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Assinatura de Gilberto Freyre
Discursos e Palestras  



A PROPóSITO DE JOSé BONIFÁCIO


Com a inferioridade da maior parte dos pronunciamentos de "Sociologia da política" que o Brasil vem despertando, nos últimos anos, da parte de estrangeiros, nem sempre idôneos, é natural que o brasileiro sinta a falta de um novo Bryce entre os atuais observadores europeus e anglo-americanos das suas instituições. Mesmo um semi-Bryce seria bem-vindo.

Bryce, num livro - South America - que data de 1910 e continua notável como obra de observação, por um inglês de alto porte, de homens e coisas da América do Sul, soube distinguir no brasileiro - no seu comportamento político e nos antecedentes de suas instituições traços singulares que não Ihe pareceram se confundir com os característicos comuns às repúblicas de fala espanhola do continente. Onde - por exemplo - nessas repúblicas - na própria Argentina e no próprio Chile - um estadista, um diplomata, um condutor da política exterior, de nação não-européia, como o Barão do Rio Branco, a seu ver "remarkable in any country"?

Tivesse Bryce se aprofundado no estudo do passado brasileiro e teria pensado o mesmo, com ainda maior fundamento, de José Bonifácio de Andrada e Silva. Onde, entre os fundadores de nações na América Espanhola, um homem da mesma amplitude de inteligência e de saber, associada à capacidade de ação política, do paulista de Santos desdobrado em panbrasileiro pelas perspectivas e pelas preocupações que foi Bonifácio?

Parece que em nenhuma. Com ele só podem ser exatamente comparados um Thomas Jefferson, um Benjamin Franklin, um Alexandre Hamilton: homens públicos dos começos nacionais dos Estados Unidos da América. Nem mesmo Bolivar é da mesma rara estirpe de construtores de sistemas nacionais de organização e de convivência, a que pertenceu um José Bonifácio, infelizmente desconhecido pelo arguto Bryce. A estirpe raríssima dos Jefferson, dos Franklin e dos Hamilton.

0 historiador-sociólogo inglês lembra, numa das páginas mais lúcidas do seu South America, não se poder esperar que instituições políticas bem sucedidas na Suiça, na Inglaterra, nos Estados Unidos funcionassem, com igual êxito na América ibérica do século XIX. Incapacidade inata dos ibero-americanos para essas formas tidas então por superiores de organização política? Não, responde, com um justo senso sociológico; e sim por não terem esses mesmos ibero-americanos atravessado as mesmas experiências que predispuseram aqueles outros povos para o exercício de instituições democrático-parlamentares e, no caso dos suiços e dos anglo-americanos, republicanos.

E Bryce nota que dois dos maiores líderes ibero-americanos de língua espanhola se aperceberam do problema: um problema que em moderna linguagem sociológica poderia ser caracterizado como de ecologia social. Ou sociocultural - a totalidade sociocultural compreendendo quer o fenômeno simplesmente político-jurídico, quer o apenas econômico.

Daí destacar Bryce que Bolivar pretendeu resolver o problema por meio de uma espécie de monarquia eletiva e vitalícia ("elective life monarchy"), da qual o monarca fosse o próprio Bolivar. Enquanto San Martin não hesitou em preferir como solução que evitasse excessos demagógicos uma "república oligárquica" ("an oligarchic republic"). Ao que acrescentou o ilustre inglês o comentário: "qualquer das duas soluções teria sido melhor que as seguidas (na América Espanhola).

Precisamente no trato desse difícil problema de transplante mais-que-político e muito mais que simplesmente jurídico - de ecologia. social - é que José Bonifácio afirmou-se supremo no seu bom senso Johnsoniano de homem de gênio. Ou no seu senso da realidade: a realidade ambiente. Uma realidade, no Brasil, singular: extraeuropéia sob muitos aspectos sem deixar de ser européia noutros e estes, os politicamente decisivos como formas. Orientou José Bonifácio a organização do Brasil independente para a solução monárquica que era uma forma sociologicamente européia de resolver uma situação, em seu conteúdo, ou em sua substância, parte européia, parte extraeuropéia. Uma solução que boje se poderia dizer ter sido euro ou lusotropical, com o papo de tucano, liturgicamente característico da dignidade brasileira de imperador, associando o trópico, o indígena, o ameríndio, a uma instituição formalmente européia. Tão formalmente européia que impediria o aparecimento no Brasil de caciquismos do gênero, durante anos, tão presente e atuante, na América espanhola, como que a tropicalizá-la, no mau sentido, através de arremedos de Bolivar - o caso do próprio e por vezes heróico, nos seus ímpetos, Solano Lopes; e a deseuropeizar essa América criada por espanhóis sem substituto idôneo da forma européia de governo unificador de diferenças. Governo unificador tão necessário à mesma América quanto à portuguesa.

