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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



GILBERTO FREYRE, NOVA FORMA DE EXPRESSÃO


José Américo de Almeida

Bem merece Gilberto Freyre esta proclamação pública de seus méritos de trabalhador intelectual que realiza uma obra da melhor brasilidade. E é mais uma figura nossa que passou as fronteiras, projetando o nome do Brasil.

Seria bastante apontar seu mais belo título, o de grande escritor, para justificar esta homenagem de homens de letras ao mestre na arte de escrever.

I. O ESTILISTA

O estilo que sempre colaborou no êxito da criação literária vulgarizou seus livros. Dispondo de rara faculdade de expressão, um privilégio inato, porque se nasce bom escritor, como se nasce bom conversador, sua cultura expandiu-se com o mesmo sucesso por todos os níveis da inteligência.

Encaro-o por êsse prisma para bem avaliar um elemento da maior significação na atividade mental, seja qual fôr o gênero. O que mais se vê é imitação, labor construtivo, artificialismo, uma perfeição forçada que chega, às vêzes, a tornar-se enjoativa. Ou, então, o clichê de formulário. Assim o melhor estilo será sempre o pessoal, por sua espontaneidade e autenticidade, quer a natureza ostensiva, quer mais freqüentemente a face oculta, revelada pela evasão artística. Só dessa forma, por mais rico ou belo que pareça o estilo, não denotará afetação. Predomina, como diria Montaigne, um vigor constante e natural, marca de sinceridade na arte.

A personalidade preside tôda elaboração do espírito, tanto mais estimulante, quanto mais tocada pelos influxos que a reativam ou enriquecem. Gilberto Freyre é um sensitivo, um amante dos bons quitutes, do bom vinho, das boas viagens, das boas companhias, com um prazer que se espiritualiza, fino e discreto. Essa acuidade está tôda inteira na sua maneira de exprimir-se, como quem saboreia a matéria. Daí, seu talento descritivo.

Se é reflexão e pensamento, o temperamento ainda sobressai, direto, incisivo e, quando é o caso, irônico, sem perda da simpatia humana que irradia de sua convivência. Um olfativo, um visual, um tato agudo de todo o mundo sensível - eis aí o que explica sua objetividade e, ao mesmo tempo, a poesia que brota de sua prosa musical. Porque êsse realista é, paradoxalmente, um poeta que copia das coisas vivas as formas mais sedutoras, coando-as e retocando-as no seu ritmo interior. São pinceladas de realista ou paisagista molhadas no próprio sangue e vibrando com os próprios nervos. Sentimentos de verdade e de beleza. Tudo disciplinado por um pudor do lirismo igual ao pudor das imagens da técnica maliciosa de Machado de Assis, sem poder impedir que desabrochem, aqui e ali, verdadeiros poemas.

Custa a crer como um filho da Universidade conseguiu libertar-se de todo academicismo, de tôda retórica, de tôda ênfase, para criar um meio de expressão todo seu, com aquêle horror ao precioso, ao empolado, ao gordo e mole, sempre pobre de solidez e substância. Desdenha o brilho como a um inimigo da alma. Reconheço que êsse tom representa, em grande parte, a influência disciplinadora da intimidade entretida com uma literatura, de linhas sóbrias e sólidas. Não deixou de surpreender-me sua maior continência em Interpretação do Brasil, por ter sido escrito em língua inglêsa.

Com essa independência que coloca a individualidade acima do cediço, do gasto e do convencional granjeou êle mobilidade, plasticidade e, notadamente, expressividade, retemperando a linguagem, já tão bem estudada, inventando novos contornos e insurgindo-se contra as regrinhas que só fazem entrevar e invalidar o vernáculo.

Adquiriu, acima de tudo, a virtude da precisão, de propriedade e clareza, ideal para um ensaísta que não quererá perder-se em teses nevoentas. Menos pela seleção das palavras do que pela justeza e oportunidade do seu emprêgo, bem como pela fôrça de sugestão, sem nenhum impressionismo. A expressão feliz não é a mais bonita e, sim, a mais adequada e insinuante. Vai a ponto de brincar com as frases, tirando dêsses caprichos os mais fascinantes efeitos. Achados de construção de um feitio delicioso para não cair na monotonia da forma. É essa sua originalidade de estilo, quanto mais inesperada, mais natural. O que se pode chamar de imaginação verbal, por sua variedade e sensação de surprêsa. O melhor estilo, é, com efeito, o que mais se aproxima da maneira de falar - está visto, corretamente - por sua impressão de vida. Terá dêsse jeito mais impulso comunicativo, alcançando pronta percepção, especialmente com o mínimo de terminologia técnica de que tanto abusaram Euclides da Cunha na prosa e Augusto dos Anjos na poesia, dois gênios incontestados da literatura brasileira.

