MANIFESTO REGIONALISTA DE 1926
proclamação e sagração da "auctoritas" gilbertiana
Helena Maria de Barros Marques
Pesquisadora da Fundaj
INTRODUÇÃO
Um dos atos de comunicação pública mais marcantes na História Social e na literatura de análises de discurso é o Manifesto. Sejam mundialmente famosos como o J'accuse de Émile Zola ou o Manifesto Comunista de Karl Marx, seja de âmbito local, endossando uma causa comunitária ou denunciando comportamentos, os manifestos dão o que falar. Do ponto de vista do analista de discurso, são atos retóricos, par excellence.
Algumas definições ajudam a esclarecer esta forma tradicional de expressão do pensamento. O Old English Dictionary define um manifesto como
uma declaração pública, geralmente lançada por ou com a sanção de um príncipe ou estado soberano, ou por um indivíduo ou grupo cujas ações têm importância pública, tendo por objetivo fazer conhecer atos passados e explicar as razões ou motivos de atos futuros, anunciados como iminentes.
Na Enciclopédia Britânica do Brasil consta que:
Manifesto é o termo que designa qualquer comunicação destinada ao público. No entanto, tem duas acepções. Na primeira constitui um aviso fixado às paredes por ordem de autoridades ou entidades públicas ou por grupos políticos com fins de propaganda. Na segunda é um documento programático, político ou literário; por exemplo, o manifesto futurista de 1909.
No Novo Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa, Buarque de Holanda define manifesto como "declaração pública solene das razões que justifiquem certos atos ou em que se fundamentem certos direitos políticos, religiosos e estéticos".
Neste trabalho, focalizamos o Manifesto Regionalista de 1926, da autoria de Gilberto Freyre, publicado em 1952 pela Editora Região (Recife), como ATO RETÓRICO, à luz de abordagem situacional de Lloyd Bitzer (l980). Analisamos texto e contexto, antecedentes e circunstâncias que contribuíram para tornar o Manifesto o que ele é - filho de um retor[1] específico e de um momento peculiar. Recorremos também à visão teórica de Bourdieu (1980) sobre o poder dos manifestos.
Assim esperamos estar contribuindo para resgatar um documento pouco conhecido em sua constituição interna, mas de grande importância histórica, tanto para o Nordeste como para a Fundação Joaquim Nabuco:
Porque o Instituto é, de algum modo, filho ou neto do Movimento Regionalista. Filho ou neto com deveres de gratidão para com o um tanto esquecido pioneiro, em dias remotos já voltado para a necessidade de estudos sistematicamente regionais de Antropologia, História, Sociologia e Economia brasileira".(G. Freyre, Prefácio ao Manifesto Regionalista, edição de 1976).
SÍNTESE DO MANIFESTO
O documento ora analisado nasceu, segundo o próprio autor, no momento da realização do 1º Congresso Regionalista do Nordeste, onde foi "lido e elaborado" e divulgado em parte nos jornais da época.
Meus pronunciamentos se só vieram a aparecer em opúsculos sob o título - este de fato posterior - Manifesto - Manifesto Regionalista - é que a verba destinada à sua publicação, quanto possível imediata - sua e desses outros trabalhos - desapareceu com a falência do Banco do Recife - onde se achava depositada. (G. Freyre - 1980 12/12 Jornal do Commércio- Recife).
O Manifesto pode ser dividido em três momentos. Primeiramente o expositivo ou introdutório, onde o autor proclama a sua autoridade através do testemunho de figuras de projeção nacional e internacional. Devidamente investido da auctoritas, ele apresenta o regionalismo e o seu programa unionista, como forma ideal para administrar o país. Tece comentários sobre os desmandos do regime político vigente e aponta as vantagens das suas sugestões, instituindo valores aos hábitos e costumes da região.
No segundo momento o retor realiza a consagração de tais valores tendo "em vista não a supressão das características estigmatizadas mas a destruição da tábua de valores que as constitui como estigma" (BOURDIEU, 1980:124).
O terceiro momento, a parte conclusiva, é propriamente a convocatória geral, conclamando os homens de saber e de sensibilidade para se juntarem em defesa do patrimônio cultural do Nordeste, sob a tutela de um líder cujas credenciais acabam de ser proclamadas: Gilberto Freyre.
MARCO TEÓRICO
Para uma melhor compreensão do documento analisado, trabalhamos com os conceitos de "ato retórico", "retor", "situação retórica" e "persona", optando por uma abordagem situacional aos atos de comunicação pública.
A abordagem situacional toma como premissa básica o fato de que "os seres humanos interagem funcionalmente com o seu ambiente" (Bitzer,1980). Interagir funcionalmente significa fazer uso da comunicação como mecanismo de transformação de uma dada situação problemática (situação retórica). Situação retórica
é um complexo de pessoas, eventos, objetos e relações que apresentam uma instância, a qual pode ser atendida, completa ou parcialmente, se [ um certo tipo de] discurso - introduzido na situação - for capaz de influenciar o pensamento ou a ação de uma audiência [ ou público], de maneira a acarretar uma modificação positiva da instância (Bitzer, 1980:24).
Sob essa ótica situacional, o Manifesto Regionalista de 1926 é um ato retórico porque se trata de uma mensagem pública que responde a uma situação sobre a qual o retor/autor deseja ter influência, para construir simbolicamente a realidade nordestina da maneira como deseja que ela seja aceita.
No Manifesto Regionalista, o autor/retor deixa transparecer através de personae distintas, a sua autoconcepção, sua intenção de construir um consenso para a identidade regional e apresentar as suas credenciais de líder intelectual dentro dessa realidade. O discurso do Manifesto expõe um conjunto de práticas semânticas e retóricas características do escritor que o concebeu. Esse esforço de apresentar sua visão da realidade nordestina, para modificá-la junto ao público, recorrendo a imagens, símbolos, hábitos, interesses, se consigna no Manifesto e revela a presença de uma situação retórica. Para uma melhor compreensão da análise, anteciparemos algumas definições dos conceitos utilizados nesta pesquisa. Assim, Ato Retórico
é uma tentativa intencional criada e elaborada para superar os obstáculos numa dada situação com uma audiência específica, sobre determinada questão, para conseguir um determinado objetivo. Um ato retórico cria uma mensagem cujo teor e forma, começo e fim são nela marcados por um autor humano, com um propósito para uma audiência" (Campbell, 1982:7).
E, Persona(ae), em teoria da comunicação,
não é a personalidade pública permanente e imutável do comunicador. Trata-se de um compromisso contingencial entre este e o público, para agir "como se fosse" o protagonista de cujo script o autor/retor do discurso toma posse (Halliday, 1995:4).
METODOLOGIA
Neste estudo, trabalhamos com a técnica de análise do discurso conhecida como "análise retórica", aliada às diretrizes do método histórico-crítico de pesquisa da comunicação.
Em se tratando de eventos de comunicação pública, a combinação dos métodos histórico e crítico se mostra apropriada (Phiffer,1981). A preocupação dominante do método crítico é a avaliação dos fenômenos de comunicação. Isso implica num julgamento da coisa pesquisada, ao qual se seguirá às etapas de observação, análise e interpretação, à luz de critérios preestabelecidos. Critérios que podem ser calcados em valores, numa visão do mundo, em marco teórico ou determinada orientação ideológica.
