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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



"CASA-GRANDE & SENZALA" E A REVOLUÇÃO CULTURAL


Jorge Amado

Há vinte e cinco anos um môço pernambucano, de nome Gilberto Freyre, conhecido em Recife e por uns poucos no Brasil, publicou um livro intitulado Casa-Grande & Senzala. Hoje seus amigos e admiradores e um público entusiasta de dezenas de milhares de leitores comemoram a data.

Quanto a mim, tenho a esperança de assistir às comemorações do cinqüentenário de Casa-Grande & Senzala e, velho de mais de 70 anos, delas participar, testemunhar para os jovens o que foi, nos idos de 1933, o lançamento dêsse livro. Porque penso, sei de um saber sem dúvidas, que assistiremos não apenas a uma festa de âmbito brasileiro, homenagem de um público imensamente maior que o atual, mas a uma festa da cultura mundial, porque então já se terá, no Brasil e fora do Brasil, a medida da importância completa dêsse livro e de sua significação (e de tôda a obra de seu autor). Hoje ainda pode reinar certa confusão, e motivos diversos, que não a análise objetiva da obra, podem tentar impedir ou limitar a total consciência do significado de Casa-Grande & Senzala. Gilberto Freyre ai está, participante e dis-cutidor, irredutível numa série de posições, combativo, fazendo com que muitos fechem os olhos para a obra devido a uma palavra, a um gesto ou a uma posição do autor. E há também a inveja: tanta glória em vida de um homem, tanta admiração, discípulos a cercarem-no, amigos fiéis durante uma existência in-teira, traduções em línguas variadas, convites de universidades estrangeiras, uma presença constante na vida intelectual, sem sair quase de sua cidade do Recife, tanta honra e tanto brilho incomodam, e pobres homens pensam poder destruir um livro para sempre definitivo, negando-o ou sôbre êle silenciando. Certa capacidade de admirar, essa alegria de admirar, de estimar o bom e o grande que os outros constroem, desaparece, destruída pela in-veja. Pior para êsses invejosos: nada conseguem êles contra a grandeza real do livro ou do autor. Apenas cresce-lhes a amargura, a vida ainda lhes é mais triste e ácida, porque nada mais alegre que admirar e aplaudir, nada mais triste e cinzento que negar e invejar. Quando Casa-Grande & Senzala completa seus vinte e cinco anos em flor, ainda pode existir quem - roído pela inveja e comido pela frustração - tente negá-lo. Mas, daqui a mais vinte e cinco anos, a festa será de todos. Mesmo dos invejosos de hoje, dos negadores de agora, e êles estarão, gritando que foram do tempo inicial dêsse livro e serão porta-estandartes dessa glória.

Assisti ao nascer de Casa-Grande & Senzala, tenho acompanhado sua atuação durante um quarto de século dramático, e quero dar meu testemunho. Existem algumas coisas que, mesmo tendo sido ditas antes, vale sempre a pena recordar. Porque CasaGrande & Senzala foi uma revolução. Em nossa literatura, em nossa vida cultural, em nosso crescimento nacional.

Não sei quando, em nosso meio literário, voltaremos a sofrer um impacto igual ao que significou, há vinte e cinco anos, a publicação de Casa-Grande & Senzala. Naqueles anos que suce-deram ao movimento armado vitorioso de 30, iniciava-se êsse crescer de nossa cultura, do público ledor, do interêsse pelas coisas brasileiras. Já antes de 30, José Américo de Almeida publicara A Bagaceira, abrindo uma fase nova em nosso romance, desbra-vando o caminho para uma geração de romancistas em grande parte responsável pelo público hoje existente no Brasil, pelo inte-rêsse em tômo da literatura. Os escritores voltavam-se para os problemas brasileiros, para a realidade do país, para o povo. Existira até então, por exemplo, um romance de temática rural que, mesmo quando belo, era idílico e falso, a literatura servindo à mentira. Uma ou outra exceção, quase sempre passando bas-tante desapercebida. A verdade era falsificada, com mais ou menos talento, para nos apresentar um campo feliz e doce, onde tôdas as mulheres eram formosas, todos os homens eram fortes, os latifundiários uns patriarcas feitos de honra e bondade. De súbito, tudo isso veio abaixo, livros novos contavam outras coisas, mostravam outra realidade, restabeleciam a verdade e davam uma fôrça antes desconhecida à literatura. 0 Quinze, Menino de Engenho, Os Corumbas, Caetés, eis alguns dos títulos a sacudir a crítica e os leitores, a criar leitores.

E então apareceu Casa-Grande & Senzala. Saíamos do terreno da ficção, da pura criação literária, agora abria-se um nôvo caminho para o estudo, para a ciência. Foi uma explosão, um fato nôvo, alguma coisa como ainda não possuíamos e houve de imediato uma consciência de que crescêramos e estávamos mais capazes. Quem não viveu aquêle tempo não pode realmente imaginar sua beleza. Como um deslumbramento. Assisti e participei dêsses acontecimentos, posso dar testemunho. O livro de Gilberto, foi fundamental para tôda a transformação sofrida no país, verdadeira alavanca. O abalo produzido na opinião pública por CasaGrande & Senzala foi decisivo. Uma época começava no Brasil, o aparecimento de tal livro era a melhor das provas.

