ADEUS À CÂMARA
O SR. GILBERTO FREYRE (Palmas.) – Sr. Presidente, umas das vantagens dos que morrem nas batalhas simplesmente eleitorais, sôbre os que tombam sem vida nas batalhas de fogo e de sangue é que o morto político pode fazer com a própria voz o autonecrológio.
É o que venho neste momento fazer, já que não tive a honra de figurar no memorável discurso com que, desta tribuna, o meu caro amigo e ilustre Representante do Rio Grande do Sul, o Sr. Flôres da Cunha – talvez a palavra mais eloqüente e com certeza a mais generosa desta Casa – recordou os nomes e exaltou o valor daqueles que morreram ao amanhecer da última e rude batalha eleitoral; e, eleitoralmente mortos, não farão parte da Câmara na próxima legislatura.
O Sr. Aureliano Leite – Lembro ao nobre orador que o nobre Deputado Lino Machado, de sua gloriosa terra, o Maranhão, preencheu a omissão do Sr. Flôres da Cunha, citando a ausência lastimável de V. Exª, na futura Câmara, em primeiro lugar.
O Sr. GILBERTO FREYRE – Agradecido a V. Exª. Ignorava essa gentileza do nobre Representante do Maranhão.
Sou dos que morreram já ao anoitecer da batalha. Mas aqui estou, menos para chorar os outros mortos – já tão bela e merecidamente lamentados pelo Deputado Flôres da Cunha na sua piedosa oração – que para saudar, como morto eleitoral ainda quente e talvez em nome de outros mortos eleitorais de agonia também lenta, os vivos e principalmente os recém-nascidos: êsses recém-nascidos do ventre misterioso das urnas, cuja responsabilidade será imensa nos dias turvos que a Nação já atravessava.
Quanto a mim, não morri em batalha de que desejasse, como indivíduo, participar; nem em busca de vitória que desejasse, como indivíduo, desfrutar. Sabem os pernambucanos que em 50 como em 45 só o excepcional das circunstâncias me afastou de minha vocação, que é a de escritor, para lutar nas ruas e nos comícios por causa política, normalmente aos cuidados dos políticos. A princípio, em 45, em batalhas que chegaram a ser sangrentas, ao lado da mocidade mais brava da minha terra; antecipando-nos, ela e eu, aos políticos, lutamos corpo a corpo contra o policialismo então desvairado. Depois, em batalha quase burocràticamente eleitoral a que fui arrastado pela mão dos moços mais livres do Recife, como seu candidato a deputado federal. Candidato que não pediria um voto. Que, simples escritor e homem pobre, não saberia negociar votos com eleitores, nem confabular com donos de eleitores.
Neste ano de 50, foram de nôvo os moços do Recife – estudantes, comerciários, operários – que me arrastaram á luta eleitoral, certos de que o excepcional das circunstâncias de nôvo exigia dêles e de mim êsse esfôrço e essa atitude. De nôvo fui candidato, sem pedir votos nem cortejar eleitores.
Queriam os moços bater-se pela minha reeleição, e só pela minha reeleição. Pelo meu nome, e só pelo meu nome. Não concordei. E consegui convencê-lo de que a luta decisiva para Pernambuco não era a que ia travar-se em tôrno de nomes para as Câmaras, mas em tôrno de candidaturas para o govêrno do Estado. Consegui que êles me esquecessem um pouco, para todos nos lembrarmos principalmente da candidatura em perigo na cidade do Recife: a do Sr. João Cleofas ao Govêrno do Estado.
Durante quarenta dias ásperos foi a campanha que fizemos, êles e eu: a campanha pelo nome do distinto engenheiro e figura ilustre desta Casa, o Sr. João Cleofas, para o govêrno do Estado. Durante quarenta dias ásperos foi a campanha que fiz deslembrado de mim, despreocupado de mim, esquecido de mim: a campanha pelo nome, a principio tão impopular na cidade do Recife quanto o do seu adversário, do Sr. João Cleofas, afinal vitorioso na mesma cidade a despeito de fraudes de tôda a espécie.
