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Assinatura de Gilberto Freyre
Discursos e Palestras  



O BRASIL COMO NAÇÃO HISPANOTROPICAL
suas constantes e suas projeções transnacionais


      ...da instituição admirável que é o Club Athletico Paulistano -Clube que tanto me faz pensar naquela combinação magnifica de atletas com estetas que é Oxford, pois aqui aos esportes se junta o culto pelos valores estéticos: pela música, pelo teatro, pela dança, pela literatura...

Gilberto Freyre

INTRODUÇÃO

Um dos acontecimentos marcantes da vida do Club Athletico Paulistano foi a conferência realizada pelo grande sociólogo e antropólogo brasileiro, Doutor Gilberto Freyre, abrindo pela primeira vez aos associados o Auditório, a 10 de outubro de 1975.

Para o ato foram convidados os institutos culturais de São Paulo e foi numeroso e seleto o público que acorreu ao Paulistano.

A mesa que dirigiu os trabalhos teve a presidência do Dr. Luis Ferraz do Amaral, presidente do Paulistano e, além do Prof. Gilberto Freyre e Senhora Dna. Magdalena Freyre, foi ocupado pelas seguintes personalidades: Acadêmico Tito Livio Ferreira, presidente da Academia Paulista de História, Eng. Mário Lopes Leão, presidente do Instituto de Organização Racional do Trabalho, Prof. Antonio Ferreira Cesarino Jr., presidente da Academia Paulista de Direito, Sra. Lucia Piza de Melo Falkenberg, presidente do Instituto Histórico e Geográfico Guarujá Bertioga, Acadêmico José Pedro Leite Cordeiro, presidente da Academia Paulista de Letras, Ministro Pedro Marcondes Chaves, vice-presidente do Club dos 21 Irmãos Amigos, Acadêmico Aureliano Leite, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Acadêmico Raymundo de Menezes, presidente da União Brasileira de Escritores, do Sr. representante do Secretário de Cultura da Municipalidade, do Eng. Lauro de Barros Siciliano, diretor do Instituto de Engenharia, do Ministro Gualter Godinho, presidente do Tribunal de Justiça Militar, Dr. Augusto Trigueirinho, presidente do Instituto Genealógico de São Paulo, Dr. Jessy Santos, diretor do Instituto Brasileiro de Filosofia, Prof. J. Fernandes Soares, presidente do Clube dos Estados, Dr. Divaldo Gaspar de Freitas, diretor do Pen Club.

A reunião foi aberta com as seguintes palavras de boas vindas do Dr. Ubirajara Martins, diretor cultural do Club Athletico Paulistano:

"é com alegria que nós do Paulistano sentimos que os objetivos primeiros deste Clube - dar entretenimento, saúde e cultura - se desenvolvem, lado a lado com êxito e exuberância.

Hoje é um dia que ficará marcado em sua história tão ligada a tudo que acontece em São Paulo. Dois fatos gravarão com marcas eternas esta data: a abertura deste auditório aos sócios e a presença de Gilberto Freyre, o homem que pela sua inteligência, pela sua cultura, e visão objetiva do que nos cerca, viveu e viverá sempre em nossa admiração.

Com prazer, em nome da Diretoria, saudo e agradeço a honra que os presentes nos dão vindo a esta Casa. Autoridades, presidentes e representantes das instituições culturais de São Paulo e com um carinho muito especial a presença do grande brasileiro Gilberto Freyre, homenagem que estendemos com o maior respeito a sua Exma. Esposa Dna. Magdalena Freyre".

O Dr. Gilberto Freyre recebeu em seguida, das mãos da Sra. Lucia Piza de Melo Falkenberg, presidente do Instituto Histórico e Geográfico Guarujá-Bertioga, a comenda "Martin Afonso de Souza"; do Acadêmico José Pedro Leite Cordeiro a "Cruz do Anhembi", da Sociedade Amigos da Cidade e do Dr. Luis Ferraz do Amaral, o escudo do Paulistano.

Tomou a palavra para saudar o conferencista em nome dos Institutos Culturais de São Paulo, o acadêmico José Pedro Leite Cordeiro, presidente da Academia Paulista de Letras.

Ao encerrar a reunião o presidente do Paulistano, Dr. Luis Ferraz do Amaral, salientou a rara oportunidade que tinha o Club de abrigar um brasileiro tão ilustre como é o Doutor Gilberto Freyre.

 

SAUDAÇÃO AO DOUTOR GILBERTO FREYRE
FEITA PELO PRESIDENTE DA
ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS
ACADÊMICO JOSÉ PEDRO LEITE CORDEIRO

Sr. Gilberto Freyre:

0 momento de meditação sobre o Brasil que nos vai proporcionar, é oportuno para agradecermos o que fez o senhor em benefÍcio da cultura e inteligência pátria e o quanto permitiu e possibilitou a estrangeiros e brasileiros melhor conhecerem a nação, esse Brasil espalhado em "Casa Grande e Senzala", "Sobrados e Mucambos", "Região e Tradição", "Ordem e Progresso", e tantos outros estudos que nos levam aos recônditos da raça e mostram o valor do povo que nos deu origem. Ai estão "0 Mundo Que o Português Criou", "Aventura e Rotina", "0 Luso e o Trópico", juntamente à europeização, à tropicalização, à miscigenação, aos fatores e circunstâncias que, amalgamados, fizeram e formaram alicerçaram e estruturaram o País. Lado às questões e problemas antropológicos, emergem "A ampla morenidade étnica", a evolução de nosso patriarcado, o nosso desenvolvimento rural e urbano vindo desde o trabalho escravo até ao trabalho livre, e chegando à própria Brasília, marca de audácia e coragem.

