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Ao Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais não tocam responsabilidades especìficamente didáticas. Não é um centro de ensino mas de pesquisa. Como, entretanto, a pesquisa não se aprende sem estudo e sem ensino sistemáticos, o Instituto se vê obrigado a ministrar cursos de iniciação à pesquisa em Ciências Sociais, como o que hoje se inaugura. Curso que o diretor desta Casa, o geógrafo Mauro Mota, organizou, inteligentemente, convocando para mestres do nôvo grupo de noviços, especialistas brasileiros dos mais idôneos, alguns felizmente, ligados ao Instituto Joaquim Nabuco. A pesquisa em tôrno de assuntos sociais vai da jornalística, da literária, da policial, à sistemàticamente científica. O curso que hoje se inaugura será de iniciação à pesquisa científica, sem que os mestres dêsse tipo de pesquisa desconheçam o valor de outras abordagens e ignoram os pontos de contacto entre elas. Entre o pesquisador social e o jornalista, o detetive, o escritor que recolhe o chamado "documento humano" para sôbre ele levantar crônicas, romances, biografias, comedias e dramas para teatro, cinema, televisão, há alguma coisa de comum sempre que nessa colheita ou nessa análise de documento humano os oriente maior ou menor ânimo ou espírito científico. A prática moderna do jornalismo - daquele jornalismo menos de gabinete que de campo, que é o da reportagem, o da entrevista, o da correspondência do chamado teatro dos acontecimentos - como a prática de investigação policial com que se vem aperfeiçoando a arte-cênica de Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes - chega por vêzes a aproximar-se da pesquisa em vigor nos modernos estudos ou ciências do Homem. Há relações entre êsses três tipos de bisbilhotice em tôrno do comportamento humano: a bisbilhotice jornalística ou literária - que melhor reportagem da tourada espanhola que a literária, de Hemingway, ou que melhor reportagem sôbre certos aspectos da conversão religiosa que a também literária, de Huyamans? - a bisbilhotice sherlockiana e a bisbilhotice científico-social. Porque a bisbilhotice do romancista, do contista, do cronista literário, do historiador, do biógrafo, do teatrólogo, a do jornalista, a do detetive - inclusive a do agente secreto, a do próprio espião político, que também êle pode atingir categoria científica ou dignidade literária: o caso de D. T. Lawrence - tem, em não poucos casos, algum parentesco com a dos pesquisadores sociais cientìficamente orientados; e esta é no essencial - só no essencial - do seu modo de ser pesquisa e de ser ciência, semelhante à dos pesquisadores biológicos, físicos, químicos, médicos, geológicos, geográficos, oceanológicos - setor, o oceanológico, alongado no estudo de terras, de climas, de populações transoceânicas, em que a gente ibérica, da qual principalmente se deriva a nossa cultura, antecipou-se a outras, da Europa, deixando-nos, aos neo-ibéricos, uma tradição e um exemplo preciosos. De onde a chamada Escola de Sagres, animada pelo Infante Dom Henrique, ter sido um centro de pesquisas em que a curiosidade científica da Europa cristã, auxiliada pelo saber do Oriente, projetou-se pioneiramente até gentes, e não apenas águas e terras, tropicais. Das várias expressões da curiosidade do Homem pelo que é humano, têm resultado obras literárias, científicas e até filosóficas de importância. Obras literárias e, ao mesmo tempo sociológicas, como certos romances de Swift, de Defoe, de Balzac, os ensaios de Montaigne, a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, o Dom Quixote, Os Lusíadas, o Guerra e Paz. de Tolstoi, o Fausto, de Goethe, e a própria Divina Comedia: e como, na moderna língua portuguêsa, As Farpas, de Ramalho Ortigão em colaboração com Eça de Queiroz, Os Maias, do mesmo Eça, alguns dos contos de Machado, O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, O Ateneu, de Raul Pompéia, Canaã, de Graça Aranha, os contos gauchescos de Simões Lopes Neto, os romances de Lima Barreto e José Lins do Rêgo, As Religiões no Rio, de João do Rio. Obras científicas e, ao mesmo tempo literárias como, em inglês, o relato de viagens de Darwin, o livro de Hans Zinser sôbre a importância de ratos e piolhos na história humana, o ensaio de Harlow sôbre o amor entre macacos afins, como animais, de homens, em francês, os estudos de Claude Bernard sôbre medicina experimental, em alemão, a obra prima de Freud sôbre o sexo em Leonard da Vinci, os ensaios de Jung, a base de pesquisas psicológicas e psiquiátricas, sôbre os arquetipos, sem nos esquecermos de certos ensaios de Nietzche baseados em pesquisas histórico-filológicas, nem dos Diálogos, de Garcia da Orta nem, entre nós, da Rondônia, de Roquete Pinto