Por se afinar plenamente com o método histórico e a ele recorrer (adotando-lhe procedimentos para fortalecer a sua integridade metodológica), o método crítico pode ser explicado pela seguinte caracterização do método histórico:
O raciocínio inerente ao método histórico não consiste nem no raciocínio indutivo do particular para o geral, nem no raciocínio dedutivo, do geral para o particular. Em vez disso consiste num processo de raciocínio adutivo, no mais simples sentido de aduzir respostas a questões específicas de modo a obter-se um encaixe explicativo satisfatório (Fisher, 1970:32).
O método histórico tem sido usado em estudos biográficos, de editoriais, de instituições, porque ele
é particularmente valioso na produção de conhecimento para os recebedores de mensagens, levando-os a compreender as estratégias usadas pelos comunicadores e inteirar-se das implicações dos atos de comunicação pública para suas vidas" (Halliday, 1967:24).
A ANÁLISE RETÓRICA
O uso da técnica de Análise Retórica (Rhetorical Criticism), de ampla utilização na pesquisa crítica da comunicação persuasiva, para analisar o Manifesto Regionalista de 1926, permite repensar o citado documento à luz de instrumentos teóricos e metodológicos que ultrapassam em poder explicativo as mais antigas e tradicionais técnicas de análise de conteúdo. Válida para se analisar qualquer modalidade de ato de comunicação pública, propicia uma melhor compreensão das características positivas e negativas dos atos estudados.
Segundo Halliday (1988: 122):
Os estudos modernos de retórica firmaram-se na tradição européia da sociolinguística e da semiótica e nas décadas de pesquisas que os departamentos de "Speech Communication" das universidades norte-americanas realizaram, e ainda realizam sob a rubrica "Rhetorical Criticism" (crítica retórica). A legitimação desses estudos muito deve à contribuição de filósofos como o belga Chaim Perelman e o norte-americano Kenneth Burke.
E continua explicando que Perelman trata a retórica enquanto teoria da comunicação persuasiva e lhe traça fronteiras,
Na medida em que a comunicação tenta influenciar uma ou mais pessoas, orientar-lhes o pensamento, excitar ou acalmar suas emoções, guiar suas ações, [esta comunicação] pertence ao reino da retórica. A dialética ou técnica de controvérsia está incluída como grande parte deste reino mais amplo (idem, ibidem).
Quanto a Burke, diz Halliday que ele
aponta a função reparadora da retórica num mundo repleto de fracções e interesses conflitantes. Na visão burkeana, somos seres retóricos pela necessidade de identificarmo-nos uns com os outros, em virtude das divisões que nos separam. "O identificar-se compensa o estar dividido... Ponham-se identificação e divisão ambiguamente juntas, de modo a não se saber onde uma termina e onde a outra começa e temos o característico estímulo à retórica" (Burke, 1969, passim. Apud, Halliday, 1988: 123).
Sintetizando, finaliza a autora:
Esse dilema da convivência humana levou Burke a afirmar a existência de uma situação retórica universal, a qual tentamos resolver por intermédio da comunicação, isto é, interagindo simbolicamente de modo a estabelecer algo "em comum", seja com aqueles de quem somos separados por geografia, formação e ideologias, seja com aqueles que corremos o risco de perder como aliados de sentimentos ou interesses: "No parto começa a centralidade do sistema nervoso. Os diferentes sistemas nervosos, através da linguagem e dos meios de produção constróem várias comunidades de interesses e maneiras de ver, comunidades sociais variando de âmbito e natureza. E, dessa divisão e comunidade surge a situação retórica "universal" (idem: ibidem)
Essa longa transcrição da síntese de Halliday tem dupla finalidade: a primeira é fundamentar historicamente os princípios do "Rhetorical Criticism" (Análise Retórica) [2] confirmando a validade e atualidade de sua aplicação na pesquisa de atos de comunicação pública; e a segunda, evidenciar como o arcabouço filosófico de tais princípios se aplica ao estudo que se tem em pauta. A análise retórica compreende quatro tarefas:
1. Levantamento e descrição dos antecedentes, contexto histórico e sócio-político do ato ou evento comunicativo observado e perfil de seu (s) autor (es) (análise extrínseca).
2. Análise do texto e/ou fala constitutiva do evento de comunicação com ênfase na argumentação apresentada e nos usos da linguagem verbal e não verbal. (análise intrínseca). Pode anteceder ou realizar-se concomitantemente à análise extrínseca.
3. Interpretação do discurso e suas circunstâncias à luz de conceitos-chaves, teorias ou perspectivas filosóficas (marxista, interacionista simbólica, etc.).
4. A avaliação crítica do ato ou evento comunicativo com base nas análises intrínseca e extrínseca e sua interpretação, adaptando-se os critérios de:
a) eficácia do discurso e/ou qualidade quanto à linguagem e adequação à situação enfrentada pelo retor;
b) valor em termos de conseqüências sociais e implicações éticas do discurso.
As duas primeiras tarefas apoiam-se em uma perspectiva teórica de comunicação humana, dentre as comumente usadas por analistas teóricos, por exemplo- a abordagem dramatúrgica de K. Burke, a análise argumentativa de Stephen Toulmin, a análise tema - fantasia de Ernest Borman e a abordagem situacional de Lloyd Bitzer.
Na quarta tarefa o pesquisador, até então atrelado aos critérios de objetividade (por exemplo: recurso ao método histórico para validação das evidências que devem guiar as três tarefas anteriores), assume o ônus de juiz da coisa pesquisada e se permite uma conclusão substantiva sob seu objeto de análise (Halliday & Marques, 1996).
ANTECEDENTES DO MANIFESTO REGIONALISTA
Uma situação retórica é geralmente caracterizada por três elementos: uma exigência, uma audiência ou público e uma série de coações. Para que se registre a presença desses elementos necessário se faz focalizar o ambiente e os fatos que precederam o 1º Congresso Regionalista do Nordeste onde, em plena sessão, foi elaborado e lido o pronunciamento, consignado como manifesto (Diario de Pernambuco, 11/2/1926).
A década de 20 é marcada por movimentos conspiratórios decorrentes da insatisfação reinante no Brasil com o novo sistema político instaurado - a República. Segundo F. Iglésias (1973), as críticas provinham tanto dos que foram desalojados do poder (os monarquistas) quanto das novas autoridades, decepcionadas com os erros e a insuficiência de ações geradoras de mudança. Acrescentem-se as críticas da imprensa, dos publicistas e das figuras de proeminência na sociedade. De acordo com o citado autor, 1922 teria sido o ano em que tais críticas transformaram-se em atitudes e movimentos revoltosos. Aí ocorre a criação do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a eclosão do tenentismo, com a revolta do Forte de Copacabana, representando a "nova palavra na política", e tem início o movimento modernista, com a Semana de Arte Moderna.
