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O recente desenvolvimento da Ecologia em Ecologia Humana, isto é, em Ecologia especializada no estudo não só das relações entre o Homem e o Meio como entre grupos humanos organizados em instituições e entre subgrupos e suas atividades funcionais de competição no espaço, veio aproximar geógrafos e sociólogos para o estudo de problemas de interêsse comum; e tornar vários problemas ecológicos objetos de estudo tanto geográfico como sociológico ou sócio-antropológico. Compreende-se assim que a palavra <<área>>, por exemplo, ao seu sentido estritamente geográfico de região com limites especificamente geográficos, junte hoje o sociológico que o amplia em <<conjunto de fenômenos>> - isto é, fenômenos no espaço social ou sócio-cultural condicionado pelo biofísico – tendo <<característicos comuns unificadores>>: o segundo significado que atribui à palavra <<área>> o Dictionary of Sociology, de Faichild. Com êsse sentido sociológico é evidente que se torna possível considerar <<área>>, o conjunto de espaços tropicais, de traços de cultura, talvez menos europeus que cristãos – sociològicamente cristãos – na sua configuração; e trazidas a êsses espaços por espanhóis e portuguêses e mantidos, nos mesmos espaços, por descendentes de espanhóis e portuguêses ou por continuadores, alguns biológicamente não—ibéricos, das formas principais ou decisivas de cultura constituídas por alguns daqueles traços; e sempre, ou quase sempre, mantidas e conservadas – essas formas decisivas, mas não imperiais, de cultura – com tal elasticidade que ê característico comum de tais espaços e hoje característico expressivamente unificador de todos êles a persistência daquelas formas originàriamente européias de cultura e ainda predominantemente européias – e não apenas cristãs – em várias sub-áreas, com modificações que representam uma tendência constante e geral para sua vária adaptação a condições também constantemente tropicais de vida e para sua alteração. Essa alteração vem implicando no desenvolvimento de formas existenciais e culturais mistas, quer pela absorpção de elementos tropicais de natureza – inclusive o próprio homem tropical, tornado sociològicamente iberico ou hispanico – quer de valores tropicais de cultura, desigualmente encontrados entre os vários grupos étnicos, todos mais ou menos de côr e indígenas das várias sub-áreas, tôdas mais ou menos quentes que, desde o século XV, vêm sendo ocupadas pela gente iberica ou hispanica. É como conjunto de fenômenos tendo característicos comuns, unificadores, que os povos de origem iberica ou portadores de cultura pre-dominantemente iberica ou hispanica, espalhados em terras tropicais em vários continentes, não como se ocupassem espaços preferidos por êles, hispanos, descendentes de hispanos e continuadores de hispanos, aos boreais e até aos temperados, para suas atividades decisivas, que existe sociológicamente, culturalmente, embora descontinuamente, uma realidade ecológica e cultural que pode ser denominada hispanotropical; que pode ser tratada como área, de ponto de vista ecológico-social ou sociológico-cultural. Pois é conjunto transregional de cultura e, do ponto de vista político-cultural, conjunto multinacional também de cultura, servido por duas línguas que são em tôdas as sub-áreas, as mesmas, embora com variações regionais e sub-regionais que antes as vêm enriquecendo do que as comprometendo como línguas supranacionais e transregionais de um grupo hoje já considerável como população; de quase setenta milhões, só no Brasil. Como possibilidades, também, de agir econômico e politicamente como um conjunto interrelacionado de povos étnica e culturalmente afins. Para o estudo dêsse conjunto, como complexo ecológico e sócio-cultural, é que venho sugerindo à sistematização de conhecimentos agora dispersos, em nova ciência especial: uma Lusotropicologia que, dentro de uma mais ampla Tropicologia tão compreensível como ciência especial ecológico como a já existente Glaciologia e tão interregional, com ciência cultural especial, como a Islamologia e através