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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



À MEMÓRIA DE GUSTAVO CORÇÃO


À medida que envelhecia - lembrou o Conselheiro Pedro Calmon - Gustavo Corção "já incapaz de escrever de seu punho, ditando aqueles límpidos artigos que o transformaram num dos maiores jornalistas deste País, tornava-se mais combatente, mais herói, mais bravio, mais agressivo e mais valente". "Não notei - complementou Pedro Calmon - nesse declínio das forças físicas, um amortecimento daquelas qualidades de origem. Ao contrário".

O Conselheiro Raymundo Moniz de Aragão observou a faceta da "propalada intransigência" de Gustavo Corção. "A sua posição - disse - não era, absolutamente, resultante de uma opção. Ele era aquilo que não podia deixar de ser. Nele se implantara o conhecimento da verdade pura". E adiante explicou que Corção, por sua fé, ultrapassara o ceticismo e chegara "ao plano da verdade pura; só podia ser intransigente, porque a verdade pura não tem alternativa".

A leitura de todos os pronunciamentos em que Gustavo Corção é aqui homenageado, confirma o consenso que se formou em torno de seu nome e da sua obra que deixou para a cultura do País.

Sessão Evocativa

Comovida homenagem rendeu o Conselho Federal de Cultura, reunido em sessão plenária presidida pelo Conselheiro Adonias Filho, ao evocar a figura de Gustavo Corção, membro fundador deste colegiado, e cujo desaparecimento se constituiu em perda irreparável para a cultura e para o pensamento brasileiro. No ato, ouviram-se os pronunciamentos de que damos as notas taquigráficas a seguir reproduzidas e que bem refletem o sentimento e o apreço do Conselho Federal de Cultura em relação à figura humana e à obra singular do autor das "Lições de Abismo".

PRESIDENTE ADONIAS FILHO - Como os Srs. Conselheiros sabem, a sessão de hoje é de saudade, em homenagem ao nosso querido companheiro Gustavo Corção. A propósito, a Mesa informa que, durante esse período de tempo recebeu, de órgãos e instituições, comunicações expressando pesar pelo falecimento dele, entre os quais estão a Comissão de Moral e Civismo, o Conselho Estadual de Cultura da Bahia, o Conselho Estadual do Pará, o Conselho Estadual do Rio Grando do Sul, a Fundação Educacional de Curitiba, o Instituto de Música da Universidade Católica de Salvador e o Tribunal de Contas do Município de São Paulo. Valendo-me da oportunidade, quero comunicar aos Srs. Conselheiros que, aqui, está presente, já homenageado e empossado, substituindo o Conselheiro Gustavo Corção, o Conselheiro Geraldo Bezerra de Menezes. Creio desnecessária qualquer apresentação, porque todos já o conhecem demais pelo seu currículo, que é muito relevante e antigo. Nele teremos um colaborador e mais um Conselheiro que, sem a menor dúvida, honrará, nesta Casa, a ausência de Gustavo Corção, em homenagem do qual esta sessão é dedicada.

Com a palavra o Conselheiro Josué Monteiro.

CONSELHEIRO JOSUÉ MONTELLO - Sr. Presidente, Gustavo Corção, como V. Exa. sabe, integrava a Câmara de Letras, que tenho a honra de presidir. Por isso mesmo, julguei que coubesse a mim, em primeiro lugar, fazer o louvor do nosso companheiro, porque, se a perda é de ordem geral, neste Conselho, nós a sentimos no plano particular, na Câmara a que ele pertencia e de que era um dos membros mais representativos. Toda a vida de Gustavo Corção é uma espécie de tirocínio e de surpresas, em que o homem vai ao encontro da sua vocação. E esta vocação se realiza, muitas vezes, à revelia da sua vontade. Engenheiro eletrônico, dividiu sua vida entre as letras e a técnica. Era um espírito de homem de ciência, com a preocupação de resolver os problemas n plano técnico e científico. Também era, simultaneamente, um admirável e extraordinário escritor. Esse escritor é uma aparição de maturidade.

Gustavo Corção tinha percorrido outros caminhos, em função dos seus títulos e da sua ação de ordem técnica, quando, de repente, pelos anos 30, surge ao final dessa década, com a publicação da Descoberta do Outro, livro que o marcou, imediatamente, como uma das figuras fundamentais da sua geração e da literatura brasileira, revelando-o. Essa revelação se faria presente noutros livros, notadamente naqueles em que nos falou, comovidamente, de Chesterton, com quem tinha a mais profunda afinidade, a qual, logo de início, nos chamava atenção pelo contraste: aquele homem gordo, Chesterton, seduzindo aquela figura extremamente magra, econômica de físico, que era Gustavo Corção, mas identificado com a mesma preocupação na fé e pela mesma graça de espírito. Corção, como escritor, era, também e essencialmente, um homem da família machadiana, no sentido de ter, à disposição da sua palavra, que no seu caso era veemente, uma graça própria, colocando-o entre os grandes ironistas da língua portuguesa. Dizia Anatole France, de quem era leitor assíduo, que o mundo sem ironia seria comparável a uma floresta sem pássaros. Mas Gustavo Corção, a certa altura, nessa sua prosa de combate permanente, porque foi, sobretudo, um escritor combativo, despojou-se dessa graça, para substituí-la por uma veemência ainda maior. Sentimo-la nos seus artigos, fase em que ele, dentro da corrente católica, é um dissidente, extremamente combativo, porque a polêmica participava do seu espírito. Esse homem deu a todos nós um exemplo de coerência realmente exemplar. Muitas vezes, os dissentimentos que temos, na vida, amortecem, à medida em que vamos envelhecendo. Com Gustavo Corção isso não aconteceu. Esse dissentimento, essa discordância trazia consigo uma convicção tão profunda, que ele se julgava no direito de vir, a cada momento em que comparecia a sua coluna de jornal, reafirmá-la. Essa reafirmação dava, de Gustavo Corção, uma imagem perfeita, na ordem literária, mas imperfeita na ordem humana, porque imaginávamos, naquele homem truculento, escrevendo, veementemente e extremamente combativo, uma pessoa um pouco semelhante àquele personagem de Cervantes, que andava nas ruas com uma vara, para que ninguém dele se aproximasse. No caso de Corção, isso não se dava. Ele era, sobretudo, um homem afetuoso. Sr. Presidente, não estou autorizado a declinar o nome, mas conto a este Conselho um episódio que me parece expressivo na maneira de ser de Gustavo Corção. Um dos seus adversários - digo adversário pela maneira com que sempre se colocou, em relação, a essa alta figura do pensamento brasileiro - um belo dia, querendo dar a si mesmo um testemunho do sacrifício que poderia fazer, na linha de concordância da sua fé, imaginou que o sacrifício maior seria uma visita a Gustavo Corção. E foi bater à sua casa. Não o encontrou. Ele estava fora, mas não devia tardar. Então, essa alta figura do pensamento brasileiro ficou a dar voltas ao quarteirão, até o momento em que, batendo, novamente, à porta, anunciou-se. Gustavo Corção, que, ultimamente, já tinha os olhos quase apagados veio ao seu encontro. E veio ele, o combativo, o homem que, continuamente, estava a desafiar e a ferir esse figura, de braços abertos e numa crise de choro. Essa concordância é perfeita na vida de Gustavo Corção. No dia seguinte, ele poderia ir para sua coluna de jornal, com os mesmos argumentos combativos. Mas, naquela hora, era um homem capaz dessa confraternização. Foi essa outra pessoa que conhecemos, neste Conselho. Nós, que nos habituáramos a ter dele a imagem do grande escritor polêmico, um dos mais altos em língua portuguesa, um escritor da linhagem machadiana, encontramos, aqui, aquele companheiro que destoava desse escritor, porque era extremamente afetivo. Eu próprio tive essa experiência. Comecei a conhecê-lo com uma discordância de jornal. Terminei por ser, aqui, e assim me considerava, um dos seus amigos mais fraternos. De modo que, neste momento em que pranteamos, nesta Casa, o desaparecimento dessa alta figura do pensamento, associamos todos esta consternação, em nome da cultura, à nossa consternação pessoal e em nome da amizade.