Embora repercutindo em Pernambuco e nos outros estados, o centro das discussões e decisões permanecia nos estados do Sul, principalmente no Rio e em S. Paulo, "que mandavam e desmandavam na política federal. Tornavam-se assim os Estados pequenos elementos isolados, procurando entendimentos políticos com aquelas unidades distantes e recebendo nessa troca de favores um mínimo de compensação dentro daquelas débeis exigências que conseguiam estabelecer"(ídem:52). O que levou o interventor e governador Agamenon Magalhães a afirmar: "O Nordeste até hoje o que tem feito é se coser com as suas próprias linhas" (Souza Barros, 1985: 57 e 59).[3]
O Recife "foi a primeira grande cidade do Brasil que não resultou da influência da sede da metrópole, de apanágio do Governo Geral ou de facilidades de administração. Firmou-se, portanto, como uma cidade comercial sustentada por um porto da região" (idem: 72).
Na década de 20, conforme o mesmo autor, a cidade não era mais
[ ...] o Recife do açúcar, era talvez o Recife do empório comercial que o açúcar alimentara tanto tempo, o da rede ferroviária que animara e se estendera além dessa meta para a função regional que já exercia. Era o Recife do novo porto discutido mas já terminado, das
docas movimentadas por grandes guindastes (que faziam medo a
Ascenso Ferreira [4]). Essa aparelhagem dava lugar justamente na década, à atracação dos grandes navios de linhas internacionais, dos Malas Reais e de um sem número de cargueiros de muitas bandeiras que nos visitavam. (idem: 74)
Confirmando a efervescência e a atualidade do ambiente recifense continua Souza Barros:
Éramos o porto e a praça. Mas, éramos também a escola superior, o hospital. A escola com as Faculdades, a de Direito e a recém inaugurada de Medicina... e a continuação de duas escolas de Engenharia e uma de comércio, o centro hospitalar, servindo a todos os Estados vizinhos. Éramos ainda a comunicação, através inclusive, da melhor imprensa, que distribuía os seus jornais pela Great Western, com atraso de apenas um dia, em mais três capitais de Estado, de escala de hidroaviões e de outros tipos de transporte aéreo com um projeto, já àquela época, de um Aeroclube... Fomos por outro lado, a capital da rebeldia em todos os pronunciamentos da política brasileira... (idem, ibidem).
Dentro desse quadro, os profissionais de cada uma dessas áreas mantinham contato com o primeiro mundo, atualizando-se, trazendo inovações para suas atividades, independentemente da intermediação dos estados do sul, que ascendiam em dominância pelo êxito do ciclo do café e se tornavam pólo principal das novidades culturais. Em contrapartida, no Recife surgiam personalidades que se distinguiam nos campos da ciência, da arte e da política, entre elas, Amaury de Medeiros, Gouveia de Barros, Odilon Nestor, Alfredo de Morais Coutinho, Cícero Dias e muitas outras.
Quando acontece a Semana da Arte Moderna, em São Paulo, movimento renovador, de ruptura com o passado, Luís Jardim declara: "nenhum de nós tomou conhecimento do movimento modernista de São Paulo... apreciávamos o grande Mário... O nosso impulso era outro e o passado para nós contava". (Apud, Souza Barros, 1985:165) Esse impulso era alimentado e exercitado pelo grupo de intelectuais que se reunia ou no Café Continental, à época configurando o "Cenáculo da Lafayette", ou na Revista do Norte sob a direção de José Maria de Albuquerque Melo. Preocupava-se José Maria não só com o "aspecto gráfico que produziu talvez, na época, as mais belas páginas da arte de impressão do Brasil", como também em promover verdadeiras "peregrinações", visitas e caminhadas, às vezes tarde da noite, a Olinda ou a Igarassu, para contemplação dos grande monumentos históricos. "Realizavam-se reuniões aos sábados na própria oficina de José Maria ou no sítio arborizadíssimo do seu pai, jornalista Manoel Caetano" (idem:147).
Vale ainda citar figuras como a de Vitoriano Palmares que teve inclinações regionalistas, e a de Franklin Távora, cearense que sob essa influência escreveu o romance O Cabeleira, primeiro estudo sobre o nosso banditismo. Acrescente-se ainda Carlos Dias Fernandes, cuja ascendência sobre os moços, estimulando o regionalismo e os valores locais, foi inegável e profícua. E ainda Benedito Monteiro, cujo modernismo criador dirigia-se para o futuro (idem:150).
José Maria de Albuquerque e Melo, incansável entre a publicação, impressão e produção de textos para a Revista do Norte, ainda encontrava tempo para reunir o grupo[5] e convidar novos elementos para animar as tertúlias literárias: Joaquim Cardozo, Ascenso Ferreira, Manoel Bandeira (o pintor), entre outros. Souza Barros afirma que José Maria
pode ser citado hoje como um dos mais originais esteios do pensamento para a criação de um gênero de poesia virtual através da composição tipográfica [...] Foi por influência desse seu sentido gráfico que se editou o Livro do Diário em 1925 e a própria A Província revivida por Gilberto Freyre, obedecendo a orientação de José Maria [...] O inconformismo da Revista do Norte era antes no sentido de um nacionalismo que inspirado na linha de hispanidad que fugia à simples intrusão francesa, somente pelo fato de vir da França, de vir do estrangeiro. É neste sentido que o movimento da Revista do Norte teve pontos de confluência com o movimento de Gilberto Freyre. Defenderam ambos a tradição, o regionalismo, o inconformismo, e tiveram, no entanto, sempre a tônica da renovação (idem, passim).
Para Luiz Jardim:
Amigo de José Maria de Albuquerque Melo e admirando Cardoso, Gilberto olhava com a maior simpatia a Revista do Norte lamentando a conduta romântica do dono, que por amor à perfeição criativa adiava sempre o aparecimento do esporádico (não do periódico) tão admirável (apud, Souza Barros, idem: 166).
Faltava à citada revista mudar o seu comportamento quase de escola e organizar "um programa mais agressivo" que garantisse "a pernambucanidade sem bairrismo".
Foi dentro deste clima que se realizou o I Congresso Regionalista do Nordeste, onde surge o espaço para o pronunciamento de Gilberto Freyre, posteriormente consignado como Manifesto Regionalista.
Como se pode observar, as palavras do retor surgiram premidas por exigência de uma situação problemática, que se instalou quando os adeptos da Semana da Arte Moderna de São Paulo pretenderam traçar um programa homogeneizante, extensivo aos demais estados brasileiros, desconhecendo a tradição e os valores locais.
Vale salientar que na abordagem situacional, a exigência, a situação problemática propulsora de um ato retórico, é assim definida na medida em que o retor a percebe como tal. É a "leitura'' que o retor faz das circunstâncias que circundam seu discurso.
A audiência estava constituída por um público vasto porém heterogêneo, dividido entre os seguidores modernistas e os fiéis regionalistas. Para ela, o discurso (do Manifesto) precisaria estar em perfeita sintonia, exigindo do retor o uso da criatividade para assegurar-lhe a possibilidade de uma adesão majoritária.
