O ESTADO DE PERNAMBUCO E SUA EXPRESSÃO NO PODER NACIONAL:
Aspectos de um assunto complexo


          Suponho que minha presença entre os conferencistas dêste curso se deve principalmente ao fato de ter sido eu o fundador, quando Deputado por Pernambuco, do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. É um centro de pesquisas que há quase quinze anos procura, através do estudo objetivo de problemas regionais em conexão com os nacionais, cumprir esta missão: concorrer para a valorização do homem regional, em benefício do desenvolvimento da comunidade nacional, dando especial atenção ao homem de trabalho das áreas agrárias do Nordeste e do Norte, por virem sendo - segundo pensou o fundador do Instituto - as áreas até então mais desprezadas, quer por governos, quer por instituições não-governamentais.

     Explica-se que, atualmente, a Escola Superior de Guerra - cujo trabalho dispensa palavras de louvor - articule-se, sempre que se volte para o estudo de problemas sociais do Nordeste, com a recentemente organizada Divisão de Recursos Humanos, da Sudene, e com o recentíssimo Grupo de Estudos do Açúcar; e também com o Centro Regional de Pesquisas Educacionais do Nordeste, e, logo que possível, com a Universidade do Recife e com a Universidade Rural de Pernambuco. Mas sem deixar de articular-se principalmente com o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, não só por ser, na matéria, pioneiro e apresentar, entre suas publicações, trabalhos já clássicos pelo seu teor científico, como por continuar a reunir o grupo mais idôneo de cientistas sociais especializados na análise de problemas regionais, ligados aos nacionais; e que são problemas que se referem precisamente à proteção ou à valorização do homem regional, dentro da sua ecologia, como a exata política a ser seguida por um país cuja economia se vem transformando, ùltimamente, através da adoção de inovações tecnológicas, sem que se deva esperar que dêsses processos apenas mecânicos de desenvolvimentismo, resulte aquela valorização essencial do capital humano.

     Para os cientistas sociais do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais não há avigoramento de poder nacional que se processe através apenas do progresso tecnológico, decorrente quer nesta, quer noutras regiões do país, da aquisição ou importação de técnicas modernas e de know-how estrangeiro: impõem-se a valorização dos elementos humanos nacionais, capazes de se tornarem, pelo domínio sôbre essas técnicas, no Brasil, como se tornou o japonês ao modernizar-se e como vão se tornando outros povos em igual processo de modernização, ao mesmo tempo modernos e autênticos, modernos e nacionais: expressões de um poder que seja, de fato, e inteira ou completamente, um poder, pelo que represente de integração de energia humana e de técnica, de inteligência humana e de indústria.

     Ecológica e històricamente, o grupo regional de população brasileira, o tipo regional de homem nacional, que vem sendo estudado pelos pesquisadores do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, é um dos mais ligados ao que se deva considerar, no Brasil, segurança nacional, poder nacional, desenvolvimento nacional. Pois é um grupo de população, é um tipo de homem que, pela sua própria situação geográfica ou pela sua própria condição ecológica, vem sofrendo impactos constantes de influências imperiais ou quase imperiais descaracterizantes e desnacionalizantes, vindas do exterior e comprometedoras da segurança do Brasil no seu todo, a princípio pré-nacional, depois nacional.

     Estamos, no Nordeste, na mais avançada fronteira atlântica do Brasil. Estamos aqui naquela parte do território brasileiro mais próxima da Europa, mais perto da África e relativamente a pouca distância dos Estados Unidos: três possíveis fontes de infecções, quer sócio-culturais, quer simplesmente físicas, das quais, através de pressões ou contágios de várias espécies - políticos, econômicos, militares, físicos ou culturais apenas no sentido restrito da expressão - podem resultar perversões ou deformações do ethos, da cultura e da saúde nacionais brasileiras. Perversões e deformações, comprometedoras da segurança nacional no seu sentido mais lato; ou perigosas para o desenvolvimento brasileiro nos seus aspectos mais capazes de se exprimirem em autonomia e em independência nacionais.

