GERMINALIDADES:
10 escritos sobre Gilberto Freyre
Simplesmente Gilberto
Pernambucanamente falando, fala-se inicialmente de Gilberto, o nosso secular e eterno Gilberto.
Nesses últimos dez anos, pude acompanhar mais de perto o mestre e, a cada visita, a cada conversa, surpreendia-me com a mocidade e alma transgressora, fértil e até "chocante" para os padrões mais avançados da nossa sociedade. Assim "é" Gilberto Freyre, sempre conjugado no presente do indicativo, "é Gilberto, sempre Gilberto".
Em 1980, próximo ao carnaval, fui visitá-lo no seu escritório na Fundação Joaquim Nabuco. Salão de tapetes roxos e telas de Vicente do Rêgo Monteiro e Cícero Dias e lá, sentado e inundado de papéis e livros, estava Gilberto. Vendo-me, abriu-se em amplo abraço, revigorando-me de pernambucanidade. Muito interessado na visita, perguntou-me sobre os meus planos para o carnaval. Relatei-os rapidamente para não interromper o precioso tempo de Gilberto, porém o brilho dos seus
olhos transpiravam numa adolescência decidida como os passos do frevo, do furor do mela-mela, da doçura dos blocos de pau-e-corda das Ruas do Recife, e confidenciou-me: "Adoro me vestir de palhaço no carnaval". Saí do escritório mais carnavalesco que antes e revi nas festas de Rua do Recife o viço que Gilberto havia transmitido pelo que vivenciou, conheceu e interpretou sobre o carnaval.
Falando do Recife, sempre a paixão de Gilberto por sua cidade irradiava-se numa posse determinada, sendo até egoísta, pois pelo que percebia ele sempre passava a imagem: "O Recife é meu", e é mesmo Gilberto, tinha certeza disso.
Aliás, se havia alguma coisa que o contrariasse mais era chamar Recife "de Recife" ou "em Recife". Pois Recife, cidade masculina, conforme afirmava sempre Gilberto, era um ensinamento permanente de invocar corretamente a sua cidade.
Quantas vezes voamos juntos do Rio de Janeiro para a capital pernambucana (época em que Gilberto ocupou cadeira no Conselho Federal de Cultura) e assim viajávamos, eu, Gilberto e D. Magdalena em conversa animada, inteligente, na qual eu mais ouvia do que falava, para "curtir" - "Gilbertear" um pouco mais. Ao quase terminar o vôo, invariavelmente, o comissário anunciava: "Senhoras e Senhores, dentro de alguns minutos chegaremos no aeroporto dos Guararapes em Recife". Nisso, "pavlovianamente", Gilberto chamava o comissário e
docemente dizia: "O Recife é uma cidade masculina - chegaremos no Recife". Também invariavelmente o comissário voltava ao microfone e retificava: "Chegaremos no Recife".
Gilberto, um homem dos detalhes e das macroformas, somente nesta relação genial pôde ler com tanta, sagacidade a vida brasileira, especialmente a vida tropical brasileira.
Homem senhor dos azulejos, mangueiras e pés de fruta-pão da sua bela chácara de Santo Antônio do Apipucos, desenhista de traços suaves e decididos, sempre mergulhado entre papéis e canetas, verteu inteligência até sempre, pois sempre será, simplesmente Gilberto, essa luz que anima e revigora a todos nós.
Por tudo isso, por simplesmente tudo isso: VIVA GILBERTO!
Criada em 11 de março deste ano para dar continuidade à obra de Gilberto Freyre, em suas muitas frentes de estudo do homem brasileiro, a Fundação Gilberto Freyre conta com um acervo de mais de 30 mil livros, Pinacoteca, hemeroteca, mobiliário e objetos de uso pessoal do mestre, além de uma coleção etnográfica com conjuntos de arte africana, arte popular brasileira e arte indígena. A casa-museu, situada no Solar de Santo Antônio do Apipucos, ganhará brevemente um prédio anexo, para brigar a biblioteca, aberta ao público, e a coleção etnográfica.
Fundação Gilberto Freyre: um museu brasileiríssimo
A casa-museu, primeiro módulo do projeto de ocupação do parque ecológico, sede da Fundação Gilberto Freyre, reúne a casa de arquitetura do século XIX, de impacto senhorial pernambucano e conjuntos de objetos colecionados, guardados e ordenados em seu interior pela família Freyre, tendo a frente o antropólogo-sociólogo Gilberto Freyre. Destaca-se no acervo a biblioteca, especializada
em ciências humanas, contendo documentos preciosos de interesse de bibliófilos, como também publicações valiosas pelas dedicatórias que amigos, admiradores e contemporâneos de Gilberto lhe ofereciam em suas obras.
Visitar o interior da casa-museu, que originalmente foi onde viveu Gilberto é sentir um pouco do ânimo e do desejo vigoroso do autor de Casa Grande & Senzala pelas coisas nacionais, especialmente pelo Recife, seu pedaço, sem dúvida o mais querido. As estantes que invadem as salas do andar térreo, somente reafirmam a dedicação e o cuidado que Gilberto sempre
dispensou aos seus livros, e às peças de prata, tão ao gosto e que lhe davam grande prazer estético.
Cada objeto, pintura, parede, chão, o ar que se respira na casa-museu traz referências sobre Gilberto, revelando sua emoção e sensibilidade diante de um acervo que enfaticamente testemunha a vida de Pernambuco, do País e, de diferentes locais do mundo.
Ainda que universal o acervo demonstra coerentemente seu caráter regional, tonificado pelo fato de ser apipuqueano ou seja, do subúrbio do Apipucos - bairro eleito por Gilberto como seu espaço para criação, reflexão e projeção sobre o homem nos trópicos, sobre o nordestino, sobre o
açúcar, os sobrados, os mocambos, sobre a vida recifense que flui tão bem na sua chácara de Stº Antônio do Apipucos, como flui pelos rios Capibaribe e Beberibe, suas pontes, ruas seculares, de cor e volume portugueses, africanos, holandeses e de tantos outros que co-formaram e co-definiram a personalidade da cidade do Recife.
Ler os objetos que fazem a casa-museu, o prédio, seus painéis de azulejos portugueses, jardins gordos e barrocos como são os tradicionais jardins-florestais pernambucanos, pontuados por escultura de louças branca, pinas do Porto, sombras de Jaqueiras, generosas Jaqueiras que no seu tempo de fruta oferecem troncos brotados, daquela fruta, como também a pitanga que foram tão do agrado do
próprio Gilberto é tarefa que se fundamenta nos recursos da moderna e avançada tecnologia, coordenando esses patrimônios de valor histórico, artístico e natural (ecológico) que deverão se intercomplementar na proposta de um eco-museu.
A pesquisa museológica é o primeiro passo do projeto, buscando resgates documentais dos objetos, incluindo-se análise do significado e também reunindo peças afins, formando conjuntos que tenham unidade, além de roteirizar o parque ecológico, numa valorização dos estudos sobre botânica e ecologia, como também sobre a arquitetura do prédio principal que é a casa-museu. Aí destaca-se
móveis em madeira de lei; santos dos séculos XVIII e XIX; painéis de azulejos portugueses que tratam da vida de Nossa Senhora; porcelanas orientais; pratas inglesa e portuguesa, peças em marfim e ébano de origem africana, especialmente de Angola; cerâmicas, peças em madeira e ferro que se apresentam como de arte popular brasileira; penca e pulseira de balangandãs da Bahia (século XIX); além da pinacoteca formada de autores brasileiros, destacando-se Cícero Dias, Lula Cardoso Ayres, Di Cavalcanti e
trabalhos do próprio Gilberto dentre demais artistas plásticos. Outro conjunto de destaque no acervo é o fotográfico, que documenta aspectos da vida social em Pernambuco no século XIX, além de farto registro visual da trajetória acadêmica de Gilberto no Brasil e no exterior, cenas familiares, cerimônias de premiação e condecoração; além de documentação sobre engenhos, igrejas, mobiliário, escultura; sobre escravos, atividades profissionais entre demais temas. Ainda como acervo iconográfico da casa-museu há a coleção de desenhos e outras técnicas que registram Gilberto pela leitura jornalística, a caricatura, cenas que apoiam a compreensão deste autor cuja marca é o pioneirismo e a transgressão como vertentes criadoras e por isto inovadoras nos terrenos da sociologia e da antropologia no Brasil. Incluída no acervo de documentos gráficos está a correspondência mantida por Gilberto com intelectuais, artistas, políticos entre outros, de relevância no País e no exterior. Para compor o complexo do eco-museu é previsto ainda o centro de documentação, prédio anexo à casa-museu, que abrigará biblioteca e coleções iconográfica e de originais de artigos, livros, correspondências, além de espaços especiais para estudo e pesquisa, ampliando-se assim a vida cultural e de serviços oferecidos pela Fundação Gilberto Freyre.
O conceito museológico neste caso, reunindo parque ecológico, casa-museu e anexo (centro de documentação) é o mais aberto e dinâmico possível, sendo um pólo permanente de investigação científica sobre a obra de Gilberto Freyre, o homem brasileiro, questões regionais, a sociedade nacional, a tropicologia e com ela uma antropologia coerente à vida no trópicos, interpretada pelos
conceitos em bases eco-sócio-econômicas.
O circuito é a integração entre a casa-museu, centro de documentação e parque ecológico amplia-se para o próprio bairro do Apipucos e mais além para o Recife. Serão roteiros de especialidades distintas, porém harmônicos pelo que encarnam de fonte e princípio básico da obra de Gilberto, sua marca telúrica nordestina, sem perder a internacionalidade.
O Recife, Apipucos, a Chácara de Stº Antônio do Apipucos e suas construções abrem-se como portas para uma compreensão geral de eco-museu orientada por mapas, textos, placas de sinalização, sendo mais um local de cultura e também de lazer, para quem visitar o Recife, bem como para os próprios
pernambucanos.
Por ser um museu aberto, cujo início está no próprio Recife, propõe-se para este eco-museu um lastro vivencial, humanizado, a partir dos monumentos arquitetônicos, os jardins florestais de Apipucos, incluindo-se ainda parte da mata Atlântica até chegarmos aos portões da chácara - parque ecológico - e entrarmos na casa-museu e assim entender um pouco mais sobre a cultura regional e nacional por um dos seus mais vivos intérpretes que é Gilberto Freyre.
Sem dúvida é uma nova e avançada experiência neste campo do eco-museu, buscando-se nos patrimônios locais, além de uma valorização do que foi construído pelo homem, os espaços ditados pela natureza e uma crescente compreensão ecológica.
De forum nacional em essência e vocação, o trabalho iniciado pela Fundação Gilberto Freyre ao propor leitura tão abrangente e coerente aos ditames da museologia/museografia dinâmica e por isto atual, prestadora de serviços, não apenas passivamente aberta ao olhar e a admiração, concentra-se como um dos grandes objetivos desta Fundação.
Pelo ser do acervo e sua situação geo-cultural, privilegiando caminhos de história, arte e ecologia, chega-se ao ideal de um eco-museu verdadeiramente nacional, nordestino em fundamentos porém relacionado, referenciado no País e no exterior. Por ser também um espaço de resistência e de análise sobre a obra de Gilberto, amplia-se o seu destino, brasileiro, bem brasileiro, sem xenofobismo porém brasileiríssimo. De brasileirismos e brasileiríssimos, são os terrenos sociológicos e antropológicos por onde pisam as obras de Gilberto, sendo o museu uma oportunidade de transmitir parcela deste mundo pernambucanamente nacional e internacional.
Gilberto Freyre e seus títulos germinais
Nos títulos dos livros de Gilberto Freyre, vê-se inicialmente, um contraponto sociológico, aparentemente bipolarizado, já induzindo o leitor e apreciador da obra a seguir um roteiro interpretativo e até mesmo propondo co-participação criativa.
