GILBERTO FREYRE E SUA INTERPRETAÇÃO DE INFLUÊNCIAS INGLÊSA E FRANCÊSA NA FORMAÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA
Otávio Tarquínio de Sousa
Na obra numerosa de Gilberto Freyre, na qual, em muitos casos, êle soube melhor do que ninguém discernir e interpretar os aspectos mais característicos de nossa formação social, não poderia faltar a apreciação das influências inglêsas e francesas sôbre a vida, a paisagem e a cultura do Brasil. Tema fascinante, não apenas no estudo de gente como a nossa, de contornos menos nítidos e de maior receptividade a influxos externos, mas de povos de fisionomia marcada por traços peculiares a uma sólida e antiga estruturação social.
No século XVIII, por exemplo, a influência francesa foi avassaladora em tôda a Europa. Para começar pela língua, que substituiu o latim, o francês se tornou universal, falado, como asseverou Frederico II, pelos sábios, pelos políticos, pelos cortesãos e pelas mulheres. No cosmopolitismo do Século das Luzes a tônica francesa é facilmente perceptível e vai da literatura às artes plásticas, das idéias aos vocábulos, do trajo à culinária.
Ao contacto vivificador de palavras e locuções, imensa foi a contribuição da língua francesa para outras, latinas como ela, ou germânicas e eslavas. Galicismos, galiciparlas, galiciparlices abundaram entre italianos, espanhóis, portuguêses, inglêses, alemães, holandeses, suecos, poloneses, russos, húngaros. Em todos a marca francesa ficou, embora muitas vêzes o subsídio tenha chegado por via indireta, através de galicismo já aceito por outra língua. Do francês o italiano recebeu bel padre, paesano, portreto, armata; do francês o espanhol recolheu adversario, felicitar, toaleta, mano de obra, compota; do francês as línguas germânicas tomaram de empréstimo e acabaram incorporando ao seu patrimônio maior acervo de palavras do que o fizeram línguas latinas, e isto dos têrmos militares aos abstratos, aos da literatura, aos da moda, da cozinha. De origem francesa são em inglês as palavras affection, bagatelle, charm, civilization, society, army, lieutenant, regiment, biscuit, como da mesma origem são em alemão as palavras affecktation, delikatesse, finesse, galanterie, raffinement, charmant, elegant, fade, fauteuil, enorm, kolossal, serenade.
Mais importante talvez do que a influência francesa na maneira de falar dos outros povos da Europa foi a de vestir, foi a da moda. Influência quase tirânica e desfiguradora de particularidades e usos tradicionais. A Rua Saint Honoré ditou de Paris a moda feminina em tôda a Europa, triunfalmente, a tal ponto que Catarina II impôs à Rússia uma lei suntuária para reprimir as im-portações dos vestidos e novidades parisienses. Tôdas as mulheres faceiras em tôdas as cidades do continente usavam as modas de Paris, os penteados de Paris, os cosméticos de Paris e seguiam-lhes submissas as constantes variações. Fontenelle disse então que a moda parisiense tinha asas, tal a rapidez com que se propagava. À míngua de jornais especializados (a primeira revista de modas só apareceu em 1784), Paris enviava para tôdas as capitais da Europa a poupée de la rue Saint Honoré, um manequim articulado e vestido e penteado de acôrdo com o último modêlo. Assim teriam as mulheres de Londres e de Viena, de Francforte e de São Petersburgo, de Roma e de Veneza, a receita a seguir para serem elegantes. Londres recebia todos os meses o que as damas venezianas chamavam de puppatola de Franza.
Mas essa hegemonia francesa, êsse afrancesamento da Europa, que não se contentava com a elegância das mulheres, que se ostentava na língua, que se espraiava pela literatura, pela escultura, pela pintura e pelas artes decorativas, invadia casas e salões, não poderia deixar de provocar uma reação, que se transformaria em verdadeira galofobia. Chegava a hora de negar tudo ao gênio francês, e tão longe foi a reviravolta, que o ragout pareceu a alguns ingleses apenas um môlho para ossos, em tôda a parte os puristas se levantaram contra a invasão galicista, asseverando os italianos ser a língua francesa pobre e pouco harmoniosa e resolvendo os inglêses eliminar as french fashions.