     Ideal - êsse de autonomia e de independência nacionais - que, no mundo moderno, não pode ser - é certo - absoluto: vivemos cada vez mais num, mundo interdependente. Além do que, o brasileiro do Nordeste, pelo próprio fato de ser, no litoral, uma população de fronteira particularmente exposta a influências de várias espécies vindas da Europa, dos Estados Unidos e da África, tem sido e é uma população, por um lado sujeita àqueles perigos de se desbrasileirar sob o excesso de tais influências, por outro lado, beneficiada pelo fato de vir sendo, até certo ponto, enriquecida, através já de séculos, em sua cultura e diversificada em sua etnia, pelas mesmas influências: influências saudáveis quando não se têm tornado excessivas. Vem também o brasileiro de Pernambuco transmitindo a outras populações regionais do Brasil isto desde seus remotos contactos com norte-europeus - valores de origens diversas aqui desenvolvidos, depois de assimilados, em valores capazes de ser úteis ao todo nacional brasileiro, sem risco para sua segurança nem perigo para sua autonomia: o risco e o perigo das invasões de homens ou das infecções culturais descontroladas a que estão sujeitas as fronteiras de qualquer espécie de um país.

     É moda hoje falar-se mais do Nordeste que dos Estados que constituem êsse conjunto regional brasileiro. Boa tendência, a meu ver. Pois Estado é ficção política; região é que é realidade, além de ecológica, sócio-cultural - inclusive econômica - dentre os fundamentos sôbre que assente, para desenvolver-se, um sistema nacional de convivência da amplitude e da complexidade do brasileiro.

     Entretanto, no caso de Pernambuco, deve se considerar o fato de que o Nordeste atual não é senão o Pernambuco dos primeiros tempos de colonização portuguêsa desta parte do Brasil, com uns tantos acréscimos aqui e ali. A Capitania de Pernambuco, ou a Nova Lusitânia do século XVI, incluia grande parte do Nordeste atual. Lembremo-nos dêsse Pernambuco, que incluia parte da Bahia, a Paraíba, Alagoas, o Rio Grande do Norte, tendo a gente dos primeiros núcleos pernambucanos de população se espalhado até o Maranhão, como uma das bases pré-nacionais mais importantes do atual poder racional do Brasil. Estratègicamente importante. Econômicamente importante. Demogràficamente importante. Sócio-culturaimente importante.

     Antes de se fazer sentir como expressão de vigor regional no sistema nacionalmente brasileiro de convivência, Pernambuco se fêz sentir no conjunto pré-nacicnal de fôrças que o gênio colonizador português preparou para ser nação: nação em escala continental. 0 vigor de Pernambuco foi precoce; e teve por fundamento econômico o açúcar, do qual chegou a ser, nos dias ainda coloniais do Brasil, produtor de importância internacional. Com essa sua produção de açúcar, Pernambuco projetou o Brasil na Europa dos séculos XVI e XVII, na qual já se tornara, aliás, conhecido pelas suas madeiras, daqui arrancadas por traficantes franceses: objeto - tais madeiras - de todo um comércio irregular da parte dêsses franceses, afinal sobrepujado pelo comércio de açúcar aqui fabricado: indústria e comércio dominados por portuguêses, assim como a agricultura da cana, desenvolvida em tôrno de casas-grandes e senzalas patriarcais.

