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Assinatura de Gilberto Freyre
Palestras  



GILBERTO FREYRE E AS CIÊNCIAS SOCIAIS NO BRASIL


Manuel Correia de Andrade

01 - O estudo das ciências sociais no Brasil: antecedentes

Desde a Independência, em 1822, os intelectuais brasileiros e as autoridades do país, assim como os cientistas estrangeiros que aqui viveram ou trabalharam, preocuparam-se com a compreensão e a interpretação de um país que tinha dificuldades de manter a sua independência e unidade, com um território de dimensões tão grandes e uma população pouco expressiva e muito diversificada. José Bonifácio de Andrada e Silva, já chamava a atenção para o fato de ser, a maioria da população, composta de negros escravos e indígenas dispersos pelas florestas e campos, o que tornava difícil integrá-los à cidadania.

O Imperador D. Pedro II, dirigindo o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, patrocinou estudos e expedições científicas, procurando desenvolver os conhecimentos sobre o país e caracterizar a sua identidade. Daí estudos, como os de Varnhagen, procurando valorizar a contribuição indígena e minimizar a participação negra.

A luta pela integração territorial contra as forças regionais e locais, que tendiam a conduzir o país à desagregação, além do desenvolvimento do ensino superior, levaram ao surgimento de estudos que conduziram a verdadeiras descobertas, visando o conhecimento de sua realidade e a caracterização de sua identidade. Esta preocupação intelectual e cívica, a um só tempo, foi tomando maior importância com a publicação de livros e ensaios que visavam não só a interpretação da realidade como também contribuíram para a solução de problemas mais prementes.

Estas inquietações levaram a estudos diversos, como os da chamada Escola do Recife, liderada por Tobias Barreto, filósofo e jurista que tinha grande preocupação filosófica, trazendo à baila escolas e teorias dominantes na Europa, como o positivismo e o evolucionismo, pondo em cheque o domínio do conhecimento mais ligado à escolástica e mais dependente dos cânones da Igreja Católica oficial.

Na segunda metade do século XIX e na primeira metade do século XX, surgiriam estudos que desenvolviam análises de problemas sociais, aparecendo como verdadeiros precursores de um florescimento das ciências sociais que só se tornariam autônomas no Brasil a partir de 1930. A revolução de 30 abalou o domínio dos senhores de terra, da chamada economia agrário-exportadora e ensejou uma verdadeira eclosão de estudos sistemáticos das ciências sociais, projetados por numerosos ensaístas, entre os quais se destacaram Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior.

Em pleno século XIX, porém, Joaquim Nabuco, preocupado com o problema da escravidão e com a necessidade da abolição da mesma, não só desenvolveu uma grande campanha abolicionista, como escreveu livros memoráveis, como A Escravidão, em 1870, (1988) e O Abolicionismo, em 1884, (1947), onde preconizava não só a libertação pura e simples dos então escravos, como a realização de uma reforma agrária que desse terra e oportunidade de trabalho aos que fossem libertados. A abolição, que foi feita em 1889, pelo gabinete João Alfredo, arrastou com ela a queda da monarquia (Andrade, 1988).

A queda da monarquia não provocou as modificações estruturais que muitos esperavam, mas trouxe modificação no sistema de propriedade da terra e do controle do poder; estimulou a formação de núcleos de resistência e de luta no interior e uma grande repressão a estes núcleos. O mais famoso, o de Canudos, situado no sertão baiano e liderado por Antônio Conselheiro, provocou numerosas expedições à área e uma repressão cruel e desenfreada, com a matança pura e simples dos chamados fanáticos. A história desta repressão seria descrita pelo engenheiro e jornalista Euclides da Cunha, em livro publicado em 1902 e logo tornado leitura obrigatória de todos os intelectuais e autoridades do país, e hoje leitura obrigatória nos meios acadêmicos (1966); ele nos mostra que o movimento de Canudos não foi uma insurreição monarquista, como o governo republicano procurava alardear, na realidade, foi um choque cultural entre a cidade e o campo, choque que separava populações de um mesmo país, mantendo uma situação privilegiada para os proprietários de terra e os donos do poder, de um lado, e o povo espoliado, sem acesso às mínimas condições de saúde e de educação, e que continuava sendo oprimido no sertão, ou nos sertões.

