BREVE CONTRIBUIÇÃO A UM POSSÍVEL ESTUDO ACERCA DA INFLUÊNCIA DE GILBERTO FREYRE SOBRE A LITERATURA BRASILEIRA
Osman Lins
Há homens que jamais convidam. Quando muito, dividem os seus entusiasmos com um ou dois amigos, porque os mais lhes parecem todos uns desencantados, sem fôrça, nem energia, nem merecimento à altura de seus alvos. Gilberto Freyre, através de tôda a sua vida de escritor, tem se distinguido por essa quali-dade generosa que, suponho, nenhum dos que o exaltam jamais assinalou: Não vendo a terra vazia, mas cheia de indivíduos que, como êle, são capazes de entusiasmo e ação, Gilberto Freyre é um homem que convida.
Esta sua tendência deve de ter começado a manifestar-se, num sentido por assim dizer definitivo, com a sua volta ao Recife, em 1923, após cinco anos de estudo no estrangeiro. Com a ausência, adquirira, ao mesmo tempo que cultura e experiência, uma visão mais nítida e real do seu país, ao qual não voltava como um visitante enfastiado, úmido de spleen e saudoso de civilizações mais altas, mas como alguém cujo amor, fazendo-se mais lúcido, se depurou na distância.
Não lhe faltaram conselhos, desencorajando essa volta, entre os quais os de Oliveira Lima, "para quem", segundo revela o próprio Gilberto Freyre, "o amigo ainda jovem cometia, por inexperiência de môço, êrro enorme, pretendendo fixar-se no Brasil depois de uma permanência no estrangeiro", acrescentando ainda que, "com aquelas suas idéias fixas estava se tornando semelhante a um maníaco que insistisse em patinar em areia sêca". Mas essa resolução do jovem Gilberto Freyre, notável sob mais de um aspecto, viria a ser decisiva para a literatura brasileira e o próprio Oliveira Lima não tardaria a reconhecer a sua importância.
Porque não sucedeu com o hoje famoso sociólogo, não sucedeu com êle, nem de longe, o que houvera sucedido a Pedro Américo, cuja permanência na Europa, também em verdes anos, fechou-lhe os olhos às paisagens nativas, como assinalou José Lins do Rêgo e lembra Aníbal Fernandes nos Estudos Pernambucanos, chegando "à sua terra, sem nada ver, à maneira de um cego de sua cidade" e de quem dissera um dia José Américo: "o mais infeliz dos cegos, por não ver em Areia". Em vez de pintar caboclas brasileiras, negros velhos, antigas jaqueiras, deleitava-se em representar Sócrates Afastando Alcibíades do Vício, a Velhice de Davi, a Rabequista Árabe.
Os árabes, rabequistas ou não, iriam interessar a Gilberto Freyre, jamais pelo seu conteúdo de exotismo, êsse exotismo que tanto seduzia o equivocado bovarismo plástico de Pedro Américo, e sim pelo que havia, no meio brasileiro, de influência moura. Um pouco à maneira de Drummond, "o tempo presente, os homens presentes, a vida presente" seriam a sua matéria. Não, é claro, que essa atitude implicasse num absurdo rompimento com o passado, rompimento que também não existe no poeta itabirano, estreitamente ligado à sua época, mas trazendo em si uma tarde de maio, "como êsses primitivos que carregam por tôda a parte o maxilar inferior de seus mortos" Gilberto Freyre voltava para redescobrir o Brasil e para induzir à redescoberta, com a energia dos vinte e poucos anos, os seus contemporâneos.
Ressoava, nos meios intelectuais do país, o clamor do Movimento Modernista, em seu início um movimento contra, como sublinha Alceu Amoroso Lima e sem verdadeira participação do povo, do qual estava divorciado, como haveria de reconhecer, bem tarde aliás, o autor de Macunaíma. Não ligado a êle e, sob vários aspectos, opondo-se a suas diretrizes, surge em Pernambuco o Movimento Regionalista.
Todo movimento, para bem impor-se, precisa sempre de um líder ao qual se liga e de cujos acertos e enganos irá depender. Quantos haverão morrido estéreis, à falta de alguém que os encarnasse e fôsse, de certo modo, o símbolo de suas negações, afirmações e procuras? Mário de Andrade, citado por Manuel Bandeira, tem a nobreza bem sua de afirmar, embora não fôsse discípulo de Graça Aranha, como também não o foi o poeta Bandeira, que, se "Graça não existisse, nós continuaríamos modernistas e outros viriam atrás de nós, mas êle trouxe mais facilidade e mais rapidez pra nossa implantação". Com o respeito, pois, que merecem os outros membros do Grupo Regionalista de 1925, com o respeito que cabe a um Odilon Nestor, a um Luís Cedro, um Ulysses Pernambucano ou um Lins do Rêgo, achamos que Gilberto Freyre, a partir de determinado momento, foi o Movimento Regionalista, cujo documento mais expressivo é, sem dúvida, o famoso Manifesto de 1926.