     0 açúcar atraiu para Pernambuco - uma vez evidentes os lucros que dava aos seus fabricantes e exportadores - a cobiça holandesa. Para dominar terras tão boas para a produção de artigos então procuradíssimo por europeus, é que os holandeses invadiram Pernambuco no século XVII, resultando dessa invasão - principalmente da resistência a essa invasão - tôda uma série - inclusive a valorização do pôrto do Recife, desde então muito ligado ao desenvolvimento brasileiro - de fatos de importância sociológica, quer para a imediata projeção de Pernambuco sôbre o conjunto de colônias portuguêsas da América, quer para a sua projeção, em tempo mais longo, sôbre o futuro poder nacional do Brasil. Tais fatos marcaram a antecipag6o de Pernambuco sôbre as demais colônias lusitanas do continente americano, como ponto de fixação de ânimo e de sentimentos para-nacionais, através da união de elementos étnicos de procedências diversas, mas todos mais ou menos já Católicos ao modo ibérico, num esfôrço de resistência militar e psico-social a invasões, além de não ibéricas, Protestantes. Semelhante esfôrço foi já um esfôrço com um sentido, em potencial, nacional, de ação: uma antecipada afirmação de um futuro poder nacional: o brasileiro.

     Vem assim, de dias remotos, a tendência de Pernambuco para atuar, no conjunto, a princípio pré-nacional, depois nacional, de forças brasileiras espalhadas em território vastíssimo, com um sentido - naquele primeiro período - já com alguma coisa de nacional, isto é, de resistência ativa a invasores do mesmo território, por serem elementos contrários, pela sua cultura e pelo seu ethos, a quanto se vinha esboçando, em diversos pontos do mesmo território, de uma cultura e de um ethos que alguns estudiosos modernos dêsse fenômeno classificam de cultura e de ethos, em sua expressão geral, lusotropicais, com característicos particularmente brasileiros, entre os gerais. Isto por terem essa cultura e êsse ethos já, se feito notar, noutras partes tropicais do mundo assinaladas pela presença lusitana: principalmente em Cabo Verde e na Índia e, de modo menos incisivo, em alguns pontos da África.

     No Brasil, porém, é que o mesmo ethos e a mesma cultura parecem ter se definido, mais como expressões pré-nacionais, talvez devido ao fato de o sistema de colonização, representado pelas capitanias, ter significado maior facilidade para a afirmação de iniciativas particulares; e estas bastantes independentes do domínio, sôbre elas, do poder real ou governamental português. Pernambuco - a Nova Lutânia - sabemos que foi precisamente a área sob domínio português onde a afirmação daquelas iniciativas particulares se antecipou em obter seus maiores triunfos, através da fundação de engenhos de açúcar que se tornaram os mais prósperos do Brasil inteiro, ultrapassando em importância considerados os vários conjuntos regionais de então - os do Recôncavo baiano e os de São Vicente.

     Era de esperar dêsses triunfos que, além de econômicos, resultassem em implicações significativamente psicosociais - inclusive políticas - concorrendo para que na figura do pernambucano, em geral, do senhor de engenho, em particular se definisse, quase tanto quanto no Bandeirante, embora de modo diverso, uma expressão da figura de brasileiro que, mesmo quando ainda pré-nacional, mostrou-se já brasileiro diferenciado do reinol; e caracterizado pela tendência para atuar e para comportar-se como elemento por vêzes insubmisso a ordens vindas de Lisboa: como elemento - note-se mais - com a consciência de ser necessário à Coroa para a consolidação do domínio português em terras americanas: mais necessário à Coroa, para êsse objetivo, que dela necessitado para sua proteção contra selvagens e estrangeiros. Pois êle, brasileiro pré-nacional e que organizava, com seus recursos, essa proteção, tendo-se tornado desde cêdo mais um colaborador da Coroa que um dependente dela. Mais um elemento de auto-colonização que um simples; comparsa no processo de colonização européia do Brasil.