CONSELHEIRO DOM MARCOS BARBOSA - Vim pela primeira vez ao Conselho Federal de Cultura no carro de Gustavo Corção. Por vários anos subia ele até o Mosteiro nos dias de sessão, e fazíamos depois um trajeto que julgava mais rápido embora mais longo, mas que lhe dava ainda um pouco da fisionomia do Rio antigo, que acabou aliás por apagar-se quase ao mesmo tempo que os seus olhos. Passei então, ultimamente, como saldando uma dívida, a descer com ele após as sessões do Plenário, para que encontrasse mais facilmente o carro que vinha buscá-lo. O que fiz ainda nas últimas sessões a que compareceu, mas não na última, quando, segundo os jornais, teria dito a Rachel de Queiroz (pois a Providência colocara sua cadeira entre dois grandes amigos) que desejava retirar-se despercebido; ao que ela, na sua argúcia feminina replicara: "Tire então a boina, que é o que chama a atenção..." E assim partiu também da vida, despercebido, esse homem por natureza discreto, cujos rugidos ou latidos, no entanto, ecoaram por tantos anos nossa Imprensa.

Na última vez que descemos juntos, antevéspera de sua partida, comentava com ele o susto que nos dera pouco antes da Semana Santa e como se achava agora tão bem. "Mas, respondeu ele, a morte anda rondando a minha família; levou o Jorge e a Marília, tão moços, e ainda me encontro aqui!" Sem a menor queixa (jamais o vi lamentar-se, mas dizer ao contrário que Deus até lhe dera bastante saúde, que por definição, acrescentava, é "un état tout provisoire qui ne pressage rien de bon"), comentou que justamente há quatro anos pudera ler o último livro. Daí em diante só uma página ou outra, depois só as manchetes de jornal e finalmente nada. Ele, que já não via, queria sair sem dar na vista, e assim saiu deste Conselho e da vida para uma Vida que é visão de Deus, na qual apostara tudo, sucesso, amigos, relações, prestígio, - verdadeiro "peregrino do absoluto", como um Léon Bloy a figura humana mais semelhante à sua.

Além de tantos outros tesouros, devo a Alceu Amoroso Lima a fortuna de ter conhecido Corção. Quando vim ao Rio em 1934, para o meu curso de Direito e fui apresentado ao grande escritor, Tristão de Athayde achou-me parecido com seu cunhado Octávio de Faria, que iniciava a sua brilhante carreira com os dois estudos que antecederam a Tragédia Burguesa. E o grande escritor, cuja bondade o levava a simpatizar com quase todo o mundo, passou a dispensar-me então especial carinho, convidando-me dois anos depois para secretário. Foi assim que um dia, quando eu já terminava o meu curso de Direito e iniciava o de Letras Clássicas, em breve interrompido, faltou-me com grande entusiasmo, de um engenheiro que acabava de conhecer por intermédio de Carlos Chagas Filho e desejava entrar em contacto com um sacerdote; mas procurava alguém menos famoso que o Pe. Leonel Franca, que, supunha ele, iria intimidá-lo. Como eu estivesse então muito ligado ao Mosteiro de São Bento (embora, não decidido ainda a bater-lhe as portas), pediu-me o Dr. Alceu que marcasse com um dos monges uma entrevista para Gustavo Corção. No dia aprazado estava eu do outro lado do Mosteiro, quando um senhor se dirigiu a mim, não sabendo que a Portaria ficava do outro lado. Pela hora e pelo padre procurava, identifiquei logo quem fosse e encaminhei-o a Dom Gerardo, que então me apresentou a ele.

Dois ou três dias depois encontramo-nos por acaso no primeiro andar de uma livraria francesa e convidou-me a que fosse de noite à sua casa, de onde saí às três horas da manhã, o que passou a ser uma rotina de quase todos os dias, ou melhor, de quase todas as noites. E, ao mesmo tempo que sua alma se abria para a fé e recebia os sacramentos da Confirmação e da Eucaristia, eu sentia, mas que nunca, o apêlo da vida monástica. . . Foi um crescimento lado a lado, que "criou laços"(e ele é que mais tarde me apresentaria O Pequeno Príncipe) que jamais se desfizeram, mesmo quando estivemos em desacordo em alguns pontos. Ficáramos "cativos" um do outro.

Quando fiz a Editora Agir a tradução de O Pequeno Príncipe, só iria encontrar uma dificuldade: como traduzir apprivoiser, a palavra-chave de toda a obra, e que não podia ser, de modo algum o duro, distante e superior domesticar. Não cheguei a enfrentar o problema, pois Corção já tinha descoberto o termo exato, que só podia ser cativar com suressonâncias afetivas. O Pequeno Príncipe cativara a Raposa, corre-se o risco, às vezes, de chorar um pouco... Mas de qualquer modo, como também dizia, saímos lucrando assim mesmo...

Acompanhei passo a passo, já então no Mosteiro, a elaboração dos seus primeiros livros, e ele colocou no meu exemplar de A Descoberta do Outro, com que inaugurava sua carreira de escritor, a seguinte dedicatória: "Ao Irmão Marcos, amigo dileto que me ensinou o caminho da ressurreição: esse primeiro livro, saído de nossas conversas, eu o devolvo mais do que ofereço, porque ele é tão seu quanto meu. E lembrando a boa alegria deste Advento (era a Vigília de Natal de 1944), eu peço a Deus - e peço-lhe que peça - que me permita sua amizade e sua proximidade até o dia do meu último Advento". E Deus concedeu-lhe esta graça, por pequena que fosse.