É sabido como os manifestos, em sua ânsia de reforma e de assertivas, fàcilmente enveredam por caminhos falsos. E ainda mais conhecida é a tendência dos jovens, para, prevalecendo-se um pouco dos direitos que a idade lhes confere e secretamente irados contra um mundo que ainda não se curvou à sua fome juvenil de mando, perderem o equilíbrio e investirem contra tudo e todos com uma violência que apenas disfarça (e nem sempre) o puro insulto. Nada, portanto, mais surpreendente que se o jovem pernambucano (que continua pernambucano e espiritualmente jovem) não via a sua terra com olhos enfarados, muito menos pensasse em reivindicar para o Nordeste uma como hegemonia de valôres, superestimando a sua importância em oposição às outras regiões do país. Sem o mínimo ranço de separatismo, sem descambar para uma estreita e inócua valorização da malfadada côr local, sem incorrer nem de longe nos vícios de um bairrismo tão imotivado quão estéril, o que êle queria é que as várias regiões do Brasil tomassem, cada uma, consciência de si mesmas. Regiões - frisava - e não estados, divisão de natureza estritamente administrativa, sem ligações autênticas com a verdade ecológica e sociológica do país. Ia, portanto, desde aquêle primeiro momento, ao âmago das coisas, começando a pensar e já a insurgir-se contra os mapas, ultrapassando a imposição dos limites escolarmente geográficos, e apreendendo além dêles o verdadeiro Brasil que não tardaria a sentir e interpretar como nenhum outro jamais o fizera.
Entretanto, neste breve estudo, o que pretendemos é salientar, no Manifesto, a orientação sugerida e o seu acentuado caráter de convite. Bem longe de preocupar-se com a purificação moral de Alcibíades ou a senectude de Davi, Gilberto Freyre vinha proclamar que os nossos grandes edifícios públicos e praças deviam ser "decorados com figuras de homens de trabalho, mestiços, homens de côr em pleno movimento de trabalho, cambiteiros, negros de fornalha de engenho, cabras de trapiches e de almanjarras, prêtos carregadores de açúcar, carros de boi cheios de cana, jangadeiros, vaqueiros, mulheres fazendo renda - e não com as imagens convencionais e côr-de-rosa de deusas européias da Fortuna e da Liberdade, de deuses romanos disto e daquilo, de figuras simbólicas das Quatro Estações".
Mas isto, objetará alguém, se são palavras de Gilberto Freyre, não representam apenas o seu pensamento, e sim o de todos os que participaram do chamado Movimento Regionalista. Sucede porém que se êle, como salientamos antes, apresentava mais que nenhum outro a soma de exigências necessárias para liderá-lo e propagá-lo, teve ainda o mérito maior de transformá-lo, ao longo de sua vida, não numa memória, uma lembrança amável de sua juventude, mas numa fecunda maneira de ser. Porque a sua obra, como a sua vida, vem sendo o exemplo mais fiel das normas pelas quais êle clamava em 1926, no Manifesto Regionalista, não decerto o seu primeiro convite nem a primeira manifestação de seu lúcido e intenso amor pelos valôres regionais de significação universal (já em 1925, convidava Bandeira a escrever a Evocação do Recife), mas o primeiro convite de larga ressonância, o primeiro amplo sinal do que êle estava começando profundamente a ser, a abertura solene de uma atitude mental e de uma disposição de caráter que vêm prolongando-se até hoje, através de seus livros, artigos, aulas, conferências, prefácios e contatos pessoais.
E quais têm sido os frutos dêsse convidar, dêsse encaminhamento numa direção que, na sua rica multiplicidade, é sempre a mesma?
O mundo não tem conhecido muitos exemplos de escritores como Gilberto Freyre, escritores cujas vidas se integrem na de seu país e a nutram, comunicando-lhe sua maneira de sentir, de ver, e desfrutando essa alegria de identificar, em tantos aspectos da época em que vive, a sua marca inconfundível. Joel Pontes, falando a seu respeito, diz com justeza: "Poucos dentre nós os que não tenham sofrido sua influência, embora alguns sem o sentir. Mesmo entre os escritores que defendem idéias diferentes, sente-se que os métodos de pesquisa, a valorização de certas fontes, o interêsse por descobrir e interpretar - quase tudo na moderna sociologia brasileira é Gilberto Freyre. Na literatura, sua presença não é menor."
