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Assinatura de Gilberto Freyre
Discursos e Palestras  



EM TÔRNO DO ACADÊMICO E DO INACADÊMICO COMO EXTREMOS CONCILIÁVEIS


A uma Academia de Letras como a Pernambucana - tão próxima da Brasileira em importância intelectual dentro do conjunto nacional de cultura a que as duas pertencem e já provecta pelo seu passado de quase oitenta anos dignamente vividos - tocam responsabilidades para com a cultura de que é parte, expressão, órgão, além das simplesmente acadêmicas. Ou das só de elite.

Elite. Não nos deixemos resvalar na fácil demagogia antielitista, agora tão em voga no Brasil: em jornais e em esquinas. Não há cultura nacional que possa prescindir de elites ou repudiá-las. Elites literárias, científicas, políticas, jurídicas, religiosas, artísticas, filosóficas, operárias, agrárias.

Cabe, entretanto, às verdadeiras elites de qualquer espécie, pelo próprio fato de serem elites - noblesse oblige! - desmentirem a suposição de desfrutarem parasitariamente privilégios, dignidades, relevos, sem atuarem de modo criativo dentro das comunidades a que pertencem. Não terá sido outro, senão o empenho criativo através da reunião de valores idôneos, o conceito elitista que inspirou a um Machado de Assis e a um Joaquim Nabuco a idéia da fundação da Academia Brasileira de Letras. E a Carneiro Vilela, a iniciativa de fundar a Pernambucana. Elites, sim, porém criativas. Daí tanto Machado como Nabuco, e, em Pernambuco, Vilela, depois de acadêmicos, terem produzido alguma de suas melhores páginas, continuando a ser escritores conscientes de suas responsabilidades altamente intelectuais ao mesmo tempo que largamente sociais.

A Academia Pernambucana de Letras é o que vem procurando ser: uma sucessão apostólica de talentos literários em que os sucessores vêm se empenhando em continuar a obra de antecessores ilustres. Entre esses antecessores, um Carneiro Vilela, um Joaquim Nabuco, um Oliveira Lima, um Alfredo de Carvalho, um Artur Orlando, um Andrade Bezerra, um Luiz Delgado, um Valdemar de Oliveira, para só falar nesses. De modo que seu papel vem sendo o de uma associação intelectualmente ativa e não decorativa. Ciosa de sua responsabilidade intelectual. Zeladora de sua tradição intelectual.

Instalada, graças a um governador ilustre, Paulo Guerra, num dos mais nobres e vautierianos solares do Recife, dentre os sobreviventes da belle-epoque do Conde da Boa Vista: sede a que se junta, hoje, o esplendor de um também nobre edifício novo destinado à função, tão importante numa Academia, de auditório. Iniciativa do biacadêmico - membro desta Academia e da Brasileira de Letras - que tem dado à dignidade de Presidente da Casa chamada de Carneiro Vilela o brilho que sabe comunicar tanto aos seus atos de homem público como às suas criações de poeta. Poeta sempre admirável cujas Elegias, já clássicas, acabam de ter o 25º aniversário do seu aparecimento festejado no Recife e fora dele.

Se faltam, ou vêm faltando, aos quadros desta Academia, valores que deveriam ter sido, ou serem hoje, seus, é que os acadêmicos, mesmo presumindo-se imortais, como os deuses, são mortais e, como os mortais, pecadores. Como pecadores têm sido as próprias igrejas, idealmente santas.

Vistas por um analista de comportamentos humanos, as academias de letras se apresentam como susceptíveis de pecarem contra as próprias letras. Contra a inteligência. Contra a cultura. Mas ao lado dos seus pecados, podem ostentar serviços - como esta Academia tem o direito de ostentar - a essas, por vezes, tão desvalidas letras. Desvalidas, embora parte tão essencial do que é expressão humana, em suas formas eruditas, por vezes tão nutridas de espontaneidades inacadêmicas.

