CULTURA E MUSEUS
Apresentação
A contribuição de Gilberto Freyre, em "Cultura e Museus" é tanto mais válida, quanto estribada na própria experiência da FUNDAJ.
Hoje, de fato,
os Museus assumem uma nova dimensão interna, sob o aspecto de
organização física e administrativa, e uma nova
dimensão externa de divulgação e atendimento ao
público.
Em palavras, mais que elucidativas, ressalta o autor o papel cuIturaI-pedagógico-educativo dos museus, outrora estáticos, em cujo funcionamento dinâmico atual se ilumina o passado, se vive o presente e se projeta o futuro. é esta a forma mais adequada de se dar aos valores, que se concretizam nos Museus, o lugar a que fazem jus, na escala cultural das civilizações modernas.
Mais que "necrófilos", guardando "retalhos de antigüidades", como bem se expressa o Mestre de Apipucos, num estilo "forte e pontilhado de beleza e versatilidade, os museus se plantam no espaço cultural de nossos dias como centros irradiadores de arte.
Numa era, marcada pela hipertrofia dos valores econômicos, suporte dos valores tecnológicos, o Museu abre novos caminhos para as belezas humanas dos espíritos sensíveis aos bens culturais. Esses bens, caracterizam o que se perpetua de universal e significativo das civilizações de todos os povos para enriquecimento espiritual das gerações presentes e vindouras.
Numa síntese sócio-antropológico-cultural das mais felizes "Cultura e Museus" de muito engrandece o programa de edições da FUNDARPE.
Roberto Pereira
SAUDAÇÃO A GILBERTO FREYRE EM OLINDA
Agradeço ao caro amigo que dirige este Museu de Arte Sacra - amigo e irmão em São Bento - o convite que me oferece a oportunidade aliciante de, olindense há apenas alguns meses, saudar Gilberto Freyre em nome dos que aqui se reúnem para ouvi-lo falar de uma nova museologia, inspirada no que a arquitetura brasileira possui de mais criativo e, como ele sugeriu em Casa Grande & Senzala, de mais expressivo como símbolo psicossocioantropológico da cultura brasileira.
Sou neo-olindense, mas amo este velho burgo desde quando, menino criado no Recife e conhecendo apenas a praia de Boa Viagem, ouvia minha Mãe falar de seus estudos na Academia de Santa Gertrudes, de veraneios na praia dos Milagres - onde conhecera meu Pai - e recitar uns versos em que Adelmar Tavares fala dessa praia que era, ao pôr-do-sol, "como um lençol de brumas envolvidas em brancas areias", com sua igrejinha "branca como uma nuvem no céu / como uma noiva de capela e véu/ que se põe a esperar/ o noivo que se foi para nunca mais voltar".
Aos vinte anos, quis conhecer melhor aquela Olinda mítica da minha infância e fui ler, na Biblioteca Pública do Estado, o livro no qual Gilberto Freyre verteu, em páginas de interesse ao mesmo tempo lírico, geográfico, histórico, ecológico e etnográfico, todo o seu amor pela velha capital de Pernambuco, para ele, como para a Santa Madre lgreja, inseparável do Recife, cidade também consagrada com um Guia Prático, Histórico e Sentimental que está completando meio século.
Da tão vasta quanto variada obra de Gilberto Freyre que em livros, opúsculos, contribuições em obras coletivas, prefácios a outros autores e artigos em revistas e jornais totaliza quase 4.000 textos diferentes - já tive ocasião de salientar que possui uma unidade essencial: a cosmovisão do autor, seu estilo na mais ampla acepção da palavra, que Buffon tão bem definiu ao dizer: "o estilo é o homem". Pois bem: na, em todos os sentidos grande, obra de Gilberto Freyre os guias do Recife e de Olinda não são títulos insignificantes, daqueles que em história da literatura os ingleses costumam chamar de minor works. São, ao contrário, livros importantíssimos. Como, por exemplo, na obra de Joyce, o livro Dubliners: contos por vezes sórdidos, mas cheios de carinho pela cidade natal do autor.
Parafraseando um soneto dedicado por Manuel Bandeira a certa mulher que vista de face "era um abril" e vista de lado "era um agosto" - "Duas mulheres numa: tinha o rosto / Gordo de frente, magro de perfil" - Gilberto Freyre observou: "Assim é o Recife com relação a Olinda: duas cidades numa. O "rosto gordo de frente" é o de Olinda. O "perfil magro" é o do Recife. As duas cidades formam uma cidade que só se torna duas aos olhos do adventício quando ele compara a que vê de frente com a que avista de lado". Observação genial de um antropólogo alongado em psicólogo social e em sociólogo do urbanismo e da arquitetura à maneira do urbanista-sociólogo Lewis Munford.
