EM LOUVOR DE MESTRE THALES DE AZEVEDO


     Os modernos estudos de Antropologia cultural no Brasil vêm tendo no professor Thales de Azevedo um dos seus melhores cultores. Seus trabalhos são expressões de um saber sério e de uma elevada consciência de cientista que é também humanista: humanista científico.

      Daí serem caracterizados por uma idoneidade que os recomenda à atenção e ao respeito dos estudiosos brasileiros e estrangeiro dos assuntos que o mestre baiano nêles vem versando com inteligência e com espírito científico. Particularmente os que se referem ao comportamento religioso daquelas populações do nosso País, cujo Catolicismo nem sempre terá sido, ou será, o estritamente ortodoxo, sem, por isto, deixar de ser expressão de religiosidade cristã; e como tal, merecedor de algum aprêço e nunca do total repúdio, de pares do antropólogo ou do sociólogo, mesmo quando – como é o caso – êsse antropólogo ou êsse sociólogo seja católico erudito.

      Há quem, atualmente, pretenda, como católico, desdenhar do chamado Catolicismo folclórico que constitui boa parte do Catolicismo brasileiro, considerando-o apenas superstição; e como superstição, de todo desprezível do ponto-de-vista religioso. Não será a atitude, nem genuìnamente católica, nem mais de acôrdo com as perspectivas, sôbre o assunto , de quantos estudiosos se aproximem do referido aspecto do comportamento humano com o afã antropológico ou sociológico de compreendê-lo. De compreendê-lo e articulá-lo, assim compreendido, com outros aspectos da configuração sócio-cultural, além de psico-social, da qual não deve ser arbitràriamente destacado ou desligado.

      Dos trabalhos do professor Thales de Azevedo parece-me certo dizer-se que o critério dominante nêles é, como nos estudos de outros cientistas sociais de hoje, o integrativo. Donde não considerarem êsses cientistas sociais assunto algum à parte de suas correlações com o todo ou com o conjunto a que pertence. Não se fecham em especializadores separatistas.

      É sob êsse critério que atualmente se desenvolve no Brasil, como noutros países, a atividade daqueles pesquisadores sociais complexos. No Professor Thales de Azevedo essa atividade é complementar da de mestre ilustre de sua especialidade. É um dos mais notáveis professôres da Universidade da Bahia.

     Nêle, o didata e o pesquisador vêm sendo inseparáveis: um enriquecendo o outro. Os seus discípulos lhe devem uma dupla iniciação: em conhecimentos teóricos de Antropologia Cultural e em técnicas de pesquisa, de análise, de estudo de fenômenos que constituem a matéria específica de uma disciplina tão importante quanto difícil.

      O Brasil, êste deve ao Professor Thales de Azevedo como a outros cientistas sociais de hoje – contribuições valiosas para o esclarecimento de aspectos peculiares a uma sociedade e a uma cultura que precisam de ser estudadas e interpretadas considerando-se essas peculiaridades; e não simplesmente aplicando-se à situação brasileira teorias e métodos de outras origens e de validade condicionada à suas origens. Não há exagêro em estimarmos algumas dessas contribuições como valiosíssimas, para êsse seu alto valor concorrendo o fato de serem estudos desprendidos daquele ideologismo mais ou menos sectário que vem prejudicando outros estudos sociais, de pesquisadores brasileiros também modernos.

      No Professor Thales de Azevedo, o espírito de humanista científico vem se sobrepondo a idealismo deformadores ou perturbadores da independência, da objetividade, da idoneidade do genuíno pesquisador social; ou do mestre de ciência social fiel à sua missão de educador ou de orientador da mocidade universitária que é, há anos, em proveito do seu Estado e do seu País. Não que se tenha de dizer que, como mestre e pesquisador, mantém aquela fria neutralidade, aquela indiferença quase álgida a valores, aquêle cientificismo hirto que são o estremo oposto aos ideologismos absorventes. Tem atitudes ; não vem hesitando em opções quanto a valores e sabe-se de posições suas. De brasileiro. Em face de críticas levianas ao seu País, que não deixam dúvida quanto ao sentido ético de suas responsabilidades de intelectual.

      Não creio que exista hoje, no Brasil, cientista social consciente de sua responsabilidade intelectual que não se sinta no dever de homenagear, num mestre como Thales de Azevedo, virtudes que tôda uma geração de intelectuais brasileiros , especializados nas chamadas Ciências do Homem, consideram indispensáveis aos cultores das mesmas ciências; ao seu ensino, à sua consolidação num ramo de conhecimentos que, ao seu valor, além de científico, humanístico, juntam a importância que começaram a ter, no nosso como noutros países, para o esclarecimento de homens públicos, líderes industriais, líderes religiosos, educadores, como guias de atividades prática de interêsse nacional.



Source: FREYRE, Gilberto. Em Louvor de mestre Thales de Azevedo. Salvador: Universidade da Bahia, 1970. p.17-19.

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