MUSEU DE ARTE POPULAR DE PERNAMBUCO HÔRTO ZOOBOTÂNICO DE DOIS IRMÃOS


     Muito feliz a iniciativa de acrescentar-se ao Hôrto de Dois Irmão um museu de arte popular da região, juntando-se assim a uma das paisagens mais sedutoras do Recife os atrativos de uma arte, como é, em geral, a popular, particularmente ligada, pelos motivos e pelo material de que se utiliza, a natureza regional em suas formas mais espontâneas. Pois quem diz arte popular diz em Pernambuco ou no nordeste, boneca feita de sabugo de milho, santo feito de pau de cajá, cachimbo feito de barro: coisas feitas amorosamente, rùsticamente, de árvore, de vegetal, de terra; arte em tudo regional; arte tão próxima da natureza que cheia mais a árvore, a planta, a terra que a atelier ou a fábrica.

     Para uma arte assim franciscanamente irmã da natureza e do mato, não se poderia conceber melhor ambiente que o do já antigo parque da companhia d'água: parque há meses em trabalhos de renovação; e essa renovação, em harmonia com o seu passado e com a sua ecologia. Tanto o diretor do Hôrto como o paisagista de jardim que se empenham em renová-lo sem desfigurá-lo, são recifenses de tal modo identificados com passado e a natureza do Recife, que, sob seus inteligentes cuidados, o Hôrto de Dois Irmãos está salvo do perigo de descaracterizações lamentáveis. Não parece ser outra a orientação das superiores autoridades estaduais, municipais e federais que, unido-se agora, em vez de se guerrearem balcânicamente, em tôrno de um valor comum como é o largo e velho parque, se mostram dispostas a tratá-lo como uma necessidade recifense, pernambucana e brasileira; e não como um simples luxo municipal ou uma excrescência suburbana ou um anexo de burocracia agronômica. Assim considerado, êle se tornará o parque dinâmicamente ligado à vida da cidade e da região que deve ser - repouso para a gente de trabalho, recreação para meninos e grandes necessitados de espaço para seus brinquedos e seus jogos, refúgio para idílios de noivos e ternuras de namorados, abrigo para os muitos recifenses de São Pedro, Santo Antônio e São José hoje quase sem jardins, mesmo pequenos, onde leiam tranquilamente ao ar livre e à sombra de gameleiras amigas, seus livros, suas revistas, seus jornais, escola de botânica e de zoologia, onde brasileiros e estrangeiros agradàvelmente se iniciem no conhecimento de plantas, árvores e animais do nordeste. Escola também de arte popular da região, certo, como é, que todo museu digno dêsse nome é na verdade uma escola viva; e deve instruir seus visitantes e não apenas diverti-los com o pitoresco das suas coleções.

     Já estava tardando essa ligação viva, cotidiana, dinâmica, do parque com a cidade. Não era justo que continuasse a faltar ao recifense um hôrto como deve ser o de Dois Irmãos: a serviço pleno da população urbana e dos brasileiros de vários Estados e estrangeiros de várias origens que chegam ao Recife curiosos e até gulosos de natureza tropical; sedentos de refrescarem os olhos com os encantos de uma paisagem para êles fascinantemente exótica, como é a do nordeste úmido e tropical do Brasil.

     Tiveram os velhos reis de Portugal, do tempo do Brasil-Colônia, sentido exato do dever que lhes incumbia de proteger nesta parte da América a natureza tropical e de enriquecê-la com valores mandados vir de outras terras. Explica-se assim que em época ainda remota tenha se fundado em Olinda um hôrto que na bôca do povo se tornou "Hôrto D'el-Rei".

