A PROPÓSITO DE MORÃO ROSA E PIMENTA
Sugestões em torno de uma possivel Hispanotropicologia


     Êste ensaio, que agora se publica como separata, foi escrito por gilberto freyre - nome que dispensa qualquer adjetivo - como prefácio a "morão, rosa e pimenta - notícia dos três primeiros livros em vernáculo sôbre a medicina no brasil" (recife, 1957. edição do arquivo público estadual e realização gráfica da imprensa oficial do estado). Publicando êste ensaio em forma de separata, o arquivo reclama para êle uma maior divulgação e presta ao seu autor - um dos mais altos valores da cultura nacional - um testemunho de aprêço e de reconhecimento a que tem direito de todos quantos trabalham pelo maior prestígio do nome pernambucano.

JORDÃO EMERENCIANO - Diretor do Arquivo Público Estadual

     Não atino com que palavras possa eu concorrer para dar à publicação das três velhas obras de portuguêses sôbre Medicina, empreendida agora no Recife - iniciativa que honra a moderna cultura recifense - interpretação que as associe aos atuais estudos portuguêses e brasileiros de Antropologia social e Sociologia sôbre o passado da cultura luso-brasileira: cultura desde o primeiro século de colonização portuguêsa do Brasil tão prêsa ao mesmo Recife. Essa interpretação já está de modo inteligente e erudito, quer pelo Professor Gilberto Osório de Andrade, mestre de Geografia - inclusive de Geografia Histórica - em seu estudo crítico, quer pelo médico-historiador Eustáquio Duarte, em sua introdução. Seus estudos são no gênero primorosos e concorrem para tornar um tanto ridícula a insinuação recente de ilustre sociólogo, o Professor Emílio Willems, segundo a qual o Nordeste do Brasil sofreria, em sua ciência, de uma "tradição verbalista" inimiga da objetividade ou da exatidão dita científica.

     Além de regozijar-me com êles e com o também erudito Professor Jordão Emerenciano, diretor do Arquivo Público do Estado de Pernambuco e animador principal desta publicação, pelo esmêro com que realizaram tarefa tão difícil em cidade hoje tão de província como o Recife - e atrasada, por isto, em várias técnicas - só me resta dar expansão ao meu atual pendor no sentido da reinterpretação do passado brasileiro como experiência ou vivência lusitana ou hispânica no trópico: experiência desabrochada desde Goa em novo tipo de civilização hoje comum a várias áreas tropicais. Para essa expansão, tanto as obras agora reeditadas como os lúcidos comentários modernos que enriquecem sua nova publicação, desta vez em conjunto, são um convite; e convite confesso que aliciante.

     Reconhecem o Professor Gilberto Osório de Andrade e o Dr. Eustáquio Duarte ter sido Piso "o fundador da nosologia brasileira". Ao que o médico-historiador que é Eustáquio Duarte acrescenta - aliás um tanto esquecido de Frei Cristóvão de Lisboa - ter sido o "trópico brasileiro... pela primeira vez observado e apresentado em caráter estritamente científico" pelos pesquisadores nórdicos que acompanharam Nassau a Pernambuco, lembrando ter Pernambuco se transformando então "num centro precursor de pesquisas científicas do Novo Mundo, com o seu parque zoológico, seu jardim botânico, seu observatório astronômico, seus hospitais, setores de estudos médicos onde se realizaram as primeiras históricas observações de natureza técnica sôbre parasitologia, toxicologia, etc., em nosso país".

     Mas o geógrafo-historiador destaca de início: "Cabe também, contudo, a Pernambuco o primado dos temas das três primeiras obras em vernáculo sôbre Medicina no Brasil". Essas obras são a de Simão Pinheiro Morão, a de João Ferreira da Rosa e a de Miguel Dias Pimenta.

     São obras em que ao estudo médico de doenças se acrescentam quase sempre preocupações com o meio tropical como meio de residência para europeus e filhos de europeus, preocupações que as situam entre os primeiros esforços dos portuguêses no sentido de desenvolverem assim em ciência como em arte - na arte da culinária, na da arquitetura, na do traje - novo critério e novas técnicas - técnicas diferentes das européias de vida ou convivência humana; e que poderíamos denominar hoje critério e técnicas ecológicas. Adaptadas a novas condições de meio físico e de meio social. Inclusíve econômico.

     Assim, Morão quando assinala de certa epidemia devastadora, no Brasil, principalmente de escravos, ou de nativos dos trópicos, que eram tantos os escravos enfermos que seus senhores os não podiam "sustentar a galinhas, e a frangões", sugerindo fôsse, as galinhas e os frangões substituídos, como dieta, por "tripas cozidas" de vitela, procedia ecològicamente. Como ecològicamente, tropicològicamente, lusotropicològicamente raciocinavam homens como Frei Vicente do Salvador ao salientarem que na "zona tórrida", isto é, no Brasil, muitos adoeciam de "enfermidades particulares..." "mais por suas desordens, que por malícia da terra"; acrescentando um tanto apologèticamente do calor tropical que era aqui moderado pelos "ventos frescos do mar", pela "umidade de terra" e pela" frescura do arvoredo" de que "tôda estava coberta a terra": " de tal sorte que os que habitam vivem nela alegremente". Opinião também de Morão - hispano em Portugal (Covilhã) e diplomado na Espanha (Salamanca) - para quem, segundo destaca o Professor Gilberto Osório, o clima (tropical do Brasil) não seria pior que o europeu. Apenas diferente; e por ser diferente, tornava "epidêmicas" doenças, noutros climas, "esporádicas". Pelo que devia ser considerado e não ignorado. Como consideradas deviam ser certas substâncias tropicais que podiam ser empregadas em substituição a européias no tratamento de certos males com que tivessem de lidar os primeiros europeus e mestiços de europeus no Brasil hispânico: português e por algum tempo parte do conjunto políticamente espanhol estendido por vastos espaços tropicais.

