CONTRA O PRECONCEITO DE RAÇA NO BRASIL
O Sr. Gilberto Freyre (para uma explicação pessoal): - Sr. Presidente, se é certo que um hotel da Capital de São Paulo recusou acolher como seu hóspede a artista norte-americana Katherine Dunham por ser pessoa de côr, o fato não deve ficar sem uma palavra de protesto nacional nesta Casa. Pois entre nossas responsabilidades de representantes da Nação Brasileira está a de vigilância democrática da qual tanto se fala hoje nos discursos mas que nem sempre é praticada nos momentos precisos. êste é um momento – o ultraje à artista admirável cuja presença honra o Brasil – em que o silêncio cômodo seria uma traição aos nossos deveres de representantes de uma nação que faz do ideal, se não sempre da prática, da democracia social, inclusive a étnica, um dos seus motivos de vida, uma das suas condições de desenvolvimento.
País incaraterístico, na verdade, seria o nosso, terra de gente sem vontade própria, sem tradição própria, sem espírito próprio seria o Brasil em que num grande Estado como o de São Paulo, orgulho da Nação inteira, a tal ponto se levasse a imitação de Chicago, que de Chicago, se assimilassem não só os grandes exemplos de trabalho e eficiência com os maus e mesquinhos de preconceito de côr, de rivalidade entre raças, de ódio entre grupos humanos quase que só diferentes nas formas do corpo. O que o Brasil tem de mais cristão, de mais democrático, de mais brasileiro nos seus estilos de convivência humana seria abandonado para que em lugar dêsses estilos se instituíssem aquêles que são precisamente o desdouro, o vitupério, a vergonha de civilizações tècnicamente mais adiantadas do que a nossa.
Estou certo de que justamente em São Paulo o gesto infeliz do hoteleiro que teria negado hospedagem a Katherine Dunham por ser Miss Dunham mulher de côr, teve a repulsa mais forte. Porque em São Paulo o comercialismo, o mercantilismo, o negocismo, o dolarismo, o imediatismo, tudo que é ismo inseparável de uma vigorosa e triunfante civilização na América industrial de hoje existe e às vêzes até floresce; mas sem que vença ou esmague o que São Paulo tem de irredutìvelmente paulista, brasileiro e cristão. E à base do que é paulista, brasileiro e cristão está a repulsa a quanto arianismo carnavalesco se queira desenvolver nesta parte da América. Foi o bandeirante mestiço que lançou as bases da grandeza de São Paulo e da expansão continental do Brasil. Foi o vigor do híbrido que na América continuou, ampliou e alargou a obra do colonizador português, aliás nem sempre louro ou nórdico como pretende o Professor Oliveira Viana, muitas vêzes moreno, mouro e até negróide.
No dia em que o Brasil para se mascarar de branco de neve como nas histórias da carochinha, para se fantasiar de nórdico, para se caiar de ariano, renegasse suas origens mestiças ou a composição mestiças do grosso, do forte, do substancial de sua população e de sua cultura, o Brasil deixaria de ser Nação para amesquinhar-se em subnação. Uma ridícula subnação de embriagados não pelo álcool mas pelos substitutos do álcool.
No momento em que homens de ciência de quase todo o mundo, certos de que não há raças superiores ou inferiores e despertados por estudos brasileiros, voltam-se para o Brasil, para a cultura brasileira, para a arte brasileira como exemplo de solução pacífica das lutas entre grupos humanos provocadas pelos preconceitos de raça, seria na verdade triste e até vergonhosos para todos nos, brasileiros, que justamente uma artista, uma antropologista, uma mulher da inteligência e da sensibilidade de Katherine Dunham, cujas danças revelam, em sínteses dramáticas, que combinações novas de beleza e de vigor humano vem trazendo ao mundo a mistura dos sangues ou das diferentes formas de corpo e de cultura, fôsse grosseiramente impedida de hospedar-se num hotel de São Paulo. Gesto, a confirmar-se na comunidade paulista para cuja grandeza têm contribuído homens de sangues tão diversos, nem por isso deixa de nos obrigar, aos representantes da Nação Brasileira, a um protesto que importe em inteiro repúdio, em absoluta repulsa nacional a essa atitude desgarrada do sentido social, e não apenas político, de democracia que nos anima e nos inspira como república livremente americana. ( Muito bem; muito bem; o orador é vivamente cumprimentado.)
Fonte: Freyre, Gilberto. Contra o preconceito de raça no Brasil. Discurso proferido na Câmara dos Deputados, Federal, Rio de Janeiro, 17 jul. 1950.
|