e, é claro, Os Sertões. A própria curiosidade pelo que se apresenta como sobrenatural no comportamento humano se tem alimentado, por vêzes, de pesquisas como as de certos místicos espanhóis, através de introspecções e, modernamente, as experimentalmente científicas, dos William James e dos Richet. Dizia-me, não há muito tempo, em Paris, o Professor Gordon Allport, mestre de Psicologia Social na Universidade de Harvard, que não compreendia os estudantes que lhe confessavam não terem lido nunca uma Santa Tereza de Jesus ou um Dostoiewski. Onde estava sua curiosidade pelos grandes altos e pelos profundos baixos da natureza humana surpreendidos em obras geniais? É a mesma curiosidade pelo humano que nos torna sôfregos de informação sôbre o que ocorre cotidianamente com os nossos contemporâneos, em diferentes áreas de atividade humana e em diferentes áreas do mundo onde se manifesta a presença humana: sofreguidão que é, até certo ponto, atendida, de modo mais rápido, pelo jornal diário, com serviço telegráfico, pelo rádio, pela televisão, pelo noticiário cinematográfico; e de modo menos rápido pela pesquisa literária ou cientìficamente social, a saber, novelística - que mais profundo pesquisador de intimidades psico-sociais do que Proust? - antropológica, - como nos trabalhos de Margaret Mead - sociológica, psicológica, política - em tôrno de diferentes expressões de comportamento humano, seja êste o de grupos civilizados, como, por exemplo, as atitudes dos Católicos mais ortodoxos da Irlanda, com relação ao contrôle da natalidade; ou primitivos, como os ritos de iniciação entre Chavantes do nosso País ou os Bantos, da África; ou, ainda, mistos, como os costumes de certos grupos centro-americanos estudados de modo magistral pelo insigne antropólogo que foi Robert Redfield. Antes de prosseguir nestas considerações sôbre o que há de afim entre êsses vários tipos de pesquisa social de campo, seja-me permitido recordar, de modo mais explícito, que, quando repórter, entrevistador, correspondente de guerra - o jornalista em contacto com a rua, com a praça, com o mercado, com as assembléias, com os comícios, com exércitos em ação e populações em guerra, com os conflitos internos entre grupos, com criminosos, com detetives, com marginais, com torneios de foot-ball, com jogos na Bôlsa, com os grandes homens do dia, sejam êsses grandes homens estadistas ou campeões esportivos, generais ou bispos - pode chegar a aproximar-se do pesquisador sociológico ou psico-sociológico. A um curso como o que hoje se inaugura neste Instituto, jornalistas que desejassem dar ao seu ofício densidade intelectual, que tantas vêzes lhes falta, poderiam freqüentá-lo, como ouvintes, com o maior proveito. Também detetives que pretendessem ser até certo ponto científicos, e não apenas técnicos, em suas abordagens de circunstâncias psico-sociais que envolvam crimes. Pesquisadores sociais, jornalistas e detetives repita-se que têm alguma coisa de comum a ligá-los, quando cientìficamente orientada sua curiosidade. A arte da reportagem, a da entrevista, a da correspondência de guerra e também a espionagem política, a diplomacia, a atividade missionária, a da confissão, são artes com alguma coisa de ciência social ou psico-social; e exigem do indivíduo, especializado em qualquer delas, atitudes e técnicas de observação, de indagação e de discernimento, que só a iniciação nos estudos cientìficamente psico-sociais é capaz de lhe dar de modo sistemático. Isto, à base de outra condição dependente de algum contrôle científico: a de serem por temperamento, por constituição, até mesmo por predisposição de caráter biotipológico, o repórter, o entrevistador jornalístico ou científico, o diplomata, o espião, o missionário e o confessor - como o pesquisador psico-social pleno, indivíduos que reunam uns tantos traços de personalidade, essenciais ao desempenho de tais atividades. Sem essas condições básicas de personalidade, difìcilmente serão êles beneficiados por aquela iniciação em técnicas de indagação, desenvolvidas nos estudos cientìficamente sociais. Daí ser importante que a admissão a um curso como êste seja precedida de entrevistas dos candidatos com psicólogo capaz de surpreender aquelas predisposições ou aquelas incompatibilidades de temperamento. São várias as técnicas de observação e de indagação que vêm sendo desenvolvidas nos estudos cientìficamente sociais - nos antropológicos, nos sociológicos, nos psicológicos, nos psiquiátricos, nos econômicos, nos políticos, nos históricos, assim como nos jornalísticos e nos policiais e, ainda, naqueles, médicos e para-médicos, que também se fazem através de pesquisas sôbre a condição não só física ou biológica como psico-social do homem: um ser cercado de terríveis