Essa reação galófoba tinha causas de vária natureza, que iam de interêsses comerciais mais ou menos explícitos a suscetibilidades nacionais exacerbadas. O poderio econômico da Inglaterra aumentava e os inglêses se expandiam impondo os seus estilos de vida. Da galomania para a anglomania o caminho foi rápido. Aliás, nenhum país talvez mais aberto às influências inglêsas do que a França. Nesta não faltou quem visse, com certo funda-mento, na instituição dos clubes, um germe fatal aos salões pa-risienses. As modas inglêsas ganharam adeptos numerosos principalmente no elemento masculino, mas houve também uma masculinização do trajo feminino por efeito de modelos britânicos. A própria cozinha francesa, tão rica e na verdade inigualável, não se recusou a aceitar, por exemplo, o rosbife de carneiro.
Onde porém a anglomania melhor se patenteou foi na língua, no vocabulário, que acolheu com entusiasmo, especialmente no tocante a instituições políticas e judiciárias, têrmos inglêses como budget, convention e jury. É certo que franceses mais jactanciosos puderam alegar que se tratava apenas de um retôrno à terra de origem, visto que budget era apenas bougette, bôlsa ou sacola de couro, jury era a forma inglesa de juré, juiz que prestou juramento, etc.
Anglomania, ou melhor, influências inglêsas houve no Brasil, e Gilberto Freyre estudou-as em livro notável, a que se seguirão outros anunciados. Já em Portugal e através de Portugal essas influências se manifestavam. Eram portuguêses que aqui chegavam já contagiados delas. Porque o certo é que Portugal de longa data gravitava na órbita britânica. Ao tratado de Methuen, de 1703, instrumento de dominação econômica inglêsa sôbre o reino luso, precederam vários outros, animados do mesmo espírito. Desde os tempos de EI-Rei D. Dinis (antes, provàvelmente) sucederam-se convenções e pactos em que à Inglaterra tocou sempre o melhor quinhão. Já em 1298 se concediam salvo-condutos aos comerciantes e navegadores portuguêses e inglêses, com a faculdade de nomearem árbitros para dirimir pendências entre uns e outros. Pelo tratado de 29 de janeiro de 1642, cogitando-se embora de reciprocidade de inglêses e portuguêses no tocante "à venda e contrato de suas mercadorias", estabelecia-se a preponderância dos interêsses dos primeiros, entrando logo em cena a autoridade do juiz conservador dos inglêses. Sob o govêrno de Cromwell, o tratado de 10 de junho de 1654 tornava mais explícitas as vantagens britânicas em Portugal e firmava as bases do que conseguiria depois Methuen, nos primeiros anos do século XVIII. Com efeito os inglêses obtinham liberdade de comércio sem salvo-conduto nem licença em Portugal e em todos os seus domínios, liberdade de religião e de culto, privilégio de seus créditos quanto aos bens e mercadorias embargados de portuguêses presos pela Inquisição ou pela Justiça Real, jurisdição especial nos casos de heranças jacentes e espólios, livros e contas de súditos britânicos falecidos em Portugal, isenção de embargo de navios e bens para uso de guerra, tratamento de nação mais favorecida, jurisdição especial do juiz conservador, sem cuja ordem nenhum inglês podia ser prêso ou embargado, salvo em flagrante delito, direito de circulação e de propriedade privada de casas de habitação, lojas e armazéns, porte de armas ofensivas e defensivas. Confirmam-se assim os privilégios do "foral antigo dos inglêses", corporificado nas cartas patentes de D. Fernando, 1367, de D. João, 1400, de D. Afonso, 1453, de D. Manuel, 1495, que asseguravam aos nascidos na ilha além da Mancha uma situação tal que levou muitos portuguêses a rogarem a seus reis "carta de privilégios de inglêses".
