UMA OBRA RABELAISIANA*
Afonso Arinos de Melo Franco
Uma das coisas que mais impressionam na crítica brasileira é a irresponsabilidade.
Qualquer moço, bem ou mal intencionado, senta-se na mesa, com o livro em frente e assegura coisas incisivas, empáticas e peremptórias, a propósito do volume, que não leu, e do autor, que não conhece. Me parece que este hábito vem do jornalismo, que é, também, feito dentro da mesma escola. Os que se ocupam da crítica são, em geral, jornalistas, e herdam da profissão a ligeireza, a ousadia e a irresponsabilidade, advindas do anonimato.
Se um mequetrefe incompetente pode combater um programa financeiro, um tratado internacional, um plano da estrada de ferro, com a mais ingênua das insolências, por que não poderá também julgar um livro demolindo-o ou endeusando-o, segundo o seu capricho?
Daí a confusão absoluta de categorias e de níveis no julgamento das produções literárias. Os mesmos adjetivos, as mesmas afirmações são empregadas às vezes para obras de valor totalmente distinto e de significação completamente diferente.
O autor de um romance besta, escandaloso e mundano, que pode e deve vender muito, mas que não pode nem deve ser tratado com consideração pela alta crítica, e aquinhoado com os mesmos adjetivos de "homem culto", "escritor eminente", etc., que se aplicam, com justiça, a um Rodolpho Garcia, um Paulo trado, um Gilberto Freyre.
Não sei se este meu amigo pernambucano já publicou outro livro antes de Casa-Grande & Senzala. Acredito que não, porque, eu teria dele conhecimento, como tenho de trabalhos seus esparsos, ou estampados em revistas e coletâneas literárias ou de outra natureza.
Por isto, estou aqui a ver vários críticos que chamarão Gilberto Freyre de "rutila esperança", o seu livro de "promissora estréia", ou outros mais adiantados, que dirão que ele "já deixou de ser uma esperança para se afirmar uma esplêndida realidade".
Tal qual como se estivessem criticando um volumezinho de crônicas mais ou menos mundanas, ou romance suficientemente obsceno, para gaudio dos ginasianos e das mocinhas praieiras. Ou mesmo poetinha de caixa de pó de arroz.
Não sei se Gilberto Freyre se aborrece com esta falta de noção das diferenças e perspectivas. A mim, confesso que é o que mais me irrita, na analise que fazem dos meus trabalhos. Prefiro que falem mal, que arrazem. Prefiro, mesmo que não falem nada, o que se diz ser o pior de tudo, mas que, francamente não é tão ruim assim.
Além desta falta de compreensão das categorias intelectuais, me irrita, também, muito, nos critérios, um certo jeito de dar por assentadas, por pacíficas, as ideiazinhas pessoais deles, e de julgarem assim, de plano, as do autor. Não consigo me explicar bem sobre este ponto. Quero me referir aos homens que dizem mais ou menos isto: "O sr. Fulano é muito interessante, escreve muito bem. O seu livro é bem feito, embora não se possa estar de acordo com as suas idéias, ou com as suas conclusões, etc.". E encerra a crítica sem dizer com quais idéias não se pode estar de acordo, ou quais são as que outras idéias que derrotam estas com que se não pode concordar. Enfim, uma maçada! Não há nada mais fácil nem mais covarde do que o sujeito se escudar atrás de uma pretensa e inexistente unanimidade de opiniões contrárias às idéias do autor, e, assim, derrubar malandramente o que ele afirma, sem apresentar nada que o substitua.
"Não se pode concordar com o sr. Fulano". Muito bem. Mas com que diabo, então, se deve concordar, a propósito do assunto em questão? Eis aí a pergunta que fica sempre, sem resposta.
Eu não sou tão "foca" em jornalismo como se pode supor. Na minha existência tenho feito vida de jornal várias vezes, é verdade que todas ocasionalmente ou de passagem. Mas já aprendi o suficiente para perceber que estes defeitos que estou imputando à crítica são resultado da vida de jornal, tal como ela se processa entre nós. O sujeito tem que escrever sobre um livro, sobre dez livros, sobre cincoenta livros que deixou conscientemente de ler. Então tapeia, diz coisas vagas, lê o índice dos capítulos, faz considerações sobre ele e vai para o cinema.
Mas eu não sou critico de profissão. Por isso não falo dos livros que não me interessam. E, dos que me interessam, falo eu meu nome próprio, exprimindo as reações que a sua leitura exerceu sobre mim, e não em nome de princípios genéricos ou de certezas impalpáveis. Eis o que pretendo fazer com Casa-Grande & Senzala. Comentários pessoais, à margem de um grande livro.
