SUGESTÕES PARA UMA NOVA POLÍTICA NO BRASIL: A RURBANA


Prefacio

     Aproveitando-se da abertura do "Curso de Treinamento de Professoras Rurais" Gilberto Freyre focaliza, em interessantíssimo trabalho, a situação de desequilíbrio entre os meios rurais e urbanos do Brasil, notadamente os de Pernambuco.

     Problema dos mais complexos da vida nacional, na sua contextura se vão encontrar os mais variados motivos que, numa simplificação, talvez meio forçada, se possam compreender como resultantes da nossa falta de recursos para atender, como é preciso, às questões relacionadas com a "civilização" do nosso interior. E para abono dêsse ponto de vista, compare-se a vida, em seu conjunto, dos Estados sulinos com os do resto do país, mesmo naqueles onde a questão ecológica, como não acontece com o nordeste, apresenta condições favoráveis para um surto de progresso. Frise-se, ainda para uma compreensão exata da conferência de Gilberto Freyre que, do observatório alto onde se colocou o grande sociólogo, como urbano e rural, numa generalização adequada aos objetivos que desejava alcançar, deve ser entendida a vida das grandes cidades (no caso de Pernambuco, só Recife) em contraste com a do resto do país.

     A realidade, porém, quaisquer que sejam as razões explicativas da existência do problema, é que êle aí está desafiando a argúcia, a sabedoria, o espírito público dos atuais detentores do poder. E Gilberto Freyre traça, numa admirável síntese, baseado em nossa própria experiência e na alheia os rumos para a solução de tão grave problema, indispensável à nossa sobrevivência porque diz respeito, no fundo, à própria unidade do Brasil. E prega a "rurbanização", num sentido mais amplo e mais lógico do que na sua acepção original - definidora de uma situação intermediária entre a puramente rural e a exclusivamente urbana - pois que a define como posição mista, dinâmica e conjugal entre os valores que aquelas vidas representam. Para isso, desce a detalhes de programação a fim de alcançar êsse alvo. Poder-se-á objetar que teórico é o caminho que êle preconiza, porque ao país falecem meios para uma obra dessa envergadura. Mas Gilberto Freyre nos dá um roteiro para se alcançar uma solução. A viagem pode ser longa e certamente o será. Mas tem que ser empreendida e por menor que seja a velocidade para atingir àquele objetivo, mais uma razão para não se desprezar nenhuma circunstância que favoreça a busca dêsse ideal.

     Regosijo-me pela identidade, neste particular, de meu pensamento com o do grande Mestre. E minha atuação, aliás definida desde a campanha governamental de 54, não foge a êsse rumo. E endosso, com entusiasmo, o papel relevante que nessa luta atribui Gilberto Freyre à professora rural que "com sua formação em meio urbano e sua atividade em meio rural fazem dela figura idealmente anfíbia para êsse esfôrço de rurbanização do Brasil", pois que "sua missão de professora no interior não é apenas acadêmica ou simplesmente intelectual, mas social".

     Congratulo-me com o Governador Oswaldo Cordeiro de Farias pela inauguração dêste curso: solenidade honrada com a sua presença de estadista esclarecido. Honrada também com a presença de engenheiros como Lauro Borba e de agrônomos como Renato Farias; de professores como Olívio Montenegro; de professoras como Isnar de Moura; dos Secretários de Estado, da Educação e da Fazenda; do diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Recife; do diretor do Colégio Estadual. Todos aqui presentes menos para me ouvir do que para honrar, prestigiar, aplaudir o curso que hoje, e nesta velha casa brasileira de ensino, solenemente se inaugura.

     Era preciso que aparecesse um Secretário da Educação em Pernambuco particularmente sensível às necessidades das populações rurais, em vez de atento sòmente aos problemas urbanos. E com a coragem de dar a essas necessidades o realce - justo realce - que o Professor Aderbal Jurema lhes vem sabendo dar de modo inteligentemente novo.

     São necessidades ou problemas, os urbanos e rurais numa província como a nossa, metade rural e metade urbana, que devem ser considerados no seu conjunto e não em oposição uns aos outros. Formando, como formam, um complexo, é preciso que sejam tratados como um complexo. Como o todo que na realidade são; e que não se deixa partir ou dividir em dois ou três pedaços opostos sem descaracterizar-se ao ponto de, assim dividido, perder, além do caráter, a própria vida.

     O que não significa que se deva tratar aqui ou em qualquer Estado ou país o problema rural de ensino da mesma maneira que o urbano. De modo algum. O que se sugere é que o problema rural de ensino em Pernambuco, como noutras áreas do Brasil, não deve ser considerado como se fôsse independente do urbano; nem o urbano resolvido - cenográficamente resolvido, é bem de ver - como se raizes profundas não o prendessem ao rural; ou como se as mais íntimas das interdependências regionais não fizesse, em vários pontos essenciais, de dois problemas contraditórios um problema regional só, embora complexo.

     No momento em que falsos sociólogos e improvisados políticos cogitam, com pretensões messiânicas, de fazer do Recife o que denominam "o Recife maior", pelo acréscimo, ao já sobrecarregado Recife de hoje, de populações e sub-áreas de municípios vizinhos, com fins talvez eleitorais, perigosamente políticos e de todo desastrosos do ponto de vista social, é bom que se diga, em alta voz, senão de alarme, de advertência, que se pretende praticar contra Pernambuco, ao lado de verdadeiro crime político, imenso êrro sociológico. Pois do que se necessita em Pernambuco - já o indicam estudos repetidos do assunto, realizados aqui e em áreas semelhantes ao Nordeste brasileiro - é precisamente da descentralização do Recife e não de maior centralização de atividades regionais na já sobrecarregadíssima Capital dêste Estado e, sob vários aspectos, do Nordeste. Do que se necessita em Pernambuco - venho agora sugerir à base dêsses estudos - é de uma política social que não se extreme nem na urbanização nem na ruralização da comunidade pernambucana mas se esmere na sua rurbanização. Ou seja: no equilíbrio, dentro dessa comunidade complexa e já antiga e ecológica e sociológicamente diversa pelos seus vários espaços naturais e culturais que devemos procurar transformar de antagônicos em complementares - agrários, pastoris, industriais - dos valores e estilos urbanos com os valores e estilos rurais. Mais que equilíbrio: interpretação. Compenetração. Precisamos formar e desenvolver aqui uma mentalidade rurbana, na acepção por assim dizer conjugal, de rurbanidade. Por conseguinte, rurbana não apenas no sentido que de ordinário se atribui à palavra criada por Galpin para definir situações intermediárias entre a puramente urbana e a puramente rural, mas no que expandindo idéia do Professor Cole, venho no Brasil procurando desenvolver para caracterizar situação mista, dinâmica e, repito, conjugal, fecundamente conjugal: terceira situação desenvolvida pela conjugação de valores das duas situações originais e às vêzes contrárias ou desharmônicas, quando puras. Urbana e rural a um tempo pela vontade dos que buscam desenvolver tal situação em vez de aceitá-la quando as circunstâncias a impõem. Pois rurbana é a palavra derivada de rural e de urbana como certos nomes modernos de meninos que se chamam Jomar, pelo fato de o pai se chamar João e mãe, Maria; ou Editônio, de Edite, nome da mãe, e Antônio, nome do pai.