Combatera eu quanto pudera, entre os líderes da chamada Coligação, o nome do Sr. João Cleofas para o Govêrno do Estado, não por lhe faltar, a meu ver, qualidades de administrador, que estas até lhe sobram, mas por não considerar êsse nome ilustre o justo, o oportuno, o certo, em dias como os que atravessa Pernambuco. Usineiro, essa sua condição se prestaria a tremendas explorações demagógicas. E nós teríamos que enfrentar não um simples Govêrno bem fortificado em sua situação de Govêrno chefiado por ilustre gentil-homem de punhos de renda, mas adversário temível sob as maneiras graciosas e as palavras doces de acadêmico Vitoriano, como também, por um lado, um Partido Comunista que, em Pernambuco, não declinara mas, ao contrário, crescera nas catacumbas da ilegalidade, sob as vistas nem sempre intolerantes da polícia estadual, e, por outro lado, um grupo de supra-ricos e de novos-ricos, igualmente poderosos. Poderosos desdenhosos de um simples rico já antigo e, por conseguinte, para êles, novos e grandiosos ricos, rotineiro e ultrapassado, como o Sr. João Cleofas.
Precisava-se como candidato capaz de enfrentar tais fôrças, donas desde o início das melhores horas nas estações de rádio, quando não das próprias estações, do melhor espaço nos grandes jornais, quando não dos próprios jornais, dos correspondentes da melhores agências telegráficas, quando não das próprias agências, dos melhores pontos da capital pernambucana para a ostentação de caros anúncios luminosos; precisava-se como candidato capaz de enfrentar tantos podêres juntos, de alguém que atraísse pelo só encanto de sua pessoa, pela pura simplicidade de sua vida, pela clara modéstia de sua condição, e não apenas pelas suas qualidades de administrador e de homem público à antiga, as simpatias populares, a confiança do homem do povo, as esperanças da mocidade pobre e da própria gente média terrìvelmente pauperizada em Pernambuco; e ansiosa como nenhuma por dias de melhor segurança econômica e não apenas de mais alta e mais larga liberdade política.
Clamei, mas em vão, por um candidato em situação de atrair essas simpatias. Lembrei o Sr. Lauro Borba. Lembrei o Sr. Romero Marques. Lembrei o Sr. Ângelo de Sousa. Ou, então, que caminhássemos para um candidato de conciliação apolítico ou fora dos partidos ou das organizações locais. Um nome de prestígio suprapartidário: do Sr. Aníbal Freire, por exemplo, de quem, aliás, não sou parente: apenas admirador e amigo. Um nome militar com as virtudes civis de administrador, do Sr. Nélson Melo, que não sendo pernambucano, não era entretanto um estranho a Pernambuco pelos serviços e pelo amor àquele Estado. Ou – ainda lembrei – que se aceitasse um candidato dos chamados interpartidários ou moderadamente partidários, dentre os sugeridos pelo Governador Sr. Barbosa Lima Sobrinho. O nome do Prefeito Sr. Morais Rêgo, por exemplo.
Venceram, porém, os que, certos de vitória fácil, por não conhecerem, como eu presumo conhecer, a gente de Pernambuco, insistiram, desde o início na candidatura do Sr. João Cleofas. Sem duvidar um instante do perigo a que expúnhamos Pernambuco, ao fracassarem tôdas as minhas objeções a essa candidatura, adotei-a plenamente. Adotei-a lealmente. E digo-o sem falsa modéstia: depois de adotá-la, ninguém na cidade do Recife trabalhou com maior fervor pela candidatura do Sr. João Cleofas do que eu; nem com tanta constância. Fomos, os moços meus amigos e eu, o batalhão suicida na luta por nome tão distinto quanto inoportuno: êles batendo-se a meu pedido e só a meu pedido, por um candidato que, vencedor, seria para êles apenas preferível ao outro e não um nome que despertasse seu entusiasmo de jovens. Eu, batendo-me, na cidade do Recife, exclusivamente por êsse nome e certo de que minha candidatura a deputado não teria no interior a votação prometida pelos políticos.