As classes dominantes olhavam o Brasil, desfrutavam de privilégios e procuravam justificar o atraso em que o país se encontrava, frente aos Estados Unidos, ao fato de ter sido povoado por "raças inferiores" e de ter um clima tropical e "insalubre". Era fácil transferir para as condições climáticas e étnicas, as causas da pobreza de um país onde dominava uma economia voltada para o mercado externo e controlada por grupos econômicos, ligados à exploração da terra, ao controle do comércio exterior e à dominação política.

No começo do século XX, o médico sergipano, radicado no Rio de Janeiro, então capital da República, Manoel Bonfim, realizou estudos de interesse social e publicou livros que, infelizmente, tiveram pouca aceitação (1930), mas levantavam a idéia de que as causas do nosso atraso não eram devidas à presença indígena e africana em nossa formação, mas sim ao sistema de exploração colonial, que continuara a vigorar, mesmo após a independência e a república.

À proporção que o mundo evoluía e o Brasil não se libertava das correntes que o prendiam ao passado colonial, a situação se agravava. O número de estudiosos que procurava entender e interpretar a nossa formação foi aumentada com figuras como Capistrano de Abreu, que estudou a ocupação do interior (1930 e 1934) e Alberto Torres, que procurou desenvolver a idéia de que a estrutura jurídica brasileira era formalmente liberal, procurava imitar as chamadas democracias européias, quando a nossa formação social era, sobretudo, autoritária. Como político militante, ele publicou vários livros sobre problemas nacionais, mas em dois deles, que se tornaram famosos, estudou o problema nacional e a organização que preconizava para o país (1933).

Na década de Vinte, a grande figura dos estudos sociais no Brasil foi o fluminense, Oliveira Vianna, que estudou a evolução do povo brasileiro, as populações das regiões meridionais do Brasil e, sobretudo, o problema racial (1932 e 1933), defendendo a idéia de que a imigração européia iria contribuir para embranquecer a população brasileira e de que na conquista do território nacional havia predominado correntes de migrantes do norte de Portugal, dominantemente louros e de olhos azuis. Ele, que teve influência na política brasileira, foi um dos mais destacados pensadores da linha doutrinária autoritária-direitista, tendo sido colaborador do chamado Estado Novo.

02 - Os anos Trinta e a contribuição de Gilberto Freyre

A inquietação intelectual e política no Brasil exacerbou-se nos anos Vinte, quando a República, proclamada em 89, passou a ser largamente contestada por jovens estudiosos e por militares inquietos, dando margem à discussão de novas idéias. Neste período, passaram a ter repercussão os fatos ocorridos na Rússia, com a revolução bolchevique e na Itália, com Mussolini e a marcha sobre Roma. Comunismo, anarquismo, social-democracia, corporativismo, fascismo e nazismo, passaram a ser discutidos no país e a promover a formação de adeptos nas várias camadas sociais.

Naquele período, Gilberto Freyre voltou ao Brasil, após uma longa estada nos Estados Unidos, onde fora estudar ciências sociais em universidades americanas, com uma passagem pela Europa. Aqui chegando, fixou-se no Recife e restabeleceu contatos com os amigos, ao mesmo tempo que passou a frequentar meios populares, como terreiros de cultos afro-brasileiros, clubes carnavalescos, etc, pondo-se bem em contato com a alma do povo com a sua maneira de viver, sua moradia - os mocambos - com os tipos de alimento e as formas de prepará-los. A sua curiosidade foi além do que se passava com os humildes e ele começou a se interessar pela alimentação nas casas ricas, senhoriais, com os móveis usados na época, como se transportavam as pessoas, quer a pé, a cavalo de sela, em carros de boi, chegando até aos primeiros automóveis. Com as maneiras de amar, de comer, de defecar, de parir, enfim, com a vida em toda sua totalidade. Manteve ligações com a imprensa e com o governo, tendo sido auxiliar de confiança do governador Estácio Coimbra. Por suas atitudes e ligações chegou a ser taxado de "ser comunista".