Considere-se ainda uma série de coações de natureza política, uma vez que acusavam o autor de idéias separatistas que poderiam ameaçar o equilíbrio do poder constituído. Tais coações concorrem para caracterizar Gilberto Freyre como anarquista/agitador, consequentemente, responsabilizando-o por qualquer exacerbação de ânimos que pudesse levar a confrontos entre regiões: "Ainda há pouco fui acusado de estar levando satanicamente ao ridículo alguns dos homens mais respeitáveis da região ..."(Freyre, 1976:62)[6]. Por fim, acrescentem-se as coações de natureza econômica. Como ficou registrado anteriormente, a predominância dos estados do Sul já se instalara com o ciclo do café, enquanto Pernambuco já vivia a época decadente dos engenhos de "fogo morto", e o retor percebeu a necessidade de um novo "fogo", a ser reaceso pela palavra.
O RETOR
Em seu livro Arte, Sociedade e Região, Renato Carneiro Campos assim traça o perfil de Gilberto Freyre:
Em 1923, Gilberto Freyre chegava ao Brasil, depois de vários anos de estudos sistematicamente universitários nos Estados Unidos, completados por um ano na Europa. [...] Discípulo de grandes mestres de renome mundial como o antropólogo Boas, sociólogo Giddings, o economista Seligman, os juristas John Barret Moore, Munro e Zimmern, aqueles de Colúmbia, este de Oxford, durante seus estudos universitários- nos quais foi laureado com scholarship -procurou sempre outros convívios além dos acadêmicos (1960: 45).
No exterior, Freyre adquiriu uma múltipla experiência de vida, pois, segundo Campos,
Freqüentou em Nova York, Greenwich Village e em Paris o Quartier, vivendo numa pensão de estudantes junto ao Odeon. Tem contatos com "Camelots du Roi" e com anárquico-sindicalistas do grupo Sorel (...) Em Paris muito conviveu em cafés e associações quase revolucionárias, com os discípulos de Frédéric Mistral e do "filibrisme": federalistas franceses inimigos radicais do regimem centralista dominante em França do mesmo modo que conviveu com "modernistas" entre os quais começava a ser lido Joyce e aí em Nova York, com irlandeses empenhados na revivescência céltica à maneira de Yeats. Suas conversas com Yeats o devem ter predisposto para um sentido regional, tradicional e ao mesmo tempo revolucionário da vida, das artes e das letras (idem: 52).
Possuidor de tal currículo, Gilberto Freyre voltou ao Recife continuando a escrever para o Diario de Pernambuco e torna-se "o animador, às vezes orientador, de alguns dos maiores talentos de escritores, de artistas, estudiosos do passado, pesquisadores científicos" (idem:56). Secretário do Centro Regionalista do Nordeste, publicou o livro comemorativo dos 25 anos do Diario de Pernambuco, sob o título Nordeste, onde declara seguir a orientação da Escola Sociológica de Chicago para definir "o sentido mais restrito da ecologia humana". Afirma Freyre que no livro procurou traçar o perfil da região nordestina, através de "uma visão da paisagem, da vida e do homem do Nordeste que a monocultura da cana feriu profundamente".
É em Nordeste que, segundo Renato Carneiro Campos,se acha o gênese dos seus estudos sociais; Gilberto Freyre, com os assuntos e autores que então reuniu, antecipou as idéias, as diretrizes e a força de aglutinação, dos quais, um ano depois, o Movimento Regionalista de sua iniciativa seria a base para o seu desenvolvimento nordestino e nacional. (idem: 12).
Idéias, continua Campos, apreendidas dos ensinamentos de Lewis Mumford que afirmava:
todas as nossas questões sobre a condição do homem não terão, portanto, fundamento enquanto não se colocar o homem no sistema de uma cultura particular e de um particular momento histórico; pois é somente no desempenho de seu drama particular que sua natureza se revela.(apud, Campos: 26).
Passível de tais influências, pode-se compreender que o escritor Gilberto Freyre, à época jovem de 23 anos, "despontasse como a maior promessa da então novíssima geração de intelectuais brasileiros" (idem:32), assumindo atitudes renovadoras e ousadas.
Pelo exposto, observa-se que o retor possuía a credibilidade para assumir a liderança do movimento regionalista. Mas, se granjeara amigos e adeptos, não lhe faltaram adversários que iriam contestar a legitimidade dessa liderança.
É através dos seus pronunciamentos no 1º Congresso do Centro Regionalista do Nordeste que Gilberto Freyre vai buscar esta legitimação, apresentando todas as credenciais que lhe permitem abordar múltiplos assuntos sob vários enfoques, alicerçadas no testemunho de autoridades reconhecidas nacional e internacionalmente com as quais mantinha contatos freqüentes, convidando-o para conferências e seminários e agraciando-o com títulos ou outras honrarias.
O MANIFESTO ANALISADO
O retor, apercebendo-se da complexidade do contexto, vai buscar no seu reservatório cultural, enriquecido pela convivência recente com luminares das Universidades da Europa e dos Estados Unidos, os argumentos que viriam intensificar o potencial persuasivo do Manifesto, atendendo às necessidades da situação retórica.
Gilberto Freyre inicia o Manifesto reivindicando o testemunho de personalidades nacionais e internacionais que já reconheciam nele uma figura de exceção e apoiavam as suas idéias (no caso, o Regionalismo):
...mestres autênticos como o humanista João Ribeiro e o poeta Manoel Bandeira vão tomando conhecimento e a que agora se juntam pela simpatia, quando não pela solidariedade ativa e até militante, não só norte-americanos como Francis Butler Simkins - que anuncia dever a um brasileiro do Recife seu critério regional de estudar a história do Sul dos Estados Unidos - franceses como Regis de Beaulieu e alemães como Ruediger Bilden como alguns dos mais adiantados arquitetos, urbanistas e homens de letras do Rio... homens públicos ou de ciência preocupados com problemas urbanos e rurais da região, como Amauri de Medeiros, Gouveia de Barros e Ulysses Pernambucano; homens de Letras empenhados na defesa dos nossos valores históricos como Carlos Lyra Filho, Levy Cedro, Manoel Campelo, Aníbal Fernandes, Joaquim Cardoso, Mário Melo, Mário Sette, Manoel Caetano de Albuquerque e seu filho José Maria...; homens de saber interessados em dar sentido regional ao ensino, à organização universitária, à cultura intelectual entre nós como Odilon Nestor, e Morais Coutinho, Alfredo Freyre e Antônio Inácio velhos lavradores ou homens do campo voltados inteligentemente para os problemas de defesa e valorização da paisagem ou da vida nos seus aspectos rurais ou folclóricos, como Júlio Bello, Samuel Hardman, Gaspar Peres, Pedro Paranho e Leite Oiticica (p.52/53, grifos nossos).
Elastecendo o reconhecimento nacional das suas idéias acrescenta:
Homens, todos esses, com o sentido de regionalidade acima do da pernambucanidade - tão intenso ou absorvente num Mário Sette - do da paraibanidade - tão vivo em José Américo de Almeida - ou do de alagoanidade - tão intenso em Otávio Brandão (p.53).