     Hôrto do qual o de Dois Irmãos deve ser considerado o bom continuador. Justiça se faça aos brasileiros que assumiram em Pernambuco a direção dos negócios provinciais após a independência: preocuparam-se com as árvores da província. Cuidaram de transferir de Olinda, já decadente, para o Recife, capital exuberante da nova província, o hôrto ali fundado pelo govêrno português. A êsse respeito, é de interêsse histórico a ata da oitava sessão do Conselho do Govêrno de 27 de março de 1830, presidida por Joaquim Jorge Pinheiro Vasconcelos: ata publicada no Diário de Pernambuco de 20 de julho do mesmo ano. Aí se registra que um dos conselheiros, o deão Bernardo Luiz Ferreira "lembrou que se devia tomar mui particular cuidado no hôrto botânico de Olinda, fazendo-se ali um viveiro de plantas, árvores e frutos exóticos e indígenas, mais raros, para serem distribuidos pelos particulares". Como o resto da ata é de interêsse para a história do hôrto vou também transcrevê-lo: "O Excelentíssimo Sr. Presidente informou que acabava de chegar da Côrte um botânico encarregado da direção d'aquêle hôrto e Lente da Cadeira de Botânica, e que elle por si, e pela Junta da Fazenda concorreria com eficácia para facilitar e remover todos os embaraços que elle houvesse de encontrar para tão útil estabelecimento. E que como houvesse ordem positiva do Thesouro para a Junta da Fazenda não fazer despesa alguma, senão mandada em Lei, elle faria examinar se na sua Secretaria existia alguma ordem que autorisasse taes despesas e que, não havendo, representaria ao Governo pedindo a sua autorização. O mesmo Sr. Presidente ficou de pedir aos Excelentissimos Presidentes do Maranhão e do Pará algumas plantas mais raras, e naturaes daquellas Provincias". Da ata da 9ª Sessão, publicada a 21 de julho de 1830 no mesmo Diário consta: "Continuou a discussão sobre o hôrto botanico de Olinda; conheceu-se a necessidade de ser transferido do esteril e impróprio terreno em que se acha para outro melhor na margem do rio Capibaribe, no lugar da Capunga, conforme já havia sido lembrado em o ano de 1828 por este Governo e approvado por S. M. I.".

     Talvez deva se lamentar que não tenha sido transferido no velho ano de 1831 para a Capunga - para uma daquelas verdes margens suburbanas do Capibaribe louvadas pelo francês Tollenare - o hôrto que em Olinda já se tornara centro de uma obra notável de admiração, nesta parte do Brasil, de plantas do Oriente e da África, e é estranho que durante algum tempo o assunto tenha deixado de preocupar os responsáveis pela administração da Província. Se a tradição olindense se reator afinal, em Dois Irmãos, foi êsse um esfôrço antes de iniciativa particular que de Govêrno, mas que veio a ser prestigiado por governos esclarecidos.

     Governos esclarecidos vêm ampliando o hôrto de Dois Irmãos de jardim apenas botânico em zoo-botânico, conforme sugestões de recifenses por algum tempo considerados ranzinzas ou exagerados em seus favores regionalistas. Vêm acrescentando a essas suas funções, as de parque lírico e recreativo. Tudo um tanto sem plano e um tanto sem método, é certo: tanto que às vêzes os namorados têm sido considerados uns intrusos sem direito à sombra das árvores e as crianças outros intrusos sem direito à relva ou à areia. Mas de qualquer modo, o Recife tem hoje em Dois Irmãos um espaço a que se pode dar, sem favor algum, o nome de parque ou de hôrto; e hôrto com alguns recantos deliberadamente líricos e outros para crianças e ainda outros para estudiosos, velhos, convalescentes, contemplativos. Hôrto, cujas possibilidades de desenvolver-se em parque esplêndidamente tropical e funcionalmente moderno são imensas. Apercebem-se delas administradores lúcidos como ainda agora o Secretário de Agricultura do Estado de Pernambuco, o Agrônomo Eudes de Souza Leão Pinto.

     São estas as possibilidades que começam a tomar corpo, com a instalação, sob as boas árvores do já antigo hôrto, de um museu de arte popular que terá a orientá-lo a competência especializada de Abelardo Rodrigues; e a enriquecê-lo de início um grupo de trabalhos de escultura de Abelardo da Hora inspirados de tal modo em motivos autênticamente recifenses e regionais que tem-se a impressão de darem grandiosidade e permanência a esculturas de feiras do interior: esculturas de bois e de homens. Ao museu não tardará a unir-se uma biblioteca; à biblioteca talvez não demore em juntar-se um bom restaurante especializado em cozinha e doçaria regionais. Com o que o hôrto de Dois Irmãos entrará decisivamente em fase nova e dinâmica de sua vida de parque a serviço do Recife, de Pernambuco e do Nordeste.