Os títulos assumem amplitude acadêmica e virtualmente humanista, e reforçam laços de brasilidade. De uma visão bipolarizada pela forma: Casa Grande & Senzala (1993), por exemplo, o leitor tenderá a imaginar e a discorrer sobre situações, momentos históricos, personagens que transitam com um pé na Europa e outro na África e que agem em clima e em espaço brasileiro.
Os títulos de Gilberto Freyre seduzem o leitor e pré-conceituam o texto. O poder de síntese e de imaginação sempre tonificaram Gilberto Freyre, sendo visível a vocação de inquietude no que escreve e, no que titulou em vastíssima obra literária, de onde se extraem alguns exemplos:
Sobrados e Mucambos (1936), Região e Tradição (1941), Aventura e Rotina (1953), Ordem e Progresso (1959), Brasis, Brasil e Brasília (1960), Dona Sinhá e o Filho Padre (1964), Tempo Morto e outros Tempos (1975), Alhos e Bugalhos (1978).
O momento, o espaço, o tempo, o homem, a cultura tiveram tratamentos sensíveis e microscópicos relativados nos enfoques universais das relações e dos comportamentos sociais.
Os tratamentos de especialidade, temporalidade e ritualidade dados por Gilberto Freyre são peculiares e transgressores dos princípios de academias herméticas e distanciadas de um olhar vivencial.
Este olhar que sempre marcou a produção literária de Gilberto Freyre é em profundidade um mergulho de autor no universo de sua criação. É a intimidade do homem com a ciência.
A Ecologia na obra de Gilberto Freyre: um estudo sobre nordeste
Os grandes pressupostos teóricos do antropólogo e sociólogo Gilberto Freyre são nascentes de percepções complexas e multidisciplinares sobre o homem brasileiro, especialmente sobre o homem nordestino, não sendo, contudo, excludente e outras regiões e, principalmente, das relações do homem situado no Trópico. São incursões sociológicas, econômicas, culturais, políticas, históricas
sempre em cenário e ambiente privilegiadamente tocados por situações, contextualizações, citações e análises ecológicas. Essa preocupação e enfrentamento metodológico já existem em Casa Grande & Senzala (1.ª edição, 1933), obra consagradamente germinal sobre a vida brasileira, sobre os comportamentos e expressões de um povo em processo de formação em suas composições portuguesas, moçárabe, africana, cafuza, mestiça, miscígena por excelência, sem, contudo, tratar, por ingenuidade ou purismo, de raças formadores em tripé típico da nacionalidade brasileira. Trata com significação e em conteúdos também quase cinematográficos temas das identidades regionais, dos conceitos sutis de uma Nação, de um país.
Assim pode-se situar Gilberto Freyre como tratador de tudo ou de quase tudo. Esse interesse pelo geral e pelo particular é também um interesse pela estética regional, pela humanidade, pela natureza não isolada do homem, pela história das sociedades do Nordeste, pela água, pelo bicho, pela terra, pelo clima, pela ecologia.
Em toda a produção científica/acadêmica de Gilberto Freyre é visível o interesse e a coerência pelo homem, por uma ciência aplicável não apenas discursiva ou comumente impressa.
As preocupações sociais, a busca de soluções em projetos e ações concretas são culminadas com a criação do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, IJNPS, atual Fundação Joaquim Nabuco, FUNDAJ, na cidade do Recife, Pernambuco. É centro multidisciplinar que atende e se atém às regiões Nordeste e Norte. Fomenta por pesquisas, preferencialmente, das ciências sociais melhoria de vida - o homem nos seus mais diversos aspectos sociais, econômicos, culturais como o grande centro de nucleação, interesse e motivo gerador dos muitos projetos co-participados por instituições públicas e privadas dessas regiões, do país e do exterior.
Há um tema central além do caráter humanista, é a Tropicologia. Ela sistematiza e aprofunda, detalha e amplia o sentimento aguçado de Gilberto Freyre, sempre inquietante, pelos diferentes campos da vida social brasileira. Sensibilidade sim, ciência sempre.
Há em Gilberto Freyre uma concepção afetiva com a sua região, o Nordeste. Assim, realiza trabalhos fundamentais, como o livro, dos mais queridos pelo autor, justamente chamado Nordeste.
O livro Nordeste é o tema que a Fundação Gilberto Freyre escolheu como estudo de caso na vastíssima produção do autor. Trazendo esse livro para a Rio-92, quer também a Fundação Gilberto Freyre trazer aos estudos sobre a memória nacional o pioneirismo do autor em tratar e traduzir Ecologia em Nordeste.
Em 1937, em língua portuguesa, Ecologia é o grande tema que o autor optou por falar, criticar e alertar sobre questões, hoje, de força e expressão contemporânea. O título: Nordeste: aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil já revela as intenções e os caminhos percorridos e vivenciados pelo autor.
As transformações do meio ambiente. Estilos de colonização, de formação da vida social brasileira. Componentes históricos e antropológicos unem-se em preocupações dominantes sobre a Ecologia.
Diz Gilberto Freyre sobre Nordeste: "Este ensaio é uma tentativa de estudo ecológico do Nordeste do Brasil". (Freyre: 1967, XI).
Nos diferentes ecossistemas do Nordeste, suas ocupações no Nordeste agrário e no pastoril, transitam formas de aplicar modelos ibéricos, africanos ou autóctones conforme condições e opções ditadas pelos entornos naturais - vocações que a própria natureza traduziu e mesmo orientou pelos tipos de vegetação, terra, água e ciclos climáticos peculiares.
O que é tratado por Gilberto Freyre em processo crescente na Tropicologia, onde Nordeste é livro germinal, é, sem dúvida, norteador de grandes áreas temáticas que mais tarde são retomadas e ampliadas com a criação do Seminário de Tropicologia, hoje Instituto de Tropicologia da Fundação Joaquim Nabuco. Cabe a esse Instituto continuar as investigações e os
direcionamentos das pesquisas multidisciplinares Para projetos que mereçam aplicabilidade e que apoiem e dignifiquem o homem e a sociedade regional.
Nordeste enquanto obra atual diz da civilização do açúcar; além de enfatizar a causa ecológica, sugere metodologias de uma sociologia emergente no Brasil.
O critério deste estudo já disse é um critério ecológico. O centro de interesse, do homem, fundador da lavoura e transplantador e criador de valores à sombra da agricultura, ou antes da monocultura da cana. O homem colonizador, em suas relações com a terra, com o nativo, com as águas, com as plantas com os animais da região ou importador da Europa ou da África. (FREYRE: 1967, XI).
A pesquisa de campo, o estar em campo, enquanto maneira de fazer sociologia e antropologia e, no caso, fazer ecologia, reflete forte influência de Franz Boas, anti-evolucionista e indicador de vertentes culturais para o entendimento complexo do homem e de sua sociedade.
Os jeitos já nacionais, regionalmente nordestinos, são trabalhados como soluções que indicam formação de identidades, de padrões culturais, de encarar e se relacionar com o mundo natural. São assim vistas, como avisa o autor, chegadas etno-culturais do luso, do africano, dos relacionamentos com os autóctones. De qualquer forma há uma sinalização de amor à terra.
Além dos métodos de pesquisar em campo, significativa bibliografia apoiou a construção do estudo ecológico que é Nordeste. Gilberto Freyre recorre a Philipp von Lutzelburg sobre a botânica do Nordeste e, em outros trabalhos, sobre a esquistossomose de Manson nos rios de engenho, entre outras questões do drama social, em temas que, de maneira alguma dão a região Nordeste a saga
do Paraíso Tropical.
O discurso crítico de Gilberto Freyre é permanente.
Impossível afastar a monocultura de qualquer esforço de interpretação social e até psicológica que se empreenda do Nordeste agrário. A monocultura, a escravidão, o latifúndio - mas principalmente a monocultura - aqui é que abrigam na vida, na paisagem e no caráter da gente as feridas mais fundas. O perfil da região é o perfil de uma paisagem enobrecida pela capela, pelo cruzeiro, pela casa-grande, pelo cavalo de raça, pelo barco a vela, pela palmeira-imperial, mas deformada, ao mesmo tempo, pela monocultura latifundiária e escravocrática; esterilizada por ela em algumas de suas fontes de vida e de alimentação mais valiosas e mais puras; devastada nas suas matas; degradada nas suas águas. (FREYRE. 1967, XII).
São assumidas no convívio com o mar, com os rios, com a terra de massapê, com o sol, o sol emblematicamente tropical.
A natureza regional tende, não há dúvida, a fazer o homem, o grupo, a cultura humana à sua imagem; mas, por sua vez, o homem, o grupo, a cultura humana agem sobre a natureza regional, alterando-a de modo às vezes profundo. Há uma contemporização entre as duas tendências. De modo que o conceito de Ratzel de que 'cada povo traz em si as feições da região que habita' pode ser completado dizendo-se que não há região habitada que não tenha sobre o solo, a vegetação, a vida animal, a marca especial do povo que a habite: não só da sua técnica de produção - como se apressaria em salientar um marxista ortodoxo - como do conjunto de sua cultura e de sua personalidade ou ethos. (FREYRE: 1967, XXII).
Sem dúvida o ethos brasileiro foi lido, relido, exposto e sempre dimensionado na obra de Gilberto Freyre. Isso é marcante na própria tropicologia, nas indicações e nas maneiras de entender o homem situado no trópico.
O personagem ecológico é permanente. O homem e
a natureza ditam seus caminhos, estilos e formas de serem nordestinos, brasileiros.
Sem massapê, sem argila, sem humus, a paisagem do Nordeste - desde o Recôncavo, na Bahia, até certos trechos do Maranhão - não teria se alterado tão decisivamente no sentido em que se alterou desde os meados do século XVI: no sentido da cana-de-açúcar. No sentido da casa-grande de pedra-e-cal. (FREYRE: 1967, 7).
Uma linha de compreensão em, Nordeste é marcante: vida para todos. Para o homem e para a natureza.
O destaque para a água. Água para beber, banhar, aguar a terra, para simbolizar virtualmente condições de vida. Água boa e limpa.
No Nordeste da cana-de-açúcar, a água foi e é quase tudo. Sem ela não teria prosperado do século XVI ao XIX uma lavoura tão dependente dos rios, dos riachos e das chuvas; tão amiga das terras gordas e úmidas e ao mesmo, tempo do sol; tão à vontade dentro de uma temperatura média que em Pernambuco é de 26º,5 e de chuvas; tão feliz numa atmosfera cheia de vapor de água. (FREYRE: 1967. 19).
As peculiaridades da região Nordeste e as destinações naturais do litoral, zona da mata, agreste e sertão oferecem distintas ocupações num diálogo permanente entre o sol e a água. Em visão ancestral e mitológica. O masculino e o feminino. Uma relação onde os resultados idealizados são
fertilidade, vida do homem, vida da terra, plantas, animais.
A água dos rios e dos riachos da região se subordinou ao novo sistema de relações entre o homem e a paisagem embora conservando-se cheia de curvas e até de vontades. Sem se militarizar em canais rígidos à holandesa. (FREYRE: 1967, 21).
Água limpa, boa, tratada, pura. Água suja, poluída, água que degrada a vida. Água, elemento essencial. Água, um dos capítulos mais notáveis de Nordeste.
Esses rios secaram na paisagem social do Nordeste da cana-de-açúcar. Em lugar deles correm uns rios sujos, sem dignidade nenhuma, dos quais os donos das usinas fazem o que querem. E esses rios assim prostituídos quando um dia se revoltam é a esmo e à toa, engolindo os mucambos dos pobres que ainda moram pelas suas margens e ainda tomam banho nas suas águas amarelentas ou pardas como se o mundo inteiro mijasse ou defecasse nelas. (FREYRE: 1967, 35, 36).
