Biblioteca Virtual Gilberto Freyre - voltar à página inicial
busca       galeria       mapa do site       softwares       créditos       e-mail

Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



GILBERTO FREYRE E SEU PROJETO DE ESCRITOR

Gilberto de Mello Kujawski

" O que espero é, uma vez desaparecido, encontrar um Julián Marías que surpreenda nos meus pobre escritos um pouco do que Marías vem surpreendendo nos de Unamuno: a presença de alguém que através de um método talvez mais essencialmente poético que convencionalmente científico de interpretação da realidade humana, viu, sentiu e pensou coisas novas, ou insuspeitadas sobre a mesma realidade, tendo sido, portanto, um criador; e viu, sentiu e pensou, além disso, de nova forma, coisas antigas; e não somente viu, sentiu e pensou tais coisas, umas novas outras de modo novo, como fez que outros as vissem, sentissem e as pensassem de modo também novo.

(Gilberto Freyre - Como e por que sou e não sou sociólogo (1968)

I

Gilberto Freyre quis ser na vida e aos olhos da posteridade, apenas uma coisa: escritor. Era freqüente, ao longo de sua extensa produção bibliográfica, ele fazer alto para interrogar-se sobre sua complexa identidade intelectual. E a resposta era sempre a mesma. Dentre os muitos gostos barrocos cultivados por Gilberto, figuravam os títulos longos, quilométricos, de alguns livros e capítulos de livro. Na obra fundamental chamada Como e porque sou e não sou sociólogo, há um capítulo intitulado: "Como e porque ser escritor, sem deixar de ser um tanto sociólogo. "Abre este capítulo com as seguintes palavras: "O que principalmente sou? Creio que escritor. Escritor literário. O sociólogo, o antropólogo, o historiador, o cientista social, o possível pensador são em mim ancilares do escritor. Se bom ou mau escritor é outro assunto".

Se quisermos entender algo da personalidade intelectual de Gilberto Freyre, não podemos passar negligentemente sobre essa afirmação e outras equivalentes, quase obsessivas em seus escritos. Ser escritor foi a grande obstinação de Gilberto Freyre. Nossa intenção neste trabalho é tomar a sério o propósito de Gilberto, tantas vezes reiterado. Que significa, em seu caso, ser escritor? Que significa ser escritor, de modo geral? E, acaso, não é estranho que aquele menino que se recusava a aprender a ler e a escrever, a ponto de ficar suspeito de retardamento mental, manifestasse tal amor às letras depois de homem maduro? E a condição de escritor não compromete a autoridade do especialista em ciências sociais, o antropólogo, o sociólogo, o historiador? Não é preciso ser muito perspicaz para perceber que a declaração citada de Gilberto disfarça alguma birra contra o especialista e os especialismos. Em certa ocasião eu estava presente quando Gilberto cortou bruscamente as palavras de um interlocutor que o chamava de "mestre", obtemperando: " - não me chame de mestre!" Detestava ser tratado com esse nome. E jamais quis ser "professor", na acepção formal de docente universitário em caráter regular. Por que será? A epígrafe deste artigo talvez responda em parte: lá Gilberto revela que "viu, sentiu e pensou", esperando fazer que outros também "vissem, sentissem e pensassem". Ora, fazer ver, sentir e pensar é próprio do escritor, cuja autoridade reside só no estilo, e não no impertinente magister dixit. A elegância de Gilberto Freyre permitia-lhe sempre bastante franqueza, mas impedia-lhe qualquer impertinência, inclusive a impertinência docente.

Vamos tentar entender um pouco - e só um pouco - como a pretensão essencial de Gilberto Freyre, mediante a fidelidade de toda uma longa vida produtiva, transformou-o num dos maiores escritores da língua portuguesa.

II

A história da inteligência brasileira na República pode ser dividida em dois períodos: antes e depois de 1930. Antes de 30 não eram pouco os intelectuais que se ocupavam da personalidade e do destino histórico do Brasil, embora o fizessem solitariamente, em caráter isolado, porquanto o País era vivido mais na sua dimensão provinciana ou provincial, que em dimensão nacional. Não há dúvida de que um Capistrano de Abreu ou Sílvio Romero, José Veríssimo, Jackson de Figueiredo, Euclides da Cunha, Alberto Torres pensavam o Brasil à sua maneira, antes que o tema da realidade brasileira ocupasse a atenção geral da nossa "inteligentsia".