Pode-se sugerir da América espanhola que suas independências nacionais se fizeram tendo por líderes, por vezes, maus imitadores - antes inconscientes do que conscientes, é claro - do Quixote, desapercebidos do fato de que, na criação de Cervantes, o herói ostensivo está incompleto sem o obscuro, que é o como que anti-heróico Sancho. Só os dois juntos, um se acrescentando ao outro, representam aquele poder ibérico de realização de obras monumentais e até aparentemente fantásticas de que é exemplo tão expressivo a Companhia de Jesus. Não a S.J. dos seus dias de degradação sob comandos não-ibéricos mas o da grande época do próprio Ignacio de Loiola e dos seus seguidores, ou espanhóis ou portugueses, ou espanholizados ou lusitanizados. Nessa época, a Companhia agiu, inovou, foi revolucionária, em benefício da conservação de valores Católicos ameaçados pela revolta ou rebelião Protestante, através de métodos de ação em parte quixotescos, em parte de um realismo por vezes prosáico, no seu modo de acrescentar o bom senso pedestre dos sanchos às audácias do cavaleiro bravamente arcaico na sua defesa de valores ameaçados de uma morte que, total, importaria no desaparecimento da civilização ibérica.

José Bonifácio, como libertador, como organizador do Brasil sob a forma de nação independente, como fundador de um império aparentemente arcaico ou exótico no meio de repúblicas aparentemente de todo progressistas, modernas, americanas, agiu como se, nele, um Sancho realista, científico, "técnico em idéias gerais", completasse, ou fosse o "poder moderador", de um Quixote ao mesmo tempo revolucionário e arcaico nos seus ímpetos e nas suas atitudes.

Os dois monarcas que podem - e devem - ser incluídos entre os organizadores do Brasil como nação-estado soberano - Dom João VI e Dom Pedro I - tiveram que ser dois - um Sancho, outro Quixote - para se completarem. José Bonifácio que foi o organizador máximo do sistema nacional do Brasil reuniu as duas tendências - a realista e a romântica, a conservadora e a revolucionária, a aparentemente arcaica e a, para a época, potencialmente pós-moderna - numa só e rara personalidade do tipo que Thomas consideraria criador - genialmente criador - sem que lhe faltasse um toque de boêmio. Sem que - embora menos e menos ostensivamente que o exuberante Dom Pedro I - deixasse de ser um cortejador de mulheres bonitas como que necessitado delas e de suas ternuras de belo sexo para que sua criatividade não perdesse nunca o verde vigor; ou se deixasse de todo acinzentar sob o domínio das virtudes corretamente burguesas que distinguiriam seu semi-discípulo Dom Pedro II.

Ao que em José Bonifácio foi contradição, diversidade, possivelmente conflito, dentro de uma personalidade, repita-se que rara, de criador, com um toque apenas, dionisiacamente boêmio a humanizá-la e a impedi-la de se endurecer em figura olímpica ou apolínea, deve, em grande parte, o Brasil a imensa vantagem de ter se constituído em nação, ou Estado soberano, de maneira também rara, contraditória, única, por que se constitui. As circunstâncias Ihe favoreceram a obra de arte, ao mesmo tempo que de ciência, política, é certo. Mas sem que as circunstâncias, assim favoráveis, prescindissem do saber, da sabedoria, da ciência, da arte, da capacidade de ação que, reunidas excepcionalmente em José Bonifácio, Ihe permitiram agir ou proceder excepcionalmente a favor da independência brasileira e da organização do Brasil num tipo de nação, ou de Estado soberano, único no mundo de então. E que, pela sua singularidade, favorecia o desenvolvimento, na América, de um Brasil ao mesmo tempo uno e plural no seu modo nacional de ser, quer sociedade, quer cultura.