Nordeste, início da civilização luso-tropical do Brasil. Um tipo de padrão, de marca e ocupação do homem na natureza.
Em tudo que está em Nordeste permanece uma ampla etnografia, nas condições de colono e de colonizado, os muitos papéis sociais. Colonos oficiais e colonos doadores e co-formadores dos estilos de ser brasileiros; o africano, por exemplo.
Os conceitos de selvagem e doméstico. O da casa, do engenho, da área do canavial. De dentro dos domínios senhoriais, o campo, a mata ditaram formas de chegar e de tratar os animais e os vegetais da terra. O domínio da cana e o domínio da mata-atlântica - exuberante e, para a civilização do açúcar, a terra doadora.
Contra a raposa e o guará, o homem do canavial recorreu à 'espera'; ao veneno na banana, para a raposa; ao veneno no peixe, para o guará. E a caça se juntou à queimada, para a destruição de quanto animal do mato teve a afoiteza de querer resistir ao avanço civilizador da cana; o sonho dos donos da terra. Pacas, cutias, tatus, capivaras, tamanduás, onças, gatos-do-mato, tudo foi ficando raro, à proporção que o mato grosso foi desaparecendo para a cana imperar sozinha. (FREYRE, 1967, 82).
Dentre muitos livros e outras manifestações científicas de Gilberto Freyre, Nordeste distingue-se, embora Casa-Grande & Senzala dite e crie estilo reconhecido e inovador, a marca gilbertiana.
Nordeste reifíca e expressa em tratamento privilegiado de Gilberto Freyre uma obra sobre a sua região, sobre Pernambuco em especial. Esse sentido regional é dimensionado em obra civilizatória no país, e principalmente, no exterior.
Nordeste, em 1992, tão atual e vivo como no ano de sua primeira publicação, 1937.
O Olhar etnográfico em Gilberto Freyre: uma incursão à sensibilidade tropical
Cana-de-açúcar, mel de engenho, doce japonês, açucareiros gordos em louça-borrão de Macau, outro de prata, não menos gordos nem barrocos; pastoris, jaqueiras, cajueiros, mangueiras, cocos verdes, louça do Porto; o Solar de Santo Antônio do Apipucos, o querido Recife, tantos motivos, sensíveis e fortes estímulos à formação do olhar, de ciência e amorosidade às coisas da terra. Bichos e
outros personagens do Boi e bichos dos canaviais; azulejos, treliças e demais soluções moçárabes; igrejas gordas e magras; holandesismos, africanismos - Xangô, pai Adão, as comidas com dendê, palavras e cânticos em Nagô -, clubes de frevo; o mundo; a América, a Europa, a África - Luanda -, a Índia, o sentimento telúrico; a causa tropical, sem dúvida foi forte e decisiva à construção do olhar sincero e crítico, olhar carinhosamente apaixonado por Pernambuco, pela alma e pela fala da sociedade local, olhar sobre águas de rios, de mar, sobre os alagados, os mocambos, situações
econômicas e sanitárias impróprias à vida, um olhar atento ao factual eminente e comprometido com a humanidade, com a compreensão do homem.
A vivência regional e internacional de Gilberto Freyre, ao mesmo tempo, vai formando um consistente processo de análise e de interpretação.
O olhar internacionalizado de Gilberto Freyre é recorrente ao olhar regional, por sua vez, fundado no olhar pernambucano. É um olhar etnográfico e eminentemente comparativo diante das relações e dinâmicas do mundo lusitano espraiado pela América, África, Índia, China e, especialmente, pelo Brasil.
A construção do olhar enográfico de Gilberto Freyre é marcada pela criatividade. Transgressor aos princípios rígidos do olhar distanciado ou do olhar exógeno do intérprete, sem compromisso com a causa estudada.
Na pesquisa em campo, preferencial das ciências sociais, o olhar etnográfico é formado pelo método, pelo seguimento de estilos ou tendências acadêmicas a que o pesquisador se filiou e onde permanentemente encontrar respostas e suficiência teórica. O aspecto inovador, inaugurador, é a grande constante que faz o olhar etnográfico de Gilberto Freyre.
Fortemente influenciado por Boas, Gilberto Freyre adquire conduta extremamente flexível nas interpretações do homem regional, sobre sua cultura e meios expressivos de comunicação e simbolização da vida, do trabalho, da festa e demais rituais sociais.
Boas, rotulado pela história das ciências como morfologista, revela nas suas descobertas e pioneirismo certo valor estético latente, ao mesmo tempo autenticador das expressões peculiares do próprio homem, que, em Gilberto Freyre, ganha nova e especial dimensão, quando do encontro com a realidade brasileira.
Gilberto Freyre é um esteta por excelência, esteta na forma literária, nos pincéis e na maneira aguçada e plural de, em campo, traduzir conteúdos etnográficos fundamentais à análise, prospecções históricas, sociais, antropológicas sobre o homem brasileiro.
O morfologismo de Boas é trabalhado por Ruth Benedict, uma das suas principais seguidoras a quem Gilberto Freyre se reportava ao empregar os conceitos apolíneo e dionisíaco. Estes conceitos, para Benedict, tentam formalizar e identificar vertentes distintas da produção cultural e, assim, ser fiel ao antievolucionismo de Boas, fixando, dessa feita, os fundamentos do culturalismo. Diz Benedict, em Padrões de Cultura: "A unidade sociológica
significante não é a intuição, mas a configuração cultural".
As formas culturais Apolínea e Dionisíaca são ampliadas e colocadas por Gilberto Freyre com sabor bem particular. O jogo simbólico do que é Apolíneo ou do que é Dionisíaco é dimensionado em paixão telúrica e ao mesmo tempo baseado em amplo manancial bibliográfico, diga-se atualíssimo no campo das ciências sociais e antropológicas.
No Mercado de São José, num clube de frevo, comendo um bolo, indo ao xangô; lendo coleções de fotografias de sinhazinhas e antigos engenhos senhoriais; transitando por ruas onde são notadas influências moçárabes na arquitetura entre muitos outros contatos e experiências no Recife, traz Gilberto Freyre ao mundo cotidiano em forma e análise, rico em descobertas de uma nascente tropicologia.
De bicicleta, venho fazendo meu field-work de estudante de Boas (Antropologia) e de Giddings e Thomas (Sociologia), desde que continuo estudante desses velhos mestres. Que continuo a estudar. Venho colhendo muita nota de possível interesse sociológico e antropológico sobre a vida da gente das mucambarias do Recife. Sobre a gente adulta e sobre a criança. Pois continuo com a idéia de uma História da vida de menino no Brasil que venha dos primeiros tempos coloniais (cartas jesuíticas, relações, diários de viajantes) aos dias atuais ( ... ).
Com Paranhos, vou estendendo esse field-work
ao interior, velhos engenhos e povoações típicas, onde ainda se pode encontrar a gente
rural mais pura em sua cultura. Uma cultura em grande parte folclórica.
Essencial que tenha contacto, com pescadores. Que estude suas superstições. As suas crenças ligadas ao cotidiano social. (...)
A pesquisa de campo dos repertórios sociais, gera motivação permanente que resulta em descobertas sobre o homem e sua cultura.
Com Pedro Paranhos já percorri toda a zona mais antiga de engenhos de Pernambuco e de Alagoas, tendo ido às da Paraíba com José Lins do Rego. Os engenhos do Sul de Pernambuco e de Alagoas são de um tipo: os do Norte de Pernambuco, de outro; os da Paraíba, de outro. É claro que as semelhanças entre eles são maiores que as diferenças. Mas há os três tipos. Preciso de conhecer os do Recôncavo Baiano e os do Rio de Janeiro.
O sentido regional, inter-regional e as comparações em tipos e formas culturais transregionais e também um interesse muito particular pelos segmentos sociais africanos e na interpretação do ethos brasileiro marca o pensamento continuo de Gilberto Freyre.
Um field-work que planejo realizar com cuidado é um estudo dos brasileiros negros do Recife mais apegados à cultura africana. Outro, o de sobreviventes de sociedades ameríndias - os índios de Águas Belas, por exemplo.
Boas, orientador de Herskovits traça estudos teóricos que levam à consolidação dos conceitos tradicionais de acumulação, que o próprio Herskovits chamou de two ways process. Abrem-se, assim, sensivelmente, formas de compreensão das sociedades complexas - sociedades preferencialmente estudadas por Gilberto Freyre, que ampliam os conceitos de Boas e Herskovits com emprego de métodos etno-históricos e em processos formadores da própria tropicologia.
O fulcro selvagem preconizado por Lévi-Strauss, em o Pensamento Selvagem, sempre foi reelaborado na compreensão pluralista de Gilberto Freyre, dando ao fator emergencial da cultura seus membros, eco-sócio-culturais.
Achei outro dia uns restos da minha coleção de palavras (idade do colecionador: 11 para 13 anos ( ... ).
Palavras - que vêm sendo repetidas por outros (...) sinal de que têm algum it ou glamour para outros atores e ouvidos, além dos meus: molemente maduro, ruas de doces sombras, igrejas gordas, voz oleosa, igrejas brasileiramente amarelinhas, gorda comida de engenho, pastéis untuosamente eclesiásticos, agudos relevos góticos, gosto todo afrancesado, a mais oriental e mole das preguiças, relevo festivo de cor, sabor bem da terra (...).
Descobertas permanentes de pensamentos e ações,
dionisiacamente transgressoras, perante acordos e alianças apolíneas,
fazem de Gilberto Freyre um cientista atraente e, principalmente, novo; diria: atual e
ainda prospectivo para o futuro das sociedades complexas.
Descubro a José Lins do Rego o meu segredo: o livro que, nos meus raros momentos de ânimo, desejo escrever. Um livro sobre a minha própria meninice e sobre o que tem sido nos vários Brasis, através de quase quatro séculos, a meninice dos vários tipos regionais de brasileiros que formam o Brasil. Mostro-lhe as notas que já tenho sobre o assunto. Peço-lhe que guarde segredo. Não quero que ninguém saiba que me preparo para escrever este livro diferente de todos os livros. Diferente das simples memórias de infância. Diferente dos romances que fazem os meninos os seus heróis, considerando-os simples futuros homens. Diferente das histórias sociais em que o adulto toma todo o espaço e domina todas as cenas. O adulto de sexo chamado forte.
O método da história de vida, quando integrado aos sinais de cultura ancestre e de cultura vivencial dão a base etnográfica, caminhos e situações especialíssimas para as interpretações autobiográficas e de referências familiares, todos sociologicamente marcantes no cenário regional.
A decadência dos pastoris é uma das tristezas no Pernambuco de hoje. Vai-se a um pastoril e é um desalento. Parecem mulatinhas doentes, as pastoras. Sifilíticas. Tísicas. Sem voz (...). Não há folclore que resista a essa cada dia maior falta de saúde de nossa gente do povo (... ).
A estética regional traduzida por Gilberto Freyre é comprometida com os padrões de vida, com o fato cultural eminentemente humanizado.
Sol agressivo este meu sol do Recife. Vejo-o quase esbofetear os estrangeiros, tal a intensidade da luz e de calor. ( ... )
Só quem goste de sol, vibre com o sol, sinta com o sol, pode verdadeiramente sentir, amar e compreender o trópico.
O Trópico é marcado e expresso por relação íntima com o sol, com a vida orientada por condições ecológicas unidas aos diferentes meios transformadores e autenticadores do homem - do homem tropical, do homem situado no Trópico, como localiza o próprio Gilberto Freyre.
O homem representa-se, manifesta-se materialmente, diz quem é enquanto indivíduo, enquanto componente de uma sociedade, principalmente na comida - em materiais, tecnologias, resultados gastronômicos, rituais de servir e rituais de comer.
A etnografia de Gilberto Freyre foi marcada por preocupação e interesse pela comida, diga-se pela publicação de Açúcar, entre outros.