E Gilberto o fez através de documentos, mapas, álbuns de fotografias, anúncios, recortes de jornais, cartões postais, questionários, visitas a velhos sobrados e casarões ouvindo pianos de cauda, bandolins e flautas é então há muitos anos silenciosos. Chamavam-lhe as atenções as bonecas e brinquedos, a arte culinária d'antanho, os cadernos de receitas como daquela filha do Senador Vergueiro e avoenga de minhas netas. Era livro de receitas manuseado pelas sinhás da fazenda Ubicaba onde o Senador ensaiou colonos estrangeiros no trato agrícola paulista, e que Leandro Arroyo está entusiasmado em publicar pelo Conselho Estadual de Cultura.

Interessaram-lhe os versos nos leques e ventarolas de nossas avós, os diários, os testamentos, poeirentos almanaques, livros de família como o que meu avó materno guardava no gavetão da cômoda que eu, na infância, tinha dificuldade em abrir e, se abria, não conseguia fechar, dificuldade impossível de vencer sózinho mas enfrentada para ler o livrão do registro de nascimentos, batizados, crismas, casamentos, apadrinhamentos, viagens, mortes, visitas, passeios dos integrantes da numerosa família sediada à rua Ferreira Penteado na gloriosa Campinas inicialmente chamada vila São Carlos como anotara o meu avó Pedro.

E foi assim nesse pesquisar que Gilberto levantou a vida brasileira do pretérito, dando importância não à história cronológica e sim ao papel da mulher, do lavrador, do intelectual, do artista, do industrial, do escravo, do artesão, do adolescente, da criança, na elaboração do viver humano que nada mais é do que a real história do homem. Como ele mesmo disse: isso tudo o contagiou do ambiente predominantemente patriarcal em que gerações após gerações viveram, divertiram-se, trabalharam, amaram. Era um difícil esforço com alguma coisa de aventura, era a busca de um pequeno nada que iluminava de grandes luzes as sombras de um tempo morto. E brotou de sua obra a interpretação do passado íntimo do homem nacional através do seu existir. Surpreendeu e trouxe para o palco de nossa visão o homem brasileiro em várias áreas e diferentes tempos, e dela, da obra de Gilberto Freyre, assomam o barão do Império, o senhor de engenho, o fazendeiro de café, as sinhás e sinhazinhas, as mucamas, as quituteiras do cuscuz, do doce de abóbora e batata roxa, das cocadas e pés de moleque, dos quindins de yayá e tantas outras deliciosas guloseimas como o beijú, o bolo de fubá, que mais nos fazem sentir a presença do Brasil. Lá também estão o médico, o advogado, o engenheiro, o cônego, o funcionário público e nem sei mais quem pois até as mulheres de vida alegre já velhinhas Ihe prestaram depoimento. Isso tudo para compreender o "ethos" brasileiro.

Assim, dessa maneira, Gilberto amou e ama a sua terra e a sua gente que são a nossa terra e a nossa gente. E o seu coração brasileiro de Pernambuco palpitou intensamente quando seu pensamento debruçou-se sobre as páginas daqueles guias sentimentais de Olinda e Recife, nomes que evocam o heroismo dos homens e mulheres da beira do Capibaribe e Beberibe ao ser expulso o invasor holandês. E, quando alguém do Planalto de Piratininga reuniu em volume documentação alentada patenteando que, na luta seiscentista, ocasião na qual os brasileiros marcavam uma das suas primeiras epopéias no longíquo nordeste daquele tempo, São Paulo não esteve ausente e sim presente e, na medida de suas forças, levou aos irmãos do norte o que Ihes podia oferecer em solidariedade e apoio em mais uma prova de brasilidade e amor à Pátria que se formava... pois bem, foi então quando a voz de Gilberto Freyre se levantou em favor da verdade histórica, da real existência passada daquelas cooperação e colaboração paulistas fazendo com que se calassem e apagassem em definitivo as vozes e os clamores contrários. Entre outros mais um grande serviço prestado a São Paulo e à verdade.

Hoje, o Club Athletico Paulistano, um dos mais lídimos baluartes da sociedade paulista, agasalha o Sr. Gilberto Freyre. A familia alvirubra não poderia de melhor maneira comemorar os seus sententa e cinco anos de glórias e vitórias ofertadas a São Paulo e o Brasil pois entre os atos assinalados da efemeridade registra-se a presença de Gilberto Freyre. Sentimo-lo assim para gaudio nosso, pisar novamente o solo piratiningano esse mesmo solo de onde partiram Raposo Tavares, Luis e Valentim Pedroso de Barros, Alberto de Oliveira d'Horta e muitos outros de nossos antepassados ern defesa do chão sagrado dos ascendentes do Sr. Gilberto Freyre.

Conferencista internacional, doutor Honoris-Causa de muitas universidades estrangeiras e nacionais, inúmeras vezes chamado a participar de conclaves e mesas redondas para discutir problemas mundiais, e fazendo-o em companhia de Huxley, Madariaga, Raymond Aron, Curvitch, e outras celebridades da inteligência universal, considerado um "Proust mais vigoroso que o francês", recusando càtedras universitárias no estrangeiro e no próprio país, sua obra objeto de seminário em Cerisy e análise e estudos na Sorbonne em Paris e na Universidade de Columbia nos Estadas Unidos, colocado na mesma categoria de um Tolstoi, criador de novas ciências como lusotropicologia, a tropicologia, estudos já assinalados como de orientação gilbertiana ou eurotropical, criador do Instituto Joaquim Nabuco, premiado pela Academia Paulista de Letras, pelo Moinho Santista, pelos Diários Associados, pelo troféu Novo Mundo, para só falarmos nos prêmios paulistas, integrante de tantas entidades cultas, prefere, porém, o título de escritor e intelectual independente.