Em tôrno das eleições, em Pernambuco, para o govêrno do Estado e para deputados federais e estaduais, está hoje evidente que se praticaram irregularidades capazes de fazer corar frades-de-pedra. Sôbre muitas delas já colheu documentação decisiva êsse intrépido homem de luta, com o sentido popular, e não apenas bacharelesco ou burguês, de ação política, líder leal com os amigos, desassombrado com os inimigos, ladino e meio com os ladinos, violento e tanto com os violentos, espécie de nôvo José Mariano com alguma coisa de Manuel Borba que é o Deputado Osvaldo Lima. Mesmo com essas irregularidades tôdas, venceu o Sr. João Cleofas na cidade do Recife, ainda e sempre cruel com os partidos que, no govêrno, se extremam em violências contra os recifenses de brio e os pernambucanos de vergonha. Quanto a mim, e a minha candidatura de candidato suicida que apenas se empenhou na luta em prol do nome do Sr. João Cleofas, lutando, a favor dessa candidatura, num jornal cuja circulação, nos quarenta dias em que nêle escrevi, ao lado do meu amigo, o talentoso pernambucano Sr. Gilberto Osório, subiu para espanto de muitos de tristonhos dois mil exemplares a seis mil; escrevendo por dia mais de um artigo, nesse e noutros jornais, a favor do Sr. João Cleofas; traçando por dia uma caricatura política a favor do Sr. João Cleofas; falando por dia em dois, três, quatro comícios pró-João Cleofas, às vêzes perturbados por policiais disfarçados em homens do povo e aos gritos de "fora o usineiro"; discursando constantemente em programas de rádio pró ~ João Cleofas; quanto a mim e a minha candidatura de candidato suicida, tenho o orgulho de dizer: fui, mesmo assim, sem pedir voto para mim nem cortejar eleitores, o candidato mais votado pelo eleitorado da cidade do Recife. Sem pedir um voto, sem cortejar um eleitor, sem preocupar-me com meu nome, mas só com o do companheiro impopular, para quem conseguimos, os moços meus amigos e eu, milhares de votos esquivos, fui compensado pela minha querida, pela minha brava pela minha generosa cidade do Recife com esta honra de que me recordei sempre: a honra de ter atraído, como ninguém atraiu mais, o seu voto espontâneo e livre, limpo e puro.
Falharam os políticos com suas promessas formais de votos no interior a quem pela causa comum assim trabalhara na cidade chamada cruel, com risco da própria vida e sob constantes ameaças de agressão e até de morte da parte de adversários espantados com o sucesso da campanha inesperada? Falharam . Mas não os recifenses livres. Não a Cidade chamada cruel. Não o meu velho Recife. Não o Recife que me encheu generosamente de votos que não pedi, que não roguei, que não implorei porque o que durante quarenta dias pedi, eu roguei, eu implorei ao Recife foi que votasse no nome do Sr. João Cleofas para Governador do Estado.
Do que não me arrependo. Cumpri meu dever. Mesmo matematicamente derrotado na minha candidatura à representação de Pernambuco nesta Câmara, estou tão bem com a minha consciência, tão bem com a cidade bem-amada que me deu seus melhores votos, tão bem com a mocidade pernambucana mais livre e mais brava que mais uma vez me honrou com sua desinteressada confiança, que tenho a impressão de Ter saído das eleições de 50 mais do que nunca representante da cidade do Recife e representante da mocidade Pernambucana; mais do que nunca representante do Recife que não se vende, e da mocidade que não madruga na vida pública, corrompida pelo dinheiro.
O Sr. Costa Pôrto – É uma pena – e quero falar agora como pernambucano – que V. Exª não volte para representar o nosso Estado; mas, para os pernambucanos de verdade, constitui uma tranqüilidade e alta confiança a certeza de que, onde V. Exª estiver, é o autêntico, o legítimo representante da cultura, da nobreza e do civismo de Pernambuco.
O Sr. GILBERTO FREYRE – Muito agradecido a V. Exª pelo generoso aparte.
O Sr. Dámaso Rocha – Bem sei, nobre Deputado, a desvalia do meu testemunho e, se até agora não interrompi a primorosa peça de V. Exª foi para não mutilar a beleza e o esplendor do seu aspecto inteiriço, que está, inegàvelmente, empolgando esta Casa . Devo, porém, declarar que o espírito de V. Exª estará permanentemente nesta Câmara, porque a dignidade com que V. Exª soube desempenhar o mandato é de tal forma, é de tal molde, que só poderia servir de exemplo aos vindouros representantes do povo neste plenário. Devo acentuar que estou certo de exprimir o sentimento total desta Casa. (Apoiados.) V. Exª muito me confortam e muito me honram.
