UMA CONTRIBUIÇÃO AO LUSOTROPICALISMO


      Idéia esplêndida, a da escritora portuguesa Maria Archer, de fazer aparecer em nova edição, atualizada e aumentada, o seu Roteiro, que é um livro escrito com amor, mas também com inteligência, com sensibilidade e com discernimento, sobre as terras tropicais de civilização lusitana da África e do Oriente. Sobre as terras e principalmente sobre as gentes, certo como é que nessa admirável escritora portuguesa há alguma coisa que a torna parentes das Rebecca West: das inglesas que têm sabido escrever alguns dos melhores livros europeus sobre populações e paisagens exóticas.

      Ninguém ignora, aliás, virem sendo de mulheres algumas das páginas mais lúcidas não só de literatura como de ciência escritas nos últimos anos em língua inglesa sobre essas populações e essas paisagens. Dentre as de ciência - ciência antropológica - as de Ruth Benedict e as da Professora Margaret Mead.

      A portuguesa Maria Archer poderia ser hoje em língua portuguesa uma espécie do que a anglo-americana Margaret Mead é em língua inglesa, se ao talento literário juntasse formação cientifica em Antropologia e Sociologia. Pois não lhe faltam qualidades de observação, poder de análise, gosto pelo estudo do que sob o ponto de vista europeu é exótico, pitoresco ou bizarro em africanos e asiáticos de terras tropicais: exótico e ao mesmo tempo humano. "demasiadamente humano". Por mais que varie o comportamento humano nas sociedades chamadas primitivas, do das civilizações do ocidente, os modernos estudos de Antropologia Social indicam que predisposições e capacidades básicas, comuns a todos os seres humanos - seja qual for a sua raça, o seu sexo, ou o seu meio - se acham em todas essas populações.

      Em 1948, incluído pelo sábio professor Julien Huxley, entre os oito cientistas sociais convocados pela Unesco para o estudo em conjunto, em Paris, de delicado problema em Sociologia, Psicologia, e Antropologia Social, minha primeira objeção ao critério de composição do grupo de que eu era aliás o único "tropical", foi o de não incluir nem homem do Oriente (de formação científica, é claro) nem mulher, cientista social, fosse ela de onde fosse. Sou dos que não compreendem conclave moderno de cientistas sociais para o exame de problema de ciência chamada do Homem a que falte a presença de uma mulher. Sou dos que não compreendem estudo moderno de matéria social complexa a que falte a colaboração de urna mulher, em quem à formação científica se junte, além do ponto de vista feminino de análise e a interpretação da matéria, a capacidade feminina de colher informações sobre a parte feminina da mesma matéria: parte às vezes quase impossível de ser apreendida pelo homem puramente masculino.

      Afeita por especialidade literária à observação do comportamento humano com um gosto pela minúcia significativa que chega a dar por vezes caráter quase científico às suas impressões de gente e culturas quer européias, quer tropicais, a escritora Maria Archer talvez seja a mulher portuguesa que, neste particular - o estudo do trópico por portugueses -, melhor venha suprimindo a ausência em Portugal ou no Brasil de uma Ruth Benedict, ou de uma Margaret Mead. Desde que Mestre Antônio Sérgio chamou-me há anos a atenção para os inteligentes artigos da Sra. Maria Archer publicados em "Seara Nova" sobre aspectos luso-africanos de paisagem e de cultura - aspectos que, sob a sugestão de estudos brasileiros de Sociologia e Antropologia Social, ela se antecipou a comparar, à base de seu conhecimento da África Portuguesa, com a formação lusitana do Brasil - que venho acompanhando com interesse seus ensaios sobre o assunto.

      Em Roteiro seu conhecimento da África Portuguesa se amplia em corajosa tentativa de apresentar compreensiva síntese dos vários Portugais espalhados nos trópicos. É um admirável esforço a que não falta o sentido da unidade dos valores portugueses humanos e de cultura, assim dispersos mas animados todos - na Guiné tanto quanto em Angola, em Moçambique tanto quanto no Oriente - pela procura como que instintiva de harmonização do que neles é essencial em diferentes meios, sempre tropicais ou quase tropicais em sua ecologia. Procura de harmonização também característica do esforço lusitano na América tropical e quase tropical por onde hoje se estende o Brasil.

      Donde pouco faltar às páginas da talentosa escritora portuguesa para serem ensaio de lusotropicalismo de todo consciente da unidade na diversidade que parece dar à simbiose luso-trópico definido caráter de área - área susceptível de ser considerada e estudada sociologicamente sob o critério dos modernos "área studies". Para tais estudos o livro da Sra. Maria Archer representa decerto valiosa contribuição.



Source: FREYRE, Gilberto. Uma Contribuição ao lusotropicalismo. In: ARCHER, Maria. Herança lusíada. Lisboa: Sousa e Costa, s.d. p. 9-11.

«