Para escrever o guia de Olinda, publicado em 1939, o então já consagrado autor de Casa-Grande & Senzala, de Sobrados a Mucambos; e de Nordeste andou muito por ruas, praças e ladeiras da primitiva capital pernambucana, por seus claustros, igrejas, sobrados, elevações, praias, matas e mangues, deixando-se impregnar pelo sortilégio que vem tanto das luzes como das sombras olindenses. "Que luz é esta -pergunta Gilberto - a que dá a estes montes, a estas praias, a estas águas, e às suas casas, às suas igrejas, às suas barcaças a vela, uma doçura que nem toda luz tropical dá ás coisas e aos homens?". Pergunta de poeta, como poética é esta observação do outro guia: "No Recife, as roseiras não se fazem de rogadas para se abrir em botões e em rosas de uma fragrância como só nos trópicos".
Menino ainda, conta Gilberto Freyre em página de memórias que um dia fugiu de casa, tomando, sem ele mesmo saber porque, a direção de Olinda: para abrigar-se na cidade que considera Mãe do Recife, como Igarassu é a Avó. Cidade-mãe e cidade-avó: extensões da Mãe e da Avó biológicas. Empatias gilbertianas.
Desde então, vem ele regressando à materna Olinda para fazer pesquisas, ou rezar no Mosteiro de São Bento, ou visitar amigos, ou jantar no Atelier, ou receber homenagens, como a do titulo de cidadão olindense conferido pela Câmara Municipal ou a de Richard Civita em recente banquete no Hotel Quatro Rodas, ou simplesmente para contemplar a paisagem que se descortina desde o Alto da Sé - paisagem que encantou Nabuco e Ramalho Ortigão.
Vem hoje a este Museu de Arte Sacra, portanto, não como um conferencista estranho, mas como alguém a quem podemos saudar cantando - o que faremos com a valiosa colaboração do Coral do Colégio de São Bento, sob a regência do Maestro Marcos Júlio - uma das Canções de Cordialidade cornpostas por seus amigos Manuel Bandeira e Villa-Lobos: "Amigo, seja bem-vindo!/ A casa é sua: não faça cerimônia!/ Vá pedindo! Vá mandando!/ Seja seu tudo o que tenho de meu/ - E mais a Divina Graça!/ Amigo, seja bem-vindo!"
Edson Nery da Fonseca
CULTURA E MUSEUS
Agrada-me, e muito, ter a oportunidade de falar neste Museu de Arte Sacra, tão
beneditinamente dirigido por um erudito do porte de Dom Hildebrando, para público que sei, por informação de conferencistas que aqui têm me precedido, ser atento, lúcido e simpático. Encanta-me
ser saudado por intelectual brasileiro de palavra tão ricamente sugestiva e de saber tão seguro, além de brilhante: Edson Nery da Fonseca. Como mestre de documentalogia, um doutor, dos maiores, entre os modernos, em museologia.
Quem hoje diz museu, diz centro de comunicação intelectual da espécie mais atraente, no seu modo de ser educativa. Com os olhos do visitante podendo apalpar quase literalmente o que vêem. Pois passou a época dos museus apenas conservadores de relíquias preciosas e quase sagradas.
O museu é, no Ocidente, cada dia menos necrófilo e mais vivente e convivente com os visitantes. o estudante ou o estudioso vai, atualmente, a museus, para informar-se, de maneira agradável, acerca de objetos não só expostos a seus olhos, como revelados, explicados e esclarecidos, à sua inteligência. Peça de museu já não significa retalho de antigüidade morta mas pretexto para maior conhecimento do conjunto que ele representa.
Ou que simboliza. Pois quem diz cultura nacional ou regional diz principalmente símbolos, tanto dessas culturas como, alguns deles, no essencial, da cultura humana. Objetos-símbolos. Cultura é no que principalmente consiste: em Objetos-símbolos.
Apareci, há meio século - resvalo de início no talvez pior dos meus pecados intelectuais: o autobiográfico - com um livro logo identificado, por críticos mais generosos que perceptivos, tanto brasileiros e, sobretudo, estrangeiros, como revolucionariamente inovador pelas suas, segundo eles, percepções tanto sociais como culturais. Inclusive quanto ao sentido da própria palavra cultura, até então, de todo, como se diria hoje, para olhos e ouvidos de brasileiros, em geral, elitista, isto é, significando requintes sociais, artísticos, eruditos. Segundo o referido livro, cultura incluía valores nãocivilizados, nãorequintados, nãoeruditos. O que escandalizou quantos se espantaram de ver consideradas culturas expressões analfabeticamente primitivas da África Negra e a do Brasil ameríndio.