Da cultura brasileira considerada no seu aspecto literário, não se pode dizer que venha sendo só academicamente erudita mas também penetrada de ânimo folclórico, inacadêmico, portanto, característico da cultura ibérica ou hispânica que o Brasil vem ampliando, adaptando-a a novas situações de espaço e tempo, enriquecendo-a com valores e técnicas assimilados de outras culturas, inclusive de culturas primitivas. O ânimo inacadêmico não significa que venha faltando as culturas de feitio hispânico ou ibérico, ânimo erudito, intelectual, científico. Ou especificamente acadêmico. A chamada Escola de Sagres terá sido, a seu modo, uma Academia: espécie de predecessora da hoje Academia Francesa de Ciências do Ultramar, da qual, aliás, tenho a honra de ser membro.

Sabe-se que a descoberta do Brasil e a colonização inicial, como as expansões de Portugal e da Espanha noutras partes do mundo, tiveram a orientá-las, a prepará-las, a dar-lhes ciência antes de se tornarem experiência, o saber de cientistas, de eruditos de letrados: sobretudo os dos convocados pelo Infante Dom Henrique para a chamada Escola de Sagres que terá sido, a seu modo - repita-se - uma Academia. Acompanharam Cabral na viagem de descoberta um mestre da ciência de navegação, um franciscano decerto nominalista na sua filosofia e um escrevente com notável vocação para escritor literário: Pero Vaz Caminha. Ao lado deles, marinheiros com certeza analfabetos mas folclóricos. De todo inacadêmicos.

Os dois ânimos - o erudito e o folclórico, o acadêmico e o inacadêmico - vêm se completando na cultura germinalmente hispânica que, no Brasil, vem adquirindo nova dimensão. O ânimo intuitivo, espontaneamente poético, lírico, inclusive, liricamente religioso, impregnou os Autos de Gil Vicente e a mística de Santa Tereza e juntando-se ao ânimo erudito a que não vinham faltando, na mesma Europa hispânica, expressões científicas: a de um Garcia da Orta, seguida, em épocas mais recentes, em Portugal, pela de um Egas Moniz, Prêmio Nobel de Medicina, na Espanha, pela de Ramon y Cajal, no Brasil, pela de um José Bonifácio, pela de um Teixeira de Freitas, pela de um Santos Dumont, pela de um Osvaldo Cruz, pela de um Carlos Chagas, o Velho, pela de um Marcondes Ferraz que, na construção da Paulo Afonso, acrescentou notáveis brasileirismos a Engenharia Hidráulica convencionalmente européia, como Saturnino de Brito já o fizera com relação à Engenharia Sanitária, exatamente, como noutros setores de saber ou de arte, têm havido acréscimos de criatividade brasileira igualmente notáveis. Entre esses brasileirismos, a música de Villa-Lobos, a pintura de Portinari, a arquitetura de Niemeyer. E ao lado de Manguinhos e Butantan, as contribuições de juristas, antropólogos e sociólogos brasileiros como Roquete Pinto e, ainda entre eles, os ainda mais recentes, do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Algumas dessas contribuições do Instituto Nabuco destacadas pela Sorbonne como de interesse universal.

Que esses triunfos, hispânicos, em geral, e brasileiros, em particular, quer em setores evidentemente humanísticos - inclusive literários - quer nos principalmente ou diretamente científicos, não nos façam subestimar o que, na cultura de origem hispânica - base da que, no Brasil, vem dando, além de autonomia, singularidade, sem deixar de dar universalidade aos brasileiros: o seu ânimo folclórico ou inacadêmico em expressões extremas. Um ânimo - repito em novas palavras o que venho dizendo noutras ocasiões - que está presente em letras e artes caracteristicamente brasileiras que, nisto, seguem o modelo cervantino. É uma literatura, em particular, a brasileira, que junta os dois potenciais, o erudito e o folclórico. O acadêmico e o inacadêmico. Cultura, a brasileira, em geral, a literária, em particular, difícil, por isto mesmo de ser descaracterizada por imperialismos com pretensão a absorventes, tão ostensivos, atualmente, com relação à música do Brasil. A época é de vigilância - e o será enquanto houver culturas e literaturas ao mesmo tempo nacionais e universais, da parte das nações que não sejam superpotências, contra imperialismos dessa espécie da parte de superpotências empenhadas em submeter aos seus jugos quase totais - totais, nuns casos, noutros totalitários - nações de culturas diferentes das suas.

