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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



LIVRO DEFINITIVO NA VIDA INTELECTUAL DO BRASIL*


Wilson Martins

Não serei o primeiro, por certo, a notar o interesse que os estudos sociológicos têm despertado nestes últimos anos no Brasil. A um País de poetas e de fátuos bacharéis mal digeridos nas generalizações apressadas de Augusto Comte, sucedeu um País de jovens (quase todos) e honestos estudiosos, que procuram com sinceridade a solução de nossos problemas e a lição de nossa história.

E se fosse preciso marcar um data, que delimitasse a passagem de um desses períodos para o outro, em toda a história intelectual do Brasil, eu não hesitaria: 1930. Até aí, aqueles que gastaram sua vida na categoria que eu chamarei de pensadores, foram a exceção; a maioria, o grande número, a regra, foram os outros - os poetas de todos os graus, os ficcionistas, todos os afonsocelsistas que tanto nos prejudicaram. Depois de 1930 - e faço questão de acentuar que nesta data não tenho em mira nenhuma preocupação política - houve uma mudança de sentido, a procura de alguma coisa mais séria, mais verdadeira, mais honesta. Porque a Semana de Arte Moderna, em 1922, de conseqüências tão salutares para a nossa vida intelectual, não passou, verdadeiramente, do terreno da literatura e da arte. Foi preciso que o seu espírito amadurecesse lentamente, que a mesma ânsia, a mesma insatisfação se fizessem sentir nos outros campos de pensamento. Essa gestação durou praticamente dez anos. Daí para cá é que podemos marcar o aparecimento de todos esses valiosos livros de estudo que renovaram a nossa história, que iluminaram o nosso passado de novas luzes, que nos descobriram a verdadeira formação da sociedade brasileira. Pois é preciso acentuar desde logo as duas principais características desse movimento: a preferência pelos problemas de sociologia e a preocupação pelas coisas do Brasil. O que me parece o indício da formação do verdadeiro espírito nacional, o que quer ver as nossas coisas pelo prisma da realidade e não por uma impossível lente cor-de-rosa, tão deformadora de todas as realidades. Deixemos que os inúteis acadêmicos discutam quem foi o primeiro escritor nacional, se Anchieta, se Rocha Pitta, se qualquer outro que desejem; o que interessa de fato é surpreender o verdadeiro Brasil nos verdadeiros momentos de sua história; é acompanhar-lhe a vida passo a passo, sentindo-lhe as hesitações e os arrojos; é marcar-lhe, ao mesmo tempo, os erros e as virtudes.

Essa busca da verdade, tão essencial a todo trabalho científico, deve ser a única preocupação de todos os estudiosos. Ela requer, no entanto, um estado de espírito especial, uma atitude de pura observação, sem preconceitos, sem idéias fixas, sem teses a provas. Por que a vida é que deve formar as teses - ela não pode, jamais, sujeitar-se ao papel de material nas mãos do cientista. Em segundo lugar, aquele "esforço apaixonado de amar e compreender" de que inda pouco falava Mário de Andrade, pois a simpatia me parece uma das melhores qualidades de quem faz um trabalho de crítica, como o é, sem dúvida, o trabalho científico. Finalmente, a preparação cultural de quem se propões a investigações dessa natureza - qualidade que sempre é bom assinalar: "the last but not the least".

São os pontos que caracterizam a personalidade científica de Gilberto Freyre, o maior vulto até hoje aparecido na sociologia brasileira. (Sempre me coloquei em guarda contra os objetivos fáceis que nos escorregam da perna, mas de Gilberto Freyre pode-se empregar sem erro aquele qualificativo de maior. Por que ele não se limitou a concluir uma grande obra dentro dos quadros já anteriormente delimitados; o seu primeiro valor é ter renovado a nossa sociologia, é ter-lhe dado um outro caráter, mais científico, mais verdadeiro. De que o maior exemplo é a sua obra-prima, agora em edição definitiva):

Gilberto Freyre - CASA GRANDE & SENZALA - Formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal - 4a. edição, definitiva - lustrações de Santa Rosa - 2 volumes - Livraria José Olympio Editora - Rio - 1943.

