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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



GILBERTO FREYRE E A RENOVAÇÃO DO ROMANCE BRASILEIRO


Eduardo Portella

O crítico ou historiador literário que procure reconstituir o itinerário do romance brasileiro contemporâneo terá forçosamente, sob pena de incorrer em omissão imperdoável, de ressaltar, ao lado do labor realizado pelos ficcionistas pròpriamente ditos, o papel desempenhado por um escritor, nesse tempo mais aplaudido como sociólogo que como o grande inventor de estilo, dessa entidade de características tão nítidas e pessoais que é o estilo Gilberto Freyre.

O criador dêsse estilo foi o grande arquiteto, um arquiteto com muito de visionário, dêsse comportamento romanesco que se tornou conhecido, como o "romance regionalista nordestino". Foi êle quem abriu caminhos, deu consciência, quase sistemática, a alguns talentos até então entregues às mais variadas formas de ímpeto incontido ou de desordem criadora. Gilberto Freyre como que arrumou a casa para a grande festa de 30. Sua influência se fêz sentir de um modo direto e totalizador: quer como animador que incentivava vocações e revelava aos seus colegas autores então inteiramente ignorados; quer como artista que se antecipava aos companheiros de geração na conquista de uma expressão literária que, estèticamente digna, se harmonizasse com os compromissos regionais que informavam a sua cosmovisão. Essa atitude terminou por dar lugar a novas matizações de nossa língua literária, fazendo dela menos uma língua de fabricação que de incorporação. Sem que com isso, no entanto, houvesse da sua parte qualquer espécie de repúdio à experimentação, repúdio que se empenhasse apenas em exibir um cômodo contentamento em relação ao nosso oralismo popular. Não. Para Gilberto Freyre êsse oralismo significou sempre uma fonte de expressão poderosa, sem que se convertesse nunca, numa fronteira ou num limite. Êle sabia, e aliás ressaltou na introdução ao seu Região e Tradição, "que desde A Bagaceira, desde os primeiros poemas de Jorge de Lima e as primeiras páginas de prosa ao mesmo tempo realista e poética de José Lins do Rêgo, se nota, naqueles 'renovadores', uma tendência para conciliarem o regional com o humano, a tradição com a experimentação, o gôsto pela renovação do método literário, científico ou artístico com a simpatia humana pelo assunto regional e pelo público brasileiro". E êsse comportamento, que se deveu sobretudo à sua ação, foi um extraordinário agente no sentido de enriquecer a fábula realística sociopsicológica de uma nova dimensão simbólica. Advirta-se, aliás, que foram os seus "empenhos psicológicos" que, logo de início, tanto ajudaram aquela ficção no sentido de que não degenerasse numa simples crônica horizontal ou monolinear. E isto se deve sobretudo à circunstância, curiosa certamente para os que se habituaram a imaginar em Gilberto Freyre apenas um cientista social, de que a sua interferência nos destinos da ficção moderna do Brasil se fêz sentir como uma interferência de escritor, de estilista, de artista, e só secundàriamente de sociólogo ou antropólogo. Ao revelar, aos seus companheiros de geração, ficcionistas como James Joyce, Henry James, Proust, Mansfield, Hardy, Melville, Lawrence, êle revelava romancistas que, quando não se encontravam inteiramente comprometidos com uma estética experimental - e êste é o caso de Joyce, por êle revelado à nossa literatura de então -, sabiam imunizar-se dos perigos que ameaçam transformar o romance num simples documento social. Para êle um romance não podia nunca se esquecer ou descuidar-se da sua condição de obra de arte literária. É certo que, e êste é o grande fantasma que ameaça a sorte do romance nordestino, nem sempre a atitude de Gilberto Freyre foi satisfatòriamente compreendida pelos seus companheiros de credo regionalista. Poucos como José Lins do Rêgo, Jorge Amado ou Jorge de Lima, souberam trazer em suas páginas, ao lado da denúncia, da sátira social, um forte veio lírico, que era a causa mesma da extraordinária transfiguração que êsses romances adquiriam. Realmente: na pregação de Gilberto Freyre nunca interferiu qualquer espécie de cientificismo que, mais ocupado na elaboração de um documento social, se esquecesse ou indiferenciasse os seus compromissos estéticos.