O Brasil, graças principalmente ao que herdou da Europa hispânica - herança a que se juntou, de início, quanto soube assimilar, como país tropical, de agrestes nativos da América e de bons africanos também tropicais natos logo abrasileirados e logo abrasileirantes: verdadeiros co-colonizadores do país ameríndio - não é nação culturalmente inerme: tem já cultura própria a projetar-se sobre o futuro. Inclusive através da língua portuguesa já enriquecida por uma literatura, no Brasil, eurotropical. Inclusive, também, através de recursos, muito seus, para uma maior oralização e visualização dessa literatura, ou de uma expressão literária, até agora predominantemente gráfica. Oralização e visualização através de maior uso, por essa expressão, de meios visuais e orais, teatro, rádio, cinema, televisão sem que desapareça o essencialmente literário da criatividade poética. A palavra escrita. A palavra para ser lida. Apalpada pelos olhos. Ouvida pelos olhos.

Admitido o que, pode-se entrever para a língua portuguesa desenvolvida no Brasil e para a literatura aqui, mais do que noutras partes, tropicalizada nos seus impulsos e nos seus motivos e condicionada por essa tropicalidade ligada à europeidade, nos seus futuros - com a oralização a juntar-se, acentue-se, à expressão gráfica daquela criatividade poética hoje predominantemente literária - um lugar nada insignificante no conjunto de literaturas ou de expressões poéticas atualmente em desenvolvimento. Se há uma literatura, ou urna expressão poética, dentre as atuais, que junte a uma tradição latina que lhe dá nobreza clássica, possibilidades de se tornar intérprete, através não só da escrita como da fala, do canto, do gesto - tão importantes naquela teatralização da expressão literária, na qual o Brasil começa a sobressair com Nelson Rodrigues, Ariano Suassuna, Jorge Andrade, Guilherme Figueiredo, José Carlos Cavalcanti Borges - Cavalcanti Borges, membro desta Academia - é a brasileira. Capaz, no mundo moderno a tornar-se posmoderno, através de valores acadêmicos e de ímpetos inacadêmicos - e através dessa dupla potência, que nela, língua portuguesa abrasileirada, se une - captar novas relações do Homem com a Natureza e novas relações dos homens entre si, à revelia de preconceitos estratificantes de raça, de credo e de classe. Língua de um vasto futuro. Expressão de uma crescente literatura brasileira entendida como expressão poética no sentido lato de poética. Apta a juntar à comunicação pela escrita a irradiação pela voz e pelo gesto. Capaz de juntar ao que nela é percepção de vida pela inteligência a percepção por instinto e por intuição, essa há pouco destacada como valiosamente literária pelo arguto crítico que é Mestre Cesar Leal.

Note-se o seguinte em conexão com o estudo do que se considere motivação popular e inacadêmica em arte: para Tolstoi, essa motivação deveria ser como que messianicamente inspirada pela ética e pelos valores de conduta da gente de trabalho dos campos; rural; rústica, analfabeta até. E não, como para aqueles marxistas que, depois dele, vieram a identificar arte com a chamada cultura proletária - pela gente operária urbana, considerada arbitrariamente "o verdadeiro povo". Tendência ainda hoje seguida, por vezes simplistamente, por analistas até de comportamentos eleitorais. Voto de gente rural? Não seria o verdadeiramente popular. Verdadeiramente popular seria só o urbano. O que não é certo desde que ao próprio rústico e, na verdade, ao próprio analfabeto, não falta sabedoria instintiva, ao lado de uma honestidade nem sempre encontrada no urbanita desruralizado. O qual às vezes se desbraga ou em vender o voto ou em votar de acordo com as retóricas mais ruidosas e antes popularescas do que populares.