Sociólogo, antropólogo, reputação internacional, detentor das mais altas honrarias e Mureas no campo da cultura humanística, fundador e diretor de vários organismos que vivificam as tradições nacionais, que perenisam a memória de nossos valores, símbolos e significados, festejado e premiado novelista, com "D. Sinhá e seu filho padre", onde arte e técnica conquistaram de maneira original o difícil campo da criação literária, com suas obras traduzidas em vários idiomas", ninguém pode na atualidade vangloriar-se de conhecer o Brasil sem antes conhecer o pensamento de Gilberto Freyre que, além de glória nacional graças ao seu trabalho, à sua personalidade, "às realizações, à sua sapiência, além de glória nacional, é uma das mais belas e legitimas expressões da intelectualidade em toda a sua força e expressiva magnitude.

São Paulo orgulha-se por sabê-lo presente perlustrando os caminhos da cidade, chão também sagrado e glorioso, de Piratininga.

Salve Sr. Gilberto Freyre. Seja uma vez mais benvindo entre os paulistas.

CONFERÊNCIA DO DOUTOR
GILBERTO FREYRE
O BRASIL COMO NAÇÃO HISPANOTROPICAL:
SUAS CONSTANTES E SUAS
PROJEÇÕES TRANSNACIONAIS

Não há modas, apenas, de sapatos, de penteados, de vestidos. Também há modas de idéias, de ideologias, de teorias. A idéia de que devemos - os brasileiros - nos preocupar não só com os assuntos chamados afro-asiáticos e como, também ou principalmente com os da América espanhola é uma idéia que está na moda. Compreende-se, assim, que desperte a curiosidade de mestres e de jovens.

Devo salientar de início que há anos venho me interessando por tais assuntos dentro de um interesse mais geral: o de que a nós brasileiros, impõe-se melhor conhecimento das populações e das culturas situadas em áreas ou espaços, como grande parte da área ou do espaço brasileiro, tropicais - quer essas populações e culturas se situem na África, quer na Ásia, quer na América, quer na Oceania. São todas populações e culturas que têm precisado de considerar, ou então considerando hoje, problemas de ambiente e de ecologia, de descolonização e de desenvolvimento, semelhantes aos que vêm preocupando a gente brasileira. é evidente que parte da sua experiência, melhor estudada, pode ser útil à nossa gente. Evidente, por outro lado, que a experiência brasileira pode ser proveitosa a esses outros grupos humanos situados nos trópicos, alguns deles, recém-organizados em nações.

Acresce que alguns desses, grupos contribuiram étnica e culturalmente, uns, outros só ou quase que só culturalmente - mas eles de modo significativo - para o desenvolvimento do Brasil. é o caso principalmente, de vários grupos africanos. O caso dos indianos. 0 caso de árabes, mouros, judeus, através de espanhóis e de portugueses. Vem sendo, recentemente, o caso dos japoneses e dos sírios que sem serem nativos dos trópicos, vem se voltando para espaços tropicais como para novas e futuras pátrias.

Lembro-me de que, ao referir-me, em trabalhos já remotos, à contribuição cultural de negros da África para a formação brasileira, provoquei senão protestos, restrições, da parte daqueles intelectuais brasileiros então ainda pouco inteirados do sentido antropológico ou sociológico da palavra cultura. Protestos, também, contra a tese da importância - importância que fui dos primeiros a procurar sugerir - de ter sido maior do que se supunha, a influência de culturas asiáticas, como a indiana, sobre a formação da cultura brasileira. Curioso é terem, vindo algumas dessas restrições de intelectuais depois eminentes homens públicos; e, como tal, entusiastas da causa - pois é hoje uma causa da aproximação do Brasil com as culturas - pois já são tidas tranquilamente como culturas negras, da Africa, e com as civilizações do Oriente e, de modo particular, com hispanotropical. 0 que mostra que com o tempo mudam as idéias e as atitudes em homens capazes de ampliar sua compreensão de fatos.

Que motivo, porém, além dos somente emocionais e apenas políticos, de momento, temos para essa maior aproximação com outros, hispanotropicais? é assunto que precisa de ser considerado nas suas bases. E a consideração desses fundamentos, leva-nos de início à revisão de conceitos de Homem e de Cultura independente de sua ecologia.

0 conceito de Homem Abstrato está hoje, em grande parte, substituído pelo homem situado, que é um conceito partido do Brasil e proclamado como válido pelos doutores da Sorbonne. 0 Homem, que o antropólogo estuda, comporta-se em grande parte, situacionalmente. As instituições, os estilos de vida, as culturas que o Homem, assim situado cria, conserva, desenvolve, são instituições, estilos e culturas também condicionados por situações. Situações de espaço físico que se projetam sobre situações de espaço sócio-cultural, condicionando, em grande parte, não só o caráter de instituições sociais e de culturas como a sua distribuição no espaço; a posição de umas com relação a outras; a maior ou menor cooperação, a maior ou menor competição entre subgrupos e instituições que componham uma sociedade e constituam uma cultura. A todas essas situações, antropólogos e sociólogos vem concordando em denominar ecológicas. Ecologia natural e ecologia social.

