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Assinatura de Gilberto Freyre
Palestras  



O MUNDO QUE GILBERTO FREYRE CRIOU


Eduardo Portella

A ocasião dos 100 anos do nascimento de Gilberto Freyre nos tem levado a discutir, em diferentes geografias, o legado hermenêutico do autor de Casa Grande & Senzala, Sobrados e Mocambos, Ordem e Progresso, Além do apenas moderno, e tantas outras obras emblemáticas. O trabalho de Freyre constituiu-se, logo cedo, no divisor de águas das ciências humanas e sociais no Brasil. Ele instaurou um outro patamar reflexivo, e alargou o acervo de idéias, até então limitado, dessas ciências histórico-hermenêuticas.

Houve a necessidade de pôr entre parênteses, ou inabilitar, certos pressupostos mais ou menos institucionalizados. Com isso as decisões sistêmicas deixaram de promover a coisificação do mundo da vida, e verificou-se a recusa da linguagem como mero instrumento do aparato científico. É claro que dentro de um esforço de reprogramação das fronteiras fixadas entre ciências exatas e ciências humanas. As produções intelectuais já não seriam puras emanações das estruturas sociais de época, e a dinâmica da intersubjetividade vinha a ser compreendida em toda a sua movimentação criativa. Freqüentemente Gilberto Freyre recorre ao apoio da tradição, mas sem o menor resquício fundamentalista.

As leis legítimas da complexidade impõem-se sem qualquer autoritarismo. Porque só a complexidade está em condições de produzir contrastes e confrontos produtivos e, se conduzidos com o necessário rigor, além de produtivos, emancipatórios. Talvez essa premissa contenha a promessa confiável para ingressar no mundo que Gilberto Freyre criou.

Gilberto Freyre é assim o intérprete matizado do processo brasileiro - plural e singular a uma só vez. De tal modo que aproximar-se dele vem a ser predispor-se, ou dispor-se, a conviver, amistosa ou inamistosamente, com a complexidade. Essa complexidade que se esconde ou se mostra indiferente às compreensões monodisciplinares. Nenhuma disciplina seria capaz de dar conta - é fácil constatar - desse dispositivo hermenêutico, sagaz e não raro imprevisível.

Vamos tentar surpreender alguns momentos do percurso freyriano, degraus talvez primordiais de uma escalada infatigável. Admitamos provisoriamente, e até segunda ordem, seis referências elucidativas:

1. O princípio identitário e a descoberta da identidade;

2. A referência étnica;

3. A referência laboral;

4. A referência simbólica, interativa, nas suas extensões religiosas, míticas e lúdicas;

5. A razão impura, sob a luz do trópico;

6. Racionalidade aberta e cooperação interdisciplinar.

Nesse cenário visivelmente crispado, é possível registrar deslocamentos substanciais no eixo da legitimidade convencionada, capazes de alterar papéis atribuídos a protagonistas e coadjuvantes, atores sociais enfim, como dirá Alain Touraine, e escrever novos roteiros. É quando Gilberto Freyre aposta em uma sociedade matizada, colorida, ecumênica, insubmissa diante das etiquetas petrificadas ou do terrorismo do teorismo.

Esse acolhimento da pluralidade prepara a emancipação de uma identidade que, submissa aos filosofemas da consciência, permanecia excluindo os movimentos originários da alteridade.

1. Gilberto Freyre abalou a rigidez e a uniformidade do princípio identitário.

As linhas interpretativas postas em movimento por Gilberto Freyre jamais seriam simétricas, a ponto de reduzir a compreensão dos feitos. Daí que o princípio identitário, troféu de guerra das edificações nacionalistas, venha a ser permeabilizado pela descoberta da diferença, no caso imune às prescrições diferencialistas. Freyre deixou transparecer, no fogo cruzado de vida, forma e cor, o que o conceito de identidade tem de parasitário, regressivo, e até mesmo fascista.

A diferença não é o mero oposto do idêntico, ou a sua simples negação. É a dinâmica, tensa, no interior da qual se dissolvem antinomias ancestrais, e se formam espaços já agora parcelares, ternários, ou circulares.