Seria inexato dizer-se, de qualquer das valorizações de tipos humanos dentro de uma sociedade como a brasileira - a do caboclo, a do sertanejo, a, por algum tempo, do índio, com Alencar, a do negro do tipo do Balduino de Jorge Amado ou do Moleque Ricardo, de José Lins, - sem excluir-se, é claro, a do operário, idealizado por paramarxistas como supremo elemento - que vem importando em exaltação de um elemento étnico ou cultural ou de classe contra outros, dentro da cultura brasileira total ou do sistema social brasileiro total. Uma valorização exclusiva que importasse em racismo ou classismo intolerantemente etnocêntrico ou sociocêntrico.

Tal não vem acontecendo. O que essas várias valorizações vêm realizando são reabilitações de interesse geral, para a cultura e para o sistema brasileiro de convivência, de elementos que, por este ou por aquele motivo, se achavam subestimados literária ou artisticamente, além de socialmente. Como arte voltada para este ou aquele elemento considerado socialmente inferior, a arte pode agir, e no Brasil tem agido, no sentido de suas reabilitações ou valorizações. E o mesmo se diga da literatura. Inclusive a que se alonga em teatro ou em cinema ou em televisão. Ou em música. Ou em dança. E para essas valorizações ou reabilitações vêm contribuindo obras de autoria de acadêmicos. As academias brasileiras de letras não se vêm revelando elitistas no sentido esnobemente social de elitismo, mas sim no outro: no intelectualmente seletivo. No qualitativo. No interpretativo.

Essas reabilitações não vêm ocorrendo por puros impactos das forças socialmente subestimadas, sobre as demais, porém, quase sempre, através de elites: através de capacidades artísticas ou literariamente empáticas de intérpretes, por vezes de todo acadêmicos, dessas forças: indivíduos, vários deles, situados mais entre as forças dominantes do que vindos diretamente das subestimadas ou dominadas. Indivíduos como o Aleijadinho, Alencar, Castro Alves, Joaquim Nabuco, Machado, Euclides, Guimarães Rosa, Portinari, Vilalobos, José Lins do Rego, atuantes em artes ou na literatura através do emprego artístico de métodos eruditos em harmonia com a sensibilidade, da parte de artistas ou de escritores, a valores não-eruditos ou populares ou telúricos. O exemplo de Tolstoi numa Rússia, como a do seu tempo, a que se assemelhava, e ainda se assemelha, o Brasil. As "gerações espontâneas", as erupções espontâneas, as criações espontâneas, em arte ou em literatura, não parecem existir. O brasileiro de origem africana que se revela artisticamente como tal, de modo espontâneo, "o menino de engenho" que valoriza artisticamente sua experiência de modo também espontâneo, sem influências eruditas sobre essa sua realização, o gaúcho rústico que valoriza, de igual modo, material gauchoso, dando-lhe valor literário à revelia de métodos eruditos, são - não nos esqueçamos do fato - fantasias. Tais espontâneos absolutos não existem de modo algum em estado de pureza. O que há de vigoroso nessas espontaneidades na arte brasileira, na música, na literatura, é um vigor em potencial .

Lembre-se a propósito que essa imensa revolução intelectual que foi, para o Brasil, o 1º Congresso Afro-Brasileiro - magnífico pioneirismo do Recife retificador de erro científico vindo da Bahia dos Nina Rodrigues seguidos pelos Artur Ramos: mestres insignes porém, em vários pontos - Ramos antes de se deixar sensibilizar pelo clamor do Recife - desorientados - não foi iniciativa de afronegros espontâneos mas de intelectuais, escritores, cientistas, artistas brasileiros que, à revelia de condição étnica, souberam interpretar afronegros como sendo de significativa presença - grandemente significativa - na cultura não só do Brasil mas do universo moderno. O 1º Congresso Afro-Brasileiro foi muito mais que simples "contribuição pernambucana para estudos africanológicos". Foi revolucionária abertura de nova perspectiva para a interpretação do homem de origem afronegra em culturas modernas. Revolução cultural partida, do Brasil, De Pernambuco.