Devo esta amizade, como disse de início, a Alceu Amoroso Lima, que escreveu agora sobre Corção um belo e generoso artigo Per umbram lux, onde diz, com muito acerto, que "só as falhas de caráter é que separam irremediavelmente as pessoas", e ambos sabiam que o outro, por mais diverso caminho que seguissem, apostava no Cristo a própria vida. Gostaria de trazer aqui um texto mais sugestivo ainda que um artigo de jornal endereçado ao grande público. A abadessa Madre Teresa Amoroso Lima, escrevendo à viúva de Gustavo Corção, diz o seguinte: "Transcrevo aqui, com emoção, um trecho de uma carta de meu Pai, chegada hoje: "Confesso que sinto muitas saudades, e falta mesmo do Corção. Habituara-me a ter ali, no Cosme Velho, um censor vigilante, cujas chicotadas nunca chegaram a ferir-me, pois não guardo cicatriz alguma".

De outro lado, ouvi Rachel de Queiroz pedir a Octávio de Faria, após nossa última reunião, suspensa em sinal de luto, que dissesse ao Dr. Alceu que ouvira mais de uma vez de Corção que ele conservava um grande afeto pelo Alceu, apezar de todas as divergências...

Sempre vi Corção protestar energicamente quando alguém considerava boa a morte a repentina e despercebida. Insistia em que era preciso nos prepararmos para o encontro com Deus e lembrava a Ladainha de Todos os Santos, onde a Igreja nos ensina a pedir: "Da morte imprevista e repentina, livrai-nos Senhor!" Mas, no seu caso, tenho a certeza de que estava preparado, pois não buscou após a sua conversão senão a amar e servir a Deus, como um cão ao seu dono.

Procurai dizer estas coisas (e as indiziveis) no poema que posso ler:

Réquiem Pelo Amigo

Dom Marcos Barbosa

Não sabia como falar-te, e de repente ocorre-me
despendurar do salgueiro a lira mais que nunca destemparada,
porque só a Poesia consegue dizer o indizível,
abolindo as fronteiras não só da técnica, mas também do espaço e do tempo,
para que eu alcance os abismos em que agora penetraste pelas mãos de José Maria,
e possa fixar, como nos quadros impressionistas que tanto amavas,
os anos e desenganos que vivemos juntos, e agora
são apenas, como um vitral, só cores.
Antes de aprenderes (e ensinares) as lições de abismo já descobriras o Outro
e, como o cão que conhece a voz do seu dono, jamais o deixaste,
colocando os teu pés sempre firmes em suas pegadas de sangue.
Descobriste o Outro, e nele as fontes que jorraram copiosas como no deserto,
e das quais deste de beber, como Moisés, não só aos homens,
mas também às ovelhas e camelos, cão de pastor
sempre a ladrar e a morder (e como mordias!),
quando julgavas em risco o rebanho de teu amo.
Lembro-me, como se fosse ontem
(pois também tenho o dom de que tantas vezes te gabavas,
de guardar indeléveis as cenas e os momentos),
do primeiro dia, nosso terceiro encontro, em que transpus os teus umbrais,
início de infindáveis palestras que só terminavam ao cantar dos galos
na manhã das Laranjeiras, ao pé da montanha...
Galos que não me acusam de traição alguma, mas antes me trazem de repente
a sugestão do Natal sobre o qual escreveste coisas tão belas,
festa ao rés do chão que continua a perseguir-nos com sua teimosa ternura,
mesmo quando já perdemos de vista o Deus crucificado e ressurreto.
Natal, a cada luz as coisas se modificam, as escalas de valores se alteram,
os eixos se deslocam,
e o Deus menino nos diz na sua pequenez, na sua pobreza,
que uma alma de criança, uma vida de criança,
uma palavra, um choro, um riso de criança,
lhe são infinitamente mais caros que os portentosos edifícios e engenhosos aparelhos,
que com o tempo ficam ridiculos e fora de moda...
Sim, a ternura do Natal e a tua ternura, que tantos desconheceram,
e que era no entanto, como em Bloy ou Bernanos, o âmago de tua alma,
a explodir às vezes, como a deles, num estilo quase barroco,
em que te tornavas em prosa o mais refulgente dos poetas,
quando não preferia a emoção recolhida na tranqüilidade
e essa outra espécie de poesia, o humour,
aprendida em mestres tão diversos como Chesterton
ou um outro bruxo de Laranjeiras.
Escreveste um dia, a propósito de um livro meu, que eu fora teu pai;
mas a última vez em que te levei o Corpo do Senhor me perguntaste,
se podias chamar-me filho, e rezamos o Pai-Nosso.
Na antevéspera da tua morte contavas-me que há quatro anos
havias lido com grande esforço o último livro...
Agora lês o da Vida e contemplas face a face o que para nós
ainda é espelho e enigma.
Há muito passáramos a ser para os teus olhos feridos
apenas vultos e sombras que identificavas pela voz,
ou mais ainda pelo bem-querer, como também as plantas o fazem.
Mas agora não pedirei como Davi que a chuva e o orvalho
não mais desçam sobre as montanhas em que tombou o forte na guerra,
mas inundem-me os olhos e o coração para chorar-te em silêncio,
já outros amigos acorrem ao teu encontro e não como sombras,
Tomás, Catarina e Bento, e as duas Teresas, e Maria Goretti,
que te veio buscar em sua festa de Sangue.
E os Anjos que tanto amaste, e Miguel, e Maria antes de tudo,
imaculada beatriz a introduzir-te no Paraíso,
onde repousa enfim na luz deífica
o peregrino e guerreiro já sem espada e pena...

CONSELHEIRO PEDRO CALMON - Sr. Presidente, duas palavras apenas, porque é óbvio o profundo sentimento com a morte do grande e querido companheiro Gustavo Corção. Direi, tão-somente, a V. Exa. a minha impressão pessoal do escritor, do pensador, do sábio, do grande técnico, daquele homem que se decompunha em tantas parcelas, o grande lutador pela civilização moral do nosso País. Corção causou-me uma impressão muito forte com seus livros, seu estilo, a sua maneira de exprimir seu pensamento e a altura a que o elevou. Mas o que nele observei sempre foi aquela maravilhosa capacidade de lutar. Pensei na trilogia de que se compõe a Justiça: o juiz, o promotor e o indulgente, o advogado. Corção não nasceu nem para advogado e nem para juiz. A sua alma beligerante, quieta, parcial e tomada de paixão da causa, era do Ministério Público, do advogado a lei, do promotor, do homem que acusa, daquele que removia os pecados judiciais com a fúria e a inclemência do seu poder polêmico, admirável poder de resistir, de esclarecer a verdade e de denunciá-la. Enfim, essa individualidade extraordinária se aguçou com o tempo. Em geral, os homens padecem ou gozam desse privilégio.