Açúcar - livro aparecido em 1939 - é uma das expressões mais características do esforço de valorização daquela arte ou daquela tradição - a culinária - em que se prolongou o interesse pioneiro, pelo assunto, dos Regionalistas, Tradicionalistas e, a seu modo, Modernistas, do Recife. Atitude, para a época, um tanto corajosa. Pelo menos escandalosa.
Açúcar sem dúvida dionisiacamente inaugurador em território consagradamente apolíneo.
Na estética da apresentação do doce e do bolo e não apenas no seu difícil e delicado preparo, está uma das melhores tradições do Nordeste agrário do Brasil; a mais artisticamente ligada ao seu açúcar: ao seu melado, à sua rapadura, ao seu açúcar em torrão ou em pó - este por sua vez, associado a outra arte: a do açucareiro de louça fina ou de prata lavrada, quase sempre bojudo, barroco, elegantemente gordo, completado por concha ou colherinha também da prata (...).
Ainda no campo da estética regional, sobre criações artesanais/artísticas para os rituais de apresentar e servir doces, é nascente em busca etnográfica o artesanato em papéis trabalhados pelas doceiras.
Se em Portugal foi Emanuel Ribeiro, em Doce nunca amargou... quem como etnógrafo ilustre, deu dignidade cientifica à arte tradicional do papel recortado, para enfeite de doces e bolos, quer em pratos ou travessas ou bandejas, quer em tabuleiros ou cartuchos franjados, por algum tempo popularíssimo no Recife - no Brasil foi o livro Casa-Grande & Senzala que primeiro pôs em relevo essa até então quase de todo desprezada perícia de velhas ou genuínas doceiras. Perícia quase rival da das rendeiras. Tais doceiras, como artistas, não consideravam completos os seus doces ou seus bolos, sem esses enfeites; nem dignos os mesmos doces ou bolos, dos gulosos mais finos, sem assumirem formas graciosas ou simbólicas de flores, bichos, figuras humanas - flores, bichos, figuras que no Brasil deixaram por vezes de serem clássicos, europeus, para se tornarem, os românticos, da terra. Não tanto as formas que fossem dadas por formas, um tanto impessoais, mas as que se requintassem numa como escultura em que as mãos das doceiras se tornassem, muito individualmente, mãos de escultoras.
Compartilhar de uma mesa forrada com toalha de linho ou esteira forrada de folhas de bananeira impõe ética e compromissos diferenciados diante dos tipos de alimentos e de bebidas que serão servidas.
O Babalorixá Adão me convida para almoçar com ele no Fundão. Almoço, me diz ele, de Xangô. Religioso. Secreto também. Um verdadeiro banquete. Quitutes que nunca vi! Todos com nomes sagrados em nagô. Temo a principio não gostar de alguns. Porém gosto. Adão me diz: 'Agora somos mais amigos do que nunca".
Comportamentos culturais do pesquisador são locados pelas vivências em campo, mais ainda em Gilberto Freyre ao assumir pelos valores regionais posturas tropicais; convive, contudo, com internacionalidade que lhe proporciona conhecer transregionalmente o patrimônio e o homem local - homem nordestino, especialmente o pernambucano.
Das bebidas regionais atualmente mais características do Nordeste, destaquem-se: o caldo de cana doce, o caldo de cana picado, o licor de jenipapo, o vinho de capu; os refrescos de maracujá, de caju, de cajá, de pitanga, de carambola; o cachimbo (mel com cachaça), o bate-bate (maracujá com cachaça), a pitanga à moda de Apipucos; pitanga com cachaça em estado quase de cognac tropical (...).
Etnografia no Trópico brasileiro, etnografia em outros campos de similitudes e de recorrências histórica, civilizatória e principalmente de expressão cultural.
Continuo impressionado com as semelhanças da Índia Portuguesa com o Brasil. Ou do Brasil com a Índia Portuguesa, desde que, daqui assimilou o português muito valor oriental, hoje dissolvido no complexo brasileiro de cultura: uma cultura luso-tropical tanto quanto a da Índia. Creio ter encontrado nesta expressão - luso-tropical - a caracterização que me faltava para o complexo da cultura hoje formado pela presença portuguesa em terras tropicais e que tem na identidade de condições tropicais de meio físico e na identidade de formas gerais de cultura com substancias de raça e de cultura as mais diversas - suas condições básicas de existência e de expressão.
Etnografia comparada, método que, para Gilberto Freyre, possibilitou reforçar seus princípios tropicológicos.
Recebem-me os hindus de Queula no seu velho pagode com festas que parecem as brasileiras - hoje raras - de pátio de igreja, de novena de santo, de levantamento de bandeira também de santo: com um ruído de fogos, de foguetes ( ... ).
A África, muito próxima de Gilberto Freyre, em vivência regional e em estudos, muitos pioneiros e em questões levantadas em consistência acadêmica, social e política como, por exemplo, por ocasião do I Congresso Afro-Brasileiro reunido no Recife em 1934.
Ao avistar Luanda, lembro-me dos versos folclóricos que o velho poeta Ascenso Ferreira
(...) - costuma recitar no seu vozeirão às vezes lírico:
- Luanda, Luanda, onde estás?
Luanda está agora diante de mim. Há anos - na verdade, desde menino - que desejo conhecer Luanda. Ver Luanda. Ela agora se escama aos meus olhos de brasileiro como se não tivesse segredo algum a guardar de mim.
Ainda sobre o olhar afro-pernambucano de Gilberto Freyre:
Foi de Angola a célebre Rainha Ginga que se ergueu contra os portugueses com todo o seu vigor meio matriarcal de mulher-homem, ainda recordado no Brasil pelas rainhas de maracatu (...).
Em toda a obra de Gilberto Freyre está inscrito e explícito seu olhar etnográfico, descrevendo num misto magnífico de prosa/poesia - textos que dão ao esteta a certeza da ciência.
Em outro pernambucano tão atento e fiel à causa do homem, Manuel Bandeira, vim buscar no poema Estrela da vida inteira fonte para concluir e, sentimentalmente, tentar traduzir esse olhar, olhar e estilo gilbertiano.
Prova, olha, toca, cheira, escuta cada sentido é um dom divino.
Casa-grande & Senzala: 60 anos depois
Sem dúvida Germinais. Livro e autor. Casa-Grande
& Senzala - Formação da Família Brasileira sob o Regime de Economia Patriarcal e
Gilberto Freyre. Tanto se escreveu e falou sobre, analisou, discutiu, criticou, amou,
odiou livro e autor. Tanto ainda se fazem necessários novos estudos sobre o livro e
também sobre o autor.
Germinais, sim! Casa-Grande & Senzala, um
caminho multiplicado, pluralizado por Gilberto Freyre presente no que escreveu, publicou,
revelou e inquietou pensamentos; fomentou ações, acirrou relações, relativizou
situações e fatos da vida brasileira, este Brasil regional, do Nordeste, de Pernambuco,
amorosamente, do Recife. Ao mesmo tempo, germinalmente, gerações, seguidores, estudiosos
de Gilberto e sua obra ou, ainda, os influenciados pelas múltiplas e inter-relacionadas
teorias sobre a vida, o homem situado no Trópico, descortinam, inauguram sempre um viço
e uma novidade própria do estilo Gilbertiano, melhor dizendo dos estilos Gilbertianos.
Sessenta anos depois, obra e autor têm em comum dinâmica eternidade.
É luxuriante, densa, rica, sedutora cada página, passagem, história, seção, áreas desenvolvidas e expostas em Casa-Grande & Senzala.
Gilberto fez ou, melhor, faz como ninguém, um cotejamento sociológico e antropológico entre estética e caráter. É um sentido vigoroso de esteta, de historiador, de cronista, de viajante da sua própria vida e entornos da família, de ancestrais, de engenhos, de casas-grandes, de senzalas, de
capelas, de igrejas, de festas de santos, de cozinhas, de gentes. Gentes, sim! Uma forte e permanente presença das gentes que conheceu e que revelou em suas buscas etnográficas; de gentes que conheceu nos documentos de arquivos, nos livros, nas fotografias, nos manuscritos, nos jornais, entre outros. Passa uma multidão de gentes, de rostos, de situações que fazem os destinos de despotismos e de solidariedades, de confraternização da família patriarcal brasileira do século XIX.
Tradições presenciadas, outras informadas pelas
palavras e outras, ainda, buscadas nos documentos todos fundados numa espécie de estado
de atenção científica permanente abasteceram Gilberto e um inédito saber sobre o
homem brasileiro, sobre o homem do Nordeste, atendendo à vocação de valorizar as
culturas, e não a raça, inaugurando, assim, no Brasil, teorias de Franz Boas.
O próprio autor revela interesses por fontes
tradicionalmente não utilizadas para uma chamada ciência social ainda emergente no
Brasil. Gilberto realiza sociologia do urbano e dá voz às tradições populares do
Recife. Vivencia, convivência, conivência todas juntas, apoiaram Gilberto nessa obra
civilizatória, hoje com 60 anos de vida, diria, muito jovem ainda.
Inquietude, viço e descobertas sempre marcaram a
produção de Gilberto - exemplarmente Manifesto Regionalista, Açúcar, Nordeste, todos
dos anos 30. Destaco, também nos anos 30, o I Congresso Afro-Brasileiro reunido no
Recife.
Diz o autor do prefácio à 1.ª edição de Casa-Grande
& Senzala (1933), "Em outubro de 1930 ocorreu-me a aventura do exílio.
Levou-me primeiro à Bahia; depois a Portugal, com escala pela África. O tipo de viagem
ideal para os estudos e as preocupações que este ensaio reflete".
Abastecer-se de recursos documentais seus
trabalhos e, assim, criar sobre e interpretar essas mesmas fontes dão coerência à
pluralidade de Gilberto Freyre em ser ator e autor de suas histórias e pesquisas sobre a
vida e a cultura do Nordeste.
Gilberto é regional, é nacional, é
transnacional, é particular e é geral; o singularmente plural Gilberto Freyre.
O ser colonial, bicolonial já do homem
português, do africano um colonizador de fato, do índio visto pela "bondade
cristã", e os muitos momentos das relações, das intervenções de cultura, dos
meios naturais, ecologia, do Trópico sustentam, fundamentam esse sedutor Gilberto, visto,
e traduzido na sua obra fundamental - Casa Grande & Senzala.
Ancestralidade e memória em Casa-grande & Senzala: sobre Gilberto Freyre e seu Éthos recifense
Auto-referências por observações, argüições
em casa e na rua, emprego de métodos próprios para lidar com a história oral, unida à
materialidade de fotografias, manuscritos, livros, objetos em seus contextos e outros de
uso pessoal; aqueles dos convívios amorosos do cotidiano significaram emblemas de
situações remotas, ancestrais ou ainda rememorizaram lembranças, trazendo ao
contemporâneo conteúdos, registros em processos tradutores de uma antropologia emergente
e sociologia também emergente.
Fortalecido pelos muitos olhares e
interpretações, Gilberto Freyre busca nos seus entornos familiares uma genealogia
fincada no açúcar, na água dos açudes, nos verdes de fruteiras e canaviais, nas
arquiteturas de engenhos - casas grandes, senzalas, capelas -, nos tipos de gentes, sim,
gentes, o grande princípio ético norteador de Casa-Grande & Senzala.
Uma espécie de conservação do passado transita
como vocação principal do livro. Essa conservação é em si um instrumento também
memorialista, quase museológico naquilo que tem de descrição, identificação e desejo
permanente de guarda. Sem dúvida, o documento conserva o momento; é aspecto e é, ao
mesmo tempo, total. O documento é, no caso, o próprio livro. Casa-Grande &
Senzala, um documento. Casa-Grande & Senzala, enquanto obra científica,
traz em si um valor de metadocumento. É o documento do documento.