     Aliás, o médico Eustáquio Duarte acentua não ter sido o De Medicina Brasilensis, de Piso, "o primeiro livro exclusivo de matéria médica aparecido nas Américas", cabendo essa prioridade a trabalhos privativos de medicina e cirurgia aparecidos em espanhol no México nas últimas décadas do século. Ao que poderia acrescentar terem sido esses trabalhos, nos quais predominavam "a farmacopéia e a terapêutica indígenas, com base na rica variedade de plantas medicinais de uso multissecular entre mexicanos", precursores de uma tropicologia, na mesma época também esboçada no Brasil; e, por conseguinte, hispanotropical no seu conjunto. Apenas no México desde 1580 começou-se a estudar medicina em universidade local, sendo, assim, ciência mais plástica em suas relações com o meio tropical que a européia, embora conservando-se acadêmica; enquanto no Brasil se passaram séculos antes que os portuguêses fundassem aqui o estudo parauniversitário de Medicina. Os médicos no Brasil colonial foram homens de formação estritamente européia que quase sempre se opuseram - segundo parece - pela sua mesma condição acadêmica, aos curandeiros, peritos no conhecimento de males e plantas tropicais, numa oposição que talvez não tenha existido tão aguda no México; e que fêz que no Brasil, como noutras áreas de colonização portuguêsa dos trópicos, a tropicologia se desenvolvesse, na sua parte médica e farmacêutica, do mesmo modo que se desenvolveu em relação com a arquitetura e a culinária: extra-acadêmicamente. O que trouxe, ao lado de vantagens, algumas desvantagens para a lusotropicologia, em contraste com a hispanotropicologia que teve por centro o México, tão cedo dotado - como o Peru - de universidade, pelos espanhóis.

     Seria, entretanto, injusto, que se deixasse de considerar não só no desenvolvimento entre nós de uma tropicologia - isto é, de um conjunto de critérios e de técnicas senão científicas, para-científicas, de adaptação do homem europeu e do seu descendente, ao meio tropical, sem nessa adaptação se repudiarem valores de origem européia ao ponto de se tornarem (como sucederia em áreas do Paraguai ou do Haiti) subsidiários ou ancilares dos tropicais - a contribuição de colonos, como Gabriel Soares de Sousa, que, sem terem sido homens de formação universitária, foram europeus de alguma instrução: o bastante para realizarem, como realizaram, obra de inteligente assimilação de substâncias tropicais a formas européias de vida civilizada. O que empreenderam com uma liberdade de ação ou de experimentação que deve ter faltado por vêzes aos médicos universitários ou letrados, mesmo em universidades como a do México, em contacto direto com os meios ou ambientes tropicais.

     Do médico servilhano Nicolau Monardes ( 1493-1508) recorda o Dr. Eustáquio Duarte que dêle "ficaram registros que explicam o particular interêsse que tomou por plantas medicinais originárias da América", isto é, da América tropical; interêsse - acrescenta o Dr. Duarte - "um tanto audacioso e comprometedor para um profissional de formação universitária no seu tempo". Monardes, "quando se lhe exauriam os clássicos recursos terapêuticos frente a enfermos chegados do além-oceano", passava a administrar a êsses doentes "remédios vegetais dos índios" e os efeitos "por vêzes eram tão manifestos e tão rápida a recuperação", que êle "quedava surpreendido". Daí ter acumulalo em Sevilha "uma autêntica drogaria" "todas las cosas que si traen de nuestras Índias Occidentales, que sirven al uso de medicina". Pôde assim escrever "o primeiro"... "tratado de Botânica Médica americana", livro cuja repercussão na Europa foi tão extensa quanto a da obra do português Garcia de Orta sôbre as Índias Orientais. Duas obras de autêntica tropicologia à moda hispânica ou lusitana. Isto é, o trópico considerado pelo europeu homem de ciência não apenas na sua patologia, nem sòmente no seu exotismo pitoresco, mas nos seus valores não só de ação no próprio trópico, e a favor do homem nativo do trópico ou residente no trópico, mas de utilidade ou potência pan-humana. Tal a jalapa, da qual informa o próprio Monardes em obra publicada em 1574 ter se tornado de uso comum "em todo o mundo"; não só na Nova Espanha e no Peru mas na Espanha, na Itália, na Alemanha, em Flandres.

     À obra de Monardes se acrescentaria a de Francisco Hernandez, esta monumental. Tanto que só o seu digesto revelaria à Europa - é ainda o Dr. Duarte quem recorda o fato - "as propriedades terapêuticas de quatrocentas plantas do Novo Mundo".

     A propósito de Hernandez, poderia acentuar-se de um modo que não vem acentuado no sugestivo estudo do Dr. Eustáquio Duarte, ter sido a sua obra grandiosa - da qual só vieram infelizmente a ser publicados digestos ou fragmentos - tanto quanto a de Acosta e a de Garcia de Orta, pioneira de uma Hispanotropicologia ainda por sistematizar mas já latente em vários dos elementos capazes de a constituírem como sub-ciência dentro de uma igualmente ainda por sistematizar, Tropicologia. À objeção de pelo mesmo critério serem possíveis várias outras tropicologias especiais, além da espanhola - ou da luso-tropicologia, que reunidas constituem a hispânica no sentido de ibérica - responda-se, de passagem, que são as únicas que exprimem relação simbiótica de saber empatia, experiência e vivência de europeus com ou nos trópicos. Não basta a presença através de séculos, do europeu em certa área em região tropical para se admitir tenha êle, com essa só presença, desenvolvido uma ciência ou uma técnica ou um critério de conhecimento do trópico por europeu que se destaque do critério ou da técnica ou da ciência geral dêsse conhecimento: tropicologia. Semelhante particularização, repita-se, só se pode haver verificado onde aquele presença foi acompanhada de empatia, de vivência ou experiência, constituindo-se o saber do trópico, tornado possível ou necessário por ela - presença européia em região tropical - em saber mais do que experiencial: simbiótico em sua condição de existencial. Misto. Hibrido. Parte europeu, parte tropical. E êsse foi o saber de Hernandez, depois de ter sido o de Sahagun e o de Monardes. O de Gabriel Soares de Sousa, depois de ter sido o de Garcia de Orta.

     Ainda a propósito de Hernandez, poderia recordar-se de um modo que não vem recordado no estudo do Dr. Eustáquio Duarte, ter êle próprio, Hernandez, tido a consciência de haver desenvolvido na América, na elaboração da sua História Natural, um novo tipo de saber dos homens e da natureza, animado por "mayor y más nueva curiosidad". Em carta ao Rei de Espanha, informou ter conseguido representar em papel "com figuras grandes ... muy al natural..." "arborentas plantas nuevas y jamais vistas em essas regiones", isto é, na Europa, com explicações tanto em latim com em romance, tanto em "castelhano" como em "mexicano" e "haciendo experiencias de todo em los hospitales, donde solamente he curado, despues que en tierra estoy, sin interesse alguno, y allegando simientes, y plantas, y medicinas simples, y compuestos desta tierra, que llevar a V. M." Trecho de carta que vem reproduzido pelo historiador mexicano Carlos Pereyra em sua Breve Historia da America: admirável livro-síntese que eu quisera ver mais difundido entre brasileiros.

