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CARNAVAL: DE ONDE VEIO? COMO ERA? COMO EVOLUIU?


Na origem, orgias, abuso do vinho, explosões dos oprimidos contra os dominadores.

Suas origens se perdem no tempo - antigos ritos pagãos relacionados com a fecundidade ou com a colheita, o culto de Baco, as festas dos inocentes na Idade Média. E durante um longo período a Igreja Católica manteve uma posição comprovadamente ambigua com relação ao carnaval.

As origens dos modernos carnavais - no Brasil os mais característicos são o do Rio e o do Recife; na Europa, o de Veneza e o de Munique; nos Estados Unidos, o de Nova Orleans - o pesquisador vai encontrá-las em sociedades antigas - danças, cantos, orgias, abuso do vinho, explosões de oprimidos contra dominadores, o culto de Dionísio e seus equivalentes, fantasias, máscaras - e até em várias das primitivas. Em danças e cantos eróticos, máscaras simbólicas, euforias ligadas a cultos mais ou menos religiosos, que, nessa sociedade, caracterizam festivais que, sem deixarem de ser religiosos, são lúdicos e, por vezes, lúbricos.

Raras entre essas expressões eróticas, libertinas, caricaturais, aquelas que não se exprimem em símbolos e, sobretudo, em ritmos que as diferenciem de outras expressões gregárias em que se juntem a danças, cantos e até orgias. Daí os carnavais poderem ser incluídos em estudos como que psico-sociais de ritmos de dança comuns a várias culturas e a diversos tempos sociais: estudos em que se vêm especializando psicólogos sociais dos nossos dias. Um deles, o professor Sargant, de Londres.

Havia carnaval até nas igrejas.

O professor Sargant esteve há poucos anos no Brasil e, com um colega brasileiro, co-autor deste ensaio, observou atentamente os ritmos de danças de xangôs do Recife, alguns dos quais semelhantes aos que, na mesma cidade, animam danças entre dionisíacas e, nas suas origens, religiosas, de entidades carnavalescas. Entre essas entidades, os afro-brasileiros maracatus; uma peculiaridade do carnaval do Recife. Pareceram a Sargant tais ritmos incluir entre alguns dos mais antigos que já têm sido estudados: projeções modernas de ritmos antigos. Noutra entidade carnavalesca do carnaval do Recife - a dos Caboclinhos - os ritmos seriam projeções modernas ligadas a danças e cantos ameríndios do Nordeste brasileiro. Enquanto no carnaval que deu fama à antiga praça Onze, do Rio de Janeiro, os ritmos, as danças e cantos seriam afro-brasileiros, com a presença negra bastante acentuada, embora não exclusiva. E na mesma categoria estariam os sambas brasileiros, de presença tão viva no carnaval carioca: hoje uma espécie de carnaval imperialista que estaria se projetando, através das chamadas escolas de samba, e é claro, sem os brilhos ou esplendores cariocas, em várias partes do Brasil. Inclusive, atingindo a própria cidade do Recife, reduto único no Brasil não só dos já mencionados maracatus como do denominado frevo.

Antes, recorde-se, que festas grecoromanas semelhantes ao carnaval vamos encontrar muitas delas perdidas no tempo, quase sempre relacionadas com a fecundidade ou com a colheita. Outras, semipagãs ou até mesmo pagãs no seu todo as comemorações à deusa Ísis no Egito e à deusa Herta entre os teutões, as bacanais, as lupercais e as saturnais romanas no seu maior esplendor, os festejos em honra a Dionísio na Grécia, as festas dos inocentes e dos doidos da Idade Média - constituem provas de que eram muito apreciadas na antigüidade clássica e até mesmo pré-clássica, com suas danças, suas licenciosidades, suas máscaras, suas músicas ruidosas alegres na sua maioria, algumas são características conservadas até hoje. O carnaval - "primitivamente designativo da terça-feira gorda, tempo a partir do qual a Igreja católica suprime o uso da carne", conforme Antenor Nascente - surgiu com a propagação do cristianismo e por força do seu calendário litúrgico. A posição da Igreja Católica Apostólica Romana em relação ao carnaval, foi, inicialmente, de uma ambigüidade mais que comprovada. O papa Paulo II, no século 15, permitiu que, na via Látea, bem próxima ao seu palácio, se realizasse o carnaval romano, com suas corridas de cavalos e corcundas, com seus carros alegóricos e lançamento de ovos, com o local feericamente iluminado por velas, introduzindo, como contribuição de sua inventiva, o baile de máscaras que fez tanto sucesso como continua fazendo agora. O papa Paulo IV chegou a convidar o Sacro Colégio para um jantar festivo; O papa Júlio III gostava mais de touradas. Já Tertuliano, São Cipriano, São Clemente de Alexandria e Inocêncio II, sempre foram contra a participação da Igreja nos festejos carnavalescos. O papa Inocêncio III, constatando o excesso de abusos, proibiu o uso de máscara pelos padres e o festejo do carnaval dentro das Igrejas. Em conseqüência de tais proibições o carnaval perdeu seu antigo brilho, só conseguindo ressurgir, com a mesma impetuosidade, algum tempo depois, antes da Revolução Francesa e durante o Império napoleônico, quando se espalhou pelo mundo todo.

