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Manifesto dos que trabalham no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais O Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais nasceu não só com objetivos científicos porém com preocupações sociais. Essas preocupações sociais tinham que tomar um aspecto construtivamente regional ao mesmo tempo que amplamente nacional. A causa da valorização do homem agrário do Brasil, à qual o Instituto está ligado pelas próprias palavras da lei que criou, é causa que, sendo regional e correspondendo a necessidades específicas daquela parte do Brasil mais profundamente afetada por efeitos antissociais e até antihumanos de excessos de monocultura latifundiária, é nacional: nacionalmente brasileira. Pois a população regional vítima ainda hoje dêsses excessos é parte numerosa e vital da brasileira e seus problemas, seus sofrimentos, suas reivindicações interessam de modo dramático ao conjunto nacional brasileiro. O objetivo básico do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais é o de estudar as condições de vida do trabalhador rural do Norte Agrário. Seus pesquisadores não esquecem que existe uma população rural que não participa da grande síntese nacional, marginalizada, vivendo um regime injusto de distribuição de terras e sem as necessárias e efetivas proteções da legislação social. População que espera por um prolongamento do 7 de Setembro; prolongamento orientado pelos podêres constituídos, atendendo as diversas situações regionais, permitindo a todos brasileiros que trabalham no campo, pequenos e médios agricultores, pequenos e médios criadores que possam ter capacidades normais de existência. Não esquecem, ainda, que a sua área de ação se estende até à Amazônia, zona vitalmente nacional, alvo da cobiça estrangeira, necessitada de ser recuperada por um vigoroso empenho por parte de todos os brasileiros, com o apoio de uma tecnologia inspirada no diagnóstico dos cientistas sociais no sentido de integrar e estabilizar populações já lá existentes ou que para aquela região se deslocarem. Concorrendo com seu trabalho científico de pouca repercussão numa imprensa como hoje, grande parte da do Brasil e do estrangeiro, nem sempre empenhada em acentuar o que se faz de construtivo e de positivo a favor da valorização do Homem brasileiro, o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais vem cumprindo um programa ao qual não falta, nem tem faltado, um forte sentido de responsabilidade nacional e, mais do que isto, de intenção nacionalista. Daí, de sua própria tribuna, já ter dito, em memorável confer6encia, um líder brasileiro dos nossos dias, que o trabalho intelectual, científico, quase silenciosamente realizado por êste Instituto, é dos que, a seu modo, concorrem para a própria segurança nacional. No caso, independência brasileira. Sendo assim, se há instituição brasileira de investigação científica desdobradas em preocupações sociais, que não pode alheiar-se da comemoração do dia da Independência nacional, é o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Para os que aqui trabalham, as próprias ciências de que se servem, como instrumento de análise de uma realidade que não é nem a européia nem a dos Estados Unidos, nem a das Rússias nem a das Chinas, precisam de ser adaptadas, como métodos, e antes de ser aceitadas como definitivas ou rìgidamente universais nas suas generalidades, a condições brasileiras, quer globais, quer diversamente regionais. Precisam de ser, sob êsse critério e através dêsses processos, reinterpretadas ou reajustadas. Esta, uma afirmação de saudável e necessária independência (não há, é certo, independência absoluta no mundo interdependente em que já vivemos) como uma das Independências relativas que se impõem, num país como o Brasil, contra os imperialismos de qualquer espécie. Uma casa de trabalho e de estudo como é êste Instituto pode concorrer, por êsse meio, para a causa geral da independência nacional num Brasil já firme e nítido nos seus propósitos de não querer ser passiva dependência nem da política nem da economia nem da arte nem da literatura nem tampouco da ciência social de qualquer superpotência da nossa época. O Brasil, no próprio setor da ciência social, já caminha com seus próprios pés e contribuindo com sua própria originalidade de nação eurotropical para