Em textos publicados na imprensa da época, defendeu certos princípios, como o do respeito às tradições, sem prejudicar as inovações; dizia-se um "conservador-revolucionário"; frequentava cultos afro-brasileiros e tinha grande convivência com os negros e mulatos, participava de congressos científicos, salientando sempre a importância da região, encarando os vários estados como unidades culturais na federação, sempre preocupado com o social, pregando um maior intercâmbio entre os povos e entre os grupos étnicos e as classes sociais.

Apesar de muito ligado a políticos tradicionais, como Estácio Coimbra, e a empresários do ramo açucareiro, como Carlos Lyra Filho, era acusado de ter idéias comunistas e ligações com pessoas consideradas suspeitas, como José Lins do Rego e Osório Borba, oposicionistas radicais. Na verdade, apesar de procurar manter sempre uma posição de independência cultural e de não se filiar oficialmente a nenhuma corrente filosófica, pode-se observar suas posições dialéticas até nos títulos de suas obras, como "Casa Grande & Senzala" e "Sobrados e Mocambos". Sofreu uma oposição constante de Oliveira Vianna, que chegou a se recusar a ler os seus livros por considerá-los subversivos, mas estava muito próximo de Caio Prado Júnior, autor manifestamente marxista, quando afirmou, em prefácio ao livro Casa Grande & Senzala que "Já depois de escrito este ensaio, apareceu o trabalho de Caio Prado Júnior, Evolução Política do Brasil (ensaio de interpretação materialista da história brasileira) São Paulo, 1933, com o qual me encontro de acordo em vários pontos" (pág. XV da 1ª edição) e também fez citações simpáticas de textos de Astrogildo Pereira. E esta afirmativa é mantida nas edições posteriores do livro, o que indica que Gilberto manteve seu ponto de vista.

Casa Grande & Senzala provocou impactos entre os intelectuais conservadores e direitistas, que fizeram grande campanha contra o livro e o seu autor, por considerá-lo imoral, bolchevista, dissolvente e por ofender a moral e os bons costumes. Campanha comandada, em parte, pelo núcleo jesuíta do Recife, então liderado pelo Padre Fernandes, que chegou a propor ser o mesmo queimado em praça pública; a revista Fronteiras, confessadamente de direita, moveu forte e agressiva campanha contra ele, ao ponto de um colunista afirmar que o seu título real deveria ser "Casa Grande Sem Sala" e não "Casa Grande & Senzala".

As proposições de Gilberto Freyre, muito polêmicas, contribuíram para consolidar os estudos de ciências sociais no Brasil, dando margem a que os mesmos se desenvolvessem em um meio que estava preocupado em conhecer e em procurar os caminhos a seguir. Ele teria sido um sistematizador, inclusive, porque, considerava-se um escritor que cultivava o escrever bem e de forma acessível ao público leitor, por ficar quase sempre em posições não ortodoxas - daí a sua recusa em se filiar a escolas filosóficas e a linhas de pensamento - e a manter relacionamento com pessoas das mais diversas posições.

De um modo geral, em suas formulações científicas e intelectuais, Gilberto posicionou-se em favor da análise da colonização portuguesa considerando-a patriarcal; valorizava o estudo da família, era a favor do estudo da importância das regiões como unidades geográficas, fazia a defesa do meio ambiente, tomando posições ecológicas acentuadas em favor do pluralismo étnico e cultural e do maior intercâmbio entre os povos, etc.