inimigos, alguns ocultos, de sua saúde, que física, que psico-social, como micróbios cuja ação vem desafiando o gênio de pesquisadores do tipo de Pasteur; ou como "complexos" dos que causam distúrbios nervosos. Ao lado delas, outras técnicas vêm sendo aperfeiçoadas por cientistas sociais: as de ciência social derivada de pesquisa e aplicada ao setor da comunicação inter-humana, por exemplo. Ao ensino, á recreação, à liderança ou ao comando em vários setores, às negociações de vários tipos: comerciais, políticas, diplomáticas. E também às modas femininas e aos brinquedos de crianças. Os alemães, célebres como fabricantes de brinquedos, há anos que se orientam nessa atividade, tão importante para a cultura de um povo através da educação e da recreação da sua infância, por pesquisas psico-sociais entre as próprias crianças, entre pais, entre educadores. Nos Estados Unidos é crescente o número de bonecas morenas, pardas, amarelas, pretas, ao lado das brancas: pesquisas psico-sociais vêm indicando a conveniência dessa diversificação que corrige a antiga tirania da boneca branca, côr-de-rosa e quase sempre loura, imposta a tôdas as crianças, brancas ou não. Das técnicas de que se vêm servindo pesquisadores sociais se pode afirmar que começam a atingir, em certas de suas áreas, tal refinamento, que permitem já a grupos dominantes, em sociedades, quer das chamadas desenvolvidas, quer das em desenvolvimento, exercer um domínio tal sôbre os demais grupos de qualquer dessas sociedades - grupos cujas tendências sejam identificadas através de pesquisas psico-sociais - que êsse domínio pode tornar-se quase total. Ou totalitário. Mas podem, também, corrigir tendências nesse sentido. As técnicas de dominação psico-social, aperfeiçoadas por cientistas sociais, podem ser utilizadas, para o contrôle de populações inteiras, através de anúncios comerciais que resultem igualmente de pesquisas psico-sociais; ou através de sistemáticos esforços de persuasão de caráter político; ou através de outras formas de propaganda disfarçada, por vêzes, em formas de informação, de educação, até mesmo de alfabetização, quer de crianças, quer de adultos. Técnicas utilizáveis e utilizadas até por elementos antinacionais, dentro de certos grupos nacionais; e a favor de ideologias minoritárias contra padrões majoritários de moralidade ou de política ou de cultura, em geral. Daí o poder considerável que pode ser exercido, e está sendo já exercido, por organizações de caráter econômico, político ou cultural, através de técnicas de comunicação, de persuasão e de propaganda, cientìficamente elaboradas: elaboradas à base de pesquisas psico-sociais. Um cientista social ilustre, o Professor Arnold Rose, chega a dizer, em livro recente - Theory and Method in the Social Sciences - dos modernos cientistas sociais que, pelo refinamento por êles já obtido dessas técnicas, estão se tornando detentores, no plano das Ciências Sociais aplicadas ao contrôle social, de uma como energia atômica quase tão "potencialmente perigosa" como a outra. Já essa opinião fôra manifestada pelo Professor Harold Guetzhow, no prefácio do livro, por êle organizado, Groups, Leadership and Men (Pittsbug, 1951), ao escrever dos modernos cientistas sociais: "We have been given the chance to produce our equivalent of the atomic bomb". E o que hoje se sabe não só da chamada "guerra psicológica" como dos fatos que o Professor Robert Merton analisa no seu livro Mass Persuasion, nos autoriza a considerar o assunto problema verdadeiramente dramático. Pois para vários cientistas sociais de hoje, já estamos próximos do dia em que, através de técnicas de persuasão, à base de pesquisas psico-sociais, os cientistas sociais que orientem um grupo política ou econômicamente dominante, ou cheguem ao domínio político e econômico dêsse grupo, poderão transformar os membros de uma comunidade em ex-indivíduos, ou ex-pessoas, incapazes de vontade própria ou de orientação diferente da que lhes fôr dada através de técnicas, hoje cientìficamente quase perfeitas, de persuasão, dentro das de comunicação baseadas em pesquisas ou investigações psico-sociais. Dos valôres cívicos, religiosos, estéticos, políticos, econômicos, em que se inspire um grupo dominante e que sejam por êsse grupo postos em atividade através de tais técnicas, depende, em grande parte, o rumo que tome a opinião pública na comunidade sob a influência das mesmas técnicas: técnicas cada dia mais poderosas, como equivalentes, no plano da comunicação, de energias militarmente efetivas. Isto quanto ao problema fundamental de técnicas de persuasão e de meios modernos de comunicação, cuja eficiência, como técnicas científicas baseadas sôbre pesquisas psico-sociais, tem crescido de tal modo que, comparadas