     De modo que à base do que se possa chamar hoje de pernambucanidade, para caracterizar um ânimo, um estilo ou um modo de ser brasileiros diferentes, em certos pontos, dos baianos ou dos paraenses e semelhantes, em alguns outros pontos, dos paulistas e dos gaúchos, está um precoce sentimento de independência de brasileiro de Pernambuco, ou do pré-brasileiro de Pernambuco, com relação à Europa e um ânimo, por vêzes veemente de auto-suficiência, também com relação à metrópole, que se vêm manifestando no pernambucano, desde o primeiro século de colonização portuguêsa do Brasil; e que, separado polìticamente o Brasil, de Portugal, vem caracterizando, em mais de uma fase da vida nacional, as relações de Pernambuco com a metrópole brasileira e animando o desenvolvimento, em Pernambuco, de iniciativas privadas - destacando-se dentre as recentes a de Delmiro Gouveia, as dos Lundgren, as de Costa Azevedo - benéficas ao todo nacional e ao fortalecimento dêsse todo como poder ou como semi-potência.

     Revoluções pernambucanas - nordestinas - tendo Olinda ou o Recife por centro e Pernambuco como área principal de luta - como a luta dos pernambucanos contra os "Mascates" reinóis, a revolução de 1817, a de 1824, a Praeira - é o que têm significado em grande parte e em vários setores, além do apenas político; uma tendência do pernambucano para resistir a quanto lhe tem parecido excesso de intrusão de poder central nas suas liberdades locais de expressão de vida e de iniciativa; ou na sua autonomia. Daí o republicanismo, claro ou vago, daquelas três primeiras revoluções - um republicanismo, na revolução de 1817, com aspectos, por vêzes, aristocráticos, já presentes, aliás, no movimento contra os chamados "mascates"; e daí, também, o caráter social do movimento praeiro, com o aristocratismo dos primeiros movimentos já contrariado por um democratismo em revolta contra, não apenas um poder central, europeu ou imperial, brasileiro, mas contra um poder local - o do senhor latifundiário e até feudal de terras, de escravos e de moradores - que se vinha extremando na exploração de grande parte da população pernambucana. A Revolução Praeira acrescentou à tradição das expressões pernambucanas de brio em revoltas mais aristocráticas que democráticas, contra abusos, verdadeiros ou supostos, de poder absoluto, estrangeiro ou nacional, contrários aos interêsses pernambucanos, um característico que, desde então, distingue a presença de Pernambuco no conjunto brasileiro de fôrças nacionais: a presença de um ânimo democrático de reestruturação da vida regional e da vida nacional, tendo por vêzes, paradoxalmente, uma forma aristocrática de expressão. Paradoxo que alcançou o seu ponto mais alto em Joaquim Nabuco, representante máximo, no Brasil, de um estilo aristocrático, fidalgo, nobre, até, mas nem por isto menos veemente ou menos incisivo, de atuação revolucionàriamente democrática de homens públicos na vida nacional. Pernambuco criou êsse estilo.

     Medeiros de Albuquerque - que em 1906 já proclamava, em carta circular dirigida a seus colegas da Câmara dos Deputados: "0 Estado pode e deve intervir a favor do trabalhador pobre e desprotegido, para regular as relações com o patrão mais rico, mais instruido e mais poderoso" - foi a continuação, na mesma Câmara, do trabalho pioneiro de Joaquim Nabuco: daquela política, de proteção, ao trabalhador que Nabuco, trinta anos antes de Medeiros, já considerava essencial ao desenvolvimento, no Brasil, de uma autêntica civilização. 0 Padre João Ribeiro, Arruda Câmara, Frei Caneca, Natividade Saldanha, Nunes Machado, Abreu e Lima, Nascimento Feitosa, Lopes Gama, Barbosa Lima 1º, José Mariano, Martins Júnior, José Maria de Albuquerque e Melo, Frei Vital, Oliveira Lima, Artur Orlando, Andrade Bezerra, Ulisses Pernambucano, são alguns dos outros representantes, além de Nabuco, dessa tendência de Pernambuco para ser, no Brasil, a expressão de um pensamento e de uma ação de vanguarda ou de renovação.

