DOCUMENTOS BRASILEIROS


      A série que hoje se inicia com o trabalho de Sérgio Buarque de Hollanda, Raízes do Brasil, vem trazer ao movimento intelectual que agita o nosso país, à ânsia, de introsecção social que é um dos traços mais vivos da nova inteligência brasileira, uma variedade de material, em grande parte ainda virgem. Desde o inventário à biografia; desde o documento em estado quase bruto à interpretação sociológica em forma de ensaio.

      O característico mais saliente dos trabalhos a ser publicados nesta coleção será a objetividade. Animando-a, o jovem editor José Olympio mais uma vez se revela bem de sua geração, e do seu tempo. Ao interesse pela divulgação do novo romance brasileiro ele junta agora o interesse pela divulgação do documento virgem e do estudo documentado, que fixe, interprete ou esclareça aspectos significativos da nossa formação, ou da nossa atualidade. Não podia ser mais oportuna nem mais feliz a sua iniciativa.

      Os organizadores desta coleção foram ainda felizes podendo fazer do trabalho de Sérgio Buarque de Hollanda o seu volume n.º 1. O escritor paulista é uma daquelas inteligências brasileiras em que melhor se exprimem não só por desejo como a capacidade de analisar, o gesto de interpretar a alegria intelectual de esclarecer. Quando apareceu, há dez ou doze anos, ao lado de Prudente de Moraes, neto (Pedro Dantas) - talvez a vocação mais pura de crítico que já surgiu entre nós - foi logo revelando as qualidades e o gosto, que agora se afirmam vitoriosamente.

      O editor José Olympio já tem em mãos um grupo de estudos e de inéditos interessantíssimos, que vão aparecer nesta série. Não se trata de uma aventura editorial, mas de uma coleção planejada e organizada com o maior escrúpulo e com todo o vagar, visando corresponder não só às necessidades do estudioso como à curiosidade intelectual de todo brasileiro culto pelas coisas e pelo passado do seu país.

      Dois livros de memórias aparecerão breve na coleção: o de Oliveira Lima e o de Julio Bello. As memórias de um diplomata e as de um senhor de engenho. Cada um deles documenta uma fase ou ilumina um aspecto, característico da formação nacional. Os livros de memórias, as autobiografias, os diários de viagem, as correspondências particulares, os simples "livros de assentos" tem feito e continuam a fazer urna falta enorme aos que procuram conhecer o passado brasileiro na sua maior intimidade. Já é tempo de se animar a publicação desse gênero de documentos.

      Também vão, aparecer na coleção biografias documentadas: uma delas, a do grande estadista da Regência que foi Bernardo Pereira de Vasconcellos - trabalho de Octavio Tarquínio de Sousa. E pela biografia de Dom Frei Vital, o bispo de Olinda que enfrentou com tanto ardor ortodoxo as doutrinas regalistas dos estadistas do Império, Luís Cedro Carneiro Leão promete não nos fazer esperar muito.

      A coleção Documentos Brasileiros se encarregará também de divulgar livros de viagens de estrangeiros, alguns quase desconhecidos entre nós. O de Walsh, por exemplo. E ainda: velhos cadernos e MSS de relatórios de viagens e expedições científicas. Relatórios do valor e do interesse do de Alexandre Rodrigues Ferreira, que nos deixou flagrantes tão exatos da vida brasileira no século, XVIII. A vida de grupos, indígenas no interior. De populações caboclas e mestiças no litoral. Dos pescadores de pirarucu na Amazônia. Para a boa organização de material tão valioso, que será publicado com as suas ilustrações mais características, o diretor da série já solicitou a colaboração inteligente da professora Heloisa Alberto Torres, do Museu Nacional e da Universidade do Distrito Federal; e vai solicitar a de Carlos Estevão de Oliveira, do Museu Goeldi.

