UMA PÁGINA DE GILBERTO FREYRE
Otto Maria Carpeaux
Não sei se um paleontólogo moderno ainda repetiria com a mesma segurança a velha e muito citada frase de Cuvier: - um osso de um animal de espécie extinta lhe bastaria para reconstituir a criatura inteira. Com a mesma segurança falam agora, pelo menos em certos casos, os adeptos da análise literária aos quais basta um verso, um poema, para reconhecer a Gestalt do poeta. Mas na ciência literária é mais sólido o fundamento filosófico dessa convicção, embora nem sempre haja suficiente clareza quanto às raízes dessa base.
Leitores conservadores lembrar-se-ão da pretensão muito maior de um Taine: no teatro de Racine "qui ne parle de son temps ni de sa vie, je trouve l'histoire de sa vie et de son temps". Essa pretensão não encontra razões suficientes no positivismo do historiador e ensaísta francês. É parte da sua herança herderianohegeliana que, por outro lado, se salvou na Alemanha, depois do grande naufrágio da filosofia de Hegel, no neo-idealismo de um Dilthey e no neo-idealismo dos Rickert e Windelband, preparando para o comêço do século XX o clima em que nascerá ou renascerá o neo-idealismo na ciência literária. Nesse contexto mais amplo, que também inclui a sociologia de um Max Weber ou de um Scheler e até o marxismo heterodoxo dos Walter Benjamin e Georg Lukács, assim como o relativo antimarxismo dos Mannheim e Arnold Hauser, a tese da homogeneidade e auto-suficiência espiritual do poema revela-se como caso especial da homogeneidade de tôdas as manifestações, literárias e artísticas e musicais, religiosas, sociais, econômicas e políticas, de uma civilização em determinada época. Talvez seja por isso que a análise estilística deu os melhores frutos quando combinada com a só aparentemente incompatível análise sociológica: pensa-se no fino tacto com que Erich Auerbach sabe colocar suas análises estilísticas de um trecho de Amiano Marcelino ou de uma página de Manon Lescaut na contextura social da respectiva, época. A interpretação estilística e a interpretação sociológica têm raízes comuns. São ramos da mor-fologia cultural de que são representantes modernos, em planos e níveis diferentes, um Spengler ou um Rothacker, um Freyer ou um Carl Schmitt. O núcleo dessa morfologia cultural é mais antigo que a filosofia hegeliana, através da qual foi transmitida a épocas posteriores: seu primeiro grande representante é Herder (e, antes dêle, Vico, do qual descendem, por sua vez, os hege-lianos De Sanctis e Croce); Herder, considerando um autor e sua obra como manifestação característica da civilização à qual per-tence, assim como o próprio Herder e sua obra foram manifes-tações características da civilização européia pré-romântica do fim do século XVIII. Assim como Gilberto Freyre, elucidando as ma-nifestações da civilização brasileira, é ao mesmo tempo manifes-tação característica dessa civilização, da qual sua obra se torna suma.
Estamos em plena sociologia histórica, que é interpretação e, simultâneamente, fato da história interpretada.
O que o Brasil e os brasileiros devem a Gilberto Freyre poderia ser definido como tomada de consciência histórica. Através da interpretação gilbertiana o Brasil "reconhece-se" e foi "reconhecido" pelo mundo, o que é, por sua vez, um fato decisivo, uma data na história brasileira. Eis o bem justificado motivo para comemorar o vigésimo quinto aniversário da publicação de Casa-Grande & Senzala.
Gilberto Freyre sempre será chamado "autor de Casa-Grande & Senzala. Acredito, porém, que a posteridade chegará a dar a êsse apelido significação mais ampla. Pensando em Casa-Grande & Senzala, também pensará em Sobrados e Mucambos, em Nordeste, em 0 Mundo Que o Português Criou e naquele Ordem e Progresso que estamos esperando. Justamente porque ainda desconhecendo êsse final, não se afigura tão evidente a nós outros, contemporâneos, a unidade da obra gilbertiana, que ainda continua sendo work in progress. Mas unitária ela é: em cada uma das páginas daqueles muitos livros está presente Casa-Grande & Senzala. Qualquer uma daquelas muitas páginas representa Gilberto Freyre em sua totalidade.