Trata de personagens harmonizados pelos
diferentes relatos da palavra e dos textos, incluindo-se os iconográficos, situando-os em
espaços referenciais de poder. Poder de homem, poder de mulher, poder de criança; do ser
negro em condição escrava, situando os papéis oficiais e outros não-oficiais, na
maioria das vezes detentores do verdadeiro poder na casa, no engenho, na construção
social e cultural da região.
Gilberto Freyre repleto de lembranças vai
formando a urdidura conceitual da sua obra básica, obra focal sobre o Brasil.
"Um dos meus maiores desejos é rever o São Severino dos Ramos, o engenho da minha meninice. A Casa-Grande & Senzala, o engenho mesmo.
São Severino dos Ramos: o engenho onde brinquei menino! Um velho engenho perto de Pau d'Alho de gente da minha mãe, que também o conheceu menina.
Encontrei-me já com o Jorge, meu primo, da gente de São Severino. Perguntei-lhe pelo Engenho. Ele me disse que estava aquilo mesmo. São Severino - o santo - sempre muito festejado na sua capela que era também a capela da casa-grande (. . .)" (FREYRE, 1975: 126)
A memória aqui discutida transcende os limites
da memória psicossocial, dos mecanismos de lembranças, da memória-hábito. Certamente,
melhor situando, segundo Bergson, imagem-lembrança, formação não apenas
individual, mas socializada.
A lembrança pura, quando se atualiza na imagem-lembrança,
traz à tona da consciência um momento da vida único, singular, não repetido,
irreversível. Daí, também, o caráter não mecânico, mas evocativo, do seu
aparecimento por via da memória.
A imagem-lembrança define, qualifica,
individualiza o ato; o sentimento é vita activa.
Contudo, os sinais da memória são as grandes
pistas da pesquisa, das buscas em arquivos, das buscas nos imaginários do cotidiano,
temporalizando o iconográfico vivencial. São referências de cores, de luminosidades, de
morfologias já sensivelmente identificáveis nos seus contextos tropicais.
"O Trópico é marcado e expresso por relação íntima com o sol, com, a vida orientada por condições ecológicas unidas aos diferentes meios transformadores e autenticadores do homem - do homem situado no Trópico, como localiza o próprio Gilberto Freyre." (LODY, 1992: 94)
O Trópico, o Nordeste, Pernambuco e,
especialmente, o Recife, trazem em Gilberto Freyre, um sentimento abastecido de
conhecimento, de intimidade. Gilberto, um íntimo da sua cidade, do seu Recife, cidade
masculina, ao mesmo tempo, cidade-sereia.
Nas expressões marcantes das arquiteturas estão
sinais referenciais e preferenciais de Gilberto para penetrar e entender sua cidade e,
assim, entender o homem construtor, o homem habitante, o homem usuário.
"Muita falta traz aos meus olhos, nesta minha cidade do Recife, o H maiúsculo de uma catedral. Um H enorme, animador, protetor, no centro mesmo da cidade.
É uma cidade, o Recife, que só se faz notar pelos 11 magríssimos dos seus sobrados mais esguios e mais altos, pelos VV invertidos dos seus telhados mais agudos, pelos MM de algumas de suas igrejas mais velhas, pelos BB deitados de barrigas para o ar das Basílicas como a da Nossa Senhora da Penha. Nenhum H verdadeiramente H. A bela igreja de São Pedro dos Clérigos é a construção que mais se aproxima dessa forma que, sendo a de uma letra do asfalto, é também a do tipo mais nobre da arquitetura cristã (. . .)" (FREYRE, 1975: 140)
A fé, a religião, melhor dizendo, as religiões, a fé inter-religiosa à moda brasileira expõe a Igreja enquanto um monumento oficial católico, sendo, contudo, um momento interpretativo das particulares construções de crença, de devoção religiosa.
Santo no altar da capela do engenho, santo no
interior das casas, santo em oratórios que abrigam também lembranças de antigos
familiares; são ancestrais que recebem orações e preitos de fé, formas de marcar
lembranças e relações para com a ampla e complexa compreensão do sagrado.
Santos populares, santos patronos. Nossa Senhora
do Carmo, padroeira do Recife, é Oxum para o xangô. Unem-se os significados da mulher,
da santa, da mãe com os orixás das águas doces, das águas germinais dos rios
Capibaribe e Beberibe.
"Vou sempre à Igreja de São Pedro para sentir diante dela e no seu pátio alguma coisa de castiçamente recifense que ao mesmo tempo nos integra no vasto sistema hispânico de igrejas que levantadas ao Novo Mundo, para aqui vêm trazendo, desde o século XVI, alguma coisa de nobre do velho catolicismo peninsular. Adaptando-o às paisagens americanas. Às paisagens tropicais. São Pedro tem alguma coisa de catedral mexicana, de catedral peruana, de catedral da América espanhola que se harmoniza com não sei o quê de espanhol que no Recife parece juntar-se à tradição portuguesa de arquitetura de casa e de igreja (...)
Se eu tivesse que escolher hoje o recanto mais recifense do Recife escolheria o Pátio de São Pedro dominado por sua igreja ( ... )." (FREYRE, 1975: 144)
A trilogia igreja/capela, casa-grande e senzala
induz emblematicamente também a uma espécie de trindade formadora da vida do homem
regional, da formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal.
A casa, no caso a casa-mando, a
casa-grande, também sintetizava os papéis econômicos, morais, éticos, culturais. Na
condição de casa-síntese e de mando foi o espaço consagrado às práticas e
passagens de europeus, africanos, índios e surgentemente brasileiros ou muitos em
condições de abrasileiramento.
"Mas a casa-grande patriarcal não foi apenas fortaleza, capela, escola, oficina, harém, convento de moças, hospedaria ( ... ). Às vezes guardavam-se jóias nas capelas, enfeitando os santos. Daí Nossas Senhoras sobrecarregadas, à baiana, de tetéias, balangandãs, corações, cavalinhos, cachorrinhos e correntes de ouro." (FREYRE, 1980: 70).
O indígena, o colono oficial português, o negro
na sua condição escrava e de colono não-oficial transitam, cruamente na sexualidade, na
higiene, nos hábitos alimentares, nas tipologias dos homens, mulheres, crianças, bichos,
casas, igrejas e natureza doadora e determinante das maneiras, das criações em confronto
com tradições européias, de uma ampla inventiva nacional brasileira. Inventiva muitas
vezes mais próxima dos ideais africanos, aos modelos mouros, aos modelos da África
Ocidental, aos modelos de portugueses mouramente adaptados num caldo forte e
transoceânico da própria civilização portuguesa. Evoca-se em documentos, em
vivências, em olhares, muitas vezes auto-olhar: Gilberto no Recife encontra quase
síntese da nacionalidade, da família patriarcal, o homem de moral moura, de
permissividade aos apelos sensoriais, de controles pudicos do corpo e, ao mesmo tempo, de
revelações sexualizadas no comer e se lambuzar, de suar, de misturar desejos da boca com
desejos do corpo, com desejos sublimados pela fé, fé muitas vezes alegórica,
teatralmente incluída no circuito do poder, uma estética de fé, uma estética de
comportamento. Estéticas de canaviais, estéticas de engenhos, casas-grandes, de
senzalas, de capelas, de ruas, de praças, de festas, de comidas, de altares, de
procissões. Tudo é evocativo no lastro da memória senhorial visível no Recife, da
memória familiar, cumprindo um texto social, evidente e forte, do papel
masculino-provedor, do papel de pai, de patriarca, por isso também de mãe.
É a memória transposta em método
auto-referencial, certamente de base e significado autobiográficos.
Casa-Grande & Senzala é um épico dos
possuídos e dos despossuídos na oficialidade da história. É um livro que resolve
componentes da cidadania, dos papéis sociais, da vida brasileira, da cara e do jeito do
brasileiro.
Casa-Grande & Senzala é um continuar de
descobertas, demonstrando um autor de criações nascentes nos processos das pesquisas, um
autor em permanente comunhão com sua cidade; um autor co-personagem nas paisagens da sua
própria obra.
"Ao escrever Casa-Grande & Senzala procurou o seu autor - que, concordando com o Professor Fernand Braudel, se considera escritor filiado principalmente à tradição espanhola de Ramon Lulion: remoto espanhol que para compreender o islamismo desdobrou-se em mouro - desdobrar-se em personalidades complementares da sua e que a auxiliassem na percepção de uma realidade múltipla e complexa. Levou esse desdobramento de personalidade ao extremo arriscado, perigoso, mesmo, de, desdobrando sua personalidade de origem etnocultural e de formação sociocultural além de principalmente européias, principalmente senhoril, procurar sentir-se também, em seus antecedentes e no seu próprio éthos, não só senhoril como servil; não só europeu como não-europeu; ou, especificamente, indígena, mouro, judeu, negro, africano, e, mais do que isto: mulher, menino, escravo, oprimido, explorado, abusado, no seu éthos no seu status, por patriarcas e por senhores." (FREYRE, 1980: 90)
Para escrever Casa-Grande & Senzala, Gilberto
Freyre se sentiu Casa-Grande & Senzala, recuperando trajetórias e maneiras de viver
de seus personagens, alguns do convívio, outros dos episódios, outros ainda na
composição dos símbolos de uma heráldica nacional.
Humanização, uma civilização na busca do seu
modelo de humanização. Humanização nas relações interpessoais, humanização entre o
sagrado e o homem.
"O Menino Jesus só faltava engatinhar com os meninos da casa; lambuzar-se na glória de araçá ou goiaba; brincar com moleques." (FREYRE, 1980: 68)
São paisagens humanas, e outras paisagens tão
bem continuadas em Nordeste - contextos ecológicos para casas-grandes, senzalas,
homens, animais, em autenticações próprias da região, autenticações ungidas pelo sol
e pelo açúcar.
Casa-Grande & Senzala é inaugural, é
uma obra permanentemente inaugural em transgressões, inaugural em determinismos de povo,
de sociedade, de cultura, de Brasil.
Com a primeira edição em 1933, hoje, 60 anos
depois, Casa-Grande & Senzala é obra nascente, tem viço e jeito de coisa
nova.
Estética e Região: em torno de Gilberto Freyre
A dimensão estética
O presente ensaio é uma leitura contextualizada
da obra de Gilberto Freyre enriquecida por impressões e convivências com o autor. Seu
gênio e seu espírito criador são sobejamente conhecidos, tratados e vinculados à
história das ciências sociais e antropológicas no país; um dos seus filões mais
expressivos e imanadores do saber e do reconhecer valorativamente a região Nordeste é
contudo nascente na opção de esteta. Sem dúvida, esteta em potencial e em consonância
aos métodos histórico, e etnográfico que alimentam sua vastíssima e germinal
produção de livros, artigos, desenhos, pinturas e demais linguagens expressivas, por ele
empregadas e direcionadas à análise regional.
Enquanto inaugurador de caminhos e revelador de
perspectivas e interpretações, Gilberto Freyre conseguiu combinar a especificidade
científica à sensibilidade do olhar, do vivenciar, do comer, do beber, do falar, do
sentir, do ser plenamente pernambucano, regionalmente nordestino e, ao mesmo tempo,
articulador internacional e vocacionadamente 'apipuquiano'
A dimensão estética em Gilberto Freyre é
dinâmica e mutável, como as suas diferentes maneiras de empregar métodos analíticos,
produzir textos ou, ainda, manifestar-se através do imaginário comprometido à temática
regional. Esta visualidade é abastecida de tropicalidade e coerente aos entornos
não-nacionais ou regionais. Assim, o referencial estético é, cada vez mais, reforçado
quando comparado ao não-regional, e Gilberto Freyre ensaia uma etnoestética comprometida
com o seu vôo de universalidade.