No mundo intelectual brasileiro, ele manteve convergências e divergências comuns entre intelectuais que defendem idéias e posições e tentam fazer proselitismo. Teve, porém, entre os seus admiradores figuras as mais diversas, inclusive marxistas, como o antropólogo Darcy Ribeiro e o deputado José Maria Rabelo, do PC do B., ao lado de forte oposição de outros escritores, como Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e Josué de Castro.

Em artigo publicado em 1980, na Folha de São Paulo, Gilberto Freyre considerava como economistas com posições humanistas, tanto autores de posições direitistas, como Roberto Campos e Delfim Neto, como economistas tradicionais, como Roberto Simonsen e Eugênio Gudin, e autores de posições bem mais abertas, como Caio Prado Júnior e Celso Furtado. Isto, no momento em que suas posições políticas estavam muito ligadas ao governo autoritário-militar, instalado em 1964 e só concluído em 1985.

03 - As principais idéias de Gilberto Freyre

Gilberto Freyre pode ser considerado um consolidador das ciências sociais no Brasil, sem fazer restrições a outros grandes pensadores brasileiros, por haver formulado uma série de princípios que teriam norteado a formação da nacionalidade brasileira, a partir da colonização. Essas idéias estão consubstanciadas nos seus livros principais e em conferências e artigos dispersos, podendo ser aceitas ou contestadas. Suas idéias fundamentais estão na afirmação da existência de um processo patriarcal na formação brasileira, centralizado na família; na idéia de que o português, habituado com um clima subtropical e em contato com povos não europeus, estaria mais habilitado a conquistar novo território e conduzir o processo de colonização, do que os povos do norte e do centro da Europa; considerava também que o processo de colonização contou com a participação dos nativos do Brasil e dos escravos vindos da África; que esse processo se realizou com um grande impacto negativo sobre o meio ambiente, daí a necessidade de inovações no sistema de exploração da terra; achava necessário que se desenvolvessem estudos regionais e uma política que valorizasse o regional diante do nacional e a existência de um mundo tropical, diferenciado dos outros mundos, e que se precisava encontrar soluções específicas para os problemas do mesmo, além de uma política de modernização que não desprezasse os valores tradicionais.

É interessante que se faça uma análise de cada uma destas proposições: assim, a colonização foi feita, no Brasil, tendo como base a apropriação da terra e implantação de um sistema latifundiário, escravista e monocultor; era um sistema comandado por portugueses ligados aos donatários das capitanias, que escravizavam indígenas e adquiriam negros africanos, formando núcleos populacionais rurais, que se tornariam, com o tempo, centros de povoamento. Em cada propriedade havia escravos que trabalhavam no campo, sob a direção de feitores, e escravos empregados nos serviços domésticos das casas-grandes. Gilberto, como antropólogo, preocupado com o estudo da família, naturalmente, deu maior atenção aos escravos domésticos, como ele salientou em Casa Grande & Senzala, deixando em segundo plano os escravos que executavam serviços no campo. Daí o contar muito fatos colhidos em fontes diversas, das relações entre senhores e escravos e escravas, e desenvolver a idéia da miscigenação, contestando os arianistas do Brasil e fortalecendo a importância da presença e da contribuição negra na formação brasileira. Este fato o levou a ressaltar a existência de relações íntimas entre colonizador e colonizado, mas não se eximiu de salientar o caráter autoritário e até masoquista daquele para com o negro que vivia na casa-grande; as negras jovens eram quase sempre as companheiras de cama dos filhos do senhor da terra, mas isto não os impedia de submetê-las aos caprichos, muitas vezes depravados e violentos. A tal ponto que Gilberto chegou a afirmar que "o português colonizou o Brasil mas também o sifilitizou". Essas afirmações levaram alguns dos seus críticos a dizer que ele fazia a defesa da superioridade da colonização portuguesa, do ponto de vista humanitário, e que teria admitido a existência, no Brasil, de uma "democracia racial". Afirmativa hoje contestada pelos seus discípulos e admiradores e que, pessoalmente, nunca encontrei em nenhum dos seus escritos.