Se for verdade, como suponho, que a gramática da identidade se revela imobilista, intransitiva, paralisadora, não é menos certo que a compulsão diferencialista comete o erro oposto, eliminando a tensão constitutiva, no interior da qual a abertura da identidade enlaça com a democratização da diferença. É quando o pluriculturalismo gilbertiano liberta a idéia de nação do seu bunker identitário, e desautoriza o vôo cego do diferencialismo. Nunca faz o jogo do idêntico a si mesmo, autocentrado, mais ainda, autista. Nem da alteridade por si só, esquecida do mesmo. Tão pouco um multiculturalismo que fosse a uma só vez relativista e dissolvente. E assim o Brasil emerge na interminável rede de trocas e misturas, simbólicas e materiais, que se enredam insolitamente, descomplexadamente. Aqui já se pode registrar a distinção entre o complexo e o complexado. O complexo é livre; o complexado, refém do trauma.

2. A referência étnica

A referência étnica ganha inflexões desconhecidas, para além do preconceito da ausência de preconceito e da ansiedade revanchista. Freyre prefere priorizar o bem sucedido esforço de relações interpessoais à malograda política de exclusão. A esperança concreta, muito mais do que a utopia desgarrada, estava introjetada na sua reconstrução da racionalidade. Mas o desentendimento entre democracia social e democracia racial se encarregou de aprofundar o mal-entendido. O resto ficou por conta do aumento progressivo, e inaceitável, das taxas de desigualdade.

3. A referência laboral

A referência laboral sempre foi o ponto cego de um contratualismo incipiente. Freyre a identificou e a inscreveu no conjunto mais amplo das trocas materiais e imateriais.

A referência laboral parece saltar o limite estreito do balcão de emprego. Deixa de haver o determinismo categórico das relações de produção e, no seu lugar, tomam corpo e vida, ou o entretenimento ou a voracidade da ordem social injusta. E já não podemos, nem devemos, contar com as distenções simbólicas da sociedade patriarcal.

4. A referência simbólica, interativa, nas suas extensões religiosas, míticas e lúdicas

O trabalho de Gilberto Freyre valorizava igualmente todo um conjunto de representações que se perderia, em plena da modernidade, ao se reconhecer o "mal-estar da civilização" e "o desencantamento do mundo". Abre passagem para as instâncias do desejo, na contracena de olhares permissivos, intercâmbios simbólicos claramente abandonados, paixões proibidas, festas pagãs e rituais sagrados, que se desdobravam entre o medo e o prazer. O lúdico ganhou projeção desproporcional. A relação custo e benefício entre homo ludens e homo sapiens não acrescentou nada. Freyre procurou, tardiamente, separar o joio do trigo.

5. A razão impura, sob a luz do trópico

Na Europa, do Iluminismo alemão, ou da Ilustração francesa, a luz clareava o entendimento; no trópico, bronzeava a alma. Da vontade imperativa da fusão, passou-se ao bem querer da infusão. Na infusão ficam asseguradas alternadamente efusão e afeição. Esse mundo de afetos difusos, e saberes confusos, não foi poupado pela modernidade.

Freyre resistiu pela via de uma razão impura, provavelmente insólita, que veio a reunir argumentos desgarrados, supostamente incompatíveis, porém ainda capazes de doar sangue e salvar vidas.

6. 6. Racionalidade aberta e cooperação interdisciplinar

Foi assim que Gilberto Freyre trouxe para as nossas ciências humanas e sociais um outro olhar - olhar que em vez de selecionar e isolar, empenhava-se em unir e compartilhar. Por detrás desse olhar, existiam invisíveis lentes plurifocais, retinas avaras e generosas, que a uma só vez ampliava o nosso campo visual e a nossa capacidade de entender. Era simultaneamente o capricho e a precisão do olhar. Acobertados pela racionalidade aberta, mesclada, pluridisciplinar. A mesma que abriu passagens para impurezas que vinham sendo estigmatizadas e proscritas, que acolheu percepções advindas das jornadas do desejo, e conferiu prioridade à produção de relações. E que pensou com, e algumas vezes a partir - da linguagem.



Fonte: PORTELLA, Eduardo. O mundo que Gilberto Freyre criou. In: Gilberto Freyre et les sciences sociales au Brésil - dans le cadre de la Semaine Brésil, Paris, 2000.

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