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Já se foi o tempo que quem dissesse "museu" dizia uma coleção de relíquias que despertassem no visitante ternura ou curiosidade pelo passado: um passado morto, sem ligação com a vida. Uma visita a um "museu" era quase como uma renúncia à vida ou um "rendez-vous com a morte" - isto é, com uma civilização ou uma época já morta, da qual se guardassem piedosamente retalhos curiosos ou pitorescos; ou - nos museus de arte - altos valores ou preciosas obras primas, respeitadas ou veneradas como valores nobres ou obras clássicas. A moderna Antropologia muito concorreu para modificar a idéia antiga de museu; e são sobretudo os antropólogos que vêm creando em torno do Homem Social e das Civilizações e culturas, históricas e pré-históricas, museus de um novo tipo, nos quais se sente o que há de vivo e de ligado ao homem atual e civilizado em civilizações remotas, em culturas primitivas, em artes e creações folclóricas. Pode-se dizer do Museu do Homem, de Paris, que é altamente representativo desse tipo novo de museu a um tempo antropológico e sociológico, no qual o visitante não se sente dominado por nenhuma idéia melancólica de morte, de passado, de civilização desfeita, mas, ao contrário, por um sentimento de continuidade de vida e de cultura, através dos tempos sociais diversos e das diferentes culturas que o Homem tem atravessado ou continua a atravessar, de modo desigual, nas várias regiões do mundo. O mesmo é certo do Museu antropológico que contribue para fazer de Oxford, na Inglaterra, um dos centros modernos mais completos de estudos antropológicos. O mesmo é certo dos museus alemães da mesma especialidade e dos americanos, dos Estados Unidos. E o próprio Portugal conseguiu, graças ao sábio Leite de Vasconcelos, reunir, no seu museu etnológico, valioso material sôbre o Homem e as culturas ibéricas: tão valioso que êsse seu museu é dos que devem ser conhecidos pelo antropólogo moderno. Quem conhece os museus desse tipo, compreende porque o grande mestre de Antropologia que foi Franz Boas não considerava completo o especialista nessa ciência a quem faltasse o contacto com essas modernas instituições de cultura e de estudo, complementares das universidades; o onde funcionam, aliás, vários cursos universitários. Eu próprio foi o conselho mais insistente que recebi dêle quando, após meus estudos na Universidade de Columbia, parti para a Europa, em viagem de observação e de estudo: que me especializasse em observações e estudos antropológicos, nos museus europeus - principalmente nos alemães e no de Oxford. Segui essa sua recomendação com o maior dos proveitos: muito mais do que simplesmente seguindo cursos de conferências, embora dêsses ninguém deva falar com desprezo. São essenciais: principalmente quando professados por grandes mestres. Nos museus de Antropologia também se exprime o saber de grandes mestres; e talvêz, em certos casos, de uma maneira mais viva e mais dinâmica que através de conferências ou de cursos. Rivet, que há pouco faleceu em Paris, onde me deu a honra de me receber em sua tôrre um tanto montaigneana de homem de ciência com alguma coisa de filósofo, foi no Museu do Homem - agora dirigido sàbiamente por Mestre Valois, com a colaboração de jovens e competentes antropólogos como Pierre Vassal - que melhor se exprimiu. É a melhor das suas realizações. Talvez o mesmo tenha desejado fazer no Rio de Janeiro Roquette Pinto, quando dirigiu o Museu Nacional: mas sem ter tido inteiro sucesso. Ainda assim, a secção de Etnografia Sertaneja que o autor de Rondônia ali desenvolveu é bem uma expressão da sua ciência de antropólogo especializado no estudo de culturas já especìficamente brasileiras, à base de culturas ameríndias. O Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, com sede no Recife e destinado ao estudo do Norte agrário do País - da Bahia ao Amazonas - não estaria completo em sua organização básica, enquanto não abrisse aos estudiosos, em particular, e ao público, em geral, um museu que fosse uma documentação viva da cultura do lavrador e do trabalhador rural da mesma região: da sua habitação, dos seus tipos mais