Gilberto Freyre logrou o mais difícil: ser simples sem ser vulgar. Simplicidade e densidade, claridade e sentido.

Tanto o estilo simples como o trabalhado podem incorrer no maneirismo; alguns modernistas ficaram ameninados arremedando o linguajar do povo. Falar errado tem suas desculpas; o que não se pode perdoar é escrever errado. Tirar da bôca plebéia para incorporar à arte depurando é outra coisa.

Em Gilberto Freyre a familiaridade do estilo dá o maior encanto. Constitui, muitas vêzes, um detalhe que seria impuro ou ousado, se não fôsse exigência técnica para uma caracterização antropológica ou desenho de costumes, tudo expresso com um ar de confidência que não escandaliza, por não ser cru nem brutal. O humor com que escritores russos, sobretudo Gógol e Chekov, envolviam os pequenos fatos entrosados na narrativa, encobrindo-lhes a insignificância, é um dos seus recursos, utilizado com parcimônia. Despe-se, então, da aparência solene para adoçar as passagens incolores.

Admira como um escritor de sua erudição se apresenta tão pouco livresco. Conquanto indique honestamente tôdas as fontes consultadas, sem alienar a autonomia mental, seus conceitos não se apóiam no volume das citações. Deixa de lado a sobrecarga e assimila e dilui até extrair a essência, como a velha imagem da abelha que transforma a flor em mel. O argumento de autoridade passa a ser simplesmente uma colaboração para robustecer o pensamento, quando as interpretações coincidem. Serve subsidiariàmente para o desenvolvimento das teses sem nenhum pedantismo.

O estilo de Gilberto Freyre traduz, em suma, uma personalidade que se afirma e uma vitória dessa personalidade.

Construiu sua obra com êsse modêlo inconfundível que não terá imitadores. Incentivou, porém, estudiosos e ficcionistas jovens que se inspiraram nas suas lições para novas experiências de um vigor que não grita, de um ritmo possuído de encantadores atrativos, da técnica de narrar sem fatigar, de um pitoresco de tonalidades mais expressivas, da magia estética feita de harmonia e movimento, de visão minuciosa e penetrante.

Há leitores que se satisfazem com êsse valor literário sem necessidade de outra nutrição.

II. SOCIOLOGIA E ROMANCE

Agora, por falar em estilo, outra coisa. Tôda essa seara que é a criação de Gilberto Freyre tem um sabor de romance. Lê-se como se fôssem legendas de um mundo renascido.

Decorre daí, certamente, a versão do rumo dado por êle ao romance do Nordeste. À ficção que nunca passou, como reação modernista contra a literatura artificial, de um neonaturalismo, grudado à terra e ao homem, sem os detalhes pretensiosos e fatigantes do zolismo que tem uma grandeza de outros aspectos.

Teria de ser impregnado de um mistério que é apenas revelação do ambiente ignorado e da poesia selvagem que recende de tôdas as coisas.

O que aproxima Gilberto Freyre dêsse grupo de romancistas é o fato de ser sua obra ciência e sensação. O telúrico de Nordeste e do massapê de Sobrados e Mucambos, que só faltou comer, está dentro do mesmo círculo. A diferença é esta determinada por Jacques Lavigne, o conhecido professor de Montreal, na sua Inquietação Humana: "A ciência reduz a realidade a um esquema; a arte faz dela uma presença que comove."

Seduzido pelos mesmos motivos, graças à sua imaginação poética, Gilberto Freyre é enfeitiçado pelos sêres e as coisas.

São as mesmas fontes, só com a diferença de processos. Um representa a doutrina que define, corrigindo as fórmulas falsas, atrás de uma verdade exterior; o outro observa e sente o ambiente anormal, pintando-o com a alma despertada pela emoção artística. A paisagem tem uma fisionomia que se anima. É aqui mais íntima e mais comunicativa. Tem idéias, como diria Balzac.

E o homem, sendo só instinto, só instinto e vitalidade, não pode ter vida interior. Neste ponto equivocaram-se alguns críticos estranhando a ausência da atmosfera introspectiva, de uma ressonância secreta num campo impermeável às reações psíquicas. Essa criatura que era simplesmente automática ou acidentalmente épica, como fôrça da natureza, passa a ser uma realidade sensibilizada pela transfiguração romanesca.