de uma intermediária e essencial Hispanotropicologia, recorra a técnicas desenvolvidas por várias ciências mais antigas e mais amplas – principalmente pela Antropologia, pela Geografia, pela Sociologia – e procure considerar, sob o critério de área, no seu mais largo sentido –que é um critério de estudo dinâmicamente interrelacionista – fenômenos evidentemente marcados por aquêles <<característicos comuns unificadores>>, que o Professor Paul Frederik Cressey dá como suficientes para constituirem sociològicamente uma área. Uma área, ou um complexo constituindo á base de um sistema transregional de vários povos se interpretarem a si próprios e o que há de comum em seu comportamento e em sua cultura e em suas relações com um ambiente físico semelhante. Evidentemente não são os descendente tropicais de hispanos que devem esquecer-se do reparo de Humboldt sôbre aquêles homens de estudo hispânicos que primeiro realizaram nos trópicos e sob a influência dos trópicos obras de significação científica: o reparo de terem êles alargado de modo <<repentino>> e <<maravilhoso...>> <<o círculo de idéias (européias) no que diz respeito ao mundo exterior e ao sistema de suas relações na dilatada extensão do espaço>>. Alguns portuguêses contribuiram pioneiramente, junto com espanhóis, para o <<alargamento>> de saber destacado por Humboldt; e também para um comêço de interpretação específicamente hispânica dos trópicos mercê da qual se vên desenvolvendo, em áreas quentes, civilizações como a brasileira, que estão longe de confundir-se com as simplesmente coloniais, fundadas por outros europeus nas mesmas áreas. Em notável trabalho, << The Quality of Land Use of Tropical Clutivators>>, publicado nL'oeuvre coletiva , Man’s Role in Changing the Face of the Earth, aparecida em 1956 sob a direção de William L. Thomas Jr. e editada em Nova Iorque pela Fundação Wenner-Gren, o Professor Pierre Gourou foi o que salientou; o fato de os ambientes naturais por si sós não determinarem ou criarem civilizações que, por isto mesmo, surgem desigualmente nos mesmos espaços – os tropicais, por exemplo – conforme a <<interpretação>> e a <<transformação>> que sofram de diferentes povos, nêles residentes ou dêles colonizadores. Os espaços tropicais colonizados por hispanos, em geral, e por portuguêses, em particular, vêm se transformando segundo as mesmas formas de interpretação: as mesmas no Brasil que têm sido em Goa; as mesmas nas Filipinas que têm sido na América tropical de colonização espanhola; as mesmas na Africa que têm sido na América. Compreende-se assim que a tôdas essas áreas venha sendo comum o aproveitamento de conhecimentos e técnicas de povos tropicais, isto é, nativos dos trópicos, pelos colonizadores hispânico que com êles se vêm amalgamando étnica e culturalmente. E que um comêço de interpretação comum a vários povos, venha caracterizando a transformação dessas áreas. Quando se atribui importância sociológica à <<consciência de espécie>> que porventura se desenvolva entre as várias sociedades hispanostropicais, em geral, e lusotropicais, em particular – sociedades que pela análise e pela interpretação de seu passado comum, dos seus problemas também, em grande parte, comuns e do seu destino, talvez igualmente comum, se tornem mais próximas umas das outras, de modo a formarem uma comunidade senão ostensivamente política, econômico e de cultura — considera-se também a possibilidade de êsse conjunto de civilizações afins vir a desempenhar, num mundo, como o atual, cada vez mais voltado para os espaços tropicais como zonas possíveis de expansão de valores imperialmente boreais – os quais são hoje principalmente os anglo-americanos e os russo-soviéticos — um papel de <terceira fôrça>> cultural em áreas tropicais, capaz de opor a essas penetrações, resistências consideráveis. Parece que nenhum dêsses dois sistemas imperiais – nem o chinês, se desenvolver igual élan imperial – se apresentará capaz de verdadeiramente superar os povos hispanotropicais como civilizações já simbiòticamente eurotropicais, se os povos hispanotropicais, tornando-se conscientes do