Que saber, em José Bonifácio, o predispôs à sabedoria? Que ciência Ihe permitiu ser artista plasticamente político sem deixar de ser como foi, um tanto pioneiramente, um quase cientista social?

A resposta a tal pergunta nos leva a considerar o futuro organizador do Brasil como sistema nacional de convivência, não o puro produto, que nele têm destacado alguns dos seus biógrafos mais ligeiros, de uma formação norte-européia de todo técnica ou científica, mas a expressão, desde de muito novo e em São Paulo, de um humanismo tocado de ciência, como era, no Portugal e no Brasil daqueles dias, o dos Franciscanos. 0 humanismo que, na sua parte científica, guardou no próprio século XVIII, entre certos portugueses e alguns brasileiros, de um ultrapassado nominalismo, aquela consideração pelos "particulares" que havia animado em Franciscanos - homens ao mesmo tempo de estudo e de ação - a coragem de ser antiaristotélicos com relação a espaços não-europeus; e feito de alguns deles orientadores valorosos dos descobrimentos portugueses e espanhóis. De José Bonifácio informam biógrafos idôneos - um deles, o seu conterrâneo Breno Ferraz do Amaral, em páginas das mais esclarecedoras sobre a infância e a juventude do grande paulista - que recebeu a influência, nos seus verdes anos, desse humanismo científico. Isto é, recebeu tal influência, na sua educação, ainda no Brasil. Dentro, portanto - acentue-se o fato para não haver equívocos a esse respeito - do complexo de cultura intelectual que então se estendia de Portugal à imensa parte da América e de trópico sob seu domínio, comunicando-lhes não só arcaismos perniciosos como uns poucos, porém, significativos valores vindos dos séculos XVI e XVII.

José Bonifácio já seguiu do Brasil para a Europa juntando ao conhecimento de letras humanas a curiosidade, o ânimo, o espírito científico. Já sendo, em estado germinal ou potencial, humanista científico.

Esse ânimo o levaria a, na Europa, juntar à continuação de estudos de caráter humanístico - inclusive jurídicos - o aperfeiçoamento nos de ciências chamadas naturais. Foi para aperfeiçoar-se nessa especialização - em ciências naturais - que, de Portugal, passou ao Norte da Europa, tendo, na Alemanha, adquirido alguma coisa não só de especialista mas de generalista. Alguma coisa de generalismo germânico - anterior aos furores de especialismo que Eça caricaturaria no famoso Dr. Topsius, Ph.D. - que se harmonizaria com o humanismo científico em estado germinal, a ele transmitido no Brasil por seus mestres de feitio Franciscano.

Para ser o idealizador extraordinário, que foi, da organização nacional de um povo misto de europeu e de não-europeu, de civilizado e de telúrico, de ibérico e de tropical - tarefa múltipla: complexamente social e não apenas política ou jurídica - José Bonifácio foi favorecido por duas circunstâncias, também extraordinárias, na sua formação: uma, a de, no Brasil, ter sido aluno, não de Jesuítas, de um período de educação jesuítica, tão inimiga de qualquer ânimo mais livremente criador, fechado a novas e revolucionárias ciências; outra, a de haver, desde Coimbra, dado predominância, nos seus estudos superiores, não à jurisprudência mas às ciências naturais. Predominância que Ihe permitiu escapar da tirania, sobre sua inteligência, do bacharelismo jurídico e, sem desprezo pela jurisprudência, ganhar perspectivas de saber científico capazes de o orientarem para o trato, quanto possível objetivo, não só de assuntos minerais, naturais, geológicos ligados à condição tropical, não-européia, do Brasil, como de problemas humanos, sociais, culturais - inclusive econômicos, políticos, jurídicos - ligados à mesma condição do seu país. Daí o seu humanismo científico de origem brasileira, ter adquirido, através dos seus estudos superiores, na Europa e dos seus contatos com a Alemanha e com a Suécia, novos vigores. Com esses novos vigores, acentuou-se no grande paulista de Santos a predisposição a tornar-se, na América, um novo tipo de líder mais que político: de organizador, no Brasil, não só de um Estado soberano, como de uma nação a cujo elemento europeu, étnico e cultural, se viesse a incorporar o ameríndio e - é provável que assim pensasse - com a abolição, o próprio negro. 0 próprio negro africano. Pois a tanto parece ter chegado a visão de quase futurólogo, com relação ao seu e nosso país, de José Bonifácio. Isto numa época em que raros pensadores políticos, na Europa e no próprio Brasil, seriam capazes de conceber como socialmente válido um futuro nacional extra-europeu que viesse a valorizar de tal modo o elemento não-europeu de etnia e de cultura, que essa valorização importasse num Brasil, como nação civilizada, só em parte europeu; e cuja consolidação não se fizesse sem que ao seu capital humano se incorporasse o ameríndio e, com o tempo - parece ter pensado Bonifácio -o negro. Sobretudo - deve ter pensado - o mestiço.