Este reconhecimento acima confirmado vai conceder ao autor/retor autoridade - a auctoritas, para sagrar-se líder.
Este ato de direito que consiste em afirmar com autoridade uma verdade que tem força de lei é um ato de conhecimento, o qual, por estar firmado, como todo poder simbólico, no reconhecimento, produz a existência daquilo que anuncia (a auctoritas) como lembra Benveniste, é a capacidade de produzir que cabe em partilha ao auctor. O auctor, mesmo que quando só diz com autoridade aquilo que é, mesmo quando se limita a enunciar o ser, produz uma mudança no ser: ao dizer as coisas com autoridade, quer dizer, à vista de todos e em nome de todos, publicamente e oficialmente, ele subtrai-as ao arbitrário, sanciona-as, santifica-as, consagra-as, fazendo-as existir como dignas de existir como conformes à natureza das coisas "naturais" (Bourdieu, 1980:114).
Investido pois da auctoritas o retor denuncia:
(Esta) realidade que a expressão Nordeste define (...) sem que a pesquisa científica a tenha explorado até hoje, sob o critério regional da paisagem, a não ser em raras obras como a de um Von Luetzelburg, admirável ecologista alemão ainda mais identificado conosco do que Konrad Guenther, o sábio fitopatologista que há pouco visitou o Brasil ... (p. 53).
Ao enfatizar a necessidade imperativa de se iniciarem os estudos científicos sobre o nordeste, sob pena de serem esses realizados pelos estrangeiros, o autor utiliza uma argumentação intimidativa. É este poder da auctoritas que vai dominar o discurso e respaldar algumas vozes das personae que Gilberto Freyre passará a assumir sempre que as reivindicações assim exigirem, na tentativa de solucionar a situação retórica.
UM RETOR DE VÁRIAS VOZES
É inicialmente através da voz de pater-familia que ele descreve o ambiente de reunião do grupo, cita suas características, afastando qualquer possibilidade de carácter político do mesmo. "Toda Terça-feira, um grupo apolítico de "Regionalistas" vem se reunindo na casa do Prof. Odilon Nestor" (p. 54). Para bem confirmar o clima "familial" acrescenta ao discurso: "... em volta da mesa de chá com sequilhos e doces ... preparados por mãos de sinhás" (p. 54), recorrência à presença feminina de dona-de-casa tradicional/doméstica. Continua: "Discutem-se então, em voz mais de conversa que de discurso" (p. 54), contrariando a postura discursiva que reuniões políticas sempre adotam.
De onde se conclui que em tais reuniões, saraus, tertúlias, praticava-se o exercício da inteligência sem a necessidade de títulos científicos ou afiliações partidárias. E encerra a descrição expondo o tema das reuniões: "problemas do Nordeste" (p. 54). Em seguida, apresenta outra característica do grupo: " inacadêmico mas constante" (p.54), para revelar-se como homem de exceção, acima de ideologias. Figura do Olimpo que conseguia aglutinar a sua volta elementos de diferentes níveis intelectuais e ideológicos.
Se de um lado, Freyre procura negar o caráter político do grupo, do outro, enfatiza-lhe a natureza política enobrecida, assumindo uma nova persona.
Continua a descrição desta maneira: "Animado por homens práticos ... e não só por poetas... por homens politicamente da "esquerda... e da extrema direita..."(p. 54). A ordem da colocação dos elementos constitutivos do enunciado vai gradativamente abafando a conotação negativa dos termos que poderiam comprometer a idéia de regionalismo como movimento separatista. O autor assume, então, as personae de político e de patriota para fazer o pronunciamento dos objetivos do Movimento Regionalista do Recife, aumentando o tom do discurso anteriormente suavizado: "[...]ver se desenvolverem no País outros regionalismos que se juntem ao do Nordeste, dando ao movimento o sentido organicamente brasileiro, e até americano quando não mais amplo ele deve ter."(p. 54)
POLÍTICO, PATRIOTA, INTELECTUAL
Ao explicitar "o sentido organicamente brasileiro" (p. 54) via regionalismo, o autor devolve aos acusadores a pecha de separatista imputada ao Movimento Regionalista, afirmando que este seu movimento "mais unionista que o atual e precário unionismo brasileiro, visa a superação do estadualismo, lamentavelmente desenvolvido aqui pela República - este sim, separatista"(p. 54).
A persona política se engrandece para dar voz à persona do patriota que propõe um "novo e flexível sistema em que as regiões mais importantes que os Estados, se completem e se integrem ativa e criadoramente numa verdadeira organização nacional" (p.54). Volta a insistir, agora mais detalhadamente, na necessidade de uma futura instituição que se dedique aos estudos regionais com caráter científico, já prenunciando a persona do intelectual - da qual sempre se revestiu o seu discurso:
...são "os modos de ser" - os caracterizados no brasileiro por suas formas regionais de expressão - que pedem estudos ou indagações dentro de um critério de inter-relação que ao, mesmo tempo que amplie, no nosso caso, o que é pernambucano, paraibano, norte-rio grandense, piauiense e até maranhense, ou alagoano ou cearense em nordestino, articule o que é nordestino em conjunto com o que é geral e difusamente brasileiro ou vagamente americano (p. 55).
Ai está a visão e a preocupação que a persona do intelectual exibe, dispondo-se a realizar, através de uma futura instituição que se delineia nas entrelinhas do texto, estudos para compreensão deste quadro das regiões que compõem o Nordeste. É a persona do político que vai continuar a preleção recorrendo à voz da persona do intelectual anunciado para modelar as mensagens e voltar a insistir nos pontos cruciais reivindicados: a necessidade de estudos, de pesquisas científicas consideradas de valor sob o ponto de vista nacional e internacional.
Como político analisa a validade da utilização do termo sistema para a reorganização do Brasil, uma vez que o Movimento Regionalista "não pretende senão inspirar uma nova organização do Brasil" (p. 55, grifo nosso). Em seguida, Freyre constrói um argumento entinemático para criticar a República, unindo as vozes das personae (do político e do intelectual). O autor provoca ambigüidade de identificação e de conceitos de modo a não se saber onde uma persona termina e onde a outra começa. Por exemplo: "Uma organização em que as vestes em que anda metida a República - roupas feitas, roupagens exóticas, veludos para frios..., sejam substituídas não por outras roupas feitas, por modistas estrangeiras, mas por vestidos ou simplesmente túnicas" (p.55, grifo nosso).
Ao explicitar detalhadamente que "as vestes em que anda metida a República" significam vestimenta, roupa, adorno, o autor procura mais uma vez anular qualquer conotação de natureza política que a expressão possa conter, para confirmar o posicionamento apolítico do movimento.