Texto de MAURO MOTA INGÊNUOS E ERUDITOS

     Que espécie de previsão, essa do crítico José Valadares, depois de ver inaugurar-se o Museu de Arte Popular de Pernambuco em janeiro de 1955?

     "É muito difícil, escrevia êle, prever o futuro de um museu no Brasil. Está numa excessiva dependência da simpatia individual daqueles a que está subordinado. Muitas vêzes, a uma fase de grande atividade e enriquecimento, sobrevém um período de hibernação". (*)

     Tintim-por-tintim, o que aconteceu, tomados, como a "fase de grande atividade e enriquecimento", as visitas, o "interêsse público", os comentários, a ação de comêço, mesmo internacional, do MAP, através das contribuições para o Museu dos Trópicos de Amsterdam, e o Museu de Etnografia de Neuchâtel.

     Orientado por um especialista da categoria de Abelardo Rodrigues, ia ser na plenitude aquilo que Gilberto Freyre, saudando-o no catálogo da inauguração, queria que êle fôsse: "Escola também de arte popular da região, certo, como é, que todo museu digno dêsse nome é na verdade uma escola viva; e deve instruir seus visitantes e não apenas diverti-los com o pitoresco de suas coleções".

     Ia ser também escola, mas não foi. Um ano depois sobreveio "o período de hibernação". Longo. De dez anos. Só interrompido nos últimos dias do Govêrno Paulo Guerra, através de convênio que entregou o MAP à supervisão do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais.

     Do MAP, só restavam as quase ruínas e a lembrança, embora seja injusto dizer-se: a sede passou aquêle tempo todo no abandono.

     Dentro, os cupins encarregaram-se dela. Fizeram um trabalho cúpido nas quatro águas, nas esquadrias, nas madeiras tôdas. Fora, a conspiração destrutiva tinha bons aliados: a chuva e a vegetação sem disciplina do Hôrto de Dois Irmãos, inconformadas com a casa vazia até de paredes, querendo ocupá-las de qualquer jeito.

     A restauração teve de ser completa: das coleções, da casa e do espírito da casa, para conduzi-los ao funcionamento, a exposições permanentes e temporárias, instrutivas sôbre as implicâncias da arte popular até sôbre a erudita, que dela não se abstrai.

     Parta-se mesmo dêsse verbo para uma das escolas mais faladas: a do abstracionismo em artes plásticas. O separatismo da arte popular é só indireto, camuflado pelas deformações. A criação é anterior, afirmada embora entre vaidades e esquivanças. Às vêzes, em resumos: o arvoredo exposto só nas estrias radiculares; o urro do bicho feroz na côr mais violenta e acústica; o canto do canário-da-terra no amarelo menos de pena mais audível. Um bairro e até uma cidade insinuam-se numa gelosia solitária, num bueiro de fábrica ou, menos ainda, na fumaça dêle, sob os condicionamentos ao modo por que a gelosia fôr plasmada ou a fumaça distribuida.

     É êsse o processo da criação ou da recriação artística, de exigências além das visuais da circunscrição dos realistas.

     Poderia chamar-se de arte só visual à pintura - seja a de motivos e expressão tradicionais, seja a de estilos audazes - tantas vêzes beleza pura, saudosismo, crítica social, música, interpretação? Tal equívoco de visualidade ocorre em extremos: do academismo (o antigo e o nôvo) de gôsto e fatura limitadamente universais, i. é., os mesmos em qualquer lugar, ao abstracionismo (o antigo ou o nôvo) quando êste anexa à sua alienação lógica (a das coisas objetivas) a da transubstanciação artística, e atrás dos quadros só fica mesmo a parede.

     Dentro do programa ora retomado, o Museu de Arte Popular cuida dessas separações e dessas aproximações, longe de qualquer bizantinismo. Para transmitir à maioria dos visitantes - escolares, gente mais do povo - o entendimento sôbre as conexões e desconexões entre a arte popular e a arte erudita, para dizer-lhe que talvez esta não existisse sem a outra, sendo o popular a matriz e a substância da erudição nas artes, compreendida a erudição além do eruditismo: sob o aspecto do aprofundamento nos valores mais íntimos das estruturas plásticas, os da escultura ou os pictóricos autônomos.