Falei da unidade da obra: Casa-Grande & Senzala, Nordeste, 0 Mundo Que o Português Criou, Inglêses no Brasil, Interpretação do Brasil, a grande Sociologia. Não esqueço as publicações de tamanho menor e, no entanto, de importância considerável, as edições prefaciadas de memórias e diários, os estudos minuciosos sôbre fatos da vida cotidiana no Recife do século passado, cujos anunciantes de jornais também são "heróis" anônimos daquele work in progress - mas não teria esquecido, nessa segunda relação das obras, Sobrados e Mucambos? Não a esqueci. Deixei-a para o fim porque é dela que pretendo tirar minha "página de Gilberto Freyre".
Não precisava eu escolher muito. É uma página que, por motivos pessoais, se me gravou na memória. Foi em 1940. Em São Paulo. Circunstâncias muito especiais, parecidas com o plot de um romance mal inventado, me tinham levado a essas paragens. "Life is a tale, told by an idiot", mas no caso foi "without sound and fury". Vivi no Brasil quase sem vontade e certamente sem esperança. Ignorava a língua. Nunca a estudei, aliás; aprendi o português por meio de leitura, porque o assunto "Brasil" começou a interessar-me apaixonadamente. Cheguei a vender alguns poucos livros trazidos da Europa para comprar outros, num sebo da Rua Benjamim Constant. Não direi quais foram: ignorando tudo e pretendendo orientar-me sem guia, li coisas ótimas e coisas péssimas, indistintamente. O preço de um exemplar da primeira edição de Casa-Grande & Senzala tornou-a inacessível à bôlsa magra. Por isso cheguei a ler antes Sobrados e Mucambos, então vol. 64 da "Brasiliana". E ali encontrei uma página que me fascinou por muitos motivos, inclusive pelo exemplo do europeu que sucumbe no Brasil a fôrças invencíveis de uma vida nova em terra nova. E hoje releio aquela página com olhos de quem dá graças por não ter sucumbido, dando graças ao Brasil, à inteligência brasileira e ao autor de Sobrados e Mucambos.
A página escolhida encontra-se no volume II da 2.ª edição, p. 570 e 571, no capítulo "O Brasileiro e o Europeu". Fala-se, ali, do clima, favorecendo a ação da malária e da febre amarela contra o europeu imigrado. E continua o mestre:
"Houve mesmo nativistas que se regozijaram com a ação violentamente antieuropéia da febre amarela. Febre terrível que, poupando o nativo, não perdoava o estrangeiro. Principalmente o louro, de olhos azuis, sardas pelo rosto. - Mas o estrangeiro louro insistiu em firmar-se em terra tão sua inimiga com um heroísmo que ainda não foi celebrado. Só visitando hoje alguns dos velhos cemitérios protestantes no Brasil - o do Recife ou o de Salvador ou o do Rio de Janeiro - que datam dos princípios do século XIX, e vendo quanta vítima da febre amarela apodrece por êsses chãos úmidos e cheios de tapuru, debaixo de palmeiras gordas, tropicalmente triunfantes sôbre o invasor nórdico, faz alguém idéia exata da tenacidade com que o inglês, para conquistar o mercado brasileiro e firmar nova zona de influência para o seu imperialismo, se expôs a morrer de febre tão má nesta parte dos trópicos. As inscrições se sucedem numa monotonia melancólica: "James Adcock - architect of civil engineer who after nearly three years of residence died here of yellow fever in the 39th year of his age"; "in memory of Robert Short - fifth son of William Short of Harrogate - died of yellow fever - aged 19 years"; "in loving memory of my beloved husband Ernest Renge Williams who died of yellow fever - aged 26"...
A fascinação estética dessa página reside, sem dúvida, na grandiosa metáfora das palmeiras que celebram a vitória da terra tropical sôbre o invasor morto: "... debaixo de palmeiras gordas, tropicalmente triunfantes sôbre o invasor nórdico". E a luz dêsse triunfo é a sombra do velho cemitério. Depois de ter lido aquela página, li muitas outras páginas, grandes páginas da prosa portuguêsa: algumas, iguais; nenhuma, superior.