que valem juntamente com a Espanha e com Portugal, como civilizações novas, nem sub-européias nem tampouco anti-européias, em suas possibilidades, em seus recursos e sem seus designios, se constituírem por sua vez num sistema que tem a seu favor não só uma teoria – a esboçada sob a designação de Hispanotropicologia – como umL'oeuvre, já realizada, de integração de valores europeus nos trópicos, em que êsses valores se vêm juntando, de modo harmônico e ecológico, a valores tropicais. Sendo assim, a articulação das civilizações hispanotropicais num sistema transnacional de cultura, de economia, de política, apresentar-se como uma necessidade, não direi geopolítica, mas, em face de expansões ás vezes intituladas geopolíticas, ecológicas, como se sua articulação decorresse principalmente das situações chamadas naturais ou geográficas. Não dependem dessas situações e sim, como sugere o geógrafo francês Gourou, de interpretações, seguidas de transformações, que as chamadas situações naturais dêem os homens, sob diferentes técnicas ou diferentes civilizações. Nenhum caso mais expressivo de quanto vale essa interpretação que o oferecido pelo conjunto de modernas civilizações hispanotropicais. A interpretação hispânica do contacto de europeus ou cristãos ou hispanos com os trópicos é uma interpretação que existe na prática de um modo que não há exagêro em considerar-se simbiotico. Dela talvez venham a necessitar os próprios anglo-americanos e os próprios russo-soviéticos para a reinterpretação de seus sistemas hoje animados do afã de aumento de produtividade econômico, sobretudo industrial, por meios mecânicos válidos nos espaços boreais; mas de cuja validade para o desenvolvimento da civilização humana, em geral, e de civilizações não-coloniais nos trópicos, em particular, alguns dos próprios apologistas dêsses mesmos sistemas começam a duvidar. Em estudo há poucos anos aparecido, nos Estados Unidos, sob o título The Agency of Man on the Earth, pregunta o geógrafo Carl Sauer com relação ao sistema anglo-americano de anglo-americanização do mundo: the road we>> (os anglo-americanos) <<are layng out for the world>>: <<...do we know where it leads?>> E êle próprio adverte com relação aos programas de auxílio agrário às chamadas populações retardadas: são programas que<<pay little attention to native ways and products>>. Pois <<instead of going out to learn what their experences and preferences are, we go forth to introduce our ways and consider backward what is not according to our patern>>. E mais ainda no severo inglês do geógrafo: <<We present and recommend to the moment, heedless that we may be destroyng wise and durable native systems of living with the land. The modern industrial mood ( I hesitate to add intellectual mood) is insensitive to other ways and values>>. A sensibilidade aos métodos, às técnicas e aos valores dos povos tropicais raramente faltou aos portuguêses e aos espanhóis quando se espalharam por áreas quentes, não como transeuntes, mas – em grande número – como residentes. E residentes que começaram por tomar mulheres tropicais como companheiras e até espôsas: companheiras de suas aventuras de fixaçãcao e procriação nas mesmas áreas. Daí civilizações hispanotropicais como a mexicana, a brasileira, a paraguaia, a indoportuguêsa, se apresentarem hoje com sistemas de arquitetura, de alimentação, de traje, e até mesmo de higiene, em que os valores e as técnicas européias nem sempre são os dominantes mas, sob vários aspectos dêsses sistemas, os dominados, nesses exemplos—e no da assimilação de valores tropicais pela medicina hispânica, desde os primeiros contactos dos hispanos com os trópicos no Oriente e nas Américas—talvez tenham que se inspirar anglo-americanos e russo-soviéticos, para reinterpretarem e humanizarem seus atuais sistemas de expansão de valores imperiais entre populações consideradas atrasadas de modo absoluto. Incapazes—segundo alguns expansionistas—de ensinarem aos invasores ou dominadores, técnicas que resultam de longa e profunda experiência; de longos períodos de identificação do homem com os meios. Pelo