Com a Semana de 22 e sua coincidência com o primeiro centenário da Independência, agitou-se no ar a bandeira nacionalista, de modo ainda totalmente difuso, fraseológico e declamatório ("nacionalizar a nação; abrasileirar o Brasil", etc.). Sucedem-se o Manifesto do Pau-Brasil, de Oswaldo de Andrade, o Manifesto Verde-Amarelo, de Menotti del Picchia, Evolução do povo Brasileiro, de Oliveira Vianna, Retrato do Brasil, de Paulo Prado, Macunaíma, de Mário de Andrade. Flagrantes isolados do Brasil, tomados, de resto, com grande arbitrariedade e intenso subjetivismo, mesmo no caso de Macunaíma com seu estudo magistral (e parcial) do modo de ser brasileiro.

Depois da revolução de 30 é que a realidade brasileira emerge em bloco como preocupação sistemática da nossa inteligência, em conseqüência das grandes transformações iniciadas no País: a sucumbência do federalismo, a industrialização incipiente, com o alargamento da urbanização, a mudança dos padrões sociais, econômicos, culturais, a movimentação geral rumo a um futuro incerto, a necessidade de antever um projeto coletivo, tudo convidava o intelectual brasileiro a indagar da realidade nacional em conjunto; qual sua origem, sua constituição, seu vir a ser?

Aparecem três grandes livros clássicos a respeito dessa indagação: o primeiro foi Casa-Grande & Senzala (1933), seguido por Raízes do Brasil (1936) de Sérgio Buarque de Holanda, e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior.

Embora convergindo para o mesmo tema, três obras completamente distintas entre si pelo argumento, pela estrutura e pela intenção criador. Formação do Brasil Contemporâneo, entre as três, é a obra mais comprometida ideologicamente, verdadeiro tratado do Brasil colonial onde o autor quer descobrir a origem dos anacronismos que até hoje emperram nosso desenvolvimento social, imprimindo à matéria tratamento acadêmico que resulta num trabalho árido por força de sua pretensão ao rigor científico. Raízes do Brasil foge ao feitio acadêmico, é um ensaio e não um tratado, escrito com largueza de visão, cheio de intuições fecundas; obra que muito concorreu para desprovincianizar nossa mentalidade, com seu estilo solto e certo sal de sobor weberiano. Casa-Grande & Senzala desde logo se destaca desses dois livros pela perspectiva na qual o autor focaliza a realidade brasileira. Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda estudam a formação nacional na perspectiva da vida pública - colonização, economia, administração, educação, urbanização, etc., relegando a vida privada a segundo plano. Gilberto Freyre faz o contrário, concentra-se nos aspectos da vida privada brasileira, desde os tempos coloniais, e dentro da esfera privada se demora no que ela tem de mais íntimo. O que resultou em algo de absolutamente novo e inesperado: a reconstituição de nossa vida social e histórica de dentro para fora, adotado como ponto de vista o próprio âmbito da vida privada e da vida íntima, a casa-grande e a senzala, e isso com tamanha empatia que o leitor, à medida que vira as páginas do livro nele se instala, como que em casa, na sua casa, que é a casa de todos nós, brasileiros. Casa-Grande & Senzala não é um texto pelo qual se passa, como a generalidade dos livros, mas é uma leitura na qual se fica, na qual o leitor se instala para sempre, na qual ele se encontra na plenitude de sua dimensão étnica e temporal.

III

Quem lê Tempo morto e outros tempos, o diário de adolescência e primeira mocidade de Gilberto Freyre, seu livro pessoalmente mais revelador, sabe com que oposição o jovem brasileiro teve que lutar no exterior para que pudesse voltar ao seu amado Recife, depois de completados os estudos na Universidade de Columbia. Tratado por amigos e professores de genius, "a wonder", era instado de todos os modos para continuar em Nova Yorque e ali se transformar em autor de língua inglesa, como o polonês Conrad. Várias vezes Gilberto precisou dizer não, com toda energia, a essas propostas, expondo-se à reprovação de todos, até de seu particular amigo Oliveira Lima, sentindo-se ridículo por vezes, mas batendo pé: - não e não; se tivesse que ser escritor seria na sua terra e em português. As facilidades eram muitas e sedutoras no exterior, com tanta abundância de meios intelectuais e materiais, com tanto conforto e tanta segurança, cercado pela admiração estimulante dos amigos, e não atacado pela inveja a maledicência que o esperavam no Recife. Já de retorno à casa dos pais, vez por outra assalta-o a tentação de voltar para Columbia, para Oxford. Mas não: "Minha decisão está tomada: é reintegrar-me completamente no Brasil. Atolar-me na sua carne e no seu massapê. Pelo sentimento já me sinto restituído à infância brasileira. Restituído à minha Mãe, a meu Pai, a meus Irmãos, aos parentes e amigos que aqui deixei quando parti adolescente para os Estados Unidos. Isto é o principal: esta recuperação sentimental. A adaptação intelectual é secundária".