o que deve ser panhumano, mas não exclusivamente europeu ou estadunidense, nos estudos sociais. Não faz muito tempo, em reunião de sociólogos em Paris, dois dos europeus mais notáveis nessa especialidade científica, o Professor Balandier e o Professor Duvignaud, reconheciam serem certos conceitos sociológicos válidos para sociedades européias, inadequadas para a definição de situações sociais não-européias. Houve, nessa reunião, quem, passando da consideração metodológica do assunto, a aspectos práticos de aplicação da sociologia a situações atuais em áreas como a africana, reconhecesse a validade dos chamados socialismos africanos. Socialismos, sim, porém precisando de ser diferente dos europeus, marxistas ou stalinistas, ou de qualquer dos socialismos dêste ou daquele feitio europeu, para corresponderem a situações não-européias. E por isto mesmo necessitado de ser situações analisadas, esclarecidas, interpretadas, definidas, conceitualizadas, através de novos métodos e de novos critérios de interpretação, que sendo sociológicos, não sejam subeuropeus. Ora, a essa atitude de africanos com relação à sociologia, quer teórica quer aplicada, a essa como que decisão de sua parte de se proclamarem independentes de um como imperialismo sociológico rìgidamente europeu - que, pode-se dizer assumir feitio ainda mais imperialista quando representado por certos sociólogos dos Estados Unidos - anteciparam-se brasileiros estudiosos de Ciências Sociais. Inclusive, empregando na análise e na interpretação de situações psicossociais, socioculturais e psicoculturais especìficamente brasileiras, combinações de métodos históricos e antropológicos para o conhecimento de antecedentes de atualidades impossíveis de ser reconstituídos, em países como o Brasil - duas de cujas culturas mais atuantes em sua formação são culturas preliterárias: a negra africana e a ameríndia - através do documentos escritos ou de evidências convencionalmente históricas. Daí a originalidade brasileira de "pluralismo metodológico", cuja importância foi descartada por um dos maiores críticos franceses, Jean Pouillon, em palavras que importam no reconhecimento de uma tendência, já de mais de três decênios, da parte de cientistas e pensadores sociais brasileiros, para derem aos seus trabalhos, às suas pesquisas, ao seu pensamento criador, orientação, em pontos essenciais, independente da orientação européia ou da estadunidense. Tendência que veio a ser, há quatro anos, reconhecida de modo ainda mais ostensivo pela França intelectual, ao consagrarem os doutores da Sorbonne num seu colega brasileiro o criador de uma Antropologia do Homem situado no Trópico e o reorientador de rumos de uma ainda jovem Psiquiatria Social. Os que trabalham no Instituto Nabuco de Pesquisa Sociais se sentem jubilosos em poderem se considerar, embora dentro de limites modestos, participantes nesse movimento de independência brasileira que vem consistindo em sermos, alguns de nós, não passivos e inermes seguidores de idéias e de métodos europeus ou estadunidenses de estudo e de interpretação da nossa própria realidade social, porém, em vários pontos, modificadores dessas idéias e dêsses métodos e, à base dessas modificações, inspiradores de novas soluções para problemas nacionais, quer brasileiros, quer comuns a várias sociedades não-européias em desenvolvimento, que interessam à própria independência econômica e política e não apenas especìficamente cultural, dessas sociedades. A 7 de Setembro de 1970, o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais se sente feliz em proclamar mais uma vez seu programa fielmente seguido: sendo uma casa de estudos cientìficamente sociais é, também, um reduto de preocupações nacionais de brasileiros com os valôres do passado, com os problemas do presente e com os possíveis e grandes futuros da nação brasileira como líder, sob vários aspectos, da maior civilização moderna e da mais avançadas democracia étnica em desenvolvimento em espaços tropicais e quase-tropicais. Gilberto Freyre Mauro Mota Diretores de Departamento Sylvio Rabello, Psicologia Social Assistentes Aécio Oliveira, Museologia Source: FREYRE, Gilberto. 7 de setembro de 1970: manifesto dos que trabalham no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Recife: Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais - MEC, 1970. 11p. |