Grande é ele a começar pelas suas imponentes proporções. Volume sólido belo, com uma capa austera e convincente. A gente já o abre com gosto e respeito, como se preparando para um longo e grave roteiro intelectual. De passagem, chamarei a atenção de Gilberto Freyre para a má revisão do seu livro. Não sei que diabo arranja o lírico Schmidt, Editor que as obras saídas de sua casa têm sempre má revisão. Disto me queixo eu, entre outros. E são desagradáveis esses choques em palavras mutiladas, aleijadas. São como topadas nos pés alados do pensamento.
Depois de falar de feição material do livro, que parece ter sido, realmente, construído para viver nos tempos, não posso deixar de fazer algumas observações conexas, a propósito da língua em que ele foi escrito.
Ninguém mais do que eu ama e admira o idioma brasileiro.
Nele encontro graça, plasticidade, riqueza, naturalidade, identidade com o ambiente em que vivemos, sendo, talvez esta a sua maior qualidade. Nele observo, também, coisa que muitos negam: sutileza e finura. Portanto, possibilidade intelectual. Mas considero que é indispensável manejá-lo com cuidado. A sua formação rapidíssima, a prodigiosa receptividade que o distingue imprimem à sua estrutura elementos muitas vezes efêmeros. Modismos, gírias, que perdem o valor e o interesse em poucos anos. Pois isso me parece que, num livro feito para durar no tempo, num livro escrito com sentido de permanência, como este de Gilberto Freyre, e mais prudente manejar a língua brasileira sem exageros, porque os exageros se vão e o estilo fica avelhantado e precioso em curto espaço de tempo.
Em obras puramente literárias compreende-se o esforço de um Murilo Mendes, de um Manuel Bandeira. Trata-se de uma espécie de exercício militar da linguagem de uma revisão de valores verbais, de uma experiência de materiais de construção para se ver quais são os aproveitáveis e quais os desprezíveis.
Numa obra como a de Gilberto Freyre, porém, sua língua deve ser simples e nossa, não julgo indispensável que seja chula, impura e anedótica, tal como aparece em tantas das suas páginas. É pouco técnico esse linguajar. Pouco científico. Dá ao livro um aspecto literário o seu assunto e as suas graves proporções não comportam.
A linguagem de Gilberto Freyre deveria ter um pouco mais de dignidade (Que ele não leve a mal este vocábulo, mas não encontrei outro que exprimisse melhor o meu pensamento). Sobretudo que não se suponha que eu seja algum purista asmático e intransigente. Ao contrário, faltam-me, infelizmente, bons conhecimentos da nossa língua, como os que possuem, por exemplo, Manuel Bandeira ou Rodrigo M. F. de Andrade. E falta-me hoje, sobretudo, tempo para estudá-la como desejo. Apenas estou querendo salientar que o estilo, aliás gostoso e agradável, que Gilberto Freyre emprega no seu livro, era mais próprio para outro gênero de literatura que ele pratica tão bem quanto a sociologia: o de ficção. Será que Gilberto, homem civilizado, vai a um jantar de cerimônia com o mesmo traje sumário com que saiu para o tênis matinal?
Outra observação que eu desejaria fazer era sobre a rapidez da composição do livro.
Gilberto Freyre acumulou conscienciosamente uma formidável biografia e leu-a com escrupulosa honestidade. (Ele é um homem de bem). Mas tenho a impressão de que escreveu sem descanso, sem fôlego, muito depressa, quase sem notas, provavelmente sem fichas que me parecem necessárias numa obra de tal amplitude.
O resultado é que a grandeza e a riqueza do livro perturbam e confundem um pouco o leitor e ele tem que se esforçar sozinho para encontrar um rumo único e nítido e não perder o fio de Ariadne no meio daquele labirinto de fatos, de conhecimentos, de observações, de sugestões, de críticas, de citações, de narrativas, de recordações, de conselhos clínicos, higiênicos, dietéticos, de anedotas bandalhas, contadas gravemente, com aquele quase-semi-sorriso de Gilberto que eu conheço bem.