Pode-se dizer que a sociologia do carnaval brasileiro, como a sua história, exige que sejam consideradas as principais expressões regionais do mesmo carnaval, que não poderiam deixar de ocorrer num país cuja cultura é ao mesmo tempo una - nacionalmente una - e diversa, regionalmente diversa.

Trazido para o Brasil pelo português, o carnaval foi conhecido inicialmente como entrudo, intróito ou introdução. Embora proibido por lei, devido aos abusos, era apreciado por d. Pedro I e d. Pedro II.

No século 16, o alegre entrudo.

Como resultado de observações feitas naquela e noutras áreas do extremo Sul, em rápida excursão que um dos autores deste ensaio fez, em 1940, ao Rio Grande do Sul e a Santa Catarina, sugeriu, em artigo publicado no Correio da Manhã, a importância do estudo sociológico das danças brasileiras do carnaval - como um meio de possível caracterização da geografia psicossocial do Brasil: da sua divisão em regiões, por sua vez subdivididas em áreas ou configurações de cultura, que seriam de valor científico e nos atrevemos a dizer, de interesse prático, para orientação não só da psicologia a serviço da educação e da orientação profissional, mas de psiquiatras e administradores, industriais e comerciantes.

Como não poderia deixar de ser, o carnaval chegou ao Brasil por intermédio do português, colonizador, de quem herdamos hábitos, costumes e tradições. Era anteriormente conhecido como entrudo, intróito, introdução, desde 1595, compreendendo os três dias que precedem a quarta-feira de cinzas, período em que, até os nossos dias, pobres e ricos, velhos e moços, homens e mulheres, pretos e brancos, esquecem as diferenças de ordem social e econômica existentes nos outros dias do ano, para uma dedicação total aos festejos carnavalescos. Henry Koster no seu Viagem ao Nordeste do Brasil nos fala do poder que sempre teve o entrudo ou carnaval de nivelar, durante quatro dias, as classes sócio-econômicas, poder que apenas o futebol tem um pouquinho. Observou o ilustre viajante que a alegria do entrudo se estendia também pelo interior de Pernambuco, até mesmo nas senzalas e casas grandes dos engenhos, nivelando amos e servos na alegria igualitária do entrudo.

Guerra de ovos podres, fuligem, farinha de trigo. Era o entrudo. Acabou proibido.

Entusiasmo e. . . muita água.

Os excessos do entrudo motivaram proibições. Portarias, alvarás, decretos, proibiram, durante certo tempo, os festejos do entrudo. A coisa era violenta, mesmo. Banhos, ovos podres, fuligem, goma, farinha de trigo, eram as armas usadas por ricos e pobres, nobres e plebeus, em verdadeiras guerras entre famílias, entre ruas. O historiador e folclorista Luís da Câmara Cascudo conta que Dom Pedro II, num entrudo animado, acabou molhado como um pinto, dentro de um tanque cheio d'água. O arquiteto Grandjean de Montigny morreu, em 1850, de uma pleurisia apanhada num entrudo animado do qual participou, com muita bisnaga (que antecedeu o lança-perfume, somente aparecido em 1885), muita lima de cheiro, muita água. Em 1854, a polícia proibiu a realização dos festejos do entrudo no Rio de Janeiro, tamanho era o entusiasmo e o abuso dos foliões. Retratando a época, D. P. Kidder e J. C. Fletcher, dois metodistas norte-americanos que estiveram no Brasil no período compreendido entre 1836-1842 e 1851-1865, respectivamente, em Brazil and Brazilians, assim comentaram os festejos do entrudo: "O entrudo, que corresponde ao carnaval da Itália, estende-se por três dias antes da quaresma e é geralmente considerado pelo povo como uma visível determinação para compensar, por meio de divertimento, o longo retiro que irão guardar na quaresma. O entrudo, entretanto, não é mais celebrado como quando estive pela primeira vez no Rio de Janeiro. Não era com chuva de confeitos que as pessoas se saudavam nos dias do entrudo, mas com chuveiros de laranjas e ovos, cheios d'água. Esses artigos são preparados antes em grande quantidade e expostos à venda nas lojas e nas ruas. A casca era forte bastante para permitir que fosse lançada a grande distância, mas no momento do choque, fazia-se em pedaços, espalhando água por onde caísse.

Diferentemente de qualquer brincadeira análoga de bolas de neves, nos países frios, esse jogo não se limitava às crianças ou às ruas mas era feito na alta roda, tanto quanto na classe inferior, fora e dentro de casa. O consenso geral parecia permitir que cada um se divertisse à vontade, molhando o próximo, quer quando uma visita entrava em casa, quer quanto o transeunte passava pela rua. De fato, todo aquele que saísse nesses dias experimentava uma ducha, e achava melhor levar consigo um guarda-chuva, pois no entusiasmo da brincadeira as bolas de cera logo se consumiam e seguiam-se-lhes as seringas de brinquedo, bacias, tigelas e, às vezes mesmo, baldes de água, que eram usados sem piedade, até que ambos os partidos ficassem totalmente ensopados. Os homens e as mulheres lutavam entre si, nas varandas e janelas, das quais não só combatiam uns aos outros como também os transeuntes. Tão grandes realmente eram os excessos que provinham desse brinquedo, que foi proibido por lei.

