VALOR SOCIAL DA ALIMENTAÇÃO


      Só alegria me dá o convite do Professor Ruy Coutinho para juntar uma palavra ou duas aos seus estudos de problemas de alimentação e de nutrição nas áreas tropicais, em geral, e particularmente no Brasil, considerados principalmente nos aspectos sociais. Desses estudos uns são novos, outros foram renovados para a publicação de agora. Mas a todos anima o mesmo espírito de honestidade científica, característica desse pesquisador ilustre desde os seus dias de médico recém-formado e de estudante.

      A influência de mestres como Álvaro Osório de Almeida marcou-o para sempre, moderando nele o gosto pelas afirmativas enfáticas ou pelas conclusões precipitadas e desenvolvendo-lhe o pendor para as análises demoradas, para os longos estudos comparativos, para as sondagens minuciosas. Mas sem que esse pendor tenha se extremado em especialismo bizantino.

      A verdade é que o Professor Ruy Coutinho procura conservar-se, com seu claro bom senso, tão distante dessa espécie de especialismo como daquele enciclopedismo superficial em que resvalam facilmente tantos brasileiros jovens, privados de ambiente, de orientação e de recursos universitários para seus estudos. A ausência de espírito universitário em nossa formação deve-se, com efeito, a freqüência dos dois excessos entre nós: o especialismo de médicos, juristas ou engenheiros, formados em escolas rigidamente profissionais, e o enciclopedismo daqueles outros que procuram reagir como auto-didatas, contra os exageros de cursos apenas profissionais ou imediatamente práticos. Entregam-se então a um fácil mas desorientado enciclopedismo. Esse fácil mas desorientado enciclopedismo é que estaria fazendo as vezes, no caso de vários médicos, engenheiros e juristas brasileiros de hoje, da necessária generalização de conhecimentos que se adquire nas autênticas universidades.

      Nunca, é claro, nas universidades apenas de nome ou de rótulo. E o Brasil continua, admitida uma exceção ou outra, a enganar-se a si mesmo, a enganar os seus moços e a enganar alguns estrangeiros mais ingênuos, com universidades apenas de rótulo, às quais não falta a pompa carnavalesca de reitores germanicamente intitulados de "magníficos". São uma espécie de "reis do Congo" coroados de borla. Uma espécie dos "reis do Congo" com que a astúcia dos estadistas portugueses satisfazia outrora, nos africanos do Brasil, o desejo de parecerem "nação" e de terem "rei" próprio com título e coroa.

      Pesquisas como as do Professor Ruy Coutinho, nas quais ao ponto de vista médico se associa o sociológico, qualquer homem inteligente, médico ou sociólogo, as inicia. Dificilmente, porém, elas se realizam ou se completam, noutro ambiente senão o autênticamente universitário, favorável à interpenetração de conhecimentos e de atividades especializadas. Se o Professor Ruy Coutinho vem continuando e ampliando seus estudos, seus inquéritos, suas indagações de problemas de alimentação no Brasil, considerados principalmente em seus aspectos sociais, é que cedo conseguiu estabelecer inteligente contato entre as duas zonas de conhecimento, procurando numa e noutra a orientação de entendidos ou as sugestões dos já iniciados.

      Amigo velho do Professor Ruy Coutinho, guardo muito viva a lembrança dos dias em que nos encontramos quase todas as manhãs, para juntos considerarmos problemas que vieram a ser objeto de algumas de suas pesquisas. Eram assuntos com os quais eu já vinha me familiarizando há anos, no preparo do ensino em que procurara ligar, do ponto de vista antropológico-social ou histórico-social, ao estudo sociológico da história da nossa sociedade patriarcal o do problema da alimentação da nossa gente. Contra as suposições dos otimistas - entre os quais, neste particular, Capistrano de Abreu - sugerira eu aí e num pequeno estudo intitulado "O escravo nos anúncios do jornal" que a alimentação do brasileiro fora sempre deficiente e inadequada à sua condição de habitante de país tropical. Isto quer na maioria das casas-grandes quer no maior número das senzalas. Quer nos sobrados, quer nos mucambos e cortiços habitados pela nossa plebe, pelos nossos pobres livres, pelo nosso arremedo de povo. E não hesitara eu em sugerir que a alimentação do escravo, nutrido e cuidado, nos grandes engenhos ou nas grandes fazendas, por senhores desejosos de retirarem o máximo rendimento do trabalho forçado dos seus negros, fora, em geral, superior, tanto à da plebe quase abandonada pelos governos e entregue à própria miséria, como à dos ricos em cuja dieta entrava grandemente o alimento importado, numa época de viagens longas da Europa para o Brasil e, por conseguinte, desfavoráveis à boa conservação desse alimento de luxo. Sugerira também a ligação da escassez, deficiência e até falta de alimento no Brasil das áreas mais caracteristicamente patriarcais - o Brasil do açúcar, do café, do cacau, do gado - com o domínio do sistema monocultor, latifundiário e escravocrata sobre a nossa formação social - idéia hoje generalizada entre os estudiosos no assunto. E baseado em evidências que surpreendera nos anúncios de jornal de negros fugidos - anúncios estudados e utilizados pela primeira vez, naqueles ensaios, como material "demonstrativo" de natureza sociológica ou antropológica - ousara ainda sugerir, contra a doutrina então dominante entre nossos médicos - e da absoluta inexistência do raquitismo num país tropical como o Brasil - a presença de raquíticos entre a população escrava do nosso país durante o século XIX.