Inútil inventar-se no filme Tenda dos Milagres que tal revolução retificadora surgiu na Bahia e da parte de espontâneos afronegros. Surgiu no Recife. Na Bahia - inventa-se no mesmo filme - teria surgido por pura intuição de um puro intuitivo. Invenção de que resulta esta confusão e a negar-se a criatividade recifense em setor tão importante. Foi o Recife que retificou o erro vindo de Salvador e de Nina Rodrigues. Retificação, a partida do Recife, de caráter tanto intuitivo como eruditamente científico.

O mesmo se diga do 1º Congresso Regionalista, Tradicionalista e, a seu modo, Modernista, com relação à Região e a Tradição em culturas em transição. Revolução cultural mais que intelectual - sociocultural - partida do Recife. Pernambuco a reafirmar-se revolucionariamente, em 26 e em 34, o mesmo do começo da literatura brasileira. O de um dos começos do teatro, no Brasil. O do começo de uma medicina ecológica, como revela pesquisa de Gilberto Osório e Eustáquio Duarte. O de Frei Caneca pensador político. O do afrobrasileiro Figueiredo pensador social. O de Luís Alves ou Álvares Pinto - posto em relevo, como talento pioneiro na música, pelo pesquisador admirável que é o Padre Jaime Diniz. O de Joaquim Nabuco, Oliveira Lima, Artur Orlando, Alfredo de Carvalho, Manuel Bandeira, Vicente do Rego Monteiro, como renovadores da cultura brasileira em termos nacionais e até transnacionais.

A realização ou a expressão de espontaneidades culturais vem se realizando através de emprego, pelos supostos espontâneos ou instintivos ou como criadores absolutos, de orientações e de métodos artisticamente eruditos e paraeruditos que tais inacadêmicos adquiriram - o caso do Aleijadinho - de outros artistas. Outros exemplos: o de Simões Lopes Neto, com relação a matéria agreste gaúcha que valorizou artisticamente por métodos eruditos; o de Guimarães Rosa, com relação ao material, como que virginalmente pastoril que soube literariamente e até joyceanamente valorizar, dando nova e genial dimensão à obra, nesse sentido, já realizada por Euclydes da Cunha. E o de José Lins do Rego com relação a material, também telúrico, que valorizou através de inspirações e de conhecimentos de métodos que adquiriu de fontes eruditas: inclusive do mesmo Joyce anterior a Ulysses e do também britânico Hardy. Explica-se que no outono da vida esse por algum tempo antiacadêmico que foi José Lins do Rego tenha concordado em candidatar-se, tanto quanto Manuel Bandeira, à Academia Brasileira de Letras. Ela lhes pertencia. Não era José Lins o ignorantaço da lenda a seu respeito. E Bandeira foi sempre um misto de intelectual e de intuitivo.

Com essas realizações e com essas antecipações, a literatura brasileira prepara-se para tornar-se, afirmar-se, destacar-se como uma das literaturas, dentre as atuais, mais capazes de realizar-se tribiamente juntanto, nos seus temas, à consideração de tempos já vividos pelo Homem, em geral, pelo brasileiro, em particular, os ainda por ser vividos por esses dois Homens. Assunto para sociólogos da Literatura. Matéria para futurólogos. Ou para aquela Sociologia do Tempo - ou do Tempo vivido - que o professor Roger Bastide, da Sorbonne, considerou, em crítica perspicaz, antecipação brasileira.

Impossível em qualquer conjetura sobre o futuro de uma Sociologia da Literatura, deixar-se de considerar certa tendência que, de moderna, poderá passar a posmoderna, para dar-se maior relevo ao número, à interpretação matemática, à análise quantitativa no estudo de estilos ou das próprias estruturas de criações literárias como criações estéticas de que sejam inseparáveis suas expressões estilísticas. Já o antropólogo-sociólogo Levy Strauss antecipou-se a versar o assunto do ponto de vista de sua "antropologia estruturalista" que se tornaria tão estreitamente sectária e hoje, de tão sectária, já se acha em declínio. E há quem considere a análise, por meio de computadores, o método ideal para a identificação de característicos de estilos literários, quer novos, quer antigos.