Entre o tratado assinado ao tempo de Cromwell e o de Methuen houvera o de 1661, polpudo de regalias aos britânicos, sendo de notar-se o direito de moradia de quatro famílias inglêsas na Bahia, em Pernambuco e no Rio de Janeiro. A sombra do poderio inglês crescia sempre e cada vez mais densa sôbre Portugal e suas colônias. E de pouco valeriam os esforços de Pombal para evitá-la. Na segunda metade do século XVIII havia só em Lisboa mais de cem casas comerciais inglêsas, e em mãos inglêsas estava quase todo o comércio de vinho. Portugal era sem maior exagêro a "Vinha do inglês", e não tardaria que em vinha do inglês, como expressão de domínio econômico, se transformasse o Brasil: a transferência da família real portuguêsa para a sua colônia americana, processada sob conselhos e o amparo da Inglaterra, ia propiciar o ensejo.
Inicialmente, o ato de abertura de nossos portos, em 1808, ao comércio das nações amigas, equivalia a abri-los de preferência aos britânicos. Começa então a história pròpriamente dita das relações anglo-brasileiras, pouco estudada entre nós até agora e para cujo conhecimento os livros de Gilberto Freyre trazem contribuição definitiva. Sem hesitações, os inglêses se convenceram de que encontrariam no Brasil excelente oportunidade para a expansão de sua indústria e de seu comércio; e, aproveitando-se, como bons realistas, das circunstâncias favoráveis, continuaram a mesma política que vinham pondo em prática com Portugal: obter o máximo de favores, o máximo de lucros. A ilha dos santos, dos poetas e dos comerciantes parecia então habitada apenas pelos últimos. Não se poderá acusar de enfático quem disser que os primeiros anos de D. João no Brasil foram de quase curatela inglêsa. Se ao tão falado apetite do Príncipe Regente não correspondiam boas digestões, seus pesadelos hão de ter sido muitas vêzes com Lord Strangford, o britânico de pouco tato sempre a imiscuir-se em negócios que não lhe diziam respeito. A verdade é que Strangford se viu obrigado a deixar o Rio de Janeiro em seguida à queixa de D. João ao govêrno britânico, mas depois de haver impôsto (talvez apenas por simbolizar a fôrça protetora) os tratados de 1810 - o de comércio e navegação e o de amizade e aliança.
Êsses tratados, que não passavam, em última análise, de edições corretas e aumentadas dos tratados anteriores, suscitaram sem demora justas críticas. Houve sem dúvida quem os defendesse, o futuro Cairu à frente; Henry Koster pretendeu também demonstrar-lhes as excelências, inclusive a da cláusula relativa à justiça especial, o chamado "Juiz Conservador da Nação Inglêsa", criado aliás desde 4 de maio de 1808: mas Hipólito da Costa analisou-os admiràvelmente no Correio Brasiliense, e a opinião geral não se deixou iludir. Em pouco os inglêses se tornaram impopulares, e mais do que ninguém os comerciantes portuguêses, até então donos sem concorrência do comércio do Brasil, fomentaram essa hostilidade. Um dêles disse que eram "uma aranha por tôda parte" e que se devia temer mais um escritório comercial inglês que tôdas as peças da artilharia britânica. De fato os portos brasileiros foram ràpidamente abarrotados de tôda sorte de mercadorias inglêsas, produtos de ferro, vidro, cobre, lã, louça, cutelaria, móveis, sapatos, roupas, colchões e, segundo Sierra y Mariscal, até caixõezinhos já enfeitados para enterrar crianças.