ânimo de absorverem tal experiência, tais valores, tais técnicas—inclusive as médicas ou para-médicas—que é o dos hispanos em áreas violentamente diversas das européias como as tropicais, conseguiram eles, hispanos, fundar e vêm conseguindo desenvolver, êles ou seus descendentes, civilizações, por alguns denominadas hispanotropicais. Por lhe ter faltado êsse ânimo, a não ser para assimilações de superfície e aperfeiçoamentos apenas técnicos em tôrno de coisas tropicais, é que outros europeus se vêm retirando ùltimamente de áreas quentes, após séculos de domínio político e econômico sôbre suas populações, sem terem ai conseguido desenvolver civilizações que de longe se comparem com as hispanotropicais, em geral, ou com as lusotropicais, em particular, em desenvolvimento que possam ser denominados integrativos ou simbioticos. Dêsse resultado desigual dos dois tipos de colonização européias nos trópicos—a hispânica e a não-hispânica—parece ser em grande parte responsável o modo por que a hispânica foi e é animada, em suas expansões, de desígnios cristãos—aqui considerados apenas em seus aspectos psico-sociais e sócio-culturais—dela podendo-se dizer, em face do seu comportamento em certas áreas que, sociològicamente, foi antes cristocêntrica que etnocêntrica; e como colonização cristocêntrica, empenhada em cuidar de doentes ao mesmo tempo que de órfãos, de velhos, de meninos e adolescentes assim de côr como brancos: da sua educação o da sua criação, da sua proteção e da sua manutenção. Daí um historiador e sociólogo da sagacidade do indiano K. M. Panikkar, em obra que se intitula em inglês Asia and Western Dominiance e foi publicada em Londres em 1953, associar os primeiros triunfos dos portuguêses no Oriente tropical—portuguêses entre os quais sabe-se ter agido, no interêsse da ciência, o médico português formado na Espanha, Garcia de Orta, contemporâneo do missionário Francisco Xavier: espanhol aportuguesado em sua formação intelectual para o trabalho missionário no Oriente –ao que chama, <<renascença da filosofia>> nos centros lusitanos de estudo e ensino, principalmente Coimbra, no século XVI. Panikkar da particular destaque à obra de <<comentário enciclopédico>> de Aristóteles, elaborada em Portugal por <<Góis e seus colaboradores>>, lembrando ter sido essL'oeuvre designada como <<coimbransis>> por Sipnoza; e salientando também a importância da Navarro; e a de Gouveia, êste em Évora. Nesses centros de saber filosófico é que se teria apurado em Portugal o espíritu ou zêlo religioso que se refletiria na política portuguêsa com relação à Ásia, em particular, diz o erudito indiano; com relação aos trópicos, em geral, podemos generalizar, sem risco de exagêro. E por essa intensificação no Portugal do século XVI— nas suas universidades –do espírito religioso em consonância com o desenvolvimento do saber filosófico—sem nos esquecermos de que o saber cientifico (principalmente o conhecimento técnico das coisas de navegação e das coisa das de geografia, completando pelo médico), graças principalmente aos árabes e judeus, já atingira entre portuguêses notável aperfeiçoamento—é que parece ter ali se apurado, de modo ainda mais completo do que noutra qualquer Espanha da mesma época, a preparação da Europa hispânica para estender-se de maneira antes cristocêntrica que etnocéntrica por áreas ou regioes tropicais. Panikkar indiretamente parece reconhecer êsse caráter sociològicamente antes cristocêntrico que etnocêtrico da preparação portuguêsa para a imensa tarefa mais de cristianizar que de europeizar os trópicos e o Oriente, ao assimilar que, no século XVI, <<algumas das maiores figuras na história da atividade missionária do Cristianismo no Oriente, adotaram Portugal como sua Segunda pátria: Xavier, Vagliano, Ricco>>. Êsses e vários outros europeus prepararam-se para ser missionários no Oriente, indo fazer em Coimbra e em Goa—tão cedo, centro de saber hispanotropical ou lusotropical—os estudos que hoje chamariamos post graduados de filosofia e talvez do que fôsse então, dentro da filosofia, uma para-sociologia porventura já voltada