Tanto da Sociologia da Literatura como da crítica de arte ou de letras pode-se sugerir que dificilmente se deixarão mecanizar ou matematizar numa pura Crítica Literária ou numa pura Sociologia servidas por computadores ou por números. Dificilmente elas passarão de modernas a posmodernas, deixando de depender, como as críticas literárias e sociológicas mais antigas vêm dependendo, para sua maior ou menor grandeza, para a maior ou menor profundidade das suas análises, para a maior ou menor pungência das suas interpretações do Homem social deste insubstituível fator: os críticos e os sociologos quando eles próprios a altura dos sujeitos criticados ou analisados.

Não há indícios de que, à medida que o moderno passe a posmoderno, as sociologias e a Sociologia se tornem de todo impessoais ou susceptíveis de ser tecnocratizadas. Ou que a literatura, por sua vez, deixe de ser criação de poetas ou de artistas, nem sempre racionais, para se tornar construção de puros lógicos refinados em supratécnicos; ou em mestres apenas deste, outros, mestres apenas daquele, gênero literário. Excessos de Ph.deismo. Ao contrário: o crescente tempo livre parece que conduzirá a Literatura, em particular, as Artes, em geral, para formas de expressão mais pessoais, ao mesmo tempo que mais sociais. Haverá, provavelmente, mais tempo livre, quer para a criação literária, como expressão de criatividade pessoal ou coletiva, quer para a comunicação, senão diretamente pessoal, ou quase pessoal - através de meios técnicos susceptíveis de ser personalizados - de criadores de obras literárias com ouvintes, com espectadores, com telespectadores, com leitores, sem que isto venha a importar na mecanização simplista e crua daquela expressão e desses tipos de comunicação.

A Psicologia terá possivelmente um papel mais importante que o atual a desempenhar, quer na orientação a ser seguida por alguns escritores ou artistas literários, quer nos vários tipos de sua comunicação com vários tipos de público. Mas não só a Psicologia: também outras Ciências do Homem. Também outras Ciências entre elas, a Genética. Se o homem posmoderno adquirir sobre os destinos humanos - destinos biológicos - o controle que os desenvolvimentos da genética, projetados sobre o futuro, parece que vão lhe permitir exercer quase - nesse plano - como um associado do próprio Deus, o reflexo desses controles sobre a literatura será imenso: várias situações hoje dramáticas, como temas, enredos ou sugestões para romancistas, contistas, dramaturgos, ensaistas, filósofos, humanistas, deixarão de sê-lo. Ou perderão a intensidade. Serão substituídos por outras e imprevistas provocações ao poder criador do artista ou do escritor.

Pois é provável que, com alterações de natureza antropológica, que a ciência ou a técnica torna possíveis, várias situações humanas venham a perder grande parte da sua atual dramaticidade, refletida em obras literárias ou artísticas. Com a cirurgia plástica, por exemplo, não haverá mais o "nariz de Cleópatra", muito menos o de Cyrano de Bergerac. Até característicos étnicos de pigmento, de formas de nariz e de lábios, de cabelo, além de vários outros, perderão seu potencial dramático como motivos para desajustamentos entre pessoas ou entre grupos: desajustamentos que tanto têm inspirado escritores literários. Tudo indica que se tornará relativamente fácil, em futuro próximo, passar o indivíduo biológico já socializado em pessoa, da condição de macho, ou de homem, para a de fêmea, ou de mulher; da de preto, para a de branco; da de indivíduo de temperamento frio para indivíduo de temperamento quente ou vice-versa. Com tais possibilidades, desajustamentos interpessoais e intergrupais em torno dos quais se têm construído romances ou dramas literários, perderão seu potencial nesse como noutros setores. O que não quer dizer - repita-se - que novos desajustamentos não os substituam, desafiando a imaginação criadora de escritores literários, ferindo de modo insólito sua sensibilidade, projetando-se sobre a literatura com provocações surpreendentes. Nossa atitude, de homens de hoje, de brasileiros de agora, em face de tais possibilidades, precisa de ser a de quase admitir que a ficção científica penetre na que se intitule de realista - adstrita a um real que enxergue o mais-que-real - paradoxalmente romantizando-a.