Cumpre todavia encarar a atividade dos inglêses entre nós na primeira metade do século XIX sob outros prismas que não o da ganância comercial e não perder a serenidade de julgamento diante dos excessos e das impertinências do seu então jovem imperialismo. Foi o que fêz Gilberto Freyre. Não que lhe faltasse ânimo para exprobrar demasias ou que omitisse a arrogância de certos súditos de Sua Majestade Britânica. Mas em sua obra há pouco espaço ou até não há nenhum para definições de ordem moral ou considerações de índole política: não visa a fixar o sentido do imperialismo britânico nas suas relações com o Brasil, a conquista de mercados através de tarifas aduaneiras conseguidas mais pelas imposições de nação poderosa do que por conveniências recíprocas; nem tem em mira a influência inglêsa por detrás das notas do Foreign Office ou de seus diplomatas nem sempre macios. Não estarão em cena inglêses eminentes, grandes homens, mas negociantes, cônsules, missionários, engenheiros. O que Gilberto Freyre fêz foi realmente o estudo histórico-sociológico da influência britânica sôbre a vida, a paisagem e a cultura do Brasil, à luz de uma sempre arguta interpretação psicológica. E sem nenhuma espécie de improvisação, com o arrimo de tão copiosa massa de documentos, que a alguns leitores pareceria até prodigalidade ou luxo. Reparo entretanto, descabido, já que isso assume para o autor, se não a importância de um sistema, pelo menos a de uma técnica de trabalho voluntàriamente adotada. Dessas centenas e centenas de anúncios de jornais e ofícios de cônsules, transcritos ou citados, Gilberto Freyre extrai tudo o que é indispensável para definir os traços culturais acrescentados à vida brasileira graças ao contacto com homens, idéias, costumes, objetos, cousas de procedência inglêsa. Marca britânica de que já haveria algum sinal antes, mas que se acentuou e cresceu com a chegada da família real portuguêsa em 1808, ano dessa chegada e da dos inglêses; não só de Lord Strangford e Sir Sidney Smith, como de muitos comerciantes e aventureiros. De um John Luccock ou de um John Mawe, por exemplo. Daí em diante, em ritmo acelerado, aportariam aqui, ao lado de homens, artefatos inglêses, objetos de ferro, de aço, de cobre, de vidro, atuando decisivamente sôbre a psicologia dos brasileiros e a paisagem urbana.
Gilberto Freyre dá-nos imenso rol de tudo quanto se ficou a dever aos inglêses, desde o uso do chá, da cerveja e do pão de trigo, até o bife com batatas, a residência em subúrbio, o water closet, o júri e o habeas-corpus, sem falar nas numerosas palavras e expressões introduzidas em nossa língua. Dúvida enorme, mas que rivaliza no vulto com a que contraímos com os franceses. E seria interessante pesquisar até onde algumas influências inglêsas, principalmente de ordem política e intelectual, vieram por intermédio da França, terra de anglicistas e anglófilos. Havia aqui mais gente sabendo ou lendo francês do que inglês e as obras de autores britânicos chegavam em francês, como Tac-tique des Assemblées, de Bentham, cuja venda João Pedro da Veiga e Comp. anunciavam pelo Diário do Rio de Janeiro, a 11 de outubro de 1823. Não quer dizer isso que não se conhecesse a língua inglêsa, nem que os livros em inglês não fôssem lidos. Se é certo que desde 1699 se criara no Rio de Janeiro uma aula de Francês para militares, ao tempo de D. Joao VI havia professôres régios não só de Francês como de Inglês. Evaristo da Veiga foi discípulo, em 1818, de João Joyce, que lhe passou atestado pela "rapidez, perfeição e facilidade" com que traduzia o idioma inglês. Então, decorridos já dez anos de acentuada preponderância britânica nos negócios do Brasil, não faltaria quem possuísse livros inglêses. Não seriam apenas os numerosos comerciantes súditos de S.M.B. a expulsarem os portuguêses das antes tão portuguêsas Ruas Direita, da Alfândega, dos Pescadores, do Rosário, da Quitanda., os únicos que liam em inglês. Evaristo não constituía exceção.