Entretanto, é sob a metáfora[7] das "vestes" que ele apresenta o corpo do Brasil como vítima. Vítima "das estrangeirices que lhe têm sido impostas sem nenhum respeito pelas peculiaridades e desigualdades de sua configuração física e social" (p. 55). E nesta afirmativa ele destrói o significado de vestes como roupa e desvela o sentido político, anteriormente negado. Pois o corpo- vítima, sujeito a estrangeirices, é aviltado não pelas vestes/trajos, mas por vestes de outra natureza que vão encontrar correspondência no texto que o autor intercala a seguir:
Primeiro sacrificam-se as províncias ao Imperalismo da Corte; uma corte afrancesada ou anglicizada. Com a República - esta ianquizada - as Províncias foram substituídas por Estados que passaram a viver em luta entre si ou com a União, impotente, nuns pontos, e, noutros, anárquica; sem saber conter os desmandos para-imperiais dos Estados Grandes e ricos, nem policiar as turbulências balcânicas de alguns dos pequenos em população e que deviam ser ainda Territórios e, não, prematuramente, Estados (p.55).
A TESE IMPERATIVA
Essa crítica veemente ao processo de formação política do Brasil vai funcionar como alicerce da tese imperativa que o autor defende, qual seja: há que se proceder a uma "articulação inter-regional" (p. 56). Isto porque :
O conjunto de regiões é que forma verdadeiramente o Brasil. Somos um conjunto de regiões antes de sermos uma coleção arbitrária de "Estados", uns grandes, outros pequenos, a se guerrearem economicamente como outras tantas Bulgárias, Sérvias e Montenegros e a fazerem as vezes de partidos políticos - São Paulo contra Minas, Minas contra o Rio Grande do Sul - num jogo perigosíssimo para a unidade nacional (p. 56).
Esta preleção visando explicitar a configuração física do Brasil consigna-se como uma tomada de posição. Segundo Bourdieu,
Toda tomada de posição que aspire à objetividade acerca da existência atual e potencial, real ou previsível, de uma região, de uma etnia ou de uma classe social, e, por esse meio acerca da pretensão à instituição que se afirma nas representações "partidárias", constitui um certificado de realismo ou um veredito de utopismo o qual contribui para determinar as probabilidades objetivas que tem esta entidade social de ter acesso à existência. O efeito simbólico exercido pelo discurso científico ao consagrar um estado das divisões e da visão das divisões, é inevitável na medida em que os critérios ditos "objetivos", precisamente o que os doutos conhecem, são utilizados como armas nas lutas simbólicas pelo conhecimento e pelo reconhecimento: eles designam as características em que pode firmar-se a ação simbólica de mobilização para produzir a unidade real ou a crença na unidade (tanto no seio do próprio grupo como nos outros grupos), que - a prazo, e em particular por intermédio das ações de imposição e de inculcação da identidade legítima (como as que a escola e o exercício exercem) - tende a gerar a unidade real (op.cit.:119 ).
E sumariza,
[..] os vereditos mais "neutros" da ciência contribuem para modificar o objeto da ciência: logo que a questão regional ou nacional é objetivamente posta na realidade social, embora seja por uma minoria atuante (que pode tirar partido da sua própria fraqueza jogando com a estratégia propriamente simbólica da provocação e do testemunho para arrancar réplicas, simbólicas ou não, que impliquem um reconhecimento), qualquer enunciado sobre a região funciona como um argumento que contribui - tanto mais largamente quanto mais largamente é reconhecido - para favorecer ou desfavorecer o acesso da região ao reconhecimento e, por este meio, à existência (ídem, ibidem).
Assim, Freyre dá ao discurso uma tonalidade maior e acelera o seu rítmo para ir aos poucos decrescendo e, cadenciadamente, consagrar a excelência do regional para guiar o destino do Brasil. Introduz a seguir uma crítica à figura do Papai Noel e sugere lapinhas e outros festejos regionais característicos, amainando o clima para lançar um apelo convocativo e desafiante aos habitantes da região:
Como se explicaria, então que nós filhos de região tão criadora é que fôssemos agora abandonar as fontes ou as raízes a tradição de que o Brasil inteiro se orgulha ou de que se vem beneficiando como de valores basicamente nacionais? (p. 57)
Entremeando considerações que relembram a época áurea do açúcar, dos tempos coloniais, "de uma doce aristocracia e gostos, de modos de viver e de sentir" (p. 57), o autor categoricamente afirma:
O Nordeste tem o direito de considerar-se uma região que já grandemente contribuiu para dar à cultura ou à civilização brasileira autenticidade e originalidade e não apenas doçura e tempero (p. 57-58).
NORDESTINO 'NORDESTINADO'
Com esta conclusão a voz do político silencia, dando lugar ao aparecimento da persona do homem nordestino por excelência.
É através dessa persona de homem nordestino que o retor Gilberto Freyre vai se exceder em demonstração de conhecimentos dos hábitos, costumes, valores e tradições da região. Utilizando a tática retórica da identificação, mostra-se marcado fisica e espiritualmente pela região que ele exalta. Nada lhe escapa. Segundo José Lins do Rego ele realizou uma verdadeira "sondagem na alma do povo, nas fontes do folclore, no que há de grande e vigoroso na alma popular" (1968:33).
Resgatando o valor do mocambo sob o ponto de vista estético, harmonizado com a natureza, comparando-o com os chalés da Irlanda, afirmava que o mal dos mocambos residia "na sua situação em áreas desprezíveis e hostis à saúde do homem" (p. 59). Quanto aos sobrados, invoca o testemunho do grande sanitarista Saturnino de Brito quando declarou: "aquelas casas verdadeiramente sepulcrais. Elas sim, é que pecam contra a natureza regional; e não o mocambo" (p. 60). E continua em defesa ardorosa da "casa do caboclo", dos negros, dos pescadores, dos "humilhados e ofendidos" ... da região.
Analisando em seguida a arquitetura da cidade, reivindica a permanência das ruas estreitas, dos becos sombrios com nomes "saborosamente regionais" (p. 61). Sem deixar de reconhecer a necessidade de grandes avenidas, volta-se para a reflexão da presença dos mouros e sua influência nas construções de "rótulas" ou janelas de xadrez, que preservam intimidades e segregam mistérios.
Tudo isso precisa ser conservado e daí a "sugestão" para a criação de um museu regional. Museu que venha a abrigar todo esse acervo, idéia que já encontrava correspondência na França "pelo espírito poético de Mistral e pela inteligência realista de Maurras" (p. 63). O retor vai mais além, "sacralizando e santificando" o rico universo dos valores culinários, visíveis nas casas dos engenhos e escondidos nos claustros dos conventos.
Segue-se um longo e exaustivo tratado sobre a arte, o valor e a tradição culinária no Brasil e em três estados, particularmente: Minas, Bahia e Pernambuco. A exposição detalhada inicia-se com a louvação de pratos característicos, seguindo-se da citação dos nomes dos doces, do elogio às sinhás, cunhãs, negras minas que criaram, adaptaram às iguarias regionais influências portuguesas, africanas etc.
Do príncipe Maurício de Nassau aos senhores de engenho, o autor descobre os segredos do paladar e os efeitos dos quitutes mágicos. Entre estórias e chistes, chega a afirmar que "sem esse lastro, de toucinho e de paio... bem diversa seria a situação culinária do Brasil. Não haveria unidade nacional sob a variedade regional" (p. 66). E mais adiante sentencia: "toda essa tradição está em declínio ou pelo menos, em crise, no Nordeste. E uma cozinha em crise significa uma civilização inteira em perigo: o perigo de descaracterizar-se" (p. 72). Uma boa tirada cuja inserção permite exibir a habilidade do blagueur, embora tenha Freyre repelido tal epíteto à página 62 do seu Manifesto.