Quanto à suposta superioridade da colonização portuguesa, deve-se ao fato de que Gilberto Freyre, em seus escritos, salientava que o português, vindo de um país de clima mediterrâneo, mais próximo do tropical do que o clima temperado de outras regiões da Europa, tinha maior facilidade em adaptação às regiões tropicais, facilitando a sua aclimatação. Admitia também que ao iniciar a colonização do Brasil, no século XVI, ele já tinha uma longa experiência de convivência com povos norte africanos - árabes e bérberes - que ocuparam e dominaram a península Ibérica durante séculos, e que, no século XIV e XV, a sua expansão pela costa da África o levou a conviver com povos negros, não só através de guerras com de atividades comerciais. Convivência que se prolongaria no Brasil com escravos negros trazidos do continente africano e estabelecendo nas áreas de mais intenso trabalho agrícola. A vantagem do português sobre outros colonizadores europeus - franceses e holandeses - que também tentaram se estabelecer no Brasil, resultou não de motivos éticos ou humanitários, mas de motivos históricos.

Para ele, os indígenas e os africanos não tiveram, na colonização, apenas um papel passivo, mas também um papel ativo, tanto no trabalho, mesmo sob coação, como na própria luta que desenvolveram, resistindo à dominação. A importância que ele dava aos negros era tanta que no livro "Casa Grande & Senzala", eles foram estudados em 214 páginas (dois capítulos), enquanto os índios ocuparam apenas 102 páginas e as do branco 106 páginas. Em estudos posteriores ele afirmou que o negro não teria sido um colonizado, mas também um co-colonizador.

Outra acentuada preocupação de Gilberto Freyre foi com o problema do meio ambiente, que ele abordou em seus livros Casa Grande & Senzala e em Nordeste (1937), onde estudou o papel da cana de açúcar na ocupação da região da Mata pernambucana, salientando a sua importância econômica, mas considerando-a destruidora da floresta atlântica, além do seu impacto sobre os rios, que eram usados e poluídos. Esse problema da poluição dos cursos d'água da região da Mata o preocupou durante toda a vida, a ponto de, com a criação do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (atual Fundação Joaquim Nabuco), ter organizado pesquisas específicas e estudos sobre a poluição dos rios do Nordeste Oriental, pelo lançamento de resíduos industriais nos mesmos e as consequências perniciosas dele decorrentes.

Gilberto Freyre preocupou-se também com a valorização da região, frente à Federação, por considerá-la uma unidade cultural mais importante do que os estados, unidades político-administrativas. E, ao defender a região, ele procurou valorizar a tradição, estudando os costumes, as habitações, a alimentação, os hábitos de convivência, as relações familiares e extra-familiares, as relações de trabalho, culturais, etc., para confrontá-las com as inovações, daí os seus desentendimentos com os que organizaram a Semana de Arte Moderna de São Paulo, sobretudo com Mário de Andrade, sendo por isto, muito combatido pelo jornalista Joaquim Inojosa (1941), que se considerava como representante do modernismo no Nordeste. Essas divergências, porém, não impediram que, posteriormente, houvesse grande aproximação entre ele e modernistas, como Manuel Bandeira e Oswald de Andrade.

A partir daí, procurou desenvolver estudos que valorizassem o regional frente ao nacional, o que, certamente, muito contribuiu para a grande expressão dos romances nordestinos no país, durante décadas, com a publicação de livros, como os de José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Jorge Amado e outros. Para Gilberto, homem de formação dialética, o regional e o nacional não se contrapunham, ao contrário, se complementavam.

A sua constante preocupação com a preservação dos valores brasileiros deve ter contribuído para a política desenvolvida pelo Serviço de Patrimônio Histórico do Ministério da Educação, durante a gestão de Gustavo Capanema, que teve em Rodrigo Mello Franco de Andrade o seu grande executor. Defendia uma política de modernização que não desprezasse os valores tradicionais, mantendo sempre aquela linha de aventura e rotina, baseada no princípio do tempo tríbio, segundo o qual, o passado, o presente e o futuro não só se integram, como coexistem e se complementam.