para problemas extra-europeus de convivência humana; e para os de convivência de cristãos com os povos não-cristãos. Pioneiros de estudos etnológicos ou antropológicos e sociais no Oriente tropical e mesmo frio, aquêles hommes o foram de modo notável; e pioneiros também da arte ou ciência, em parte sociológica, de os cristãos europeus educarem cristãmente meninos e adolescentes não-europeus, sem deixarem de assimilar dêles e dos adultos tropicalismos ou orientalismos—inclusive os de natureza médica ou higiênica –que fôssem considerando valiosos a europeus decididos a se fixarem nos trópicos ou no Oriente. Dêsse duplo empenho resulta o fato de modernos historiadores sociológicos da expanção européia na Ásia como o indiano Panikkar reconhecerem virtudes no esfôrço português ou hispânico, que negam aos de europeus do Norte. Ao holandês, por exemplo, que segundo o mesmo historiador-sociólogo, à página 114 do seu referido livro, <<the miserable degradation to which the people of Java were reduced>> e da qual o salvaria <<the virile inspiration of Islam>>. Ao que acrescenta, com algum exagêro oriental: <<The Dutch alone of the Europena nations of the East carried out a policy which sistematically reduced the whole population to the status of plantation labour, whithout recognizing any moral or legal obligation to them>>. Isto por se ter, ao que parece, se requintado, no holandês, aquela convicção, posta também em relêvo por Panikkar, da parte do europeu, em geral, no Oriente, de <<final and enduring racial superiority>>. Precisamente o ânimo exageradamente etnocêntrico que no português, em particular, e no hispano, em geral, foi quase sempre superado ou ultrapassado pelo ânimo cristocêntrico. De modo que se os modernos movimentos de pan-asianismo e panafricanismo indigenista representam reações áquele ânimo etnocêntrico da parte de europeus, essa reações não alcançam, senão em parte, os hispanos: o que nêles é europeus que é inferior ao que nêles vem sendo especificamente hispânico desde dias remotos, e, nos séculos de sua maior atividade criadora, hispano-cristão e até sociològicamente cristocêntrico. Panikkar compreende que a antiga solidariedade européia sob a forma de <<European-ness>> se oponha agora uma solidariedade asiática ou asiana sob a forma de <,Asian-ness>>. E é ás vêzes lamentável ver-se um espanhol ou um português, desgarrado das melhores tradições hispãnicas, pretender incluir a civilização hispãnica naquela <<solidariedade européia>> à qual de fate essa civilização não senão de modo secundário. Que sua constante em face dos povos não-europeus tem sido antes a hispânicamente cristocêntrica que a etnocêntricamente européia é tese que não me parece difícil de provar, jogando-se, é claro, não com todos os fatos que sejam trazidos a exame, mas com sua predominâncias ou sua tendências mais características. Nem difícil de ser justificada me parece a sugestão, aparentemente paradoxal, que se levante, de virem, em geral—nem sempre, é claro, nem mesmo quase sempre—as civilizações hispânicas nos trópicos e no Oriente desempenhando de modo antropológica e sociològicamente mais científico do que as outras, sua missão de civilizações cristãs junto às civilizações e culturas não-cristãs. Ainda hà pouco meses, ao receber-me em Oxford com as melhores graças da hospitalidade exononiana, o catedrático de Antropologia social da mais antiga das universidades inglêsas, Professor Evans-Pritchard, concordava comigo quanto a êsse carãter da colonização hispânica dos trópicos, geralmente tida, entre tropicalistas superficiais, por principalmente aventureira; ou por estreitamente teocrática. A verdade parece ser que nem o aventureirismo—presente, não há dúvida, na mesma colonização, de modo ás vêzes sob formas que se extremaram em durezas como que calvinistas, como as de Jesuítas no Brasil, em contraste com sua plasticidade no estremo Oriente — foram sua tendência predominante. Essa tendência ou rumo predominante talvez venha a ficar claramente demonstrado, à proporção que novos documentos relativos á mesma colonização fôrem aparecendo e que