Quando moços, são corajosos e temerários. À medida em que vão envelhecendo, como que lhes percorre as veias a frieza do julgamento sério. Tornam-se piedosos, tolerantes e tranqüilos. Corção foi o contrário. À medida em que envelhecia, e sob os nosso olhos, arrimado à sua bengala, o passo trôpego, não reparando no gesto afetuoso dos companheiros que o saudavam, porque não os via, já incapaz de escrever de seu punho, ditando aqueles límpidos artigos, que o transformaram num dos maiores jornalistas deste País, tornava-se mais combatente, mais heróico, mais bravio, mais agressivo e mais valente. Não notei, nesse declínio das forças físicas, um amortecimento daquelas qualidades de origem. Ao contrário. Lembramo-nos sempre dos seus artigos, em que o clamor e a capacidade de convocar para a luta chegavam ao apogeu. Isso tudo me deu impressão de um homem fora do comum, de um homem extraordinário, de um grande homem, que tece seu papel à parte, na conjugação das forças que perfazem o contexto moral do País. Mas, à medida em que tempo passa, as paixões, naturalmente, amortecem. Afigura-se-nos uma das personagens mais interessantes do nosso mundo cultural. A perda que sofremos, com a sua morte, é difícil de ser compensada. Não nos consolamos com seu desaparecimento. Ele não falava muito neste Conselho. Era esquivo. Era a omissão no sentido de saber ouvir e de servir pouco. Mas o seu comparecimento, sentado ali, na cadeira hoje preenchida pelo nosso brilhante confrade, meu velho amigo, a irradiação do seu prestígio, tudo aquilo que aureolava sua vida nos dava uma certa confiança, uma certeza de que tínhamos um grande interlocutor e um excelente camarada. Sr. Presidente, meus queridos companheiros, todos nós pensamos isso mesmo e dizemos isso mesmo, em homenagem a Gustavo Corção. Não sou teólogo, nem tenho merecimento de místico, para profetizar onde ele se encontra, depois de ter desaparecido. Dom Marcos, meu querido santo amigo, já o viu no Paraíso. Não sei se está lá. Garanto que próximo pode estar. Até desejo antever, num certo devaneio literário, que ele está no limiar da divina glória, carrancudo, falando pouco, estranhando as coisas e - quem sabe - dizendo a São Pedro que Deus errou muito na sua clemência, perdoando a tantos pecadores que ali se encontram, isto é, de dedo estendido, a bengala floreando na mão trêmula, sem olhos para ver o horizonte, mas com o mundo dentro do seu pensamento e da sua coragem, o grande, o inesquecível, o admirável, o primoroso, o incomparável Gustavo Corção.

CONSELHEIRO GERALDO BEZERRA DE MENEZES - Mal egresso dos bancos universitários publiquei, com o prefácio do consumado jurista Levi Carneiro, Homens e Idéias à Luz da Fé. Inseri em seus capítulos algumas produções do meu tempo de estudante, embora refundidas. Seguiram-se duas tiragens.

Parte do livro dediquei-a a homens devotados à difusão e defesa dos princípios cristãos. Adstringi-me a meia dúzia de perfis, sem a pretensão de exaurir a lista dos nossos apóstolos leigos.

Carlos de Laet, temível polemista, de quem sou afilhado de batismo, puxa a fileira. O versadíssimo polígrafo valeu, entre nós, por uma legião, estou em dizer, por uma universidade católica.

No ardor, no dom polêmico, na combatividade, na ironia, na forma literária, o admirável romancista de Lições do Abismo rivaliza com o provocador de Camilo Castelo Branco e outros brigões famosos.

O fundador de "A União", Antônio Felício dos Santos, compõe o elenco. Um bom mineiro. Cordial, ponderado, prudente. E a demonstrar, posto diante do pensador de O Século e o Nada, que a Igreja, Mãe acolhedora, não tem preferência por feitios humanos, abriga e abençoa espíritos de todas as têmperas. Nem é preciso consultar agiógrafos. Exemplos ilustrativos cobrem a galeria dos santos.

Jackson de Figueiredo também transpôs a estrada de Damasco. A certa altura, um Dom Vital sem as insígnias episcopais, comprometido na pureza da doutrina e recristianização dos costumes. Provocador, à maneira de Laet, não o igualava na cultura humanística, no cuidado e leveza da prosa.

Lugar de prol tocou a Tristão de Ataíde, luzeiro de minha geração universitária nas lides da Ação Católica. A Correspondência, de quatro anos, entre Jackson e Alceu propiciaria a conversão do escritor de Problemas da Burguezia na "manhã mariana de 15 de agosto de 1928". Por seu turno, a biografia de Afonso Arinos, espírito arrebatado Pelos Sertões, assinalara o início da excepcional contribuição do crítico de Estudos à cultura brasileira.

Em nossos dias, as realidades emergentes e mudanças aceleradas criaram um mundo de incompreensões e perplexidades. Tenso, revolto, contraditório. Desse quadro sobreveio a divergência de posições que levou à separação dois velhos companheiros.

Mesmo à luz do Vaticano II, Corção não via com bons olhos tanto o enfoque e avaliação do presente histórico, como as colocações prospectivas do amigo. A respeito de assumirem, em outros planos, posições próprias, sempre mantiveram Cristo, a Igreja e a pessoa humana no centro de suas preocupações.

Forte nos dois, fortíssima, crença na Igreja, una, santa, católica e apostólica. Ardente em ambos, ardentíssima, a espiritualidade católica. E esta possui um só e único significado. Não há classificá-la de conservadora ou progressista, moderna ou radical. Meditação, recolhimento, prece, vinculam a criatura ao Criador, o tempo à eternidade. Não se acorrentam ao demônio dos preconceitos e avaliações mundanas.

Comoveu-me a página que o analista de Introdução à Economia Moderna dedicou ao amigo de outrora, lidador consciente, pugnaz, viril, que só o adeus ao mundo silenciaria. Entre cristãos verdadeiros não existem ruturas radicais, não se perpetuam conflitos, não se reabrem feridas. Importa que as divergências não atinjam a doctrina sacra e não minem de ódio os corações.

Ilustra o painel o retrato de Adroaldo Mesquita da Costa, veterano tribuno de Congressos Eucarísticos, ex-titular da Pasta da Justiça. Constituinte de 1934 e 1946, alteou-se na luta para que, nos dois momentos, a lex fundamentais traduzisse a fidelidade cristã do povo brasileiro.