Ficamos, eu e os meus companheiros jovens de campanha, conhecendo melhor a gente mais simples da nossa terra e estimando-a mais do que a estimávamos. Confiando nela mais do que confiávamos, ao mesmo tempo que desconfiando mais do que desconfiávamos da cada vez mais gasta, mais incerta e mais falsa elite burguesa do nosso País. Que êsses jovens saibam interpretar os fatos que os surpreederam no decorrer e no fim da última batalha eleitoral travada em Pernambuco e no Brasil, sem ressentimento contra pessoa alguma embora sem excesso de caridade com o pecado de mistificação da boa-fé dos novos pela má-fé dos velhos.
De uma coisa alguns jovens parecem estar convencidos: de que nos partidos ortodoxamente burgueses nem sempre há lugar para moços de boa-fé, senão como moços de recado; de que a missão dos moços de boa-fé e ao mesmo tempo de inteligência é a de se aliarem cada vez mais, em Pernambuco e me todo o Brasil, com a gente de trabalho, com a gente simples mas desorientada e abandonada, que é a que mais precisa de meninos ainda puros para guias de cego; com a gente média terrìvelmente pauperizada mas heroìcamente honesta na sua pobreza. Gente média e pobre que não se vende aos ricos nem se deixa amedrontar pelos policiais da qual depende principalmente o Brasil para tornar-se a democracia com que sonharam os Josés Bonifácios e os Joaquins Nabucos; democracia social e não apenas política. De fato e não apenas de aparência. Ética e não apenas ática.
O Sr. Soares Filho – Êsses moços, certamente, preencheriam o imenso vazio que V. Exª deixará na representação nacional, em futuro próximo, se a própria mocidade de V. Exª não nos desse a esperança de que V. Exª mesmo virá ainda preencher êsse lugar. V Exª como tantos outros foi vítima neste pleito daqueles que, com pequenas exceções, não cuidaram das coisas coletivas, sejam as da Pátria, sejam as do Partido, desvairados pelos individualismo e pelo poder do dinheiro.
O Sr. GILBERTO FREYRE – Muito agradecido pelo esclarecedor aparte de V. Exª que tocou num dos pontos mais importantes, que devem ser considerados e estudados, do último pleito.
Mas não devo esquecer-me do caráter dêste discurso: o de um autonecrológico. O de palavras de um gladiador não que vai morrer e antes de morrer saúda César, mas que já morreu e saúda, não César, mas o anticésar, que é e tem que continuar a ser entre nós o Parlamento. Principalmente a Câmara dos Deputados.
Deixarei esta Casa, Sr. Presidente, certo de não Ter sido aqui de todo um inútil à gente brasileira. Mas a recíproca é verdadeira: o contato com esta Casa não foi para mim, de modo algum, inútil.
Dizem alguns puristas do estudo, sabendo-me homem mais de estudo do que de ação, que aqui só tenho feito perder o tempo. Enganam-se. Aqui também se estuda o Brasil. Aqui também se descobre o Brasil. Aqui também se aprende a conhecer da natureza humana regiões que de outro modo se conservariam ignoradas dos estudiosos.
Nós deputados somos todos fatias ou retalhos da chamada realidade brasileira recortados do todo como para exame de laboratório; somos portadores de micróbios característicos menos de cada um de nós que de nossas regiões e áreas de origem ou de residência; somos amostras, exemplos, somos sínteses de subgrupos e de sub-regiões que compõem a contraditória totalidade brasileira, tão difícil de ser estudada fora daqui em alguns de seus contrastes mais sutis; tão difícil de ser estudada nesses contrastes, uns junto dos outros, como nesta Casa.
Como brasileiro constantemente preocupado em conhecer o Brasil, aqui muito aprendi. Como naturalista empenhado em estudar a natureza humana, também. E também como aprendiz eterno de Humanidades, interessado em considerar no Homem o que é humano e como tal superior à pura natureza.