Mas era bem visto no Paço e . . .

Os magistrados dos diferentes distritos formalmente se declaravam de ano para ano contra o entrudo, porém com pouco efeito até 1854, quando um novo chefe de polícia, com grande energia, pôs fim ao violento entrudo, seus combates e duchas. O entrudo agora se realiza de um modo seco, porém ainda divertido, no estilo de Paris e Roma. Mas, passados poucos anos, o entrudo voltava a gozar da mesma liberalidade de antes. Machado de Assis em Crônica da Semana de 4 de fevereiro de 1894 já protesta contra a proibição dos festejos, salientando que "no dia em que o rei Momo for de todo exilado deste mundo, o mundo acaba, porque - continua o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas - rir não é só le propre de l'homme, é ainda uma necessidade dele". Apesar das "nossas posturas municipais, aí estão para a prova os alvarás e avisos de 31 de janeiro e 13 de fevereiro de 1604, 17 de maio de 1812, 25 de dezembro de 1608, 24 de fevereiro e 22 de outubro de 1686, 20 de setembro de 1961, 6 e 20 de fevereiro de 1734, e o edital de Polícia de 25 de fevereiro de 1808 - mencionadas por Vieira Fazenda em Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro - o entrudo saiu vencedor em todas as batalhas porque "o primeiro imperador (dom Pedro I), dizem, era louco por essa brincadeira. O segundo (dom Pedro II), seguiu-lhe as pegadas, e conforme conta o dr. Rafard em seu trabalho Pessoas e Coisas do Brasil, o Paço de São Cristóvão tornava-se teatro de lutas, em que tomavam parte o jovem soberano, seus camaristas e suas augustas irmãs.

Flagrante do carnaval carioca de 1923. A partir de 1900, os cordões começaram a fazer sucesso; entre 1906 e 1911, surgiram os ranchos - cordões mais completos, que incluíam a participação feminina.

O "Zé Pereira" se naturaliza.

A partir de 1846, uma novidade veio colorir ainda mais os festejos carnavalescos: o Zé Pereira (o tocador de bombo). Ninguém sabe ao certo as origens do Zé Pereira, que se apresentava sempre às 20 horas do Sábado, montado num cavalo todo enfeitado, usando, como máscara, uma cabeleira enorme, completa, com muito foguetório, ao som de sua música característica:

Viva Zé Pereira
Que a ninguém faz mal!
Viva Zé Pereira
Nos dias de carnaval!
Viva Zé!
Viva Zé!
Viva Zé Pereira!

Mas Vieira Fazenda e outros estudiosos do assunto, garantem que Zé Pereira era o cidadão português José Nogueira de Azevedo Paredes - "miguelista intransigente que andou nas bernadas de Maria da Fonte e da Patuléia" - e que, traduzido em brasileiro, virou cidadão carioca e, depois, nacional.

Batalha de confete, no princípio do século, na praia de Botafogo. O corso em Fords de bigode, as serpentinas, os lança-perfumes e as fantasias estiveram muito em voga, também no Recife e em Salvador.

Um carnaval cívico, político.

Nos fins do século 19 e até mesmo nos começos do século 20 - época em que os festejos carnavalescos não estavam ainda, como hoje, tão regionalmente caracterizados - era freqüente, nos dias consagrados ao entrudo, a apresentação dos mais diversos folguedos populares como o pastoril, o fandango, o bumba-meu-boi e a cavalhada. A cavalhada, jogo popular que pouca gente conhece porque ficou inteiramente esquecido, contava com a participação de jovens filhos de senhores de engenho que, galopando bonitos cavalos coloridamente enfeitados, procuravam, com a lança com que estavam armados, acertar as argolas amarradas por laços de fita em cordas estendidas de um lado ao outro das ruas onde se realizava a função. Os vencedores ofereciam as argolas conquistadas às senhoras ou às donzelas que queriam homenagear, tudo ao som de bandas de música e ao estrepitar de foguetes-de-ar.

No Rio de Janeiro o desfile dos carros alegóricos começou, ao que tudo indica, em 1885, quando surgiu o Congresso das Sumidades Carnavalescas, seguido, conforme Melo Morais Filho, de outras associações como a União Veneziana, os Zuavos Carnavalescos e a Euterpe Comercial que deram origem aos Tenentes do Diabo. Os bailes do entrudo, animados pelas bandas de música tocando polcas, valsas, quadrilhas, cake-waldk, tomaram conta do Rio de Janeiro, como o que se realizou. Em 1840, no Hotel de Itália, por iniciativa da esposa do hoteleiro, uma italiana, seguido de muitos outros como o da Sociedade Recreativa Constante Polca, o do Teatro São Januário, promovido pela artística Clara Dalmastro, em 1846 e o do Imperial Teatro D. Pedro II, em 1879.