Para Hegel o princípio estético central está
no gerador do belo que, por sua vez, é a aparência sensível da Idéia
pressupondo-se um conceito de espírito absoluto. Ser absoluto sendo regional, ser
absoluto sendo universal, total dialética de Gilberto Freyre que é lançada como
solução que permanece em boa parcela de sua obra. Na construção de patamar estético
através de contraponto de contrastes - relações bipolarizadas entre campos e
temas inicialmente distanciados, Gilberto Freyre encontra pontos históricos, sociais e
culturais que se tocam, dialogam e, ao mesmo tempo, reforçam as polaridades, que aliás
dão fascínio todo especial à verve gilbertiana.
Isto é notado nas titulações das obras
germinais de Gilberto Freyre como:
Casa Grande & Senzala (1933)
Sobrados e Mucambos (1936)
Região e Tradição (1941)
Aventura e Rotina (1953)
Tempo Morto e Outros Tempos (1975)
Alhos e Bugalhos (1978)
Esta preferência pelo contraponto sociológico e
antropológico privilegia um valor dominante que é o desvendar e também inaugurar
observações, determinar critérios interpretativos sobre o cotidiano mais comum em vez
de notabilizar o épico, o social ritualmente efêmero. Com sua força literária,
localizada entre a prosa e a poesia, dá mobilidade e trânsito aos fatos do Nordeste, do
homem situado no Trópico, do brasileiro, da sociedade nacional.
Kant interrogava-se sobre as possibilidades do
juízo universal - cada obra de arte está afeta, enquanto registro particular, a uma
dominação universal. Particular e geral, local e nacional, nordestino e brasileiro são
alguns dos mais determinantes caminhos da estética gilbertiana. Sua obra está, portanto,
merecendo estudos acurados por estetas e filósofos da arte que leiam áreas convergentes
originais da arte e da ciência, ressaltando o trabalho de um cientista-artista.
Sem dúvida, a organização genética da obra
gilbertiana é nascente da fertilidade interior da sua própria capacidade criativa,
alimentada pela ciência.
A unidade e a pluralidade são também abordagens
estéticas que ampliam sua preferência bipolarizada diante da produção cultural
regional.
A unidade do logos fundada na unidade
transformante do contexto; por isso é dinâmica e mutavelmente companheira das teorias
sociológica e antropológica adequadamente sensíveis às novas visões e
interpretações sociais e culturais. A estética gilbertiana segue este princípio, onde
o saber é social e culturalmente contextualizada, ressaltada, entretanto, a sensibilidade
de ler o homem situado no Trópico com o poder de um esteta.
Sua obra demonstra compromissos marcados entre o
social e o ecológico, entre componentes da ciência e o âmbito da arte. Comprova que a
arte não é um elemento facultativo da ciência.
Para exemplificar casos marcantes da estética
preconizada por Gilberto Freyre trago dois campos temáticos que assumem a expressão
especial no tratamento regional. São eles (o ver e o comer) - comer com os olhos, comer
com a boca e o espírito, comer os fragmentos da cultura, olhar e comer ao mesmo tempo. O
como são inseparáveis as percepções e o como estas percepções orientam
etnoestéticas do ver e do comer são tratados em dois trabalhos selecionados como estudos
de caso - Manifesto Regionalista e Açúcar.
A obra de Gilberto Freyre é pictórica, saborosa
na leitura e induz ao sabor físico das delícias regionais: é o exercício do metasabor.
Etnoestética do ver
O entorno tropical - luminosidade, clima,
vegetação, hábitos, roteiros e ruas, o litoral, os rios, os tipos humanos, cores da
natureza e dos processamentos vindos das mãos do homem integram a construção do ver,
que não se isola do ouvir, do sentir, do perceber globalmente direções e soluções da
região.
Do Manifesto Regionalista de Gilberto
Freyre chegam alguns exemplos de análise estética fundada no olhar educado às formas,
morfologias urbana e rural que são consoantes às percepções do esteta-cientista.
"(...) a arquitetura tradicionalmente portuguêsa do Recife: honesta arquitetura cheia de boas reminiscências orientais e africanas, inclusive a da cor, a dos verdes, azuis, roxos, amarelos e vermelhos vivos dos sobrados altos, das casas de sítio, das próprias igrejas" (FREYRE, 1976: 37)
A vertente etnohistórica é fundamental à obra
de Gilberto Freyre, e as descrições etnográficas ganham repertório acuradíssimo de
símbolos culturais e de sugestões reflexivas sobre homem, habitação e cidade.
Ainda em espaço urbano, outra análise transgride os padrões e exalta o cotidiano com profundidade e sensibilidade de esteta.
"(..) e o tabuleiro foi se tornando (..) expressão de arte (..) uma especialidade das baianas ou das negras (...). Algumas ficaram famosas pelo asseio dos seus trajos de cor (...) pela alvura dos panos quase de altar de Igreja dos seus tabuleiros; pelo primor dos enfeitos de papel azul, vermelho, verde amarelo, dentro dos quais arrumavam seus doces ou seus quitutes: papéis caprichosamente recortados " (FREYRE, 1976: 53-4)
As lidas dos ganhos ou vendas de rua ganham
nova leitura com o interesse científico que acorda ao belo regional, não um belo
gratuito - belo solucionadamente afro-pernambucano, sendo ainda lusitano, de formação
oriental e também africana.
"(..) as mulheres do povo que andam pelas ruas e estradas ao sol do meio dia protegidas contra esse sol excessivo por xales, mantilhas panos da Costa atirados elegante e liturgicamente sobre a cabeça e os ombros de dez ou vinte formas diversas que merecem um estudo, tanto é o que podem revelar sobre as culturas orientais e africanas que se transferiram para o Brasil com esses xales, mantilhas e panos de diferentes modos, maometanos ou não, das mulheres os usarem". (FREYRE, 1976: 64-5)
A roupa representa um dos temas mais atraentes
dos estudos antropológicos, porém a academia não valoriza ou empreende trabalhos em
quantidade e qualidade para revelar e justificar comportamentos e padrões culturais.
Gilberto Freyre ressalta valores comunicativos do vestir, do ritualmente vestir e do
significar socialmente. Dá a roupa um espaço novo, pioneiro e integrador à imagem
social e cultural do homem da região.
"O próprio coco verde é aqui considerado tão vergonhoso como a gameleira, que os estetas municipais vem substituindo pelos ficus benjamin, quando a arborização que as nossas ruas, parques e jardins pedem é a das boas árvores matriarcais da terra ou aqui já inteiramente aclimatadas: pau darco, mangueira, jambeiro, palmeira, gameleira, jaqueira, jacarandá" (FREYRE, 1976: 57)
A ecologia situada na compreensão regional e na
harmonia cultural do Nordeste também expressa um valor estético de convivências e de
preservação às espécies nativas e outras trazidas da Ásia, da África e da Europa.
O verde circundante às casas, os
jardins-florestais ainda vistos no Recife e Olinda são casos exemplares de concepções,
de estética e urbanismo em prol da humanização da vida nas cidades.
"Conheci uma negra velha que toda tarde conversava com uma jaqueira como se conversasse com uma pessoa íntima."(FREYRE, 1976. 67-8)
A árvore é um monumento verde; algumas são
sagradas e, assim, parte da natureza é sacralizada pelo homem, atribuindo funções de
deuses a certos espécimens botânicos.
A relação homem-árvore é ainda mantida em
terreiros do Recife como o Sítio - Terreiro de Pai Adão -, modelo do Nagô
tradicional, através de magnífica gameleira, que representa orixás e ancestrais do
terreiro.
É telúrico o sentimento em relação ao verde e
ainda mais ao verde sagrado, o que categoriza e aciona uma consciência paisagística,
eminentemente estética e cultural.
Vale destacar que a ecologia regional foi
enfática e cientificamente tratada por Gilberto Freyre, em especial em Nordeste - texto
atualíssimo que oferece aos ecólogos meios e informações orientadoras da
implementação de políticas e procedimentos valorativos do homem, da natureza e da
região.
Etnoestética do comer
Gilberto Freyre soube como ninguém ressaltar o
gosto pela comida regional - comida símbolo, comida ritual, comida e tecnologias, comida
e tradição entre outros princípios interpretativos que revelam comidas, homens,
momentos sociais e especialmente os procedimentos do comer feitos e consumidos nas casas,
nos engenhos; vendidos e consumidos nas ruas - todos possuidores de aspectos e suportes
que fazem a personalidade, o reconhecimento e a atração visual combinada ao desejo e
sensação do gosto.
A cultura de um povo começa pela boca, pelo que
mimeticamente é ingerido de história e de representações sociais.
A comida existe para ser vista, compreendida,
admira, religiosamente consumida e comentada. Está na festa, no cotidiano, sobre a mesa
guarnecida com toalha de linho e porcelana, ou no tabuleiro de madeira, enfeitado de papel
de seda colorido e recortado.
Açúcar é um texto, que caminha na
história civilizatória da cana-de-açúcar ilustrada com exemplos da culinária
cuidadosamente situada em preparo, sugestões dos gostos e principalmente dos
oferecimentos que fazem o gozo estético diante de cada prato e situação social
específica.
"(..) reanimar não só a arte
arcaica dos quitutes finos e caros e em que se esmeram, nas velhas casas patriarcais,
algumas senhoras das mais ilustres famílias da região e que está sendo esquecida pelos
doces dos confeiteiros franceses e italianos, como arte - popular como a do barro, a do cêsto,
a palha de ouricuri, a da piassava, a dos cachimbos e dos santos de pau, a das
esteiras, a dos ex-votos, a das rêdes, a das rendas e bicos, a dos brinquedos de meninos
feitos de sabugo de milho, de canudo de mamão, de lata de doce de goiaba, de quenga de
coco, de cabaça - que é, no Nordeste, o preparo do doce, do bolo, do quitute de
tabuleiro, feito por mãos negras e pardas com uma perícia que iguala, e às vezes
excede, a das sinhás brancas. (FREYRE, 1976: 45)
A estética do construtor e a do receptor são
consoantes à estética regional - açucareira por excelência - marcas de uma região
fundada nos doces e do instrumental de engenhos e cozinhas de casas grandes e de senzalas.
"(..) o alfenim, o alféola, o cuscuz (..) Foram eles se conservando nos tabuleiros ao lado de brasileiríssimos: as cocadas - talvez adaptação de doce indiana as castanhas de caju confeitadas, as rapaduras, os doces secos de caju, o bolo de goma, o munguzá, a pamonha servida em palha de milho, a tapioca seca e molhada, vendida em folha de bananeira, a farinha de castanha em cartucho, o manué " (FREYRE, 1976: 53)
O trânsito da culinária regional é relativizado ao de diferentes culturas - Oriente e Portugal orientalizado e ainda África e Lisboa africanizada - que exibem fascínio de imagens, de pratos e de soluções técnicas nos seus preparos como nos rituais de oferecimento e consumo.
Gilberto Freyre aufere status de arte aos
doces mais elaborados ou às tapiocas feitas na hora para consumo imediato. Aufere ainda
valoração simbólica às cores e aos espaços de ocorrência de cada prato, quem o faz,
quem come, quem é "digas o que comes e eu te direi quem és".
Para Ernest Fischer a arte é o meio
indispensável para a união do indivíduo com o todo; reflete a infinita capacidade
humana para a associação. Digo ainda para a expressão coletiva, de caráter regional,
de princípios geradores de identidade, de preferências por certos materiais, cores,
soluções formais e funcionais. Há em Gilberto Freyre o valor sociológico de auferir ao
discurso da estética regional caráter de resistência, de reconhecimento, de sentimento
telúrico sem xenofobismos ou visões excludentes do não-regional. A arte é a
descoberta, anunciou Platão, e a descoberta do regional é cotidiana, vivencial,
necessitando de intérpretes para ler e devolver ao próprio ser regional
mundovisões específicas, bem com outras, além delas. Assim Gilberto Freyre,
desenvolvendo uma teoria perceptiva, das etnoestéticas da região, contribui para
melhor definir o formato e a consistência de patrimônio cultural, de arte regional, de
antropologia da arte, de linguagens expressivas em territórios particular e universal.