     Joaquim Nabuco, em página célebre, em que fixa um dos aspectos mais sugestivos da presença pernambucana, nos dias do Brasil imperial, no centro de poder político dêsse mesmo Brasil. Refiro-me à sua evocação dos então chamados "leões do Norte" - ou de Pernambuco - quando chegavam à Côrte para atuar em postos de representação, distinguindo-se pelo que havia nêles - nas suas figuras, nas suas maneiras, no seu comportamento - de aristocrático, sem que isto impedisse a alguns, pelo menos, de agirem num sentido corajosamente democratizante que por vêzes, na palavra e na ação dos mais ousados, chegou a extremos de palavra e de ação revolucionárias. 0 próprio Joaquim Nabuco - repita-se - foi o que principalmente significou, como deputado por Pernambuco, no Parlamento, do Império: uma presença de aristocrata revolucionário fortemente simbólico do que, já então, Pernambuco representava no conjunto brasileiro de fôrças nacionais: aristocracia, sim, mas através da aristocracia, democracia e democracia revolucionária; o ânimo de luta pelas liberdades locais; o entusiasmo pelas iniciativas, inclusive as de caráter econômico ou industrial; a proteção ao operário como parte de uma política de avigoramento de indústrias mais democràticamente organizadas que a antiga, e, a seu modo, feudal, do açúcar. Daí não dever nos surpreender que a moderna legislação social do Brasil tenha sido obra principalmente - e isto já na República - de outro deputado por Pernambuco: o Professor Antônio Vicente de Andrade Bezerra. Nem de que outros deputados por Pernambuco - os já citados Barbosa Lima 1º e Medeiros de Albuquerque - tenham sido, na Câmara Federal, as vozes que mais se distinguiram, durante a primeira República, na defesa, com repercussão nacional, de um socialismo democrático adaptado a condições ou peculiaridades brasileiras de vida e a aspirações brasileiras de desenvolvimento industrial ao lado do agrário. Nem de que tenha partido de Pernambuco, durante o Govêrno de Estácio Coimbra, a reforma de ensino sociològicamente mais revolucionária, por suas implcações democràtizantes, da sociedade brasileira, que já se fêz no Brasil - a Reforma Carneiro Leão. Levantou-se contra ela, em vários pontos do país, da parte de elementos rotineiros, quer em idéias de educação, quer em idéias de organização social do Brasil, violenta oposição. Mas não tardou a ser seguida, em vários pontos, pelos seus próprios opositores.

     Além do que, partiu de um pernambucano - Oliveira Lima - no comêço dêste século, a iniciativa do primeiro plano de renovação do estilo de diplomacia que vinha sendo seguido pelo Brasil. Oliveira Lima, propunha, há mais de meio século, que essa diplomacia se adaptasse a um tempo caracterizado menos pela simples política que pela política mais sistemàticamente associada a conveniências de caráter econômico, nas relações entre países.

     São fatos, êsses, que vêm sendo um tanto esquecidos pelos historiadores da vida nacional sem, entretanto, deixarem de ser sociològicamente expressivos: sobretudo para quem esteja de atenção voltada para o estudo das relações entre Estados - ou regiões - e o poder nacional, no desenvolvimento do Brasil como um sistema interestadual e, principalmente, interregional, de convivência, no qual o vigor - vigor sócio-cultural, e não apenas econômico - do todo depende das contribuições, além de econômicas, sociais e culturais, das partes, através de valores específicos, próprios de cada uma dessas partes; e que nem sempre - acentue-se - são valores apenas econômicos porém, também, psico-sociais e sócio-culturais, com o elemento econômico, por vêzes, menos significativo, dentro dêsses complexos, que os elementos não-econômicos. 0 que não importa em subestimar-se o elemento econômico em tais complexos: apenas em resistir-se ao simplismo de ser tal elemento considerado o sempre mais importante. Sob êsse ponto de vista, com a decadência - que há anos se acentua - de Pernambuco, como centro produtor de açúcar, num Estado, ainda hoje, vítima de excessos de monocultura latifundiária, estaríamos diante de um pêso quase de todo morto em relação com o poder nacional. 0 que não parece ser o caso. São várias as evidências que Pernambuco dá hoje de ânimo, da parte de vários de seus líderes renovados. Pretendem atualizar e ampliar o Pôrto do Recife e aperfeiçoar as comunicações, modernizar a agricultura da cana e a indústria do açúcar e, sobretudo de acrescentar a essa atividade outras e vigorosas indústrias de importância econômica para o Estado e para o país.

