Biblioteca Virtual Gilberto Freyre - voltar à página inicial
busca       galeria       mapa do site       softwares       créditos       e-mail

Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



LIVRO QUE ALARGA OS LIMITES DE UMA NAÇÃO*


Lúcia Miguel-Pereira

Nada dá mais nitidamente a medida da fraqueza das nações de nosso meio às atividades de espírito do que a frieza no acolhimento ao livro definitivo de Gilberto Freyre. Sem dúvida, ele teve repercussões, mas não tão fundas quanto seria de esperar. Por isso me animo a falar dele, embora com grande atraso.

Sempre lamentei - com muita ingenuidade, vejo-o agora - não ter assistido ao aparecimento dos Sertões. Imaginava o fremito de entusiasmo que deveria ter então abalado o país.

Presenciado ao de Casa-Grande & Senzala que, se não tem o vigor e estilo, o nervo do de Euclydes se não tem o interesse de narrar um drama como o de Canudos é uma obra, sob outros aspectos, igualmente notável, compreendi que, nascendo tarde, poupei-me uma decepção.

Casa-Grande & Senzala é desses livros que deveriam andar em todas as mãos porque alargam, não no espaço, naturalmente mas no tempo, os limites de uma nação.

Entre nós, a falta de curiosidade histórica é tão grande que o Brasil, para cada um, parece ter, nascido consigo. Essa ignorância, geradora de tantas afirmações apressadas, de tantas iniciativas contrárias à nossa índole, corre, em grande parte, por conta dos nossos historiadores. Com raríssimas e honrosas excepções - lembro-me, entre outros, de João Ribeiro - eles se esquecem de que história é também arte. Arte como a entende Valery, presa, acorrentada a regra meticulosa da verdade, a estrita disciplina da realidade, mas por isso mesmo mais pura, mais forte.

Gilberto Freyre, sendo um escritor de raça - sacrifica uma ou outra vez ao ídolo moderno do relaxamento verbal, mas logo volta à boa linguagem - sendo um artista, faz-nos viver a formação da nacionalidade; faz-nos sentir que temos raízes, e fundas, enriquece-nos de todo o nosso passado. Alias à precisão das investigações históricas e sociais uma liberdade de apreciações, um sentido do pitoresco, um certo tom colorido de cronista que tornam saborosa a leitura do seu alentado volume. E, sobretudo, sem ser meridionalmente otimista, seu livro é, para nós outros, um livro generoso, um livro que dá confiança.

Já ouvi ou li, a seu respeito, a restrição de não haver concluído, de não ter tirado ilações de toda a sua cerrada documentação. Ora, a sua conclusão está implícita no plano do trabalho.

"Aprendi a considerar fundamental a diferença entre raça e cultura": diz ele no prefácio "a discriminar entre os efeitos de relações puramente genéticas e os de influências sociais, de herança cultural e de meio. Neste critério de diferenciação fundamental entre raça e cultura assenta todo o plano deste ensaio".

Aí está, seguramente, a conclusão mais auspiciosa a que poderíamos chegar. A despeito das lições da autoridade incontestável de Roquette Pinto, vivemos sob o pesadelo da inferioridade racial.

O brasileiro culto é um novo-rico que se envergonha de suas origens e procura ocultar os parentes pobres. Gilberto Freyre nos vem convencer de que as nossas deficiências provêm menos das raças formadoras da nossa gente do que dos fatos culturais, do clima dos vícios de alimentação e higiene, das condições econômicas. Causas todas possíveis de serem removidas ou atenuadas.

E como as reabilita, as nossas caluniadas "três raças tristes"!

Mostra-nos a miscibilidade, a mobilidade e a aclimatabilidade do português fazendo-o triunfar onde falharam outros europeus, fundando no Brasil, a primeira sociedade tropical de caráter estável.

Marca a colaboração do índio na nossa formação, sobretudo da mulher índia, dessa cunhã que foi, no início, a base física da família brasileira, e nos legou o hábito salutar do banho diário.

E defende o negro, bom, doce e alegre, animando com a sua risada ingênua a vida doméstica das casas senhoriais, alimentando-as com os seus quitutes, sustentando-as com o suor do seu rosto - e corrompido por elas, pela escravidão em que mantinham.

Raças cheias de fraqueza, mas não raças inferiores, incapazes de adaptação a um mais alto nível de cultura.

Essas conclusões Gilberto Freyre as faz ressaltar de uma documentação honesta, sem "parti-pris" sem pressa de generalizar.

A deformação, a praga do jornalismo, da improvisação, quase inevitável num meio como o nosso onde o jornal é a única escola dos publicistas, não se encontra nele.

A solidez da sua mentalidade metodizada pelo estudo numa universidade yankee coloca-o entre nós em situação de destaque, e vem tornar mais uma vez patente a necessidade inadiável de academias que nos livre dos perigos da cultura empiricamente feita.

O que nos falta não é matéria prima - a inteligência: é o preparo, o bom aproveitamento desta. O brasileiro que não quiser correr o risco do auto-didatismo, tem de sair de sua terra para se instruir. O que confirma as conclusões de Siegfried sobre o nosso precário estado de semi-colônia.

__________________

* Artigo publicado na seção intitulada LIVROS, mantida pela autora na Gazeta de Notícias (Rio de Janeiro) em 7 de outubro de 1934.



Fonte: PEREIRA, Lúcia Miguel. Livro que alarga os limites de uma nação. In: FONSECA, Edson Nery da (Ed.). Casa-Grande & Senzala e a crítica brasileira de 1933 a 1944. Recife: Comp. Ed. de Pernambuco, 1985. p. 133-135.

Topo
Voltar Página inicial