      Essas sugestões encontraram no então jovem pesquisador Ruy Coutinho quem as estudasse com simpatia, mas com rigor e espírito crítico, do ponto de vista do médico alongado em antropologista social. Daí o prazer com que recebi suas confirmações: resultado de estudos pacientes e honestos.

      Nunca especialista nenhum no Brasil estudou a história ou as condições da alimentação do brasileiro - os recursos e os hábitos alimentares da população nas várias áreas ou regiões do país - com maior paciência, maior honestidade, maior objetividade, maior escrúpulo do que o Professor Ruy Coutinho. A bibliografia brasileira que eu reunira com esforço sobre o assunto - relatórios, teses, pareceres, crônicas médicas, inquéritos esquecidos nos restos de brochuras velhas - que ainda encontrara na biblioteca da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro ou conseguira, desentranhar da rica mas misteriosa Biblioteca Nacional - o Professor Ruy Coutinho acrescentou, com novas pesquisas de sua iniciativa, novas descobertas feitas principalmente no arquivo da Academia Nacional de Medicina.

      E ambos temos nos divertido mais de uma vez com a espantosa sem-cerimônia com que, noutros estudos sobre o assunto, aquelas nossas descobertas bibliográficas de material brasileiro, e também as de material estrangeiro, de valor ou interesse comparativo, aparecem ostentadas por autores que afoitamente exibem erudição ou saber, e até gênio, valendo-se do trabalho alheio. E nem ao menos esboçam uma palavra de pálido agradecimento aos que lhe abriram o caminho por matagal tão espesso. Mas como raramente cotejam os títulos indicados com as obras que dizem ter consultado, repetem os deslises tipográficos das bibliografias furtadas a autores que citam de raspão. O Professor Ruy Coutinho não grita contra esses furtos; não faz escândalos em torno deles. Mas costuma divertir-se identificando-os pelos sinais maçônicos dos erros de revisão ou de tipografia.

      Tem esse direito. Pois aos seus estudos, bem orientados e bem documentados, pode faltar todo ou qualquer brilho acadêmico; e faltam-lhes decerto qualidades literárias ou estéticas de expressão ou de composição. São, entretanto, estudos admiravelmente honestos e probos. Baseiam-se em pesquisas realizadas com o máximo de seriedade e de escrúpulo. Não simulam leituras. Não enganam o leitor com rótulos de livros conhecidos apenas através de outros autores. Tudo neles é autêntico ou genuino.

      O Professor Ruy Coutinho é dos que juntam ao espírito científico o espírito público. O estudo científico da história e das condições atuais da alimentação no Brasil levou-o a concluir, antes de outros pesquisadores e estudiosos brasileiros do assunto, que o problema é social, principalmente econômico; e como problema social, principalmente econômico, é que está a exigir soluções urgentes e corajosas dos homens de governo do Brasil.

      Uma dessas soluções é certamente o aproveitamento imediato de "terrenos baldios, próximos aos grandes centros, para a cultura de legumes e verduras". Desse aproveitamento cuida o projeto que acaba de ser apresentado à Câmara Federal por um dos mais esclarecidos deputados pelo Estado da Bahia e pela União Democrática Nacional, o Professor Nestor Duarte. Qualquer demora em dar-se realidade à idéia que anima projeto tão sensato só fará aumentar a luta em que são hoje obrigados a empenhar-se os brasileiros das grandes cidades por legumes, verduras e frutas frescas para suas refeições. Os tomates estão se tornando rubis, os limões estão se tornando esmeraldas, as verduras, quase todas, estão se tornando raras como pedras preciosas, num pais como o Brasil, em que só a desorganização da economia explica a escassez de tais produtos.

      Já não nos faltam estudos científicos, sólidos e bons, que nos orientem no assunto - entre esses estudos, os do Professor Ruy Coutinho, cujo mapa de áreas de alimentação do Brasil resulta da investigação tão minuciosa e de interpretações tão criteriosas. O momento, agora, é de cuidar-se decisiva e corajosamente do aspecto econômico, administrativo e político do problema, com a colaboração dos cientistas especializados no estudo das questões brasileiras de nutrição e de alimentação. O exemplo da Inglaterra e dos Estados Unidos - mais de uma vez recordado em suas páginas pelo Professor Ruy Coutinho - mostra claramente que não se trata nem de aventura nem de sonho. O homem de ciência está hoje apto a colaborar efetiva e concretamente com o político na solução de problemas que sendo de fisiologia são também de economia; que sendo de sociologia são também de alimentação.



FREYRE, Gilberto. Valor social da alimentação. In: COUTINHO, Ruy. Valor social da alimentação. 2. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1947. p. 35-39.

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