ou "reduções" foi "matar", pelos menos um povo: o paraguaio (A' Margem da História, pág. 342). Conclusão que me parece tão exagerada quanto, no sentido contrário, aquela outra já citada: de que na América os jesuítas só fizeram seguir "a trajetória retilínea do bem", tendo sido todos uns Anchietas cândidos e seráficos. Na história das grandes experiências sociais no sentido da planificação maciça da vida humana, os padres da Companhia - repita-se - teem lugar de relêvo entre os pioneiros, pela obra realizada na América com um vigor que muitas vêzes contrariou o desenvolvimento do Brasil na nação mestiça e na cultura plural e democrática que é hoje: mas que foi, entretanto, obra monumental; e não só de destruição como de ordenação de vida. Mostraram aquêles padres - talvez mais "mágicos" do que "lógicos" - três séculos antes de Pareto, de Sorel, de Marx, o que se pode conseguir pela violência inteligentemente empregada e pela utilização de novos mitos, no sentido da despersonalização de homens e da sua socialização rápida. Uma experiência de enorme interêsse para as ciências sociais. Pede um estudo à-parte. Vários críticos modernos, especializados no trato mais jornalísticos do que científico de assuntos sociológicos e políticos, ao comentarem organizações atuais da Europa, não hesitam em filiá-las, talvez com precipitação, à tradição do método jesuítico de ação dissimulada e sinuosa, mas penetrante e eficaz (tradição limitada arbitràriamente por Euclydes da Cunha à história européia da Companhia): tal o caso de Elizabeth Wiskemann, em recente artigo no The Spectator, de Londres (12 de janeiro de 1940), intitulado "The Jesuits to-day". E o professor Harold Laski, cujo nome reúne à responsabilidade de escritor a de mestre respeitado, em universidades inglesas e americanas, de direito público, no livro Communism (Home University Library, 1927), compara os comunistas russos, no seu uso alternado de persuasão e de fôrça externa, com os jesuítas. Com os jesuítas na Espanha e com os jesuítas na América do Sul. A verdade é que os S. J. na América do Sul não foram os homens cândidos da generalização de Euclydes da Cunha, mas, vários dêles, astutos e sutís; e alguns duros e até violentos. Difìcilmente se imagina um Antonio Vieira - intrigante como êle só e tipo por excelência do "diplomata secreto", tantas vêzes às voltas com hereges e em confabulações quasi idílicas com judeus ricos de que o historiador João Lúcio de Azevedo pôde surpreender traços interessantíssimos - dentro da classificação de "cândido misticismo". Nem era tão cândido o próprio Anchieta que desconhecesse a necessidade realìsticamente pedagógica de empregar no trato com os índios do Brasil e na sua educação a palmatória ou a vara. A ação da Companhia de Jesús na América colonial - e dizemos na América porque ela primou em ser transnacional, na América do Sul identificando-se de preferência, mas sempre de acôrdo com suas necessidades e aspirações, com o interêsse espanhol, contrariando mais de uma vez o dos portugueses - é fenômeno diante do qual o estudioso ou o observador encontra hoje imensa dificuldade em conservar-se calma e objetivamente crítico. Nada mais ridículo nem mais irritantemente vulgar que a atitude dos que, em face da capacidade revelada pelo jesuíta, na América como na Europa e no Oriente, para levantar obras verdadeiramente monumentais, se fecham maçônicamente a tôda a admiração que o esfôrço extraordinário dos padres da Companhia desperta. Mas no Brasil o extremo oposto é que tem prevalecido; de modo que o menor esbôço de crítica à ação jesuítica entre nós - crítica histórica completada pela crítica psicológica - ou a menor tentativa de interpretação sociológica daquele esfôrço, ainda que simpática à Companhia e até impregnada de admiração pelos seus grandes missionários, toma o ar de um ataque ou de uma oposição sistemática à S. J. De Euclydes da Cunha não se pode dizer que, no seu artigo cheio de ternura por Anchieta, nos tenha deixado um esbôço sequer de interpretação crítica da Companhia de Jesús nas suas relações com o Brasil, com o ameríndio, com o mestiço, com o africano. Nada que se aproxime da análise iniciada por Gonçalves Dias, o indianista de quem o exagêro indianófilo fêz um agudo observador da ação jesuítica na América lusitana, sensível aos aspectos - geralmente esquecidos - da opressão do índio em algumas das "missões" e de sua artificialização em cristão in vacuo. Análise esboçada na obra em que o poeta maranhense revelou cultura científica ao lado de uns começos de humanismo sociológico e de um brasileirismo amplamente cultural - e não apenas político ou estreitamente cívico - surpreendentes para a época. Dentro de semelhante orientação, teria de encontrar, como de-fato, encontrou, aspectos da obra jesuítica em conflito com os interêsses autênticamente brasileiros de organização social democrática e de cultura pluralista. É pena que justamente o manuscrito do estudo especializado de Gonçalves Dias sôbre os jesuítas no Brasil tenha desaparecido. Mas o que nos deixou a respeito daqueles missionários e de suas relações com os indígenas é fortemente sugestivos. O maranhense se antecedeu a Euclydes, na fixação de pontos de partida importantes para o estudo do pluralismo cultural brasileiro, cujo início o jesuíta, com seus planos de segregação de uma raça inteira para seu aperfeiçoamento em devotos da Companhia, contrariou poderosamente, ainda que sob a influência de boas e piedosas intenções evangélicas. Lògicamente é quem devia ter continuado o trabalho de Gonçalves Dias, sôbre as relações dos missionários com os indígenas: Euclydes da Cunha. O trabalho de Gonçalves Dias e o de Couto de Magalhães. Não o continuou. Deixou-nos, apenas, sôbre o assunto, alguns reparos críticos de rara lucidez, entre generalizações perigosamente enfáticas. Não digo reparos de absoluta objetividade porque Euclydes da Cunha tinha o seu ponto-de-vista: o da formação brasileira. E o ponto-de-vista é, num estudioso de assunto histórico-social, aquêle "aspecto subjetivo" da definição de Farris da Personalidade com relação à cultura. A história da Companhia de Jesús no Brasil não se fará nunca, sem que à obra de um Padre Serafim Leite - notável pela abundância de sua documentação, reunida, selecionada e interpretada do ponto-de-vista jesuítico - corresponda o alongamento e o aprofundamento dos estudos de Gonçalves Dias, Couto de Magalhães e João Lúcio de Azevedo. Entre êsses estudos, as páginas de Euclydes ligadas ao assunto vivem pela intensidade do "são brasileirismo" que as anima. "São brasileirismo" creio que para o criador da expressão - Sylvio Romero - terá incluído "espírito crítico"; e êste nem nas páginas mais subjetivas, pessoais e nacionalistas do autor dOs Sertões, desaparece de-todo. É o que explica o fato do enternecimento pela figura de Anchieta não ter feito dêle o louvador sem discriminação nem reserva do jesuíta na América que foi Eduardo Prado. Aliás, a própria atitude dos que hoje se aproximam do assunto do ponto-de-vista jesuítico mas com espírito crítico e, tanto quanto possível, científico - o caso do erudito autêntico que é o Padre Serafim Leite - já se vai tornando, em Portugal e no Brasil, aquela atitude de discriminação característica de tôda análise de história social orientada cientìficamente. Digo em Portugal e no Brasil, porque noutros países semelhante atitude já não é novidade nenhuma entre os padres que s e ocupam com seriedade de assuntos históricos; e em 1933 um ilustre jesuíta, o Padre H. Heras, estudioso da história da Companhia na Índia, pôde escrever, em resposta a críticas do historiador Boies Penrose aos métodos de conversão empregados pelos S. J. no Oriente - crítica que constam da introdução escrita por Penrose a documentos do século XVII reunidos no livro Sea Fights in the East Indies in the years 1602-1639 (Harvard University Press, 1931) - palavras que aquí soaram escandalosas: "O autor é êle próprio Jesuíta, mas o primeiro a reconhecer os defeitos dos seus confrades, desde que bem sabe que embora todos êles se esforcem para adquirir santidade, nem todos são santos, e consequentemente podem errar e teem efetivamente errado em muitas ocasiões". Palavras que no original inglês se encontram á página 2 da introdução do Padre Heras ao seu ensaio The Conversion Policy of the Jesuits in India (Bombay, 1933). Fixam uma atitude que é hoje, entre nós, brasileiros e portugueses, a do Padre Serafim Leite; mas êle quasi sòzinho entre os jesuítas brasileiros, portugueses e indianos; e, principalmente, entre os seus apologistas leigos menos letrados, constituídos numa espécie de seita que um malicioso já chamou de afro-brasileira, tal o seu simplismo intelectual. São extremistas que pretendem fazer do passado da Companhia da América história sagrada, da qual só se possa e se deva dizer bem. Euclydes da Cunha, pelos seus reparos á ação dos jesuítas, não só na Europa como na América, é dos que os expoentes de semelhante extremismo - se lhe conhecessem bem a obra - colocariam entre os "inimigos da Igreja" e até do Cristo. Não porque faltasse a Euclydes admiração pelo esfôrço dos jesuítas; mas porque essa admiração não foi absoluta. Quando a verdade parece ser que Cristo teria aprovado antes a política de contemporização com as culturas indígenas dos