     Só que, no percurso para o estágio culto, a arte popular não se dilui de todo, guarda, para si mesma, qualquer coisa de particularizante e intransmissível, o aroma e a pureza, que nenhuma técnica deliberada assimila.

     Daí a valorização, nova ainda no Brasil, de "primitivos" e "ingênuos", às vêzes transportada a uma sinonímia sem pé nem cabeça, a fusões e confusões provindas do âmbito comum de elementarismo. Mas elementarismo recorde-se, ambivalente, levado em conta a distância, entre uns e outros, quase de antípodas quanto ao que se convencionou dizer a linguagem plástica. Os "primitivos" marcam-se por expressão meio de pictógrafos, simbolizante e fria; são mais de conversa em particular, de soluções ascéticas. Os "ingênuos" por serem claros e falantes na tradução dos seus colóquios com a natureza, as figuras e a dinâmica ambiente, no relacionamento de seres imaginados ou vivos, na magia de que se entendam sem o entendimento dessa diferença.

     Isso não os vincula ao excesso de conteúdo ou forma. Expressam-se também em sínteses, sem individualizar os objetos e sem desindividualizar-se sob a atração das tendências cultas. O instinto artístico vale mais do que os currículos das escolas de belas-artes e êstes nada significam sem êle. A faisca do talento é capaz de grandes iluminações. Nenhum exemplo histórico mais conhecido e ostensivo do que o de Paul Gauguin. Aos trinta e cinco anos, reage aos convencionalismos de emprêgo e família para entregar-se de corpo e alma à pintura. Faz-se mestre universal sem mestre.

     O que isso mostra? Que o artista, mesmo para chegar a gênio, pode criar-se sòzinho e sòzinho obter as próprias criações mais válidas. Caso do "primitivo" e do "ingênuo" - sem embargo das divergências formais - procedentes da mesma genealogia popular. Ambos compõem o núcleo de pesquisas, estímulos e assistência dêste Museu vigilante na arte popular em si mesma e no que ela apresenta e representa em preservação da cultura do homem tropical desta área. A começar pelo telúrico. Inexiste "côr local" de transferência, industrializada, mas antes sob o domínio de condições ecológicas. Para vê-la e senti-la tem o artista de vê-la e senti-la como ela é, num processo sensível e visório de captura de essências vitais. Como se faz a transfiguração artística senão usando a matéria prima das realidades comuns?

     Recife. Julho. 1967.

     Em outubro de 1966, sendo Secretário da Educação e Cultura o Professor Barreto Guimarães, e o Governador Paulo Guerra concordou em autorizar a assinatura do convênio (mantido pelo seu sucessor, o Governador Nilo Coelho) que colocou o MAP, depois de dez anos sem funcionamento, sob a direção do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais.

     De outubro para cá, o IJNPS desenvolveu os trabalhos de restauração da sede, tombamento, classificação e aquisição de peças de arte popular e mobiliário.

     O MAP, ora reinaugurado, passa a dispor de normas administrativas e meios que lhe permitem cumprir a missão de prestigiar as artes populares e reconstituir, através delas, aspectos da cultura das comunidades nordestinas urbanas e rurais.

     Do acêrvo constam:

     CERÂMICA POPULAR - Vitalino, Porfírio Faustino, Severino de Tracunhaém, Elias, Severino dos Anjos, Zé Caboclo, Zé Rodrigues, Manuel Eudócio, Lídia, Antônia Leão.

     EX-VOTOS - De Santa Quitéria, São Severino dos Ramos, da Capela da Jaqueira, etc.

     IMAGENS - Artistas populares anônimos.

     PINTURA E DESENHO - Rafael, João Alves, F. da Silva, Lula Cardoso Aires.

     BRINQUEDOS POPULARES - Peças em madeira, couro, pano, linha, flandres e palha.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Museu de Arte Popular: Horto Zoobotânico de Dois Irmãos. Recife: [Secretaria de Agricultura Indústria e Comércio], 1967. 11 p.

«