Sabe o leitor o que me fez lembrar o livro sob este prisma, e em ponto pequeno? Rabelais. Sim, "excusez du peu", Rabelais. Não é senão rabelaisina aquela prodigiosa exposição de frade caprinos, de mulatas e índias que se deitam docilmente, de receitas de doces, de vestuários (até os íntimos), de lutas, de doenças (venéreas e outras), de plantas de casas, castelos, engenhos, pomares de atos de sodomia e bestialidade de rebanhos, amores e danças. Tudo bem agitado, misturado, conserva-se em lugar fresco e tome-se quando conviver.
Ambiente pantagruélico, planturoso, feito de cultura e de malícia, pejado de conhecimentos e de instintos, de fábulas e observações científicas, de grandezas e de ingenuidades.
No fundo, literatura, muita literatura.
Aliás, não seria possível que um espesso volume de mais de quinhentas páginas, um literato brilhante (a locução vai aqui sem aquela perfídia que lhe empresta Gilberto Freyre, quando a emprega falando de outrem, pensando que a gente não percebe), um literato brilhante como este pernambucano, deixasse de descambar para a literatura. A literatura não é uma escolha, é uma imposição constitucional. Não é uma opção, é um destino. E uma das atitudes mais brilhantes literárias é desejar não ser nem literato nem brilhante. Como por exemplo, o brilhantíssimo literato paulista Mário de Andrade, que faz todo o seu possível, sem conseguir para ficar fosco e pesado e filósofo, sendo apenas, irremediavelmente um poeta notável e sutil.
Voltemos, contudo, à literatura de Gilberto. Para mim ela se manifesta, sobretudo, quando ele deseja tirar conclusões sociológicas das premissas históricas que assenta com tão escrupuloso rigor. Não que eu ache que ele não deva tirar essas conclusões. Ao contrário, acho até que ele as tirou pouco demais e repito o que disse João Ribeiro, que o seu livro é uma construção à qual falta cúpula, e que as paredes, belas e sólidas, poderiam subir assim, indefinidamente mais alto, cada vez mais alto, só se compreendendo a intercepção por fadiga do construtor.
Isto é, Gilberto conseguiu mostrar admiravelmente qual foi a influência respectiva de cada lado do triângulo branco-verde-negro na formação do nosso Brasil político, étnico e econômico. Isolou as atividades do português do índio e do africano, depois mostrou como as três raças se misturavam na luxúria das redes balouçantes. Mas, no fundo, não tirou desses fatos admiravelmente expostos, nenhuma conclusão pragmática. Não disse o que eles representam de imperativo na evolução de nossa história. E nós ficamos como o doente da comédia de Antonio José que não sentia nenhuma melhora com a simples indicação dos nomes das suas doenças.
Assim, acho que ao livro de Gilberto faltam dois ou três capítulos finais de síntese sociológica e de conclusões políticas.
Mas quando falo em conclusões que me parecem literárias, quero me referir a certas conclusões parciais a que ele chega, jogando ocasionalmente com os dados que acabo de revelar ao leitor. Por exemplo, falando do sadismo do senhor nas suas relações sexuais com as escravas (pág. 80), ele amplia este doméstico até o largo campo da nossa formação social e política. E explica então, o mandonismo dos nossos chefes e chefetes, a evolução natocrática e a tendência ditatoria da nossa República, por este processo, explicando, também, as rebeldias que se levantam contra estes excessos de poder, os motins, as masorcas, as revoluções, como decorrentes do masoquismo e do desejo de flagelo sexual! Calma! Com todos os diabos eu prefiro ficar com a explicação mais simples de atraso e de desordem, de incultura e de pobreza, que atuam aqui como em vários outros países americanos ou asiáticos com os mesmos resultados, ou quase os mesmos, sendo que em muitos de tais países não existem os dados explorados pelo imaginoso pernambucano. Outro exemplo dessas conclusões a que chamo literárias é o que oferece a sua dissertação sobre o regresso forçado da civilização colonial a certos estados de cultura primitiva. Ou antes, certos movimentos explosivos deste primitivismo, que ele procura lobrigar em determinados motins, dirigidos contra a super-estrutura governativa da Colônia.
É assim que, citando Sylvio Romero e Oliveira Lima, ele estigmatiza movimentos como a "balaiada", a "sabinada", a "vinagrada", etc. Ora, Sylvio Romero e Oliveira Lima eram dois burgueses que escreveram a um tempo em que estas coisas ainda não eram estudadas. Caio Prado Júnior, na sua Evolução Política do Brasil, demonstrou bem que essas crises, em que, segundo Sílvio Romero, o "elemento tapuia alçou o colo tripudiando sobre a vida e a "propriedade alheia"", não representam senão os episódios conhecidos de lutas de classes. E Gilberto Freyre, cuja grande e moderna cultura sociológica é patente não pode mais, a não ser literariamente, explicar claras explosões da luta de classes por meio de torturadas divagações a propósito de choques entre as culturas indígenas e alienígenas.