Ao estudar o fenômeno da formação histórica do Brasil, Gilberto Freyre abandona o ponto de vista em que se colocaram todos os nossos historiadores: o de que essa formação não passou de uma gradativa e talvez brutal dominação do homem branco, dono de uma civilização mais adiantada, sobre o índio e sobre o negro, vítimas de uma civilização mais atrasada. A grande virtude do método histórico-cultural, de que Gilberto Freyre é no Brasil o mais destacado praticante, consiste, para mim, nisso que o autor de Casa-Grande & Senzala deixou acentuado: ter abandonado esse critério tão incerto de civilização por outro, mais efetivo e mais científico: o de cultura. Cultura no sentido sociológico: "a soma de atividades, de estilos de vida, de materiais elaborados por um grupo humano: inclui invenções, instrumentos, todo o equipamento material do grupo; inclui, ainda, fatores imateriais, como a língua, a arte, a religião". ( ) Daí o encontro das três raças em solo brasileiro ter sido chamado magnificamente por Gilberto Freyre de choque de culturas, e nem foi outra coisa, conforme esta obra nos comprova tão abundantemente. É aqui Gilberto Freyre, examinado as diversas faces do problema, nos diz de Lowie que colocou a questão da desigualdade das raças nos seus verdadeiros termos, pois que, "como Franz Boas, ele considera o fenômeno das diferenças mentais entre grupos humanos mais do ponto de vista da história cultural e do ambiente de cada um do que da hereditariedade ou do meio geográfico puro". (II, pg. 468).

Ao registrar as conseqüências desse choque de culturas é que Gilberto Freyre nos dá a grande lição de Casa-Grande & Senzala: três reabilitações - do índio, do português, do negro. Por que as invencionices e os preconceitos eram tantos em tôrno de cada um desses valores, que o restabelecimento da verdade não poderia ser outra coisa senão uma grande reabilitação. Principalmente do índio e do negro, tão sufocados debaixo de uma espessa camada de incompreensões e de prejuízos. Mostra-nos, então, não só que a mulher gentia foi a base da família brasileira (I, 187), como também que o homem deu uma formidável contribuição ao desenvolvimento social do Brasil: "mas só obra de devassamento e de conquista dos sertões, de que ele foi o guia, o canoeiro, o guerreiro, o caçador e pescador". (I, 187-8). Só na conquista da terra, conquistada geográfica e topográfica, por que a conquista econômica esta foi feita exclusivamente pelos negros, que, "longe de terem sido apenas animais de tração e operários de enxada, a serviço da agricultura, desempenham uma função civilizadora. Foram a mão direita da formação agrária brasileira; os índios, e sob certo ponto de vista, os portugueses, a mão esquerda". (II, 485). Como também aos negros devemos os primeiros momentos industriais do Brasil, pois foram eles que nos ensinaram os rudimentos da mineração do ferro.

E também reabilita o português, acentuando-lhe as virtudes morais e a verdadeira vocação colonizadora, sua flexibilidade tão superior, por vezes, à rigidez dos puritanos ingleses e à ferocidade do guerreiro espanhol; seu papel de resistência contra as tendências imperiais da Igreja, naquele século 16 tão ciosa dos seus poderes temporais, mostrando que contra essa Igreja, com I grande, o senhor feudal daqui do Brasil opunha vantajosamente a igreja, com i pequeno, a capelinha do seu engenho ou de sua fazenda. Qualidades de caráter e do que poderíamos chamar de falta de caráter, que dos deram este enorme Brasil, sem sua luta de raças, irmanados milagrosamente de Norte a Sul, regionalista, por certo, mas não separatista, cheio dum espirito nacional que João Ribeiro chamou tão bem de "unionismo".

Essa lição que nos dá Casa-Grande & Senzala: a reintegração dos três valores culturais que se chocaram no início da formação da sociedade brasileira, dentro dos quadros que realmente ocuparam, assinalando a tarefa muitas vezes anônima ou despercebida que cada qual desenvolveu na aurora de nossa vida social. Vida social que nos dois primeiros séculos se desenvolveu toda dentro do signo do patriarcalismo, não só por força da própria organização administrativa que a colônia teve ao início, como também pela própria imposição dos acontecimentos, que exigiam aquela reunião de todos em torno de um chefe, constituindo uma grande e heterogênea família, resultando uma sociedade feudal que Portugal, mesmo, não possuiu, tão caracterizada, em sua história.