Há - todos o sabemos - uma sociologia ecológica particularmente atenta às condições de espaço em que se processam competições ou cooperações grupos socioculturais em torno da procurada adaptação de um ou dos dois às mesmas condições de espaço. Verificam-se também: sucessão de grupo sociocultural por outro, expulsão de um grupo sociocultural antigo por grupo cultural adventício; subordinação de um grupo sociocultural a outro que se apresente dominante; simbiose entre grupo sociocultural nativo e grupo sociocultural adventício; distribuição, no espaço considerado, de instituições adventícias sobrepostas às nativas, de acordo com os critérios de valor que orientem o grupo a que essas instituições sirvam, com as instituições religiosas sendo, nuns casos, as mais importantes, noutros, as instituições políticas ou as econômicas; com as instituições do grupo invasor ou sucessor ou dominador ocupando no espaço posições mais prestigiosas que as do grupo invadido ou substituido no domínio político ou militar ou econômico do espaço dominado técnico ou economicamente.

Com essa sociologia ecológica coincide, em vários pontos, a situacional que não considera sociologicamente o Homem senão um indivíduo sociocultural situado. é um conceito, quanto a ser o brasileiro um homem principalmente situado em espaço tropical, que vem sendo desenvolvido, acentue-se sobretudo no Brasil como já o reconheceu a Sorbonne. E de modo sistemático, através de uma nova ciência - a Tropicologia - que tern há anos no Brasil o seu maior foco de estudo sistemático. Segundo esse conceito, o brasileiro seria condicionado em seu modo de ser não só biosocial, como principalmente sociocultural, pelas suas relações com o espaço biofisico em que vive e em que convive. Formas de comportamento e estilos de cultura se estabilizariam diferentemente em espaços diversos, por obedecerem a essas diferentes condições que se exprimem salientemente em diferentes formas da vida, de comportamento, de atitudes, de arte: as boreais divergindo ostensivamente das tropicais.

Quando coexistem num mesmo espaço biofísico, grupos de procedências étnicas diversas e de culturas diferentes, uns nativos, outros adventícios, os problemas de coexistência se exprimem em desajustamentos que só podem ser resolvidos por meio de ajustamentos que impliquern em se estender a coexistência em algum sistema de convivência, que pode ser tanto a miscegenação no plano biológico e a interpenetração de culturas, no plano sociológico, como a segregação, senão absoluta, rígida, tal como vem sendo oficialmente praticada entre brancos e pretos nos Estados Unidos, entre descendentes de europeus e não-europeus e descendentes de não-europeus na União Sul-Africana, e, há séculos, entre castas menos caracterizadas por diferentes tipos étnicos que por diferentes especializações de ocupação que se refletem em trajes, alimentos, formas de comportamento, status econômico, como os que existem na Índia, os que caracterizam como o Brasil, tropical.

Não faz muito tempo, em conferência proferida na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais, referi-me ao assunto como um dos mais significativos para a cultura brasileira sob a forma de cultura ibérica ou hispânica nas suas bases. Não só para essa cultura: para o próprio Brasil como, Estado-Nação, cujo desenvolvimento se processa, sobre aquelas bases, com alguns arrojos modernos; em espaço, quase todo, tropical ou quase tropical.

Não se trata - procurei acentuar naquela conferência e reafirmo agora, à base de contatos que tive em anos recentes com delegados de diferentes países à Organização das Nações Unidas, membro que fui da Delegação brasileira à Assembléia Geral de 1964 e, posteriormente, com alguns dos mais Iúcidos diplomatas ingleses do "Foreign Office", um deles, Lord Walston, por algum tempo Ministro Parlamentar de Assuntos Estrangeiros e eminente líder trabalhista no seu país - de tema abstratamente acadêmico, em torno do qual a bisantinice possa executar seus bailados de sociologia apenas retórica fazendo-se passar pela científica ou pela filosófica. Trata-se de problema que, definido em termos sociológicos, implica em nova e imediata responsabilidade política para o nosso País. Se somos, na realidade - como se sugere dentro dessa definição - parte de um complexo ou de uma constelação cultural que se projeta - em várias partes do mundo de hoje - um mundo em que as nações parecem cada dia valer menos como simples nações ou puros Estados nacionais e mais como conjuntos trans ou plurinacionais de cultura, em geral, e de economia, de política, de defesa militar, em particular - essa nossa situação abre à política exterior do Brasil perspectivas que, sem nos afastarem dos deveres já tradicionais de solidariedade com os Estados americanos, de origem não hispânica, levam-nos a considerar sob um critério, também de particular solidariedade, nossas relações com outros povos, afins do nosso por um conjunto especial de formas de cultura adaptadas a condições de espaço - o espaço tropical - semelhantes às brasileiras. Esses povos são os hispanos - os de procedência espanhola tanto quanto os de origem portuguesa - em geral, situados nos trópicos; e particularmente, dentro dessa constelação ao mesmo tempo ecológica e cultural, os povos de cultura predominantemente lusitana, estabelecidos no mesmo tipo de espaço e aí em parte integrados como que simbioticamente com outros povos, dado o caráter de intimidade e de permanência já atingido pelas suas relações com ambientes tropicais e com populações e culturas nativas dos trópicos: com seus sangues e com suas culturas.

Este o conceito em traços longos. Aceito, a nova solidariedade, além da vagamente sentimental, que se cria para o Brasil, com relação a povos, uns vizinhos, outros distantes de nós, no espaço físico, mas semelhantes a nós, pelos processos hispânicos de sua integração em terras quentes, é evidente que os brasileiros precisam de se tornar mais perceptivos com relação a tais afinidades: as hispânicas. As hispanotropicais.