Precisamos de admitir, para o Homem brasileiro, em particular, para o Homem hispanotropical, de modo mais abrangente, e para o Homem, em geral, possibilidades de situações não somente novas como de todo imprevisíveis, que venham a projetar-se na literatura, contrariando o estabelecido, o aceito, o consagrado. Novas formas de amor entre os homens. Novos conflitos em torno dessas formas de amor: inclusive de amor homossexual crescentemente reconhecido como, além de legal, legítimo. Novas atitudes para com a natureza. Novas doenças. Novas formas ou concepções de saúde - e também de doença, de normalidade e de anormalidade - a se refletirem sobre novas imagens de heróis e novas imagens de vilões literários.

Alterações de valores já se vêm concretizando de tal maneira a nossos olhos que certas idealizações literárias de virtudes já se tornaram além de arcaismos éticos, arcaismos literários. A virgindade prenupcial da mulher que o diga. Seria um arcaico o romancista, o poeta, o escritor que hoje pretendesse exaltá-la de modo absoluto. Falaria numa língua morta. É imenso o número de valores, em nossa época de aguda transição, de avassaladora invasão não só de passados como de presentes, por futuros, esvaziados de significações quase sagradas para nossos pais ou nossos avós. O anormal reduzido a normal. E por essa redução, destituído de potência literária.

A tuberculose, com suas implicações românticas, deixou de ser a doença terrível e literariamente potente que foi para nossos avós. Thomas Mann foi talvez o último grande escritor a valorizar a tuberculose em novela literária como Dumas a valorizara no teatro. E o que sucedeu com a tuberculose, vem acontecendo com a própria lepra ou morféia. Com a sífilis: por algum tempo causa de não poucos suicídios de repercussão, alguns deles, em obras literárias. Com a homossexualidade. Morte em Veneza - obra genial - já soa, sob certo aspecto, tão arcaica como Romeu e Julieta: embora de tais arcaismos do ponto de vista sociológico se possa dizer que literariamente resistem aos tempos sociais através de repercussões simbólicas: símbolos transferíveis e por serem transferíveis, difíceis de perecer.

Já se esboçam enredos de romances, ou tentativas de novelas, tendo por personagens, não os homens de carne e osso de que tanto falava Unamuno, porém robots. Ou computadores. Ou máquinas. Máquinas substitutas de mulheres. Rivais de mulheres. Artefatos de borracha substitutos de sexos humanos. Isto sem nos esquecermos de que, com os transplantes, a ficção científica vai ter pano para as mangas em futuro próximo. Já existe, aliás, livro pioneiro na língua portuguesa: o do escritor brasileiro Almeida Fiecher O Rosto Perdido.

Se a atual ficção científica se está fazendo notar antes pelo número que pela qualidade de sua produção de caráter futurológico, é possível que, de repente, surja novo Wells ou novo Verne. Ou autor de ainda maior criatividade ou genialidade do que eles.

Do mesmo modo que, na literatura de aventuras de detetive que chegou a grande altura com a criação de Sherlock Holmes - tão projetado sobre um futuro hoje presente - pode aparecer novo Sherlock. Da mais moderna ciência de investigações policial científica é possível que esteja para surgir novo e maior Conan Doyle. Tempos de transição aguda e pungente, como os que atravessamos, tendem a animar gênios criadores ou renovadores tanto nas ciências como nas artes. Inclusive numa literatura que mais do que a do antecipado Aldous Huxley junte arte e ciência. O Brasil não poderá deixar de ser tocado, em sua criatividade, por essas provocações.