Como se vê, não se verificou absolutamente uma imposição de civilização mais adiantada sobre outras mais atrasadas, de cima para baixo, violentamente, contrariando a própria natureza da evolução social; o que se deu foi uma interpenetração de elementos de cultura, formando a sociedade brasileira tal como a encontramos em seu desenvolvimento histórico.

E aqui chegamos ao ponto mais agudo da questão, aquele em que se pergunta qual o sentido em que esse desenvolvimento se processou, qual o elemento permanente em toda essa evolução. Respondo sem hesitação que esse desenvolvimento se verificou sempre debaixo de uma constante: a religião. Não uma religião determinada, não o Catolicismo, como nos diz Gilberto Freyre ("No Brasil, País de formação social profundamente católica...", II, 565), mas a religiosidade, esse misto de crendices em que sempre andou o povo brasileiro. Sem dúvida que o Catolicismo foi o elemento mais vigoroso nesse conjunto, mas ele mesmo é, sob certos aspectos, aqui no Brasil, "superstição católica", na frase que não há muito assinalei em Mário de Andrade. O próprio Gilberto Freyre nos dá páginas esplêndidas sobre esse espírito religioso, que, se nunca nos abandonou, foi, sempre, em compensação, uma mescla de crenças ameríndias, africanas e ocidentais. Nesse particular, é de se acentuar que o Catolicismo, como religião culturalmente superior, sofreu, no entanto, em contato com o índio e com o negro, a influência das crenças destes últimos, conforme já está tão exaustivamente comprovado pelos estudiosos.

Ainda assim, não se nega ao Catolicismo ter sido, na expressão de Gilberto Freyre, o cimento da nacionalidade, pois ele nos é credor, quando menos, por esse sentido da unidade a que tanto devemos em nossa vida social e política. Sem dúvida, foi o espírito do Catolicismo que sempre nos ajudou a manter o Brasil absolutamente indiviso, sem sacrifício de suas peculiaridades regionais. Catolicismo que aqui foi introduzido pelos representantes mais severos da Religião, por aqueles Jesuítas que tanta discussão têm provocado e se sujeitando a tantas falsas interpretações. É, mesmo, um dos pontos vulneráveis de Casa-Grande & Senzala esse em que Gilberto Freyre estuda a ação desenvolvida pelo jesuíta nos primeiros séculos do Brasil. A meu ver, Gilberto Freyre, com relação ao problema da catequisação, coloca-se na posição do cientista - que vê com pesar destruídos os traços culturais dos indígenas por efeito da mesma catequização - e na do idealista - que preferiria que as coisas tivessem acontecido de outra maneira. Duas atitudes que na realidade se contradizem e que, além disso, contradizem o próprio Gilberto Freyre, de ordinário tão precioso. O defeito, na minha opinião, está em que Gilberto Freyre jamais se coloca na posição do catequista, e catequistas dos séculos 16 e 17, para quem só uma coisa interessava: o cumprimento de sua missão, converter o selvagem ao Cristianismo e à religião católica, salvar aquelas almas que pareciam perdidas para Deus. Gilberto Freyre deveria ter se colocado na posição do catequista, porque isso é fundamental para se compreender o problema. Pois para justificar a escravidão - por certo de efeitos muito mais funestos que a catequização - Gilberto Freyre coloca-se na posição do colonizador, achando "injusto acusar o português de ter manchado com instituição que hoje tanto os repugna, sua obra formidável de colonização tropical". (I, 401). E logo adiante, ao referir-se aos publicistas que julgam um crime e um erro a escravização do negro, nos diz: "Mas nenhum nos disse até hoje que outro método de suprir as necessidades do trabalho poderia ter adotado o colonizador português do Brasil". (I, 402). Essa honestidade com que se colocou no lugar do português, as estudar o problema da escravatura, deveria ter levado Gilberto Freyre a se colocar no lugar do jesuíta com relação à tarefa difícil e delicada do catequismo. Porque nem ele nem ninguém pode nos mostrar outra maneira de realizar a conquista espiritual do indígena senão procurando substituir as suas nações de coisas por outras que vinham se um estágio de cultura superior. E a conquista espiritual do índio e do negro - façamos abstração do aspecto religioso do caso - era tão importante quanto a tarefa de suprir as necessidades do trabalho na colônia. Porque são dois fatores que se completam e que se auxiliam de maneira inequívoca: quanto antes o índio e o negro estivessem integrados espiritualmente na obra do colonizador, tanto mais e melhor poderiam concorrer para o desenvolvimento da parte material dessa obra.