Outra revolução: quanto à linguagem. Dominava a idéia de que livro, em parte científico, em parte literário, como Casa-Grande & Senzala, deveria ser em linguagem especializadamente acadêmica: sociologês, por exemplo. Casa-Grande & Senzala surgiu em ser escrita em jargão científico ou cientificóide.
Ainda outra revolução: a de que, sendo em parte livro de perspectiva sociológica, juntava a esse critério outras perspectivas científica ou filosoficamente sociais: antropológica, histórica, psicológica, folclórica, literária.
Sem se deixar de observar esta outra inovação a de deslocar o centro de sua análise e de sua interpretação de uma sociedade e de sua cultura, da perspectiva pública, da glorificação de grandes momentos públicos na vida de um povo, da exaltação de heróis políticos e de heróis militares, para uma perspectiva íntima, pessoal, familial, cotidiana, analfabética, popular, que se aproximasse de aparentes insignificâncias culturais, valorizando-as. A casa, entre esses valores. A culinária. A recreação. Perspectiva essa, íntima, que veio a caracterizar a moderna museologia.
Revolucionária, nesses e noutros setores e, ao mesmo tempo, reconhecendo valor, importância, significação em valores de natureza e de tradição. Valores a serem respeitados e conservados. Tradição. Ecologia. E quem diz ecologia, diz conservação. é um parentesco seu com a museologia.
Trago hoje, em comunicação de veterano no trato
sociológico da matéria aliciante que é a documentação da cultura artisticamente brasileira, considerada em alguns dos seus momentos decisivos ou em algumas de suas expressões marcantes - que o diga o Movimento Regionalista, Tradicionalista e a seu modo Modernista, da década 20, rival da famosa Semana de Arte de São Paulo, da mesma época, como um desses momentos decisivos - novas sugestões sobre o papel desempenhado, nessa cultura, pela arte da casa adaptada a menos regionais do nosso País. Casa, compreendendo família, intimidade, cozinha, jardim, particularidade arquitetônica, é objeto-símbolo profundamente significativo. Não só a casa de residência. Também a sede de governo, a de oração, a de ensino. Casa que, quando passa de uma época, é, por si só, um museu.
Já procurei, em outra comunicação recente, essa, uma reunião de arquitetos, considerar a arquitetura, representada pela germinal casa-grande rural brasileira, como um possível clássico. Clássico, como? Dado o fato de vir mantendo-se, até dias atuais, como inspiração de arquitetura doméstica. Como modelo, seguido em Brasília, pelo admirável Modernista Oscar Niemever. Como
padrão de arquitetura de residência criada, não acadêmica, mas existencialmente, anonimamente, ruralmente, pelo Brasil canavieiro. E transferida desse Brasil madrugador, ao Brasil mineiro, ao
pecuário, ao cafeeiro, através de variantes fiéis ao modelo germinal. Este o aspecto específico que procurei abordar perante público tão ilustre como o constituído por arquitetos provectos e jovens estudantes de arquitetura, em simpósio há pouco reunido no Recife.
Repito aqui o que disse nesse Simpósio: que quem diz construir, emprega palavra extremamente eclética. Tanto pode referir-se a edifício artisticamente erguido, como a sistema intelectual científica ou filosoficamente estruturado: um e outro podendo constituir-se em construções duradouras e passarem de uma época a outras como se não lhes faltasse expressão museológica. A Sociologia vem sendo uma construção semelhante a de uma casa. A Antropologia, outra. Construções que, de bases se têm desenvolvido, em superestruturas. Daí em considerações acerca do que seja construção material e socialmente arquitetônica como arte - arte principalmente material, mas também transmaterial, quer como templo, quer como residência - poderem caber conceitos principalmente aplicáveis a construções sociocientíficas como um sistema sociológico ou socioantropológico.
Uma e outra dessas construções, têm, em comum, um objeto social susceptível de assumir forma de obra duradoura, da base à cúpula ou à coberta. Pois o material de construção pode variar de efêmero, para fins imediatos, a duradouro, para resistir a tempos vindouros. Tal perspectiva de construção, repita-se, que se aplica tanto a um sistema sociológico como o construído por Marx ou o construído por Comte, como a uma casa de residência do tipo que anonimamente passou a ser a construção representada, no Brasil, desde o amanhecer de uma economia e de uma sociedade estáveis, pelo tipo de residência rural, também ela sedentária, consagrada, pela boca popular, como casa-grande.