De volta ao seu querido Recife, desde os 23 anos de idade, revê São Severino dos Ramos, o engenho onde brincou em menino, com sua casa-grande e senzala. Aos 24 anos lê Proust, no qual encontra o mesmo sentido de histoire intime ... ce roman vrai dos Goncourt que "eu vinha desde 1922 procurando aplicar à minha tentativa de uma análise, evocação e revelação da vida de menino no Brasil". Estuda e lê muito, o que não o impede de passear freqüentemente de bicicleta, freqüentar comilanças e festanças populares, em companhia de amigos, combinando boemia de rapaz solteiro e intensa concentração intelectual.

Em 1924 Gilberto registra, no diário, que alimenta o desejo de escrever um livro sobre a própria meninice "e sobre o que em sido nos vários brasis, através de quase quatro séculos, a meninice dos vários tipos regionais de brasileiros que formam o Brasil." No mesmo ano (1924) manifesta que gostaria de se empenhar por completo no estudo total de uma rua típica do Recife. "Um estudo da vida íntima da rua. Um estudo antropológico, psicológico, sociológico do seu conjunto: casa por casa, sala por sala, quarto por quarto, habitante por habitante. Atitudes e relações com outras ruas. Observação, mensuração, interpretação através de uma participação intensa de observador na vida observada. Empatia".

Vê-se que Gilberto, apenas com 24 anos, já descobre o que seriam as suas constantes. Quer ser escritor, mas no Brasil, no Recife, e em português (não no estrangeiro e em outra língua). Quer reviver sua meninice, e através desta, a meninice de todos os meninos brasileiros, o que explica sua freqüente evocação de meninos na casa-grande, com seu companheiro inseparável e saco de pancadas, o moleque. Quer mergulhar fundo, demoradamente, nos aspectos mais íntimos da vida social. E mediante estudo de campo ("observação, mensuração"), não só de gabinete. Pela primeira vez fala em empatia, que haverá de reivindicar sempre como o seu critério preferido.

Por esse tempo é grande sua preocupação com o estilo. E temos aqui a revelação maiúscula da preponderância absoluta do Escritor em Gilberto Freyre, relativamente a outras facetas da sua personalidade. Em 1925 confia ao seu diário o seguinte trecho iluminador: "Que escritor pode haver sem forma? Sem plástica? Sem ritmo? Eu vou chegando a uma forma nova em língua portuguesa, que é diferente das antigas, sem deixar de Ter o ritmo tradicional das prosas portuguesas; que exprime uma personalidade ao mesmo tempo moderna e castiça até na pontuação; e que a exprime de modo contagioso. Daí as imitações. Hei de criar um estilo. E dentro desse estilo, desde que me repugna inventar, como nas novelas e nos dramas, que escreverei? Talvez a continuação dos meus primeiros esforços de ressurreição de um passado brasileiro mais íntimo "I´histoire intime... roman vrai", como dizem os Goncourt) até esse passado tornar-se carne. Vida. Superação de tempo".

Hei de criar um estilo. Poderia escrever "hei de criar uma ciência", "hei de descobrir um método", mas nada disso. A precedência do escritor sobre o especialista é imperiosa, indiscutível. Aos 25 anos de idade o que Gilberto quer, aquilo no se aplica com fervor, é na criação de um estilo. Ser escritor, antes de tudo. O restante viria por acréscimo. Só que um estilo não se inventa assim no ar, a priori, sem nenhuma pertinência com seu objeto, conforme demonstra a seqüência da citação em pauta: "talvez a continuação dos meus primeiros esforços de ressurreição de um passado brasileiro mais íntimo".