Mais outro ponto. O que se afigura regionalismo é o material à vista, dentro de certos limites que poderiam ser dilatados, como fêz José Lins do Rêgo, o mais matuto e entranhado na gleba. Como ainda faz, vitoriosamente, Jorge Amado, situando numa nesga da Bahia a universalidade de um complexo humano.

O romance do Nordeste só seria social servindo de documento. Como teatro de tipos aparentemente vulgares que se tornam marcantes pela escultura granítica e pela fatalidade do destino. É a massa que, espontâneamente, rudemente, passa a vibrar ao toque da arte. Esse romance nunca foi intencional.

Mais: a inteligência môça da região deve a Gilberto Freyre os estímulos de um redescobridor de terras e almas que ensinou muitos caminhos e possui a vocação de romancista que também será quando quiser.

III. GILBERTO FREYRE, UMA FÔRÇA DE SINCERIDADE

O grande estilista não se contentaria em ser o intelectual puro, o enamorado da arte pela arte, nem mesmo o admirável ensaísta literário que cedo se revelou. Tinha o que comunicar, ou, como é de uso dizer, tinha uma mensagem.

Interveio o historiador, fazendo crescer o rol dos admiradores do estilista. Não trouxe o todo, o acervo maciço de nossos velhos anais; limitou-se a explorar o campo que interessa à sua especialidade. Nesse terreno inovou e construiu com a originalidade de sua formação e o lastro científico que acumulou.

Nota-se hoje certo desdém pelo passado, mas triste do povo que não tem história ou que esquece a sua história.

O tempo que vivemos, tão incerto e vertiginoso, absorve as preocupações sem reparar que muitas taras e virtudes vêm de longe, carreando o que há de mais constante. Reagem as relações com outras épocas, orientando a nova mentalidade gerada, em parte, sob o signo de um velho, "arsenal de instrumentos, de meios, de receitas, de normas", de que fala Ortega y Gasset no seu Tríptico, acrescentando: "O homem que conserva a fé no passado não se assusta com o futuro."

Como homem público, devo mais aos historiadores para a compreensão de certos fenômenos e movimentos, do que aos tratadistas da arte de governar e da política.

Para Gilberto Freyre a História é um caminho percorrido que não se perde e, ao contrário, deve ser rebuscado, como sentiram alguns de seus críticos, com uma profundidade "proustiana".

Olvidar êsse passado seria mutilar o tempo que tem uma continuidade invulnerável. Lança-se êle do ponto de partida para dar o balanço nas transformações operadas, sempre portadoras de um sinal de suas raízes ou prestando-se a elucidativos confrontos. Marcando os erros tradicionais e a índole dos novos rumos.

Reconstitui o quadro, debruçando-se sôbre o conjunto com elementos próprios ou reportando-se aos entendidos para cada especialidade que escape ao seu domínio. Recompõe o panorama e retrata as primeiras experiências, detendo-se no exame das realidades que manifestaram maior ascendência em cada período, sem deixar de reconhecer a obscuridade de certas origens. Restitui, assim, tudo que está ao seu alcance para a grande tarefa. Irá revelar aspectos ainda despercebidos, redescobrindo ambientes onde há vida, sentimentos, anedota, aventura, tragédia. Onde há uma côr local e um caráter a definir.

Para ser bom historiador é preciso reunir alguns requisitos que abonem o testemunho. Possuir o faro, a paciência e a perseverança da pesquisa. Gilberto Freyre é o investigador indefesso que acumulou grande messe de material, sem levar em conta episódios isolados que conduziriam às generalizações. Releva a honestidade que garante a veracidade. E êle não se extravia em conjeturas ou hipóteses, confessando tôdas as dúvidas que retardam as conclusões. Não faltará sinceridade, sem carregar a mão e sem falsas reservas ou conveniências hipócritas. Tudo no seu natural sem eufemismos que dificultem o conhecimento exato. Essa fidelidade é, por igual, fruto do senso de seleção para só aceitar as fontes de evidência que tiverem um sentido, desprezando os resíduos destituídos de interêsse. Extrair da massa informe dos arquivos o que se oferecer de mais característico para a exegese social e análise psicológica. E só contar depois de tornar seu para saber explicar e deduzir, senão seria mera reportagem falha da responsabilidade de interpretação. É essa a posição que lhe valeu maior prestígio.

O espírito crítico, outra forma de senso de seleção, misto de bom gôsto e perspicácia, transcende da rigidez técnica para horizontes mais claros que ainda se ornam e ampliam com a cultura geral.