Figuremos, por um esfôrço de imaginação, a atual cultura brasileira sem o autor de Casa-Grande & Senzala. Veremos como se nos impõe uma enorme sensação de ausência e - o que é ainda mais importante - como todo um matiz se modifica. Porque não estaremos apenas defraudando-a em um de seus maiores expoentes, talvez sem paralelo em tôda a nossa história literária, e sim ferindo-a em muitas de suas constantes, advindas da influência gilbertiana, que vai alcançar os elementos mais alheios ao seu temperamento e se estende até às artes plásticas. Podemos, por exemplo, admitir que um Lula Cardoso Ayres ou um Francisco Brennand seguissem hoje, sem Gilberto Freyre, a mesma orientação que marca a arte de ambos, tão diversa em alguns pontos, tão coincidente em outros. Mas sentir-se-iam êles igualmente seguros, se Gilberto Freyre não lhes houvesse preparado o terreno, não lhes houvesse possibilitado, ou facilitado uma convicção estética, com a fôrça de sua palavra e, sobretudo, com o ímpeto das suas próprias convicções?
Há quem indague, apesar de tudo, se essa extraordinária influência tende a arrefecer. Se virá Gilberto Freyre a ser esquecido, dentro de alguns anos, como outros nomes tão ruidosamente brilhantes, ao contrário do que pensa Anísio Teixeira, que nos sugere, em prefácio à 2.ª edição de Sociologia, tenhamos "a agradável coragem de reconhecer em Gilberto Freyre a grandeza que o futuro lhe irá reconhecer".
Ortega y Gasset, em breve ensaio sôbre Zuloaga, escreve que "genios son solo los muertos". E não porque o tempo, como tantas vêzes sucede, retifique ou anule entusiasmos ilusórios, mas porque só êle irá permitir, em tôrno de determinada obra, uma cristalização que é a verdadeira marca de sua transcendência. "La genialidad" - é ainda Ortega quem diz - es experimental: geniales son las creaciones que aún pueden tener hijos, que son matrices vivas de cultura."
Assim é a obra de Gilberto Freyre, na qual creio existir um iniludível timbre de perenidade e onde um indício parece garantir, contra tôda a incerteza do futuro, a permanência do grande escritor: sua penetração entre os jovens. Porque não são apenas os homens da geração dêle que revelam em suas obras - nas idéias, nos temas e mesmo no estilo, êsse estilo cuja principal característica é a enérgica, dócil e quase sensual exuberância, que seria pecado num Calvino, em um Pascal e que sabe um pouco a paganismo - a presença de Gilberto Freyre. Quantos de nós, das gerações mais novas, acreditando escolher nosso caminho, somos como que respostas a muitas sugestões gilbertianas, vindas nem sempre de um contato direto com êle ou sua obra, mas com as quais, inadvertidos, fornos nos deparar em inesperados caminhos (um quadro, um romance, um poema, já que em ondas concêntricas, sempre maiores e menos ostensivas, estende-se a influência de personalidades como a sua), e que passaram por nós silenciosamente, desapercebidas, deixando porém em nosso espírito a sua garra insinuante, ao mesmo tempo sutil e poderosa? Ensaístas jovens como Renato Carneiro Campos e Evaldo Cabral de Melo, poetas como Carlos Pena Filho, de quem o "Retrato do Adolescente Tropicalista", a partir do título, trai bem claramente a sua origem, todos acusam uma grande influência de Gilberto Freyre. Com a cautela que a vida nos aconselha, afirmamos que a sua obra, cuja múltipla irradiação em nosso tempo, como vemos, é indiscutível, não é dessas que adormecem para sempre com o autor ou quase não lhe sobrevivem, um pouco à maneira dessas grandes árvores que, tombadas, ainda conservam nos ramos um verde enganador. Ela poderá, talvez para sempre, "tener hijos". Mas ainda que desaparecesse hoje, por um sortilégio, a influência dêsse grande escritor sôbre a literatura do seu país, ainda assim ela seria das maiores que tivemos, em verticalidade e extensão.
Fonte: LINS, Osman. Breve contribuição a um possível estudo acerca da influência de Gilberto Freyre sobre a literatura brasileira. In: AMADO, Gilberto et al. Gilberto Freyre - sua ciência, sua filosofia, sua arte: ensaios sobre o autor de "Casa-Grande & Senzala" e sua influência na moderna cultura do Brasil, comemorativos do 25º aniversário da publicação deste seu livro. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1962. 576p.
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