No Recife, um dos autores deste ensaio registra, em Dona Sinhá e Seu Filho Padre, os festejos do Clube Carnavalesco Cavalheiros da Época, clube que animou o carnaval pernambucano durante muitos anos e que, em 1889 fez o carnaval da Abolição, tendo ante, em 1888, feito quase uma revolução, um carnaval cívico, político, contra os barões, contra os escravocratas, contra o governo. Carnavais que eram veículos de política misturado com música, papangus e filhós:

Papangu! Bolão de Angu! Me dá farinha pra fazer beiju!

O préstito do Cavalheiros da Época em 1889, no Recife, segundo os jornais de então, comenta o autor de Casa Grande & Senzala, começou com o estandarte do clube conduzido por três sócios de casaca e luvas, que pareciam com ministros de Estado. Logo em segundo lugar desfilou o carro alegórico chamado Opressão dos Cativos: "dois fazendeiros escravagistas com duas vítimas do seu ignóbil comércio", muito bonito e que arrancou até lágrimas à sua passagem pela rua Nova. A terceira carruagem fora Todos Somos Iguais, Depois da Lei de 13 de Maio: "um grupo crítico de dois fazendeiros e dois libertos, que em completa familiaridade esquecem os sórdidos preconceitos sociais".

A quarta: Os Futuros Representantes do Brasil, um grupo crítico de dois negros luxuosamente vestidos, expressando pelas fisionomias pretensiosas aptidão para grandes reformas". Na sétima e última carruagem, depois da quinta, em que "dois eminentes vultos políticos observam - informava o jornal - o futuro do Império Nacional por dois óculos" e na sexta: "uma alegoria representando a República". A sétima e última se intitulava ironicamente: Igualdade, Liberdade, Fraternidade . . . de Conveniência!: um grupo crítico de três indivíduos republicanos mestiços - figurando um bacharel, um quintanista e um funcionário público!"

Em Pernambuco, o maracatu.

"O maracatu - dança de negro, música de negro, abrasileiradas - é uma representação dramática das cortes africanas, agora na nova terra, e com o passar dos anos, conservando a tradição num simulacro de grandeza, recebendo influência do catolicismo, num sincretismo muito comum nas relações religiosas do negro no Brasil - comenta o estudioso de assuntos brasileiros Hermilo Borba Filho - começa a ganhar maior participação no carnaval pernambucano a partir dos primórdios do século 18".

O poeta Ascenço Pereira descreve sua formação: "Na frente vai um baliza, cuja função é a de abrir alas para a passagem do cortejo. Nos maracatus antigos, o rei e a rainha marchavam cheios de dignidade, abrigados por um chapéu de sol sempre em movimento, talvez para significar que a terra gira . . Esse chapéu de sol tinha no mínimo três cores e era adornado com franjas, ou rendas, bem como todo circulado de espelhos que luziam ao sol. No alto do cavo desse chapéu, ostentava-se uma bola de aljôfar colorido ou um crescente de lua, como ainda se pode observar no cortejo do Maracatu Elefante, em plena função nos dias atuais. Em torno do séquito real, giravam as baianas, trajadas de saia branca e cabeção de rendas da mesma cor, duas das quais conduziam dois bonecos, um do sexo masculino (príncipe d. Henrique) e outro do sexo feminino (princesa d. Clara), os quais serviam para receber as espórtulas. Atrás seguia a orquestra típica de zabumbas, bombos e gonguês. O atirador de loas, conduzindo uma corneta de flandres para dar maior ressonância aos cantos, marchava entre a orquestra e o grupo de dançarinas. Na frente do pátio real ia ainda o embaixador conduzindo a bandeira, ladeado por duas figuras de índios brasileiros, vestidos de penas e cocares, talvez numa homenagem aos nativos da terra ou alusão aos preamentos outrora realizados pelos negros a serviço dos conquistadores". Registra Ascenço Ferreira a presença do maracatu na região canavieira de Pernambuco, principalmente em Palmares, onde o poeta nasceu e viveu grande parte de sua vida. Fala dos senhores-de-engenho que participavam do folguedo, como Walfrido Pé de Cabra (Walfrido Corte Real de Souza), tipo clássico do senhor-de-engenho, "que se apeava do pedestal do seu cavalo para ombrear-se gostosamente com todos os cabras de palmares nos seus folguedos, o que não acontecia com outros senhores-de-engenho e usineiros da região que, enquanto seus filhos tomavam parte na brincadeira, às escondidas, repudiavam o maracatu como coisa de negros encachaçados, chegando até a perseguir os seus participantes, como foi o caso de conhecidíssimo senhor-de-engenho de Pernambuco que, investido de poderes policiais, mandou prender o maracatu de um lugarejo próximo, obrigando o pessoal a trabalhar no eito, depois de haver espatifado os zabumbas e ganzás a golpes de facão. O tirador de loa do maracatu não perdeu a voz e largou:

Baiana, se eu fosse como tu.
Lá no Serra Azul
Eu não ia mais . . .
Sê presa do gunverno, baiana
E alimpá cana
C'a poliça atrás . . .