     Essa consciência de desenvolverem os hispanos nos trópicos saber novo, libertado de convenções aristotélicas de ciência, não faltou nem ao português Garcia de Orta no trópico asiático nem ao espanhol, filho de português. Acosta, no trópico americano. E dêste é bom que se saiba ter escrito o alemão Humboldt que "o fundamento do que chamamos "Física do Globo, prescindindo de considerações matemáticas, se acha na História natural y moral de las Indias, do jesuíta José de Acosta, e na obra que publicou Gonzalo Fernandez de Oviedo vinte anos depois da morte de Colombo". Pois "desde a fundação das sociedades humanas não se havia alargado tão repentinamente, e de modo tão maravilhoso, o círculo das idéias no que diz respeito ao mundo exterior e ao sistema de suas relações na dilatada extensão do espaço". A ser exato o que diz Humboldt, êsse alargamento repentino e, segundo o alemão, maravilhoso, de ciência ou saber humano, erificou-se em conseqüência de estudos pioneiros realizados por hispanos no trópicos; por conseguinte através de estudos que alguns pensam hoje poderem ser denominados hispanotropicològicos dadas as circunstâncias especial e existencialmente simbióticas que os condicionaram, ao permitirem os hispanos que seu saber hispânico ou europeu fôsse influenciado ou penetrado pelo de homens ou povos tropicais. Interpenetração ou simbiose que se verificou principalmente nas partes tropicais do chamado Novo Mundo.

     Aliás quando se diz na literatura post-colombiana da Europa "Novo Mundo" é quase certo que se quer dizer a América tropical de colonização hispânica: espanhola e portuguêsa . Foi esta a parte do mundo em que se ampliou a obra iniciada pelo português no Oriente tropical de compenetração da Europa com o Trópico, até lançar-se a base para uma série de novas e simbióticas civilizações, para as quais se vem sugerindo ultimamente a designação de civilizações hispanotropicais, dentro de cujo conjunto se destacariam as luso tropicais da América, do Oriente e da África como talvez as mais avançadas nas formas práticas, ostensivas e até políticas da sua simbiose bio-social. As mais aptas a servirem de matéria de estudo sistemático a uma sub-ciência a um tempo ecológica e antropológica que se denominasse luso tropicologia; e analisasse e procurasse interpretar essa especialíssima simbiose da Europa com o Trópico, sob critérios ao mesmo tempo ecológico-social e antropo-cultural.

     Como se vê, não me venho servindo da honra que me foi concedida de associar o nome à nova publicação de três obras de caráter médico de portuguêses que, neste Recife de Pernambuco, foram também, a seu modo e dentro de suas predileções, pioneiros de uma ciência dos trópicos que parece vir se constituindo de modo particularíssimo nas áreas tropicais fecundadas pela presença de hispanos, senão para insistir na possibilidade ou na conveniência da sistematização dêsse ainda desconexo conhecimento de parte tão considerável do mundo: a tropical, de colonização hispânica. E dentro dela, com um interêsse especialíssimo para nós brasileiros - inclusive um interêsse por assim dizer "projetivo" de caráter político - a tropical, de colonização lusitana.

     Evidentemente não somos nós, descendentes tropicais de hispanos, que nos devemos esquecer do reparo de Humboldt sôbre aquêles homens de estudos hispânicos que primeiro realizaram nos trópicos e sob a influência dos trópicos obras de significação científica: o reparo de terem êles alargado de modo "repentino" e "maravilho..." "o círculo de idéias (européias) no que diz respeito ao mundo exterior e ao sistema de suas relações na dilatada extensão do espaço". Os três portuguêses cujas esquecidas páginas agora reaparecem no Recife, comentadas por eruditos ilustres, contribuíram para o "alargamento" de saber destacado por Humboldt; e também para a interpretação especìficamente hispânica dos trópicos mercê da qual se vêm desenvolvendo em áreas quentes, civilizações como a brasileira, que estão longe de confundir-se com as simplesmente coloniais, fundadas por outros europeus nas mesmas áreas.

     Ainda há pouco, em notável trabalho, The Quality of Land Use of Tropical Cultivators, publicado na obra coletiva, Man's Role in Changing the Face of the Earth, aparecida em 1956 sob a direção de William L. Thomas Jr. e editada em Nova Yorque pela Fundação Wenner-Gren, o Professor Pierre Gourou foi o que salientou: o fato de os ambientes naturais por si sós não determinarem ou criarem civilizações que, por isto mesmo, surgem desigualmente nos mesmos espaços - os tropicais, por exemplo - conforme a "interpretação" e a "transformação" que sofram de diferentes povos, nêles residentes ou dêles colonizadores. Os espaços tropicais colonizados por hispanos, em geral, e por portuguêses, em particular, vêm se transformando segundo as mesmas formas de interpretação, hispano-cristã ou luso-cristã: as mesmas no Brasil que têm sido em Goa; as mesmas nas Filipinas que têm sido na América tropical de colonização espanhola; as mesmas na África que têm sido na América.

     Compreende-se assim que a tôdas essas áreas venha sendo comum o aproveitamento de conhecimento e técnicas de povos tropicais pelos colonizadores hispânicos que com êles se vêm amalgamando étnica e culturalmente. E que para o estudo histórico de males com as bexigas e o sarampo, no Brasil, médicos-historiadores como o Dr. Eustáquio Duarte, possam recorrer a informações assim de médicos como de leigos, tanto da área brasileira, quanto de outras áreas de colonização hispânica, certos de encontrarem o mesmo tipo de relações entre os colonizadores hispânicos e os seus continuadores e as culturas e as populações dessas várias regiões quentes; relações de reciprocidade no conhecimento de doenças e nos modos de tratá-las. Sôbre a generalidade dessas relações, nesta e noutras zonas de conhecimentos e de técnicas, é que principalmente se apoia a possibilidade de uma sub-ciência dos trópicos que se denomine Hispanotropicologia, da qual se destaque uma especialíssima Lusotropicologia.