     Deve-se também considerar o fato de demográfica, psico-social e culturalmente Pernambuco continuar a ser - e êste é também, o caso do Pôrto do Recife que, como expressão da capital do Estado, como metrópole regional, desempenha função importante, quer para a segurança, quer para o desenvolvimento nacional - a despeito daquela decadência econômica com repercussões noutros setores de vida, parte não só viva como vibrante do conjunto brasileiro, para o qual vem concorrendo com numerosos elementos, quer de elite - intelectuais, artistas, cientistas, militares, religiosos, homens de govêrno, administradores - quer de massa: soldados do Exército, da Marinha, da Aeronáutica, marujos mercantes, embarcadiços, técnicos médios formados pelas escolas técnicas locais e imediatamente absorvidos pelas indústrias do Centro Sul do país, com prejuizo para o desenvolvimento pernambucano; operários que vêm concorrendo, em grande número, para construções particulares, emprêsas industriais e obras governamentais no Centro-Sul - como as de Brasília -quase sempre com prejuizo para o desenvolvimento pernambucano, privado, com a migração para o Centro-Sul, de tais elementos, de energias humanas no seu período biològicamente mais valioso; trabalhadores rurais atraídos, principalmente entre as idades de vinte e quarenta anos, para trabalhos em terras férteis do Sul como as do Paraná e parL'oeuvres urbanas em São Paulo.

     A êste propósito, impõe-se uma restrição a generarizações ùltimamente ditas e repetidas com insistência por observadores estrangeiros da situação nacional, segundo as quais haveria, maciça ou simplistamente, um Brasil arcaico - o do Norte-Nordeste - em contraste absoluto com o progressivo: o do Centro-Sul. Êsse contraste se verifica, de modo assim absoluto, apenas num setor: o econômico-tecnológico. Pois não nos devemos esquecer de que Pernambuco continua animado, em vários outros setores e, em casos especiais, no próprio setor econômico-tecnológico, por uma flama pioneira e por um espírito inovador e renovador, e por conseguinte, de modernidade, que o situa, ainda hoje, entre os elementos que mais contribuem para fazer o poder nacional brasileiro projetar-se no estrangeiro como meia-potência digna do aprêço mundial pelas suas afirmações de modernidade em várias áreas culturais. É assim que quatro ou cinco dos artistas brasileiros mais notáveis pelos arrojos modernos, ao mesmo tempo que pela substância brasileira, de sua arte, são os pernambucanos, de projeção no estrangeiro, Vicente do Rêgo Monteiro, Cícero Dias, Lula Cardoso Ayres, Francisco Brennand e Aloísio Magalhães. De formação pernambucana é o arquiteto paisagista, conhecido igualmente pelos arrojos de sua modernidade, em todo o mundo culto, Roberto Burle Marx. Em pesquisas relativas a antibióticos, Pernambuco se avantaja hoje a outras partes do Brasil, com os trabalhos do Professor Osvaldo Gonçalves Lima, também de repercussão mundial. 0 que é certo, igualmente, das pesquisas, no setor da fisiologia, do Professor Nelson Chaves, dos estudos pioneiros do Professor Aluízio Bezerra Coutinho sôbre o problema da casa econômica no trópico brasileiro como problema de higiene ecológica, das pesquisas relativas à Medicina Tropical, do Professor Ruy João Marques, das de Micologia, do Professor Chaves Batista, das de História Social, dos Professôres Gonçalves de Melo Neto, Estêvdo Pinto e Amaro Quintas, das de Antropologia, dos Professôres René Ribeiro, Gonçalves Fernandes e Valdemar Valente, das de Geografia, dos Professôres Gilberto Osório, Mário Lacerda, Mauro Mota, e das que vêm realizando antropólogos e sociólogos pernambucanos em tôrno de problemas de Antropologia Tropical - uma sistemática especìficamente pernambucana, ou brasileira, da parte da antropologia moderna chamada pelos russos Antropologia Regional - e de Sociologia Ecológica: outra especialidade em que os pesquisadores pernambucanos vêm se distinguindo por contribuições caracterizadas pela modernidade de métodos e pela importância, além de regional, nacional de objetivos; e que são, por isto mesmo, contribuições que interessam à consolidação do Brasil como meia-potência moderna.