Últimamente tivemos a publicação de Grande Sertão: Veredas, sucesso literário que abalou a opinião e o público. Algo a recordar o impacto de Casa-Grande & Senzala. Mas o livro de Guimarães Rosa apareceu quando já nos acostumáramos com o desenvolvimento de nossa literatura, com o crescimento do país, de sua indústria, com um Brasil em marcha. Casa-Grande & Senzala sucedeu no comêço de tudo, foi mesmo o comêço. Naquele tempo de Rio sem arranha-céus, de São Paulo provinciano, quando a vida cultural centralizava-se na Avenida Rio Branco, quando mesmo os jovens mais inteligentes da Bahia horrorizavam-se com a arte moderna, quando Portinari era motivo de discussões e polêmicas violentas, naquele tempo quando ainda não existiam as faculdades de Filosofia, quando as grandes editôras de hoje apenas nasciam e a José Olympio ainda não se instalara no Rio, naquele tempo a fome de ler e aprender apenas se adivinhava. E, se os romancistas - Raquel de Queirós, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, José Geraldo Vieira, Lúcio Cardoso, Marques Rebêlo - muito contribuíram para que se criasse uma indústria editorial e um público hoje vasto em nosso país, a contribuição de Gilberto Freyre e de seu primeiro livro foi inestimável. Um estudo de nossa formação virou, há vinte e cinco anos, bestseller e como tal conservou-se até hoje (e na mesma categoria editorial colocaram-se as obras posteriores do autor).

Não sei se já se estudou e situou a importância de Gilberto Freyre (e de Casa-Grande & Senzala) no processo de democratização da cultura no Brasil. Os ensaístas, os autores de estudos, os sociólogos, os críticos, os antropólogos, todos os que não escrevem ficção e poesia (e êsses também) estavam na obrigação de se juntarem, reunirem um dinheirinho e levantarem, em praça pública, pelo menos um busto do homem de Apipucos. Pois, antes dêle entrar na cena editorial, livro de estudo no Brasil era sinônimo de livro chato, mal escrito, retórico, pernóstico, ilegível. E era assim mesmo, com raras exceções. Só levado por absoluta necessidade aventurava-se alguém na intrincada floresta onde cresciam os palavrões difíceis e uma prosa de colarinho duro e sobrecasaca negra. Como se, para ser ensaísta de pêso, historiador, sociólogo, válido autor de estudos, fôsse obrigatòriamente necessário escrever difícil (quando não escrever mal), fazer-se distante e incompreensível, substituído o verdadeiro saber pela retórica e pela gramatiquice. Um horror.

De súbito, eis que um escritor admirável, dono de uma língua envolvente, brasileira, sensual, quente e íntima do leitor, surge e prova que tudo aquilo era rematada besteira, que um livro de pesquisa e estudo pode ser lido com prazer, pode ser saboreado como um poema, pode ser literatura da melhor, além de realmente ensinar e fazer pensar.

Gilberto Freyre não é apenas responsável pelo gôsto de então para cá desenvolvido em tôrno da pesquisa, do estudo, pela multiplicação dos livros de historiadores, sociólogos, antropólogos, estudiosos dos aspectos e detalhes de nossa formação e realidade. Êle é também e sobretudo responsável pelo público existente para tais livros, foi Casa-Grande & Senzala quem ganhou a confiança dos leitores, quem transformou em prazer e alegria a obrigação ou a necessidade de ler um volume de estudo. Nesse particular, nessa facêta da democratização de nossa cultura, o papel por êle desempenhado é inestimável. Êle levou ao grande público o gôsto por tais livros e, se hoje as editôras publicam em grande quantidade originais e traduções de volumes de Sociologia, de História, de estudos os mais diversos, sôbre tôdas essas publicações e sua venda, por vêzes sensacional, projeta-se a sombra protetora de Casa-Grande & Senzala. Essa é a verdade e deve ser dita.

Mas foi êle também, sujeito inquieto e metediço, quem veio abrir caminhos para que se iniciassem os mais variados estudos, para que outros fôssem retomados, levantando problemas, dúvidas, discussões. Basta lembrar os estudos afro-brasileiros, olhados com receio e desprêzo, esquecidos os trabalhos de Nina Rodrigues e Manuel Quirino. Gilberto reuniu o I Congresso Afro-Brasileiro, novamente aquêles estudos encontraram ambiente, pôde Artur Ramos realizar sua obra, e jovens de então, como Edison Carneiro, tiveram o necessário incentivo para seu trabalho. A obra de Gilberto Freyre e sua presença atuante estão no centro de tudo quanto foi feito em relação aos estudos brasileiros nesses últimos vinte e cinco anos.

Homem de estudo, de muito livro lido e muito documento pes-quisado, homem assim de gabinete, em realidade êle foi e é um homem do meio da rua, do meio do povo. Homem do candomblé de pai Adão e do balalaô Martiniano do Bonfim, homem dos restaurantes populares, da boa comida pernambucana e baiana, do "Rei dos Caranguejos", na Estrada dos Remédios, em Recife, do restaurante de Maria de São Pedro no Mercado da Bahia, conhecedor da fina cachaça, homem da Universidade mas soure-tudo dos estudantes.



Fonte: AMADO, Jorge. Casa Grande & Senzala e a revolução cultural. In: AMADO, Gilberto et al. Gilberto Freyre - sua ciência, sua filosofia, sua arte: ensaios sobre o autor de "Casa-Grande & Senzala" e sua influência na moderna cultura do Brasil, comemorativos do 25º aniversário da publicação deste seu livro. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1962. 576p.

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