Aprendiz também eterno, da arte e da ciência de historiador, aqui vi de perto como se faz história: a política, a econômica. História republicana. História democrática do Brasil. Tive a honra de assinar convosco uma Constituição democrática e de até concorrer modestamente para que nela se estendessem os direitos dos brasileiros naturalizados e se definisse bem definida a valorização do trabalho humano, ao lado da liberdade de iniciativa necessária ao nosso desenvolvimento econômico de país americano e ainda jovem.
Não sou dos que aceitam de todo a generalização um tanto afoita de Wilde: a de que qualquer mané-gostoso pode fazer história, enquanto só conseguem escrevê-la grandes homens. Creio mesmo que o ideal para um homem capaz de verdadeira grandeza – tal como a concebem os povos de formação ibérica – é fazer história e não apenas escrevê-la. O ideal realizado por Cervantes e Camões. O ideal que Antero de Quental tanto quis realizar. O ideal que Oliveira Martins quase realizou. O ideal realizado entre nós pelo José Bonifácio que escreveu, como homem de estudo, páginas ainda hoje preciosas de História Natural e Social do Brasil e, como homem de ação, agiu com risco da própria vida a favor da independência brasileira, deixando assunto magnífico para a pena dos historiadores. O ideal realizado por Joaquim Nabuco que, tendo feito história, também com risco de vida, nas ruas do Recife e nesta própria Câmara, ao defender a causa abolicionista e ao lançar as bases do verdadeiro trabalhismo brasileiro escreveu história, e escreveu-a com mão de mestre ao traçar as páginas imortais de Um Estadista do Império e de Minha Formação. O ideal realizado por Alfredo, Visconde de Taunay, que, tendo lutado na Guerra do Paraguai e não apenas administrado províncias do Império, fêz história e escreveu-a, traçando as páginas igualmente imortais da Retirada da Laguna.
Êste o ideal. Êste o ideal nem sempre possível de ser realizado por grandes homens, dos quais uns morrem, apenas grandes pelo estudo ou pela criação intelectual, outros só pela ação ou pela vida mil vêzes arriscada nas batalhas ou nas revoluções, na catequese dos bárbaros, no combate às doenças, no desbravamento dos sertões, nas aventuras de vencer os mares e as distâncias.
Dentro dos meus limites extremamente modestos, tenho sido um pouco, no também modesto cenário do Brasil de hoje, um pequeno homem de estudo às vêzes alongado em homem também pequeno, mas sempre desinteressado, de ação ou de luta. Na luta pela redemocratização do Brasil, que se iniciou de fato no Recife, e não no Rio – e no Recife com os moços generosos e bravos, e não com os políticos sagazes e cautelosos – lutei a peito descoberto ao lado dos moços, e até antes dos moços, contra uma polícia armada até os dentes e empenhada em esmagar, fôsse como fôsse, quem não se submetesse ao despotismo estadual de então. Vi um dos meus mais queridos companheiros de luta tombar a meu lado, a bela cabeça de adolescente furada por bala policial. Vi Elias, homem simples e do povo, cair perto de mim, assassinado também pela polícia irônicamente chamada "civil".
Desfeita a ditadura que, em Pernambuco, se extremara em abusos tão grandes, julgara cumprido todo o meu dever de homem nunca resignado ao papel de intelectual chamado "puro", embora orgulhoso sempre de minha condição de escritor, quando fui arrastado – perdoem que o repita – pelos moços do Recife a nova batalha: desta vez, não de sangue, mas de palavra. Porém igualmente necessária à redemocratização do Brasil.
Foi quando desapontei os políticos de carreira com uma vitória inesperada e talvez ainda hoje imperdoada. Vitória de alguém que não correra atrás do sucesso eleitoral. Vitória não minha, que não pedi voto nem a irmão nem a amigo nem a vizinho, nem cortejei eleitor algum, nem negociei votos com dono algum de eleitores: vitória dos moços, então, como hoje, meus guias de cego no escuro da política eleitoral: a mais escura, a mais turva, a mais traiçoeira das políticas. Aquela em que os amigos, desvairados pela fúria da competição, tornam-se às vêzes piores que inimigos, e os inimigos chegam a parecer melhores que os amigos.