Gilberto Freyre focaliza tôdas as atividades em que se empenharam os britânicos no Brasil, tudo quanto "o capital e a técnica, o espírito de aventura e o espírito de organização, a ciência e o comércio dos inglêses" realizaram ou tentaram realizar. Se os comerciantes britânicos se espalharam por nossas cidades, de preferência Rio, Recife e Salvador, não escassearam os empreendimentos inglêses de mineração e, quando a tração a vapor permitiu as estradas de ferro, mais do que em qualquer outra esfera os inglêses patentearam aí a sua superioridade técnica e científica. Êste é um dos aspectos mais originais na interpretação de Gilberto Freyre, que proporciona a seus leitores algumas das melhores páginas de tôda a sua obra de sociólogo e historiador social, porque nelas está o ensaísta que sabe penetrar a parte humana - no melhor sentido da expressão - da emprêsa comercial ou industrial, a porção de aventura e até de poesia escondida no construtor de ferrovias ou no explorador de minas.
Nova luz êle nos traz no tocante à valorização entre nós de ofícios ou profissões antes tidos como desprezíveis ou menos nobres - de mecânico por exemplo, ou de negociante. Quanto a êste, nota que a figura do comerciante em grosso se emparelhou com a dos fidalgos e desembargadores, pelas moradias, pelas roupas, pelas carruagens. Influências inglêsas no vestuário, no chapéu, na jaqueta, nas casacas, nas meias, nos lenços, nas luvas, nas calças de montaria, tudo dêsses panos, lãs e tecidos que a indústria britânica orgulhosamente fabricava, desbancando fazendas orientais antes tão apreciadas. Influências inglêsas nos objetos de uso doméstico, como as louças que poriam em cheque as asiáticas, tão comuns aqui que o Almanaque do Rio de Janeiro, de 1792, mencionava na pequena cidade colonial nada menos de doze lojas de louça da Índia. Influências inglêsas de ordem menos material verificada na forma do culto religioso. Influências inglêsas na conduta de cada dia pelo hábito da pontualidade aos encontros marcados, na ética dos negócios pela venda escrupulosa de produtos segundo a qualidade e o estado de conservação indicados nos anúncios de jornal. Influências inglêsas que em muitos casos assumiam ares de invasão e de conquista, dada a soma de privilégios que os tratados imperialìsticamente impostos asseguravam, desde as tarifas escandalosas até a justiça de exceção, o odioso juiz Conservador da Nação Inglêsa, atentatório da soberania do jovem Império Brasileiro. Êsses aspectos da expansão inglêsa entre nós, mais do que quaisquer outros, suscitaram a impopularidade dos beefs, "baetas", "gringos", "novasseitas", "bodes" das alcunhas populares.
É bem conhecido o ato do govêrno de D. João VI contra as rótulas e gelosias de urupema. Sua substituição por grades de ferro e vidraças revestiu-se de um caráter quase revolucionário, que Gilberto Freyre assinala, sugerindo explicação nova e plausível - pressão dos inglêses interessados na venda de ferro e vidro. De um dia para outro começou a chegar da Inglaterra vidro em grandes quantidades, de tôdas as espécies, para tôdas as serventias. E também ferro. Vidro e ferro passaram a caracterizar as casas brasileiras. "De 1808 a 1830 poucos os brigues vindos da Inglaterra para o Brasil sem essas quatro ou cinco mercadorias básicas do comércio britânico com a América portuguêsa: vidro, ferro, fazenda, louça, bacalhau. "Os jornais ficaram pejados de anúncios de vidro. Ter vidro ou vidraças passou a ser vantagem incalculável. Casas, carruagens, até homens com os diversos aparelhos de ótica, todos se beneficiando do vidro.