Lembra o historiador Gonsalves de Mello, ter sido exigência expressa no Regimento de Tomé de Souza (1548), que os que construissern engenhos, se obrigassem "a fazer, cada um em sua terra, uma torre ou casa forte..." Houve "engenhos do século XVI que ficaram conhecidos como da Torre ou da Casa Forte, havendo ainda notícia" - adianta o mestre ilustre em recente pronunciamento divulgado pela Secretaria de Turismo, Cultura e Esportes de Pernambuco - "de outras casas-grandes a modo de fortaleza, uma delas representada em quadros dos pintores holandeses Franz Post, Albert Eckhout que viveram em Pernambuco de 1637 a 1644".
A casa-grande, em seu aspecto material, com característicos, desde seus começos, ecologicamente eurotropicais, a esses aspectos materiais passou a juntar funções mistas de materiais e transmateriais, como a aculturativa, a educativa, a militar, a de quase fortaleza, a religiosa, a econômica - a de banco, principalmente a assistencial, e quando completada por senzala e por capela reformada, em algumas dessas suas funções, pela simbioticarnente social de servir de abrigo confluente de duas etnias e de suas respectivas culturas, uma das quais, principalmente civilizadora, e a outra, principalmente primitiva, com os dois extremos passando a desempenhos de reciprocidade, tanto, étnica como cultural. realizados dentro do próprio conjunto ou complexo socioarquitetônico. Como em sistemas sociológicos, a reciprocidade, entre elementos mais dominadores e elementos mais dominados, embora tal relacionamento nem sempre possa ser considerado absoluto mas com frequentes tendências a relativo. Foi ao que atendeu o complexo socioarquitetônico casa-grande e senzala: ao fato de o Brasil ter surgido de uma herança européia a defrontar-se com uma ecologia nãoeuropéia e com culturas nãoeuropéias.
Da casa-grande, tão-somente casa-grande, pode-se sugerir que constitui, vista retrospectivamente, um clássico socioarquitetônico à sua maneira um tanto rústica. Maneira mais funcional que estruturalmente estética, de construção útil e ecologicamente brasileira. útil no seu modo de ter aparecido como solução funcional a uma exigência da primeira fase de formação de um país - o Brasil - como civilizado de origem principalmente européia. Mas servida por contribuições de culturas primitivas e nãoeuropéias - a indígena e afronegra - em espaço, quase todo agrestemente tropical ou tropicalizado. Das casas-grandes antigas que sobrevivem pode-se voltar a dizer que por si sós, desempenham papel museológico. São exemplos de vivências que têm variado de época para época. Mas também inspirações para suas adaptações a novas épocas. E no que se mostram clássicas.
Quando sociólogos da História insistem em falar em "passados úteis", não o fazem retoricamente: tocam em experiências regionais ou nacionais de interesse transhistórico. Uma transhistória de que se nutre principalmente a Sociologia da História. E que tem encontrado em museus, ou numa museologia dinâmica, instrumento valioso de afirmação educativa.
Para o sociólogo da História, como para o museólogo educativo, os fatos históricos não são todos, ocorrências que se aquietam, passivas e inermes, em terem acontecido. Elas suscitam ou provocam interpretações sociológicas que Ihes dão vida transhistórica, em livros, artes, museus, através do que guardam, de latentemente sociológico. De potencialmente criativo, para futuros nacionais ou regionais, que dele possam vir a utilizar-se. Sobretudo dentro da noção sociofilosófica, saída do Brasil, de que o tempo não se deixa separar arbitrariamente em três - passado, presente e futuro - mas é coincidente, simultânea e dinamicamente tríbio: os três dentro de um só. Tempo tríbio: pena que o Dicionário Aurélio ainda não registre tal neologismo.