     Para a formação dessa mentalidade ou dêsse espírito conjugal rurbano, em Pernambuco ou no Nordeste do Brasil, quem mais capaz de concorrer que a professora, a mestra primária, a educadora cujo ensino ou influência alcance não só a gente miuda como a grande ou aduta? Ela, educadora com alguma coisa de missionária, está como ninguém em situação de mostrar às populações rurais que o meio rural, seja agrário ou pastoril, se conservam, às vêzes sob o maior desprêzo, escondidos no fundo dos sítios ou no fundo dos baus, valores que os requintadamente urbanos não substituem nunca. Valores insubstituíveis como motivos de vida e fundamentos de exist6encia e essenciais ao todo nacional.

     Está a educadora em situação ideal de concorrer pela técnica ou arte missionária para que a êsses valores essenciais ou, antes, existenciais - os agrários, os rurais, os teluricos - se juntem os urbanos, capazes de dar sentido mais amplo à vida, à atividade e à cultura das populações do interior. O que é perfeitamente possível: vários dêsses valores urbanos são móveis e plásticos. Alguns são até fluidos. Podem adaptar-se a novas condições de vida, a novas configurações de existência. Podem ser transferidos das cidades grandes às pequenas, urbanizando-as e tornando os benefícios dessa urbanização em escala rural - se assim se pode dizer - extensivos a largos espaços rurais, a ponto de parte dêles tornar-se saudavelmente rurbana ou mista nos seus modos de ser.

     É nêsse esfôrço de transferência de valores urbanos, ou de sua transregionalização - vá o neologismo - para espaços rurais, que devemos nos empenhar com o nosso melhor ânimo, num Estado, como o de Pernambuco, que vem há anos sofrendo do que já se denominou de inchação recifense. Inchação recifense acompanhada de depauperação do interior rural.

     Há já dezenas de anos, um sociólogo, hoje clássico, John M. Gillette, empreendeu nos Estados Unidos o estudo sociológico da vida rural em livro corajosamente pioneiro com alguma coisa evangélico sem prejuizo da sua ciência, antes a um tempo científico e humanístico, especulativo e prático, na sua maneira de ser sociológico. E descobrir aos olhos dos seus compatriotas esta situação alarmante: as cidades estavam raptando dos campos os melhores valores humanos nascidos, nutridos e desenvolvidos em meios rurais. Absorvendo-os. Tornando-o exclusivamente urbanos.

     Vinha resultando dêsse rapto social - chamamo-lo assim - o seguinte: a crescente ausência de líderes entre as populações rurais dos Estados Unidos. Para essa crescente redução de valores capazes de orientar, dirigir, guiar os seus compatriotas rurais - redução logo verificada ou confirmada por outros sociólogos, inclusive os especializados em estatística - estava concorrendo, na vasta República, o seu próprio sistema de educação chamado nacional mas, na verdade urbano, exclusivamente urbano, em seus objetivos e métodos. Pan-urbano é neologismo brasileiro e nosso para designar o exclusivismo de um sistema organizado de tal modo que tudo nêle tende, como no norte americano do século XIX até os primeiros decênios do XX, a arrancar a criança rural do meio rural, a raptar o adolescente rural do campo ou da aldeia materna, a atrair o homem rural para a cidade anti-rural. Como não existir êsse desenraizamento sistemático do homem-rural - desenraizamento pela educação, às vêzes pelo próprio cinema ironicamente chamado educativo, pelo rádio - se tudo nessa educação, nêsse rádio, nêsse cinema educativo, é glorificação de valores urbanos e só urbanos?

     O Professor Gillette e os sociólogos que sob seu estímulo principiaram há quarenta e tantos anos a estudar o assunto de perto, verificaram que não havia nos E. Unidos daquela época - hoje a situação é diferente, em grande parte devido ao alarme dado por êsses sociólogos um tanto evangélicos - um sistema de ensino que valorizasse a parte rural da civilização, do passado e da grandeza anglo-americana. Que na história nacional daquele país - como aliás na estudada hoje no Brasil - a figura do lavrador quase não aparecia. Que nos livros de geografia ensinados nas escolas primárias e secundárias eram as cidades que os geógrafos nacionais exaltavam. Que na literatura dos Estados Unidos como ainda hoje na do Brasil, o matuto ou o tabaréo surgia quase sempre caricaturado: raramente o apresentavam no seu exato relêvo humano. No teatro, a mesma coisa. Ainda hoje, no teatro brasileiro quase aparece matuto em cena sabemos que é quase sempre para fazer a platéia rebentar de riso, tais as suas lezeiras, seu linguajar, sua pronúncia errada das palavras mais simples, seus modos rústicos de pitar, de tomar rapé, de mascar fumo, de cuspir, de arrotar, de palitar os dentes.

     Em vez disso, que era na verdade necessário que se fizesse ou se tentasse fazer nos Estados Unidos? Que é necessário que se faça hoje no Brasil? No Nordeste? Em Pernambuco? A rurbanização do ensino - dos seus temas, dos seus métodos, das suas práticas - não para opor-se a extrema idealização da vida rural à glorificação da urbana, mas para procurar-se dar ao ensino nacional, regional ou estadual, o seu verdadeiro sentido de ensino íntegro e harmônio, que se empenhe tanto na valorização dos homens e das coisas rurais quanto na valorização dos homens e das coisas urbanas, considerando-as complementares.