característicos de vestuário, de móvel, de louças, de cerâmica, de cesta, de transporte, de calçados; do seu vasilhame de cozinha; da sua arte; da sua técnica de trabalho agrário; dos seus brinquedos e jogos; dos seus cachimbos, das suas facas de ponta; das suas cuias de madeira; das suas esculturas de santos; das suas promessas e dos seus ex-votos ligados à sua vida agrária; dos seus arreios, das suas esporas, dos seus adornos de animais. Mil e um aspectos de vida agrária dão originalidade à cultura da região que constitui o objeto principal de estudos da parte dos pesquisadores do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Dessas várias manifestações de vida, algumas já quase arcaicas, foram recolhidos exemplares que constituem o material básico do Museu que agora se inaugura no mesmo Instituto que, aliás, pode gabar-se de já possuir um jardim ecológico, organizado sob critério científico: talvez o único, no gênero, em nosso País. Pois as plantas aí reunidas não são apenas as características da paisagem regional ou as de valor econômico mas também as medicinais, as profiláticas, as mágicas, além das simplesmente decorativas. Seria interessante que aparecesse no Boletim do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais uma descriminação completa de um jardim, que em franco desenvolvimento, já constitui uma das melhores realizações do I. J. N. P. S.; e que foi trabalho de um homem de ciência ilustre, o Professor Chaves Batista, quando colaborador do Professor Gonçalves Fernandes, por algum tempo diretor de Departamento de Bem Estar Social da Prefeitura do Recife. Foi graças à cooperação dêsses dois homens de ciência e de um prefeito esclarecido - o médico Djair Brindeiro - que o instituto teve o seu jardim ecológico organizado num jardim verdadeiramente educativo, ao qual os professôres primários e secundários do Norte agrário do Brasil podem trazer seus alunos com grande proveito para o seu conhecimento da vida e da paisagem da região. Pois é um jardim-síntese, onde alunos de escola e estrangeiros de passagem pelo Recife podem em pouco tempo travar conhecimento com plantas e árvores da região, famosas pelos mais diversos motivos: desde a cana de açúcar à maconha; desde a jaqueira ao alecrim. Árvores nativas e árvores aclimatadas nesta parte do Brasil. Função semelhante terá o Museu que agora se inaugura na sede do I.J.N.P.S. Também êle será uma síntese da vida agrária do Norte agrário do Brasil ou da cultura - cultura no sentido sociológico ou antropológico - da região assim caracterizada. Aliás, algumas peças valiosas já se achavam, há anos, umas em dependências do próprio Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, outras, em poder de particulares que as vinham pachorrentamente reunindo, à espera que se organizasse o Museu, para figurarem, devidamente catalogadas, nas suas coleções. Eu próprio vinha reunindo, com êsse objetivo, material que poderá um dia tornar-se precioso pela sua raridade: madeiras, traves, pregos, tijolos e cipós utilizados na construção de antigas casas rurais da região que vêm sendo demolidas nos últimos anos. Casas do século XIX e algumas do século XVIII. É preciso sabermos que espécie de material era êsse; como eram os tijolos; como eram os pregos; quais as madeiras utilizadas para portas, janelas, forros, soalhos. Outro material de interêsse antropológico que venho recolhendo e que, quando incluído nas coleções do Museu do I.J.N.P.S., constituirá talvez a primeira coleção no gênero reunida no nosso País, é o formado por ex-votos, não de cabeças e membros do corpo humano, como em geral se vêem nas igrejas regionais, porém de casa, moendas, animais, patas e cascos de bois, cavalos, carneiros, ovelhas: - isto é, promessas e santos relativas a habitações rurais e a valores agrários ou agroindustriais. Só esta coleção dará ao museu do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais originalidade e importância entre os museus de antropologia não só do Brasil como da América Latina. O que se fez no Museu Nacional com a seção de Etnografia Sertaneja terá no Museu do Recife um desenvolvimento maior, com relação a outra região sociològicamente