Podem passados corresponder à designação de passados não só ilustres - como que platonicamente ilustres - como úteis. Valiosos, por sua presença em tempos posteriores ao do seu aparecimento. Valiosos para gerações que não participaram diretamente deles. Mas que são alcançadas por conseqüências desses passados prolongados noutros tempos. Podem eles ser úteis a vivências de vindouros. O caso, sem dúvida, da casa-grande como expressão arquitetônica susceptível de ser considerada, nesse setor, um clássico brasileiro, por ter passado de uma época a outra. O caso de instituições outras, características do Brasil, através de tempos tríbios. Característica de instituições sociocatólicas de modo notável: não só através de influentes igrejas e de colégios Católicos ilustres, porém, através de expressões leigas e populares de atuação religiosa. A representada por irmandades, por exemplo; a representada pelo compadrio; a representada por confraternizantes festas ao mesmo tempo que recreativas místicas
Cabe ao sociólogo ou ao antropólogo sociocultural procurar apresentar as verdadeiras dimensões e as reais perspectivas de passados com que passem a coexistir presentes e futuros, através de tempos tríbios. Cabe a museus dar exemplos de tais interpenetrações. E revelarem-se, nesse seu empenho, museus como que sociológicos com relação àquela História que se projeta sobre transhistórias. Ao estrito historiador basta narrar o que sabe de passados. Não precisa preocupar-se em avaliar sua importância transhistórica. Nem, especificamente, em liga-los, como úteis e significativos, a épocas várias além daquela em que surgiram como presentes saídos de passados e capazes de se desdobrarem em futuros. Mas não só a tais tempos. Também a quase absorventes espaços significativos que viessem procurando torná-los exclusivamente espaciais. Perspectivas não convencionais que podem ser apresentadas por museus que superem convenções museológicas de serem passivamente históricos.
E, sobretudo, pela constância de suas ligações com espaços, como o brasileiro, em grande parte tropical ou tropicalizado, que a casa-grande rural pode ser considerada como um clássico - isto é, um modelo com característicos de permanência no essencial de sua construção socioarquitetônica - para brasileiro, isto é, susceptível de ser abrasileirado, ecologicamente, de acordo com climas tropicais brasileiros mais ou menos tropicais ou mesmo temperados. Alpendre ou varanda estão entre permanências de caráter ecológico ou situacional de casas brasileiras que podem variar de dimensões. Os museus podem orientar tais variantes situacionais.
É preciso atentar-se, no vasto Brasil, na correspondência de sua arquitetura com situações. Situações de espaço e situações de tempo. Ao aceitar-se da casa-grande clássica sua capacidade de transferência de sua situacionalidade, do Nordeste, para outras áreas brasileiras, acentua-se importante característico de sua maneira de ter se constituído num clássico de arquitetura pan-brasileira de residência. Pois a capacidade de transferência de situacionalidade é uma capacidade de permanência que desnordestiniza a casa-grande, como figura arquitetônica. Desregionaliza-a, panabrasileirando-a.
Mais do que isto: constate-se dessa arquitetura de residência ter assumido expressões não residenciais sempre ecologicamente brasileiras. Pois é sabido de não poucas igrejas e capelas do Brasil rural terem adotado, das casas de residência, a varanda ou o alpendre hospitaleiramente acolhedor. Adoções e transferências que cabe aos museus apresentar.
Nunca será demais insistir-se na importância, para estudos sobre o Brasil e sobre o brasileiro, de uma perspectiva ecológica. Perspectiva valorizadora de bases: do ambiente, da circunstância, da situação, desde a física é condicionada pela física ou, de certo modo, superadora, em certos pontos, da física. Nenhuma função mais de museu brasileiro que a de apresentar exemplos de condicionamentos ecológicos de residências.
Essa importância começou a ser destacada, no Brasil, por homens de estudo brasileiros dos, a certa altura, madrugadoramente conscientes, em termos modernos, da situação do País, como, em grande parte, tropical, ou paratropical, e da configuração do brasileiro como, em grande parte, homem situado no trópico ou em quase trópicos. Realidades que houve, por algum tempo, certa tendência brasileira para não reconhecê-las, importando-se passivamente valores e técnicas vitoriosas entre gentes de países temperados. O que se recorda para atribuir-se ao modelo arquitetônico representado pela casa-grande, e ao uso da rede e de não poucos alimentos assimilados dos indígenas, vindos do século XVI, o caráter de exemplos simbólicos de conservações transmuseológicas de valores reconhecidamente úteis. A casa-grande como arquitetura madrugadoramente ecológica que, atendida, em tempo justo, em suas sugestões, poderia ter evitado que o por vezes inepto desenvolvimentismo brasileiro, ao tornar-se, em Copacabana, dominador de grande área de residência elegante do Sul do Brasil, a servir de exemplo a outras praias elegantes, se tivesse entregue tão às cegas à cópia de antiecológicos modelos norteeuropeus - sobretudo, no caso, o normando. Como o normando empolgou ricos elegantes do Rio de Janeiro! O modelo casa-grande bem poderia ter sugerido a avós ou a pais de Oscar Niemeyer que fossem, como arquitetos, nos dias da sensacional emergência de Copacabana, como área de residências superelegantes do Brasil, a solução adotada pelo genial modernista, quando, em Brasília, decidiu levantar casa para residência sua e de sua família. Que fez o grande Oscar? Recorreu à inspiração de casa-grande de fazenda de café. Mandou às favas o muito seu antiecológico, antibrasileiro, antitropical, Le Corbusier. Redimiu-se dos seus excessos lecorbusierianistas nas construções monumentais de Brasília. Arcaísmo? Não: aproveitamento de sugestões vindas dos referidos passados úteis tão valiosos em arquitetura. E a favor dos quais, muito podem agir museus brasileiros que sejam mestres de brasileiridade.