A rapidez da composição do livro deve ter concorrido para essas generalizações um pouco primárias. Aliás não posso censurar Gilberto Freyre em consciência, por esse atabalhoamento na composição dos trabalhos. Também tenho este defeito, que é uma espécie de ânsia de liberdade.
A única maneira da gente se libertar de uma idéia ou de um plano de idéias, que nos persegue, com uma obsessão fatigante, é reduzí-lo a escrito depressa, e publicá-lo em volume. Descança-se, então, por algum tempo até novo assalto, novo atropelamento.
A rapidez da composição da Casa-Grande & Senzala, transparece de vários pequenos trechos dos quais citarei alguns mais demonstrativos. A páginas 121 e seguintes Gilberto Freyre diz, por três vezes, que Jean de Léry veio ao Brasil como pastor protestante. Referindo-se às Índias nuas diz ele que "o pastor protestante, (J. de Lery), viu-as repetidas vezes neste estado", etc. E assim por mais duas vezes. Ora, na própria bibliografia de Gilberto Freyre, isto é na edição de Lery de que ele se utiliza, que é a de Paul Gaffarell, este ilustre estudioso francês das coisas do Brasil deixa bem claro, no prefácio, que, quando Lery esteve na expedição de Villegagnon não era, ainda, pastor protestante.
Na página 267, falando do hábito, que tinha o colono português de ostentar opulência na rua, passando privações domésticas diz Gilberto Freyre:
"Em casa jejuando e passando necessidade: na rua ostentando grandeza. O contrário do ditado: por fora muita farofa, por dentro mulambo só".
Não sei porque "o contrário do ditado". Precisamente ao contrário do contrário do ditado. Isto é, precisamente de acordo com o ditado... Dentro de casa jejum e mulambo, fora de casa grandeza e farofa... Estas pequenas coisas são provas de que Gilberto escreveu apressadamente o seu grande livro e quase que o não releu.
Vamos dar, ao acaso, um outro exemplo. Na página 299 Gilberto Freyre fala do célebre grão-senhor da Bahia que tinha o apelido de Manguela-Bote. Refere-se à alusão que a este potentado fez o viajante francês Laval, dizendo que, infelizmente, este "só lhe deu o apelido e este mesmo, ao que parece, estropiado. Ora Rodolpho Garcia já identificou claramente nas suas notas à História do Brasil, de frei Vicente do Salvador este Manguela-Bote, como sendo o célebre capitão-mor Balthazar de Aragão, que morreu bravamente no mar. (Pág. 483 da História do Brasil, 3a. edição).
Devemos esperar que o outro estudo que Gilberto Freyre promete para breve, seja composto com mais calma e escrito com mais cuidado. Isto é, que a execução do trabalho corresponda, em todos os seus termos, ao esforço formidável de sua preparação ideológica e bibliográfica.
Ao lado desses pequenos defeitos porém, como ressaltam majestosas e sólidas, as nobres qualidades deste livro de Gilberto Freyre, que passa a ser uma das vigas mestras do nosso edifício intelectual!
Ele é um reajustamento nítido e impiedoso de todos os valores da nossa formação. Os valores positivos e valores negativos, se assim me posso exprimir.
Se de vez em quando ele entristece, e até humilha com a revelação crua e brutal das nossas mazelas, e outros trechos ele nos anima e consola com a exposição, sem ilusões deformadoras, das nossas possibilidades.
Gilberto Freyre entra de chofre na categoria dos Nabuco, dos Euclydes da Cunha, dos Capistrano, dos grandes lidadores da inteligência brasileira e da compreensão do verdadeiro Brasil.
E ele não pode se zangar com as restrições que fiz ao seu trabalho. Pois eu não disse, também, e sinceramente, que ele tinha qualquer coisa da riqueza de Rabelais?
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* Com o título "Casa Grande & Senzala", saiu em O Jornal (Rio de Janeiro) de 15 de fevereiro de 1934, tendo sido incluído no obra do autor Espelho de três faces (São Paulo, Ed. do Brasil, 1937).
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Uma obra rabelaisiana. In: FONSECA, Edson Nery da (Ed.). Casa-Grande & Senzala e a crítica brasileira de 1933 a 1944. Recife: Comp. Ed. de Pernambuco, 1985. p. 81-88
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