Cada variedade de estilo cria certa distância peculiar em relação às coisas. O estilo clássico - pensemos em Homero - toma as coisas no distanciamento absoluto, totalmente irredutível ao aqui e agora: o mito. O estilo barroco insiste em aproximar o distante, inserindo-o em nosso contorno habitual. O barroco usa lunetas, quer para aproximar os astros, como Galileu, quer no sentido figurado, como Cervantes, que no D. Quixote mistura o maravilhoso medieval com as experiências mais prosaicas. O estilo romântico, ao contrário do barroco, remete o próximo para a distância infinita, além do horizonte, onde as formas se esbatem e todos os gatos são pardos. O estilo realista, que pretende ser o da observação, aproxima as coisas, em sua vertente material, ao alcance do observador. E o estilo intimista - que será o de Gilberto - dando mais um passo, introduz as coisas em meio ao cotidiano familiar do observador, no primeiro plano da observação, não só ao alcance dos olhos, como da mão, do gosto e do olfato. À diferença do realismo, o estilo intimista e sensorial de Gilberto não se prende à realidade como tal, e sim às diversas realidades no plural e no singular, à moda confessadamente nominalista, que sabia ser a sua. Nesse estilo snsorial a nota sensual aparece com freqüência, mas não o suficiente para se falar em puro hedonismo. Em Gilberto não se trata de gozar as coisas, e sim de compreendê-las desde elas mesmas; gozá-las sensorialmente para compreendê-las na efusão da empatia.

A obra inteira de Gilberto Freyre vem animada e enformada por intenção essencial de conhecimento, de saber, de ciência, o que não se pode perder de vista. A arte do escritor está a serviço da vontade de conhecimento, de análise, de compreensão, só que em linguagem distinta da linguagem usualmente científica. A dificuldade aparente estaria em tentar fazer ciência do individual (as singularidades acima referidas). Não está resolvido, desde Platão, que só há ciência do universal? Que o indivíduo é "inefável"? é o que veremos em seguida.

IV

Até hoje quem melhor interpretou Gilberto Freyre foi o próprio Gilberto Freyre, especialmente nesse fabuloso feito de auto-hermenêutica que é o livro Como e por que sou e não sou sociólogo. O Relembrando sua condição "híbrida" de sociólogo-antropólogo, ou sociólogo-historiador, Gilberto esclarece mais uma vez o que é a "sociologia genética", por ele caracterizada em prefácio a Casa-Grande & Senzala. Agripino Griecco, num lampejo sincero de ignorância, supôs erradamente que por "sociologia genética" devesse entender-se "sociologia do sexo", equívoco que seria cômico, não fosse o grande prestígio daquele crítico na época. Sociologia genética é a que procura interpretar as épocas em seu movimento constante de mudança social ou sociocultural, explica Gilberto, em que o passado está sempre tornando-se futuro, através de um rápido presente. "Significa a sociologia que se especialize no estudo das origens e do desenvolvimento no tempo social de instituições sobretudo de estilos de vida e de formas de convivência que se tenham tornado características do comportamento de um grupo humano" (ob. Cit., p. 73/74). O critério genético enxerga a realidade social como processo, e não como coisa fixa e independente do tempo; focaliza as nascentes da vida social e sua fluência no tempo. Michelet foi um precursor do critério genético, que guarda afinidade com o método de criação literária de Proust e Joyce. Através do existencial - agrega Gilberto - atinge-se o essencial no Homem, capturando-se o tempo perdido pelo indivíduo ou por todo um grupo típico. Claro que a sociologia do tempo exige do sociólogo que seja, ao mesmo tempo, historiador, de resto não se podendo separar sociologia e história senão artificialmente - segundo insiste Julián Marías, citado por Gilberto - pois a sociedade sem história seria estagnada e a história sem sociedade não teria sujeito ou substrato.

Ao critério genético - prossegue Gilberto - "tenho sempre acrescentado" o critério ecológico. "É outro aspecto de uma filosofia que não admite ser possível uma interpretação ex-abrupto do Homem, que despreze no Homem vivo, concreto, real, sua condição de homem situado. Situado no tempo e situado no espaço. Situado sinteticamente no espaço-tempo e situado em cada uma das duas condições em particular: na de espaço e na de tempo" (ob. cit., p. 76). O critério ao mesmo tempo sociológico e ecológico liberta o estudioso da fixação etnocêntrica que turvou a sociologia spenceriana, por exemplo. A ecologia - e saibam os ecologistas contemporâneos que Gilberto já falava em ecologia, no Brasil, desde a década de 30 - conduz a perspectivas vizinhas do geógrafo, sem se confundirem com as do geógrafo. Sobre a noção ecológica de área nosso autor apoiará, principalmente, seu esboço de sistemática tropicológica, hispano e lusotropicológica.