A arquitetura nacional tem alguma semelhança com a culinária. Ambas são artes funcionais e situacionais. Como situacionais, ecológicas. A Bahia - célebre por vatapás e carurus gostosamente apimentados - está a crescentemente juntar-se variada e opulenta arte culinária amazônica, à base de uma riqueza magnífica de peixes e de um verdadeiro complexo, capaz de constituir-se em revolução do paladar brasileiro: a tartaruga. Os museus brasileiros poderiam dedicar atenções inteligentemente nacionais a tartarugas amazônicas como complexos culinários.
É admirável que, nos começos brasileiros, algumas das interrelações entre homem e ambiente tenham sido intuitivamente atendidas. Por exemplo: através de uma dupla arquitetura, uma erudita, outra popular - a da casa-grande e a da palhoça - que se harmonizaram, por sua adaptação, nesses dois níveis, a ecologias brasileiras, de tal modo, a poderem vir a ser consideradas exemplos, nas suas circunstâncias e para suas circunstâncias, daquela sabedoria que envolve a conjugação de saberes representados pelas três Engenharias: a Física, a Humana, a Social.
Quem for a Brasília - volto a ponto já referido não deixe de procurar ver a casa exemplarmente museológica que o grande Oscar Niemeyer construiu para residência de sua família. Inspirou-se - acentue-se - no modelo constituído pela velha casa-grande patriarcal do Brasil. Nenhum excesso lecorbusieriano de vidro. Engenharia Física, Humana e Social das mais ecologicamente brasileiras sob a forma de residência moderna: aquela residência idealmente brasileira que ouvi certa vez do próprio e admirável Oscar Niemeyer não ter sido satisfatoriamente inventada ou concebida por modernos; arquitetos brasileiros com o senso ecológico revelando na arquitetura das casas-grandes de engenho e de fazenda coloniais para específicas circunstâncias brasileiras coloniais. Capazes, entretanto, de inspirarem modernizações arquitetônicas.
O que parece explicar não ter sido Niemeyer o único a recorrer, em Brasília, para a construção de casa de residência, ao modelo colonial, quase Museológico, adaptado, é claro, a circunstâncias diferentes das coloniais. Não só em Brasília como em São Paulo essas adaptações têm passado a surgir, como uma espécie de revanche da parte de modernices nem situacionais nem funcionais. Revanche através dos por alguns antropólogos e sociólogos, chamados "passados úteis". Passados ressurgentes. úteis. Passados, alguns deles adormecidos em museus, que existem, como inspirações a arquiteturas que se tornem modernas sem deixarem de ser brasileiras, inspirações capazes de ser válidas noutros setores socioculturais.
Atente-se no passado útil que a casa-grande rural brasileira mais que museologicamente, porém também museologicamente, representa. E que é um passado caracterizado por variantes situacionais de forma. Variantes que, de pragmáticas, têm passado, por vezes, a estéticas. E quando se diz passado, não seja esquecido que ele é parte de um complexo constituído por tempo tríbio.
Quando o grande Euclydes da Cunha referiu-se à arquitetura representada pela casa-grande brasileira, em geral, como susceptível de ser caracterizada por um aspecto "terrivelmente chato" - pode-se interpretar a generalização de Euclydes, como crítica é sua constante horizontalidade -generalizou exageradamente, esquecendo-se de contrários importantes: os constituídos por verticalidades de quase castelos. Casas-grandes, dentre as mais antigas as do século XIX, são desse aspecto. Tal o exemplo de casas-grandes germinais, dos primeiros tempos coloniais, como a de Garcia d'Avila, na Bahia, e a de Megaípe, em Pernambuco. A de Megaípe escolhida pelo ilustre Roberto Marinho para sua magnífica residência no Rio de Janeiro. Várias no Rio de Janeiro e em São Paulo. Casas-grandes já dominadoras de cafezais que vêm sobrevivendo brasileiramente. Casas-grandes com escadarias imponentes. Pois não sejam esquecidas as que passaram a se apresentar ostensivamente assobradadas e, como assobradadas, monumentais. Espécie de catedrais paisanas como a se afirmarem substitutos de catedrais, propriamente ditas, as catedrais tendo sido, na arquitetura mais vertical do Brasil, uma deficiência do Brasil colonial em face da América Espanhola.