a reinterpretação de alguns dos antigos se fôr operando sob o critério de valorizar-se nêles antes a parte considerada até hoje secundária que a sistemàticamente glorificada, ter sido a de se fixarem os hispanos em áreas quentes e entre populações, culturas ou civilizações, tropicais, absorvendo ou assimilando delas o máximo de substância compativeis com as formas principais do seu Cristianismo hispano-romano e do seu comportamento europeu. Um Cristianismo e um comportamento condicionados por uma civilização principalmente européia e até romana; mas tambén árabe, israelita, oriental, africana, em várias das suas técnicas e em vários dos seus próprios valores, uns cristianizados, outros modificadores senão da ética, de práticas cristãs, na sua pureza romana. É do número 4, volume 58, de agôsto de 1956, de The American Anthropolist, o ensaio em que o Professor M. D. W. Jeffreys, da Universidade de Witwatersrand, trata de <<Some Rules of Directed Culture Change Under Catholicism>>, sustentando a tese de que Igreja Católica Romana desde remotos dias vem mostrando <<a remarkable comprehension of the requirements for ensurging a successful and peaceful cultural change>>. Acêrca do que recorda a carta em que o Papa Gregório I—que morreu no año 604—deu instruções a Santo Agostinho sôbre coo deveria agir quanto a conversão dos inglêses, então fôssem destrídos os templos dos ídolos entre os inglêses mas sòmente os ídolos; que nos templos conservados, depois de consagrados á Igreja fôssem levantados altares e depositadas relíquias, convertendo-se assim êsses antigos templos dedicados aos demônios em casas de culto ou adoração do <<verdadeiro Deus>>. Quanto aos sacrifícios religiosos de animais dentro dos templos, deviam ser substituídos por <<solenidades festivas>> em redor dos mesmos templos ao ar livre, matando-se então animais não para serem imolados aos demônios mas para serem comidos pelas pessoas em festa. De modo que—resumia o Papa sua técnica de conversão, na qual se antecipava a modernos métodos sociológicos de assimilação — reservando-se aos inglêses algumas alegrias exteriores que consentissem em participar das <<alegrias íntimas>> que lhes comunicava o Cristianismo. A propósito do que observa o Professor Jeffreys de que <<a culture trait need not be extripated; all that is necessary is to alter its orientation>>. Precisamente a política seguida pelos hispanocristãos em seus estabelecimentos nos trópicos, dos quais vêm resultando as civilizações hispanotropicais, algumas delas hoje tão vigorosas pelo que conservam de traços de culturas e civilizações pré-hispânicas e pré-cristãs que foram quase sempre — nem sempre, é certo — não extirpados nem repudiados de todo pelos hispanocristãos, mas reorientados. Essa política alcança valores e técnicas que hoje emergem não só da arquitetura, do vestuário, da alimentação mais característicos das mesmas civilizações, vigorosamente híbridas—o caso da indo-lusitana, da filipina, da brasileira, da mexicana, da paraguaia, para só falar nessas—como de medicina moderna do Ocidente, que graças principalmente a hispanos e aos seus métodos de associação com os povos do Oriente e dos trópicos, se enriqueceu enormemente de técnicas e de valores orientais e tropicais, alguns sob a forma de <<substituições>>, desde velhos dias preconizadas não só por sábios como Hernández como por médicos simplesmente médicos. Ou por leigos com alguma coisa de médicos. Substituições das quais tem resultado um integração tal, que nos autoriza descrever ou caracterizar sociològicamente como simbiose—a simbiose hispano-trópico ou a simbiose luso-trópico—o desenvolvimento das sociedades e culturas fundadas pelos hispanos em espaços tropicais em sociedades e culturas mistas, que se disinguem na quase totalidade das sociedades e culturas fundadas por outros europeus nos mesmos espaços, exatamente pelo muito que há nêlas de já integrado ou em processo de integração. Isto quer no conhecimento médico, quer no agronômico, quer noutros aspectos de um saber geral acêrca de como viver, existir, desenvolver-se o homem moderno, de