Ato seguinte à exposição dos critérios básicos utilizados em sua obra, Gilberto recorda que sua sistemática tanto tem de antropológica, sociológica e ecológica em seus fundamentos, embora para alguns críticos não passe de "poesia" (p. 78). A favor de Gilberto, observe-se que os autores de semelhantes críticas, em regra, em infalível, ignoram tanto o que é sociologia, como o que seja poesia. Vejamos em que termos se defende Gilberto:

"Aqui cabe nos recordarmos dos reparos críticos do Professor Robert A. Nesbet aos excessos de racionalismo, de objetivismo e de cientificismo em sociologia: reparos que aparecem no seu 'Sociology as an art form'. Principalmente este: o de haver afinidades psicológicas entre o sociólogo e o artista romântico. Tanto que nem a visão weberiana de 'racionalização da história', nem a de Simmel, de 'metropolio', nem a de Durkheim, de 'anomi', podem ser imaginadas como tendo-se derivado de análises lógico-empíricas. Cada um desses sociólogos criadores chegou a essas concepções sociológicas à maneira dos artistas e dando-lhes forma artística ou literária: instrutiva, imaginativa, romântica. A respeito do que, outro moderníssimo sociólogo, o Professor Maurice R. Stein, vai além: no seu 'The Poetic Metphors of Sociology' escreve: 'The great classical sociologists from Marx to Veblen, Simmel, Durkheim and Mannheim were inveterate sociological poets'" (ob. cit.).

O autor de Casa-Grande & Senzala cita ainda outros nomes ilustres em abono de sua tese: Bronislaw Malinowski, James Frazer, F. Boas, e Ruth Benedict, autora de livro rigidamente científico intitulado The Chrisantemum and the Sword.

V

A aplicação conjunta do critério genético e do critério ecológico permite a Gilberto Freyre captar a realidade social "in fieri", em processo, ao mesmo tempo que situada no espaço e no tempo.

Em Termos orteguianos, captar a realidade "in fiere" significa usar da razão histórica para ver como se faz o fato; e apreender as coisas situadas no espaço e no tempo é o mesmo que conhecê-las em sua circunstância.

A Gilberto não lhe bastam os "fatos", a maneira positivista; quer ver a derivação dos fatos, como eles saem uns dos outros em sua ordem de sucessão, única maneira de entendê-los, vendo-se como se justificam consecutivamente no enredo que constituem. Nas palavras de Gilberto: "Entretanto, o que se destaca em Casa-Grande & Senzala não é a importância dos fatos como fatos; e sim a da relação entre eles. A da sua projeção em símbolos. Pois é certo, também, do mesmo livro, que o seu autor não se limita a apresentar fatos de caráter sociológico, isto é, antes recorrências cotidianas do que ocorrências excepcionais. Vai além e procura captar, fixar e destacar nesses fatos o que neles forma, ou são, valores e, além de valores, símbolos, ligados, uns, principalmente ao presente, outros, principalmente a um passado que, de simples realidade histórica, passasse, pela persistência desses símbolos em sucessivas ou, mesmo, descontínuas fases de experiência humana - no caso, a experiência brasileira - a realidade, além de históricas, supra-históricas. Tal o próprio complexo que dá título ao livro em apreço - Casa-Grande & Senzala - considerado em algumas de suas manifestações de processos psicossociais: sobretudo o de acomodações ou de interpenetração de elementos étnico-culturais aparentemente inconciliáveis.

". . . Fez de Casa-Grande & Senzala o símbolo de todo um status ou de toda uma posição - a de dominação - na ecologia social e mesmo na física daquele Brasil patriarcal; e de Senzala o símbolo de outro status e de outra posição na mesma ecologia: a de subordinação, a de submissão. E do & entre as duas realidades, o símbolo de uma interpenetração que concorreu fortemente, dinamicamente, interativamente, para dar à sociedade e à cultura desenvolvidas no Brasil suas formas mais características de desenvolvimento e não apenas de estabilidade. De dinâmica democratizante como corretivo à estabelecida hierarquia" (ob. cit., 119/120).