Talvez se diga que Gilberto Freyre também se colocou no ponto de vista do catequizador quando nos diz que a intenção do missionário da S. J. era "dissolver no selvagem o mais breve possível, tudo que fosse valor nativo em conflito serio com teoria e a moral da Igreja". (I, 283). E mais adiante, página 285: "Longe dos padres quererem a destruição da raça indígena: queriam era vê-la aos pés do Senhor, domesticada para Jesus". Mas isso ele diz apenas para mais realçar a sua opinião sobre o "critério simplista do missionário que não se apercebe nunca do risco enorme de ser incapaz de reparar ou substituir tudo quanto destrói", e para dizer, ainda, que a catequização não se poderia realizar "Sem antes quebrar-se na cultura moral dos selvagens a sua vértebra e na material tudo o que estivesse impregnado de crenças e tabus difíceis de assimilar ao sistema católico". Ora, eu ai não vejo novidade, pois a catequização consiste nisso mesmo, nessa substituição de valores culturais e na destruição daqueles que não podem ser assimilados pela religião digamos mais adiantada. É infantil supor que a catequização possa ser feita de outra maneira.

Aliás, não entendi muito bem a intenção de Gilberto Freyre neste trecho de Casa-Grande & Senzala. Quereria ele que o povo autóctone se perpetuasse tal como foi encontrado no dia da descoberta ou pretende possível que o português realizasse a conquista da terra sem a conversão do gentio? Por que é necessário voltar ao que deixei dito linhas acima: além do seu aspecto propriamente religioso, a catequização representou um grande papel social e pedagógico, concorrendo para a integração espiritual do gentil na tarefa do colonizador. E de duas uma: ou Gilberto Freyre admite essa verdade e em vez de admitir que a catequização, tal como foi feita, era uma imposição dos acontecimentos e da época - como ele nos diz da escravatura - ou pensa que a colonização poder-se-ia fazer sem a obra do missionário, o que será de um simplismo inadmissível.

De qualquer maneira, porém, o que eu não acredito é que os valores nativos se perpetuassem, pois o fenômeno da interpenetração começa a se verificar a partir do momento em que duas culturas de defrontam.

E quando nos fala do artificialismo que as "missões" e as "aldeias" representam, pois desligaram o indígena "não só das tradições morais de sua cultura nativa mas do próprio meio colonial e das realidades e possibilidades sociais e econômicas desse meio"(I, 285-6), Gilberto Freyre parece não atribuir ao sistema comunitário que os jesuítas tentaram aqui na América o caráter que eu atribuo: o de uma experiência social e política. (estou me lembrando agora de uma frase do grande Oliver Wandell Holmes, que foi durante muito tempo ministro da Suprema Corte dos Estados Unidos: "A Constituição é uma experiência, assim como tudo na vida"). Desde que a finalidade era trazer o selvagem ao grau ao tipo de civilização do português (estou procurando me colocar no espírito do tempo) os jesuítas foram os mais coerentes, se bem que os mais radicais: criaram desde logo uma "cidade", em cujo ambiente, a seu ver, mais rapidamente se chegaria ao objetivo visado. O mal esteve nessa brusca mudança, sem transição nenhuma, a que o gentil foi sujeitado - mas a verdade é que, "mesmo realizada artificialmente (?) a civilização dos indígenas do Brasil foi obra quase exclusiva dos padres da Companhia". (I, 286). Aliás, sempre me pareceu, durante a leitura deste trecho de Casa-Grande & Senzala, que é exigir demais dos jesuítas dos séculos 16 e 17 o pedi-lhes o conhecimento das modernas teorias sociológicas que nós mesmo, ainda hoje, não conhecemos com segurança.

Seria interessante, também, saber o que Gilberto Freyre quis dizer com aquela palavra "artificialmente". Pois, ao que me parece, qualquer obra civilizadora, com relação ao selvagem, ao bárbaro, ou mesmo, ao civilizado de grau inferior, não deixa nunca de ser, na verdade, um processo "artificial". O processo natural seria o da evolução de cada povo sem a intervenção de outro estranho - o que exclui desde logo o elemento mais poderoso e sob certos aspectos exclusivo da civilização: o contato entre povos de graus diferentes de adiantamento.

