O SOCIAL E A MEDICINA EM FREYRE
Recordo, nesta oportunidade estimuladora, da
aproximação entre médicos e sociólogos para releitura de Gilberto Freyre, uma
afirmação de Marcel Proust: "as verdadeiras viagens de descobertas não são
as viagens a novas terras, e sim o novo olhar sobre o que nos rodeia". Este, a meu
ver, o grande mérito, a genialidade da obra de Freyre ao abrir janelas para novas
constatações e interpretações de espaços humanos, espaços que se constroem e
reconfiguram permanentemente.
Por isso, passam-se os tempos e não deixa de
constituir obra merecedora de releitura, refletindo esse despertar de interesse continuado
a vitalidade do pensamento do autor. E esta comemoração dos 99 anos do seu nascimento
com o enfoque dos "Pluralismos em Gilberto Freyre", representa um
avançar por diversos caminhos, um revigorar de autoconsciência científica da realidade
social, um apontar para a conveniência de estabelecer "discursos parcelares",
utilizando uma expressão de Foucault. Certamente, a aplicação daquele esforço
defendido por Freyre, "no sentido da análise especializada e mesmo
particularizado e sob pontos de vista vários, mas cuja diversidade não importa em
sacrifício nenhum para a unidade".
Essa análise e o respeito à natureza unitária
da pessoa humana induzem, inegavelmente, a que não se dispense o que aconselha: "em
todo médico deve haver um pouco de sociólogo e em todo sociólogo é preciso que haja
preocupação pelo que há na moderna medicina social; se reclame para o médico e para o
sociólogo de hoje a condição de humanistas". E medicina e sociologia, na sua
concepção, "são ciências possuidoras em comum do Homem como centro de estudo,
são ciências para-humanísticas nas suas preocupações e humanísticas nas suas
projeções".
Assim, neste exercício revelador de
convergências, de antecipações, de insurgências e de continuidades, descortina-se o
seu contributo na construção de uma teoria social da medicina, para o entendimento do
processo saúde/doença como um processo social e a reinterpretação do espaço
geográfico, a fim de superar a visão estática e passiva do mesmo frente a esse
processo.
Daí ter afirmado que "o paciente,
hospitalizado ou não, não é de nenhum modo um ser de quem se possa cuidar na
ignorância do seu meio, de seus antecedentes, de sua situação de cultura e
social". Portanto, tornou claro que no ato médico é indispensável a avaliação da
influência do meio circundante, do ambiente em que se situa o indivíduo, a percepção
do homem situado sócio-culturalmente. E identificou o instrumento ideal para a medicina
realizar-se em seu verdadeiro sentido integral, quando disse que são "as ciências
chamadas sociais as mais capazes, dentro das ciências gerais do Homem, de ligarem ao que,
nas mesmas ciências do Homem, é físico, biológico, natural, ao que nelas é
psicológico, cultural, social, histórico".
Deste modo, possibilitou novas interpretações
do saber e da prática médica, insurgindo-se contra a visão tecnicista, biologicista e
singular da doença, e opondo-se à submissão do humanismo ao pragmatismo da técnica. E
essa necessidade de atuação sinérgica do médico e do sociólogo, caracterizando a
convergência de profissões das ciências humanas, explica porque estas duas profissões
se inserem entre as poucas em que o mundo do trabalho se funde e, por vezes, se confunde
com o mundo da vida.
Acredito que essa propensão acentuou-se porque
mantinha com os médicos, conforme confessou, as maiores afinidades. Já no Congresso
Regionalista de 1926, palco de exteriorização das suas idéias, teve a companhia de dois
ilustres higienistas: Amaury de Medeiros, que dissertou sobre "O estilo
colonial de architectura do ponto de vista da hygiene moderna"; e Gouveia de
Barros, que apresentou o trabalho "A loucura das secas", impropriamente
intitulado, segundo o autor, versando acerca de perturbações patológicas e sociais
ligadas àquele fenômeno climático nordestino.