Se quiserem uma anatomia, uma configuração ideal prévia para a análise social gilbertiana, ei-la aqui: é o binômio Casa-Grande & Senzala, tomado como um tipo ideal weberiano, chave da interpretação de todos os episódios da vida patriarcal. Porém, o nervo dinamizador dessa estrutura anatômica está no método compreensivo, na compreensão em sentido diltheyano (Verstehen): apreensão de uma "interioridade" através dos sinais percebidos do exterior pelos sentidos. O estilo sensorial é posto a serviço da compreensão, sensorialidade que é a face externa da empatia. A qual se desdobra naqueles dois critérios, intimamente associados, o critério genético e o critério ecológico.

Eis aí como as realidades singulares são interpretadas desde logo à luz de um princípio analítico: os binômios Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos, Ordem e Progresso. O mais importante, porém, é o que se segue. - A realidade vista em processo ou "in fieri", em permanente movimento, onde qualquer cena isolada tem de ser filiada a cenas passadas e futuras para ser entendida, a realidade assim interpretada se configura como drama. A perspectiva genética da vida social é o mesmo que sua concepção dramática. Daí que o estilo sensorial-empático-compreensivo de Gilberto se concretize como um estilo narrativo. Para compreender as coisas em sua fluência temporal, para "ver como se faz o fato", Gilberto tem que renunciar ao esquema explicativo, a favor do esquema narrativo. E por outro lado, para visualizar as coisas em situação, ou seja, para usar o critério ecológico, Gilberto tem que apelar sistematicamente para a descrição. Para narrar e descrever a realidade social, Gilberto tem que ser, antes de tudo, escritor. Tem que ser escritor para fazer ciência, para preencher de intuição viva e flagrante, de carnalidade, aqueles binômios analíticos que ficariam como estruturas vazias e descarnadas se não fossem preenchidas por suculenta matéria narrativa e descritiva. O ser escritor foi exigência estrita do rigor científico de Gilberto Freyre, rigor que consistia não só em fixar a estrutura analítica da realidade, como em mostrá-la em se produzindo; poeticamente, portanto. O que se ganha com isso é ver a sociedade brasileira em statu nascendi, desdobrada de dentro para fora, a partir da célula patriarcal, esquadrinhada, como diz o próprio Gilberto, no seu passado íntimo, no cotidiano doméstico, envolvendo a higiene caseira, a culinária, os jogos de meninos, homens e mulheres, seus passatempos, brinquedos, seus grandes e pequenos vícios, estilos de trajo e de penteado, formas de retórica, ritmos de dança, crenças e crendices, usos sexuais, festividades comunitárias, ritmos de trabalho; tudo aquilo que o brasileiro encontrava em seu contorno familiar, e tudo aquilo em que se encontrava e em que ainda se encontra retrospectivamente. Sociologia histórica, ou histórica social, como se queira. Em todo caso, a constatação de que durante os quatro séculos de sua formação, a tônica da vida brasileira não recaia sobre a dimensão pública e suas instituições oficiais, mas sobre o aspecto privado, com seu culto do cotidiano, a intimidade gasosa da Casa, entremeada de mil e um segredos. A vida pública ainda não se consolidou suficientemente para o brasileiro, com sua estrutura e suas leis próprias. A vida pública não existe a sério para nós, não passando de um cenário de papel pintado, povoado não por homens, mas por bonecos interpretando um argumento de mentirinha. O que existe mesmo, a realidade, é a vida privada, de cuja placenta ainda não nos livramos de todo. Na obra posterior Sobrados e Mucambos, entre outras, lemos esta frase reveladora: "O patriarcalismo brasileiro, vindo dos engenhos para os sobrados, não se entregou logo à rua; por muito tempo foram quase inimigos, o sobrado e a rua" (Cap. III, 3a ed., 1961). A antítese entre o sobrado, isto é, a casa, e a rua, posteriormente explorada com brilho por Roberto Damatta, está perfeitamente caracterizada e tematizada em Sobrados e Mucambos.

Há duas tarefas urgentes, de ordem bibliográfica, reclamadas pelo legado escrito de Gilberto Freyre. A primeira, uma revisão rigorosa de todos seus textos já publicados. No texto citado acima há uma palavra, "instrutiva", que pode estar, por engano, em lugar de "intuitiva". A Segunda tarefa será a elaboração de um completo índice onomástico de temas e nomes de autores citados em G.F.