      Outros documentos, MSS, e relatórios dignos de publicação amarelecem tristonhamente pelos arquivos, pelas bibliotecas e pelos cartórios deste vasto Brasil e até de Portugal, da Espanha e da Holanda, à espera do estudioso que lhes dê vida e os junte à história social do brasileiro. A nova coleção do editor José Olympio procurará publicar, com anotações de entendidos ou sob a direção de especialistas - os Taunay, os Theodoro Sampaio, os Pirajá da Silva, os Rodolpho Garcia, os Alberto Rangel, os Noronha Santos, os Alcides Bezerra - o maior número possível de documentos desse genero, ajuntando-lhes ilustrações da época e divulgando gravuras antigas que, por sua vez, documentem fases ou aspectos da nossa formação: a agricultura colonial, a indústria do açúcar nos primeiros séculos de colonização, o vestuário dos colonos, os estilos de transporte e de móveis do tempo do Império, a velha arquitetura patriarcal e de igreja. Também documentos e estudos sobre os vários traços de influência estrangeira - francesa, holandesa, inglesa, alemã - que se encontram em nossa formação social e técnica. Já J. A. Gonçalves do Mello, neto, e Manuel Diegues Júnior preparam ensaios minuciosos, o primeiro sobre os holandeses em Pernambuco, o segundo sobre os franceses. E vai adiantado um trabalho nosso, com a colaboração de J. A. Gonçalves de Mello, neto, sobre os ingleses no Brasil.

      Serão ainda incluídos na coleção estudos documentados sobre as nossas populações atuais. Quer do ponto de vista antropológico e etnográfico, quer do ponto de vista sociológico, econômico, pedagógico. Inquéritos, pesquisas, sondagens, investigações, mapas, perfis sociais que sirvam de documentação exata à técnica de trabalho, ao gênero de habitação, à dieta, aos estilos de vida, ao modo, de falar, ao desenvolvimento físico e mental do brasileiro de hoje - o das cidades, o das praias, o dos sertões, o caboclo do extremo Norte, o mestiço, o paulista, o adulto, o escolar, a criança. Para a apresentação de material dessa natureza contamos com a boa vontade e a colaboração dos nossos pesquisadores mais capazes, todos interessados na maior divulgação de dados colhidos em regiões diversas do Brasil, e sob critérios diferentes, mas que esclareçam ou fixem problemas de interesse geral para o nosso país e para o nosso tempo. Estudos como o de Oliveira Vianna sobre os tipos étnicos do Brasil, o do Professor Mario Marroquim sobre a língua do Nordeste, o de Olívio Montenegro sobre as tendências do romance brasileiro, o de Afonso Arinos de Mello Franco sobre o índio. Inquéritos como o do professor Paula Souza e seus colaboradores Ulhôa Cintra e Pedro Egydio sobre a alimentação em São Paulo. Investigações como as de Cunha Lopes e as de Ulysses Pernambuco sobre os mestiços do Rio de Janeiro e de Pernambuco, no ponto de vista do psiquiatra. Como as de Artur Ramos, Nóbrega da Cunha e Edison Carneiro sobre as sobrevivências africanas na religião do brasileiro da Bahia e do Rio. Como as de Luiz Robalinho Cavalcanti sobre o ainhum. Como as de Carlos Estevão de Oliveira sobre a cultura do tapuia. Como Basto d'Avila, as de Helène Antipoff, as de Silvio Rabello, as de Berardinelli, as de Leonídio Ribeiro, as de Estevão Pinto. As do Major Alvaro Ferraz, na Brigada Militar de Pernambuco. As de Rui Coutinho sobre a alimentação nos internatos do Rio de Janeiro. As de Luiz Camilo nos arquivos mineiros. As de Severino Sombra nos arquivos de Lisboa. Como as de vários outros pesquisadores conscienciosos.

      Além de traduções de livros de antigos viajantes estrangeiros, a que já nos referimos, impõem-se traduções de obras de estrangeiros como Nash, Koch-Grünberg, Guenther, Normano, Deffontaines, Martin, que vêem se ocupando do nosso país do ponto de vista sociológico, econômico, etnográfico, folclórico, ecológico. E não só utilizando-se das técnicas mais modernas nesses diferentes estudos, como documentando-os com material colhido nos arquivos ou através de difíceis pesquisas de campo. Ainda neste ano, ou no começo do ano próximo, deve aparecer o estudo sobre o Brasil do pesquisador alemão Ruediger Bilden - trabalho digno de todo o nosso interesse. Digno de tradução imediata. Como digno de tradução imediata será o trabalho do professor Donald Pierson, da Universidade de Chicago, que atualmente estuda problemas de relações de raça e de cultura na Bahia. Ou o de M. S. Cardozo sobre aspectos da administração colonial no Brasil..

      É com o fim de procurar revelar material tão rico e de um valor tão evidente para a compreensão e a interpretação do nosso passado, dos nossos antecedentes, da nossa vida em seus aspectos atuais mais significativos, que aparece esta coleção.



Source: FREYRE, Gilberto. Documentos brasileiros. In: HOLLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936. p. v-ix. (Coleção Documentos Brasileiros, 1).

«