Mas com essas influências inglêsas - que significavam, como acentuou Gilberto Freyre, uma invasão, uma quase revolução, aquela "alteração tão dramática no ambiente das cidades" que à visão artística sempre presente na obra do sociólogo brasileiro sugeriu a mudança de cenário nos teatros - muitas vêzes rivalizaram influências francesas, nem sempre assumindo os mesmos aspectos, embora deixando também em nossa vida traços fundos e duradouros desde as últimas décadas do século XVIII. Filósofos e pensadores franceses foram guias e modelos das figuras mais cultas da Inconfidência Mineira, bastando como prova uma vista de olhos no catálogo dos livros seqüestrados ao Cônego Luís Vieira da Silva, onde aparecem Montesquieu, Condillac, a Enciclopédia e o indefectivel Mably. Todos os implicados na devassa mandada proceder em 1794, no Rio de Janeiro, pelo Conde de Resende, viviam seduzidos pelos sucessos da Revolução Francesa, tal como os participantes do levante baiano de 1798. Nestes, em geral de condição social humilde, a preocupação com a França era absorvente. João de Deus do Nascimento, alfaiate, pardo, cabo do regimento de milícias, disse que convinha que todos se fizessem franceses para viverem em igualdade e abundância, e mais: procurava vestir-se seguindo a moda de França, pois "trazia calçados uns chinelins com bico muito comprido e a entrada muito baixa e calças tão apertadas que vinha muito descomposto". Observado por alguém que lhe estranhou a indumentária, retrucou: "Cale a bôca, êste trajo é francês; muito brevemente verá vossa mercê tudo francês." Menos atentos às idéias políticas francesas não foram os revolucionários de 1817, em Pernambuco. Os frades do convento de Santa Teresa, em Olinda, tinham na ponta da língua os episódios da grande Revolução.
Nos últimos anos da estada de D. João VI e durante o Primeiro Reinado houve verdadeira disputa franco-britânica para a conquista do mercado brasileiro. Os inglêses, superiores aos franceses em poderio econômico, frota mercante e pendores imperialistas, apoiavam-se no avanço que lhes proporcionavam as tarifas dos tratados de 1810, convindo lembrar que sob a égide britânica teve remate a obra da independência brasileira. Mas os franceses faziam o possível para obter as mesmas vantagens e, afinal, em 1826, lograram firmar um tratado em virtude do qual suas mercadorias pagariam 15% de direito de entrada em vez da taxa de 24% ad valorem de antes.
Não houve jeito, porém, de os franceses alcançarem os inglêses, uma vez que a sua política econômica não estimulava relações comerciais em bases sólidas. Enquanto por aqui havia grande procura de suas mercadorias, a França opunha embaraços à aquisição do açúcar e do café brasileiros, no propósito de favorecer a produção das colônias. Não havendo reciprocidade, os pagamentos se tornavam mais difíceis e o preço das mercadorias se elevava. Os navios franceses, sem carga de volta, duplicavam os fretes, e freqüentemente os produtos da indústria da França, para chegarem ao Brasil, eram remetidos antes a Londres e Liverpool, desembarcando de bordo de navios inglêses.
Num capítulo entretanto a França dominou o mercado brasileiro: o das modas de Paris, adotadas e vulgarizadas não apenas no Rio, na Bahia ou em Pernambuco, mas em longínquos centros de população do interior. Tal foi a repercussão dessa espécie de mercadoria francesa, no Brasil e em outros países, que comerciantes inglêses iam à França ùnicamente para escolher panos de lã e de algodão estampado. Os brasileiros da primeira metade do século XIX e ainda muito depois acolhiam também com avidez os artigos de luxo, as jóias, os móveis, as velas de cêra, os remédios, as pinturas, as gravuras em cobre, os espelhos, as porcelanas, os cristais, os vinhos, os licores, as frutas sêcas, o azeite e a manteiga que a França lhes mandava.