com elas, as mágicas praticadas pelos grandes feiticeiros do Nazismo ou da primeira fase de Comunismo soviético se amesquinham em façanhas de politiqueiros ou de camelots arcaicos. São técnicas capazes de, na verdade, produzir, no plano psico-social, os tais efeitos, já referidos, semelhantes aos biofísicos, da energia atômica. Da importância das implicações psico-sociais das modernas técnicas de persuasão, dentro das de comunicação, baseadas naquelas pesquisas, nenhum cientista social de agora pode conservar-se ignorante. Para inteirar-se delas, - e para desenvolver contra-ofensivas a certas ofensivas - êle precisa de seguir os desenvolvimentos dos estudos psico-sociais em tôrno de matéria tão complexa. Estudos que se vêm desenvolvendo através de pesquisas científicas no setor delas que procura identificar, em grupos ou em sociedades nacionais inteiras, atitudes, predisposições, receptividades, resistências ideais, mitos, frustrações. Precisa o cientista-social de inteirar-se de técnicas de indagação científico-social que, como o inquérito antropológico ou sociológico, a entrevista sociológica, a reportagem sociológica, a sondagem psico-social, vêm permitindo às Ciências Sociais a aquisição, de modo por vêzes quase tão preciso como, com relação a certos assuntos, a técnica puramente estatística ou matemática - dentro dos seus limites, tão valiosa - de informes, de esclarecimentos, de dados sôbre aspectos do comportamento humano, esquivos à mensuração ou à abordagem simplesmente matemática ou puramente estatística. E dependendo grandemente, para ser apreendidos ou surpreendidos, de qualidades semi-artísticas, semi-intuitivas, do pesquisador, por mais estritamente científico, contanto que essas qualidades não se sobreponham - é claro - ao essencial na disciplina ou na sistemática científica. São técnicas, as de pesquisa psico-social mais profunda, que vão além dos recursos ou dos limites estatísticos ou matemáticos de estudo quantitativo de situações psico-sociais. Exigem, então, do pesquisador, qualidades ou aptidões que a pesquisa apenas estatística - importantíssima nos seus limites - dispensa. Uma dessas aptidões, a capacidade de empàticamente identificar-se o pesquisador com os sujeitos, ou os sujeitos-objetos, que pretenda conhecer em suas intimidades menos aparentes, sem, entretanto, resvalar em excessos de subjetivismo ou de emocionalismo que sabemos ser prejudiciais ao próprio médico no trato com os clientes; ou ao próprio confessor Católico em relação com os confessandos. É uma capacidade ou aptidão, essa de empatia, que não pode faltar ao pesquisador cientìficamente social de campo; e cuja presença, antes de afirmar-se nesse nôvo tipo de cientista, antecipou-se em missionários Católicos de épocas remotas - num Ramon Lulio no seu trato com maometanos, por exemplo - e em jornalistas do século XIX e do comêço do XX que foram principalmente intuitivos, grandes intuitivos, em seu modo de ter sido grandes repórteres como Stanley, na África, e como, entre nós, o Gastão Cruls que tendo acompanhado Rondon numa de suas viagens pelos sertões amazônicos nos deixou A Amazônia que eu vi, ou entrevistadores como Emil Ludwig e, como, entre nós, o Assis Chateaubriand que ainda hoje pode ser admirado no livro Na Alemanha, ou correspondentes de guerra como Winston Churchill e, no Brasil, o Euclydes da Cunha, que acompanhou o desenrolar da chamada "guerra de Canudos". Presença que explica o fato de tais façanha jornalísticas terem sobrevivido ao momento em que foram praticadas, e a que missionária ou jornalìsticamente corresponderam, tornando-se, umas, documentos de considerável interêsse sociológico - as cartas de Jesuítas sôbre situações sociais no Brasil do Século XVI e a reportagem amazônica de Cruls, por exemplo - ou histórico-social - a reportagem de Assis Chateaubriand na Alemanha de após a Primeira Grande Guerra - outras, além de documentos dêsse gênero, obras vigorosamente literárias: o caso de Os Sertões. Pois em Euclydes da Cunha encontramos exemplo supremo de escritor literário genialmente intuitivo que, entretanto, para solidificar sua façanha de reportagem, recorreu a métodos e a técnicas desenvolvidas em ciências não só do Homem como da Natureza. Praticou sua façanha de grande reportagem, não de modo levianamente jornalístico, mas acrescentando à bisbilhotice do repórter interessado nos aspectos sensacionais, pitorescos, dramáticos, imediatos, estritamente jornalísticos, do objeto da sua reportagem, aquilo que o Professor Lumley chama o "scientific mood". Atitude ou estilo tão raro na maioria dos jornalistas brasileiros de hoje, dentre os quais não apareceu ainda um Stanley que nos desse uma reportagem de alta envergadura sôbre os sobreviventes de