Aproveitando a oportunidade, lamenta o desconhecimento das novas gerações de moças para fazer doces ou guisados... e pontifica os três votos do citado congresso que se resumem em reivindicações pela preservação de valores culinários através de 1) instalação de um restaurante típico; 2) ensino obrigatório da culinária nos colégios; 3) coleta de receitas antigas e não registradas. Conclusão um tanto desfocada, se considerarmos o Manifesto na sua inteireza. Porém se explica. Esse longo tratado tinha em vista exibir o homem nordestino cujo regionalismo
poderíamos chamar de orgânico, profundamente humano. Ser da sua região de seu canto de terra, para ser-se mais uma pessoa, uma criatura viva, mais ligada à realidade. Ser de sua casa para ser intensamente da humanidade. Nesse sentido o regionalismo do Congresso do Recife merecia que se propagasse por todo o Brasil porque é essencialmente revelador e vitalizador do caracter brasileiro e da personalidade humana. Com um regionalismo desse é que poderemos fortalecer mais ainda a unidade brasileira (Rego, 1968:33).
E com razão estava José Lins do Rego, porque o escritor continua a proclamar o seu amor e conhecimento da fauna e da flora, dos animais domésticos que se personificam e estabelecem diálogo com seus donos e enriquecem o imaginário nordestino.
Procurando finalizar, retorna ao tema do regionalismo para novamente inserir valores, conceitos de higiene ensinados por mulheres pardas, pretas, morenas, e exaltar a força do povo que forjou as grandes personalidades: Nabuco, Silvio Romero, Teles Júnior e outros, convocando veementemente, através de apelos emocionais, os nordestinos de uma maneira geral.
Que é dos poetas do Nordeste que não cantam figuras do vigor ao mesmo tempo regional e humano de J. Ramos?
Que é dos romancistas que não descobrem tais figuras de Dons Quixotes regionais ?
Dos biógrafos que não as revelam?
Dos ensaístas que não os interpretam ?
Hoje precisamos de homens cujas vozes se ergam não só a favor dos homens ainda cativos de homens ou dos animais maltratados e explorados pelos donos etc, mas que defendam todo conjunto da cultura regional que precisa de ser defendido (p. 80).
Esta conclamação é desafiante. Pois, colocando em xeque a necessidade de uma liderança, questiona quem possuiria credenciais superiores às apresentadas pelo retor para assumir tal encargo.
EFECÁCIA, QUALIDADE E VALOR SOCIAL DO MANIFESTO
Segundo Catchcart (1981), três são os tipos de julgamento para realizar a avaliação de um ato retórico. Em primeiro lugar, o julgamento dos efeitos do discurso de acordo com critérios pragmáticos, onde o potencial de eficácia de sua forma e de seus efeitos seriam considerados. Em segundo lugar, o julgamento da qualidade do discurso de acordo com critérios estéticos - seus méritos artísticos como forma retórica. Finalmente os critérios de valor, onde se avalia a contribuição do discurso para reforçar valores sociais e anseios universais e suas conseqüências para a comunidade a que se dirigiu e para sociedade como um todo.
Sendo o Manifesto um discurso regionalista, define-se, de acordo com Bourdieu, como um discurso performativo. Isto porque,
Tem em vista impor como legítima uma nova definição das fronteiras e dar a conhecer a região assim delimitada - e, como tal desconhecida - contra a definição dominante, portanto, reconhecida e legítima, que a ignora (1980:116).
Assim procedendo, e conseguindo obter o reconhecimento nacional e internacional da natureza de sua autorictas, Gilberto Freyre a proclama junto ao grupo ao qual se dirige (adeptos do Movimento Regionalista), ao mesmo tempo em que mostra aos seus adversários o seu poder.
Um poder de fazer o grupo impondo-lhe princípios de visão e divisão comuns, portanto, uma visão única da sua identidade, e uma visão idêntica da sua unidade. O fato de estar em jogo, nas lutas de identidade - esse ser percebido que existe fundamentalmente pelo reconhecimento dos outros - a imposição de percepções e de categoria de percepção explica o lugar determinante que, como a estratégia do manifesto nos movimentos artísticos, a dialética da manifestação detém em todos os movimentos regionalistas ou nacionais: o poder quase mágico das palavras resulta do efeito que tem a objetivação e a oficialização de fato que a nomeação pública realiza a vista de todos, de subtrair ao impensado e até mesmo ao impensável a particularidade que está na origem do particularismo (...) - e a oficialização tem a sua completa realização na manifestação, ato tipicamente mágico (o que não quer dizer desprovido de eficácia) pelo qual o grupo prático, virtual, ignorado, negado se torna visível, manifesto, para outros grupos e para ele próprio, atestando assim a sua existência como grupo conhecido e reconhecido que aspira à institucionalização (idem :118).
Dessa maneira, a eficácia do discurso do Manifesto se concretiza através da proclamação da autorictas gilbertiana porque ela consegue
fazer sobrevir o que ele anuncia no próprio ato de o enunciar proporcional à autoridade daquele que o enuncia: a fórmula "eu autorizo-vos a partir" só é eo ipso uma autorização se aquele que pronuncia está autorizado a autorizar, tem autoridade para autorizar (ibidem: 116).
Quanto aos critérios estéticos, o autor organiza a estrutura do seu discurso fundamentado no seu profundo conhecimento de autores clássicos do panorama universal. Cria, por conseguinte, um estilo próprio, utilizando-se de metáforas estratégicas para ordenar a realidade, entinemas vívidos, neologismos, sem perder a consistência dos objetivos principais da sua preleção.
A identificação, termo chave do discurso, se consigna através da descrição de imagens, idéias, atitudes que vão permitir a unicidade com o público, induzindo-o à cooperação e ao entendimento. A mensagem do Manifesto apresenta rítmo e tonalidade, apesar de uma linguagem polêmica e ambígua, cujos critérios estéticos são elucidativos. Estes, habilmente trabalhados através da sagacidade e perspicácia do autor, permitem que o mesmo retome as questões de identidade e de região valendo-se da abordagem culturalista de Boas, o que, segundo Ortiz, viria atender a uma demanda social frente às transformações profundas que estavam ocorrendo na sociedade brasileira: "o processo de urbanização e de industrialização se acelera, uma classe média se desenvolve e surge o proletariado urbano" (1985: 39)
Urge um novo discurso ideológico, que sem romper com as interpretações raciais de um Silvio Romero ou Nina Rodrigues, consiga dar continuidade e permanência à tradição. É em correspondência com este contexto que as qualidades estéticas do discurso vão encontrar ressonância e receptividade, oferecendo ao brasileiro os dados para uma "nova carteira de identidade" (Ortiz), resguardando de forma subliminar o objetivo maior do Manifesto: a sagração da proclamada autorictas, que posteriormente viria a ser legitimada, na medida em que os objetivos pretendidos, explícitos e implícitos, fossem paulatinamente concretizados. A própria declaração do autor, 25 anos depois, assim o confirma:
Porque o Instituto é, de algum modo, filho ou neto do Movimento Regionalista. Filho ou neto com deveres de gratidão para com o um tanto esquecido pioneiro, em dias remotos já voltado para a necessidade de estudos sistematicamente regionais de Antropologia, História, Sociologia e Economia brasileira".(G. Freyre, Prefácio ao Manifesto Regionalista, edição de 1976).