     Quando atribuo importância política à "consciência de espécie" que porventura se desenvolva entre as várias sociedades hispanotropicais de hoje, que pela análise e pela interpretação do seu passado comum, dos seus problemas também, em grande parte comuns e do seu destino, talvez igualmente comum, se tornem mais próximas umas das outras, de modo a formarem uma comunidade senão ostensivamente política, econômica e de cultura, penso na missão que êsse conjunto de civilizações afins pode desempenhar num mundo, como o atual, cada vez mais voltado para os espaços tropicais como zonas possíveis de expansão dos seus valores imperialmente boreais. Os quais são hoje principalmente os anglos americanos e os russos-soviéticos.

     Parece que nenhum dêsses dois sistemas imperiais - nem o chinês, se desenvolver igual élan imperial - se apresentará capaz de verdadeiramente superar os povos hispanotropicais como civilizações já simbiòticamente eurotropicais, se os povos hispanotropicais tornando-se conscientes do que valem juntamente com a Espanha e com Portugal, como civilizações novas, nem sub-européias nem tampouco anti-européias, em suas possibilidades, em seus recursos e em seus desígnios, se constituírem por sua vez num sistema que tem a seu favor não só uma teoria - a esboçada sob a designação de Hispanotropicologia - como uma obra, já realizada, de integração de valores europeus nos trópicos, em que êsses valores se vêm juntando, de modo harmônico e ecológico, a valores tropicais. Sendo assim, a articulação das civilizações hispanotropicais num sistema transnacional de cultura, de economia, de política, apresenta-se como uma necessidade, não deirei geopolítica, mas, em face de expansões às vêzes intituladas de geopolíticas, ecológicas, como se sua articulação decorresse principalmente das situações chamadas naturais ou geográficas. Não dependem dessas situações e sim, como sugere o geógrafo francês Gourou, de interpretações que às chamadas situações naturais dêem os homens, sob diferentes técnicas ou diferentes civilizações. Nenhum caso mais expressivo de quanto vale essa interpretação que o oferecido pelo conjunto de modernas civilizações hispano-tropicais.

     A interpretação hispânica do contacto de européus ou cristãos ou hispanos com os trópicos é uma interpretação que existe na prática de um modo que não há exagêro em considerar-se triunfal. Dela talvez venham a necessitar os próprios anglo-americanos e os próprios russos-soviéticos para a reinterpretação de seus sistemas de relações com as áreas hoje consideradas retardadas: sistemas hoje animados do afã de aumento de produtividade econômica, sobretudo industrial, por meios mecânicos válidos nos espaços boreias; mas de cuja validade para o desenvolvimento da civilização humana, em geral, e de civilizações não coloniais nos trópicos, em particular, alguns dos próprios apologistas dêsses mesmos sistemas começam a duvidar.

     Em estudo há pouco aparecido sob o título The Agency of Man on the Earth, pergunta o geógrafo Carl Sauer com relação ao sistema anglo americano de anglo americanização do mundo: " the road we" (os anglo-americanos) "are layng out for the world": "... do we know where it leads?" E êle próprio adverte com relação aos programas de auxílio agrário às chamadas populações retardadas: são programas que "pay little attention to native ways and products". Pois "instead of going out to learn what their experiences and preferences are, we go forth to introduce our ways and consider backward what is not according to our pattern". E mais, ainda no severo inglês do geógrafo: "We presente end recommend to the world a blueprint of what workswell with us at the moment, heedless that we may be destroying wise and durable native sistems of living with land. The modern industrial mood (I hesitate to add intellectual mood) is insensitive to other ways and values".

     A sensibilidade aos métodos, às técnicas e aos valores dos povos tropicais raramente faltou aos portuguêses e aos espanhóis quando se espalharam por áreas quentes, não como transeuntes, mas - em grande número - como residentes. E residentes que começaram por tomar mulheres tropicais como companheiras e até espôsas: companheiras de suas aventuras de fixação e procriação nas mesmas áreas. Daí civilizações hispanotropicais como a mexicana, a brasileira, a paraguaia, a indo portuguêsa, se apresentarem hoje com sistemas de arquitetura, de alimentação, de traje, e até mesmo de higiene, em que os valores e as técnicas européias nem sempre são os dominantes mas, sob vários aspectos dêsses sistemas, as dominadas. Nesses exemplos - e no da assimilação de valores tropicais pela medicina hispânica, desde os primeiros contactos dos hispanos com os trópicos no Oriente e nas Américas - talvez tenham que se inspirar anglo-americanos e russos-soviéticos, para reinterpretarem e humanizarem seus atuais sistemas de expansão de valores imperiais entre populações consideradas atrasadas de modo absoluto. Incapazes - segundo alguns expansionistas - de ensinarem aos invasores ou dominadores, técnicas que resultam de longa e profunda experiência; de longos períodos de identificação do homem com os meios.

     Pelo ânimo de absorverem tal experiência, tais valores, tais técnicas - inclusive as médicas ou para médicas - é que os hispanos em áreas violentamente diversas das européias como as tropicais, conseguiram fundar e vêm conseguindo desenvolver - êles ou seus descendentes - civilizações do vigor das modernas civilizações por alguns denominadas hispanotropicais. Por lhes ter faltado êsse ânimo, a não ser para assimilações de superfície e aperfeiçoamento técnicos em tôrno apenas de coisas ou solos tropicais, é que outros europeus se vêm retirando últimamente de áreas quentes, após séculos de domínio político e econômico sôbre suas populações, sem terem aí conseguido desenvolver civilizações que de longe se comparem com as hispanotropicais, em geral, ou com as lusotropicais, em particular.