significativa do País: a agrária setentrional. Instalado, como já se acha, o museu do I.J.N.P.S. ficará fazendo parte de um já considerável sistema brasileiro de museus - alguns regionais - inteira ou parcialmente etnográficos ou antropológicos. Acêrca do assunto realizel em 1953, com o valioso auxílio do então Chefe do Gabinete do Ministério da Educação e Cultura - Senhor Péricles Madureira de Pinho - pequeno inquérito, por incumbência da Fundação Wenner-Gren de Pesquisa Antropológica, com sede em Nova York e que é hoje a mais importante das fundações americanas e européias, especializadas em pesquisas antropológicas. Os resultados dêsse inquérito constam, em língua inglêsa, do Internacional Directory os Anthropological Institutions, organizado por William L. Thomas, Jr. e Anna M. Pikelis, e publicado naquêle ano de 1953, em Nova York; e são aqui, pela primeira vez, resumidos em língua portuguesa. O fundador do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais figura, como o único antropólogo sulamericano, entre os colaboradores dêsse Directory de proporções monumentais; e aparece - destaque-se o fato como afirmação não de prestígio individual mas do renome já alcançado pelo I. J. N. P. S. - com o caráter de fundador e consultor do mesmo Instituto, ao lado dos eminentes antropólogos modernos cuja cooperação, especialmente solicitada e inteligentemente articulada por aquêles dois antropólogos da Fundação Wenner-Gren, tornou possível a organização da mesma obra coletiva, rica de informações essenciais para todos os modernos professôres e estudantes de Antropologia. Foram êsses colaboradores os antropólogos Marius Birbean, do Canadá, Mario Cappieri, da Itália, Julio Caro Baroja, da Espanha, Juan Comas, do México, Earl W. Count e Nicholas De Witt, dos Estados Unidos, Daryll Forde, dos Estados Unidos, A. A. Gerbrands, da Holanda, Marcel Griande, da França, Josef Haekel, da Áustria, Gerrit Jan Held, da Indonésia, Francis L. K. Hsu, dos Estados Unidos, Euchiro Ishida, da Japão, Felix M. Keesing, dos Estados Unidos, J. G. Koumaris, da Grécia, Helge Larsen, da Dinamarca, A. Leroi-Gourham, da França, D. N. Majumbar, da Índia, Louis Malleret, de Viet Nan, Alfred Metraux, da Unesco, Audrey I. Richards, da Uganda (Reino Unido), Marcel Rioux, do Canadá, Muzaffer Suleyman, da Turgana, Sergio Sergida, da Itália, Demitri B. Shimkin, dos Estados Unidos, Doris Stone, dos Estados Unidos, Frank Termer, da Alemanha, Ermine W. Voegelin, dos Estados Unidos. Na sua introdução às informações com que concorre para o diretório sôbre o ensino da Antropologia no nosso País, instituições e atividades de pesquisa antropológica entre nós e museus inteira ou parcialmente antropólogos, salienta o fundador e consultor do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais que até quase nossos dias essas atividades e essas pesquisas vinham sendo realizadas no Brasil mais por esfôrço individual do que por iniciativa ou sub os auspícios de instituições ou de fundações, cuja presença, em nossa vida científica, apenas começa a se fazer sentir no campo da Antropologia e de ciência relacionadas com a Antropologia. Foi esfôrço magníficamente individual, por exemplo, o trabalho de Nina Rodrigues, na Bahia; e esfôrço principalmente individual, o de Roquette Pinto, no Rio de Janeiro. O fato de ter sido o primeiro, professor da Faculdade de Medicina da Bahia e o segundo, por algum tempo, diretor do Museu Nacional, não significa terem realizado suas notáveis obras de pesquisa antropológica em função dessas instituições ou por iniciativa ou sob os auspícios delas. Não há dúvidas, entretanto, de que, em época mais recente o Museu Nacional do Rio de Janeiro e o Museu Paulista vêm se destacando por esforços sistemáticos no sentido de pesquisas de sua iniciativa e sob sua orientação; nem deve ser esquecido o fato de que o Museu Goeldi iniciou, em seus dias aureos, pesquisas etnológicas ao lado das suas atividades científicas principais, que foram as botânicas. Quais as instituições brasileiras que atualmente juntam museus especializados em Etnologia, Antropologia, em História Cultural, ao ensino de Antropologia? Quais os atuais