De outras plagas, fixei de relance a figura de Contardo Ferrini, da Universidade de Pavia, artífice da História do Direito Greco-Romano e sua influência na civilização moderna. Theodoro Mommsen chegou a proclamar que, no estudo desse Direito e ramificações dependentes, o século XX seria conhecido como "o século de Contardo Ferrini". Talvez não esteja longe o dia em que a Igreja eleve o filho leal e dedicado professor às honras do altar; santo, será o orago e patrono das Faculdades de Direito.

Em anexo, duas contribuições. A primeira, do contundente Agripino Grieco, que nos legou Estrangeiros, obra de peso em torno dos maiores nomes da literatura universal, e nos deu Gente Nova do Brasil, onde retrata José Geraldo Bezerra de Menezes, meu saudoso pai, homem de fé e convicções definidas, seu mestre, mestre de gerações. A segunda, de Carlos de Laet, a respeito de Leandro Bezerra Monteiro, "o Mirabeau católico" na versão de Sena Freitas; no Parlamento imperial, audaz defensor dos Bispos Dom Vital Maria de Oliveira e Dom Antônio de Macedo Costa, no aceso da Questão Religiosa.

Tenho em mente ampliar o volume. Colho dados relativos a diversos militares, a partir dos brasileiros que se agigantaram na crise religiosa do Segundo Reinado, entre os quais Zacarias, Cândido Mendez de Almeida e Tarquínio de Souza. De épocas distintas, somam-se à lista Lacerda de Almeida, Lúcio José dos Santos, Basílio Machado, Jonatas Serrano, Armando Câmara, Sobral Pinto, Luiz Delgado e Andrade Bezerra. Os dois últimos, depõe Gilberto Freyre, "reanimaram como mestres de Direito com preocupações também sociológicas, o pensamento católico". Extraio a referência do nosso clássico da ciência social de um página sua dedicada à Faculdade de Direito do Recife, no registro da excelente contribuição do professor Nilo Pereira à história do estabelecimento sesquicentenário ("Boletim do Conselho Federal de Cultura", 1977, n. 28, pág. 79).

Por fim, Gustavo Corção Braga, a quem sucedo neste Conselho.

Relevem-me o truísmo: um Corção incaracterístico não é Corção. Nem o canonizo, nem o questiono. Mostro-o, ou antes, vejo-o no todo e sem disfarce, numa combinação contrastante. Por um lado, efetivo, solícito, puro, homem de oração, alma aberta aos mistérios da fé; por outro, veemente, determinado, tenso, indomável. Às vezes, duro, rebelde, insolente e até agressivo. Não dourava pírolas, diria o seiscentista Frei Luís de Sousa (in João Ribeiro, "Seleta Clássica", 2ª ed., 1910, pág. 125). Todos esses traços, tomados na justa medida, dão-lhe autenticidade. Foram eles, conjugados à cultura e aos dotes de escritor, que lhe asseguraram, em meio a compreensíveis ressentimentos, influente liderança entre católicos brasileiros.

Não sendo "bacharel em linguagem", como se arrogava o clássico Francisco Rodrigues Lobo, autor das Éclogas, de 1605, ainda assim, aventurou-me a observar que Gustavo Corção, nos seus escritos, se por vezes não polia as arestas, habituara-se a polir as frases. Para fugir a considerações estilísticas, exibo dois convincentes depoimentos.

Da "família machadiana", relembrou-nos, há pouco, Josué Montello.

"Escritor exímio", "indiscutível clássico da literatura nacional", afirmou, há tempos, Rachel de Queiroz (O Amigo, "Permanência" - 1971, pág. 43).

Identicamente, não comento o seu humor. Fico em amostra que o comprovam.

"Toda a notícia em vinte e quatro horas vira embrulho" (Dois Amores, Duas Cidades).

"Para ver é preciso parar, e numa exposição de quadros mais andamos do que vemos" (Oswaldo Goeld e Beatriz Reynal - "O Globo", Rio de Janeiro, 7-10-1971).

Nas "reminiscências astronômicas", relata que, uma noite, nas suas investigações, virou a luneta cento e oitenta graus em busca de uma estrela, e foi perturbado pelo Orosimbo que descrevia minuciosamente a maneira de dar o ponto na goiabada campista" (A Tempo e Contratempo).

Descreve com expressões de carinho o último Encontro com Oswald de Andrade ("O Globo", Rio de Janeiro, 4-11-1971), no Hospital das Clínicas de São Paulo, "onde o velho modernista se refazia de recente e difícil operação na cabeça". Surpreende o leitor com este lance:

"Magro, envelhecido, estava quase irreconhecível. O turbante manchado de sangue, que lhe envolvia a cabeça, tampando o olho direito, dava ao esquerdo uma redobrada ferocidade de pirata da Ilha do Tesouro".

Volto ao ponto, não o da goiabada campista, e sim aos sentimentos cristão do memorialista de A Descoberta do Outro. Sua convicção religiosa, asseverou o decifrador de Hegel nestas paragens brasileiras, é radical, "no sentido de vir das raízes últimas da consciência" (Djacir Menezes, Corção - "Permanência", nov. - 1971, pág. 25).

Com efeito. Em As Lições do Abismo, o personagem José Maria manifesta-se pelo pensador católico. Veja-se este tópico: "A verdadeira sociabilidade só é possível quando tiver raízes que desçam ao abismo da subjetividade". E o seu completo: "O homem só pode acertar razoavelmente os problemas exteriores quando tiver descoberto, ao menos em seus lineamentos, o segredo do seu ser".

Indiferente à apologia ou à crítica, o descobridor de As Fronteiras do Nada mostrava-se apreensivo com o esvaziamento da mensagem divina, "a mensagem espiritual de Cristo", repetidamente sujeita aos ardis das interpretações naturalistas e secularizantes. Defensor da permanência dos seus princípios, não lhe passavam pela garganta as modernices efêmeras".

O Concílio Vaticano II - aí estão os seus documentos básicos e a sua repercussão - é o novo símbolo da continuidade, da renovação e da universalidade da Igreja, de sua presença no tempo e no espaço, como instrumento divino de liberdade, de igualdade, de amor, de justiça e paz.

Na busca de uma resposta evangélica, deteve-se, o conclave, numa interpretação amplíssima e objetiva do mundo moderno. Não se absorveu nele. Não restringiu a visão teológica à dimensão histórica. Não prescindiu do "critério vivificador da Fé". Não abdicou dos valores cristãos.

Ajustou, urgia ajustar, a pastoral da Igreja aos "sinais do tempo", esforço que se não confunde com o propalado "progressismo" que, sobre ser uma desfiguração, de um termo equívoco, de conotação irrisória, serve, quando muito, para qualificar o desvio das metas conciliares.