ameríndios no Brasil central nem mesmo um nôvo João do Rio que fixasse aspectos das atuais manifestações do culto de Iemanjá no Brasil. Ou do de Umbanda. Assuntos que são também válidos como objetos-sujeitos de pesquisas sistemàticamente psico-sociais. Uma pesquisa dessas, em tôrno do viço atual do culto de Iemanjá, talvez nos permitisse relacionar êsse fenômeno com as tendências, da parte de uns tantos sacerdotes Católicos, dos que já não vestem a batina simbólica mas a substituem pelo trajo paisano ou mesmo playboiesco, para acentuarem na religião Católica, o "racional", o "lógico", o "social", como sacrifício do simbólico e até envergonhando-se do místico: inclusive de cultos como o da Virgem Maria, o de Jesus Menino, o dos santos e de ritos como os que implicam em crença no sobrenatural, no divino, no sagrado. Para o Professor J. A. Thompson, biólogo notável que escreveu An Introduction to Science, todo indivíduo que pretenda abordar um assunto através do "scientific mood", precisa de ser, tanto quanto o biólogo ou o físico ou o antropólogo, animado pelo que êle chama de "paixão pelos fatos", de "prudência nas afirmativas", de "nitidez de visão", e, também, de um sentido, que lhe parece essencial e que, de ordinário, falta ao literato ou jornalista que não seja cientìficamente orientado nas suas pretensões a sociólogo ou a psicólogo ou a historiador social ou a antropólogo: o de interrelação dos fatos. Para o observador científico, o fato que êle observa não é nunca um fato isolado ou puro: é um fato relacionado com outros. O econômico nunca existe sòzinho. Nem o político existe à revelia do complexo em que se exprime. O ético raramente prescinde do religioso. Um catolicismo apenas ético ou sòmente humanitário será um ex-Catolicismo, com seus bispos "progressistas" reduzidos a demagógicos campeões da substituição do que é religioso nesse sistema essencialmente religioso pelo "social" modernizante. É preciso que a interrelação entre fatos humanos não seja nunca desprezada. O observador que fixe sua atenção num acontecimento único, esquecido de que êsse acontecimento não se produziu no vácuo, mas representa uma série de fatos interrelacionados, não transmite ao seu leitor - quando os resultados de suas observações são publicados - senão uma boa ou má caricatura do mesmo acontecimento, com o traço ostensivo de uma realidade mais ou menos complexa, reduzido a expressão, na aparência, simples, mas na verdade simplista, dessa realidade. Será isto que o leitor deseja de um observador ou de um pesquisador? Evidentemente não. É preciso não subestimar-se o leitor médio de ensaios jornalísticos, literários ou científicos que considerem aspectos do comportamento humano. O leitor médio não deseja de um ensaio dêsses que seja erudito, pedante, ostensivamente científico ou cientificoide. Mas o leitor médio parece desejar quase sempre de quem o informe sôbre um acontecimento dramático - uma revolução, um choque entre brancos e negros em área onde êsses grupos étnicos não se entendam, assaltos a armazéns de víveres por grupos famintos - que lhe permita entrever a intimidade dêsse drama e não apenas inteirar-se dos seus aspectos exteriores e sensacionais. Não é senão por êsses afã, da parte do homem, de inteirar-se, nos dramas humanos, do que nêles é íntimo e não apenas ostensivo, que é tão generalizado, em qualquer país moderno, o gôsto pelas histórias de detetive. O que são, na sua maioria, essas histórias, de detetive, senão reportagens fictícias desenvolvidas mais ou menos dentro de uma técnica científica? É uma técnica, essa, que valoriza, nessas reportagens fictícias, perícias tão necessárias ao cientista social como ao jornalista de campo, ao romancista, ao detetive, a saber: perícia na observação; perícia na colheita de dados; perícia no registro de observações e de dados colhidos; perícia - no caso do cientista social - na possível mensuração dêsses mesmos dados; perícia na verificação que apure, tanto quanto possível, erros, descuidos, discrepâncias no material colhido; perícia na classificação dêsse mesmo material, evitando-se demasiada mistura de alhos com bugalhos e abrindo-se caminho àquelas previsões ou conclusões que tanto podem prestigiar quanto desprestigiar o cientista social ou o repórter de alta categoria ou o detetive científico - ponhamos os três no mesmo barco - desejosos de irem além da simples apresentação ou da pura análise do material por êles colhido dentro de um "scientific mood". A perícia na observação é básica, quer se trate de sondagem sociológica ou antropológica, quer se trate de reportagem jornalística ou de investigação de crime por detetive científico. Diz-se que êsse era o traço que mais distinguia o Professor Bell, de Edimburgo, do qual