Notabilizou-se Freyre pelo seu empenho em
difundir a noção de que os processos patológicos deveriam ser compreendidos dentro de
um quadro explicativo mais abrangente, atribuindo-se a devida importância ao papel dos
fatores sociais. Seria, por conseguinte, o repensar da determinação da doença, tomando
por base um paradigma que privilegiasse o social e, por extensão, adotasse o pensamento
social como principal ponto de referência em relação à saúde. É percebível que esse
modo de pensar e de entender essa realidade, reconhecendo o caráter social do processo
saúde/doença, cristalizou-se na VIII Conferência Nacional de Saúde (Brasília, 1986),
que redefiniu a saúde, considerando-a o resultado das condições de existência em uma
determinada sociedade, vindo a ser legalizada a presença do social na saúde com a
Constituição de 1988 e a aprovação da Lei Orgânica da Saúde, em 1990. Destarte, a
defesa de uma nova atitude social no campo da medicina e da saúde, eminentemente
preventivista, permeia a sua obra, desenvolvendo estudos com uma visão de espaço sob
diferentes ângulos, para uma compreensão da condição humana e seus valores, nos
aspectos ecológicos, históricos e sociais, e elaborando marcos explicativos onde avulta
a sua capacidade de conciliar ao saber acadêmico o saber do povo.
Em Casa-Grande & Senzala, pela
profundidade da análise de experiências humanas na diversidade de culturas existentes,
é que Freyre nos trouxe razões bastante para ter esperança. Até praticamente os
anos 30, no Brasil afirma Evaldo Cabral de Mello que "o pessimismo racial e os
ônus da colonização foram a tônica das preocupações", invertendo-se, a partir
de então, os termos da questão. E parte dessa mudança de clima mental no trânsito do
pessimismo para a euforia, ele credita a essa monumental obra, que "transformou, a
miscigenação e a colonização portuguesa, de passivos em ativos da história
brasileira". Nela, Freyre revelou tanto as vantagens da miscigenação como as
influências sociais que mais depauperaram e deformaram o mestiço brasileiro - a sífilis
e a má nutrição.
As infecções, generalizando-se o termo
sifilização, e a desnutrição, constituíram os problemas que mais influenciaram o
perfil da morbimortalidade da criança brasileira por ele retratado. São de uma riqueza e
densidade admiráveis as informações e deduções em relação à mortalidade de
crianças e à higiene infantil - amamentação, vestuário, alimentação, tratamentos -,
aludindo que "foi evidentemente a ação dessas influências que muitos confundiram
com a de clima". Em que pesem os progressos alcançados até o presente, aqueles dois
males ainda figuram no perfil dos agravos à saúde da criança, confluindo para essa
triste realidade o biológico e o social, o político e o econômico.
Em "Nordeste", que considera
apenas uma tentativa de estudo ecológico da região, menciona os médicos nordestinos,
alguns educados na Europa e que, através de todo o século XIX, fizeram "obra de
crítica ou de análise quase sociológica ao regime social predominante", aduzindo
que "o estudo da patologia individual levou-os ao estudo da patologia social".
Da rica tessitura de observações destaco a interpretação do fato divulgado na época,
de que "o mestiço da região está se degradando ou deteriorando sob mais de um
aspecto; está ficando nanico, diminuindo de tamanho". Atribui Freyre essa
ocorrência às condições precárias de vida, particularmente à alimentação
deficiente e ao salário insuficiente, sobrevindo a comprovação anos depois por Nelson
Chaves, ao denunciar a geração de nanicos que se estava criando no Nordeste.
A grande doença, raiz de quase todas, era o
sistema econômico dentro do qual o homem vivia, todavia, concluiu Freyre,
"foi justamente essa civilização nordestina do açúcar - talvez a mais
patológica, socialmente falando, de quantas floresceram no Brasil - que enriqueceu de
elementos mais característicos a cultura brasileira". A sua maneira de interpretar a
problemática médico-sanitária coincide com o entendimento de Amartya Sen, Prêmio
Nobel de Economia de 1998, defensor da economia de bem-estar, que, estudando as razões
das "fomes" do mundo, mostrou que elas não se devem à escassez, porém às
tragédias distributivas. E também com o clamor de José Saramago, ao receber o
Nobel de Literatura de 1998: "Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso
próprio semelhante".