Está hoje o Brasil em situação de pioneiro e, sob vários aspectos, de líder de um tipo de civilização moderna cuja especificação, tendo escapado à argúrcia inglesa do Professor Arnold Toynbee, não deixa por esse lapso de classificação da parte de tão insigne historiador-filósofo, de constituir uma nítida diferenciação das civilizações européias e euro-cristãs que em áreas como boreal e a temperada do continente americana ou mesmo a tropical, australiana, não passam de projeções europeias e etnocentricamente cristãs em espaços não europeus. Nessas projeções, ao contrário de simbiose, o que se encontra é o triunfo quase absoluto de outro processo Sociológico: o de sucessão de uma população por outra e de uma cultura por outra, aproveitando-se da população e da cultura substituídas tão pouco que esse pouco tem assumido, e ainda hoje assume, o aspecto paradoxal de exotismo nas suas próprias terras de origem. População e cultura sucessoras venceram as resistências das nativas por meios radicais de extermínio dai resultando sua atual situação, em áreas tropicais, de intrusos que, em grande parte, vivem vida de estufa ou de artifícios: vida de eternos domadores de eternas feras insubmissas a um domínio puramente europeu sobre os trópicos: mesmo quando, esse dominio se torna de nações independentes política e economicamente da Europa. Pois não se trata de simples colonialismo ou de mero anti-colonialismo mas de alguma coisa de mais complexo que essa, já agora superficial antítese marxista.

Não é de agora, mas de ensaio publicado em 1953, o afã deste conferencista de procurar distinguir o esforço colonizador do hispano, em geral, do português em particular, nos trópicos, do chamado "colonialista" - em que por vezes se deformou sugerindo, para caracterizar esse esforço, em contraste com os de outros europeus, a expressão "cristocêntrico", com um sentido, é claro, apenas sociológico; e visando antes uma definição que uma apologia. Mais: uma definição de predominâncias características de um comportamento; e não a definição desse comportamento em termos absolutos. Pois em termos absolutos seria uma definição inexata. Seria erro procurar-se reabilitar a figura do hispano, em geral, do português, em particular, como colonizador de terras tropicais, exaltando-a, idealizando-a, quase santificando-a. Reabilitação não significa, de modo algum, tentativa de canonização sociológica. Nem é uma apologética de hispanotropical que se pretende firmar através de uma Tropicologia geral ou, particularmente, de uma Hispanotropicologia ou, de modo ainda mais específico, de uma Lusotropicologia. E sim reunir evidências de que, harmonizando-se com ecologias tropicais, o homem civilizado não perde nem sua criatividade nem sua civilidade, por um lado, nem, por outro lado sua vitalidade.

A política hispânica, tem sido, quase sempre de pluralismo etnicocultural antes convergentes que apenas paralelo. E como tal, incluiu, durante séculos, a adoção, pelos europeus, de valores e técnicas, como a farinha da mandioca como substituto parcial do trigo; a rede ameríndia, como substituto também parcial da cama européia; da cerâmica ameríndia, como substituto ainda parcial da européia. Não somente isto: as próprias autoridades católicas-romanas foram, nos dias coloniais, em geral tolerantes para com elementos ameríndios e africanos de cultura tais como danças tribais em festivais da Igreja. Festivais que, devido ao clima quente, tornaram-se no Brasil e noutros países de colonização hispânica, reunes externas ou festivais de rua ou de largo de igreja mais do que cerimônias internas, de recinto fechado, no estilo das européias. Como resultado, os brasileiros, tanto quanto as populações cristãs de outras áreas tropicais colonizadas por portugueses, adotaram uma maneira de celebrar o Natal que se diferencia da do Norte da Europa; e que, se adapta nas suas formas tradicionais - presepe, lapinha, missa campal, pastoril ao ar livre - à ecologia tropical. Com esta não se harmonizam nem papás-Noel nem árvores de Natal dentro das salas. Este é apenas um exemplo da tropicalização que, entre escendentes e portugueses e espanhóis, vêm sofrendo ritos católicos e europeus.

Com essas adaptações de valores, europeus e de técnicas européias a condições tropicais e a valores e técnicas próprias de povos e de culturas tropicais, os hispanos e seus continuadores, no plano cultural, desenvolveram nos trópicos começos de civilização simbióticas que, já relativamente bem sucedidas na América, veem orientando desenvolvimentos semelhantes aos íberos-americanos em outras áreas tropicais, onde hoje emergem, com a descolonização, novas nações que tendem talvez, realizar combinações do mesmo tipo, sempre que admitem presenças européias.

É grande a responsabilidade do Brasil em relação a essas novas nações. Somos uma nação de configuração neo-ibérica, ou neo-hispânica, que, desenvolvendo em espaço tropical, uma civilização em grande parte européia, nos seus fundamentos, vem recriando essa civilização e criando um novo e vigoroso tipo não só de sociedades já agora ou no seu próximo futuro, metaracial, como de civilização neo-cultural, a um tempo, eurotropical e biotropical desenvolvida em trópico úmido e em trópico árido, dentro de suas constantes ibéricas, ou hispânicas, das quais avulta não só a permanência como o avigoramento da latiníssima, na sua origem, mas já muito tropicalizada, língua portuguesa - cheia de indianismos e de africanismos - Como a língua nacional de brasileiros das mais diversas procedências étnicas e culturais. Inclusive a japonesa, cada dia mais presente na composição da população e no desenvolvimento de uma civilização que, sendo lusitana, ibérica ou hispânica, latina, nas suas bases e nas suas constantes, não se arreceia das contribuições que lhe possam vir de outras fontes de energia e de cultura, antes estima tais contribuições e os seus-valores. Que assim é que as civilizações já seguras de suas bases e firmes nas suas constantes se engrandecem e se enriquecem; e não fechando-se nessas bases e nessas constantes.