procedência etnica e culturalmente européia com o existencial da sua situação de residente do trópico; e como o <<saber existencial feito>> acumulado nos trópicos pelos indígenas das várias áreas e pelos europeus que primeiro viveram perigosa e aventurosamente entre êles. Os métodos de assimilação recomendados por Gregório I a Santo Agostinho—e há pouco comentados, em artigo de revista, pelo ilustre sociólogo moderno a quem já se fêz referência—têm sido característicos da parte considerável dos esforços de catequese entre populações tropicais por missionários hispânicos. E é interessante considerar-se a crítica da parte de Protestante e até de Católicos de outras origens européias a êsse métodos hispano-Católicos. Da leitura do capítulo <<The Permanent Influences of the Native Religions of Mexico upon Roman Catholic Christianity>>, do livro do Professor Charles S. Bradem, Religious Aspects of the Conquest of Mexico,(Durhan, 1930), conclui-se que o Professor Braden está de modo discreto entre êsses críticos. Nesse livro se destacam—à página 281- <<numerous vestiges of the pagan cult in existence in Catholicism>>, no México, entre os quais <<native dances in certain religios ocasions>>, <<the perpetuation of certain feasts as Christian festivals>>, <<the pagan custom of making offeringts before the images, sometimes of flewers, and even animals>>, <<the taking over of pagan shrines or divinities under Christian names, or in other the words the exchange of deities>>; e se transcreve, à página 283, êste depoimento de um Católico anglo-saxônico, horrorizado com aquelas sobrevivências: <<The Mexican is not a Catholic>>... On account of the lack of painstaking instruction, there appear in the Catholicism of the Indians numerous vestiges of the Aztec paganism>>. Generalização que o bom do anglo-saxão poderia ser estendido ao complexo hispano-americano, substituindo a palavra Azteca, aqui, por Inca, ali por Guarani; ou mesmo por Africano. Mas em qualquer dos casos, a advertência do Papa Gregório I a Santo Agostinho estaria sendo seguida antes pelos hispanos em suas relações com as populações e culturas tropicais da América que pelos Católicos tocados ou influenciados pelo anglo-saxonismo dos Protestantes no seu critério missionário de substituir de repente, e radicalmente, tôdas as substâncias religiosas das culturas indígenas encontradas pelos missionários cristãs na América por substâncias desenvolvidas e apuradas pelo Cristianismo europeu. Pelo romano ou pelo reformado. Imagina-se assim a indignação do próprio Humboldt—em página tambén citada pelo Professor Bradem—com relação a mexicanos que êle conhecera nos dias de sua viagem à América. O sábio escreveu ter visto alguns dêles dançar <<danças selvagens>> em redor de um altar, enquanto um frade de São Francisco elevava o Santíssimo. A verdade é que tais danças, de acôrdo aliás com a velha orientação de Gregório I, foram animadas pelo quase santo Pedro de Gante, conforme se vê do estudo de Augusto Genin sôbre danças e cantos mexicanos, em 1913 publicado pela Revue d’ Ethnographie et Sociologie, de Paris; e algumas dessas danças admitidas no próprio interior dos templos, sob o aplauso de Juan Torquemada. Assunto que tem sido estudado por vários historiadores e etnólogos modernos, dentro os quais alguns franceses. Admitindo-se ser o Catolicismo, em sua expressões ainda hoje dominantes no México, o resultado de <<the mutual interpenetration of the two types of religion>>- o hispânico e o ameríndio—mas salientado que, sob a pressão da cultura européia, através de <<uma variedade de fôrças sociais>>, os <<vestígios pagãos>> no mesmo cristianismo tendiam a empalidecer, o Professor Braden como que já reconhecia em 1930 ser tendência característica da colonização hispânica dos trópicos aquela interpenetração. O prestígio político e econômico da Europa, enquanto válido, decidiria a favor da civilização européia. A êsse jôgo de prestígios—o europeu em face de qualquer outro—acrescenter-se, porém, que é justo considerar-se estranho o cristianismo hispânico, dada sua já antiga capacidade de adaptar