     A que nação nenhuma se consolida como semi-potência moderna - o caso atualíssimo de uma União Indiana e de um México, - de um Canadá e de uma Argentina - se lhe faltam êsses arrojos modernos em estudos científicos e em atividades artísticas e humanísticas que ampliem as perspectivas de suas indústrias, de suas economias, de sua arquitetura, de seus sistemas de proteção à saúde de suas populações, de seus sistemas de educação e de recreação em benefício das mesmas populações. Que ampliem também as perspectivas de sua política exterior à base de afinidade étnicoculturais de populações nacionais com populações de outras áreas: afinidades que possam resultar em projeções da cultura tanto material como não-material da semi-potência em ascensão, nessas outras áreas, sem que isto signifique imperialismo. Neste ponto, merece ser destacada a contribuição de estudos antropológicos e sociológicos que vêm tendo seu centro no Recife, quer para a reabilitação dos tipos mestiços e das populações situadas, como a brasileira, nos trópicos, quer para uma política exterior do Brasil, mais de acôrdo com as constantes e com as possibilidades e tendências brasileiras. Política que venha a tomar em consideração, quando o Itamarati se desintoxicar de todo da influência que o vinha ùltimamente empolgando, de teóricos e de práticos, dentre os falsos realistas chamados "anti-sentimentais"; e começar a considerar, sob novas perspectivas aquelas afinidades étnico-culturais da população brasileira com populações hispano-tropicais e, até euro-tropicais, em geral, e com as luso-tropicais, - sobretudo as mestiças como as brasileiras - em particular, desenvolvendo sua política, nesse setor, à base dessas afinidades concretas e não de abstrações como o sistemático apoio a intitulada "auto-determinação dos povos" e de sistemática oposição - animada pelos comunistas russos e pelos liberações dos Estados Unidos à presença portuguêsa na África e no Oriente. Abstrações contrárias às mais autênticas constantes brasileiras, taxadas arbitràriamente, pelos supostos realistas que as defendem "sentimentais" ou "saudosistas".

     Pernambuco, por êsses vários estudos e por êsses seus vários arrojos de caráter cultural, assim como pela presença de tão numerosos pernambucanos em atividades em diferentes partes do Brasil, e do exterior - agora mesmo é pernambucano o novo Embaixador do Brasil em Portugal - de importância nacional - continua a ser - repita-se - parte não só viva como vibrante do conjunto nacional brasileiro; e a concorrer, com energias e valores que representam uma expressão atual de quatro séculos de pernambucanidade - e quem diz pernambucanidade diz também brasilidade - para o avigoramento do que, no Brasil, é poder nacional.

     Saliente-se, em conclusão, - e insistindo-se em pontos já feridos - que, desde os dias pré-nacionais, nuns casos, desde os primeiros dias nacionais noutros, Pernambuco vem concorrendo para desenvolver no Brasil aquêles "fatôres espirituais de proteção" que não podem ser negligenciados nem pelos políticos nem pelos economistas, por mais realistas que pretendam ser; fatôres cuja importância foi recentemente destacada pelo Ministro Roberto Campos, do Planejamento. Com efeito, o Seminário de Olinda juntou por algum tempo, antes ainda da Independência do Brasil, ao preparo teológico dos seus sacerdotes, preparo científico: principalmente quando o orientou o Bispo Azeredo Coutinho, educador e economista. 0 Seminário de Olinda assim orientado deu ao Brasil numerosos líderes não só da Igreja como de comunidades urbanas e rurais. Contribuiram êles para orientar o desenvolvimento brasileiro, quer econômico, quer social, inclusive animando êles próprios iniciativas ou esforços pioneiros de produção.