É possível, por exemplo, que estejam a se desenvolver meios, até agora considerados apenas fantásticos, de comunicação entre homens e vegetais. Já um escritor brasileiro, notável por algumas de suas criações literárias, Luís Jardim, se apresenta como um antecipado neste particular: no de admitir, em literatura, animais e até vegetais, como entes com os quais se comuniquem, em termos modernos, senão um adulto, um menino. Supõe-se de certos vegetais que reagem até com esquisitos pudores à presença humana. O que, vindo a confirmar-se, permitiria a vegetais serem comparsas de homens em criações literárias. Em torno de novos relacionamentos entre homens e vegetais. Ou homens e minerais. Ou homens e animais. Ou homens e robots e máquinas que, para alguns, venham a substituir mulheres sem o perigo dos males venéreos.

E, possíveis tais comunicações, que país mais cheio da sugestões e motivações para novas e mais aliciantes formas de expressão literária, lírica e teluricamente franciscana, com relação a natureza tropical, do que o Brasil? Que o trópico brasileiro repleto, a olho nu, de tantas formas de vida em que vegetais parecem convidar senão adultos, meninos, a intimidades, além de sexuais, sentimentais, líricas, afetivas com eles, alguns desses vegetais parecendo sexos provocantes ou mulher?

Isto sem falar naquelas revoluções que estão para ser operadas pela ciência genética, com projeções mais do que diretas, sobre as relações entre os homens, as relações entre os sexos, as normas de moralidade, as éticas: repercussões de interesse para o escritor, o romancista, o teatrólogo, o poeta, o filósofo, o humanista. Inclusive para os escritores brasileiros.

O mesmo se diga de possíveis relações novas do homem com o espaço. Do homem com o mar. Do homem com o tempo físico. Do homem com expressões da natureza e com experimentos genéticos - inseminação artificial e produção de bebés em laboratórios. Ainda se escondem de escritores mistérios e desafios para a imaginação, o eros, a sensibilidade. Desafios a intuitivos que sejam também intelectuais. À sua inteligência. Além das já referidas mudanças de sexo, de pigmento, de voz, de cabelo, de idade, e, sobretudo de personalidade - estas através de jogos de hormônios ou de lavagens de cérebro - relações com climas susceptíveis de serem alterados. Além das já também referidas mudanças de fisionomia, de formas de corpo através de cirurgias capazes - note-se em conclusão - de fazer bonitos, de feios, simpáticos, de antipáticos, inteligentes, de broncos. Assuntos para romances e dramas de teatro, em que um personagem torne-se, em sua aparência, ou na sua inteligência ou no seu temperamento, sucessivamente dois, ou três, podendo um só indivíduo contradizer-se ou exprimir-se de várias maneiras.

Várias as possibilidades negativas. Nada, porém, futurologicamente impróprio é admitir-se que venham a superá-las possibilidades positivas. Possibilidades positivas que tornem possíveis tipos humanos susceptíveis de inspirar obras literárias com o que nesses tipos vierem a ser harmonizações de contrários entre os homens sem a eliminação de suas diferenças saudáveis. Artes e literaturas não buscam uniformidades ideais que seriam artística e literariamente insípidas.

Dentro de um sentido de tempo tríbio, possíveis futuros são parte do que em experiências humanas - a brasileira, uma delas - são presente e passado já experimentados a serem completados por tempos ainda por ser vividos. O prebrasileiro da época chamada colonial já continha o germen do brasileiro integral, agora, a tornar-se, sob alguns aspectos, uma espécie de ultrabrasileiro. Inclusive no que, de seus ajustamentos e desajustamentos a novos tempos, pode antecipar-se em sua literatura, em seu teatro, em suas várias artes, em sua ética - em sua ética sexual - em sua filosofia, em sua religião. Desse ultrabrasileiro não estão ausentes nem o brasileiro de hoje nem o prebrasileiro: o tempo tríbio os reúne, inclusive através de expressões literárias. Capitu é tríbia. É a Gioconda do Brasil em termos literários. Não de uma época nem de uma classe nem de uma raça mas do Brasil total.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Em tôrno do acadêmico e do inacadêmico como extremos conciliáveis. Recife, 26 jan. 1979.

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