museus brasileiros, inteira ou parcialmente etnológicos antropológicos? Segundo o inquérito realizado no Brasil para a Fundação Wenner-Gren são os seguintes os principais museus, hoje a serviço dos estudos antropológicos no Brasil e franqueados à mocidade universitária ou escolar ou ao público interessado nêsses estudos - museus aos quais se junta agora o do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais: o Museu do Estado de Pernambuco, fundado em 1929 pelo então Governador Estácio de Albuquerque Coimbra, segundo sugestões já esboçadas pelo atual consultor técnico do I.J.N.P.S. quanto ao que deveria ser um museu antropológico de caráter ao mesmo tempo histórico e regional - sugestões que constam de artigo publicado no Diário de Pernambuco em 1924 - e hoje dirigido pelo Professor José Maria de Albuquerque, depois de ter sido organizado e dirigido pelo Professor Anibal Fernandes, e no qual se encontra importante coleção de material ameríndio: o recolhido na área amazônica por Carlos Estevão; o Museu de Etnografia, fundado em São Paulo em 1934, dirigido hoje por Plínio Marques da Silva Ayrosa, ligado à Cátedra de Etnografia e Tupi-Guarani da Universidade de São Paulo (cujo titular é o Professor Plínio Ayrosa) e com importantes coleções antropológicas sôbre os Canela e os Bororó e de cerâmica Tupi; o Museu Nacional, fundado em 1818 no Rio de Janeiro, subordinado hoje ao Ministério da Educação e Cultura e tendo as seguintes seções principais: Antropologia física, Etnologia sulamericana, Índio Brasileiro, Arte Popular, Arqueologia egípcia; o Museu Nina Rodrigues, fundado em 1905 na Bahia, subordinado à Universidade da Bahia e ao Gôverno do Estado, dirigido pelo médico Estácio de Lima, tendo por atividades principais inquéritos de Medicina Legal e de Etnologia e mantendo uma exposição permanente de material antropológico; o Museu Paraense Emílio Goeldi, fundador em 1871, com exposição permanente de material antropológico referente a ameríndios da área amazônica, inclusive importantes coleções arqueológicas de Marajó, de Santarém e de Cunani; o Museu Paulista, fundado em São Paulo em 1894, dirigido pelo Professor Herbert Baldus, e que entre suas coleções mais importantes conta com material antropológico sôbre várias tribus ameríndias. De alguns desses museus deve-se destacar que publicam boletins ou revistas: o Boletim do Museu Goeldi, a Revista do Museu Paulista, de São Paulo, os Arquivos do Instituto Nina Rodrigues, o Boletim do Museu Nacional. E não nos esqueçamos de que há atualmente no Brasil outros museus que sendo de história, têm também alguma coisa de etnográficos nas suas coleções ou nas suas publicações: o Museu do Estado da Bahia, até há pouco dirigido com particular competência por um especialista em organização de museus - o Professor José Valadares; o Museu do Ouro, em Minas; o Museu Julio de Castilhos, no Rio Grande do Sul; o Museu de Curitiba. O Museu das Salesianas, em Manaus, é um comêço de bom museu etnográfico especializado na cultura ameríndia da área amazônica. Visitei-o há pouco e deixo aqui minha admiração pelo esfôrço daquelas religiosas. Nêste particular, porém, a expressão máxima da capacidade brasileira para organização científica de um museu especializado - especializado em assuntos ameríndios - continua o Museu do Índio, organizado no Rio de Janeiro pelo jovem e já notável indianófio que é o Professor Darcy Ribeiro. Como se vê, nenhum dêsses museus brasileiros realiza atualmente, de modo específico, funções que se assemelhem, mesmo de longe, às que o projetado Museu do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais pretende desempenhar: as de reunir, sob critério antropológico, documentação quanto possível significativa acêrca do passado, da vida e da cultura de uma região tradicionalmente agrária do Brasil como a que se estende da Bahia ao Amazonas; e constituí o objeto de estudos especiais do mesmo Instituto, fundado em virtude de projeto de lei apresentado à Câmara Federal em 1949 por um dos representantes de então do Estado de Pernambuco. Será assim o Museu que o instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais acaba de instalar, com