O efeito estético produzido por aquela metáfora é reflexo de um fato estilístico. Mas êsse fato não nos autoriza a chamar Gilberto Freyre de "estilista", na acepção antiga dêsse têrmo. Um "estilista" teria, ao falar dos velhos cemitérios protestantes no Brasil, citado as inscrições, tão eloqüentes pela simplicidade, para colocar no fim da página a metáfora das palmeiras "tropicalmente triunfantes": uma "chave de ouro", digna de encerrar um sonêto parnasiano. Não o quis assim Gilberto Freyre: começa com a narração dos fatos; explica-os pela vontade de expansão comercial dos inglêses; e cita, como documentação, as inscrições funerárias. A metáfora das palmeiras "tropicalmente triunfantes" fica colocada no meio da página, quase como para escondê-la. Gilberto Freyre, que é inimigo figadal do ponto de exclamação, tem l'horreur des grands mots (Courteline). Seu estilo é essencialmente anti-retórico. Para alcançar efeito estético, não precisa de "chaves de ouro"; antes as evita cuidadosamente. Não é "estilista". Mas é artista. Não é orador. É escritor.
Essa observação leva diretamente à discussão de um dos mais importantes problemas da interpretação gilbertiana: a relação entre a arte e a ciência, na obra do sociólogo.
Uma página isolada como aquela não pode fornecer todos os elementos para a discussão daquele problema. Não pretendo "presser les faits". A análise estilística encontra seus limites na significação total das grandes estruturas, se não se quer cair em simbologias arbitrárias. Mas a página 570 de Sobrados e Mucambos oferece oportunidade para dizer algo sôbre os reflexos da obra gilbertiana na literatura brasileira de ficção.
Na minha Pequena Bibliografia Critica da Literatura Brasileira coloquei Gilberto Freyre no meio do capítulo "Movimento do Nordeste". Não o coloquei em outro capítulo, porque seria impossível. Não o coloquei no início do capítulo porque a cronologia o proíbe; nem no fim, para não falsificar a perspectiva histórica. Seu lugar certo é justamente no meio daquele capítulo, como centro de irradiação de uma influência decisiva sôbre o romance nordestino. Não me refiro, apenas, à influência indubitàvelmente exercida sôbre José Lins do Rêgo. Também seria preciso citar outros nomes, além do criador do "Ciclo da Cana-de-Açúcar" que é e fixa a epopéia de uma região e de uma época. E essa palavra "epopéia" sugere logo outra idéia, tão audaciosa que mal ouso manifestá-la: se Casa-Grande & Senzala, se Sobrados e Mucambos não tivessem a incontestável densidade científica que têm, que seriam senão a epopéia do Nordeste patriarcal e rural? Que seriam, senão, pròpriamente, os maiores de todos os romances nordestinos? É por isso que coloquei Gilberto Freyre no centro do capítulo dedicado ao "Movimento Nordestino". E para tanto autorizam páginas como aquela sôbre os inglêses, vítimas da febre amarela, enterrados no chão úmido dos velhos cemitérios protestantes do Brasil, à sombra de palmeiras gordas, tropicalmente triunfantes: a documentação verificável de fatos da história econômica e de história da saúde pública, transformados em condensação de tantas vidas e tantas mortes: James Adcock, Robert Short ("aged 19 years") e aquêle "beloved husband" Ernest Renge Williams, "aged 26..." As reticências são de Gilberto Freyre, que, no espírito, viveu e morreu com aquêles inglêses e com os milhares de outros personagens de sua obra, que é uma epopéia baseada em fatos verdadeiros assim como tôdas as grandes epopéias.
"Baseada em fatos verdadeiros". Acontece que Gilberto Freyre não inventou as vidas e mortes de James Adcock, Robert Short e Ernest Renge Williams. E estamos novamente enfrentando o problema das relações entre a Arte e a Ciência na obra gilbertiana.
Dir-se-ia que o estudo sóbrio dos fatos e sua apresentação através de um temperamento artístico não se excluem. Tucídides foi espírito científico e grande escritor. O fato de Gibbon ter sido um dos maiores artistas da prosa inglêsa não impediu que sua obra, apesar de todos os progressos da historiografia nos últimos 150 anos, ainda guardasse valor científico, pela interpretação e coordenação dos documentos usados. Mas não nos podemos contentar com síntese tão simples, ou antes simplista. O estudo dos fatos e a firme vontade de expô-los sem parti pris consciente impõem à imaginação criadora do artista freios insuportáveis. Não há estruturação artística de matéria dada sem deformações mais ou menos violentas. Saint-Simon só conseguiu penetrar a psicologia dos seus personagens ao preço de deformar-lhes os motivos e falsificar a perspectiva histórica da sua época. A relação entre a "verdade" e a "poesia" é mais complexa. Bem o disse o grande historiador inglês George Macaulay Trevelyan, no ensaio History and Literature" (in History, n. s., IX, 1924, p. 91): "Truth is the criterion of historical study, but its impelling motive is poetic. Its poetry consists in its being true." Acredito que essas definições sintetizam bem a verdade científica e a verdade artística da obra de Gilberto Freyre.