Até 1966, segundo Katarina Real - estudiosa norte-americana do carnaval brasileiro - existiam no Recife cinco agremiações que podiam ser consideradas como maracatus-nações. Deste cinco grupos, somente três eram descendentes de nações africanas. Os outros dois podiam ser classificados como maracatus híbridos, porque foram fundados como maracatus-de-orquestra e mais tarde modificaram suas estruturas e apresentações carnavalescas. As três nações africanas legítimas eram o Leão Coroado fundado em 1863, e Estrela Brilhante de Igaraçu, fundado em 1910 e o Elefante, fundado em 1800, e que não existe mais, desde 1962, quando morreu Dona Santa, sua rainha, sendo todo o seu acervo doado ao Museu Antropológico do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, do Recife, Os maracatus híbridos eram o Indiano e o Cambinda Estrela. No interior, temos o Dois de Ouro de Olinda e o outro Dois de Ouro de Jaboatão.

Os mascarados, os fandangos, as cavalhadas, os pastoris, os banhos com água ou com limas de cheiro, os carros alegóricos ricamente ornamentados, e as bandas de música, começaram a fazer, na década de 80, o carnaval de rua - que é o verdadeiro carnaval - com as famílias enfeitando a fachada de suas casas e até mesmo se cotizando para decorar suas ruas.

Bloco das Mimosas Democráticas, comemorando a entrada de 1923. Dos inúmeros blocos carnavalescos surgidos na segunda metade do século passado, no Rio de Janeiro, alguns existem até hoje.

Já se dançava até o amanhecer.

Em 1887 umas cem ou quase cem agremiações (clubes, blocos, troças, fandangos, pastoris etc.) animavam o carnaval recifense, lideradas pelo Cavalheiros da Época e pelo Clube 33.

Os bailes carnavalescos eram realizados, religiosamente, no Teatro Santa Isabel, no Cassino Popular da rua da Praia, no Clube Pernambucano e no Clube do Recife, freqüentados pela alta sociedade da época. Mas, como o espírito carnavalesco do recifense sempre dominou todas as camadas sociais, cada bairro tinha seus bailes também animadíssimos, realizados na sede dos clubes mais modestos. Mesmo nas residências dos foliões mais entusiastas dançava-se até o dia amanhecer. A partir do começo do século, o carnaval recifense foi se modificando.

Certos folguedos populares, já gastos na lembrança do povo, foram sendo esquecidos, como a cavalhada, o bumba-meu-boi, o pastoril etc., esquecidos ou transferidos seus festejos para outros meses do ano, caracterizando, assim, ainda mais, com nuances puramente carnavalescas, o carnaval, com seus quatro dias consagrados à alegria, ao canto, à música, à dança.

O corso - que ainda existe, mas sem a graça de antigamente quando os automóveis tinham capotas de pano que podiam ser arriadas ou removidas -, as batalhas de confete, as serpentinas de todas as cores, os lança-perfumes, as fantasias de arlequins, de colombinas, de pierrôs, de baianas, de piratas, as famílias residentes nos sobrados da rua Nova e da rua da Imperatriz jogando jetons nos chevrolets, nos fords de bigode, nos essexes barulhentos, os blocos de rua, os banhos com água de lima de cheiro, os ursos, os maracatus, as troças, os caboclinhos, os clubes, foram desde a década de 20, as legítimas e populares manifestações do carnaval recifense, manifestações que também se fizeram sentir nas mais importantes cidades do interior pernambucano.

Em 1907, batalha de confete diante do Regatas, em Botafogo. Na lenta substituição do entrudo pelos bailes particulares, a escola de samba tornou-se quase que a única manifestação de carnaval popular.

Na Bahia, em 1840, era proibido tocar depois das 9 da noite. Sossego público.

Uma receita simples: o frevo.

Troças como Pão Duro (1916), Amantes das Flores (1919), Cachorro do Homem Miúdo (1910), Estrela Tarde (1963), Tubarão do Pina (1932), integradas por elementos pertencentes à classe considerada pobre; blocos como Batutas de São José (1932), Flor de Lira (1930); Vassourinha (1889), Inocentes do Rosarinho (1926), Pitombeira dos Quatro Cantos e Elefante, os dois últimos da cidade de Olinda; maracatus, como Estrela Brilhante, Leão Coroado, Indiano, Cambinda Estrela e Dois de Ouro; caboclinhos, como Tabajaras em Folia, Tupis, Tupinambás; ursos, como Cabeça Lesa, Come Rama, Aliado, Mimoso da Mustardinha; bois, como Boi da Cara Preta, Boi Mimoso, Boi Misterioso; turmas, como, Cavalo do Pina, Morto Carregando o Vivo, reuniam e ainda hoje continuam a reunir os foliões recifenses, cada qual com suas características próprias, com suas bandas formadas por instrumentos de percussão, de metal ou cordas, alguns universais como o trombone de vara, a requinta, a clarineta, o bombo, outros, nacionais ou regionais como o reco-reco, o ganzá, o chocalho, o apito, tudo muito bem regado com bate-bate de maracujá, cachaça da verdadeira ou louras suadas, mas todos dominados pela música estonteante do frevo. E o frevo? A receita do frevo, inventada ninguém sabe por quem, é muito simples: um pouco de marcha, de polca e um bocado de dobrado, em compasso binário ou quaternário, trombones de vara, requintas, clarinetas, surdos, clarins saxofones, tubas, taróis.