     0 mesmo se verificaria com os graduados do Ginásio, da Faculdade de Direito, da Escola de Engenharia, da Escola Normal, da Escola de Medicina, da Escola de Agronomia, da de Veterinária, da de Odontologia, instituições que florescem em Pernambuco, umas desde o século XIX, outras, desde o começo do século atual. 0 mesmo vem se verificando com os graduados de escolas mais novas como a de Química, a de Arquitetura, a de Enfermagem, a de Serviço Social, a de Ciências Econômicas, a Universidade Rural, as Escolas Técnicas: todos êles, quando idôneos, elementos que devem ser considerados fatôres humanos, daqueles que o economista Roberto Campos salienta serem tão importantes para o desenvolvimento inclusive econômico de uma comunidade nacional como "os componentes físicos da produção". Em recentes palavras do mesmo economista: "a grande verdade que a nova teoria de desenvolvimento sublinha com vigor é que nenhum desenvolvimento estável pode ser alcançado, mesmo quando há recursos materiais e financeiros, a não ser que exista ou se crie um estoque de capital humano sob o de talento. . . " Talento "administrativo e gerencial", principalmente, especifica o economista. Talento proveitoso à comunidade nacional - pode-se generalizar - sob o aspecto de líderes de atividades diversas que direta ou indiretamente concorram para salvaguardar, ampliar, aperfeiçoar os recursos de desenvolvimento e, por conseguinte, os elementos de poder e as bases de segurança nacional, da mesma comunidade. Dentre essas atividades, sobressaem atualmente a química, a médica, a geológica, a educacional, a jornalística, o serviço religioso-social.

     Pernambuco, é certo, já não exporta açúcar para o Sul do Brasil. Continua, porém, a exportar homens: homens não só sob o aspecto de operários como de técnicos e de líderes de diferentes atividades essenciais ou necessárias ao desenvolvimento da nação e à consolidação do seu poder. As escolas de Pernambuco não funcionam apenas em benefício de Pernambuco: funcionam principalmente, e talvez mais do que as escolas de qualquer outro Estado, em beneficio, de uma região, em particular, e da comunidade nacional em geral. 0 próprio Estado de São Paulo se abastece atualmente de jovens mecânicos, de jovens eletricistas, de jovens capatazes em escolas técnicas de nível médio de Pernambuco: sobretudo na do Derby. 0 diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo foi até há pouco um pernambucano e são vários os graduados de escolas de Pernambuco em funções semelhantes noutros pontos do País. Formado pelo Recife é o extraordinário Assis Chateaubriand, a quem tanto deve o desenvolvimento nacional - campanha da aviação, campanha em prol da criança - e que foi, também o genial renovador dos métodos de jornalismo no país. Ernesto Pereira Carneiro levou para o Rio, em momento de expansão nacional não só sua energia como sua formação pernambucana de homem de emprêsa, no setor do transporte marítimo. E as Fôrças Armadas, a magistratura, o clero, quer católico, quer protestante, o jornalismo, a administração pública e a de emprêsas, repita-se que estão com muitos dos seus comandos ocupados, atualmente, no Rio e noutros pontos do país, por homens de origem e formação pernambucanas. Homens que têm deixado de ser indivíduos a serviço apenas de um Estado para serem homens a serviço da Nação.



Source: FREYRE, Gilberto. O Estado de Pernambuco e sua expressão no poder nacional: aspectos de um assunto complexo. Recife: Imprensa Universitária, 1964. 18p.

«