     Talvez não haja hoje grande país em que a figura do lavrador seja cercada de maior simpatia nos livros didáticos, na literatura, no teatro, no cinema do que nos Estados Unidos. É mesmo êste um dos pontos de superioridade da civilização da massa anglo-americana - ainda marcada por deficiências enormes - sôbre a civilização de massa russo-soviética: ao que parece ainda mais deficiente que a sua rival americana no seu empenho de juntar ao número a qualidade. Conseguiram os russos, através de um esfôrço sob vários aspectos admirável, melhorar a condição do operário urbano na sua União de Repúblicas chamadas Socialistas; desenvolver pela ciência e pela técnica a sua agricultura, tão arcaica em relação à da Europa ocidental nos velhos dias de Tsar. Mas tudo indica que seu lavrador continua quase o mesmo sub-homem daqueles dias: sub-homem que os propagandistas dos progressos soviéticos escondem cuidadosamente dos olhos dos turistas e da curiosidade dos estrangeiros. Não é figura que se apresente ao público, tal a degradação em que continua a viver.

     Enquanto nos Estados Unidos há hoje largas áreas em que as pequenas fazendas - pequenas e médias - de lavradores parecem tôdas fazendas-modelos, para ser vistas pelos estrangeiros e admiradas pelos turistas. Os valores urbanos estão há anos de tal modo ao alcance dêsses felizes ruralistas que êles não se sentem inferiores aos seus compatriotas urbanistas. Assistem pela televisão aos mesmos grandes jogos nacionais de baseball ou de football que os urbanistas. Ouvem pelo rádio a mesma música, o mesmo teatro falado, os mesmos programas políticos, literários e religiosos. E a facilidade de transporte é tal que é como se cada casa de moderno matuto anglo-americano tivesse o seu tapete mágico ou voador. Sua fala já quase não se distingue pelos ruralistas da fala dos urbanistas, muitos dos quais sentem a necessidade de se conservar na língua nacional o sabor de pitorescas expressões ruralistas, hoje admiradas, em vez de ridicularizadas, pela gente mais culta das cidades; e por ela até imitadas ou revividas.

     Outrora, nos Estados Unidos, a moça do interior que recebesse alguma educação logo esperava casar com um moço da cidade: bem penteado, bem trajado, falando o inglês urbano. Hoje, nas áreas mais desenvolvidas da grande República, é outra a tendência: as moças aí nascidas vêm encontrando noivos e espôso ideais em rapazes filhos de lavradores cuja ambição é se tornarem pais de lavradores. Porque lavrador deixou de querer dizer homem arcaico, ultrapassado, desprezível, despenteado, mal trajado, como chegou a ser dentro de uma civilização que poderíamos denominar pan-urbanista ou pan-industrialista em sua mística, caracterizando, com essa denominação, uma fase mórbida e já vencida da história dos Estados Unidos que alguns brasileiros de hoje dão mostra de querer repetir ou reviver no Brasil.

     Sociólogos-historiadores, como Joseph Shafer - autor de The Social History of American Agriculture (N. Y.,1936) - já demonstraram, em estudos documentados, não ser verdade a lenda do lavrador ou criador de gado significar fatalmente homem ignorante: sempre retardado em relação com o urbano e sempre ultrapassado em conhecimentos e em inteligência pelos homens da cidade. Shafer recorda a êsse respeito fatos significativos não da moderna fase de equilíbrio dos valores rurais com os urbanos, nos Estados Unidos, mas de velhos tempos: fatos que vinham sendo esquecidos pelos historiadores convencionais, dominados pelo afã de glorificação do passado apenas urbano da República (República fundada, aliás, em grande parte, por homens do campo como Tomas Jefferson e o próprio Washington). Recorda a explêndida figura do fidalgo de origem alemã Frederick Hecker, que tendo se estabelecido no interior de Illinois, aí se tornou notável pela qualidade do gado que conseguiu criar sem entretanto perder a sua distinção intelectual ou os seus hábitos de letrado. Recorda a figura igualmente explêndida de Thure Kumhen graduado em ciência pela Universidade sueca da Upsala e que, tendo se estabelecido como lavrador em Wisconsin, foi, como lavrador, pleno sucesso, sem que deixasse de continuar a estudar botânica, de corresponder-se, do retiro da fazenda com sábios da Europa e de receber em sua casa rural visitas de alguns dos maiores cientistas anglo-americanos da época. No vale do Missouri - é ainda Shafer quem o destaca - no século XIX floresceu uma colônia inteira de lavradores letrados que chegou a denominar-se de "latinos" por saberem os colonos latim e o cultivarem, sob a direção de latinista erudito: latinistas que misturavam o latim dos livros à arte também clássica de lavrar o homem as terras e cuidar das plantas. Sem deixarem de ser lavradores por gôsto e vocação - bons e eficientes lavradores - continuavam fiéis a Virgílio, a Horácio, às leis antigas. O caso, entre nós, brasileiros, do Morais, do Dicionário, que, no seu engenho de Muribeca, juntou à atividade de agricultor a de intelectual. De Feijó, em Itu. De Assis Brasil, no Rio Grande do Sul. Já fôra o caso de Alexandre Herculano, em Val-dos-lobos. Exemplo dêsse sabor são aliás numerosos; e desmanchou a lenda de ser a vida rural - militante, ativa, efetiva - inimiga da inteligência; e a atividade agrária ou pastoril, incompatível com o sabor ou com a ciência mais nobre. Não o foram naqueles país, como aliás não o foram no Brasil, nem o tem sido em Portugal, nas próprias épocas de comunicação mais difícil do interior com as cidades. Hoje que essa comunicação é relativamente fácil, não há motivos para sequer admitir-se a suposta incompatibilidade.