É sabido que ao chegar da Europa em 1923, cheio de sugestões "modernistas" trazidas de Nova Iorque, de Oxford, de Londres, de Paris, de Berlim e, ao mesmo tempo, "sôfrego por uma reintegração no meio brasileiro" - confessada no seu diário íntimo, do qual são extraídas várias destas notas -, Gilberto Freyre encontrou no Recife tendências acentuadas, segundo êle próprio recorda, "no sentido de um romance se não regionalista, caracterizado pela ênfase na chamada côr local" e talvez pelo "abuso do pitoresco". Essas tendências eram representadas principalmente pela obra de ficcionistas que, embora com suas antecipações, não compunham por aquêle que seria o esquema de 30. Mário Sete era o mais realizado de todos êles. E sua literatura não passou desapercebida a Gilberto Freyre, que chegou a comentá-lo em artigo crítico na época.

Já Xavier Marques e o autor de Maria Dusá se haviam feito notar na Bahia, e Simões Lopes Neto, no Rio Grande do Sul, por igual pendor e com alguma repercussão. Repercussão também alcançada pelo "regionalismo" de Graça Aranha, Coelho Neto, Julia Lopes de Almeida, Monteiro Lobato - êste com repercussão nacional e até na Argentina. Havia, além do mais, no Recife, a tradição de Franklin Távora, de Inglês de Sousa, e do próprio Alencar no sentido de uma literatura de ficção paisagística e socialmente brasileira, ou, segundo Gilberto Freyre, com relação a Alencar, já "luso-tropical", além de brasileira.

Entretanto, o interêsse de uma nova espécie por "temas re-gionais e tropicais" que Gilberto Freyre provocou (veja-se seu "A Pintura no Nordeste"), junto com o gôsto, que procurou des-pertar, por "uma língua portuguêsa a serviço da literatura - inclusive da ficção - mais ligada ao meio tropicalmente brasileiro embora sem resvalar no caipirismo ou na vulgaridade" parece destacar-se daquelas primeiras fases de "regionalismo" e de outras fases brasileiras de romance ou de conto "regional" - a de Afonso Arinos, por exemplo - por "uma maior tendência para um sentido social e ao mesmo tempo, humano, de drama regional, em que ao pendor para o social, incluído no social, o étnico-social, sob a forma da valorização da figura do negro ou do afro-brasileiro, se associasse o gôsto pela análise introspectiva". São traços que, por influência, ou sugestão, do ensaísta de "Aspectos de um Século de Transição no Nordeste", se encontram na obra de fic-ção de José Lins do Rêgo, depois de se terem feito sentir, por ação menos direta da mesma influência, em A Bagaceira, de José Américo de Almeida, e que também se surpreendem, segundo alguns detectives de influências, em Jorge de Lima - no seu romance podemos dizer ecológico, em que homem e barro, ou mas-sapê, se interpenetram tal qual faria o próprio Gilberto Freyre em obra do mesmo gênero; em Jorge Amado - na sua valorização novelesca do negro ou do afro-brasileiro; em Graciliano Ramos - na sua análise de decadência das famílias de engenhos de açúcar - problema tão caro a Gilberto Freyre. É curioso lembrar- se a êste propósito, de Luís Jardim, ter sido um dos dois pri-meiros leitores de Casa-Grande & Senzala (o outro foi Cícero Dias), tendo, como amigo do autor, datilografado por amizade e pacientemente, a obra inteira. Ao terminar êsse trabalho Luís Jardim "sentiu o desejo imediato" - recorda-o o próprio Gilberto Freyre - "de escrever um romance tendo por herói um negro de engenho brasileiro e por cenário o sugerido por aquêle ensaio, mas por tema, o desejo humano de liberdade". Chegou Luís Jardim "a iniciar o trabalho que só não levou avante por lhe ter dito Gilberto Freyre que êle, Luís Jardim - cujo talento o autor de Casa-Grande & Senzala sempre admirou e proclamou - deveria esperar por "uma maior e mais profunda identificação com o assunto" e por uma "expressão literária mais plástica". Esta informação nos foi dada por Gilberto Freyre que nos adianta "ter sentido intensamente, através dêsse incidente, a possibilidade de uma influência de Casa-Grande & Senzala - ainda inédito - sôbre o romance, o conto, e a própria poesia brasileira, a pintura, a escultura, a arquitetura, a música, paralela à provável repercussão que o livro teria nos estudos antropológicos e sociais em tôrno de assuntos brasileiros e tropicais". A mesma "influência imediata daquele livro sôbre um temperamento artístico" parece ter sido experimentada - ainda segundo Gilberto Freyre -"por Cícero Dias, não só como pintor - Cícero foi o ilustrador, e ilustrador magnifico, profundamente identificado com o assunto, da primeira edição de Casa-Grande & Senzala - mas também como romancista ao mesmo tempo introspectivo e regional, pois a leitura de partes do manuscrito do ensaio revolucionário do seu amigo do Recife talvez tenha animado, em Cícero, o desejo, nêle já latente, de reduzir a romance lírico suas próprias memórias de menino de engenho, amoroso de primas e encantado por mulatas". O mesmo desejo que tomou corpo no já velho - quando influenciado por Gilberto - mas ainda receptivo e aberto a sugestões, Júlio Belo, que escreveu, por sugestão dêsse amigo muito mais jovem, de quem se tornou íntimo, e de quem fêz seu confidente, Memórias de Um Senhor de Engenho: um livro em certas páginas vizinho dos romances chamados do Nordeste. Aliás, desde o seu ensaio "Vida Social no Nordeste: Aspectos de um Século de Transição" (1925) que Gilberto vinha valorizando a figura do menino de engenho na formação do Brasil. Valorização histórica e valorização lírica.