Na frente, com um guarda-sol, o passista, talvez recordando um capoeira, dançando. Aí está o frevo, tradicionalmente pernambucano, tão pernambucano como Joaquim Nabuco ou José Mariano, de ferver, na sua corruptela popular frevê, batizado pelo jornalista recifense Osvaldo da Silva Almeida Lisboa, em 1907 e que imortalizou, na lembrança do povo, Nelson Ferreira, Capiba, Levino Ferreira, Zumba, autênticos campeões do frevo, frevo-ventania, frevo-coqueiro ou frevo-abafo, com suas raízes ciganas, parentes da raspa portuguesa, na opinião de Guerra Peixe.

Em Salvador, da Bahia, o entrudo também reinou até 1840, quando se começou a falar de carnaval, significando baile realizado em recinto privado como o do Recreio, cujo ingresso só era permitido às pessoas munidas dos respectivos convites. Naquela época os mascarados tinha que pagar uma licença à polícia. Os barbeiros - pequenos grupos musicais integrados por homens de cor, e supostamente tocadores de oitiva e que sempre estavam presentes às festas populares e funções em recintos fechados nem sempre bem afamados, segundo Hildegardes Viana - não podiam tocar depois das nove da noite. Também eram proibidos pelas posturas municipais; batuques, vozerios e alaridos que perturbassem o sossego público. Durante o dia apareciam os ioiôs - uma engenhosa improvisação em que com uma anágua, uma peneira, um cabo de vassoura e um paletó velho, qualquer pessoa poderia se tornar irreconhecível - que só desapareceram depois de 1930.

"O registro photográphico não poderia corresponder à espetaculosa e barulhenta realidade da festa. O banho mascarado no Flamengo foi a melhor risada alvissareira do irrequieto Domingo Magro" (1923).

Alegria e pressa: trio elétrico.

Ficaram conhecidos como excelentes os bailes do Bando Anunciador e do Teatro São João, preparados com um ano de antecedência. Começaram, assim, a surgir as primeiras agremiações carnavalescas: o Cavalheiros da Noite que se exibia nos salões do Teatro São Pedro de Alcântara, o Comilões, o Euterpe, o Engenheiros, o Ioiô Já Começa, animados ao som de boas orquestras executando polcas ou polacas que eram a coqueluche da época.

O carnaval baiano de hoje vive seus grandes dias, os melhores, com o corso na rua Chile, na praça Castro Alves e na avenida Sete, com seus bailes no Yatch, na Associação dos Espanhóis, no Clube Português, com as ruas cheias de gente, com os cordões de afochês, turmas de mascarados, blocos, escolas de samba e, agora, caracterizado pelo trio elétrico, contagiante, dominando o povo nas ruas.

O trio elétrico não é uma manifestação carnavalesca atual, apesar de só agora, aliado à tecnologia e à eletrônica ter conseguido aumentar consideravelmente o seu poder de comunicar alegria durante os dias consagrados a Momo. Trata-se de uma adaptação do antigo carro alegórico, desta feita instalado num caminhão ricamente enfeitado, iluminado feericamente, provido de um potente serviço de som acoplado a alto-falantes de longo alcance. Enquanto o bloco tradicional leva quase uma tarde para poder chegar às ruas principais de Salvador, usando um só itinerário, o trio elétrico tem a vantagem de fazer o itinerário que quiser, estando presente em todas as ruas da cidade, espalhando alegria.

Por que o nome trio elétrico, se, logo quando apareceu, não era motorizado e nem se servia de eletricidade para desempenhar sua função de comunicar alegria? Intregrado, no início, por três pessoas executando três instrumentos entre os quais o bandolinista Omar, residente no bairro de Itapagipe, perto da Montanha Sagrada onde fica situada a igreja do Senhor do Bonfim, o vocábulo não tinha nenhuma relação com a eletricidade e sim dizia respeito à música ligeira, apressada, provocando verdadeiros choques rítmicos entre os que se deixavam dominar pela magia do seu som eletrizantes.

Baile no teatro Carlos Gomes. Os bailes do entrudo tomaram conta do Rio a partir de 1840. No Recife, os clubes eram reservados apenas à alta sociedade, mas também se dançava nas casas de família.

Em 1954, os bailes cariocas.

Os trios elétricos, como acontecia e ainda acontece com os carros alegóricos de todas as épocas, são uma crítica ou uma louvação a fatos, idéias e pessoas. Em 1960, um trio elétrico de Salvador desfilou motivado na viagem do homem à Lua.

Executando, em ritmo eletrizante, sambas, marchas, frevos que foram sucessos no passado bem como as músicas do ano, os trios elétricos - o Saborosa, o Tapajós, o Jacaré e tantos outros - são uma constante característica do carnaval baiano. Sua música animada é um convite à alegria:

Atrás do trio elétrico Só não vai quem já morreu.