     O que é preciso é que, além da moderna expansão do rádio, do cinema, do tráfego aéreo, nos sertões de países da extensão do Brasil, os govêrnos e os particulares, donos de emprêsas ou indústrias rurais, façam chegar às populações do interior maior número de livros e revistas de qualidade, além de teatro, conferencistas, concertistas, também de qualidade, para o que é evidentemente necessário que se projete com inteligente cuidado a consolidação de vários - dois ou três por exemplo, num só - dos atuais municípios, excessivos em Estados pobres como o de Pernambuco. Consolidação de dois ou três num só município tornada possível, praticável e desejável pela moderna facilidade de transporte; e desejável também pela maior eficiência e maior economia de administração quando, até certo ponto, centralizada. Consolidação senão sempre total - política-administrativa - para efeitos recreativos. Para escolas, hospitais, teatros, estádios comuns a dois ou três ou quatro municípios. Impões-se a criação, no depauperado interior de Pernambuco, em municípios que mal se sustentam de pé economicamente como municípios, de centros assim transmunicipais de cultura intelectual e artística, de assistência médica, hospitalar e social e de recreação, aos quais se torne possível levar do Recife, não esporàdicamente ou uma vez na vida, mas regular e constantemente, bom teatro, boa música, boa declamação, além de bons livros e bons autores de livros: homens cujo simples ato de presença seja um estímulo para adolescentes e moços. êsses centros transmunicipais de cultura, assistência e recreação dariam vida intelectualmente nova ao interior do Brasil, mostrando às populações rurais que elas têm direito ao contato vivo, direto, pessoal com o que a inteligência, o saber e a arte do país têm de melhor. O direito de ver e ouvir um Vila Lobos, êle próprio, e não apenas escutá-lo em disco e vê-lo no cinema. O direito de ver e ouvir um Manuel de Abreu: o inventor da Abreugrafia. O direito de ver e ouvir um poeta como Manuel Bandeira. O direito dever e ouvir um Cesar Lattes, um José Lins do Rêgo, um Jorge Amado, um Procópio Ferreira, um Lúcio Costa, um Carlos Drummond, uma Raquel de Queiroz, uma Carolina Nabuco, um Gilberto Amado, um Péricles, um Silva Melo, um Gastão Cruls, um Sérgio Cardoso, um Cândido Portinari, um Vão Gogo, um Fernando de Azevedo, um Afonso Arinos, um Carlos Estêvão, um Pontes de Miranda, um Luís Jardim, um Álvaro Lins, um Anísio Teixeira, um Delgado de Carvalho - e não apenas lê-los em livros, revistas, jornais; ou vê-los apenas - a êles e aos seus trabalhos - em fotografias ou reproduções de jornais e revistas ou em fitas de cinema.

     É claro que seria impossível trazer a Pernambuco uma celebridade nacional dessas - ou uma celebridade estrangeira - para fazê-la percorrer evangèlicamente o Estado todo, município por município: martírio a que nem os candidatos à Presidência da Republica se submetem nos nossos dias. Mas criados num Estado como o nosso - e o plano é sugerido para o país inteiro - centros trans-municipais de cultura e recreação, seria possível trazer a Pernambuco num ano, um Vila Lobos, noutro ano, Raquel de Queiroz, ainda noutro um Manuel de Abreu ou um Cesar Lattes ou um José Lins do Rêgo ou um Magalhães júnior ou uma Lúcia Miguel Pereira ou um Oscar Niemeyer ou um Érico Veríssimo ou um Sérgio Cardoso, para que a mocidade e a inteligência do interior pernambucano os ficassem conhecido de farto, no próprio ambiente do interior pernambucano. Mostrando-lhes nesse ambiente sua cerâmica, sua arte de madeira e de renda, seus mamulengos, seus pastoris, seus presepes: tôdas as expressões mais características da vida própria ou de tradição local . Como, por exemplo, seu carnaval com música de chocalho e fantasias quase tôdas de couro e alusivas a vaqueiros, como é hoje o carnaval trans-municipal de Caruaru.

     Acresce que cada centro trans-municipal dêsses - centro de cultura, de assistência e recreação - poderia ser pela arquitetura pela decoração característica do edifício e pelo jardim-horta que a completasse, centro da boa arquitetura paisagística: expressão sintética da vida e da paisagem trans-municipal, de acôrdo, é claro, com a orientação que fossê traçada por arquiteto de saber e ao mesmo tempo de sensibilidade aos valores brasileiros: virtudes que distinguem Mestre Lúcio Costa; e um jardineiro-paisagista atento a êsses mesmos valores como é Mestre Roberto Burle Marx. Poderia ter cada centro dêsses o seu restaurante no qual os visitantes ilustres e os turistas, em geral, encontrassem quitutes tradicionais da sub-região representada pelo centro trans-municipal. Quitutes, doces, frutas, especialidades sub-regionais, que pudessem ser saboreadas ao som de música e canto também sub-regionais. Também cigarros de palha, refrescos, caldo de cana, combinações dêsses refrescos com aguardentes de engenhos ou engenhocas dos arredores: reação saudável ao império da coca-cola que, se vem avançando entre nós, juntamente com outras bebidas incaracterísticas preparadas ninguém sabe ao certo de que, é pelo fato de não valorisarmos, como devemos valorisar, a nossa água de côco, a nossa cajuada, o nosso refresco de tamarindo ou de carambola: tão deliciosamente tropicais nos seus sabores e nos seus efeitos refrescantes.

     Talvez reflita a propósito dessas sugestões alguma das jovens professoras ora em missão no interior, e aqui reunidas para o curso que hoje se inaugura: mas que tenho eu a ver com isso? Com quitutes, com refrescos, com resturantes, com mamulengo, cerâmica, jardins, hortas? Minha função é outra: é ensinar menino. Nada tenho que ver com essas outras atividades.

     A verdade é que tem que ver e muito. Sua missão de professora no interior não é apenas acadêmica ou simplesmente intelectual mas social. Ela é tanto quanto o padre ou o médico ou o magistrado, que também se encontrem em missão social e não sòmente técnica no interior, um agente não do imperialismo pan-urbano ou pan-industrial como que empenhado em explorar populações nativas e sub-desenvolvidas das áreas rurais e em conservá-las rústicas e inermes, para o industrialismo urbano melhor as explorar, mas um agente de cultura brasileira e sociològicamente cristã, todo o seu afã e tôda a sua capacidade de ação e de irradiação missionária devendo transbordar de esfôrço de ensinar menino no de orientar adultos no sentido do desenvolvimento dos melhores valores rurais em articulação com os urbanos. Pois juntos é que êsses valores aparentemente inconciliáveis, mas na verdade, complementares, poderão formar nova e vigorosa civilização brasileira que não seja nem exclusivamente urbana nem predominantemente rural mas urbana.

     Para a formação dessa civilização nova, dinâmicamente rurbana, deliberadamente rurbana e não rurbana por imposição de circunstâncias e que, resistindo ao sebastianismo dos velhos ainda nostálgicos do passado agrário brasileiro, resista sobretudo ao sectarismo dos adeptos nem todos jovens de um pan-industrialismo até há pouco tão poderoso entre nós que a história ainda recente e um tanto sangrenta do seu poder, às vêzes contrário ao melhor interêsse nacional, já poderia ser matéria de romance policial, muito pode concorrer, na verdade, a professora primária. Sua formação em meio urbano e sua atividade em meio rural fazem dela figura idealmente anfíbia para êsse esfôrço de rurbanização do Brasil em que seu tato de mulher, seu saber de normalista, sua sensibilidade, sua inteligência, sua ternura de irmã, ora mais velha, ora mais moça, de meninos, de homens, de velhos, de outras mulheres, se juntam precisamente para o delicado esfôrço, quase de fazer social, em que ela terá de aplicar ao cotidiano tôda a psicologia aprendida nos Recifes com os Ulisses Pernambucanos ou com os continuadores dos Ulisses Pernambucanos: o esfôrço de juntar irmãos separados. Pois outra não é no Brasil quase inteiro - excetuados, talvez, trechos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina - a situação dos homens e valores rurais em face dos homens e valores urbanos: irmãos separados. Irmãos às vêzes inimigos. Irmãos que não se compreendem. Que falando todos a língua portuguêsa, nem sempre dão às mesmas palavras os mesmos significados.