     Dêsse resultado desigual dos dois tipos de colonização européia nos trópicos - a hispânica e a não-hispânica - parece ser em grande parte responsável o modo por que a hispânica foi e é animada, em suas expansões, de desígnios cristãos - aqui considerados apenas em seus aspectos psico-sociais e sócio-culturais - delas podendo-se dizer, em face do seu comportamento em certas áreas que, sociològicamente, foram antes cristocêntricas que etnocêntricas; e como colonizações cristocêntricas, empenhadas em cuidar de doentes ao mesmo tempo que de órfãos, de velhos, de meninos e adolescentes assim de côr como brancos: da sua educação e da sua criação; da sua proteção e da sua manutenção. Daí um historiador sociólogo da sagacidade do indiano K. M. Panikkar, em obra que se intitula em inglês Asia and Western Dominiance e foi publicada em Londres em 1953, associar os primeiros triunfos dos portuguêses no Oriente tropical-portuguêses dentre os quais já vimos ter agido no interêsse da ciência, o médico português formado na Espanha, Garcia de Orta, contemporâneo do missionário Francisco Xavier: espanhol aportuguesado, em sua formação intelectual para o trabalho missionário no Oriente - ao que chama, "renascença da filosofia" nos centros lusitanos de estudo e ensino, principalmente Coimbra, no século XVI. Dá o indiano particular destaque à obra de "comentário enciclopédico" de Aristóteles, elaborada em Portugal por "Góis e seus colaboradores", lembrando vir essa obra designada como "coimbrensis" por Spinoza; e salientando também a importância de Navarro; e a de Gouveia, êste em Évora. Nesses centros de saber filosófico é que se teria apurado em Portugal o espírito ou o zêlo religioso que se refletiria na política portuguêsa com relação à Ásia, em particular, diz o erudito indiano; com relação aos trópicos, em geral, podemos generalizar, sem risco de exagêro. E por essa intensificação no Portugal do século XVI - nas suas universidades - do espírito religioso em consonância com o desenvolvimento do saber filosófico - sem nos esquecermos de que o saber científico (principalmente o conhecimento técnico das coisas de navegação e das de geografia, completado pelo médico), graças principalmente aos árabes e judeus, já atingira entre portuguêses notável aperfeiçoamento - é que parece ter ali se apurado de modo ainda mais completo do que noutra qualquer Espanha da mesma época, a preparação da Europa hispânica para estender-se de maneira antes cristocêntricas que etnocêntrica por áreas ou regiões tropicais.

     Panikkar indiretamente parece reconhecer êsse caráter sociològicamente antes cristocêntrico que etnocêntrico da preparação portuguêsa para a imensa tarefa mais de cristanizar que de europeizar os trópicos e o Oriente, ao assinalar que no século XVI "algumas das maiores figuras na história da atividade missionária do Cristianismo no Oriente, adotaram Portugal como sua segunda pátria: Xavier, Vagliano, Ricco". Êsses e vários outros europeus prepararam-se para ser missionários no Oriente, indo fazer em Coimbra e em Goa - tão cedo, centro de saber lusotropical - os estudos que hoje chamaríamos post-graduados de filosofia e talvez do que fôsse então, dentro da filosofia, uma para-sociologia porventura já voltada para problemas extra-europeus de convivência humana; e para os de convivência de cristãos com os povos não-cristãos. Que pioneiros de estudos etnológicos ou antropológicos sociais no Oriente, tropical e mesmo frio, aquêles homens foram de modo notável; e pioneiros também da arte ou ciência, em parte sociológica, de os cristãos europeus educarem cristãmente meninos e adolescentes não-europeus, sem deixarem de assimilar dêles e dos adultos tropicalismos ou orientalismos - inclusive os de natureza médica ou higiênica - que fôssem considerando valiosos a europeus decididos a se fixarem nos trópicos ou no Oriente. Dêsse duplo empenho resulta o fato de modernos historiadores-sociólogos da expansão européia na Ásia como o indiano Panikkar reconhecerem virtudes no esfôrço português ou hispânico, que negam aos de europeus do Norte. Ao holandês, por exemplo, que segundo o mesmo historiador-sociólogo, à página 114 do seu referido livro, "took no interest in the education of the Indonesians", assim explicando-se "the miserable degradation to which the people of Java were reduced" e da qual o salvaria "the virile inspiration of Islam". Ao que acrescenta, talvez com algum exagêro oriental: "The Dutch alone of the European nations of the East carried out a policy which systematically reduced the whole population to the status of plantation labour, whithout recognizing any moral or legal obligation to them". Isto por se ter, ao que parece, requintado no holandês, aquela convicção posta também em relêvo por Panikkar, da parte do europeu, em geral, no Oriente, de "final and enduring racial superiority". Precisamente o ânimo exageradamente etnocêntrico que no português, em particular, e no hispano, em geral, foi quase sempre superado ou ultrapassado pelo ânimo cristocêntrico.

     De modo que se os modernos movimentos de pan-asianismo e pan-africanismo indigenista representam reações àquele ânimo etnocêntrico da parte de europeus, essas reações não alcançam senão em parte os hispanos: o que nêles é europeu que, a meu ver, é inferior ao que nêles vem sendo especìficamente hispânico desde dias remotos, e, nos séculos de sua maior atividade criadora, hispanocristão e até sociològicamente cristocêntrico. Panikkar compreende que a antiga solidariedade européia sob a forma de "European-ness" se oponha agora uma solidariedade asiática ou asiana sob a forma de "Asian-ness". E á às vêzes lamentável ver-se um espanhol ou um português, desgarrado das melhores tradições hispânicas, pretender incluir a civilização hispânica naquela "solidariedade européia" à qual de fato essa civilização não pertence senão de modo secundário. Que sua constante em face dos povos não europeus tem sido antes a hispânicamente cristocêntrica que a etnocêntrica européia é tese - para falar linguagem acadêmica - que não me parece difícil de provar, jogando-se, é claro, não com todos os fatos que sejam trazidos a exame, mas com suas predominâncias ou suas tendências mais características. Nem difícil de ser justificada me parece a sugestão, aparentemente paradoxal, que se levante, de virem, em geral - nem sempre, é claro, nem mesmo quase sempre - as civilizações hispânicas nos tropicos e no Oriente desempenhando de modo antropológica e sociològicamente mais científico do que as outras, sua missão de civilizações cristãs junto às civilizações e culturas não -cristãs.