No Rio de Janeiro, o carnaval moderno, como festa máxima do povo brasileiro, substitui, em parte, o entrudo, como acontece no Recife, em Salvador e demais capitais brasileiras. Mas que ainda persiste em todo ou em parte, o carnaval do Zé Pereira, seguido por bailes realizados nos salões de sociedades recreativas que começaram a aparecer em 1954; e que hoje substituem, em grande parte, o antigo carnaval de rua. Substituição que se vem verificando por etapas, gradualmente.

Rio: clubes, blocos e cordões.

O romancista José de Alencar publicou, no Correio Mercantil, edição de 14 de janeiro de 1855, uma crônica sobre o primeiro clube carnavalesco fundado no Rio de Janeiro: o Congresso das Sumidades Carnavalescas, contando com 70 sócios, "todas pessoas de boa companhia", inclusive o próprio José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Pinheiro Guimarães, Ramon de Azevedo e outros. Melo Morais Filho nos conta como aconteceu o primeiro desfile - ou passeata como se dizia na época - que foi assistido, no paço da cidade, por S M o imperador, a imperatriz e suas filhas. Desfile aberto pela banda marcial do Congresso das Sumidades, vestida com o pitoresco uniforme dos cossacos da Ucrânia, seguida por um carro conduzindo Dom Quixote, caleches puxadas por bonitos cavalos, grupos históricos, caleches com bailarinas, mandarins, Fernando, o Católico, o duque de Guise, Benevenuto, nobres do Cáucaso, grupos a cavalo.

O sucesso foi total e os jornais noticiavam a transformação, das maiores, sofrida pelo carnaval carioca, comparado apenas ao de Nice, Veneza e Roma:

Tempos novos surgiram, usanças
Caprichosas quem busca seguir?
Do progresso os mandados ouvir
Sabe quem quer avante marchar

cantavam os acompanhantes do préstito do Congresso das Sumidades Carnavalescas. Depois do sucesso do Congresso das Sumidades apareceram, nos anos seguintes, outras sociedades carnavalescas como a União Veneziana, a Euterpe Comercial, o Zuavos Carnavalescos, o Tenentes do Diabo, o Fenianos (1869), o Congresso dos Fenianos, o Clube dos Democráticos, o Estudantes de Heidelberg, o Acadêmicos de Joanisberg, o Clube X - o iniciador dos chamados carros das idéias, segundo Melo Morais Filho -, o Boêmia, o Pierrôs da Caverna e muitos outros, alguns dos quais com seus pufes surgidos em 1877, até hoje uns de vida efêmera, outros ainda vivos nas ruas da Cidade Maravilhosa, como Tenentes do Diabo, fundado em 1855, havendo desfilado pela primeira vez em 1867, com um dos seus carros intitulado A Orfandade, conduzindo, conforme os jornais da época pesquisados por Eneida, moças pedindo óbulos para o asilo dos Inválidos da Pátria e a Caixa de Socorro Dom Pedro II. Paralelamente, aos clubes, aos blocos, surgiram os cordões, grupos de mascarados, velhos, palhaços, rei, rainha, sargento, baianas, índios, morcegos, mortes etc., vinham conduzidos por um mestre a cujo apito de comando obedeciam todos. O conjunto instrumental era de percussão: adufos, cuícas, reco-recos etc. Os velhos fazendo os seus passos que se chamavam letras, cantavam marchas lentas e ritmadas, do tipo do Ó Raio, ó Sol, Suspende a Lua! Enquanto os palhaços cantavam chulas em ritmo acelerado como o Querê, Querê, Querê, ó Gangá, conforme registrou Renato de Almeida, desde o Flor de São Lourenço (1885), Os Invisíveis, A Estrela da Aurora, Os Teimosos Carnavalescos. Mas, somente a partir de 1900 é que os cordões começaram a fazer sucesso no carnaval carioca e ainda hoje, passado mais de meio século, o Bola Preta (1918) ainda continua fazendo o mesmo sucesso.

Carro alegórico Chá das Cinco, dos Tenentes do Diabo, no carnaval carioca de 1913. Esses desfiles surgiram, no Rio, em 1885, com o Congresso das Sumidades Carnavalescas, Euterpe Comercial e Tenentes.

Cordões mais "civilizados"

Os ranchos são quase uma decorrência do pastoril com os traços totêmicos introduzidos no Brasil pelos negros sudaneses, assegura Nina Rodrigues. Os nomes dos ranchos são vegetais, evocando sua ascendência totêmica: Flor do Abacate, Recreio das Flores, Flor da Lira, Lírio Clube, Rosa de Ouro, Ameno Resedá, Rosa Branca, Papoulas, Flor de Romã. Os primeiros ranchos apareceram entre 1906 e 1911, e foram o Dois de Ouro, da Tia Dadá e João Câncio; o Jardineira, de Hilário; o Botão de Rosa, de Dudu e o Rei de Ouros, de Tia Asseata.

Eram cordões mais civilizados, por assim dizer, pelo menos mais completos, pois já aparecia o elemento feminino, acredita Renato de Almeida. A parte musical conta com o apoio de instrumentos de corda e de sopro. O coro entoa a marcha hino do rancho.