Uma outra grande contribuição de Gilberto Freyre foi com a caracterização da existência de um mundo tropical e de um ramo do saber a ele dedicado; ramo do saber que teria vários sub-ramos ou vertentes, uma luso-tropicologia, uma espano-tropicologia, uma franco-tropicologia, uma anglo-tropicologia, etc, cada uma destinada a analisar a atuação de cada nação européia no mundo intertropical.

Por tudo isto, Gilberto Freyre pode ser considerado um dos iniciadores dos estudos das ciências sociais no Brasil, ao lado de outras grandes figuras, como Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Roberto Simonsen, Josué de Castro, Nelson Werneck Sodré, etc. Figuras que foram continuadas por uma outra geração, de cientistas como Celso Furtado, Maria Isaura Pereira de Queiroz, Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Otávio Ianni, Juarez Brandão Lopes e numerosos outros, continuados, hoje, por uma terceira geração das mais expressivas.

Essas duas primeiras gerações, ao nosso ver, são formadas por ensaístas que, embora se dediquem precipuamente a uma ciência, à antropologia, no caso de Gilberto, à história econômica, como Caio Prado Júnior, à sociologia, como Sérgio Buarque de Holanda, à geografia, como Josué de Castro, expandiam os seus interesses e estudos por outras ciências afins, enquanto os cientistas sociais mais jovens, com uma formação acadêmica mais rígida, são mais fiéis à sua ciência básica.

Referências Bibiográficas:

1947 - Nabuco, Joaquim - O Abolicionismo. São Paulo. Instituto Progresso Editorial;

1988 - _________________ - A Escravidão. Recife. Massangana;

1988 - Andrade, Manuel Correia de - João Alfredo. O Estadista da Abolição. Recife. Massangana;

1966 - Cunha, Euclides da - Os Sertões, in Obras Completas. Rio de Janeiro. José Aguilar Editor;

1930 - Bonfim, Manoel - O Brasil na História. Rio de Janeiro. Francisco Alves;

1930 - Abreu, Capistrano de - Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil. Rio de Janeiro. Briguiet;

1933 - Torres, Alberto - O Problema Nacional Brasileiro. São Paulo. Editora Nacional;

1933 - ______________ - A Organização Nacional. São Paulo. Editora Nacional;

1933 - Vianna, Oliveira - Evolução do Povo Brasileiro. 2a edição. São Paulo. Cia Editora Nacional;

1933 - _______________ - Populações Meridionais do Brasil. São Paulo. Cia Editora Nacional;

1932 - ________________ - Raça e Assimilação. São Paulo. Cia Editora Nacional;

1933 - Prado Júnior, Caio - Evolução Política do Brasil. São Paulo. Ed da Revista dos Tribunais;

1943 - Freyre, Gilberto - Casa Grande & Senzala. 4a edição. Rio de Janeiro. José Olympio;

1961 - ______________ - O Luso e o Trópico. Lisboa. Comissão Executiva das Comemorações do Quarto Centenário da Morte do Infante D. Henrique;

1951 - Freyre, Gilberto - Nordeste. Aspectos da influência da cana na vida e na paisagem do Nordeste do Brasil. 2a edição. Rio de Janeiro. José Olympio;

1973 - _____________ - Além do Apenas Moderno. Rio de Janeiro. José Olympio;

1941 - _____________ - Região e Tradição. Rio de Janeiro. José Olympio;

1961 - Inojosa, Joaquim - O Movimento Modernista em Pernambuco. Rio de Janeiro. Gráfica Tupy Editora.



Fonte: ANDRADE, Manuel Correia de. Gilberto Freyre e as ciências sociais no Brasil. In: Gilberto Freyre et les sciences sociales au Brésil - dans le cadre de la Semaine Brésil, Paris, 2000.

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