Harmonizou-a com a civilização contemporânea, caracterizada pelo desmedido e desnorteante progresso da ciência e da técnica, a envolver sérios problemas, como sejam: a comunicação, o urbanismo, o meio ambiente, as condições de vida do trabalhador, a posição da mulher na sociedade, o acesso à educação e à cultura. Esses problemas transcendem da ação direta da Mater et Magistra, faltando-lhe competência para resolvê-los sob o prisma técnico e executivo. Incumbe-lhe, porém, por seus compromissos com a pessoa humana e o bem comum, exigir dos fiéis que deles se inteirem e com eles se obriguem. Mais ainda. Cabe-lhe advertir os especialistas, os responsáveis pela coisa pública e oferecer-lhes a contribuição de uma reflexão cristã, para acelerar, por todos os meios, sem precipitações inconseqüentes, a correção dos desequilíbrios e injustiças que inquietam a sociedade moderna.

Para acudir às exigências da axiologia cristã, a pastoral tornou-se mais solidária, mais ativa, mais participante, com o apelo a medidas realistas, eficientes, o que não significa subordinação às contingências, nem concessão doutrinária. Sob novas perspectivas, voltou-se, afinal, com maior empenho para o homem e a sociedade, seu destino, suas angústias, seus infortúnios, suas aspirações.

Tal o Concílio. E tal o seu alcance.

Fácil prever que uma empresa dessa envergadura, no seu áspero itinerário, mormente no difícil processo de implantação, suscitasse debates, desencadeasse reações. Duas merecem realçadas.

Protelatória a primeira, ditada pela incompreensão ou pela timidez, até certo ponto louvável, de resguardar práticas avoengas, de não cambiá-las.

Gravíssima a segunda. Desmandada e arbitrária, defensora de reformas a esmo, de mudanças pelo prazer de mudar, senão pelo desejo perverso de confundir e distorcer.

Acredito que o pensador católico de "O Desconcerto do Mundo", aqui e ali, nos seus conhecidos impulsos, houvesse criticado medidas destinadas exclusivamente a vitalizar ou complementar diretrizes conciliares. O exato é que, mil e uma vezes, peito aberto, exposto à pecha de reacionário e retrógrado, alteou a voz para conter o que considerava o lixo das novidades abusivas, capazes de conduzir à desfiguração litúrgica e ao baralhamento doutrinário. Por não ser homem de esperar sentado pelas conseqüências dessas diatribes, reintegrou-se no seu primeiro ofício, pois - leio em "A Tempo e Contratempo" (1ª ed., 1969) - iniciara a vida como fiscal de lixeiros, mais limpos de alma que os destruidores do depósito da Fé.

No seu desvelo, amargurava-se por sentir a vida espiritual intoxicada ou despedaçada pelo materialismo, tornando os católicos menos católicos. Mais indefinidos, mais frouxos, mais negligentes.

Conclui-se que repudiava as artimanhas ideológicas dos responsáveis pela "renúncia à transcendência das coisas supremas", para falar a linguagem de Paulo VI (Discurso de 7-12-1965).

Data de 1944, A Descoberta do Outro, memorial do retorno às fontes do batismo. Nele, o estilista se revela e afirma. Tristão de Ataíde, na coluna literária de "O Jornal" (Rio de Janeiro, 31-12-1944), anunciando-lhe a estréia, escreveu que o homem - a frase é do grande colunista - acabara de "arrombar as portas da literatura". No entanto, não eram essas as portas que impeliam o vir catholicus ao tirocínio da pena, e sim, da expressão do seu gosto, as portas do Reino ou da Casa do Pai, portas que acabara de transpor.

Sente-se-lhe o anseio cristão de forçá-las, de abri-las para outras almas sedentas: "Amigo - o apelo figura no livro da Descoberta - larga teu eu, tuas convicções, tua ética, teus sistemas, porque se não tens Cristo, não tens nada".

Nos artigos, nas conferências, nos livros, revela-se um apóstolo vigilante, aguerrido, heróico. A seu ver, estamos no mundo, A Tempo e Contratempo, "primordialmente, para o louvor de Deus e para erecto e vertical testemunho".

Decididamente, o autor de "Dois Amores, Duas Cidades", engenheiro que foi, não calculara bem o peso de sua primeira construção literária. Ajuizara mal do livro de estréia, sua obra mestra. Ele próprio, na introdução de "O Século do Nada", investe contra a publicação de "A Descoberta do Outro", o âmago de sua religiosidade e de sua ternura, a escala de suas idéias e de seus valores. O livro de seus livros.

Em amor e serviço, Gustavo Corção deu-se à Pátria e à Igreja, e tanto basta para exculpá-lo de asperezas e excessos.

Não nutro a veleidade daquele personagem de Camilo na Filha do Dr. Negro, romance que li ainda estudante, personagem que se jactava de possuir a tampa do poço onde supunha escondida a verdade.

No plano espiritual - Deo gratias! - não descobri o mapa, penetrei na mina; não avistei a tampa, encontrei a Verdade. Já no alvorecer dos meus dias, ouvi de Cristo: eu sou a Verdade, o Caminho, a Vida.

Tão grande a distância entre o sucedido e o sucessor, que entendi oportunas essas revelações, para destacar algo comum entre nós.

Quanto a mim, saberei valer-me, nos meus labores, da convivência com luminares neste magno Conselho de Cultura, superiormente presidido pelo Acadêmico Adonias Filho.

O emérito Presidente Ernesto Geisel, estadista à altura do momento histórico que vivemos, brindou-me com a honra deste Colegiado. Sou gratíssimo a Sua Excelência. Estendo o reconhecimento ao preclaro amigo Ministro Euro Brandão, voltado, com espírito penetrante, aos grandes problemas da educação e cultura.

Deus me ilumine para que a minha presença não turve-o prestígio e a grandeza desta Casa.

CONSELHEIRO ODYLO COSTA, FILHO - Sr. Presidente, hesitei, antes de falar. Como V. Exa., a nossa palavra não é falada. É escrita. Somos homens de jornal. Já escrevi isso sobre Gustavo Corção. Mas, não quis deixar de repeti-lo aqui, depois testemunho de Josué Montello, quanto ao episódio daquele grande escritor que procurou Corção para uma reconciliação e por ele foi recebido em lágrimas. Depois da página íntima que Dom marcos Barbosa leu, uma espécie de história de uma alma, realmente um documento de importância extraordinária, não quis deixar de trazer dois depoimentos, dois testemunhos. O primeiro é o do próprio Gustavo Corção, que apenas é bom. É de que, quando ele se encontrava na sua tarefa técnica nos ervatais, no sul do Mato Grosso. Encontrou brasileiros feitos escravos. Viu um casal cavando, com as mãos, a sepultura do filho, no meio da solidão da mata. E ele disse a si próprio: ah, se eu soubesse escrever! Ah, se eu tivesse uma coluna de jornal! Contaria isso. Corção sabia escrever. Apenas não sabia que sabia, naquela ocasião. Teria, mais tarde, uma coluna de jornal. E fez da mesma um instrumento de sinceridade total e absoluta.