VI

O método explicativo, próprio das ciências naturais, consiste em decompor a realidade em seus componentes e elementos, deixando-nos sem a realidade mesma. Em lugar da natureza, apresenta-nos uma táboa de equações matemáticas. Por isso o método explicativo não serve para as ciências do espírito, como a história, na qual uma coisa, uma pessoa, só podem ser entendidas, pelo que lhes aconteceu antes, geneticamente, hermeneuticamente, narrativamente. A única maneira de entender algo histórico é contar sua história, por exemplo, em se tratando de uma pessoa, sua biografia; de um modelo, por exemplo, Casa-Grande & Senzala, a única forma de fazê-lo transparente à inteligência é narrá-lo. Narrar para compreender, eis a via apropriada para a sociologia e a história, que envolvem, por força, a ciência do individual. O individual, considerado ao longo do tempo, geneticamente, adquire a identidade que lhe faltava ao ser visto estaticamente, e por isso deixa de ser "inefável". Ao contar o que lhe aconteceu, nós estamos falando do individual, recuperando sua identidade, e legitimando-o enquanto objeto de saber, de ciência.

Se a intenção originária de Gilberto Freyre se limitasse a explicar a realidade social brasileira, reduzindo-a, por exemplo, a causas econômicas ou políticas; se fosse interpretá-la quantitativamente, por meio de gráficos e estatísticas; se lhe bastasse deter-se no fato bruto, sem querer dissolvê-lo no curso do tempo, para ver como se faz o fato, nem lhe interessasse situá-lo ecologicamente, então sua condição de escritor seria secundária. No entanto, ao querer desenvolver uma sociologia genética, dublada de história e ecológica, isto é, mergulhada na circunstância concreta; ao visualizar a realidade social em processo e sempre situada, sua única opção era narrar e descrever empaticamente e formação do patriarcado brasileiro, a fim de constituir sua hermenêutica rigorosa. Narrar e descrever empaticamente são atributos do escritor. Conclusão: o projeto de escritor de Gilberto Freyre foi a máxima integração de sua personalidade de analista e pensador social. Não representou nada de decorativo ou adjetivo, mas a exigência insubornável postulada por sua perspectiva de homem de ciência, pelo tipo de saber que deveria constituir.

Só o escritor consegue recriar as coisas, apresentando-as em sua atualidade; no frescor de sua executividade. A realidade "in fieri", em se fazendo, no desdobramento de suas tensões, revela-se como o que ela é, um drama; drama com argumento, cenário, personagens e ação, elementos que só um verdadeiro escritor pode conjugar e dirigir. O escritor não escreve sobre a vida, porque seria escrever sobre algo que já se passou e esfriou; o escritor escreve a vida, a vida em se tramando, na luz, no calor e na palpitação da fragrância (como o pintor também não pinta sobre isso ou aquilo, pinta coisas). Ser escritor é estar aberto à realidade tal como ela acontece e se apresenta, sem querer "reduzi-la" nem substituí-la por outra coisa. Não se trata de apresentar o mundo "como ele é", e sim de presentificá-lo acontecendo em letra de forma. Esta é a virtude do escritor.

O escritor sobrepõe sua personalidade à sua especialidade, ou melhor, refunde a especialidade na sua personalidade, não renunciando jamais à perspectiva pessoal no trato mesmo das questões mais particularizadas e curriculares. O escritor aplica o estilo como um instrumento de descoberta e iluminação do mundo. O estilo em suas mãos não é só maneira de escrever, como de viver e interpretar o mundo. È o estilo que distingue o verdadeiro escritor daqueles que simplesmente escrevem, sem se constituírem formalmente em escritores. O estilo é a fidelidade a um ponto de vista pessoal, de onde se reinterpreta integralmente o mundo è a formulação prática, ativa, de nossa verdade, de nosso destino existencial, daquele que nós temos que ser, sob pena de nos trairmos a nós mesmos. Por isso aquele que escreve sem ser escritor, pode ser ele mesmo sem escrever. Mas o verdadeiro escritor só é ele mesmo ao escrever, ao criar. E ao criar, ele termina o próprio trabalho da criação, dando-lhe o toque final.