As idéias sobre tropicalismo em geral, e sobre Tropicologia, Hispanotropicologia e Lusotropicologia, em particular, partidas do Brasil e as sugestões, também partidas daqui, acentuam ser o mesmo Brasil parte de uma complexa civilização ecologicamente tropical. Uma civilização ao mesmo tempo transnacional e interregional, tendo por base essa ecologia e formadas por um conjunto de áreas, todas, tropicais, ou quase tropicais, interrelacionadas pelas suas condições ecológicas e pelos seus também comuns motivos essenciais de vida. E, ainda pelos seus processos, também eles comuns, de integração. Toda uma comunhão desenvolvida através do tempo histórico, nos trópicos, quer úmidos, quer áridos, vem se desenvolvendo dentro de condições tropicais e motivos e processos predominantemente hispânico-tropicais de vida. Tais situações veem sendo consideradas em vários trabalhos deste conferencista. Alguns desses trabalhos ainda inéditos, como a conferência que proferiu na Universidade do Escorial, na Espanha sobre o Brasil como nação duplamente hispânica; as conferências que pronunciou sobre o assunto, na Universidade de San Marcos, no Peru; as que leu no Recife, na Bahia e no Rio de Janeiro; as preleções lidas em universidades européias e dos Estados Unidos, notadamente as que constituiram todo um curso professado na Universidade de Salamanca. Publicadas como "notas prévias" a um novo conceito de tropicalismo se acham as conferências que proferiu no remoto ano de 1951 no Instituto Vasco da Gama, em Gôa, e, logo após, na Universidade de Coimbra.

Note-se que, para este conferencista são conciliáveis, senão incompátiveis, as duas posições do Brasil como participante, no plano internacional, de dois complexos interregionais, diferentes mas, em vários pontos, complementares, de civilização moderna: o interamericano e o intertropical, este, tendo por base, do ponto de vista da maior conveniência brasileira, um conjunto hispanotropical de civilizações nacionais e regionais afins e capazes de constituir federações, e talvez, vasta e complexa federação, hispanotropical, para o desenvolvimento e a defesa de interesse e de valores comuns.

O fato de ser hoje o Brasil um país com difíceis problemas a ser resolvidos dentro das suas fronteiras, nas suas áreas agrárias e até mesmo nos seus sertões ou espaços quase vazios, onde agora se ergue, no centro, a monumental Brasília - maravilha de arquitetura escultural construção com rapidez ianque e quixotismo hispânico por um Presidente dinâmico e começa a se desenvolver, no extremo Norte, obra talvez, mais grandiosa do que Brasília como parece ser autocolonização da Amazônia, não deve impedir a gente brasileira de assumir cada dia maiores responsabilidades transatlânticas. 0 Brasil não é só interior: é também nação atlântica. Oceânica. Marítima.

Há responsabilidades que Ihe conferem sua situação de meia-potência ao mesmo tempo americana e hispanotropical, ao mesmo tempo continental e marítima. Os êxitos de sua civilização moderna desenvolvida de modo predominantemente hispânico ou ibérico por uma população - repita-se - em grande parte, mestiça, em espaço, em grande parte tropical, que o digam. Responsabilidades de povo, por isto mesmo, mediador entre povos europeus e povos não-europeus, entre nações antigas, e já consolidadas, e nações jovens e ainda instáveis, como algumas da África e várias do Oriente; e, no continente americano, entre a América inglesa e a América espanhola.

No próprio setor da experimentação de formas de organização política, na qual se empenham novas nações africanas e asianas situadas em espaços tropicais, o Brasil é pioneiro na conciliação de técnicas importadas na Europa com circunstâncias próprias de sua situação não-européia. Que o diga o modo porque se tornou independente, conservando a forma monârquico-parlamentar de governo mas abrasileirando-a com seu próprio modo como que antiparlamentar do que fosse "poder moderador". Antecipou-se por essa sua maneira de conciliar o importado com as circunstâncias próprias, de sua situação ao que estão agora realizando ou procurando realizar novas nações africanas ao criarem seus próprios modos de ser repúblicas - como o Senegal, com o notável intelectual-estadista, do tipo de José Bonifácio, Leopold Senghor - ou de ser socialistas. Senghor já dizia em 1962 que o que se estava para desenvolver como socialismo na África negra nada tinha de comum com o socialismo europeu preconizado por Marx. Os neo-socialismos africanos utilizariam técnicas importadas da Europa mas de tal modo adaptadas à geografia, à história, à cultura, à psicologia das gentes africanas que seriam novas formas de organização social e de regímen político. é o caminho que vêm seguindo o Senegal,Tanzânia, Zâmbia, Zaire, Kênia. Leia-se a respeito o último número, de julho deste ano, da Revue Africcaine. Leia-se o que diz Sanghor no seu Lusitanidade e Negritude, que acaba de ser publicado no Rio. Vêm esses novos Estados-nações adaptando importações políticas da Europa às suas suas situações e formações históricas não-européias, africanas, tropicais. Recriando tais importações.