há quem sustente tèr sido o original do famoso Sherlock Holmes, apenas em parte inventado por Conan Doyle. Bell era professor de ciência médica. E no que êle mais insistia era na necessidade do médico científico ser perito na observação. "Gentlemem" - costumava êle dizer - "the ideal medical man is beyond all things observant". A propósito do que fêz certo dia um test com seus alunos. Perguntou-lhes se eram capazes de seguir ao mesmo tempo suas palavras e seus atos, de modo a poderem repetí-los com exatidão. E enquanto formulava essa pergunta, meteu um dedo num boião de tinta de escrever e levou o dedo à bôca, pois, segundo disse aos estudantes, provando a tal tinta, poderia dizer quais os seus componentes. Imediatamente depois, pediu ao aluno mais próximo que lhe repetisse as palavras e os atos. O estudante começou a repetir as palavras, repetindo também o que lhe parecia o ato ou gesto principal do professor: o de meter o dedo no tal boião, levando à bôca o dedo assim melado de tinta, para provar o gôsto da tinta. Sujou-se todo: a tinta, da bôca escorreu-lhe pela camisa e pela gravata. Diante do que o original de Sherlock Holmes disse aos seus estudantes de Edimburgo: "Vejam os senhores o que é deficiência na observação. Tivesse o vosso colega observado com maior exatidão os meus atos e teria notado que, de propósito, o dedo que levei à bôca não foi o mesmo que meti no boião de tinta, que também me teria sujado a bôca, a camisa e a gravata, de tinta de escrever se o boião o tivesse levado, lambuzado de tinta, à bôca, fazendo coincidir o ato com as palavras. Coincidência que por vêzes deixa de verificar-se não só entre atos e palavras de sujeitos-objetos que um pesquisador social procure estudar como entre palavras e atos que as pesquisas estatísticas mais simplistas pretendam reduzir a números ou a gráficos. Note-se, a propósito dêsse suposto experimento de laboratório em sala de aula, que, no plano dos fatos sociais que interessam ao cientista ou ao pesquisador social, ao jornalista, ao novelista e ao detetive que se orientem cientìficamente no trato dos mesmos fatos, os experimentos de laboratório só são possíveis em casos raríssimos. Nem por isto, pode-se dizer do pesquisador social e do jornalista, do novelista e do detetive assim orientados que lhe faltam de todo experimentos no planos das suas observações. Como salientou, numa das melhores páginas do seu hoje clássico Principles of Sociology, o Professor Lumley "all living is experiment", isto é, tudo que vive, é experimento que pode ser observado por quem saiba observar tais experimentos de fora de laboratório, com olhos cientìficamente apurados, seja o observador, cientista social ou detetive, ou agente do Santo Ofício encarregado de surpreender heresias e sodomias secretas ou agente secreto como Lawrence da Arábia ou Somerset Maugham ou novelista do tipo de Aluízio de Azevedo ou, ainda, jornalista do tipo de Park: o Park daquelas reportagens sôbre os marginais de Chicago que precederam os seus estudos pròpriamente científicos de sociólogo - um dos maiores sociólogos da nossa época. O professor Lumley vai além daquela sua generalização ao especificar: "every friendship is an experiment; every religious sect is an experiment; every marriage, every industry, every form of government, every athletic contest". O que é afinal, no plano das relaçãos entre homens ou entre grupos sociais, que não é experimento dessa espécie e, como tal, susceptível de ser descrito, em algum dos seus aspectos mais detetive ou cientista social cientìficamente orientado? É interessante nos recordarmos, a esta altura, que tem havido, mais de uma vez, interpenetração entre atividades pré-científicas e o desenvolvimento de técnicas de pesquisa científico-social, que lidem com experimentos dessa espécie: experimentos de fora de laboratório. O mestre que foi Robert Park - para voltarmos a êsse exemplo ilustre - iniciou estudos que, numa segunda fase, se tornaram magistralmente sociológicos, dos grupos chamados marginais, da cidade de Chicago, como jornalista, isto é, através de reportagens inteligentemente descritivas - mas tão sòmente descritivas - em tôrno dos mesmos grupos. Dêsses estudos é que se desenvolveu, com êle e com outros sociólogos, seus continuadores e, alguns, seus discípulos, confessados ou não, uma micro-sociologia que vem, desde então enriquecendo a literatura sociológica com obras de permanente valor: o ensaio do próprio Park sôbre migração humana e marginalidade; o de Everestt V. Stonequast, The Marginal Man; o de Frederic M. Throshor, The Gang. Por outro lado, nesses estudos sistemàticamente sociologicos, repórteres de superior talento vêm colhendo sugestões sociológicas e psicológicas para reportagens jornalisticas