Mas todos os males - volto ainda à minha comparação anterior - foram, como os da escravatura, mais devidos à época que propriamente aos homens, e tudo está a indicar que se a tarefa não tivesse sido confiada ao jesuíta mas ao próprio colonizador leigo, este não teria feito de outra maneira.

Um dos pontos mais sugestivos de Casa-Grande & Senzala é aquele em que Gilberto Freyre assinala a quase vocação colonizadora do português, destruindo os sonhos idiotas de muita gente que vive por aí a proclamar a possível superioridade da colonização saxônica ou espanhola. Das páginas de Casa-Grande & Senzala uma coisa ressalta imediatamente: que o português era o tipo mais indicado para a tarefa de construção social num território como o do Brasil, não só por suas virtudes e defeito étnicos e culturais como pela experiência que já tinha acumulado em sua longa vida de trabalhos e conquistas. Conquistas que para o português tinham um sentido muito mais humano, longe da ferocidade do castelhano ou do frio sentimento de superioridade do anglo-saxão. O português realizou uma obra de congraçamento verdadeiramente admirável, foi ele um dos fatores mais ativos, se bem que inconscientes, da interpenetração de elementos de cultura que aqui se verificou. Por sua flexibilidade. Por seu temperamento. Por sua constituição física e moral.

Temos, pois em Casa-Grande & Senzala o perfeito retrato da formação histórica do Brasil, surpreendida nos seus momentos mais íntimos, nos seus aspectos mais familiares: porque é preciso assinalar a importância extraordinária que Gilberto Freyre dá à constituição da família, à maneira por que se formou a família brasileira. O próprio subtítulo de sua obra nos revela esse cuidado de acentuar o tipo de sociedade que aqui se formou, derivado do tipo de família adotado pelo português na América: o patriarcalismo. Elemento e forma que naquela época absolutamente exigidos, e que depois tanto degeneraram nos tipos do coronel e do senhor-de-engenho, mais poderosos que a autoridade constituída, mandando nos delegados e nos juízes, fazendo justiça por suas próprias mãos e segundo seu exclusivo critério. Tipos que depois os romancistas, como José Lins do Rego e Jorge Amado, para citar os dois maiores, retrataram tão bem, fixando-lhes a própria vida nos seus instantes mais expressivos.

E o que se viu no Brasil foi a sociedade se construir em torno da família, numa repetição perfeita das leis da sociologia. Formação social que por vezes contrariou a própria organização administrativa para se manter fiel ao tipo familial que adorava - ou que as circunstâncias tinham imposto. Patriarcalismo que fez do Brasil dos primeiros séculos um País sem povo, conforme a observação notável de Couty, que Gilberto Freyre assinala. (I, 139).

Ao concluir estas notas sobre Casa-Grande & Senzala, penso não ser inoportuno ressaltar mais uma vez o seu extraordinário valor científico, e o fato de ter sido o primeiro livro que nos deu um apanhado completo e vivos aspectos da formação da sociedade brasileira. Diante dos problemas que se apresentaram, Gilberto Freyre procurou sempre abandonar as suas próprias opiniões pré-estabelecidas e as opiniões alheias, para investigar nas fontes o que na realidade tinha se verificado. Esse o seu valor material mais acentuado: o de ter abandonado os livros e as "verdades" estabelecidas e ter se servido quase exclusivamente de documentos originais, que retratam a sua época com o calor e a emoção que a própria vida desperta.

Livro assim documentado não poderia deixar de reformar muitos pontos de vista e muitas concepções estabelecidas - e foi o que aconteceu. Temos em Casa-Grande & Senzala a verificação cuidadosa de todos os estágios que a sociedade brasileira assinalou em sua evolução, tudo debaixo de um critério de humilde procura da verdade que é o sinal mais simpático do sociólogo de Apipucos.