     Quem como a mulher culta, a mulher normalista, a mulher professora, para cuidar de tais desajustamentos que, em alguns casos, têm chegado a extremos mórbidos? Parece estar demonstrada a especial aptidão da mulher para o trabalho mais difícil de enfermagem e para o chamado serviço social; e nas modernas ciências sociais ela se vem distinguindo, às vêzes genialmente - que o diga a obra realizada pelas Ruth Benedict e pelas Margaret Mead - pelos estudos de antropologia e sociologia em que tem feito sentir a necessidade de lidar o pesquisador principalmente com a vida psiquica dos homens: com as sutilidades de vida psiquica prolongada em vida social.

     Ora, a missão social da professora brasileira no interior do Brasil, tal como êsse interior hoje se apresenta - desajustado do litoral urbano, deteriorado em alguns dos seus melhores valores superficialmente imitador das piores práticas urbanas ou pseudo-urbanas recebendo as visitas importantes como peru e fiambre, envergonhado de seus sarapatéis, de suas tapiocas ou de seus beijus de côco, de suas fritadas de seri, de suas paneladas ou de seu mocotó com pirão, de suas carnes de bode com farofa cheia de coentro, de seu alfenin, de suas umbuzadas - é uma missão em que a tarefa de ensinar meninos - para a qual homem nenhum, a não ser por exceção, revela a competência da mulher - se deve juntar uma atividade complexa e sutil em que a missionária precisa de ser pouco enfermeira - pois terá muitas vêzes de lidar com doentes, sabido como é, que os homens do interior brasileiro no Norte são vários doentes; fazer um pouco de "serviço social", entre populações que sofrem intensamente de desajustamentos sociais; e também aplicar - repita-se - tôda a sua ciência psicológica adquirida dos mestres, além de tôda a sua intuição, ao esfôrço de articulação de valores rurais com os valores urbanos, tendo antes o cuidado de despertar em populações do interior o gôsto pelos seus próprios valores, o brio rural, o sentimento de lealdade do homem rural à sua aldeia, à sua casa, à terra da sua fazenda ou do seu sítio, à sua horta, ao seu gado, à sua gente, à gente que com êle trabalha e que êle deve considerar extensão da sua própria família.

     Somos um país em cujo passado já ocorreram desajustamentos profundos entre populações rurais e urbanas por falta de quem como as professoras, os padres, os magistrados, os médicos, os agrônomos mais conscientes da missão nacional que devem desempenhar ao lado da técnica, articulasse essas populações separadas, conciliando ou procurando conciliar seus valores, seus interêsses, seus problemas. O caso de Canudos constitui o exemplo mais trágico dessa desarticulação, da cultura urbana, da rural num país extenso como o nosso. Mas não foi o unico. Estados do Sul do Brasil como Rio Grande, Santa Catarina e o Paraná chegaram a abrigar nos nossos dias populações rurais desajustadas das urbanas não só pela cultura como pela própria língua: a língua alemã, numas sub-áreas, a japonesa noutras, ostensivamente conservadas com intuitos políticos em oposição à língua portuguêsa. Dou o meu testemunho - pois conheço de perto aquelas áreas - da obra admirável que realizou quando Interventor Federal no Rio Grande do Sul o atual Governador de Pernambuco no sentido de articular naquele Estado as populações urbanas com as rurais, os grupos neo-brasileiros de sub-áreas rurais com os grupos já tradicionalmente brasileiros das sub-áreas de antiga colonização: trabalho de assimilação, harmonização e integração em que teve por colaborador principal menos que o seu Secretário ou Chefe de Polícia que o seu Secretário da Educação, o ilustre brasileiro do Rio Grande do Sul, descendente de portuguêses e de alemães, Professor Coelho de Souza.

     Nós próprios, em Pernambuco, além de Pedra Branca, tivemos o Quebra-Quilos, que foi uma insurreição de gente rural contra a urbana: contra imposições do imperialismo urbano - chamemo-lo assim - à revelia de conveniências, aspirações e sentimentos das populações rurais das áreas pastoris, mantidas numa espécie de servidão colonial com relação às agrárias do litoral e às urbanas. Como se verificaria em Canudos, quis se resolver, nos sertões do Nordeste pernambucano, o desajuste terrível entre aqueles extremos de vida e de cultura, por meio da simples violência policial. E antes de Euclides da Cunha, em livro célebre, ter-se insurgido contra simplismo tão brutal, insurgiu-se contra êle em Pernambuco um engenheiro francês que aqui se naturalizara brasileiro, casara-se com moça de uma ramo da família Albuquerque, fazendo-se agricultor no Sul da então Província do Império. Refiro-me ao engenheiro Henrique Augusto Millet, amigo e discípulo de Louis Léger Vauthier, francês - êsse Vauthier - de superior valor técnico e humanístico que aqui esteve de 1840 a 1846, tendo com a sua presença desenvolvido no Brasil um ciclo de influência renovadora da nossa vida - inclusive da agrária em relação com a urbana - cuja extensão e importância só nos nossos dias vêm sendo destacadas como merece.

     Henrique Augusto Millet, colaborador de Vauthier nas grandes obras técnicas e de arte que êste engenheiro francês empreendeu no Brasil na primeira metade do século XIX, antecipando-se a Euclides da Cunha, escreveu em 1876, em trabalho sôbre O Quebra-Quilo e a Crise da Lavoura que denominada policialmente a insurreição dos matutos que acabara de agitar a Província - na verdade, grande parte do Nordeste - não havia mais que "receiar pela conservação" - dizia êle - "da ordem material". Mas acrescentava: "estará por ventura com semelhante resultado preenchido o dever do govêrno? Ninguém o dirá: agora principia tarefa mais árdua e complicada: cumpre indagar das causas da sedição e procurar removê-las pois os povos, e com especialidade o nosso, tão obediente e respeitador das autoridades, não levantem-se sem motivos reais ao aceno de alguns agitadores sem prestígio, como se tem querido incultar!