A influência mais positiva de Gilberto Freyre sôbre o romance brasileiro contemporâneo se fêz sentir através de José Lins do Rêgo. Foi êle que revelou, ao grande épico de Fogo Morto - então como que seduzido pelo ensaio panfletário - romancistas que, particularmente os inglêses, se caracterizavam exatamente pelo modo original com que transformavam em arte o seu complexo e denso universo circundante. Mais ainda: caracterizavam-se sobretudo pela maneira mais ou menos inédita com que se serviam do seu espaço sem se deixarem oprimir ou tiranizar por êsse mesmo espaço. As revelações e as advertências de Gilberto Freyre tiveram tal repercussão no jovem romancista queêle não vacilaria mais tarde em proclamar, ao escrever o prefácio de Região e Tradição: "É assim Gilberto Freyre. É o revelador de vocações, o animador. Posso dizer sem mêdo que a êle devo os meus romances, ao seu constante e benéfico convívio o ânimo para não parar, não desistir."

Em romancistas mais jovens se encontram traços da influência de Gilberto Freyre - que tão fortemente atuou sôbre Cícero Dias e José Lins do Rêgo - em Permínio Asfora - que já a reconheceu e proclamou - e, menos diretamente, em Herberto Sales, Ediberto Coutinho, Hermilo Borba Filho, Clarice Lispector, Gastão de Holanda, Osman Lins. Seu regionalismo universalista está também de certo modo presente em contos de Breno Acioly, Aurelio Buarque de Holanda, Luís Jardim, José Clímaco Bezerra, Fran Martins, José Carlos Cavalcante Borges, assim como no teatro dêste e de Ariano Suassuna. Aliás o autor de Região e Tradição chega a ver "coincidências com o seu regionalismo-universalista em romancistas novíssimos, pelos seus processos de ficção, como Guimarães Rosa, Mário Palmério, Antônio Calado e Antônio Olavo", encontrando nessas coincidências "motivos para considerar aquela sua visão do assunto - a interpretação literária ou artística ou científica da realidade humana pelo critério não exclusivamente, mas principalmente regionalista e ao mesmo tempo universalista - como uma visão ainda fecunda para um país da extensão do Brasil e para uma cultura, como a brasileira, em processo de crescente universalização sem prejuízo de suas constantes telúricas e tropicais".

Na verdade, estamos assistindo nas letras brasileiras mais novas a uma orientação instrumentalista, mas de um instrumentalismo localizado, particularmente preocupado em transformar uma cosmovisão autênticamente brasileira em formas e expressões artísticas válidas; o que se verifica como para acentuar ou ressaltar êsse misterioso e profundo compromisso que liga Gilberto Freyre, inapelàvelmente, aos destinos da ficção moderna no Brasil.

Fonte: PORTELLA, Eduardo. Gilberto Freyre e a renovação do romance brasileiro. In: AMADO, Gilberto et al. Gilberto Freyre - sua ciência, sua filosofia, sua arte: ensaios sobre o autor de "Casa-Grande & Senzala" e sua influência na moderna cultura do Brasil, comemorativos do 25º aniversário da publicação deste seu livro. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1962. 576p.

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