É importante assinalar que Freyre foi
muito além de análises documentais significativas. Em "Médicos, Doentes e
Contextos Sociais: uma abordagem sociológica", aprofundou a argumentação em
torno de temas fundamentais que, atualmente, constituem prioridade no campo da educação
médica e da atenção à saúde, em face das novas formas de vivência e de convivência
humana.
Ressalto o enfoque de que o homem não é mera
entidade anátomo-fisiológica, conduzindo ao seu interesse por "um homem situado
como um todo: um todo biológica, ecológica e sócio-culturalmente condicionado".
Dessa concepção do homem integral deriva a necessidade de capacitar o médico para o
exercício de uma medicina integral, assumindo uma atitude que extrapole os limites
estritamente médicos em relação às implicações da incapacidade física, e entenda
que tais implicações transcendem o orgânico e repercutem na esfera psíquica e nas
relações sociais do atingido. É o que deduzo do critério compreensivista que sugeriu.
Essa a razão pela qual as propostas atuais de mudanças no ensino médico propendem a
valorizar a formação do generalista. O generalista que Freyre defendia, "o
médico de família, o médico que assume plena e contínua responsabilidade pelo
tratamento dos enfermos". Infelizmente, já vai longe a época em que o médico de
família era uma presença cotidiana. Hoje, atribui-se à especialização e à
revolução tecnológica em saúde, o desaparecimento desse personagem e diz-se até que
é o tipo de médico, do qual se fala, mas que não se encontra.
Esta observação introduz uma outra
característica que predomina no cenário médico: a especialização excessiva.
Insurgiu-se Freyre contra essa ocorrência, esclarecendo que um "ponto de
contato entre a Sociologia e a Medicina é que nenhuma pode dar-se ao luxo de
fragmentar-se excessivamente", porque "tende a prejudicar o que nessas ciências
precisa de ser compreensão". Aceitava o especialista "sem que a sua
especialidade seja tal que, matando nele todo o generalista, o faça perder de vista o
conjunto, a pessoa integral e seu ambiente". É o que hoje se constata, levando
inúmeras instituições médicas (Faculdades e Academias de Medicina, associações
profissionais) a encetarem um movimento para resgatar o clínico geral e reduzir a
especialização excessiva. Isto em virtude da evidência de que o exagero das
especializações contribui para o abandono do conhecimento generalista, para a
indesejável fragmentação dos saberes e o enfraquecimento da relação médico/paciente.
E o redespertar do fortalecimento da relação médico/paciente implica em reconhecer que
a medicina autêntica tem necessidade de volver à educação humanística, pois a
desumanização é prejudicial ao médico como indivíduo e motivo de decepção para o
paciente, que procura e que requer, não só ao técnico, também ao homem.
Por isso Freyre argumentou que "a
pessoa humana é um complexo impossível de ser interpretado por outro critério que não
seja o humanístico", sendo necessário "tornar o médico, desde estudante,
sensível aos elementos psicossociais, capaz de dar perspectiva social ao seu
desempenho". Nesse sentido são magistrais as palavras de Aloysio de Castro, um
dos luminares da medicina brasileira: "não basta dominar as sutilezas da técnica
nem o conhecimento aprofundado e seguro da especialidade, é preciso também ter coração
e sensibilidade, para em muitos casos promover do mesmo modo reações benéficas e
curativas, pela irradiação da palavra carinhosa e amiga, pela ternura do gesto que
ampara e conforta".
Tal desiderato somente será alcançado com a
incorporação da sociologia, da antropologia e da psicologia ao ensino da medicina, de
maneira que o estudante as assimile simultânea e intimamente correlacionadas com as
ciências básicas e técnicas, para que esses conhecimentos o ponham conjuntamente em
relação com a ciência e em contato com a pessoa humana. E lamentava Freyre o
fato de que "o estudante de medicina de hoje pouco vê das condições em que a
doença floresce", devendo ser reorientado o ensino para que "a visão do doente
não se confine à visão do hospital". Então, pode-se inferir que o humanismo deve
ser tanto mais profundo e apaixonado quanto seja a limitação imposta por uma educação
científica e unilateral.