sôbre "slums", isto é, sôbre "favelas" e mucambarias, que têm esclarecido, de modo por vêzes notável, o grande público, quer nos Estados Unidos, quer noutros países, sôbre problemas de convivência humana em condições precárias de habitação, de alimentação e de moralidade sexual; e contribuindo para tôda uma série de intervenções, tanto do Estado como de particulares, a favor de modificações em tais estilos de vida. Referi-me à reportagem ou à entrevista sociológica: elas podem ser até historico-sociológicas como ocorre nas que foram utilizadas como lastro no livro brasileiro Ordem e Progresso. Sabe-se que essa técnica pioneira de indagação histórico-sociológica despertou críticas veementes precisamente pelo fato de reunir contradições: contradições que, entretanto, podem encerrar as chamadas "verdades particulares". Porque a pesquisa cientificamente social pode às vezes colhêr "verdades particulares" que outras pesquisas sôbre o mesmo assunto não confirmem de todo, mutáveis ou flutuantes como são as situações humanas com que lidam. Nem por isso deixam essas pesquisas de ser válidas como análises psico-sociais ou histórico-sociais de dados momentos ou de certas situações sociais mais transitórias. O critério convencionalmente histórico que foi oposto à técnica pioneiramente empregada em Ordem e Progresso, por alguns provectos brasileiros - dois ou três atingidos diretamente por certas daquelas verdades particulares, vindas de autobiografias provocadas pelo autor do mesmo livro, e mesmo pela verdade geral, pelo mesmo autor levantada sôbre aquelas verdades várias e contraditórias e sôbre outras informações, que recolheu e ordenou - pode ser considerado característico da insistência, da parte de alguns estudiosos da realidade, seja social, em geral, histórico-social, em particular, em que tôda apresentação de qualquer aspecto dessa realidade deve ser de início monolítica: sem atender às chamadas verdades particulares. Deve consagrar de início, de modo absoluto, uma verdade oficial ou institucional ou acadêmica, única. Ciosos de uma historiografia convencional e, com relação a fatos atuais, de um estilo de reportagem, jornalística ou cientìficamente social, em que se consagre uma verdade só ou única, de acôrdo com esta ou aquela ideologia ou doutrina, são historiadores, êsses, a quem repugna de todo o método de colheita de dados sôbre uma época através de autobiografias de sobreviventes dessa época provocadas, pelo analista, com mais interêsse pela informação antropológica e pela reação psicológica que elas, mesmo contraditòriamente, tragam do que pela sua exatidãozinha apenas cronológica. Não importam ao analista dêsse tipo que essas autobiografias contenham - como algumas delas contêm - indiscreções sôbre o que, para os historiadores e sociólogos convencionais, deve ser considerado matéria já tranqüilamente histórica ou sociológica por descansar sôbre versões como que já oficiais de fatos que seriam as únicas rigorosamente exatas; sôbre imagens já tranqüilamente apolíneas de personalidades ilustres de uma época em parte desfeita ou da atualidade ainda viva; sôbre estereótipos também já tranqüilamente oficializados ou consagrados por historiadores ou sociólogos daquela espécie. Arguto cientista social, o Professor W. W. Kulski, em livro recente destaca, entretanto, que "history is usually written from the point of view of the victors". Daí os estereótipos de verdade histórica consagrados pelos grupos triunfantes excluirem as verdades representadas pelos grupos vencidos. Entretanto, como observa Kulski "What we call a social fact is never exactly the same fact for any two individuals, each of whom is interpreting its meaning according to his own values and interests". Mais: "the mental images of these events is colored not only by individual beliefs but also by group subjectivity". Daí a objetividade absoluta, no trato de fatos sociais, ser impossível: "objectivity, in the sense of an interpretation of events which should be acceptable to all reasonable men, is unattainable in this deversified world". A não ser, é claro, como interpretações oficiais ou ortodoxas, que sejam impostas, como já se disse, a vencidos por vencedores; por detentores de órgãos de informações e de instrumentos de persuasão, onipotentes, a populações inermes. O repórter ou o historiador que se inteirar de técnicas sociológicas, antropológicas ou psicológicas de indagação da realidade social pode concorrer, através de reportagens ou da reconstituição histórica de sua iniciativa, cujo objetivo seja limitado ao esclarecimento de fatos passados ou de problemas atuais de convivência, verificados em pequenas áreas, ou em determinada fração de época, para a divulgação dos objetivos de pesquisas