É tudo isso que compõe, privativamente, seu estilo de narrador. O que mais distingue essa obra é a orientação nìtidamente sociológica. Pendeu Gilberto Freyre para essa investigação movido por uma curiosidade mais profunda. Sabia em que terreno ia pisar, como bem deixou ver em seu compêndio Sociologia, que abandonou o formalismo didático para mostrar que o mestre poderia encontrar-se também num cipoal.

De todo o conglomerado de fatos históricos o que mais lhe importa é a tese social, por educação de grau superior e por uma tendência do espírito ávido dos dramas da vida nas suas manifestações mais complexas.

Conquistou nessa altitude outra categoria de leitores ainda mais evoluídos, desejosos de discernir nossas condições de ser, desde os primórdios, sob a pressão ainda violenta da terra selvagem, acompanhando em cada época os avanços acidentados de uma civilização tropical.

Concebeu o seu papel depois de enriquecer-se com a base fundamental para desenvolvê-lo. Concentrou-se e surgiu munido dos suprimentos mais úteis para uma construção que apresentasse outra aparência e novas perspectivas, de vida e conhecimento. O concreto e sua compreensão. Uma sociologia, finalmente, nutrida pela História e pela Antro-pologia em que é mestre, assim como pela Ecologia, pela Psico-logia, por tôdas as ciências correlatas, com um método próprio de narrar e julgar, quando é possível fazê-lo.

Sim. O que mais impressiona nesse plano é a novidade, a concepção diferente, com tal liberdade que chegou, imprudentemente, algumas vêzes, a provocar estranheza e reação. Planejou sòmente a arquitetura para o encadeamento natural. A esplêndida trilogia Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso vincula-se mais a uma idéia de rastejar a ação do tempo exposto a uma espécie de erosão de ventos de todos os quadrantes do que a identificar leis causais previstas, em outras latitudes e outras eras. Os acontecimentos depõem com muito mais sabedoria do que certas teorias. O que vale é a segurança das demonstrações em cada esfera.

Gilberto Freyre caça a verdade ao vivo com sua visão segura e a coragem intelectual que confirma a coragem pessoal. Nas suas mãos a História torna-se tão sensível que se dramatiza. E, sem embargo dessa paixão, professa tanta imparcialidade, perante o fato e a idéia, que, não raro, se deixa levar submisso na torrente, até apreender a observação real. É essa a função do espírito que mais convém como fôrça orientadora de uma sociedade ainda em formação e, particularmente, da vida pública cega e tumultuária. Gostaria, se houvesse margem para isso, de considerar em cada um dos três planos de uma composição monumental a atitude do autor em face de vários temas, principalmente os mais discutidos.

Verifica-se pelo que se conservou e pelo que se destruiu como a História tem um ritmo que, sem nada regulado, mostra a humanidade, por mais contrastante que pareça a diferença de raças, com sua marca originária.

Casa-Grande & Senzala é um enxame de ensaios. O papel dos dois ambientes em nosso desenvolvimento suscitou sérias meditações de uma lucidez solar.

Sem pressa de julgar, só julgando com amadurecimento, foi dado o balanço de uma época ainda obscura com instrumentos ainda não aplicados no seu conjunto.

Sobrados e Mucambos reata a série com um cenário, mais visível e palpitante, notabilizando-se pela integração no meio físico e pela fidelidade dos perfis. É um livro de mais sainete do que o primeiro que, aliás, tem outra riqueza cultural, de maior equilíbrio e de vivo interêsse humano e social.

Por fim, Ordem e Progresso, na seqüência metódica, tem maior sôpro de vida. Gerações que se sucederam deram seus depoimentos, confessaram-se, com uma frescura autobiográfica, como uma espécie de memória dos outros, atestando uma realidade que o sociólogo ordenou e transpôs para um esquema, adotando nôvo estilo de caracterização do tempo.

Tornou-se, dessa maneira, incontrastável a fotografia social, feita de observação imediata e, ainda mais, de confidências que revelam os aspectos mais fugidios do espírito dominante. Êsses depoimentos que se completam por suas afinidades também elucidam, magistralmente, pela habilidade do seu manuseio, uma fase de transformação política ainda controvertida em alguns pontos, apesar de ser a vida pública a mais fácil de documentar por sua exterioridade.



Fonte: ALMEIDA, José Américo de. Gilberto Freyre, nova forma de expressão. In: AMADO, Gilberto et al. Gilberto Freyre - sua ciência, sua filosofia, sua arte: ensaios sobre o autor de "Casa-Grande & Senzala" e sua influência na moderna cultura do Brasil, comemorativos do 25º aniversário da publicação deste seu livro. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1962. 576p.

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