Outro capítulo houve em que os franceses preponderaram - o das idéias, fôsse no plano literário, fôsse no político. Spix e Martius, que tão atentamente nos observaram, escreveram: "A literatura francesa, que conquistou neste país as camadas mais finas e ilustradas, é a preferida. A propagação da língua francesa e o enorme afluxo de livros nela escritos superam tudo que se possa imaginar [....]. O fenômeno é ainda mais extraordinário porque as relações políticas e mercantes [os naturalistas aqui estiveram em 1817] são de estreita ligação com a Inglaterra, pelo que se deveria supor maior aproximação com a literatura britânica." Os sábios bávaros assistiram em São Paulo à representação da opereta Le Déserteur; em Minas, depois de verem as mulheres de São João del-Rei vestidas "à moda de França", puderam manusear, em Vila Rica, na biblioteca do ouvidor, muitos livros em língua francesa, e contemplar, em Vila do Príncipe, as gravuras francesas que ornavam a casa do vigário; na Bahia verificaram a aceitação das modas francesas, assim como a da língua, mais falada do que a inglêsa.
Se antes, nos fins do século XVIII, os livros franceses já aqui chegavam em boa quantidade, mais ou menos dissimulados na bagagem de juizes e frades, com o advento da paz geral, abertos os portos aos navios franceses, a sua entrada e difusão avultariam. Junto de D. João VI havia amigos da França, havia entre outros o Conde da Barca, que, logo que pôde, cuidou de proporcionar ao Brasil as lições da arte e do bom gôsto francês. Entre as inúmeras criações do reinado joanino não havia uma escola de Belas-Artes. Para estabelecê-la veio de França um grupo de artistas, como Debret, Grandjean de Montigny, Félix Émile Taunay, Simon Pradier, os dois Ferrez, etc.
Os artistas importados pelo Conde da Barca, malgrado os obstáculos que encontraram, foram, uns mais do que outros, agentes da influência francesa entre nós e alguns dêles aqui deixaram ilustre descendência. Influência pelo comportamento humano dos Taunays; influência pela conduta militar dos Beaurepaires, dos Escragnolles, dos Labatuts, lutadores da causa da emancipação brasileira; influência de homens de atividades várias, de artistas como Bonrepos, Pallière, Boulanger, de médicos como Faivre, Sigaud, Sénéchal, de jornalistas e fundadores de jornal como Pierre Plancher, Émile Seignot Plancher, A. M. Jourdan Aine, de livreiros e impressores como J. B. Bompard, Paul Martin, M. S. Cremière, Cogez, de técnicos em tinturaria como Salingre ou em outras artes aplicadas como Braconnot, Ovide Enout, Pilite, Fabre, Roy, pai e filho, que organizaram oficinas de marcenaria, serralharia, carpintaria, curtume, fundição; influência de educadores como o Padre Boiret e depois em larga escala das religiosas de Sion e do Sacré-Coeur, de desenhistas como Hercules Florence; influências que se exerceram através dêsses homens, da propagação das idéias francesas, do reflexo dos movimentos políticos franceses, dos livros franceses espalhados por todo o Brasil, das modas parisienses pressurosamente imitadas, dos dançarinos e até das cocotes francesas que terão com as sua manigâncias ensinado alguma cousa a brasileiros mais rústicos ou simplórios.
Perlustrando aspectos vários da influência francesa no Brasil, Gilberto Freyre estudou-os com a segurança e a mestria que lhe são próprias, em Um Engenheiro Francês no Brasil e nas anotações ao diário íntimo de Vauthier. Fê-lo, como sempre, com pontos de vista pessoais, valendo-se dos podêres de artista que lhe permitem exibir por assim dizer vivo e quente o material de que se serve, sobretudo o que é aparentemente mais humilde ou mais trivial. Ninguém como Gilberto Freyre soube extrair de pequenos anúncios de jornal tanta seiva, tanto suco, tanto sangue, nesse dom de ressuscitar uma época pela análise paciente, lenta, minuciosa de todos os dados, de todos os elementos que a definem. É que o sociólogo é também historiador e não teve jamais mêdo de socorrer-se da imaginação em seus esforços de pesquisador e de intérprete: da imaginação necessária em qualquer tentativa de conhecimento.