É o que, mais do que nunca, faz o Brasil, desajeitadamente censurado, por este seu arrojo experimental, politicamente ecológico, pelos Le Monde e pelos New York Times, de todos eurocêntricos ou Ianquecêntricos em suas concepções do que deva ser, em qualquer parte do mundo, democracia ou governo. Tal arrojo experimental não significa um Brasil anti-auropeu e sim um Brasil apercebido de que, em vários aspectos do seu comportamento sociocultural, tem que ser extra-europeu. Para o que o advertem há meio século aqueles seus pensadores e cientistas sociais, criadores, entre nós, de perspectivas sociológicas e antropológicas que, sem deixarem de ser ecumenicamente científico-sociais, são brasileiras, ecológicas, eurotropicais nas suas aplicações ou projeções ou adaptações.

São nações, várias das jovens repúblicas da África e do Oriente, ainda desorientadas e inseguras, e, por isto, anti-européias e até fazendo, algumas delas, da negritude - não é o caso de Sanghor - uma perigosa mística racista. A essas, como a outras nações novas, pode aproveitar a experiência de um Brasil há mais de século independente e há quatro séculos em desenvolvimento, primeiro pré-nacional, depois nacional, Como civilização de tendência etnicamente democrática e, por isto, em grande parte, mais que isto, metaracial, no trópico. E com uma arquitetura, com uma música, com uma pintura, com uma culinária, com um cristianismo, com um estilo de convivência, com uma higiene, com um foot-ball dionisíaco como um samba, em que se exprime um tipo de civilização novo. Novo, sobretudo por ser mestiço, sendo sempre nos sangues, nas interpretações de cultura. Interpretações que se afirmam numa cozinha que Blaise Cendras, o viajadíssimo Cendras, considerava, junto com a chinesa e a francesa, uma das três grandes cozinhas do mundo.

Sendo especificamente brasileiro, esse novo tipo de civilização é, nas suas características mais amplas, vigorosamente hispanotropical pelo que inclui de valores tanto portugueses como espanhóis integrado em ambiente tropical e misturado a valores mouros, ameríndios, africanos, sírios, e não apenas ingleses, franceses, italianos, alemães, poloneses, semitas, angloamericanos, também presentes em civilização tão complexa. Paradoxalmente quase se poderá dizer: tão singularmente plural, além de complexa. Pois a formação do Brasil - singularidade brasileira - foi duplamente hispânica: portuguesa e também espanhola.

Pode-se considerar característica brasileira e tendência para soluções, mistas de crises que vêm decorrendo de embate entre contrários; a tendência para harmonização ou equilíbrio desses contrários; a tendência para expressões de cultura, quer pré-nacional, quer nacional - cultura no sentido antropológico ou sociológico - nos mais diversos setores, que podem ser difinidas, sob o aspecto de expressões psicoculturais, como combinações de diferenças e até antagonismos.

São vários, os exemplos que podem ser apresentados e que mostram vir a cultura brasileira, se estabilizando - estalbilização relativa, porque uma cultura nunca se estabiliza de todo, a não ser quando deixa de existir e passa, a ser apenas história, arqueologia ou curiosidade de museu - em expressões mistas de um vigor sociologicamente híbrido. Expressões principalmente eurotropicais. Especificamente hispanotropicais. Combinações, várias delas de valores vindos da Europa com valores ameríndios ou procedentes da África e do Oriente. Adaptações, não poucas, de valores de procedência européia, oriental ou africana e condições especificamente tropicais, ou quase tropicais, brasileiras, de meio ou de ambiente.

Tais combinações e tais adaptações vêm se processando, quase todas, como aquela busca, consciente ou não, de ajustamento de contrários numa ordem social e num flexível sistema cultural sob vários aspectos, funcionais e experimentais, novos. Constituem elas manifestações de um processo social e culturalmente revolucionário.

0 Brasil vem se constituindo num tipo de sociedade e num estilo de cultura que representam tanto desvios - alguns deles, revolucionários - de ortodoxias socioculturais, como ousadias de civilização independente da européia, da qual foi criação principalmente política. Política e também econômica e, certamente, até certo ponto, étnica. Várias dessas ousadias criadoras, vêm importando em superações, também revolucionárias, das culturas não européias que concorreram para formação. 0 que há entre nós de ibérico, ou hispânico é ibérico ou hispânico tropicalizado num neo-ibérico, ou num neo-hispânico, em certos aspectos contrário ao original; e noutros, revitalizado pela nova ênfase dada a elementos subcivilizados absorvidos por gentes ibéricas ou Hispânicas de populações e de culturas não européias dos trópicos. Elementos, estes, intuitivos, espontâneos, por vezes exaltados, pelas gentes ibéricas ou hispânicas, nas suas culturas hispanotropicais, sobre os puramente racionais, por elas assimiladas de outras origens européias.

O cristianismo à brasileira não é um simples prolongamento nem do português nem do espanhol mas um cristianismo que assimilou à sua religiosidade e aos seus ritos inspirações ameríndias e sugestões africanas. Um cristianismo hispanotropical.

O que há, porém, entre nós de ameríndio, é também neo-ameríndio, tal a europeização que o vem alterando. Conservamos dos indígenas o seu tabaco, o seu vício do fumo, a sua mandioca, a sua rede, a sua pintanga, o seu jenipapo, o seu caju. Mas sob novas expressões: adaptados, em parte, a hábitos europeus e a ritos e refinamentos europeus de alimentação e de gozo de valores naturais e rústicos. O que é certo também do que há em nós de africano: em vez de cru, o neo-africano presente no tipo brasileiro de hoje e na sua cultura apresente-se europeizado pelos contatos que sofreu, no Brasil, com valores europeus, adaptados pelo hispano ao meio brasileiro ou ao ambiente tropical é um brasileiro de origem africana e não um negro brasileiro, diferenciado dos demais brasileiros, como o negro dos Estados Unidos, dos seus não de todo compatriotas.