Basta percorrer, na obra de Gilberto Freyre, as inúmeras notas ao pé das páginas e no fim dos capítulos para convencer-se que o critério de seu trabalho é Truth: a Verdade, enquanto o espírito humano é capaz de revelá-la em sua totalidade. Pois a revelação total da verdade histórica é impossível. Nunca houve historiador ao qual seus críticos e seus sucessores não censurassem uso incompleto, ou uso deliberadamente incompleto, da documentação acessível. Um dos exemplos mais conhecidos é o das Origines de la France contemporaine: uma documentação imensa e no entanto arbitràriamente selecionada e interpretada, sendo o impelling motive de Taine seu ódio contra a Revolução Francesa. No caso de Gilberto Freyre, ninguém o censurará por ter escolhido os nomes de James Adcock, Robert Short e Ernest Renge Williams, tendo silenciado os nomes dos muitos inglêses que sobreviveram aos ataques da febre amarela. Mas já lhe quiseram descobrir saudades passadistas, glorificação injustificada do passado rural e patriarcal. Não me parece necessário rebater essa objeção (mas voltarei aos motivos dela). Ninguém escreve a história do que odeia (a não ser o libelista, cuja obra não costuma celebrar vigésimos quintos aniversários). Estuda-se o passado do que, quando muito, se lamenta. Gilberto Freyre escreve a elegia de um passado que sabe irrevogàvelmente passado. Seu motivo de escrever a história do Brasil patriarcal e rural é o amor. Mas seu amor é tão isento de paixão que também compreende os inimigos daquele passado, os inglêses desejosos de "conquistar o mercado brasileiro" e com isso mesmo minando-lhe as bases para "firmar nova zona de influência para o seu imperialismo". Chega a lamentar o fato de que seu "heroísmo ainda não foi celebrado". Rilke teria gostado dessa palavra "celebrar": êle que, no "celebrar", reconheceu a tarefa própria do poeta. 0 impelling motive da historiografia gilbertiana é poetic. Apenas, sua "poetry consists in its being true". James Adcock, Robert Short e Ernest Renge Williams tinham de morrer na verdade para Gilberto Freyre celebrá-los na elegia.
Não se trata de compatibilidade entre a Verdade e a Arte na obra de Gilberto Freyre, mas da identidade dos dois elementos. Essa identidade revela-se num aspecto característico do estilo gilbertiano.
Voltamos a página 570 de Sobrados e Mucambos: "Houve mesmo nativistas que se regojizaram com a ação violentamente anti-européia da febre amarela. Febre terrível que, poupando o nativo, não perdoava o estrangeiro. Principalmente o louro, de olhos azuis, sardas pelo rosto. . ." E esquematizados: "...com a ação... da febre amarela. Febre terrível que...não perdoava o estrangeiro. Principalmente o louro..." A segunda frase retoma o têrmo "febre amarela", começando com êle, terminando com "o estrangeiro" que, desta vez substituído pelo sinônimo "o louro", inicia a terceira frase, e assim em diante. É uma feição característica do estilo gilbertiano, essa concatenação das frases pela retomada do têrmo decisivo de uma frase no comêço da frase seguinte, etc. Não sou entendido em retórica antiga nem tenho à mão nenhum manual dela. Apenas uma vaga recordação me diz que se trata de algo parecido com a Anadiplosis e o Epanodos. Mas sei que essa maneira de escrever - da qual se encontram milhares de exemplos nos livros de Gilberto Freyre - já fascinou, quase hipnotizou muita gente. Há discípulos que a imitam constantemente, revelando dêsse modo que não compreenderam o impelling motive de escrever assim. O que importa não é a reiteração. O que importa é que na frase seguinte, começando com o têrmo significativo empregado na frase precedente, falta o verbo.