material básico ou pioneiro, na sua sede um museu pioneiro no Brasil, nessa especialidade de antropologia. E com característicos inteiramente próprios. Inconfundìvelmente novos. Aliás, alguns dêsses característicos, êle os conservará com relação à grande maioria - a quase totalidade, mesmo - dos museus existentes hoje nos vários países da Europa, da América, da África e do Oriente e cuja relação consta do minucioso Directory de modernas atividades antropológicas publicado pela Fundação Wenner-Gren em 1953. Vários dêsses museus - inclusive o Museu do Homem, de Paris, em sua nova fase: a da direção do sábio Valois - vêm sendo ùltimamente visitados, para efeitos comparativos, pelo fundador e consultor do I.J.N.P.S.; outros, são seus velhos conhecidos, dos dias em que realizou estudos e observações em que museus europeus de Antropologia, Etnologia e História Cultural, por sugestão e sob a orientação - como já foi lembrado - do seu principal mestre de Antropologia, Franz Boas. Não devemos, entretanto, nos esquecer do fato de que existem já em alguns países, museus com uma orientação da qual se aproximará, uma vez instalado e posto a funcionar, o projetado museu do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Entre êstes, o Norsk Folkennumseum, de Olso, na Noruega, com a sua exposição permanente, ao ar livre, de vários tipos de casas rurais ou agrárias completada por uma exposição também permanente, de recinto fechado, de objetos em uso por populações rurais ou agrárias da Noruega - objetos organizados histórica e regionalmente; parte do museu Real Instituto dos Trópicos, de Amsterdam, onde há exposição permanente de técnicas de trabalho agrário e de estilos de vida rural ainda em vigor em regiões no Oriente até há pouco dominadas polìticamente pela Holanda - Instituto onde em 1956 o fundador e consultor técnico do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais foi carinhosamente recebido pelos seus sábios, tendo proferido, no salão de atos da importante organização holandesa, uma conferência, em língua inglêsa, sôbre o Brasil; o Museu de Pesca, referente a populações marítimas do Norte da Holanda e aos seus estilos de habitação, de vida e de trabalho - museu onde foi também recebido o mesmo antropólogo brasileiro, então hóspede do Gôverno holandês, pelos antropólogos responsáveis pela sua organização e pelo seu funcionamento. Talvez sejam os países escandinavos aqueles onde melhor organização científica apresentam atualmente os museus dêsse tipo, isto é, especializados na documentação de culturas agrárias ou rústicas, ou em fase de transição ou mudança sociais; documentação sob critério a um tempo antropológico e regional, desde que, na Alemanha - famosa pelos seus museus de Antropologia e de Etnologia, de Etnografia e de História Cultural - a tendência é para tais museus apresentarem material antropológico, etnológico, préhistórico, de áreas diversas: européia, africana, asiática, americana etc. É o critério que preside a organização como o do Instituto Frobenius, em Frankfurt - on - Main, o artigo Museu de Etnologia, agora reorganizado, de Berlim, o Museu de Hamburgo de Etnologia e Pré-história, o próprio Museu de Etnologia de Colonia - alguns dos quis visitados em 1956 e, mais recentemente, (1T60), pelo fundador e consultor técnico do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, quando hóspede oficial da República Federal Alemã. A Dinamarca, tendo sido o país onde primeiro se estabeleceu um museu moderno de etnologia - como recorda à página 205 do Directory da Fundação Wenner-Gren, o Professor Franz Tenner - continúa a ser exemplar nessa especialidade científica; e dentre os seus museus destacam-se os que dão relêvo à documentação de cultura regionais dinamarquesa, como é o caso do Museu de Odense, como sua exposição de tipos de casas rurais; do Museu de Diatetologia de Copenhague, com suas coleções de material folclórico e etnológico de interêsse linguístico, através do estudo de populações rurais. Do mesmo gênero é o Museu da Sociedade Suiça de Folclore, de Basel - Sociedade que tem entre suas principais atividades o estudo de casas rurais da Suiça. À União Indiana