Gobineau ndo tardaria a, no próprio Brasil - onde esteve como representante do seu país - impugnar tal arrojo de imaginação futurológica. A seu ver o Brasil se dividira em dois: um europeu e outro não-europeu. Um de brancos, outro de gente de cor.

Dos dois quase futurólogos, José Bonifácio se apresenta atualmente como o que mais lucidamente entreviu o desenvolvimento do Brasil numa população e numa cultura nacionais que, mais do que qualquer outra, dentre as para ele, futuras, se aproximaria - e se aproximaria em escala monumental, a despeito de dificuldades consideráveis na realização de um "tipo ideal", em qualquer sentido da expressão - de uma democracia, além de social, meta-racial. Democracia meta-racial, que seria do agrado de Bonifácio, se a tivesse imaginado no seu tempo. Dominado crescentemente por uma consciência na qual, cada dia, a caracterização de sua gente por traços ou sugestões de tipo racial é menos significativa e mais ampla -semântica e sociologicamente ampla a caracterização meta-racial - o Brasil vem se tornando, por sua morenidade, com possibilidades de se tornar total; capaz de incluir, sociologicamente, os próprios sobreviventes, cada vez mais raros, de etnias puras, dentre as que originalmente concorreram para formar a população, primeiro, pré-nacional, depois nacional - a negação de místicas ou de mitos como o da branquidade, o da negritude ou mesmo o da americanitude exaltadora do ameríndio.

Não há exagero em sugerir-se que com esse destino social do Brasil chegou a sonhar acordado, com olhos quase de sociólogo ou de antropólogo ou de futurólogo e mais do que qualquer outro político brasileiro, o santista de inteligência e de saber múltiplos; e, por isto mesmo, capaz de transferir não só seu espírito científico de mineralogista, em particular, como de modo geral, sua imaginação da hoje chamada científica, para o estudo, além de humanístico, científico, daquelas realidades humanas e daqueles problemas sociais que a nação brasileira, necessitada de firmar sua independência com recursos próprios, embora sob a benevolência imperialmente britânica, teria que resolver a seu modo. Problemas de caráter sociológico. José Bonifácio, mais do que qualquer dos denominados libertadores sul-americanos, antecipou-se em juntar à sua ação especificamente política senão realizações, previsões das que poderiam ser hoje consideradas de engenharia social. Noutras palavras: de sociologia aplicada embora, nos seus dias, não houvesse senão em estado de nebulosa uma sociologia com aspirações a ciência.

Nessa aplicação de um como espírito cientificamente social senão ao trato, à definição, com vistas a futuros prováveis, de problemas peculiares à sociedade do seu país e condicionados por uma ecologia e por uma cultura diferentes das européias, José Bonifácio foi também um antecipado quanto ao critério que seguiu: o de considerar, em tais problemas, essas diferenças é impressionante como um brasileiro por tanto tempo ausente do seu país a ele regressou - para tornar-se seu libertador - tão livre de europeísmos que fizessem dele, mesmo sob o aspecto político de autonomista e de nacionalista, um subeuropeu em face de circunstâncias especificamente brasileiras.

Há quem destaque nele um homem influenciado pela Revolução Francesa. A essa influência, José Bonifácio não terá sido, de modo algum, estranho. é possível que seu próprio afã com relação ao selvagem - ao ameríndio de raça supostamente inferior - e a sua incorporação à sociedade brasileira ou à civilização ocidental, resultasse, em parte, da influência da então "grande Revolução". Dos seus princípios de "igualdade" e de "fraternidade". Mas o que a atividade de José Bonifácio, no Brasil, revela, é um político - político menos jurídico que social - diferente tanto do tipo afrancesado que, naqueles dias, surgiu no Brasil do mesmo modo que, anticastiçamente, em Portugal e na Espanha, como do de feitio convencionalmente conservador. Daí haver quem saliente nele um "absolutista", "um autoritário", "um pró-portugues".