E com uma arte extraordinária, que evocava a figura de Machado de Assis e, sobretudo, daqueles grandes polemistas da sua fé. Aqui se falou em Bloy. Apenas tenho uma ressalva: Bloy chamava a si próprio mendigo e ingrato. Outro depoimento é de um repórter da Editora, cuja Redação chefiei no Rio - A Editora Abril - marcadamente de esquerda, que perdera, no Vietnã, uma perna, na sua tarefa profissional. Homem extremamente inteligente. Hamilton Ribeiro. Veio ao Rio e desejou conhecer Corção, porque o filho Rogério fora, abrindo mão de qualquer convicção ideológica, de qualquer posição, de qualquer restrição que, houvesse entre a descrença de um e a fé ardente do outro. E fora com ele, quando estivera doente, no Vietnã, de uma solicitude, de um carinho e de uma compreensão humana do dever profissional, que o deixara cativo. Cativo é a palavra que Corção descobriu para dizer o aprivoiser do Pequeno Príncipe. Esse repórter estava encarregado de fazer, maliciosamente - uso o advérbio, talvez, sem malícia, eu próprio - a comparação de duas vidas; a de Alceu Amoroso Lima e a de Gustavo Corção; de visitar as duas casa e de efetuar o retrato comparativo. E eu lhe disse: não sei se é correto o que você vai fazer. Não sei se, profissionalmente, você tem direito de entrar na casa de dois homens puros, sem dizer-lhes que vai fazer isso e, depois pô-los face à face. Mas você está iludido, se pensa que vai encontrar dois homens diferentes. Eles são iguais. Essas almas têm a mesma limpidez. Partiu o repórter. De volta, declarou-me: - Não sei qual dos dois é maior. Não sei qual dos dois o mais puro. A minha mão hesita, antes de escrever. Vou procurar escrever isso, com a maior dignidade, porque acabo de encontrar dois homens absolutamente fora do comum. Acabo de encontrar dois homens. Era este, Sr. Presidente, o testemunho que queria trazer para esta sessão de saudade, em honra de Gustavo Corção.

CONSELHEIRO FRANCISCO DE ASSIS BARBOSA - Sr. presidente, em nome da Câmara de Letras, o nosso Presidente Josué Montello disse muito bem o que significou, para este Conselho e para a cultura brasileira, a figura de Gustavo Corção. Não tive o privilégio da sua convivência. No Conselho, pouco nos falávamos. Mas eu fazia questão de, todos os dias, ao chegar, cumprimentar o venerável companheiro assíduo, permanente, de uma assiduidade constante a esta Casa, embora pouco falasse, como lembrou Pedro Calmon. Foi um engenheiro, um técnico, um livre pensador que, tardiamente, se converteu à religião católica. Talvez a palavra, propriamente, não seja justa. A sua conversão foi, como se verifica, não só pelo seu grande livro A Descoberta de Outro, como pela introdução desse outro, igualmente notável, O Século do Nada, uma grande luta interior. Era um homem inteiriço. Corção não se amoldava. Era daqueles homens de antes quebrar do que torcer. Havia nele um jeito de cruzado da Idade Média. Era um pouco defasado da atualidade, segundo penso. Tenho por ele, entretanto, um grande respeito. A sua fé era inabalável. Embaixo daquela crosta da sua aparente aspereza, havia um homem terno e ameno, quase uma criança, conforme pudemos constar no comovente discurso de Dom Marcos Barbosa, uma das revelações, um dos depoimentos mais notáveis que tenho ouvido neste Conselho, pela sinceridade, pela pureza e pela maneira com que soube traçar o perfil de um homem, que também era puro intelectual. Sr. Presidente, não importam as diferenças de temperamento ou de idéias. O que importa é reconhecer, em Gustavo Corção, a sua grandeza humana. Ele foi um homem inteiriço. Diante da sua figura, acompanho todos os meus companheiros, solidário, neste momento em que evocamos uma figura singular.

CONSELHEIRO RAYMUNDO MONIZ DE ARAGÃO - Sr. Presidente, sinto-me dividido neste momento. Isto é doloroso e mau. Sei que devo, neste momento, uma palavra que traduza minha solidariedade à homenagem que se presta ao companheiro, ao amigo, ao mestre. Entretanto, falta-me ímpeto, vontade de fazê-lo, tanto me aniquila a certeza de que palavras não existem que traduzam certa nuança do seu sentimento. Por mais triste que pudesse ser o que dissesse e, até mesmo, o meu soluço, não daria pálida imagem da lágrima silenciosa, morna e cáustica que me desce pelo coração. Mas vou falar por um imperativo de justiça. Vou vencer esta fraqueza que me domina, para cumprir um dever de repor ou de trazer, pelo menos, um elemento - ficarei em determinado aspecto - no qual Corção é freqüentemente, de boa-fé, injustiçado. Quero referir-me à sua propalada intransigência. A sua posição não era, absolutamente, resultante de uma opção. Ele era aquilo que não podia de ser. Nele se implantara o conhecimento da verdade pura. Ultrapassara aquela fase da sabedoria que compadece com o ceticismo, que pode ser tolerante ou que questiona a sua própria verdade. Mas, quando ele, pela sua fé, ultrapassou esse estágio e chegou ao plano da verdade pura, só podia ser intransigente, porque a verdade pura não tem alternativa.

CONSELHEIRO GILBERTO FREYRE - Sr. Presidente, apenas uma comunicação a respeito da admirável figura, cuja memória está sendo reverenciada, neste momento, por este Conselho. É de que, na terceira reunião do mês de julho, o Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco dedicou-se à memória de Corção, falando, além do Presidente, seu companheiro nesta Casa, o Conselheiro Nilo Pereira, a quem V. Exa. acaba de se referir, citando o seu notável livro sobre os últimos cinqüenta anos da Faculdade de Direito do Recife, e o também membro da Academia Brasileira de Letras, seu colega e de tantos dos eminentes Conselheiros aqui presentes, Mauro Mota. Todos recordam a figura admirável de Gustavo Corção. Tive ocasião de reportar-me à sua constante lucidez, já em idade provecta. Isto para emendar o reparo, de todo infeliz, de S. Ema. o Sr. Cardeal Arcebispo de São Paulo, que sustentou, a propósito de Corção, atingindo-o que, de certa altura em diante, inteligência e pensamento não são válidos. Com muita oportunidade, o Conselheiro e acadêmico Mauro Mota recordou, com a tese do egrégio Cardeal-arcebispo, tese estranhíssima, sobretudo partindo de alguém com uma formação franciscana e, portanto, com resquícios normalistas, muito a propósito, que, de idade mais provecta do que a de Gustavo Corção, nos seus últimos notáveis anos de polemista, de pensador, de místico e de lutador pela cauda católica, foi aquele admirável Leão XIII, que chegou aos 90 anos, sempre lúcido e sempre admirável, na sua defesa da causa católica. Era a comunicação que queria fazer.