não falta um museu importante pela sua seção de Etnologia, - o Victoria, de Bombaim - com "modelos etnológicos" que são uma maravilha de ciência e de arte; e que bem poderiam ser adaptados a assuntos brasileiros. Êsse museu, visitado com vagar e atenção, em 1952, pelo fundador e consultor técnico do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, é daqueles com os quais o mesmo Instituto deve procurar conservar-se em mais íntimo contacto. Não se compreende que certos indianismos, isto é, orientalismos, que se incorporaram à civilização brasileira - inclusive à sua civilização agrária - como o banguê e o palanquim, para só citar êsses - não tinham sido até hoje estudados, com rigor científico, do ponto de vista brasileiro, nas suas origens indianas ou orientais. Por outro lado, é de supor que aos antropólogos indianos interesse acompanhar o desenvolvimento que tiveram no Brasil tais indianismos. O que digo do Museu Victoria, de Bombaim, poderia dizer de outros museus não europeus - africanos, além de orientais - que em 1951 e 1952 visitei nas Áfricas Francêsas, Inglêsa e Portuguêsa. Destacarei aqui, dentre êsses museus especializados em assuntos africanos, o do Instituto Francês da África Negra (IFAN), de Dakar, os museus das Rhodesias, o Museu de Angola, o Museu do Centro de Estudos da Guiné Portuguêsa, o Museu da Sociedade de Estudos de Moçambique, o Museu do Dundo. Com êstes, e por motivos semelhantes aos já alegados com relação a indianismos ou orientalismos de caráter cultural que se integraram na civilização brasileira - inclusive na civilização agrária brasileira - o Museu do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais deverá desenvolver relações tão particularmente íntimas como devem ser, desde já, suas relações com o Museu Etnológico Português, de Lisboa. Essas relações especiais devem estender-se a Museus do Continente americano como os de Nova York, Washington, México, Perú; os de Buenos Aires, de Assunção, os do Sul dos Estados Unidos; e, ainda, ao Museu de Etnografia e de Pré-história do Bardo (África), especializado no estudo arqueológico, antropológico e sociológico da cultura islâmica e ao Museu do Marrocos espanhol, de Tetuan. É de todo interêsse, para o Museu do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, cuidar, desde já, de iniciar suas relações com êsses outros museus, especializados em estudos relacionados com aquelas investigações de caráter a um tempo social e ecológico, antropológico e sociológico, de que pretender ser um dos centros, no Brasil. Pois quem diz museu moderno, diz centro de estudos e pesquisas; e estudos e pesquisas que não se podem confinar aos limites da província ou da região onde se acha situado o museu. Teriamos, nêsse caso, provincianismo ou regionalismo, não do bom, mas do estéril, que é aquêle que cêdo se degrada em autofagia, por falta de contacto ou de intercâmbio dos seus centros de estudos com outros centros de atividade intelectual, de pesquisa artística e de estudo científico: centros onde se realizam estudos semelhantes aos que se processam em institutos regionais do tipo do I.J.N.P.S.; complementares dêsses seus estudos. Daí não nos deve contentar a expressão "regionalismo" senão quando subtendida como dinâmico e inquieto interregionalismo não só no plano nacional como no internacional. Note-se, a êsse respeito, que está em organização no Recife um Instituto de Antropologia Tropical, (I.A.T.), de caráter dinâmicamente e especìficamente interregional, no plano internacional. A êsse novo Instituto - que de início terá a prestigiá-lo, como seu principal orientador de pesquisas, no campo da Antropologia Física, Mestre Fróes da Fonseca, já decidido a fixar-se na cidade do Recife, para desempenhar aquelas funções - o Museu do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais poderá ser particularmente útil; e por essa sua utilidade em plano internacional, virá decerto a merecer o valioso auxílio da Fundação Gulkenkiana, dirigida com larga visão moderna pelo Dr. Azevedo Pardigão, e que já manifestou o desejo de articular-se com o I.J.N. e o I.A.T. Aliás, o contacto com museus estrangeiros, o Museu