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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



UMA TEORIA CORRENTE DA CULTURA BRASILEIRA*


Osmar Pimentel

O aparecimento da edição definitiva de Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, dá-se quando ainda não surgiu o que todos quantos admiramos esse ensaio poderíamos desejar que surja: um livro decente onde, uma a uma, sejam refutadas as sugestões de tão expressivas sondagens sociológicas em torno da formação latifundiária e escravocrata da sociedade brasileira. E será, sem dúvida, penoso - tanto para os leitores como para os mais diretamente interessados pelos problemas, por simples hipóteses de trabalho ou pelas conclusões da moderna sociologia brasileira - que se verifique, até hoje, omissão tão constrangedora.

Sabe-se que se trata de livro discutido, possivelmente do livro mais atacado e elogiado entre nós, desde a publicação da ampla monografia polêmica que Euclides da Cunha escreveu sobre as condições de nosso sertanejo do século 19. Mas o fato de reconhecer que Casa-Grande & Senzala é ensaio discutido não implicará necessariamente - suponho - no reconhecimento de que tenha sido ele atingido, em sua essência, por qualquer discussão seria, se dermos a esse substantivo controvertido as fronteiras e as discrições de sua acepção científica. Porque não haveria exagero no dizer-se que - diante de um livro como Casa-Grande & Senzala, com seus inúmeros temas de interesse vivo para o conhecimento objetivo das raízes culturais da formação brasileira - terão ocorrido, menos discussões de índole científica, que bate-bocas sumários de apologistas ou detratores de ensaio. Apologistas e detratores ostensivamente unilaterais em seus pontos de vista coloridos de sentimento, sem dúvida, mas nada acrescentando à validade ou à eventual inconsistência dos temas desenvolvidos pelo ensaísta.

Os adversários de Casa-Grande & Senzala - adversários do volume ou simplesmente do autor - creio mesmo que vêem se excedendo nessas turras sentimentais, nessas zangas antes de meninos turrões que de gente intelectualmente íntegra. Pois alguns deles chegam a supor que iludem com eficácia a urgência da discussão honesta valendo-se dos "transferts" cômodos da pilhéria. São, aliás, tantas as perifídias pequeninas, ou as quantitativamente maiores frases do espírito sobre a sociologia de Casa-Grande & Senzala, que, nelas, um calouro de universidade poderia selecionar, com êxito, material útil a uma dissertação em torno de uma possível sociologia brasileira da pilhéria. Dissertação, de resto, que ainda teria o mérito de fixar sugestivos aspectos do comportamento intelectual de certa ala de publicistas nacionais, só agora se tornando mais familiarizados com a disciplina dos estudos científicos ou universitários. E, ao que penso, aspectos pouco favoráveis ao julgamento do arrivismo mental dos que, no Brasil, parecem deter o monopólio e os favores dos "jeus-de-mots".

Outros adversários de Casa-Grande & Senzala parecem, porém, desdenhar a estrategia do "mot desprit". Esses vão - ou pretendem ir - ao livro em si mesmo, de que pretendem invalidar, ora a estrutura geral, ora alguns de seus aspectos ou pormenores. E é mesmo sobre insinuações pouco exatas - ou sobre deformações mais ou menos hábeis e intessadas do pensamento sociológico de Gilberto Freyre - que versam parágrafos inteiros dos prefácios que aparecem na edição definitiva do ensaio.

Mas, a semelhança do que acontece com os juízes anedóticos ou simplesmente espirituosos de Casa-Grande & Senzala, o que se pode observar nesse quadro de detratores mais ambiciosamente eruditos é um desolador raquitismo de argumentação, uma pobreza de lógica que só não será franciscana porque a sabemos não intencional. Nem haveria qualquer maldade em lembrar que muitos dos ex-argumentos definitivos contra o sentido e o valor científico do livro de Gilberto Freyre serão, se bem ponderados, desvarios de literatos nem sempre de boas intensões, mas quase sempre se mostrando, em caráter de permanência, uns ingênuos, de tão pouco esclarecidos quanto ao debate dos problemas da sociologia aplicada.

Pertencerão a essa categoria - se me permitir um exemplo típico - alguns artigos de jornal, assinados, há poucos anos, por um inteligente escritor carioca, diga-se desde logo que mais escritor que inteligente.

Esses artigos, segundo fora previamente anunciado em palestras literárias de cafés, haveriam de construir uma espécie de epitáfio para autoridade de sociólogo que muitos reconhecem em Gilberto Freyre. O que, aliás, não aconteceu. Pois o inteligente escritor (que pretendia refutar as sugestões de Casa-Grande & Senzala através da nitidez metodológica da sociologia marxista) não quis ou não pôde fugir a um equívoco lamentável, no caso: o de confundir o verdadeiro materialismo dialético, em sua crua aplicação à análise dos fatos sociais, com os esquemas simplórios que costumam desabar, de vertiginosos vulgarizadores estrangeiros da obra de Marx, sobre a inocência sociológica de certos editores nacionais.