Mas com compensações em formas que chegaram a ser monumentais, de residências de particulares vastamente patriarcais. Com amplos desempenhos sociais, assistenciais, educativos, artísticos, religiosos, que corresponderam a uma formação social, brasileira menos estatal, à maneira da que caracterizou a América Espanhola, que animada por iniciativas ou arrojos de particulares semelhantes aos verificados na América Inglesa. A própria lgreja Católica recebeu, no Brasil, incentivos dessas iniciativas familiais e individuais, com projeções em artes e artistas cujas criações esplendem em museus como verdadeiras jóias saídas de mãos por vezes humildes. Humildes porém tocadas de inspirações, por vezes quase geniais, como as das de quase Aleijadinhos supradotados que, por vezes têm surgido, de origens as mais inesperadas e surpreendentes. Rústicas. Analfabéticas. Pobres.
Grande missão cultural a de museus que o mais cedo possível identifiquem tais quase Aleijadinhos, tais talentos espontâneos, tais vocações surpreendentes revelando-as e apresentando-as museologicamente. Alguns desses supradotados, durante algum tempo, ignorados e só quase por acaso, descobertos, na música como na escultura e na pintura religiosa. Na própria literatura. Pelo que deveriam educadores, governos, religiões, instituições, estar mais atentos ao assunto. Cabe a museus reparar tais retardamentos, dando destaque a tais valores.
Do Museu do Homem do Nordeste constam modelos de jangadas e de barcaças regionais, com as exatas designações das várias peças que as constituem - trabalho de que me ufano de ter sido o orientador dos magistrais desenhos de Manoel Bandeira - e que são, como meios de pesca e de transporte, caracteristicamente brasileiros, expressões de saberes ou de sabedorias quase de todo populares, telúricas, ecológicas. Tão populares que são anônimas. Mas que mostram, assim anônimas, a capacidade inventiva de gentes simplesmente gentes. Revelações de espontaneidade rústicas que cabe a museus destacarem. Ou aperfeiçoadoras de conhecimentos tradicionais guardados por gente rústica: aperfeiçoamentos também de interesse museológico.
O que nos leva a notar precisarem museus culturais procurar apresentar, ao lado de inventos de indivíduos ilustres ou de pequenos ou médios Santos Dumont em mecânica ou de pequenos ou médios Aleijadinhos, invenções ou artes de gente ingênua mas, por vezes, surpreendentemente criadora de imagens de santos ou de figuras de barro expressivamente de novos tipos. Precisam os museus apresentarem, nesses setores, criações de completos anônimos. De completos desconhecidos. De vocação de gente de todo obscura para criações artísticas quase de todo espontâneas. Que o digam Vitalinos como o de Caruaru.
Existem como expressões anônimas de culturas que, sendo negações de primores acadêmicos são, entretanto, manifestações de surtos culturais válidos. Merecedores de atenções daqueles museólogos atentos à avaliação de artes de gente obscura e de artistas humildes dignos de acolhimento em museus.
Museus como este, de Arte Sacra, ou como o do Nordeste, de Homem Situado - no caso, do brasileiro situado em região específica - vêm desempenhando funções que não há exagero em estimar como extraordinariamente valiosas para esclarecimentos culturais. As simples aulas verbais nem sempre sensibilizam bastante os ouvintes para se tornarem de todo assimiladores do que ouvem. 0 museu bem orientado no seu modo de ser educativo vai muito além da aula verbal.
Ouvi numa tarde, para mim inesquecível, em que tive o gosto de almoçar, no campus da Universidade inglesa de Sussex, em companhia do grande escultor Henry Moore -acabávamos os dois de ser ritualmente doutorados Honoris Causa, pelo Magnífico Reitor Lord Asa Briggs - que, o seu ver de escultor era um ver não só através dos olhos mas através de equivalentes de mãos que apalpavam o que via. Veio-me, ao ouvir a confissão tão expressiva, a reflexão de não ser esse um ver - o que apalpa o que O - só de escultores. Nem só de pintores. Também de não pequeno número de pessoas que vêem, assimilando do que vêem, e observam, não só cores e formas, porém transmissões de saberes, de mensagens, de ensinamentos, irradiados por paisagens, por coisas, por árvores, por ruas, por casas, por gentes. E nos museus, irradiados por sínteses que apresentam de casas. Por móveis. Por utensílios de cozinha.
O museu bem, orientado - acentue-se, repita-se, enfatize-se - é o que proporciona de modo sintético, ao visitante: uma como sensação de ver, apalpando, como que tocando com às mãos, o que lhe é apresentado: porcelana, cristal, móvel, prata, ouro, pintura, imagem de santo, relógio antigo, tecido.