do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais deve cuidar de estendê-lo aos próprios museus russo-soviéticos e sino-comunistas onde se estão realizando hoje estudos que, à parte do ponto de vista da ideologia política que os inspira, são uma tentativa de revelação das condições de vida de populações rurais, sob alguns aspectos semelhantes às do Norte agrário do Brasil. Um dos empenhos dos etnólogos modernos da Rússia-sociética é, desde 1951, o estudo de habitações rurais: assunto que desde a fundação do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais preocupa os seus pesquisadores e para o estudo do qual infelizmente lhe faltou a cooperação que lhe era devida, da Organização das Nações Unidas. Isto pela falta de justa compreensão do problema, da parte do representante francês da mesma Organização no Brasil. Talvez o museu russo-sovietico, com o qual o museu em organização deva tratar de estabelecer relações imediatas seja o Museu de Etnografia dos Povos da U. S. S. R., com sede em Lenningrad. Mas também devera fazê-lo com o Museu de Antropologia e de Etnografia da Academia de Ciências da USSR, com sede, igualmente, em Lenningrad. Dos museus japonêses de Antropologia - já que dos da China chamada comunista não me foi possível obter este anos na Europa informações idôneas, estando, entretanto, com um convite da própria República Popular Chinesa, para visitá-la, como observador independente - aquele com que o Museu em organização do I.J.N.P.S. deve estabelecer relações imediatas parecer ser o de Toquio, que se interessa pelo estudo étnico-sociológico da família japonesa e das pequenas comunidades nipônicas: principalmente as de pescadores. Mas sem desprezar as de lavradores. Parece-me conveniente que, realizada agora a instalação oficial do Museu, o I.J.N.P.S. cuide sem demora de articular-se com os museus aqui destacados como centros de estudos particularmente empenhados em estudos semelhantes aos que se desenvolverão no Museu do Recife. Ou que se apresentam como complementares dos estudos projetados pelo Museu do Recife, ligado ao I.J.N.P.S. Com estas sugestões, não pretendo senão concorrer para tornar evidente a importância que dará ao Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais a instalação do museu antropológico, a um tempo regional e histórico, com que vêm sonhando seu fundador e seus organizadores, desde os primeiros dias de vida desta instituição brasileira de cultura e de pesquisa. Já que teve sido possível ao I.J.N.P.S. desenvolver, dentro das atuais circunstâncias brasileiras, atividades sistemáticas de pesquisa social - que, aliás, só serão praticáveis sob um regime de tempo integral de trabalho da parte dos pesquisadores, que bem compensados por essa espécie de trabalho, possam desprender-se de seus compromissos urbanos com o magistério e com o exercício das profissões médica, jurídica e jornalística - é justo que seu diretor e seus pesquisadores concentrem, por enquanto, o melhor do seu esfôrço na instalação e na organização de um museu que seja, no Recife, e sob a direção geral de um geográfico ilustre como o Professor Mota e a especial de um antropólogo competente como o Professor René Ribeiro, com a colaboração inteligente do Professor Waldemar Valente, uma síntese do passado, da vida e cultura do Norte agrário do Brasil; e, como tal, um centro de estudo, de informação e de esclarecimento de assuntos regionais, onde a mocidade universitária, a juventude escolar, o público brasileiro e os estrangeiros de passagem pela capital de Pernambuco, possam adquirir uma visão honesta e segura das condições de vida, dos estilos de habitação e também das técnicas de trabalho do homem brasileiro das várias áreas da mesma região, em comparação com os estilos de vida e as técnicas de trabalho rural dos nativos ou residentes de outras áreas tropicais. Especialmente de outra áreas tropicais marcadas hoje pelo mesmo tipo de organização social que o Brasil ou sejam nação denominado hispano ou luso-tropical. Source: FREYRE, Gilberto. Sugestões em torno do Museu de Antropologia no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Recife: Imprensa Universitária, 1960. 41p. |