Um Engenheiro Francês no Brasil é um levantamento histórico-social da projeção de Vauthier sôbre o meio brasileiro, ou, como Gilberto Freyre acentuou no prefácio de sua obra, o estudo da "influência de uma cultura nítida, definida, adiantada - no caso, a francesa dos princípios do século XIX, considerada de preferência nos seus aspectos menos grandiosos e mais quotidianos - sôbre uma cultura incipiente e ainda verde: a brasileira, da mesma época, igualmente considerada de preferência naqueles aspectos menos ilustres". O processo de influência de uma cultura sôbre a outra através de agentes técnicos. Influência não apenas intelectual por intermédio de idéias e doutrinas políticas, mas pela ação direta e pessoal de técnicos, de engenheiros construindo estradas, pontes e edifícios públicos. Influência aparentemente humilde, mas numerosa, abundante, reiterada, de artesãos, marceneiros, tipógrafos, alfaiates, jardineiros, cabeleireiros, padeiros, cozinheiros, de variados contactos técnicos, transformando a feição, os costumes, os estilos de vida brasileiros. Influência que deixou traços profundos e que era enorme até os anos iniciais do século XX, até a Primeira Grande Guerra.
Um exemplo entre muitos estaria nas padarias francesas nos mais importantes centros urbanos do Brasil, fabricando não só o pão conhecido usualmente como francês, mas o de uma província, de uma região da França, o pão de Provença. Infelizmente nem sempre tôdas as iniciativas francesas lograram bom êxito. Ao tempo de D. Pedro I, o Conde de Gestas, diplomata que aqui serviu, casado com uma sobrinha de Chateaubriand e herdeiro de tia riquíssima, de par com estaleiros que fundou na ilha do Viana, estabeleceu-se também com um sítio na Tijuca, plantando café e cana-de-açúcar, frutas européias como uvas, maças, peras e morangos, e criando vacas importadas da Bretanha. O bom leite permitiu-lhe ter boa manteiga e bom creme e mais de uma vez pôde oferecer ao monarca brasileiro, em passeios por suas terras, o regalo de morangos com creme, excelentes morangos iguais aos de Plougastel, dos melhores de França. Vão esfôrço: a indústria de lacticínios do Conde de Gestas não se desenvolveu e a manteiga e o queijo dos cariocas continuaram a ser de importação ao longo de todo o século XIX. Mas, em numerosos casos, franceses aqui chegados exerceram atividades fecundas, atuaram por sua presença e sua técnica, foram instrumentos de nossa acelerada europeização ou afrancesamento. É o que Gilberto Freyre nos mostra ao fixar aspectos análogos em sua obra de sociólogo e historiador social, em que avultam ensaios da penetração crítica de "O Brasileiro e o Europeu" e de "Ascensão do Bacharel e do Mulato", em Sobrados e Mucambos, num e noutro, surpreendidas e anotadas, com inigualável sutileza, as transformações e mudanças, lentas ou rápidas, disfarçadas ou notórias, na formação da cultura brasileira, por fôrça de influências inglêsas e francesas, influências nem sempre benéficas e até hoje responsáveis em boa parte por um artificialismo de fórmulas e soluções que iam das instituições políticas ao vestuário, dos modos de pensar aos modos de viver.
Fonte: SOUSA, Otávio Tarquínio de. Gilberto Freyre e sua interpretação de influências inglêsa e francesa na formação da cultura brasileira. In: AMADO, Gilberto et al. Gilberto Freyre - sua ciência, sua filosofia, sua arte: ensaios sobre o autor de "Casa-Grande & Senzala" e sua influência na moderna cultura do Brasil, comemorativos do 25º aniversário da publicação deste seu livro. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1962. 576p.
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