A verdade é que suas idéias, suas atitudes, seus atos foram os de um contraditório revolucionário-conservador. Nunca foi, diante das circunstâncias singularmente brasileiras dentro das quais teve de proceder, nem um puro revolucionário nem um ortodoxo conservador; e sim um misto dessas tendências, por ele combinadas a sua maneira - Josebonifaciamente - e conforme o variar de circunstâncias. Pois plasticidade anticircunstanciais de meio e de tempo sociais não Ihe faltou de todo, embora não seja fácil imaginá-lo rival, nesse particular, de um Bernardo Pereira de Vasconcelos.

Como revolucionário é que José Bonifácio se apresenta como campeão, menos a la Rousseau que à sua própria maneira, do "bom selvagem", de resto já há muito presente no sangue de algumas das famílias mais autenticamente fidalgas e mais teluricamente brasileiras de Pernambuco, da Bahia, de São Paulo, do Maranhão. Como conservador há quem o considere, de início, "o nexo vital" entre um "príncipe vacilante" - o futuro D. Pedro I - e a "aristocracia agrária" do ainda Reino: aristocracia que seria força preponderante a favor da independência brasileira. é a conclusão a que chegou do seu estudo meticulosamente germânico das circunstâncias sociais em que se processou essa independência, o historiador Ernst Samhaber no seu Sudamerika. Teria sido, entretanto, José Bonifácio, o "defensor de latifundiários " que nele parece entrever o historiador alemão? 0 conjunto de suas idéias e de suas atitudes, senão de revolucionário, de reformador social, não nos autoriza a concordar com tal insinuação. Como considerar-se "defensor de latifundiários" - ou dos latifúndios do Brasil de 1822 - quem tão desassombrado se anteciparia em advogar a abolição da escravatura? 0 fato de ter reconhecido a necessidade de apoiar-se o movimento da independência brasileira na aversão aos reinóis instalados no Brasil - gente, quando não revestida de cargos oficiais, comerciante, dona das finanças, solidamente urbanita - dos também sólidos e atuantes senhores das casas-grandes patriarcais de fazendas, de engenhos, de estâncias, parece indicar apenas em José Bonifácio um político com aquela sabedoria de contemporização e aquele senso de oportunidade sem os quais não há verdadeira arte política. Pois predominantemente quixotesco, o paulista não foi. Teve belos rompantes desse gênero sem ter sido um quixote constante ou puro. Daí o contraste de sua personalidade com a do mais dramático, mais ostensivo e até mais teatral - o que não diminui, de modo algum, o seu valor, apenas define o seu tipo humano - do outro e hoje mais aclamado libertador: o Príncipe Dom Pedro. Aquele em quem têm reconhecido biógrafos idôneos, como Pedro Calmon e Sérgio Correia da Costa, que com todos os seus "erros crassos" foi homem capaz de sutilezas políticas. E cujo conhecimento de assuntos políticos - inclusive os teóricos - Octavio Tarquínio de Souza, em páginas magistrais, demonstrou ter sido considerável, desfazendo o mito de sua total ignorância de homem só instinto e até apenas sexo.

Não nos esqueçamos - voltando à insinuação de ter sido José Bonifácio um conservador ligado aos interesses latifundiários patriarcais das casas-grandes - que a Revolução Republicana de 1817, em Pernambuco, se fez, em grande parte, com o apoio de padres-humanistas formados no Seminário de Olinda e senão helenistas, como José Bonifácio, como ele latinistas, isto é, aristocratas do saber; e também com o auxílio de senhores de engenho; descendentes daqueles fidalgos olindenses - já há várias gerações teluricamente brasileiros - que, no século anterior, se insurgiram de modo tão incisivo contra os mascates - ou reinóis - das lojas e dos armazéns do Recife de então. Além do que, a própria Inconfidência Mineira foi um movimento de doutores; isto é, de juristas, de humanistas, de latinistas. Como pretender-se que, no Brasil daqueles dias, se contasse principalmente com a entidade "povo" para movimentos que de fato resultassem na independência do Brasil, da metrópole portuguesa? Ingenuidade de historiadores liberais, distanciados pelo tempo e pelo espaço, de acontecimentos que vêm pretendendo interpretar sem se impregnarem de realidades para eles exóticas. Sem perspectiva sociológica, além de histórica, nas suas abordagens de tais acontecimentos.