     Ainda há poucos meses, ao receber-me em Oxford com as melhores graças da hospitalidade oxononiana, o catedrático de Antropologia Social da mais antiga das universidades inglêsas, Professor Evans-Pritchard, concordava comigo quanto a êsse caráter da colonização hispânica dos trópicos, geralmente tida entre tropicalistas superficiais, por principalmente aventureira; ou por estreitamente teocrática. A verdade parece ser que nem o aventureirismo - presente, não há dúvida, na mesma colonização, de modo às vêzes pernicioso - nem o teocratismo - também dela característico, às vêzes sob formas que se extremaram em durezas como que calvinistas, como as de Jesuítas no Brasil, em contraste com sua plasticidade no extremo Oriente - foram sua tendência predominante. Essa tendência ou rumo predominante talvez venha a ficar claramente demonstrado, à proporção que novos documentos relativos à mesma colonização forem aparecendo e que a reinterpretação de alguns dos antigos se fôr operando sob o critério de valorizar-se nêles antes a parte considerada até hoje secundária que a sistemàticamente glorificada, ter sido a de se fixarem os hispanos em áreas quentes e entre populações, culturas ou civilizações tropicais, absorvendo ou assimilando delas o máximo de substâncias compatíveis com as formas principais do seu Cristianismo hispano-romano e do seu comportamento europeu. Um Cristianismo e um comportamento condicionados por uma civilização principalmente européia e até romana; mas também árabe, israelita, oriental, africana, em várias das suas técnicas e em vários dos seus próprios valores, uns cristianizados, outros modificadores senão da ética, de práticas cristãs, na sua pureza romana.

     E' do número 4, volume 58, de agôsto de 1956, de American Anthropologist, o ensaio em que o Professor M. D. W. Jeffreys, da Universidade de Witwatersrand, trata de Some Rules of Directed Culture Change Under Catholicism, sustentando a tese de que a Igreja Católica Romana desde remotos dias vem mostrando "a remarkable comprehension of the requirements for ensuring a successful and peaceful cultural change". Acêrca do que recorda a carta em que o Papa Gregório I - que morreu no ano 604 - deu instruções a Santo Agostinho sôbre como deveria agir quanto à conversão dos inglêses, então bárbaros. Nessa carta recomendava o Chefe da Igreja que não fôssem destruídos os templos dos ídolos entre os inglêses mas sòmente os ídolos; que nos templos conservados, depois de consagrados à Igreja fôssem levantados altares e depositadas relíquias, convertendo-se assim êsses antigos templos dedicados aos demônios em casas de culto ou adoração do "verdadeiro Deus". Quanto aos sacrifícios religiosos de animais dentro dos templos, deviam ser substituídos por "solenidades festivas" em redor dos mesmos tempos ao ar livre matando-se então animais não para serem imolados aos demônios mas para serem comidos pelas pessoas em festa. De modo que - resumia o Papa sua técnica de conversão, na qual se antecipava a modernos métodos sociológicos de assimilação - reservando-se aos inglêses algumas alegrias exteriores (semelhantes às do seu antigo culto), seria mais fácil obter-se dêles que consentissem em participar das "alegrias íntimas" que lhes comunicava o Cristianismo. A propósito do que observa o Professor Jeffreys conciliar-se essa técnica, com a hoje corrente entre cientistas sociais, de que " a culture trait need not be extirpated; all that is necessary is to alter its orientaition".

     Precisamente a política seguida pelos hispanocristãos em seus estabelecimentos nos trópicos, dos quais vêm resultando as civilizações hispanotropicais, algumas delas hoje tão vigorosas pelo que conservam de traços de culturas e civilizações pre-hispânicas e pre-cristãs que foram quase sempre - nem sempre, é certo, - não extirpados nem repudiados de todo pelos hispanocristãos, mas reorientados. Essa política alcança valores e técnicas que hoje emergem não só da arquitetura, do vestuário, da alimentação mais característicos das mesmas civilizações, vigorosamente híbridas - o caso da indo-lusitana, da filipina, da brasileira, da mexicana, da paraguia, para só falar nessas - como de medicina moderna do Ocidente, que graças principalmente a hispanos e aos seus métodos de associação com os povos do Oriente e dos trópicos, se enriqueceu enormemente de técnicos e valores orientais e tropicais, alguns sob a forma de "substituições" desde velhos dias preconizados não só por sábios como Hernandez, como por médicos simplesmente médicos como Morão. Ou por leigos com alguma coisa de médicos.

     Substituições das quais tem resultado uma integração tal, que nos autoriza a descrever ou caracterizar sociològicamente como simbiose - a simbiose hispano-trópico ou a simbiose luso-trópico - o desenvolvimento das sociedades e culturas fundadas pelos hispanos em espaços tropicais ou sociedades e culturas mistas, que se distinguem na quase totalidade das sociedades e culturas fundadas por outros europeus nos mesmos espaços, exatamente pelo muito que há nêle de já integrado ou em processo de integração. Isto quer no conhecimento médico, quer no agronômico, quer noutros aspectos de um saber geral acêrca de como viver, existir, desenvolver-se o homem moderno, de procedência européia nos trópicos, harmonizando o essencial da sua cultura européia com o existencial da sua situação de residente do trópico; e com o "saber de experiência feito" acumulado nos trópicos pelos indígenas das várias áreas e pelos europeus que primeiro viveram perigosa e aventurosamente entre êles.

     Os métodos de assimilação recomendados por Gregório I a Santo Agostinho - e há pouco comentados, em artigo de revista, por ilustre sociólogo moderno a quem já se fêz aqui referência - têm sido característicos de parte considerável dos esforços de catequese entre populações tropicais por missionários hispânicos. E é interessante considerar-se a crítica da parte de Protestantes e até de Católicos de outras origens européias a êsses métodos hispano-Católicos.

     Da leitura do capítulo "The Permanent Influences of the Native Religions of Mexico upon Roman Catholic Christianity", do livro do Professor Charles S. Braden, Religions Aspects of the Conquest of Mexico (Durhan 1930),conclui-se que o Professor Braden está de modo discreto entre êsses críticos. Nesse livro se destacam - à página 281 - "numerous vestiges of the pagan cult in existence in Catholicism" no México, entre os quais "native dances in certain religious ocasion", the perpetuation of certain feasts as Christian festivals", "the pagan custom of making offerings before the images, sometimes of flewers, copal, and eveneven animals", "the taking over of pagan shrines or divinities under Christian names, or in other words the exchange of duties"; e se transcreve, à página 283, êste depoimento de um Católico anglo saxônico, horrorizado, com aquelas sobrevivências: "The Mexican is not a Catholic"... On account of the lack of painstaking instruction, there appear in the Catholicism of the Indians numerous vestiges of the Aztec paganism". Generalização que o bom do anglo-saxão poderia ter estendido ao complexo hispano-americano, substituindo a palavra Azteca, aqui, por Inca, ali por Guarani; ou mesmo por Africano. Mas em qualquer dos casos, a advertência do Papa Gregório I a Santo Agostinho estaria sendo seguida antes pelos hispanos em suas relações com as populações e culturas tropicais da América que pelos Católicos tocados ou influenciados pelo anglo-saxonismo dos Protestantes no seu critério missionário de substituir de repente, e radicalmente, tôdas as substâncias religiosas das culturas indígenas encontradas pelos missionários cristãos na América por substâncias desenvolvidas e apuradas pelo Cristianismo europeu. Pelo romano ou pelo reformado.