Esses valores brasileiros, os descendentes dos africanos introduzidos no Brasil e que aqui se tornaram co-colonizadores da América descoberta por portugueses, de tal modo so assimilaram, quer como escravos, quer depois, como livres que ao regressarem, alguns deles, no século passado, á África, como homens livres, tornaram-se em diversos pontos do continente africano e sob a denominação de " brasileiros", disseminadores de uma terceira cultura, que não sendo mais a cruamente africana, não se tornara, entretanto, no Brasil, hirta e passivamente sub-européia, colonialmente européia, passivemente européia, porém brasileira: plasticamente, fluxuosamente, dinamicamente, ativamente brasileira. E como tal adotada por aqueles africanos natos e pelos seus filhos que, voltando a viver na África, levaram consigo e propagaram entre outros africanos o culto do Senhor - por eles transformado em Senhora do Bonfim; o brasileiríssimo apego à mandioca; o gosto por uma música e por várias danças, nem africanas nem ameríndias nem européias, porém brasileiras; a própria arquitetura neo-portuguesa do Brasil colonial.

São casos, todos, esses, que podem ser apresentados como exemplos da capacidade brasileira para, na sua cultura hispano-tropical, combinar valores de origem diversas numa terceira espressão de cultura; e esta, com elementos intuitivos, telúricos, rústicos, e revitalizarem os apenas lógicos ou raionais. Elementos analfabéticos e darem vigor aos alfabéticos: esta, atualmente, por um paradoxo, uma das vantagens da cultura brasileira e de outras culturas hispanotropicais.

O que dá valor que na cultura brasileira - como em culturas africanas e asianas agora a se projetarem sobre um mundo plural - não é apenas cultura de livro, de letra, ou expressão de instrução convencionalmente alfabética ou acadêmica. Não é - saliente-se a este propósito - o fato de ter o Brasil analfabetos que mais assusta o brasileiro de hoje mais profundamento e menos demagogicamente preocupado com os destinos do Brasil. A comunicação de massa tende a ser crescentemente trasalfabética. Nem por isto deixa de de ter importância, como expressão de cultura mais alta e veículo mais permanente de solidariedade humana, a palavra impressa. A do livro. A da revista. A do jornal.

A oportunidade do assunto que procurei versar hoje em São Paulo, honrado por convite tão gentil do Diretor Cultural da instituição admirável que o Club Athletico Paulistano - Clube que tanto me faz pensar naquela combinação magnífica de atletas com estétas que é Oxford, pois aqui aos esportes se junta o culto pelos valores estéticos: pela música, pelo teatro, pela dança, pela literatura - vem do fato de que se cogita de estabelecer, nesta grande metrópole cultural um Instituto de Tropicologia que amplie a obra há oito anos desenvolvida pelo Seminário de Tropicologia da Universidade Federal de Pernambuco. é a São Paulo que cabe ser a sede desse Instituto pois é a São Paulo que toca constituir-se, senão no centro, num dos principais focos, talvez no principal, de um sintema trasnacional de civilização mais que luso, hispanotropical, que coordene atividades e ordene valores desses sistema. Sistema que, assim transnacional, poderá vir a ombrear-se com o transnacionalmente anglo-saxônico e com o transnacionalmente eslavo, tão vigirosos nos nossos dias.

São Paulo, repito aqui o que digo em livro recém-aparecido pela potência de sua indústria e arrojo de suas artes e avanços de suas ciências, está em situação de começar a atuar como um dos orientadores de modas de vestir, de pentear e de calçar, de estilos de habitação, de gostos de alimentação e de recreação, de formas de higiene e de terapêutica ecológica, para todo um já vasto mundo de populações de origens múltiplas, porém, no seu início; germinal ou principalmente hispânicas ou ibéricas e de línguas também hispânicas, uma delas a portuguesa. São populações situadas e idiomas desenvolvidos em espaços tropicais. Adaptados a esses espaços. Populações caracterizadas pela beleza de suas mulheres, todas famosas pela suas graças de andar e de sorrir, pelos encantos de seus vegetais e de seus animais. São gentes de hispano-tropicais, notáveis pela inteligência e pela capacidade de ação de seus homens. Inclusive dos não poucos já eugenicamente miscigenados como foram alguns dos próprios e heróicos Bandeirantes, tão presentes no amanhecer do Brasil e criadores de um ânimo que continua a dar vigor a iniciativas, a empreendimentos, a arrojos não só paulista, em particular, com brasileiros, em geral.

    Meus agradecimentos a este Club, talvez único no Brasil pelo que combina interesse pelos valores atléticos com o culto dos estéticos, dos intelectuais, dos culturais, pela maneira por que acaba de reber-me e distinguir-me. Para tanto reuniu aqui outras associações representatinamente paulistanas, a começar pela Academia de Letras, cujo Presidente saudou-me com palavras tão expressivas quanto literariamente primorosas; e algumas das quais, como o Instituto Histórico Guarujá-Bertioga, representado por figura tão notável de mulher superiormente intelectual e como a Associação de Amigos da Cidade de São Paulo, me honraram, como aliás o próprio Club Athletico Paulistano pela mão de seu digno Presidente, com insígnias tão significativas. Tão paulistanas. Tão brasileiras. Tão gererosamente brasileiras.



Fonte: FREYRE, Gilberto. O Brasil como nação hispanotropical: suas constantes e suas projeções transnacionais. São Paulo, 10 out. 1975.

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