portugueses na América e dos próprios jesuítas no Oriente - política de que resultou, no continente americano, o Brasil vasto, pluralista e democrático de hoje - do que a de segregação, dos mesmos jesuítas - no Paraguai, nos Sete-Povos e no Grão-Pará - e da qual, evidentemente, não teria resultado o Brasil nosso conhecido. Quando muito alguns Brasís isolados. Aquí entra o subjetivismo brasileirista na interpretação da história da Companhia e da história do Brasil. Dêsse subjetivismo a obra de Euclydes está impregnada. Dentro dêsse subjetivismo de brasileiro, mas, ao mesmo tempo, com objetividade na análise particular de assuntos sociais, é que Euclydes da Cunha dedicou tão grande atenção ao problema da terra e do homem do Brasil. Ora temendo a incapacidade do mestiço para progredir dentro dos padrões de progresso da nossa época e num meio físico como o do Brasil tropical - meio quasi tão hostil ao mestiço e ao próprio indígena quanto ao branco pela "copiosa exuberância de vida vegetal"... "favorecida por um ambiente impróprio à existência humana"; ora otimista e desanuviado de "temores vãos", proclamando as virtudes - até contra possíveis tentativas de ocupação militar do país - dos "destemperos sertanejos dos Estados do Norte, que há vinte anos estão transfigurando a Amazônia" ("Contra os caucheiros", Contraste e Confrontos, pág. 233) e apontando ao Brasil e necessidade da "redenção maravilhosa dos territórios", pelo emprêgo, por nós próprios e numa obra que se poderia chamar hoje de autocolonização, das técnicas desenvolvidas nos trópicos pelos povos imperialistas em "milagres" - a expressão é de Euclydes - "da engenharia e a biologia industrial". ("Plano de uma cruzada", Contrastes e Confrontos, pág. 177). Poderia ter acrescentado - da higiene, da administração, da saúde pública, da medicina social. Que tudo isso pode e deve ser mobilizado a favor da redenção dos territórios e dos povos considerados inferiores de modo absoluto quando sua inferioridade é a-final relativa. Redenção, no caso dos nossos territórios e das nossas populações indígenas e mestiças mais desprezadas, não só de largo sentido humano, cultural e social, mas brasileiro. Êste último sentido nunca faltou ao engenheiro social animado de ideal político que foi Euclydes da Cunha. Para êle, a assistência àquelas populações e a redenção daqueles territórios não eram obras inspiradas numa vaga piedade humana, por um lado, nem numa mística de progresso material ou de tecnicismo puro, por outro. Quando se refere, por exemplo, à região entre o Madeira e Javarí como "remotíssimo trecho da Amazônia onde não vingou entrar o devotamento dos carmelitas" nem o que chama "a absorvente atividade meio evangelizadora, meio comercial dos jesuítas" ("Entre o Madeira e Javarí", Contrastes e Confrontos, página 234), trecho de território brasileiro agitado depois - nos últimos trinta anos do século XIX - por "vertiginoso progresso", é para salientar a necessidade da engenharia e da técnica serem utilizadas a favor da unidade brasileira, não deixando o Brasil zonas como aquela, remotas mas progressistas, isoladas do resto do país: acabariam destacando-se de nós. A preocupação brasileira. O ponto-de-vista brasileiro. O sentido brasileiro dos problemas de geografia e de sociologia. A mística da unidade brasileira a inundá-lo de uma ternura especial pelo indígena, pelo caboclo, pelo nativo, pelo Amazonas, pelo Acre, pelo Ceará, por Anchieta, por Diogo Antonio Feijó, por Floriano Peixoto, pela viação férrea, pelo telégrafo, pelo Barão do Rio Branco. Brasileirismo que foi o principal "aspecto subjetivo" da obra de Euclydes da Cunha: a marca mais forte de sua personalidade em relação com a cultura científica e técnica do seu tempo e com a acadêmicamente humanista e aristotélica do passado, pelo qual se alongou sua análise de estudioso de problemas sociais. O seu socialismo não o desprendeu do Brasil. Não foi nunca, é certo, um nacionalista estreito. Mas não seguiu o conselho daquele espanhol, adepto do amor livre, que recomendava às novas gerações a adoção dessa e de outras liberdades mais ou menos sedutoras: mas pelas filhas dos outros; não pelas suas. Atitude muito de certos teóricos do socialismo, por um lado, e do cientificismo, sociológico e histórico, por outro: recomendam a objetividade absoluta aos outros - principalmente aos literatos dos países pequenos. Êles, porém, conservam-se terrìvelmente subjetivistas com relação às suas poderosas pátrias ou semipátrias; ou aos seus sistemas ideológicos ou semiideológicos. Fonte: FREYRE, Gilberto. Atualidade de Euclydes da Cunha. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1941. 59 p. |