     Para êle, Millet, a sedição não era, como se supunha em certos meios, simples pronunciamento político ou protesto religioso mas tinha "raizes mais profundas": nascia do "mal estar das nossas populações do interior, mal estar de que não pode duvidar quem se acha em contato com elas!...".

     Êsse mal estar - pode-se hoje dizer - era econômico mas era também cultural. Cultural e psíquico. Como cultural e psíquico foi o mal estar que levou sertanejos da Bahia a se concentrarem em Canudos em tôrno de Antônio Conselheiro em atitude de resistência a uma civilização - a do litoral - que se dizia, ou pretendia ser, a nacional quando era apenas sub-nacional: urbana e quando muito agrária; alheia à vida, às necessidades, às aspirações de gente irmã que vivia nos sertões, vida arcaicamente, mas honestamente pastoril. Falando um português ainda do tempo colonial e praticando um cristianismo que, por falta de padres, se tornara menos ortodoxo, porém não menos sincero que o das gentes mais assistidas pela Igreja e pelos padres, das cidades e do litoral.

     Um dos aspectos mais interessantes da obra dos técnicos franceses que estiveram em Pernambuco na primeira metade do século - dois dos quais, Boulitreau e Millet, se pernambucanizaram inteiramente, tendo Millet se tornado, além de agricultor, estudioso dos problemas agrários brasileiros, - foi o de terem êles, sob a orientação de Vauthier, dotado o interior desta então província de um sistema de estradas que veio diminuir a distância entre várias das populações rurais e tornar possíveis feiras de outro modo inconcebíveis. Ao lado dessas feiras, operou-se o desenvolvimento econômico de sub-grupos rurais até então quase segregados do resto da comunidade pernambucana. É um exemplo de que a engenharia técnica bem orientada pode tornar-se engenharia social; de que as pontes de madeira e de ferro sôbre os rios ou sôbre os despenhadeiros podem tornar-se, quando sociològicamente bem situadas ou bem lançadas, pontes sociais que concorrem para fazer desaparecer distâncias sociais, psíquicas e culturais - e não apenas físicas - entre grupos humanos.

     Semelhantes distâncias ainda perturbam a vida da comunidade pernambucana, dividindo-a de tal modo em urbana e rural que muito ruralista desajustado ao seu meio ou aí fracassado - econômica e socialmente dos produtos dêsse meio para a Capital - volta-se para o Recife como para um refúgio messiânico, expressão máxima, na região, de civilização tida por superior, por única, isto é, a urbana.

     Se é fato que muito deve a civilização pernambucana ou nordestina ao Recife urbano é também verdade que vêm sendo rurais as fontes de que mais longamente se tem alimentado essa civilização. O que nos falta é uma história de Pernambuco ou do Nordeste em que se atribua a essas fontes a justa importância que lhes deve ser atribuida.

     Daí ser desejável que se juntem o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, a Universidade Rural de Pernambuco, o Instituto Arqueológico, Geográfico e Histórico Pernambucano e a Sociedade Auxiliadora de Agricultura como sede no Recife e ora dignamente presidida pelo dêcano dos agricultores pernembucanos, o velho Antônio Alves de Araújo, de Amaragi, para prestigiarem a organização de que seja encarregado indivíduo competente - de preferência um historiador orientado por um sociólogo - senão de uma história rural quando possível completa da região, de uma antropologia que reuna sôbre a matéria trechos de cronistas, historiadores e sociólogos de várias épocas - trechos dos Diálogos das Grandezas, de Barleus, e Loreto Couto, de Tolenare, de Koster, de relatórios de Vauthier que versem problemas vizinhos dos de lavoura rural, o ensaio de Millet sôbre a crise da lavoura no Nordeste na segunda metade do século XIX, artigos de Duprat, páginas de Joaquim Nabuco, Arthur Orlando, Pereira da Costa, Alfredo de Carvalho, Oliveira Lima, Apolônio e Gaspar Peres, Professor Tadeu Rocha, o engenheiro Meneses - há pouco recordado, em justas homenagem, des. Inácio de Barros, Paulo Salgado - para só me referir a mortos - em tôrno de problemas pernambucanos ou nordestinos de economia ou sociologia de vida rural ou dêles vizinhos. Uma antologia assim serviria de apôio a cursos como êste: cursos em que se procura dar aos valores rurais na formação e na atualidade pernambucanos a sua justa importância, estabelecendo-se pela atenção que se consagra a esquecidos assuntos rurais - agrários e pastoris - o equilíbrio desejado, que é o rurbano.

     Precisamos de nos aperceber, os pernambucanos, de que em Pernambuco, como noutras áreas brasileiras, economia, cultura e civilização tornam-se mais compreensíveis estudadas sob o critério de constituirem um complexo rurbano, misto, rural e urbano a um tempo, do que consideradas isoladamente. Precisamos de orientar o ensino estadual no sentido de corresponder a essa realidade complexa do nosso passado e de nossa atualidade e, ao que parece, já projetada desordenadamente sôbre o nosso futuro. Precisamos de estender êsse critério ao próprio sistema estadual de administração e de govêrno, tantas vêzes prejudicado pela inconsciência com que por simetria burocrática se uniformizam medidas ou providências pelo padrão urbano, esquecendo-se o legislador ou o administrador do fato de que aquêle sistema deve atender ao complexo regional e não apenas a um dos elementos do complexo - hoje o urbano, quase sempre - com exclusão ou sacrifício dos demais: do agrário e do pastoril, entre nós tão sacrificados de ordinário ao urbano. A não ser quando por "agrário" se entende o interêsse na verdade urbano de falsos usineiros, residentes de palacetes nas cidades e exploradores distantes dos campos de cana. E por pecuária a atividade mágica de homens também urbanos de negócios, fantasiados em criadores de gado, mas na verdade mestres nas artes de supervalorização chamadas de "reajustamentos" de animais de pasto e de corte.