     Imagina-se assim a indignação do próprio Humboldt - em página também citada pelo Professor Braden - com relação a mexicanos que êle conhecera nos dias de sua viagem à América. O sábio escreveu ter visto alguns dêles dançar "danças selvagens" em redor de um altar, enquanto um frade de São Francisco elevava o Santíssimo. A verdade é que tais danças, de acôrdo aliás com a velha orientação de Gregório I, foram animadas pelo quase santo Pedro de Gante, conforme se vê do estudo de Augusto Genin sôbre danças e cantos mexicanos, em 1913 publicado pela Revue d'Ethnographie et Sociologie, de Paris; e algumas dessas danças admitidas no próprio interior dos tempos, sob o aplauso de Juan Torquemada. Assunto que tem sido estudado por vários historiadores e etnólogos modernos, dentre os quais alguns franceses.

     Admitindo ser o Catolicismo, em suas expressões ainda hoje dominantes no México, o resultado do "the mutual interpenetration of the two types of religion" - o hispânico e o ameríndio - mas salientando que, sob a pressão da cultura européia, através de "uma variedade de fôrças sociais", os "vestígios pagãos" no mesmo cristianismo tendiam a empalidecer, o Professor Braden como que já reconhecia em 1930 ser tendência característica da colonização hispânica dos trópicos aquela interpenetração. O prestígio político e econômico da Europa, enquanto válido, decidiria a favor da civilização européia. A êsse jôgo de prestígios - o europeu em face de qualquer outro - acrescente-se, porém, que é justo considerar-se estranho o cristianismo hispânico, dada sua já antiga capacidade de adaptar a formas romano - hispânicas substâncias não européias. Essa capacidade distingue-o de outros cristianismos europeus. Note-se de passagem que a respeito do aspecto religioso da colonização hispânica da América são valiosas fontes de informação, com relação ao Brasil, as cartas jesuíticas. E com relação à América Espanhola obras como a do franciscano Jerônimo de Mendieta, História Eclesiástica Indiana, escrita nos fins do século XVI. Por essas e outras crônicas, aliás vê-se terem os religiosos hispânicos participado na América, como participaram no Oriente, de esforços de interpenetração de culturas noutras esferas, além da pròpriamente religiosa: inclusive a médica. Foram alguns dêles, nesse particular, rivais de médicos pròpriamente ditos, dos quais se sabe que vários eram cristãos-novos ou judeus. Mas cristãos-novos ou judeus condicionados quase sempre pela sua tradição ou situação de hispanos. Foram, assim, colaboradores valiosos da obra de expansão hispânica nos trópicos, dentro de predominâncias sociològicamente cristocêntricas.

     Era aliás natural que cristãos, novos ou velhos, mas hispanos animados pelo gôsto de alargar o conhecimento médico pelo contacto com outras gentes e terras, além das européias, se sentissem particularmente atraídos pelos trópicos. E que vários dêles tivessem seguido para o Oriente, para o Brasil, para as Áfricas tropicais.

     Compreende-se que mesmo no século XIX, Santiago Roman y Cajal, quando ainda jovem de vinte e poucos anos, tenha tido êste intenso desejo. "Mi ideal es America y singularmente la America tropical, essa tierre de maravilhas" - sabe-se ter êle dito então a seu amigo Cenarro. E é pena - do ponto de vista hispanotropical - que não se tenha realizado adequada e plenamente o desejo de Ramon y Cajal de integrar-se, como homem de ciência, especializada em medicina, no estudo dos trópicos americanos, marcados pela presença hispânica: estudo em que os hispanos se revelaram deficientes no século XIX depois de no XVI, no VII e mesmo no XVIII terem desenvolvido notável ação pioneira ou criadora ou sentido de estabelecerem êles próprios a base de uma tropicologia em que à ciência pratica - e assim, eminentemente hispânica - de saber o homem de procedência européia viver nos trópicos, se ajuntasse a do conhecimento da natureza tropical, pelo cientista empenhado platônicamente nesse conhecimento.

     Êsse conhecimento, buscam-no hoje cientistas de várias especialidades, dos países boreais, não sem reconhecerem - como ainda há pouco geógrafos russos-soviéticos em visita à Amazônia - a situação especialíssima em que se encontra o Brasil para desenvolver o que um dêles, o Professor Guerassimov, teria chamado, em conversa com brasileiros de Belém, "ciência tropical" e que alguns de nós, no Brasil, preferimos denominar tropicologia; e dentro de uma tropicologia geral, uma hispanotropicologia ou uma lusotropicologica que, sem se ouriçar na ciência "eminentemente nacional", segundo alguns, recomendada pelo mesmo sábio russo aos brasileiros para seus estudos do trópicos, seria uma ciência especializada na análise e na interpretação da simbiose hispano-trópico ou luso-trópico.

     Ninguém estranhe o fato de ter hoje a Rússia Soviética olhos voltados para os trópicos, tanto quanto os têm os Estados Unidos, êstes, atualmente, ainda mais que o Reino Unido, "tropies minded" em seus planos de política econômica. Um publicista anglo-americano especializado no estudo de assuntos tropicais, Charles Morrow Wilson, em livro intitulado significativamente The Tropics, World of Tomorrow (N. Y. 1951), chega a escrever, à página 249, acêrca da rivalidade dos dois grandes poderes imperiais de hoje, em tôrno dos trópicos: "Inevitably the tropes will have most to do evitli deciding which one will lead the world tomorrow. For at least twenty years past, the views and strategies of the Comitern have tended to accept this truth". E ainda: "Determinedly and audaciously Stalin's Kremlin has sought to penetrate the tropics and win them not by costly trade lines nor costly conquest, but rather by words, gestures and implications, by exploitations of grievances, prejudices, and emotion and by other superbly skillful devices of playacting". Seria, aliás esta política, continuação da seguida pela Rússia Tzarista, sempre ávida de domínio sôbre os trópicos: domínio também procurado por Napoleão e por Hitler à base de serem os recursos tropicais reservas inesgotáveis para os imperialismos boreais.