Sua forte dominância narrativa impelia uma e outra vez Gilberto para o campo da ficção, transformando-o em novelista. Outras vezes freqüentava o domínio da poesia, produzindo alguns poemas de rara felicidade criadora. Novelista e poeta bissexto, o forte mesmo de Gilberto sempre foi o ensaio. A partir de Casa-Grande & Senzala a ensaística de Gilberto Freyre desenvolver-se-ia como das mais ricas, suculentas e originais da língua portuguesa. Sua visão totalmente inacadêmica do mundo, seu método de pesquisa, freqüentemente ultrapassando os documentos oficiais, à procura de fontes vivas no seio da vida e da fala popular, seu informalismo, sua originalidade visceral e sua independência senhorial, tudo o impelia no rumo do ensaio, a mais livre e criadora forma de expressão não ficcional em prosa. Todas as vezes que o pensador ou o cientista querem circular livremente, fora da bitola acadêmica, aderem ao ensaio. O ensaísta tem que estar livre de todo e qualquer jogo - não só do jugo acadêmico - venha de onde vier, da política dominante, do poder econômico, das ideologias em moda, das preferências convencionais, etc., sob pena de falsificar-se. Todo ensaísta puro-sangue é muito, ou um pouco, dissidente em relação às forças dominantes e à inteligentsia oficial. Gilberto o foi muito, foi intelectual essencialmente dissidente, incapaz de se curvar às injunções do meio, fossem estas intelectuais, econômicas, culturais, sociais, políticas e até de conveniência (caso de sua aproximação eventual com Salazer e com Getúlio).

Caracterizam o ensaio dois traços fundamentais. O primeiro é o individualismo irredutível do autor, seu confronto ostensivo ou implícito com os cânones do pensamento e do poder oficiais, apurando sua análise em tentativa de livre exame de todas as questões. Não por acaso Montaigne, o patrono dos ensaístas modernos, foi contemporâneo da Reforma protestante. O ensaio dilui aquela antinomia platônica entre opinião e ciência (doxa e episteme), razão pela qual afirmava Ortega ser o ensaio "a ciência sem aprova explícita". O segundo traço característico do ensaio é a intensa vontade de comunicação do autor com o leitor, não o leitor especializado das teses, dos tratados e das investigações acadêmicas, mas o leitor comum dotado de mínima inquietação e abertura intelectual. Poderia dizer Ortega ser o ensaísta o intelectual na praça pública. Não na cátedra universitária, deitando ciência em linguagem especializada para um auditório reduzido, mas em meio à praça pública, falando basicamente a linguagem do povo, abertamente, e para um público ilimitado.

Gilberto Freyre está filiado à estirpe dos ensaístas ibéricos como Fernão Lopes, Fernão Mendes Pinto, Quevedo, Gracián, Ganivet, Azorin, Unamuno, Ortega, Euclides da Cunha. O ensaísta de tradição hispânica, por mais pessoalmente aristocrático que for no pensamento, no estilo e nas maneiras, escreve em saborosa descontração, sem nenhum pedantismo, ao alcance do homem do povo, o que lhe confere aquela proximidade dialogante que lhe é própria. Melhor que ninguém o caracterizou Gilberto com perspicácia e estilo: "Daí ser quase sempre o escritor de tradição ibérica um escritor mais do campo de que de gabinete: a negação mesma do típico literateur abstrato. Intelectual dado, por vezes, se não à vida de café, a contatos com o tumulto e até com a boemia da vida de café e de rua, o fato é que do café ibérico se pode dizer que é uma instituição ainda mais democrática que o seu equivalente francês sabendo-se de cafés ibéricos que têm sido ou são, ainda hoje, freqüentados pela gente mais diversa - toureiros, políticos, atores, artistas plásticos, compositores, além de escritores - e não apenas, um, por intelectuais deste feitio, outro, por intelectuais daquele outro feitio, cada café com o seu quê de aristocratismo e seu toque de clube exclusivo" (ob. cit., p. 171).

O café ibérico é o retrato das sociedades ibéricas, onde existem poucos compartimentos estanques, onde tudo convive em estreita comunicação, o aristocrático com o popular, os letrados com os iletrados, os religiosos com os livres-pensadores. Esta associação entre opostos, articulada com tanta fecundidade por Cervantes, na convivência aventurosa entre D. Quixote e Sancho, esta associação tipicamente hispânica está na base da concepção de Casa-Grande & Senzala, livro que um scholar de feitio tradicional jamais poderia inventar e muito menos escrever.

Escrever, para Gilberto, não foi só sua maneira de ser sábio, mas seu modo de ser feliz, e, sobretudo, sua forma de ser.



Fonte: KUJAWSKI, Gilberto de Mello. Gilberto Freyre e seu projeto de escritor. Ciência & Trópico. Recife, v. 15, n. 2, p. 175-186, jul./dez. 1987.

Topo
Voltar Página inicial