     É tempo de pensarmos em Pernambuco no desenvolvimento de pequenos Recifes que desafoguem o atual e falsamente grande, mòrbidamente grandioso, doentemente metropolitano, levando-se ao mesmo tempo a urbanidade a espaços rurais distantes do litoral atlântico: espaços onde essa urbanidade expansiva, por um processo chamado em sociologia de transculturação, se impregnará de influências rurais, tornando-se rurbana. Do mesmo modo é tempo de trazermos ao Recife valores rurais que o integrem mais do que o de hoje, doente e inchado, na vida, na paisagem, na natureza, na situação, na condição, na realidade regional de que êle, o Recife de sempre, deve ser a suma e ao mesmo tempo o sumo. Do contrário o Recife se tornará cidade incaracterística, e quase sem contacto com os valores rurais do complexo a que pertence: tendo por frutos a maçã da Califórnia, a uva argentina ou a ameixa portuguêsa, em vez da manga de Itamaracá, do abacaxi de Goiana, da pinha de Caruaru e da mangaba de Ilha; tendo por especialidades de mesa e sobremesa as que lhe chegam secas ou em latas, do Rio Grande do Sul ou, congeladas, do Maranhão, em vez dos pitus do Rio Una ou dos queijos, requeijões e carnes de sol ou de vento do sertão ou dos doces de cajus frescos do litoral; tendo por árvores públicas de sombra e plantas ornamentais nas suas ruas e praças, nos parques públicos e nos quintais das casas, as importadas e exóticas, em vez de paus d'arco, de jacarandás de tapoamas, de oitizeiros, de cajueiros, de paus-brasil vindos das matas regionais.

     É para uma civilização assim íntegra, complexa, harmônica, em que o rural e o urbano formem uma terceira situação, que se denomine, segundo a adaptação ao português do neologismo "rurbano" criado em língua inglêsa por Galpin, rurbana dinâmicamente rurbana - que alguns de nós não de agora, mas desde velhos dias, e baseados no estudo de várias situações regionais brasileiras, entedemos que Pernambuco, o Nordeste, o Brasil precisa caminhar. Para uma civilização deliberadamente rurbana, com todo o sal brasileiro que se possa dar ao neologismo criado em língua inglêsa com sentido apenas estático e estatístico.

     Em vez de continuarmos prejudicados por uma civilização de extremos antagônicos - o Recife e o Interior, a Indústria urbana glorificada e a Lavoura ou a Pecuária tratada de resto - o justo será procurarmos desenvolver em Pernambuco ou no Nordeste harmônica civilização regional dentro da civilização brasileira. E, no Brasil, harmônica civilização rurbana em articulação com as da América ou dos trópicos que sejam suas afins ou complementares: principalmente as lusotropicais da África e do Oriente.

     É preciso que desde já o ensino estadual se oriente no sentido de ideal dinâmicamente ou construtivamente rurbano de formação das crianças e dos adolescentes sertanejos para colônias de férias à beira mar e levando-se crianças e adolescentes das zonas em Pernambuco chamadas da "praia" e da "mata" para colônias de férias no sertão. Urge que as professoras de quem vai principalmente depender o êxito dêsse esfôrço difícil de integração e articulação regional, resistindo ao pan-urbanismo ainda em moda em alguns meios brasileiros, tornem-se pioneiras em Pernambuco dêsse novo tipo sociocultural de civilização brasileira: o rurbano.

     "Sem o auxílio dos serviços educacionais" - escreveu há doze anos no seu livro The Education of the Contryman (Londres, 1943), que se refere à Inglaterra, o inglês Mr. H. M. Burton - "é provável que nada se consiga quanto à reabilitação da vida rural inglêsa". Pois a verdade é que a própria Inglaterra vinha sendo atingida, ao explodir a última Grande Guerra. Pela desvalorização da fonte rural da sua civilização, sacrificada à excessiva valorização da urbana. Ainda em plena guerra sociólogos (ali geralmente chamados antropólogos), educadores, economistas, homens públicos, começaram a preocupar-se com o problema, o referido livro de Mr. Burton, publicado em 1943, tendo sido uma das expressões mais vívidas dessa preocupação ou dêsse empenho de reabilitação, em alguns pontos semelhantes ao regionalista do Brasil, há vinte e cinco anos iniciado no Recife; e desde então operante ou atuante no Brasil. O ponto de vista dêsses índices era o de que a reabilitação da vida rural da Inglaterra, sem deixar de ser problema econômico - e já considerado, aliás, sob êsse aspecto, pela Associação de Reconstrução Rural da Inglaterra desde 1936 no livro então publicado sob o título The Revival of Agriculture - era e é - problema também de educação. "Evitemos ser sentimentais a respeito do assunto", dizia Mr. Burton em 1943, em livro que se tornou influente no sentido daquela reabilitação necessária. Mas acrescentava, em palavras que poderiam servir de apôio a quanto sugerimos a favor de um ideal rurbano de civilização brasileira, vir procurando, com outros inglêses, "uma concepção de civilização" que trouxesse à Inglaterra "justo equilíbrio entre a cidade e o campo", acreditando que em tal equilíbrio viesse a gente inglêsa encontrar não só maior "estabilidade econômica" como "maior liberdade de espírito". Maior liberdade de espírito para afirmar-se, exprimir-se, expandir-se em arte, em cultura, em recreação, como será com certeza o caso do brasileiro quando a civilização do nosso país, hoje desorientada e desajustada pela excessiva glorificação dos valores urbanos exaltados quase sempre sôbre os rurais, equilibrar-se em civilização saudàvelmente rurbana.

     Foi ainda durante a última Grande Guerra que apareceram dois outros livros de importância para quem se preocupa com relações entre os valores rurais e urbanos dentro de uma cultura regional ou nacional; e dos valores nacionais de qualquer dessas culturas - a alemã ou a brasileira, a dinamarquesa ou a portuguêsa - com os valores internacionais. Refiro-me à International Economic Desintegration ( Londres - Edinburgo - Glasgow, 1942), por Wilhelm Roepke e Bread and Democracy in Germany (Berkley e Los Angeles, 1943), por Alexander Gerschenkon. O primeiro talvez se estreme na apologia da ruralidade como um estado social, ou, antes, da ruralização, como um meio ou processo de assegurar-se o que chama "um modo de vida humana" que devesse ser considerado uma das principais resistências a opôr-se à "sociedade massa", sendo para lamentar, segundo Roepke, que essa resistência tenha quase deivado de existir na Inglaterra, privando a moderna vida inglêsa do que denomina de "valores sutilmente humanos", só possíveis em civilizações de qualidade que permitam o máximo desenvolvimento de virtudes rurais. O segundo, embora sem desconhecer em tais valores sua dependência de meios ou ambientes vigorosamente rurais, salienta ser inevitável, em face do próprio desenvolvimento moderno das técnicas de produção agrária e pastoril, a redução das populações empenhadas, em meios rurais, em atividades rurais, tornando-se assim necessário habilitar grande parte dessas populações a atividades industriais nas cidades ou em meios rurais onde seja possível desenvolver indústrias. Sendo assim, as migrações internacionais e dentro das nacionais, as inter e intra-regionais, e as relações econômicas entre nações e regiões, teriam de atender à necessidade ou a inevitabilidade dêsse desenvolvimento.