Os nativistas regozijaram-se com a ação da febre amarela... Com "Febre terrível" começa a frase seguinte, particularizando aquela "ação", sem que se precisasse do verbo. Ação que não perdoava o estrangeiro; e com o "louro" começa a frase seguinte, descrevendo-o, sem que, outra vez, se precisasse do verbo. Na verdade, o "regozijaram" bastava para dar o impulso necessário a tôda essa seqüência de frases; e ainda haverá um último eco do "regozijaram" na atitude "tropicalmente triunfante" das "palmeiras gordas", até a energia daquele verbo se esgotar lentamente nas inscrições do cemitério dos inglêses do Recife. Essa "energia" estilística, comparável à energia no sentido da física, é o impelling motive da literatura gilbertiana. É, pròpriamente, a fonte da sua qualidade estética. Também é o impulso que transforma aquela literatura em perpétuo work in progress. Pois quem sabe se Ordem e Progresso será o ponto de chegada.
Qualidade estética de histoire-fleuve assim como quem fala de roman-fleuve. Mas há um grande "mas" nessa conclusão.
Citaram-se os nomes de Tucídides, Saint-Simon, Gibbon, Taine. Citou-se uma observação de George Macaulay Trevelyan sôbre a natureza da historiografia. Mas temos o direito de chamar Gilberto Freyre de historiador? Não é ele sociólogo?
Seria possível ler Casa-Grande & Senzala e Sobrados e Mucambos como se fôssem uma história do Segundo Reinado; para tanto, só seria preciso conhecer, antes, a história do Segundo Reinado (e tê-la esquecido). A "história" de Gilberto Freyre antes se parece com aquêles grandes cortes transversais por determinada época: a Renascença de Burckhardt, a última Idade Média de Huizinga. Apenas, seu objetivo é menos saturado de "cultura" em sentido livresco e artístico e mais cheio de "cultura" em sentido social e biológico. É isto o que nem todos os seus críticos compreenderam, sobretudo aquêles que esperam do trabalho sociológico normas em direção ao futuro ou, pelo menos, diagnósticos estatìsticamente fundados do presente. Gilberto Freyre representa no Brasil a sociologia histórica; disciplina que não pretendo defender porque não precisa de defesa.
É evidente que no panorama histórico do sociólogo o primeiro plano não é ocupado pelos personagens do historiador tout court. Sua "verdade" histórica é diferente. Seus "heróis" são outros. Os conselheiros e ministros, os generais e presidentes de província do Brasil imperial não aparecem, na obra gilbertiana, em suas fardas de côrte feitas por alfaiates europeus. Só os conhece na intimidade patriarcal da casa-grande ou do sobrado e na intimidade maior os contactos sexuais na senzala. Mais importantes que os marqueses, viscondes e barões, são para Gilberto Freyre os anunciantes nos jornais do Recife e até os mortos do cemitério inglês. E do seu método científico de colecionar os fatos miúdos da vida cotidiana surge uma estranha e inesquecível poesia, como de amarelados álbuns de família. Não falta, nessa poesia, o humorismo das barbas fantásticas e dos gordos culs de Paris, nem o romantismo estudantil, nem a sujeira das doenças da pele, nem a sombra das palmeiras, nem o murmúrio das águas, e, afinal, o Capibaribe leva tudo, purificando-o, para o oceano.
Gilberto Freyre é homem do Recife, cujo cemitério inglês - assunto da página 570 de Sobrados e Mucambos - faz parte de sua paisagem. Benedetto Croce já mereceu o apelido de "filósofo da Via de Tribunali" porque o grande napolitano, construtor de sistemas e intérprete de literaturas, conhecedor como poucos outros da história de uma civilização multimilenar, também era conhecedor, como ninguém, das ruas, das casas, das pedras de sua cidade; em passeios com amigos e discípulos gostava de explicar-lhes as minúcias da sua terra; era regionalista. Gilberto Freyre também é regionalista assim. Seu regionalismo tampouco tem limites urbanos ou provincianos: compreende tôdas estas terras tropicais do Brasil e de todo o mundo ultramarino, que o português criou e... diria que seu espírito desemboca, como o Capibaribe, no oceano do universalismo, se eu não tivesse, também, l'horreur des grands mots; como o mestre Gilberto Freyre.
Fonte: CARPEAUX, Otto Maria. Uma página de Gilberto Freyre. In: AMADO, Gilberto et al. Gilberto Freyre - sua ciência, sua filosofia, sua arte: ensaios sobre o autor de "Casa-Grande & Senzala" e sua influência na moderna cultura do Brasil, comemorativos do 25º aniversário da publicação deste seu livro. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1962. 576p.
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