Neste contraponto está uma fórmula de
sensibilidade e de método científico especificamente gilbertiano.
Etnobotânica em Gilberto Freyre: sítio ecológico de apipucos, um estudo de caso
Gilberto Freyre inicia assim o prefácio de Nordeste
(1937):
"Este ensaio é uma tentativa de estudo ecológico do nordeste do Brasil - de um dos nordestes, acentua-se bem, porque há, pelo menos, dois, o agrário e o pastoril; e aqui só se procura ver de perto o agrário. O da cana-de-açúcar, da Bahia ao Maranhão, sem nunca se afastar muito da coisa."
Os diferentes contextos, verdadeiros cenários
naturais com ou sem a intervenção do homem, bem situam um olhar permanente sobre o meio
ambiente, a natureza plena, em plantas, bichos, água, ar e o homem.
Gilberto Freyre, trazido à pesquisa de campo por
Franz Boas, toma contato direto, vive, co-participa dos seus entornos sociais. Procura
sempre relacionar e relativizar as conversas das culturas, sem hierarquizar,
contudo, buscando entender, melhor dizendo, traduzir as emergências de um
povo em constante processo de construção das suas identidades.
Ecólogo nato, Gilberto valoriza a natureza e
aponta as formas de o homem atuar nas matas, nos tratos com os animais, na formulação de
dietas alimentares, na mitologia e na sacralidade de religiões plurais vindas da África
e acrescidas de santos católicos, sempre tendo como orientação do seu objeto uma
compreensão complexa, a mais bem medida possível, para dizer quem são o homem e seu
território, Nordeste, um exemplo.
Se no Nordeste em tema e em construção teórica
do seu livro Germinal, de 1937, Gilberto desvenda um Nordeste plantado na monocultura
colonial pela força do açúcar - e, como tudo girando em eixo político, social e
econômico natural luxuriantemente tropical -, também vê o mundo chegando a esse
Nordeste pelas espécies vegetais da Índia, da China, da África, das evidentes
presenças do homem do mundo à época, o homem português.
As rotas de Diogo Cão (1482), Bartolomeu Dias
(1487), Vasco da Gama (1497 e 1498), Gaspar Corte Real (1500), Pedro Álvares Cabral
(1500), Francisco Serrão (1512) e Fernão de Magalhães (1519 e 1521) fazem os contatos,
descobrem e difundem culturas, introduzem novos hábitos de ver, de ser, de crer,
transportam frutas, espécies vegetais diversas, intercambiam os continentes, aproximam os
homens pelas diferenças.
Entre tantas espécies, destaco a
cana-de-açúcar, tema central de Gilberto em Nordeste. A espécie é originária
do sudeste asiático, cultivada há milênios. As primeiras notícias na Europa sobre
"uma espécie de bambu que produzia mel sem intervenção das abelhas servindo
também para preparar uma bebida inebriante" foram levadas à Europa pelos generais
de Alexandre Magno.
Os árabes introduziram a cana no norte da
África e na Europa mediterrânea.
Pio Correia refere-se, também à chegada da cana
no Brasil, entre 1502 e 1503, vinda da Madeira.
Chegar ao Brasil e marcar a presença colonial se
dá por uma espécie botânica, a cana-de-açúcar, tecnologias, feitorias, instalações,
trazem o valor econômico do açúcar com a espada e com a escravidão africana.
O apogeu açucareiro dá-se no século XVII, 230
engenhos em laboração, produzindo cerca de 2 milhões de arrobas.
"Esse Nordeste de terra gorda e ar oleoso é o Nordeste da cana-de-açúcar. Das casas grandes dos engenhos. Dos sobrados de azulejo. Dos mucambos de palha de coqueiro ou de cobertura de capim açu. O nordeste a primeira fábrica brasileira de açúcar - de que se sabe o nome - e talvez a primeira casa de pedra e cal, da primeira igreja no Brasil, da primeira mulher portuguesa criando menino e fazendo doce em terra americana".
No Brasil, a cultura do açúcar entrou em grande
competição com outras atividades econômicas. A esse respeito, destaco a corrida aos
minérios a partir de 1713.
Pode-se afirmar que as atividades açucareiras
portuguesas terminaram no Brasil. Com efeito, no progresso das navegações para o
Oriente, os portugueses atingiram a costa oriental africana, onde já havia cultivo de
cana. A cana, já conhecida na Índia e em territórios próximos, consegue ampla difusão
com os árabes, que há muito navegavam o oceano Índico, possivelmente introduzindo essa
espécie na África oriental, com o mesmo procedimento praticado com outras plantas
originárias do Oriente.
Em Nordeste, Gilberto Freyre reforça a imagem da
imigração verde.
"Nestas terras conquistadas aos índios pelos colonos de Duarte Coelho, se semearam sementes e se plantaram árvores vindas da Índia e da África."
A ocupação das matas, os lençóis verdes dos
canaviais, os entornos das casas com jardins e pomares vão definindo o que se poderia
chamar de um paisagismo utilitário e que até hoje, em certos locais do Nordeste,
especialmente no Recife, se vê, numa mistura de mata nostálgica com jardins de
fruteiras, em arbustos e árvores muito juntos, tropicalmente próximos para darem
frescor, brisa e frutas carnudas e doces.
As convivências com as espécies nativas e as
exóticas foram integrando culturalmente hábitos e representações simbólicas nas
permanentes trocas das relações sociais. Assim, a cultura regional nordestina recebeu e
incorporou a mangueira, da Índia, o dendezeiro, da África; as bananeiras hoje cultivadas
são híbridos entre a musa balbisíana e a musa acumínata, originárias do
sudeste asiático, devem ter chegado à África oriental e à mediterrânea com os
navegadores árabes.
Para forrar o chão em que a procissão vai
passar, para aromatizar ambientes de festas familiares ou mesmo para o chão dos salões
de danças dos terreiros de Xangô, no Nordeste, especialmente em Pernambuco, a caneleira
está presentes, integrando seu perfume, como o das pitangueiras, com usos sociais
similares.
Originária do Ceilão e conhecida como canela
fina, canela verdadeira ou canela do Ceilão é a Cinnamomum
Zeylanicum.
Pio Correia diz que a canela foi introduzida no
Brasil, vinda do Ceilão, pelos jesuítas, e Pitta diz que "a canela em sua própria
espécie ( ... ), veio da Ásia ao Brasil por ordem real e acrescentando que "delas
há já no Brasil tão grande número, que supre dignamente à de Ceilão por todos estes
países."
Quase como emblema tropical, o coqueiro é
identificação do litoral nordestino, das praias, da natureza simbolizada em água
saudável, refresco dos dias quentes, ritualmente bebido sob o sol e o céu azul da
região.
Supõe-se que o coqueiro venha do sueste
asiático ou das ilhas polinésias, sem que não falte contudo, quem o considere
originário da América ou, simultaneamente, da América e do sueste asiático.
Os portugueses, entretanto, tomaram contato com o
coqueiro quando da viagem de Vasco da Gama à Índia, segundo descrição de um piloto
sobre as terras de Moçambique, "as palmeiras desta terra dão um fruto tão grande
como melões e o miolo de dentro é o que comem ( ... )".
Hoje, o coco, na sua versão coco verde
antropomorfizado, marca promocional da cidade do Recife, é um convite ao prazer tropical,
tendo a espécie - segundo muitos botânicos exótica - sido incorporada aos costumes e
cultura local.
Gilberto Freyre sempre aponta para as
interpretações, os encontros de culturas, as transferências simbólicas dessas mesmas
culturas, com relação ao Brasil, e com mais acuidade o Nordeste, e com mais amorosidade
Pernambuco - consegue transmitir os processamentos históricos, econômicos, sociais e
civilizatórios.
Aproximando essa trajetória e trazendo-a para a
intimidade da casa, o bairro de Apipucos é um território singular, escolhido e
interpretado por Gilberto Freyre como um quase pedaço do paraíso, paraíso tropical.
Para destacar os cuidados com sua natureza, escolho o trecho árvores que resistem
do livro Apipucos que há num nome? como um roteiro afetivo e etnográfico dos
monumentos verdes tão presentes nesse subúrbio do Recife.
"Apipucos está cheio de mangueiras, jaqueiras, cajazeiros, abacateiros, cajueiros ( ... )."
As mangueiras, como já vimos, são da Índia e
ficaram brasileiras nos usos e costumes regionais.
A jaqueira também procede da Índia e esta bem
integrada ao cenário botânico brasileiro. Sabe-se que no cumprimento de instruções
régias, os vice-reis deveriam mandar "em todas as monções" para a África,
Reino e Brasil plantas do interesse "que se dão nesta Ásia, para ver se podem
produzir no estado do Brasil, nas partes que a experiência for mostrando se dão
melhor".
Em doce, em gomos, ao natural a jaca é um fruto já brasileiro em caráter e em feição, e até heraldicamente, nominando grupo carnavalesco do Recife, a Turma da Jaqueira. A jaqueira é ainda árvore sagrada nos candomblés, representando o orixá Ogum, civilizador dos Yorubá que domina a
tecnologia do ferro, das ferramentas agrícolas e bélicas.
O cajazeiro é americano, embora alguns viajantes
afirmem sua presença no continente africano. O fruto, as folhas, a madeira têm usos
diferentes e marcantes na cultura brasileira. É espécie freqüente nos pomares do
Nordeste, juntamente com a manga, fruta-pão, entre outras.
Os abacateiros são originários da América
Central, México e norte da América do Sul. A espécie já se encontrava espalhada pelo
continente americano quando lá chegaram os europeus. Para os americanos, é fruto
afrodisíaco e, em regiões da América Central, árvore quase sagrada.
Já o cajueiro é originário do litoral
atlântico americano tropical, incluindo as Antilhas. Alguns botânicos, ao estudarem a
distribuição das espécies do gênero, circunscreveram a origem do cajueiro ao Norte e
Nordeste do Brasil. Durante muito tempo, o cajueiro era a árvore que produzia refresco,
bebida fermentada, aguardente e comida.
Como outras frutas tropicais, o caju é um
fruto-emblema brasileiro, culturalmente incluído no imaginário social e cultural do
Nordeste. Sua difusão no mundo português ocorreu na África e na Ásia, sendo hoje
espécie mundialmente conhecida e economicamente atuante enquanto fonte de diferentes
produtos comestíveis.
Gilberto alerta ainda em Apipucos,
"As mangas, as jacas e os abacates dos sítios ainda são famosos. São de árvores
que resistem a ameaças de poluição. Árvores valentemente ecológicas. Insistentemente
telúricas. Famosas são também suas carambolas das quais alguns moradores do lugar fazem
um refresco delicioso ( ... )".
A carambola chega do continente asiático ou das
Molucas - arquipélago da Indonésia. Nas Molucas, é freqüente: "A árvore a que
chamam quaramboleiras"; e Garcia Orta refere-se à sua presença na Índia, supondo
ter vindo das Molucas quando os portugueses estiveram nessas ilhas à procura de cravo,
entre outras especiarias.
Acredita-se que a caramboleira foi introduzida no
Brasil em 1817 pelo agrônomo francês Paul Germain, trazida da Maurícia para Pernambuco,
de onde se espalhou por todo o litoral brasileiro.
"Ainda mais famosas são suas imagens. Dessas há em Apipucos quem faça um verdadeiro cognac meio misterioso. Mistura de cachaça da chamada de cabeça, vinda de engenhocas das melhores e de arcaicos engenhos, com licor de violeta feito mãos de freiras virgens e místicas; e com canela também de Apipucos e com outros ingredientes quase maçonicamente secretos."