O porta-estandarte conduz, orgulhosamente, o estandarte do rancho, ricamente bordado com fios dourados e pedraria de imitação. Cada rancho tem seu mestre de harmonia que conduz a orquestra, seu mestre de canto encarregado do coro e seu mestre-sala responsável pela coreografia.

Em 1917, o desfile do Ameno Resedá foi uma verdadeira apoteose, pois interpretou as divindades da floresta, dos bosques, dos campos e das montanhas, segundo a mitologia.

Escola de Samba: o ponto alto

Nos ranchos de hoje os nomes das flores foram substituídos pelos dos bairros onde a associação tem a sua sede: Inocentes do Catumbi, Unidos do Cunha, Unidos do Morro do Pinto, Unidos de Quintino, Índios do Leme, Azulões da Torre, Aliança de Quintino. Ainda continuam bem vivos o Ameno Resedá e o Tomara que Chova.

E os blocos do Rio de Janeiro? Eram tantos quantos os foliões da Cidade Maravilhosa, formados em ruas, em bairros, pobres e ricos, todos desfilando com muita graça nos dias de alegria. Desaparecidos quase todos, apenas desfilam pelas ruas dos subúrbios e da cidade pequenos blocos sem sede, sem enredo, sem dinheiro, agrupando foliões que só querem é brincar carnaval. No carnaval carioca atual, a escola de samba é o ponto mais alto. Há uma tremenda controvérsia no que diz respeito às suas origens. Mas, as escolas de samba continuam a dominar o carnaval da Cidade Maravilhosa. É uma festa de cores, de coreografia, de beleza e de música que deixa os turistas embasbacados. É uma nova expressão de carnaval de rua: com maior esplendor de fantasias dos componentes das escolas e maior presença de espectadores. Maior presença e menor participação direta nas danças e folguedos.

Descendo os morros, as escolas de samba pisam o asfalto com muita graça e muito ritmo, mostrando a inventiva do povo brasileiro, todo mundo esquecendo seus problemas numa comunhão de vida e prazer através das participações indiretas que não deixam de ser participações.

Em toda parte, muita música

A Estação Primeira do morro da Mangueira, a Azul e Branco do morro do Salgueiro, a Paz e Amor, a Portela, e Império Serrano, marcaram época e outras ainda continuam fazendo sucesso. Destaque-se que em certo carnaval o "motivo" da exibição nas ruas do Rio de Janeiro da Escola Mangueira foi colhido de um livro: Casa Grande & Senzala interpretado como mensagem de confraternização de brasileiros.

O que principalmente alegra o carnaval do Recife, o de Salvador, o do Rio de Janeiro, o de todas as cidades brasileiras é a música tocada e cantada nas ruas e nos clubes. No Recife é o frevo. No Rio, é o samba, é a marcha, com os saxofones e as requintas se espiralando, as cuícas gemendo, os tamborins marcando a cadência, todos os instrumentos traduzindo a alegria que mora nos coração dos foliões. As músicas que fizeram sucesso nos carnavais passados todos os anos eclodem como vulcões de alegria, misturadas com a saudade dos que já têm cabelos brancos.

Enfim: uma das grandes paixões

Em 1917, Pelo Telefone, de Donga e Mauro de Almeida foi a alegria do corso da praça Mauá; em 1926, Pinta, Pinta Melindrosa, de Freire Junior, estourou; em 1933, Até Amanhã, samba de Noel Rosa, fez sucesso e ficou na história como música de encerramento de festas e noitadas alegres, afirma Ary Vasconcelos; em 1935, Coração Ingrato, de Antonio Nássara e E. Frazão, ganhou o concurso oficial derrotando Cidade Maravilhosa, de André Filho, espécie de hino do Rio de Janeiro; em 1936, As Lágrimas Rolavam, de Kide Pepe - Germano - Guará, foi um samba que animou bastante; em 1938, Camisa Listrada, de Assis Valente, foi sucesso como também o foram em 1940 o Música, Maestro, de A. Marques e Roberto Roberti; em 1943, Laurindô, samba de Herivelto Martins; 1944, Cecília, de R. Martins e Mário Rossi; em 1947, Onde Estão os Tamborins, samba de Pedro Caetano; em 1953, Se Eu Errei, de Risadinha, H. de Carvalho e Edu Rocha; em 1955, Império do Samba, da dupla Zé Zilda, sem se falar em Amélia, Pierrô Apaixonado e tantos outros sucessos cantados por Silvio Caldas, Carmem Miranda, Francisco Alves, Dircinha Batista, Trio de Ouro, Dalva de Oliveira, Gilberto Alves, Risadinha, Noite Ilustrada, que o folião brasileiro jamais esquecerá. O carnaval, o futebol, o gole de cachaça e o jogo do bicho continuam sendo, pela ordem, as paixões de grande parte do povo brasileiro.



Fonte: FRYRE, Gilberto; MAIOR, Mario Souto. Carnaval: de onde veio? Como era? Como evoluiu? Grandes Acontecimentos da História. São Paulo (9): 81-91,fev. 1974.

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