|
|
|
O Brasil não nasceu apenas cheirando a pitanga: ibirapitanga ou pau-brasil. Nasceu com portugueses de 1500 defrontando-se com índias morenamente nuas à sombra de cajueiros; com a Primeira Missa sendo rezada sob o verde dessa sombra, no tempo de safra, salpicado de amarelo ou de vermelho; sob o signo do caju tanto quanto o da pitanga que lhe deu o nome sem ter se tornado parte tão íntima do seu ser nacional e até transnacional. O caju seria uma presença mais envolvente que a da pitanga na vida brasileira. Na vida, na economia, na cultura. Antes de descoberto o Brasil por portugueses, já o ameríndio descia do interior às praias para, tempo de safra, alimentar-se, nutrir-se e até como que instintivamente medicar-se chupando ou saboreando caju. Pois, rico o caju em vitaminas, delas supria o nativo como se desempenhasse magicamente função que, séculos depois, seria identificada por nutrólogos de saber científico. Certo médico, de Pernambuco, o Dr. Cosme Sá Pereira, antecipou-se ainda no século XIX, à consagração, por uma ciência brilhantemente nova, do caju como fonte de vitaminas. E proclamou, em dias remotos, em palavras simples porém enfáticas, essa sua virtude, já tudo sugere - repita-se - que já conhecida pelo ameríndio pré-científico porém instintivo e telúrico nas suas premonições. Tão telúrico que até o tempo contava pelas safras do cajueiro. Quando ele dizia ter vivido tantos cajus era como se dissesse, em linguagem civilizada, tantos anos de calendário ou de cronologia erudita. Tal a força telúrica dessa noção de tempo ligada pelo ameríndio do Brasil ao caju e às suas safras que, dos primeiros contactos do civilizado com esse ameríndio, sobreviveria na linguagem do europeu abrasileirado e, depois, na do brasileiro civilizado, o modo agreste do indígena contar o tempo. Tornou-se corrente entre brasileiros, a expressão pitoresca "colher mais um caju", para significar, na vida de uma pessoa ou de uma instituição, mais um ano de existência. O que indica quanto de existencial o caju tornou-se para numerosa gente do Brasil já europeizado. Pois, o que há de mais significativo na existência de um povo, que o seu sentido de tempo? Que o modo de contá-lo? Ligado a esse sentido de vida-tempo é que o caju se tornaria, no Brasil civilizado, por vezes com projeções transbrasileiras, suco, refresco, doce, licor, vinho, batida, símbolo - inclusive, na caricatura política, do próprio segundo imperador do Brasil, Dom Pedro II - e a castanha do caju, confeito, peça de jogo infantil e também símbolo. Registre-se que da resina do cajueiro se vem fazendo no Brasil cola para grudar coisas diversas; que a flor do cajueiro há quem a considere a mais cheirosa das flores brasileiras do mato sendo célebres versos a seu respeito como os que falam de "cajueiro pequenino carregadinho de flor", que a árvore, na verdade de ordinário antes pequenina que imponente, cresce retorcendo-se, mais horizontal do que verticalmente com seus galhos prestando-se às primeiras travessuras agrestes de menino ainda pequenos; que Cajueiro é, no Brasil, nome de família; que há uma chuva, no Nordeste, que se chama dos cajus; que há, no mesmo Nordeste, quem misture a fruta do cajueiro, cortada em pequenas talhadas, em vez de laranja, à muito brasileira feijoada e também quem nela injete cachaça para chupar um caju assim misto; que a castanha tanto é apreciada quando assada de modo rústico como sob as formas sofisticadas de castanha, aperitivo de mesa fina, ou de castanha confeitada. Além do que, há folhas de cajueiro e cajus estilizados em desenhos como os de Joaquim Cardoso; cajueiros pintados em óleos e aquarelas como os de Telles Júnior e Baltazar da Câmara; cajus em Talha, em jacarandá e vinhático, como os que saem de cornucópias em bufetes ou espaldares de sofás, em obras primas de grandes mestres de marcenaria, dos dias de esplendor nativista dessa arte no Brasil. Um deles o alemão abrasileirado, até o ponto de se ter tornado um nativista com relação a móveis, Spieler. Com relação a móveis, isto é, madeiras para a talha e motivos de talha na simbologia e na decoração de móveis, com o caju tendo se tornado, neste