Sobre os critérios de valor, afirma José Lins do Rego que o regionalismo gilbertiano poderia ser chamado de orgânico, por ser profundamente humano. E tal é sua importância e valor, que merecia ser propagado "por todo o Brasil, porque é essencialmente revelador e vitalizador do caráter brasileiro e da personalidade humana. Com um regionalismo desse é que poderemos fortalecer mais ainda a unidade brasileira" (Rego, 1968: 33).
Sem desconhecer a validade de tal assertiva, aproximamo-nos mais das considerações de Ruben George Oliven quando diz que o discurso do manifesto não pode se ater apenas ao caráter conservador: "Na verdade, sua releitura, passados mais de sessenta anos do seu lançamento, impressiona pela atualidade dos temas suscitados" (1980:72). Temas que continuam em pauta neste final de século e que "são recorrentes em nossa história: estado unitário versus federação, nação versus região, nacional versus estrangeiro, popular versus erudito, tradição versus modernidade" (idem, ibidem).
E acrescenta: "É justamente na fusão de uma perspectiva conservadora com o levantamento de questões ainda não resolvidas no Brasil que reside a originalidade do Manifesto Regionalista" (idem). O que, segundo nossa análise, extrapola os objetivos pretendidos pelo retor, ao lhe ser concedida mais uma qualidade - a visão de antecipador .
Assim, embora constituído de um único documento, o Manifesto Regionalista aparece em duas situações distintas que se complementam.
A primeira acontece no 1º Congresso do Centro Regionalista do Nordeste, onde Gilberto Freyre, aos 27 anos, faz os seus pronunciamentos e apresenta as suas credenciais para proclamar a natureza da sua auctoritas. Como pondera Bourdieu:
Pode admitir-se que os sociólogos, enquanto não submetem a sua prática à crítica sociológica, estão sempre determinados, na sua orientação para um pólo ou para outro, objetivista ou subjetivista, do universo das relações possíveis com o objeto, por fatores sociais tais como a sua posição na hierarquia social da sua disciplina, quer dizer, do seu nível de competência estatutária que num espaço geográfico socialmente hierarquizado, se traduz frequentemente por uma posição central ou local, fator particularmente importante se se trata de região ou regionalismo; mas também na hierarquia técnica; pois que estratégias "epistemológicas" tão opostas como o dogmatismo dos guardiães da ortodoxia teórica e o espontaneísmo dos apóstolos da participação no movimento podem ter de comum o fornecer uma maneira de escapar às exigências do trabalho científico sem renunciar às pretensões à auctoritas, quando se não pode ou se não quer satisfazer estas exigências... (1980:121).
A segunda ocorre na comemoração dos 25 anos dos citados pronunciamentos. Nesse momento Gilberto Freyre os materializa, editando-os sob o título de Manifesto. Evocando Hannah Arendt, diríamos que é preciso lembrar para ser lembrado:
Sem a lembrança e sem a reificação de que a lembrança necessita para a sua própria realização - e que realmente a torna como afirmavam os gregos, a mãe de todas as artes - as atividades da ação, do discurso e do pensamento perderiam sua realidade. Ao fim de cada processo desapareceriam como se nunca tivessem existido. A materialização que eles devem sofrer para que permaneçam no mundo ocorre ao preço de que sempre a " letra morta" substitui algo que nasceu do "espírito vivo". Tem que pagar este preço porque em si, são da natureza inteiramente extra-mundana, e portanto requerem o auxílio de uma atividade de natureza completamente diferente; dependem, para sua realização e materialização, do mesmo artesanato que constrói as outras coisas do artifício humano. (1981: 107).
Dessa maneira, Gilberto Freyre, aos 52 anos, consagrado por Casa Grande & Senzala e no recinto do seu Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, em pleno funcionamento, legitima e sagra a natureza de sua auctoritas. Ambas, legitimação e sagração, outorgam um permanente pontificado ao "Mestre de Apipucos", consolidando a sua pretendida liderança .
Como conseqüência, outras reivindicações expressas no Manifesto vão sendo paulatinamente atendidas como, por exemplo, a criação do Museu do Homem do Nordeste e a expansão do seu Instituto, hoje Fundação Joaquim Nabuco, para outros estados do Norte e Nordeste.
Ao introduzir o Seminário de Tropicologia, trouxe luminares nacionais e internacionais das ciências e das artes que, proferindo conferências e participando de debates, tornaram-se porta-vozes e divulgadores do escritor, de suas idéias, das suas realizações.
Com esta sagração da auctoritas auto-proclamada em 1926, o Manifesto atinge sua completude.
NOTAS
1 - Retor: aquele que comunica ou produz mensagens retóricas [voltar]
2 - Várias publicações americanas reportam desenvolvimentos teóricos e pesquisas nesta área. Entre elas: The Quartely Journal of Speech (fundada em 1915), Western Journal of Speech Communication, Central States Speech Exetasis, esta última publicando análises retóricas de discursos atuais, pouco depois de serem pronunciados. [voltar]
3 - As referências históricas e sociais do Recife nos anos 20 limitar-se-ão ao livro de Souza Barros pelo fato de que o citado autor salienta a importância do jornal A Provincia e da Revista do Norte e seus colaboradores como precursores da valorização e conservação da cultura regional nordestina. [voltar]
4 - Ascenso Ferreira - uma das mais representativas figuras no movimento renovador de Pernambuco com suas poesias. Sobre os guindastes ele escreveu: "Dos brutos guindastes/ de vultos enormes/ ainda maiores/ nessa escuridão.../ os braços de ferro/ pesados e longos parecem quererem/ sustar-me do chão/ - Ai/ Eu tenho medo dos guindastes/ por causa daquele bicão/ "Noturno" (1922 - Poemas).[voltar]
5 - Conforme Souza Barros eram treze à época. [voltar]
6 - Todas as citações do Manifesto Regionalista foram tiradas da edição de 1976. A partir de agora, apenas as respectivas páginas das citações aparecerão entre parênteses. [voltar]
7 - Em estudos mais recentes sobre o poder da metáfora, David E. Leary (1995) afirma "we are necessarily creatures of metaphor " (p. 267). E, nesse mesmo estudo, incluído na revista Social Research, cujo volume dedica-se exclusivamente a esta figura de linguagem contando com a colaboração de profissionais de várias áreas, o citado autor invoca o testemunho de Burke, para reforçar a presença da metáfora - elemento constitutivo e fundante do discurso - nos múltiplos paradigmas, trabalhos e pesquisas científicas que se querem afirmar neutros, sob a égide de um objetivismo positivista ( p. 274).
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