Esta reflexão remete a um assunto correlato em
evidência no momento - os aspectos éticos da profissão, o comportamento desejado pela
sociedade de todos os envolvidos nas ações de saúde, isto é, o que acontece à maioria
das pessoas nas relações com as doenças, os tratamentos e os cuidados com a saúde. Em Casa-Grande
& Senzala há a referência de que "alguns remédios e preventivos se tenham
antecipado às doenças, levando muito anjinho para o céu", questionando em Médicos,
Doentes e Contextos Sociais, "imposições de ética tradicional que continuam a
regular o exercício da medicina". Esse registro de procedimentos antiéticos é
indicativo de uma tendência que levou Ivan Illich, nos anos 70, a elaborar o
conceito de contraprodutividade, tendo descrito, dentre outros exemplos, como o sistema
médico, criado para proteger a saúde, estava provocando doença. E recentemente, Giovani
Berlinguer revelou que, nos últimos decênios, ocorreu uma separação cada vez maior
entre a ética declarada e a prática cotidiana, referindo a nostalgia do médico de
família: menos dotado de instrumentos diagnósticos, porém mais humano, menos equipado
de meios terapêuticos eficazes, porém mais disponível.
Em "Além do apenas moderno", Freyre
proclama o ressurgimento dos saberes humanísticos nos estudos sociais, insiste na
necessidade de contatos extra-universitários de vários tipos e no reconhecimento de que
o técnico deve conservar-se "a perpetual student". São antecipações
gilbertianas que interessam bem de perto à formação do médico, pois a orientação
atual é no sentido de que as escolas médicas reinterpretem os seus objetivos e
compromissos com a sociedade, de modo que as ciências sociais constituam um dos eixos
articuladores do processo educativo, haja incentivo para a auto-educação permanente por
parte do estudante e sua constante interação com a comunidade, e seja promovida a
educação continuada do profissional.
Creio haver consenso quanto a impossibilidade de
falar sobre a obra de Freyre, que é um mundo, nos escassos limites de alguns
minutos. Todavia, espero que estes flashes tenham traduzido, aquele seu "novo olhar
ao redor" - diferente, penetrante, abrangente, perscrutador -, projetando-se o fulgor
das suas idéias do regional para o nacional e o universal, beneficiando-se todos da
estimulação renovadora dos seus escritos. Agora, gera-se a expectativa de que os
trabalhos deste evento influenciem na formação de um novo tipo de médico,
sócio-antropologicamente orientado, conhecedor de que as relações do organismo com o
seu meio são específicas, contínuas, recíprocas e indissociáveis. E que incorpore e
continuamente aprimore as três qualidades essenciais para bem exercer uma medicina
integral: compreensão do homem, conhecimento científico e sensibilidade social.
Sem dúvida, a melhor resposta ao apelo de Freyre,
ao sentenciar que "o Brasil atual, mais consciente das suas circunstâncias, já
espera de seus médicos, que representem papéis sociais mais amplos ou mais compreensivos
que os de simples médicos do tipo puramente clínico, por mais senhores de técnicas
clínicas que se apresentem".
BIBLIOGRAFIA
Berlinguer, G. - Ética da Saúde. Editora Hucitec, São Paulo,
1996.
Castro, A. - In: Kruse, B. - Três Ensaios Médico-Sociais. Reflexões
de Paraninfo - II. Imprensa Universitária, Recife, 1964.
Foucault, M. - A arqueologia do saber. Editora Vozes, Petrópolis,
1972.
Freyre, G. - Além do Apenas Moderno. Livraria José Olympio
Editora, Rio de Janeiro, 1973.
Médicos, Doentes e Contextos Sociais: uma abordagem sociológica. Editora
Globo, Rio de Janeiro, RJ/Porto Alegre, RS, 1983.
Nordeste 6.ª ed., Editora Record, Rio de Janeiro, 1989.
Casa-Grande & Senzala 31.ª ed. - Editora Record, Rio de
Janeiro/São Paulo, 1996.
Manifesto Regionalista. Fundaj, Editora Massangana, 7.ª ed.,
Recife, 1996.
Mello, E.C. - Cioran na Espanha. Folha de São Paulo, Mais!
p.8, 17.01.99.
Fonte: ARRUDA, Bertoldo Kruse Grande de. O social e a medicina em Freyre. Recife, 18 mar. 1999.
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