A pitangueira, Euqenia Pitanga, é uma espécie marcante do nosso litoral, conhecida pelo fruto avermelhado e pelo aroma característico de suas folhas, que têm diferentes usos em nossa cultura.
No caso de Apipucos, especialmente do Sítio
Ecológico da Fundação Gilberto Freyre, reunindo coleções e bibliotecas na Casa-museu
e o seu entorno verde, denominado pelo próprio Gilberto, Sítio Ecológico. O acervo
verde é constituído, principalmente, por cajueiros, cajazeiros, açaiteiros,
pitombeiras, oitizeiros da praia, pitangueiras, jaqueiras, mangueiras, dendezeiros,
macaibeiras, acácias-grandes, palmeiras imperiais, goiabeiras, flamboyants, juazeiros,
viuvinhas, coqueiros, seriguelas que servem de abrigo e alimento para canários,
sanhaços, beija-flores, bem-te-vis, sabiás, ratos silvestres, sagüis, lagartos-teju,
camaleões, calangos, entre outros que vivem ou passam pelo ambiente vizinho de um pedaço
de Mata Atlântica e frontal ao Capibaribe.
Ninguém melhor do que Gilberto para introduzir
histórica e culturalmente o conceito de ecologia no Brasil.
Retomando o livro Nordeste, em 1937 a
palavra ecologia é publicada pela primeira vez em língua portuguesa. É mais uma das
muitas inaugurações teóricas de Gilberto que se une a outro caráter marcante de sua
obra que é o da atualidade. Há um presente do indicativo permanente nas conjunções
Freyrianas. Com tal atualidade, seus estudiosos e analistas ficam, inicialmente
fascinados, perguntando-se se o sociólogo-antropólogo teria o dom da futurologia.
Temperos e temperamentos em Gilberto Freyre: um gosto pela cozinha regional do nordeste
A região, o Nordeste, identificações e
identidades, roteiros com emoção e ciência chegam por Gilberto Freyre em eixo decisivo
que é o açúcar. Açúcar antes de tudo. Um emblema colonial europeu e do trabalho
africano.
Falar em Nordeste, em tradição é falar nos
caminhos apontados por Gilberto Freyre, compreendendo interdisciplinar e
transdisciplinarmente seus campos preferências de estudo e de interpretação.
Grande veio do Manifesto Regionalista está
na cozinha, na mesa, na quitanda, no tabuleiro.
O alimento um dos mais expressivos sinais usados
por Gilberto para caracterizar, identificar, marcar a Região.
As traduções dos alimentos combinam vivências
de campo, experimentos de energia combinadamente apolínea e dionisíaca.
O Manifesto Regionalista, celebrado agora
nos seus setenta anos, expõe o valor do convívio, da socialização à mesa como
fala-nos Gilberto de reuniões de participantes do regionalismo "em volta da
mesa de chá com sequilhos e doces tradicionais da região - inclusive sorvete de
coração da Índia".
Embora para valorizar o local, o regional, o
típico - do tipo, do peculiar, do próprio - a orientação de Gilberto Freyre
vale-se de um olhar ampliado, maior, extra-região. Gilberto preconiza o mundializar,
avança em teorias pós-comunicação de massa, antevendo culturas sem fronteiras
políticas.
O Manifesto Regionalista busca no
particular sua comunicação com o universal, recuperando da voz popular os traços mais
definidores do homem regional. Novamente, Gilberto lança a culinária com sinal
diacrítico de sua compreensão plural e abrangente de patrimônio cultural, indo além
dos testemunhos da história oficial, buscando o não épico como caminho
valorativo das manifestações urdidas pelo cotidiano, pela vivência, pela sociedade e
não pelo fato heróico, episódico do poder temporal.
"Desejar um museu regional cheio de recordações das produções e dos trabalhos da região e não apenas de antiguidades ociosamente burguesas como jóias de baronesas e bengalas de gamenhos do tempo do império".
Há também no Movimento Regionalista uma
visão muito atualizada do conceito, de museu. Digo que, virtualmente, Gilberto via o
Nordeste como um espaço ecomuseológico e expressava também sensibilidade e amplitude
sobre patrimônio cultural, que ia além dos prédios oficiais, das esculturas barrocas,
apontando patrimônios culturais de valor etnográfico e ecológico.
Ciente do elemento civilizatório pelo açúcar,
Gilberto conduz textos valorizando o Trópico, reafirmando seu compromisso ideológico com
a qualidade de vida; vida criativa e empreendedora no Trópico.
"Açúcar que está à base de uma doçaria, rica como nenhuma, do Império, e à base, também, de uma doce aristocracia de maneiras, de gostos, de modo de viver e de sentir, tornado possível pela exportação do mascavo tão internacionalmente famoso.
(...) O Nordeste tem o direito de considerar-se uma região que já grandemente contribuiu para dar à cultura ou à civilização brasileira autenticidade e originalidade e não apenas doçura e tempero (...)".
Ainda nessa vocação etnomuseológica, Gilberto
retoma freqüentemente roteiros gastronômicos como auferidores da cultura e da sociedade.
Avança indicando uma geografia da alimentação, oferecendo ao leitor visões espaciais e
estéticas que simbolizam o mercado, a feira, a quitanda, o tabuleiro, a casa. Na casa
destaca a mesa e a sobremesa. Com o açúcar e frutas regionalmente aclimatadas, expõe
contextos econômicos e étnicos co-formadores de uma civilização tão bem introduzida
pelo açúcar como pode-se ler em Nordeste, Aspectos de influência da cana
sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil (1937).
Na rua, no tabuleiro, comer doces, quitutes para
consumo rápido sem deixar de viver o sabor, apreciar a morfologia do alimento,
intercambiar sinais de apreciação com o entorno - arquitetura, rua, gente, clima,
árvores.
"Pois há comidas que não são as mesmas compradas nos tabuleiros que feitas em casa. Arroz doce, por exemplo, é quase sempre mais gostoso feito por mão de negra de tabuleiro que em casa. E o mesmo é contado de outros doces e de outros quitutes. Do peixe frito, por exemplo, que só tem graça feito por preta de tabuleiro. Da tapioca molhada, que de rua é servida em folha de bananeira e que é mais gostosa. Do sarapatel: outro prato que em mercado ou quitanda é mais saboroso, do que em casa finamente burguesa..."
Açúcar em tema e em livro - Açúcar,
Em torno da etnografia, da história e da sociologia do doce no Nordeste canavieiro do Brasil (1937), Gilberto retorna uma vocação etnomuseológica, enfatizando a cultura material, ampliando limites de apreciação vivencial e científica sobre diferentes representações da cultura do açúcar na região Nordeste, pontualmente no seu querido Pernambuco.
Açúcar tratado com o mel e o engenho
próprios de um apaixonado, Gilberto Freyre.
"O livro de Dona Constança traz muita receita de doce de fruta do mato em que se sente a influência romântica do indianismo ou do nativismo político sobre os gostos elegantes de sobremesa: "doce de abacaxi à moda de Pernambuco", "doce de caju à moda de Pernambuco", "doce de guaijiru à moda de Pernambuco", "doce de babosa, de bacuri, de mangaba, de sapoti, e até de pitomba, tudo de Pernambuco".
Na crescente valorização da cultura popular,
combina-se a ecologia e suas muitas possibilidades etnobotânicas integradas a economia,
história social, antropologia e outros campos das ciências humanas.
Por profunda identificação no seu Santo
Antônio de Apipucos, Gilberto mergulha no seu Recife - cidade sereia - reunindo um
imaginário que vem com cor, forma, festa, música, literatura com o gosto dos alimentos,
das frutas, dos doces, das marcas de uma civilização destacada no Nordeste: a
pernambucana.
"A cozinha das casas-grandes de Pernambuco pode-se dizer que nasceu debaixo dos cajueiros e se desenvolveu à sombra dos coqueiros, com o canavial sempre de lado a lhe fornecer açúcar em abundância; e perto - na água do mar, na do rio, na das lagoas, no mangue, na horta, na mata - quase ao alcance da mão da cozinheira, "o melhor pitu do mundo" (o pitu do rio Una), a cavala
perna-de-moça, a cioba, o caranguejo, o siri, o gaiamum, o sururu, a curimã, a carapeba, o araçá, o jenipapo, a manga jasmim, o maracujá, a goiaba, o abacaxi, a canel, fruta-pão, a jaca, a sapoti, o abacate, o tamarindo, o quiabo, a macaxeira, o jerimum".
O Manifesto Regionalista, nasce também de um
auto-olhar, quando Gilberto faz uma história da vida no Recife, dá dimensão
internacional e pode teluricamente se assumir nordestino, pernambucano, recifense.
Há um tom de orgulho no Manifesto
Regionalista, um veio amplamente desenvolvido pela Tropicologia, provando a
possibilidade a diversidade de vidas do homem situado no Trópico.
Um trecho do próprio Manifesto bem traduz o orgulho
das soluções, dos encontros culturais, das relações interétnicas. Assim, um ethos
nordestino capacita sua própria trajetória de povo.
"Êste Congresso de Regionalismo vem pôr em relevo o fato de que ser alguém regionalista não significa apenas, nesta parte do Brasil, gostar de mobília de jacarandá ou de casa colonial, de igreja antiga e de azulejo velho. Há quem tenha gôsto e até paixão por esses valores aristocráticos - alguns, hoje, relíquias para serem conservadas em museus - mas despreze os que considera rústico e, que, entretanto, estão à base da estrutura mesma da nossa cultura regional. Há quem se suponha mais devotado que os demais às tradições da região, mas seja incapaz de descer à cozinha para provar o ponto de um doce de goiaba por experimentar o tempero de um aferventado de peru; ou ao mercado para comer um sarapatel da marca dos que fazem a fama do Bacuráu; ou a Dudu para saborear uma peixada à moda da casa, com pirão e pimenta; ou ao fundo de um velho sítio cheio de mangueiras e jaqueiras para chupar manga e comer jaca com as mãos, lambusando-se; ou a uma boa queda d'água de engenho, para um regalado banho, fazendo antes de entrar n'água o sinal da cruz e chupando um ou dois cajus entre goles de cachaça que guardem a alma e o corpo dos perigos que povoam tôdas as águas. Há quem não queira nem olhar para um mucambo quando o mucambo tem lições preciosas a ensinar aos arquitetos, aos higienistas, aos artistas. Há quem evite passar por tôda rua estreita ou por todo beco antigo, quando a rua estreita ou beco antigo é outro mestre de urbanismo e de higiene".
Há uma latente modernidade que atualizada em
pós-modernidade, mundializa a cultura, internacionaliza os povos. Tudo isso vem no
manifesto, evidenciando a postura regional de Gilberto e sua condição reconhecida de
homem do mundo.
Ele mesmo, Gilberto, avisa que a tradição
regional não é objeto da imobilidade e critica entendimentos sobre o Nordeste como um
espaço de sobrevivências "uma terra de relíquias".
Gilberto busca justamente a criação, a
recriação, destacando convivências e conivências com outras culturas.
Procuro reconhecer e reconhecer o Manifesto
Regionalista como um experimento sobre o Nordeste, sem nenhum tipo de nostalgia ou
tentativa excludente da realidade nacional.
Sinto ainda encontrar no veio Gilberto Freyre uma
opção pela antropologia da alimentação, um roteiro nascido no açúcar, revelando
temperos, temperamentos, gostos e aí, também, gosto literal pelos doces.
Alimento, um emblema heráldico regional.
"(...) uma cozinha em crise significa uma
civilização inteira em perigo..."
LODY, Raul. Germinalidades: 10 escritos sobre Gilberto Freyre. Rio de Janeiro: o autor, 1997. 56p.
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