Foram os continuadores daqueles moços de 45 e êles próprios, reagrupados de repente em tôrno dos jovens de 50, que me julgaram obrigado pelas circunstâncias – perdoem ainda a repetição – a ser de nôvo seu candidato a deputado federal por Pernambuco, sem compromisso com partido algum, embora o apoio dos políticos à iniciativa dos jovens fôsse de início o mais entusiástico, e sua promessa de votação no interior a mais formal. Desta vez, ainda que o candidato da mocidade livre de Pernambuco viesse a ser o mais votado pela independente cidade do Recife, os moços mais pobres foram vencidos pelos homens mais ricos. Os jovens mais ingênuos foram superados pelos velhos mais sagazes. Questão de poucos votos, mas o suficiente para a derrota matemática do candidato dos moços românticos e dos pobres de brio. O bastante para a sua morte em batalha eleitoral, às vêzes degradada em competição mercenária. Batalha de papel impresso contra papel impresso. De cédula contra cédula.
São batalhas, estas, ou as iguais a estas, que ameaçam tornar-se em algumas áreas do nosso infeliz Brasil pura competição entre ricos ou endinheirados, com os pobres apenas a coonestarem com a presença o ato litúrgico da votação livre: tão bonito para o inglês ver, tão doloroso para o nativo sofrer.
Desta Câmara já se disse com alguma malícia e muita injustiça, que será na próxima legislatura uma Câmara de lordes: lordes no sentido brasileiro de lordeza, que é riqueza. Outros maliciosos poderão dizer com igual injustiça que será antes uma câmara de comuns no sentido pejorativo de "comuns". Igual injustiça, porque aqui continuarão a zelar pelo Brasil alguns dos brasileiros mais incomuns pela virtude e pelo saber, ao mesmo tempo que honrosamente pobres, e não inexplicàvelmente lordes.
Repelindo os dois extremos de caricatura, sou dos que esperam dos vencedores de 3 de outubro na batalha para a representação nacional nesta e na outra câmara, ação construtivamente brasileira e afirmação de responsabilidade elevadamente democrática. A verdade, porém, é que foram tremendas sôbre o eleitorado, na última corrida eleitoral, estas duas pressões: a do dinheiro e a da vulgaridade.
Contra elas, melhor esclarecido, saberá decerto erguer-se nas próximas batalhas um eleitorado que, na sua maioria, votou a 3 de outubro como um adolescente que pela primeira vez bebesse vinho fora das vistas paternas: excedendo-se por inexperiência e gabolice, e não por vício. Veremos então restabelecido no Brasil o que um engenheiro chamaria, talvez, o "perfil de equilíbrio" entre a enchente popular, em certos pontos maculada de imundície demagógica ou de calda plutocrática, e as margens, capazes de defender a democracia brasileira, tanto da corrupção pelo dinheiro, como da degradação pela vulgaridade. Tanto da eleição de ricos, sé por serem ricos e poderem gastar com eleitores de voto fácil, como da eleição de vulgares, só por serem vulgares e poderem pela vulgaridade superar os homens de qualidade, caricaturados em fidalgos cheios de si aos olhos de multidões simplistas, embriagadas com o direito de votar, a ponto de se esquecerem do dever de julgar.
Está feito, Sr. Presidente, o necrológico do morto eleitoral que deixa esta Casa honrado pelas atenções que aqui recebeu dos seus companheiros de representação, enriquecido pelas amizades que aqui formou entre brasileiros de várias regiões do Brasil, ilustrado pelas lições que aqui aprendeu. E que vai concluir, exclamando: "Ave, Câmara!" Mas "Ave, Câmara" anticésar, antidespotismo, antitirania seja de quem fôr, inclusive a pior de tôdas, que é a dos plutocratas. O cesarismo econômico. O cesarismo financeiro. O cesarismo do dinheiro.
Ave, Câmara anticésar; os que morreram nas eleições de 3 de outubro te saúdam! (Muito bem; muito bem. Palmas. O orador é cumprimentado.)
Fonte: FREYRE, Gilberto. Adeus à Câmara. Discurso proferido na Câmara Federal,Rio de Janeiro, 8 nov. 1950.
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