     È do mesmo Wilson a informação de vir a Escola Lenine, de Moscou, dedicando especial atenção à formação de "membros do Partido" para os trópicos. E são célebres os programas em espanhol do Rádio de Moscou que se destinam principalmente a populações da América tropical.

     Por outro lado, sou dos que acreditam ser a política chamada anti-colonialista, não direi oficial, dos Estados Unidos, mas de alguns dos seus políticos, na África e no Oriente, uma preparação para seu domínio econômico e veladamente político sôbre áreas tropicais ainda sob o govêrno ou influência européia - inclusive hispânica: principalmente portuguêsa - e onde se vêm formando, como na Angola e Moçambique, sociedades ou culturas lusotropicais semelhantes à brasileira, isto é, do mesmo feitio lusotropical; sociedades e culturas mistas, simbióticas, difíceis, por conseguinte, de poder ser confundidos com os domínios coloniais de inglêses, franceses e holandeses nos trópicos. Como que se percebe já, através de evidências oblíquas, que a política senão dos Estados Unidos, de certos angloamericanos às vêzes influentes, na definição de uma política nem sempre coerente, como a internacional, da grande República, é uma política que se assemelha à britânica, na América Hispânica, no comêço do século passado, quando inglêses anti-colonialistas com relação à Espanha e a Portugal, favoreceram a independência das colônias espanhois e da portuguêsa no continente americano; mas para os seus grupos imperialmente econômicos procurarem, e de certo modo, conseguirem, logo após as separações das antigas colônias de suas metrópoles, privilégios que deram à Grã-Bretanha em grande parte do mesmo continente situação senão ostensivamente, veladamente imperial, só atenuada pela emergência de outro poder anglo-saxônico, os Estados Unidos, como nação também imperial. Foi aliás política imitada dos inglêses pelos próprios Estados Unidos, ao concorrerem para que se desenvolvessem condições favoráveis à aparente independência política, pela separação da Espanha de árcas tropicais de colonização hispânica como as Filipinas, no Oriente, e Cuba e Pôrto Rico, na América, que aos poucos se tornariam zonas de influência senão ostensivamente política, econômica, dos mesmos Estados Unidos.

     Quando antropólogos e sociólogos angloamericanos, menos perspicazes em sua ciência política que eruditos na puramente etnológica, clamam contra a moderna política de assimilação dos portuguêses nos trópicos, acusando-a de perturbar um desenvolvimento autônomo de culturas africanas em áreas como a angolana, puxem-se ingênua e talvez românticamente a favor daqueles desígnios de imperialistas angloamericanos, dos quais se mostram contagiados até publicistas independentes como o há pouco referido Mr. Wilson. Pois não se compreende de outro modo que no seu The Tropics, World of Tomorrow, chame, à página 133, Mr. Wilson, a uma nação como o Portugal moderno - nação que se faz respeitar na Europa e nos trópicos pela superior honestidade de suas práticas políticas e econômicas em contraste com a desonestidade que se sabe macular hoje a vida política e administrativa de grandes e civilizadíssimas nações boreais, em algumas de suas esferas de atividade - "corrupt Portugal"; e à página 139 refira-se à "tropical África" como "colony-ridden", não lhe ocorrendo melhor exemplo de colonialismo que o oferecido por Portugal e Espanha na mesma África, a qual - segundo êle - "still suffers some extremely incompetent colonies, such as those of Portugal and Spain, for example..." Injustiça das mais gritantes. Sob cêrtos aspectos superficiais, embora vistosos, cenográficos, brilhantes, de eficiência de técnica européia aplicada às vêzes erradamente aos trópicos - assunto sôbre o qual M. Wilson faria bem em informar-se com mestres consumados de Tropicologia como o Professor Pierre Gourou e o Professor R. J. Harrison Church, o último dos quais, no seu Modern Colonization (Londres 1951), à página 377, destaca para advertência dos ingênuos campeões da eficiência nórdica nos trópicos, estas palavras de técnicos europeus especializados no estudo de agricultura ou lavoura em terras tropicais: "European men, despite their skill and power over Nature, have learnt ondy how to cultivate European soils in na European climate" - é evidente a superioridade de holandeses, belgas, inglêses, sôbre portuguêses e espanhóis estabelecidos nos tropicos; sob outros aspectos - os humanos, sociais, éticos - não: sua inferioridade é que é mais do que evidente. O Congo Belga, a África Britânica, a Francesa, a Boer, se excedem a África Hispânica em alguns aspectos de eficiência técnica nos trópicos, amesquinham-se ao lado da mesma África Hispânica, em exemplos de colonialismo do mais arcaico, entre as gentes africanas, quando se examinam alguns dos seus métodos ou estilos de convivência humana: a dos europeus com os nativos. Ou quando se consideram suas atitudes de europeus ou de brancos para com os mestiços. Ou - ainda - as raras oportunidades de integração em novas sociedades concedidas por europeus do Norte a africanos desejosos dessa integração sem repúdio a valores de suas culturas ecològicamente tropicais. Tampouco se compreende que outros angloamericanos igualmente levianos, e pouco conhecedores das modernas sociedades lusotropicais - com tôda as suas imperfeições, tão mais democráticas, em seus estilos essenciais de convivência humana, que as sociedades essencialmente coloniais, mesmo quando polìticamente democraticas, ainda orientadas ou dominadas por europeus do Norte nos trópicos - pretendam fechar os olhos ao que diferencia as sociedades e culturas hispano ou luso-tropicais das apenas sub-européias. Daquelas em que os valores essenciais de populações e culturas tropicais são despedaçados, conservando-se dêles apenas os pitorescos etnográficos; e sem que se construam com alguns dêsses valores, e não sôbre os destroços de todos êles, novas culturas ou civilizações, em que ao sangue das gentes tropicais se junte - como se vem juntando o das gentes hispânicas - o sangue europeu. Isto - repita-se - não importa em desconhecer-se da parte de modernos políticos portuguêses, responsáveis pela política lusitana na África, erros lamentáveis em geral devidos a imitação, por alguns dêles, de métodos belgas, inglêses e até sulafricanos de colonização, que vêm sendo severamente criticados por antropólogos e sociólogos da própria Bélgica, da própria Grã-Bretanha e mesmo da África do Sul.



Source: FREYRE, Gilberto. A propósito de Mourão, Rosa e Pimenta: sugestões em torno de uma possível hispanotropicologia. Recife: Arquivo Público Estadual, 1959. 25p.

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