Estarão também incluídos nessa categoria de ex-argumentos os de quantos vêm negando a obra de Gilberto Freyre qualquer validade em sua intenção propriamente sociológica; negando e preferindo ver no escritor pernambucano um "filósofo social", mais que um sociólogo puro. Porque o certo é que eles nem conseguem ocultar uma origem bastante suspeita: a de serem produto das desorientadoras querelas das escolas sociológicas. A de reeditarem, no Brasil, um debate que vem preocupando os maiores nomes da sociologia, no mundo, mas que a pressa de concluir (ou a inexperiência de pensar bem) leva alguns a resolver com suficiências alarmantes. Uma suficiência desse naipe: a afirmativa de que "verdadeira sociologia é a nossa. O resto não é sociologia, não".

Mas os que pensam assim - como é fácil adivinhar - nem se dão à generosidade de esclarecer aos leitores porque a obra de Gilberto Freyre (da qual Casa-Grande & Senzala é um dos monumentos mais altos) deve ser tida como não sendo de sociologia mesmo. Eles a repelem, sumariamente.

Acentue-se, porém, que alguns deles ainda concedam que o ensaio é escrito numa língua artisticamente bem trabalhada: uma espécie de meio termo melódico entre as arestas sintáticas e prosódicas do português reinol e os jargões gritantemente impuros com que alguns supõem valorizada a chamada língua brasileira. Mas outros até se dizem, se confessam mesmo indignados com os modos de expressão brasileira de que está tecida a prosa - e os frêmitos da boa poesia - do livro de Gilberto Freyre. Confessam-se indignados e, nutridos de certezas olímpicas, agarram-se à pueril querela das escolas sociológicas. Querela que está para a sociologia moderna como a das "chapelles littéraires", de Pierre Lasserre, esteve para a literatura francesa do século passado. Mais como uma espécie de vivissecção de vaidades dos estudiosos da sociologia que como posições lógicas do espírito diante da compreensão dos mundos fascinantes, embora perigosos, das inter-relações humanas, e de seu exato sentido cultural e político.

De modo que o leitor comum - o qual busca honestamente um rumo para a inteligência menos superficial daquilo a que se convencionou chamar de problemas e conclusões da sociologia brasileira - lamentará, com indiscutível senso de oportunidade, que o livro como Casa-Grande & Senzala, já em edição definitiva, não tenha ainda encontrado quem o estudasse à luz de uma técnica de análise impessoal e objetiva. Estudasse-o para refutá-lo, ou simplesmente para fazer a apologia dele. Mas, de um como de outro modo, procurando esclarecer o significado do ensaio - e seu enquadramento na história que o pensamento nacional vem escrevendo no sentido de se afirmar como unidade de ação cultural e política.

É certo que esse leitor, de algum modo decepcionado, poderá lembrar-se de que o fato se verifica porque a geração de sociólogos, à qual Gilberto Freyre pertence, não possuirá talvez uma formação tão universal quanto a dele. Formação intelectual que permitirá a Gilberto esboçar, em Casa-Grande & Senzala algumas hipóteses de trabalho sobre uma teoria coerente da cultura brasileira. Esboçá-las através da intimidade dele com os métodos da moderna ciência relativista, até nos aspectos mais sutis desta. Através da inclinação, que o sociólogo Gilberto Freyre tem, de superar tudo quanto esses métodos possuem de limitado, (como fruto da prudência da especulação científica) com o auxílio de generalizações, de sugestões indagadoras, muito ao gosto, aliás, de sociólogos, como ele, capazes de percorrer, sem vertígens os territórios do conhecimento alógico ou poético. Ou, ainda, em virtude da adesão espontânea da sensibilidade do ensaista às menos perceptíveis formas de expressão da paisagem social e humana desses Brasis - tão difíceis, de resto, de surpreender em seus valores puros, em suas fisionomias não caricaturais.

Por certo que um leitor nesse estado de espírito poderá supor tudo isso, e até mesmo que só os moços (sobretudo os dessa geração que se vem formando mentalmente à sombra de Faculdades em dia com as conquistas das ciências modernas do homem e da sociedade) estarão em condições de, mais tarde, escrever, em torno de Casa-Grande & Senzala, alguma coisa que realmente valha o incômodo de ler.

Por enquanto, contudo, a constatação é uma, apenas: a do silêncio quase monástico de que acha virtualmente cercada a obra do sociólogo pernambucano. Aquele silêncio que - não sei se por fatalidade inevitável na evolução do pensamento brasileiro - recompensa, como se pudesse adquirir os direitos de vaia invisível, os raríssimos livros importantes que, de vez em quando, se escrevem no Brasil.

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* Com o título "À margem de Casa-Grande & Senzala", foi publicado no: Diario de Pernambuco, 5 mar. 1944; O Jornal, em 22 fev. 1944.



Fonte: PIMENTEL, Osmar. Uma teoria corrente da cultura brasileira. In: FONSECA, Edson Nery da (Ed.). Casa-Grande & Senzala e a crítica brasileira de 1933 a 1944. Recife: Comp. Ed. de Pernambuco, 1985. p. 293-297.

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