CONSELHEIRO DJACIR MENEZES - Sr. Presidente, para maior plenitude de vozes entoadas nesta saudade coletiva, creio que se faz necessária, também, a voz de um recalcitrante cristão, que não se considera, ainda, dentro do âmbito católico e que persiste em teses que eram radicalmente condenadas pelo companheiro de Conselho que sentava ao seu lado. É, assim, uma voz fora do compasso de um ambiente que celebra as virtudes altamente católicas de um Gustavo Corção. D. Marcos Barbosa sabe muito bem que foi, justamente, essa sinceridade de dizer sempre a Corção a minha incredulidade, muitas vezes numa atitude herética, que vem desde os 20 anos, a base da estima que tive por ele. E isso - creio - foi recíproco, porque o que o conquistava mesmo era essa lealdade. Encontramo-nos, trinta e tantos anos atrás, na Livraria Agir, por mera casualidade. Entrara e estava debruçado no balcão, vendo uns livros. Do lado oposto, outro também remexia na livralhada, quando alguém diz lá do fundo da Livraria: - Dr. Corção, a sua encomenda chegou. Então, passo a ter mais atenção para aquele que estava à minha frente. O senhor é Gustavo Corção? Sou - disse. E você quem é? Daí nasceu nossa amizade.

Como ele estivesse com a família em Petrópolis e eu com a minha no Ceará, ficamos conversando em sua casa, depois de jantar que parasitara dele, até quase três horas da madrugada. Ele num esforço catequético. Eu quase sempre arradio. Uma vez, disse-lhe que até tinha medo de converter-me. Pedi para não insistir muito. Continuamos assim pela vida afora. Creio que dois fatos alicerçaram nossa amizade. Esse o fundamental. O outro foi uma gloriosa vaia que recebi, num ato de formatura da Faculdade de Ciências Econômicas, da qual era Diretor. A vaia nascia de uma exploração esquerdista tremenda. No outro dia, todos os jornais noticiaram: "Deposto, sob vaias na formatura, o Diretor Djacir Menezes". Todos os jornais foram unânime nessa opinião. Eu era, apenas, uma Diretor ad hoc, graças à simpatia pelas minhas atitudes do Reitor Moniz de Aragão. Escrevi uma nota, retificando que não tinha sido deposto, mas somente, vaiado, e já no fim da colação, porque estavam insultando as autoridades principais da República. Nenhum jornal publicou essa ratificação. De um deles, fui pessoalmente à Redação. Suprimiram tudo. A sub-estrutura agia muito certeiramente. Encontro Corção na rua. E ele diz: - Que história foi aquela da vaia? Respondi: - Está aqui. Resumi tudo em sete itens, retificando e ninguém publica". Ele botou no bolso. Dois dias depois, havia resposta. No tempo existia uma crônica diária no Diário de Notícias. Não vou reproduzi-la, porque há um ataque a um patrono que já desapareceu do meio dos livros. E ele atacava também, solidário comigo. No fim da transcrição, dizia: "Por ser verdade, dou fé. Gustavo Corção". Foi o único jornalista que abriu espaço à defesa daquela atitude que eu tomara. De maneira que, da parte de Corção, encontrei uma compreensão extraordinária. Capaz de ouvir um pensamento que lhe era desagradável, muitas vezes, ele dizia, na cara, o que também pensava. Tivemos essa cordialidade até sua morte. É isso, Sr. Presidente, que quero acentuar, porque o que admirei, profundamente, em Corção foi essa extraordinária coragem moral de dizer o que pensava, nem que diante dele se levantasse toda uma congregação de bispos, como ocorreu certa altura da vida. Dessa coragem raríssima, ele era o mais alto exemplo, aliada a uma convicção, pois todos sabem que era profundamente cristão. Não é possível, diante disso, deixar de render o mais profundo preito, vindo do mais profundo do coração.

CONSELHEIRO JOSÉ CÂNCIDO DE MELLO CARVALHO - Sr. Presidente, participo, com muita emoção, das homenagens aqui prestadas ao nosso eminente Gustavo Corção. Adiciono, aos comentários aqui feitos, que era um grande conhecedor do interior do nosso País. Poucas vezes conversamos a respeito. Mas, nessas poucas vezes, pelas suas andanças, em épocas remotas, antes do avião, das estradas asfaltadas e do automóvel, às vezes em lombo de burro, em condições não boas, senti seu entusiasmo pelo interior do Brasil. Sabedor das suas qualidades como astrônomo, quando fui ao seu enterro, lembrei-me de que talvez aquelas milhões de estrelas que sempre contemplou no céu, no interior do País, onde o céu é extremamente claro e visível, o tivessem levado ao Criador, contribuindo para uma conversão que ele soube relatar de maneira tão brilhante sentimental. Numa das últimas reuniões em que fui cumprimentá-lo, ao apertar-lhe a mão, disse-me ele: "Por este aspecto de mão, deixo você meu amigo". Realmente, era um dos meus grandes amigos, a quem sempre admirei e respeitei.

CONSELHEIRO VIANNA MOOG - Sr. Presidente, nas últimas sessões sempre prestava muita atenção, quando Gustavo Corção se retirava do recinto. Usando a bengala como Corção, saía. Encontrávamo-nos já no elevador, lá embaixo. Ele continuava seu caminho. E eu dizia, de mim para mim, que o nosso ancião Gustavo Corção não ia longe. Mas, não sabia para onde ele ia. Depois, chegou aqui a notícia de sua morte. Vi-o, nitidamente, subindo o alto de uma montanha, tirar o gorro espanhol com que se cobria, sacudir o pó das sandálias, dos caminhos que percorreu, e, antes que chegasse à escada de Jacó, murmurar para a poeira que levantara: É de ouro esse pó e é de luz esta estrada. Essa é a vida de Corção. Assim o vejo e assim o quero reter, pelo tempo dos tempos. Muito obrigado.

(Nota taquigráficas da sessão plenária de 7. 8. 1978)



Fonte: FREYRE, Gilberto et alii. A memória de Gustavo Corção. Boletim do Conselho Federal de Cultura. Rio de Janeiro, a. 8, n. 32, p. 9-33, jul./set. 1978.

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