a formas romano-hispânicas substâncias não-européias. Essa capacidade distingue-o de outros cristianismos europeus. Note-se de passagem que a respeito do aspecto religioso da colonização hispânica da América são valiosas fontes de informação—de valor consideravel para o sociólogo—com relação ao Brasil, as cartas jesuíticas. E com ralação á América Espanhola, obras como a do franciscano Jerônimo de Mendieta, História Eclesiástica Indiana, escrita nos fins do século XVI. Por essa e outras crônicas, aliás, vê-se terem os religiosos hispânicos participado na América, como participaram no Oriente, de esforços de interpenetração de culturas noutras esferas, além da pròpriamente religiosa: inclusive a médica. Foram alguns dêles, nesse particular, rivais de médicos própriamente ditos, dos quais se sabe que vários eram cristãos-novos ou judeus. Mas cristãos-novos ou judeus condicionados quase sempre pelas sua tradição ou situação cultural de hispanos; e talvez atraídos para os trópicos por uma permanente saudade de um paraíso, por êles perdido, que era um paraíso de clima quente e de vegetação sempre verde . Foram , assim, colaboradores valiosos dL'oeuvre de expansão hispánica nos trópicos, dentro de predominâncias sociològicamente cristocêntricas. Era aliás natural que cristãos, <<novos>> ou <<velhos>>, mas hispanos animados pelo gôsto de alargar experiências e conhecimentos, pelo contacto com outras gentes e terras, além das européias, se sentissem particularmente atraídos pelos trópicos. E que vários dêles tivessem seguido para o Oriente e para as Áfricas e vindo para o Brasil tropical como para regiões messiânicas: quentes, verdes, claras, sem gelos e as brumas que Camões, n’Os Lusíadas, não exalta nunca, guardando todo o seu entusiasmo para o elogio das côres vivas, das terras claras, dos países de sol. Compreende-se que, dentro dessa tradição, mesmo no século XIX, Santiago Ramón y Cajal, quando ainda jovem de vinte e poucos anos, tenha tido êste intenso desejo. <<Mi ideal es América, y singularmente la América tropical, essa tierre de maravilhas>> -sabe-se ter êle dito então a um seu amigo. E é pena—do ponto de vista hispanotropical—que não se tenha realizado adequada e plenamente o desejo de Ramón y Cajal de integrar-se, como homem de ciência, especializado em medicina, no estudo dos trópicos americanos, marcados pela presença hispânica: estudo em que os hispanos se revelariam deficientes no século XIX, depois de no XVI, no XVII e mesmo no XVIII terem desenvolvido notável ação pioneira ou criadora ou sentido de estabelecerem êles próprios, sem o saber em e um tanto com MR. Jourdain fazia prosa, a base de uma Tropicologia em que a ciência prática—e, assim, eminentemente hispânica—de saber o homem de procedência européia viver nos trópicos, conviver com nativos dos trópicos, tropicalizar-se profundamente sem deseuropeizar-se de todo no essencial da sua cultura, se ajuntasse a do conhecimento da natureza tropical, pelos cientistas empenhados platônicamente, cientìficamente, filosóficamente, nesse conhecimento. Êsse conhecimento, buscam-no hoje cientistas de várias especialidades, dos países norte-europeus e dos Estados Unidos, não sem reconhecerem—como ainda há pouco geógrafos russo-soviéticos em visita à Amazônia—a situação especialíssima em que se encontram países como o Brasil para desenvolver o que um dêles, o Professor Gruerassimov, teria chamado, em conversa com brasileiros de Belém, <<ciência tropical>>; e que alguns de nós, no Brasil, preferimos denominar Tropicologia, procurando desenvolver, dentro de uma Tropicologia geral, uma Hispanotropicologia que, sem se ouriçar em qualquer ciência <<eminentemente nacional>> (segundo alguns, recomendada pelo mesmo sábio russo aos brasileiros para seus estudos dos trópicos), seria uma ciência transnacional especializada na análise e na interpretação sociológicas da simbiose Hispano-trópico, em geral, ou Luso-trópico, em particular. Source: FREYRE, Gilberto. Uma Area de Civilizaçao em Desenvolvimento: a hispanotropical. Madrid: Centro Europeo de Documentacion e Informacion, 1961. 12p. |