particular, seu motivo predileto. Nota-se do cajueiro que, como tipo weberianamente ideal de árvore pode ser considerado equivalente vegetal do homem brasileiro como expressão de "homem cordial": o cajueiros seria dentre as árvores brasileiras a por excelência brasileiramente cordial. Sem ser majestosa mas pequenina - como se diz em verso célebre - é confraternizante: especialmente tratando-se de crianças e de gente pobre. Muita "casa de caboclo" é a árvore amiga que tem ao lado, servindo seus galhos de umas como pernas de tios, para as crianças se exercitarem nas primeiras acrobacias. Pode-se, assim, falar de uma quase simbiose, vária e complexa, Caju-Brasil; e, partindo dessa espécie de simbiose, de uma significativa associação do caju com o homem, desde a descoberta do Brasil: com sua cultura, com seu ethos, com seu comportamento. Não só do homem ocidental ou europeu tão afetado por esse acontecimento: a descoberta do Brasil após a qual a mandioca, a rede, o tabaco se acrescentariam á vida dos civilizados. Também à vida do homem de outras partes do mundo. Do oriental e do africano, aos quais o português, descobridor do Brasil e pioneiro de contactos europeus com Áfricas e Orientes, não tardou a comunicar, com a mandioca, o caju. Explica-se assim que para alguns europeus o caju seria indiano e não brasileiro, de tal modo, na verdade, o cajueiro desde dias remotos se incorporou, levado do Brasil pelo português, à paisagem e à vida da hoje União Indiana. À paisagem, à vida, e, de modo muito específico, á economia, sendo hoje essa nação asiática maior exportadora que o Brasil da castanha do caju, mestra da técnica de preparação dessa castanha para mercados europeus que muito a valorizam e recebem para os doces, os confeitos, os salgadinhos de suas indústrias nesses setores tão especializadas e sofisticadas. Só em anos recentes, Moçambique, da África de formação portuguesa, e, do Brasil, o Ceará, vêm começando a competir, nesse particular, com a índia ou a União Indiana. País onde o brasileiro encontra, surpreendido, matas de cajueiros de origem brasileira que parecem nativas, tal o seu viço. O que não encontra é a projeção, tão do Brasil, do caju ou do cajueiro na arte, na literatura, no folclore, na culinária, na doçaria, na simbologia, nos jogos infantis. Essa projeção é uma das mais fortes características do que pode ser considerado um comportamento brasileiro afirmado em cultura e até em ritos e sentidos de tempo especificamente regionais ou nacionais. Entre esses ritos e esses símbolos, o do vinho ou licor de caju como expressão de hospitalidade brasileira, segundo usos vindos do passado carentemente patriarcal do Brasil quando, nas casas-grandes de engenhos e de fazendas, tanto quanto nos sobrados também patriarcais das cidades mais antigas, o visitante era obsequiado por esse vinho ou com esse licor, como sinal de serem benvindos. Do caju - em anos menos remotos, objetos de estudos científicos e de considerações eruditas - falam as primeiras crônicas escritas sobre o Brasil e no Brasil, além de livros, também reveladores, de estrangeiros que primeiro registram impressões da natureza e dos costumes indígenas da terra exótica: num deles, o do frade franciscano Thevet, aparece o que se supõe o primeiro desenho de caju a acompanhar texto impresso europeu. Falam as primeiras apologiais, em prosa e em verso dessa natureza tropicamente colorida. Colorida pelos vários pardos da cor da pele de nativos idilicamente nus tanto quanto pelos vários verdes do seu arvoredo: um então vasto e desconhecido arvoredo que vinha até quase dentro das águas do mar. Dentre esses vários verdes parece que se destacava o que mais exprimia o viço da natureza da terra recém-descoberta: o do cajueiro. Verde salpicado de vermelhos e de amarelos de frutas que não tardariam a conquistar o favor e até o entusiasmo de adventívios: gente encanada pelo que, no futuro Brasil, desde a descoberta por Cabral, passou a ser a revelação, a europeus, de um quase paraiso tropical. Source: FREYRE, Gilberto. O Caju, o Brasil e o homem, nota preliminar de Gilberto Freyre. Brasília: Centro Nacional de Referência Cultural,[ s.d.]. |