realizadas por pesquisadores apenas pesquisadores. Pesquisadores com objetivos científicos mais amplos, trabalhando em equipe, poderão transferir abordagens iniciadas por pioneiros, em áreas restritas, a áreas mais amplas de análise e até de interpretação científico-social de fatos que, ocorrendo entre grupos, chamados pelos sociólogos, primários, podem verificar-se, noutra dimensão, em grupos dos denominados, em sociologia, secundários. Não nos esqueçamos do fato de que o escritor ou o jornalista cientìficamente orientado pode tornar-se, nos nossos dias, valioso colaborador do cientista social na transmissão de sua ciência especializada ao grande público. Nem sempre perito na arte de comunicar-se com êsse rei difícil de se deixar atrair por palavras acadêmicas ou pelo jargão científico, o cientista social precisa dessa colaboração. O Professor Rose sugere que se publiquem anualmente, em linguagem acessível, senão ao grande público em geral, aos leigos mais cultos, resumos do que se vem descobrindo sôbre o comportamento humano, através de pesquisas e de estudos cientìficamente sociais. Vai além: sugere que os cientistas sociais ofereçam seus serviços, através dêsses resumos, feitos por êle ou por divulgador competente, às assembléias legislativas e aos governos. No que o Brasil já se antecipou aos Estados Unidos: entre nós já é esta, há anos, a atitude dos cientistas do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas, vários dêles peritos também naquela linguagem acessível ao público e aos simples leigos, que é uma linguagem mais dos escritores autênticos de alto porte que se ocupem de problemas de comportamento humano - o caso, entre nós, de um Joaquim Nabuco - o autor de O Abolicionismo - de um Oliveira Lima, em Dom João VI no Brasil, de um João do Rio, em Religiões no Rio, de um Medeiros e Albuquerque, de um Sylvio Romero, de um João Ribeiro, de um José Veríssimo, de um Capistrano, de um Roquette Pinto - que dos medíocres e mesmo que de alguns dos bons, cientistas sociais. Pois nada mais difícil do que ser alguém, no que escreve sôbre assunto complexo - e todo assunto social é complexo - simples no seu modo de escrever sem ser simplista, no seu modo de tratar tal assunto, como pesquisador ou analista. Simplista nunca deve ser o cientista social ou o pesquisador sociológico ou antropológico ou especializado em qualquer ramo dos que constituem as Ciências Sociais. O pesquisador ou o cientista social não está obrigado a ser escritor, com qualidades literárias de vigor ou graça ou elegância. Desejável que êle saiba se exprimir com clareza e com precisão, não é necessário que tenha aquelas qualidades especìficamente literárias. Essencial é, ao contrário, que não se requinte em procurar tê-las de qualquer jeito, tornando-se aliterado ou alambicado no que escreve: o caso, entre nós, de Antônio Austregésilo que, em vez de procurar expor com precisão e nitidez suas observações e suas pesquisas médicas, pretendeu ser estilista, beletrista, literato. Com o que comprometeu sua ciência, sem conseguir afirmar-se escritor. Bom foi o exemplo que, a êsse respeito, nos deixou Nina Rodrigues, cujas pesquisas sôbre populações e subculturas africanas na Bahia representam contribuição tão valiosa para os estudos africonológicos na América; e que nos deixou os resultados dêsses estudos em livros escritos sem a preocupação de afirmar-se beletrista ou estilista. Exemplo igual nos deixou Alberto Tôrres, excedido por Oliveira Viana em qualidades literárias de expressão, embora nenhum dêsses tenha sido um pesquisador na especialidade sociológica do mesmo porte de Nina Rodrigues na antropológica. Congratulo-me com o diretor do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais pela iniciativa dêste curso: é mais um serviço que êste centro presta à região e ao país. Observava há pouco um dos mais notáveis dos nossos jornalistas estar em crise, no Brasil, o primado do bacharel em Direito. Está. È, por isto mesmo, urgente que êle, sem desaparecer, seja substituído ou completado em vários setores pelo cientista social que, ao saber teórico, junte a capacidade da pesquisa, de modo a poder concorrer como sociólogo, como antropólogo, como estatístico, como psicólogo, como historiador social, e não apenas como economista, para o esclarecimento de problemas e para a orientação de diferentes atividades de caráter social - administrativas, empresariais, religiosas, educacionais, políticas, econômicas - na fase de transição que o Brasil atravessa. (Aula inaugural do 3º Curso de Iniciação à Pesquisa Social, promovido pelo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais). Fonte: FREYRE, Gilberto. Sugestões em torno da ciência e da arte da pesquisa social. Recife: IJNPS, 1969. 26p. |