Em artigo de jornal sobre Problemas brasileiros de antropologia tive oportunidade de escrever: "Depois de Gilberto Freyre pudemos amar melhor o Brasil, porque pudemos conhecê-lo em sua longa vida de trabalhos e canseiras e nos seus anônimos heroísmos; vimos como se forma uma Pátria, lentamente, nos pequenos nadas de cada dia, nas misérias e grandezas quotidianas. Não é figura de retórica dizer-se que a vida espiritual do Brasil pode se marcar com esse grande divisor: antes e depois de Gilberto Freyre". Essa posição indiscutida de mestre do pensamento brasileiro que Gilberto Freyre conquistou por toda uma vida de estudos e de trabalho, é a sua maior glória, a sua consagração mais merecida. Pode-se não concordar com todas as suas idéias - isso será mesmo difícil com relação a uma obra tão vasta e que aborda os problemas mais delicados; mas um mérito ninguém negará a Gilberto Freyre: o de ter estudado a formação histórica do Brasil com toda a honestidade e dentro do mais objetivo espírito científico.

Casa-Grande & Senzala, além de seu valor substancial e formal, tem ainda grande valor latente: o de ter introduzido entre nós um novo espírito, o de ter inaugurado uma nova fase na história do pensamento brasileiro. A guerra ao preconceito, a procura incansável da verdade, a pesquisa histórica em suas fontes mais seguras e melhores, o escrúpulo e a humildade científica, todas as qualidades pessoais de Gilberto Freyre, serviram para modificar o ambiente brasileiro, sempre tão cheio de ilusões a seu próprio respeito, sempre procurando mascarar as verdades menos satisfatórias ao seu bovarismo. Assim, por exemplo, aos que ainda hoje nos acreditam um povo essencialmente... latino, eu aconselharia a leitura de Casa-Grande & Senzala, principalmente nas páginas em que nos fala das influências psicológicas que se fizeram sentir nos homens de Península. "Neste (no caráter português) a romanização intensa não apagou os traços essenciais hispânicos, nem a reconquista cristã os profundos traços bérberes e mouros. É ponto que nos sentimos na necessidade de salientar porque explica a nossa insistência em considerar hispânica a formação social e cultural da América colonizada por espanhóis e portugueses. Hispânica e não latina. Católica, tingida de misticismo e de cultura maometana, e não resultado da Revolução Francesa ou da Renascença Italiana". (I, 400). Trecho que o estudo das origens comprova inteiramente e que representa mais um golpe nos que nos consideravam como uma última e milagrosa flor do Lácio, inculta e bela. Só não entendi foi aquela referência à Revolução Francesa, ocorrida já no fim do século dezoito, e que, portanto, nenhuma influência poderia ter tido na formação social e cultural da América por muitos chamada latina... A Renascença Italiana sim, que esta pode-se datar como o sinal de transição entre duas idades e cronologicamente entre os séculos 15 e 16, isto é, o tempo das grandes navegações e do descobrimento do Brasil, e que, apesar de tudo, deve ter marcado de alguns sinais o português e espanhol da época. O que é verdade, em todo caso, é que o contingente mouro foi maior na constituição do caráter português do que muitos pensam - contingente logo depois revigorado na América, com a importação de escravos maometanos de tribus do norte da África. Escravos esses e os outros que, como vimos, desenvolveram na América uma verdadeira função civilizadora, influenciando em pontos fundamentais, como a agricultura e a incipiente indústria, a vida da colônia. Daí o erro dos que falam do Brasil como de uma nação latina: dos romanos, a influência que recebemos chegou-nos, quando muito, de segunda mão.

Casa-Grande & Senzala representa uma retificação nos nossos conhecimentos de história e de sociologia brasileira, por vezes em questões essenciais. É livro para ser meditado lentamente, até nos impregnarmos de suas verdades, para assim formarmos uma idéias real do brasil nos seus anos mais difíceis e mais caluniados.

E, se não tivesse outros méritos, esse bastaria para fazer de Casa-Grande & Senzala um livro definitivo na vida intelectual do Brasil.

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* Com o título "Notas à margem de Casa-Grande & Senzala", estes dois artigos apareceram em O Dia (Curitiba) de 23 e 30 de dezembro de 1943 e foram incluídos na primeira obra do autor (Interpretações. Rio de Janeiro, José Olympio, 1946, pp. 301-315), de onde os reproduzimos.



Fonte: MARTINS, Wilson. Livro definitivo na vida intelectual do Brasil. In: FONSECA, Edson Nery da (Ed.). Casa-Grande & Senzala e a crítica brasileira de 1933 a 1944. Recife: Comp. Ed. de Pernambuco, 1985. p. 269-280.

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