José Bonifácio quis que, no Brasil, se formasse de fato, e não retoricamente, um povonação: uma sociedade e uma cultura que se afirmassem nacionais pela incorporação, nela, de elementos não-europeus e, é claro, proletários ou plebeus, acrescentados aos então aristocráticos, proprietários de terras, letrados, dirigentes. Isto ele evidentemente quis, sem resvalar nem em jacobinismos nem em populismos para a época, espúrios. "Ismos" que tornam apenas pitorescas figuras como a do demagogo Barata e a do próprio Borges da Fonseca.

Tão pouco foi um Pedro I mais velho, cuja figura se definisse principalmente pelos seus ímpetos de romântico e até de quixote. Ou por ostensivos dom-juanismos. Teve de um quixote o bastante para ser audaz em iniciativas, desinteressado de vantagens burguesas para si próprio, campeão de fracos ou desamparados: inclusive o selvagem do Brasil dos seus dias. E também os escravos negros.

Sem ter Ihe faltado a flama erótica, não se extremou em Dom Juan tropical, como o outro. Se não foi exemplo de correção monogâmica, não se desmandou em excessos: em libertinagem. Libidinoso terá sido a seu modo, discretamente. Libertino, de modo algum.

Quanto a ter sido sutil na arte política, não a seu favor, mas a favor do Brasil, não parece haver dúvida. Foi artista político. Soube bailar ou dançar como artista dessa espécie. Que o diga a solução monárquico-dinástica para a independência brasileira.

A seu favor, nunca foi nenhum sutil calculista de vantagens através de cargos importantes. Nunca se curvou a poderes dominantes, para colher benefícios da submissão. Ninguém menos passivo. Ninguém mais politicamente macho, no sentido convencional da expressão. Daí ter experimentado não só o exílio como a solidão em Paquetá.

Lenda que nunca se desenvolveu de todo foi a do "solitário de Paquetá" ter sido uma espécie de martir. Aura - a de martir - que completasse a glória do libertador. Do herói, na verdade máximo - mas até hoje menos aclamado pelos seus compatriotas do que merece - do movimento da independência. Ele, porém, comportou-se sempre como antimartir e até como antiherói, como que se antecipando em aceitar como natural, isto é, humana, a injustiça, contra ele, não só de contemporâneos como de pósteros.

Que nação moderna pode ufanar-se de ter tido, tanto o Brasil como seu fundador, figura tão completa na sua grandeza? Parece que nenhuma. Múltiplo, foi humanista, sábio, cientista natural, pensador social, poeta, soldado, político, estadista. Foi literalmente telúrico como geólogo e literalmente transatlântico pelo seu muito viver na Europa no desempenho de atividades honrosíssimas para o Brasil. Convivendo em pé de igualdade na Alemanha com europeus como Humboldt. Chamado a ensinar em famosos centros de saber.

Alguma coisa de goetheano na sua personalidade de homem múltiplo dá à sua grandeza de paulista que cedo se tornou pan-brasileiro uma dimensão transbrasileira. Dimensão rara em brasileiro de qualquer espécie e por uns poucos atingida como homens de uma grandeza só: Santos Dumont como inventor, Vila Lobos como compositor, Osvaldo Cruz, como m6dico sanitarista.

Detentor, por algum tempo, de imenso poder político, José Bonifácio não se inclinou nunca a tornar-se rasgadamente um caudilho. Ou um puro e cru ditador. Ou "chefe supremo" à maneira dos da América Espanhola. Não Ihe seduziu jamais, nesse particular, nem o modelo napoleônico nem o exemplo dos Bolivares, embora não seja inexata a acusação que Ihe fazem alguns dos seus críticos de ter sido homem público de feitio autoritário.

Autoritário, sim. Caudilhesco, não. Concorreu, assim, junto com a monarquia, para que se firmasse no Brasil uma tradição, ainda hoje em vigor, que repelindo caudilhos, consagra, nos governantes, o direito de juntarem a autoridade à responsabilidade no exercício do poder.



Fonte: FREYRE, Gilberto. A Propósito de José Bonifácio. Recife, 14 jun. 1972.

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