     Uma das maneiras de atendê-las com maior vantagem para as culturas ou economias nacionais e para as relações pacíficas entre economias e culturas, parece ser a solução rurbana, aqui sugerida ou seja, o desenvolvimento, em áreas rurais, de indústrias que, não prejudicando o caráter das regiões, embora o alterando, permitam que, dentro dessas áreas, populações sem oportunidades de aí desenvolverem atividades rigorosamente agrárias e pastoris, continuem a ser semi-rurais pela sua permanência em meios predominantemente rurais onde exerçam atividades industriais. Seria êsse benefício enorme que a emprêsa de alumínio que Reynolds pretendia - e pretende ainda, felizmente, segundo me informam - estabelecer no Nordeste agrário, valendo-se da energia elétrica de Paulo Afonso, viria prestar a esta região: à sua população agrária - hoje obrigada a emigrar em condições desfavoráveis - e à população das cidades - a recifense, inclusive - que seria beneficiada pela redução de 60% nos preços de eletricidade graças à presença em presença em nosso meio de uma grande indústria instalada em áreas rurais. Foi contra isto que se ergueu - e continua a erguer-se entre nós - certo nacionalismo econômico evidentemente desorientado; ou, pelo menos, arcaico.

     Porque a verdade é que vivemos, homens de hoje, num mundo cada dia mais interdependente. Mais interdependente nas relações entre culturas ou economias rurais e urbanas, dentro de um conjunto nacional, o mais interdependente nas relações entre economias e culturas nacionais. Tais interdependência não deixa espaço para purismos ou exclusivismos de espécie alguma: nem étnico nem econômico; nem político nem cultural.

     Percebeu argutamente a situação - a necessária interdependência entre o urbano e o rural - o Padre Louis Joseph Lebret quando, depois de rápido estudo desta Região brasileira, admitindo a possibilidade, em futuro ainda remoto, de um "grande Recife", evidentemente como zona urbana mais urbana que rural - sem deixar evidentemente de ser rural nas suas margens - se insurgiu de modo lúcido contra a crescente concentração de desertores do interior nordestino no mesmo Recife, já a tornar-se o que lhe pareceu "cidade monstruosa". Daí a sugestão - em trabalho agora publicado, com inteligente prefácio do engenheiro-urbanista Antônio Baltar - sugestão com que se concilia velha idéia nossa, mais uma vez esboçada aqui, de uma civilização deliberadamente rurbana para Pernambuco ou para o Nordeste: na verdade para o Brasil inteiro - de se levantarem no interior do Estado ou da região ou do país barragens implicitamente rurbanas, "onde o êxodo para a cidade" - caso do Nordeste, para o Recife - "seria detido". Essas barragens que, estou certo, o Padre Lebret e o engenheiro Antônio Baltar concordariam comigo em especificar que fôssem rurbanas, seriam sedes de novas indústrias, não escapando ao Padre Lebret a conveniência da "utilização de Paulo Afonso com uma grande usina de alumínio"; nem a possibilidade de existirem na região riquezas minerais que encontradas - e êle encarece a necessidade de pesquisas por "técnicos internacionais" - (e agora mesmo um "técnico internacional", o geólogo francês Pierre Taltasso, realiza no Nordeste, em missão da Unesco, pesquisa interessantíssima, já tendo anunciado dispôr a chapada do Araripe de água bastante para sua população desenvolver uma economia agrária em pelo interior sêco desta parte do Brasil) - viriam facilitar o processo a que chamamos de rurbanização do Nordeste. Processo de aproveitamento de quantos recursos naturais possam suprir, nesta região, a ausência de condições favoráveis a uma agricultura semelhante à uruguaia ou a uma pecuária igual à Argentina, sem que seja preciso ao homem da região artificializar-se em falso urbanita ou em precário sub-urbanita fugindo ao empobrecimento do interior ou das áreas rurais abandonadas, esquecidas, mal estudadas. Pois tudo indica poder o Nordeste, como, aliás, o Brasil, em geral, tornar-se uma saudável civilização rurbana através de inteligente articulação ou integração de tais valores é como se dissesse que ela é impossível sem o esfôrço sistemático de que são capazes as educadoras: tão necessárias a qualquer obra de engenharia social.

     Engenharia social não é só pêso másculo nem apenas material bruto: é também renda como na outra engenharia a renda em ferro das modernas pontes, suspensas sôbre os grandes rios como se fôssem filigrana de prata ou de ouro feita por mulher. É renda social. É renda tecida com o que há de mais delicado na natureza humana. Juntando-se contrários. Harmonizando-se extremos. Lançando-se pontes sôbre abismos. E êsse trabalho mais delicado de juntar, de harmonizar, de conciliar, de equilibrar extremos humanos, de lançar sôbre abismos sociais pontes também sociais que parecendo frágeis sejam na realidade mais fortes que as ostensivamente fortes, ninguém o sabe realizar com mais arte ou mais sutileza que a mulher. Que a educadora. Que a professora primária.

     Daí tanto depender das professoras rurais não só Pernambuco, o Nordeste, mas o Brasil inteiro. Tôda a América. O mundo que hoje se reorganiza. Não vos estou acariciando os ouvidos com elogios melífluos professoras que me ouves nesta inauguração de curso presidida por governador e enfeitada de flores oficiais. É a realidade que estou recordando à vossa modéstia de missionárias desprestenciosas: franciscanas de saia, blusa e sapato de salto alto. Há alguma coisa de heróico na vossa tarefa, quando desempenhada em sua plenitude de tarefa missionária. Alguma coisa que faz que a vossa mocidade dedicada à infância e às populações do interior seja uma mocidade de tal modo superior à das moças elegantes que não trabalham pelos necessitados do seu trabalho e nem sequer saem das capitais, a não ser para viagem de turismo também elegante, que sem essa dedicação, êsse vosso trabalho, êsse vosso esfôrço, essa vossa vida aparentemente gasta entre rudes matutos, mas na verdade enriquecida pelo contato com a gente rústica e genuinamente brasileira do interior, não haveria Pernambuco nem haveria Brasil. Nem estaria se formando na América uma nova civilização.



Source: FREYRE, Gilberto. Sugestões para uma nova política no Brasil: a rurbana. Pref. Do General O. Cordeiro de Farias. Recife: Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Pernambuco, 1956. 30p. (Cadernos de Pernambuco, 4).

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