Uma vez, em Nuremberg, visitei um museu do brinquedos. Maravilhas de trens, de palhaços, de bonecas, de jogos, de bolas, de casas de madeira. Senti-me restituído aos dias de menino.
Mas uma das minhas alegrias foi notar o modo por que crianças como que brincavam empaticamente com os objetos expostos. Como que quase tocavam neles, de tal maneira os brinquedos se deixavam ver empaticamente pelas crianças.
Quando digo empaticamente refiro-me a essa maneira empática de ver. A maneira de uma pessoa projetar-se em coisa que a empolgue, a seduz a, encante. Toco. num aspecto importante da apresentação de objetos num museu de cultura. De cultura ou de história natural, como o famoso de New York, de que o meu grande mestre de Antropologia, Franz Boas, foi, por algum tempo diretor. Que tinha a ver com história natural, um antropólogo profissional?
A resposta pode ser encontrada, em linguagem expressivamente poética em Os Luzíadas, de Camões. E um poema com alguma coisa de museológico no seu modo de ser antropológico. Apresenta ao leitor ocidental tipos de embarcações orientais como se o iniciasse no conhecimento exato, vivido, imediato, de meios de transporte desconhecidos por europeus. E o mesmo faz aqui entra história natural - com plantas, com vegetais, com madeiras tropicais que apresenta ao mesmo leitor ocidental, fixando desses produtos exóticos não só formas e cores como aromas. E indo além, muito museologicamente, especifica seus usos por homens: antropologia sociocultural. Usos como alimentos, como remédios, como delícias para o paladar. Falei há pouco, em São Paulo, de Luís de Camões, como tendo sido possível vocação de antropólogo moderno. Aqui ouso sugerir ter havido no grande poeta outra possível vocação: a de museólogo moderno. Moderníssimo.
O museu moderno, tanto cultural como de história natural, é sempre um centro que sendo, nuns casos, de transmissão de saber principalmente científico, noutros casos, é de transmissão de saber principalmente humanístico, com a história natural pedindo complementações museológicas através de história cultural. Ou vice-versa.
Volte-se ao Museu do Homem do Nordeste para observar-se não lhe faltarem, ao que é especificamente cultural e antropológico, informes ou toques de informação relativos a coisas de história natural. A jangada, por exemplo, é apresentada na exata maneira adequada a esse tipo de embarcação
de origem a mais primitiva ou a mais vizinha da natureza.
Pode-se sugerir do Brasil que é nação em que sofisticação e primitividade culturais juntam-se, harmonizam-se, completam-se, essa harmonia de contrários aparentemente inconciliáveis refletindo-se nos seus museus. Impossível apresentar-se museologicamente o móvel brasileiro, ou a imagem de santo brasileira, sem um informe exato sobre a madeira de que é feito esse móvel ou em que foi esculpida essa imagem. Impossível apresentar-se a própria cana-de-açúcar, básica da primeira civilização em que se firmaram os começos de estabilidade social brasileira, sem um justo informe museológico sobre o massapê em que ela se vem mostrando mais harmonizada com a natureza tropicalmente brasileira.
Um museu, para ser caracteristicamente brasileiro, precisa de fazer o visitante notar a aliança entre herança cultural européia e ecologia tropical. A história cultural - volte-se a acentuar - a precisar da história natural em termos museológicos.
Impossível falar-se em museus, nesta, segundo Marcos Vilaça, olindíssima Olinda, filha de um telúrIco Igarassu e mãe de um Recife, depois de simples cidade, incisiva metrópole regional, sem se recordar ter surgido no Recife o primeiro museu brasileiro antecipadamente sociocultural. Com ênfase em cotidianos regionais, através de formas características de vivência e de convivência apresentara móveis, louça, utensílios culinários, alimentos, recreações, deslocando os desempenhos de museus, de exclusivas glorificações de grandes feitos militares ou políticos, para o registro de dias significativamente comuns. Iniciativa, esse museu antecipador, de governador de visão superior: Estácio Coimbra. 0 Estácio Coimbra que, juntamente com seu amigo Goes Calmon, governador da Bahia, nesse Estado, antecipou-se em criar, em Pernambuco, as primeiras defesas, no Brasil, de valores históricos e artístico. De onde se erro atribuir-se ao, aliás, admirável escritor paulista Mário de Andrade, a idéia da criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. idéia concretizada, quando Presidente da República, por Getúlio Vargas, através de organizador magnífico: Rodrigo Mello Franco de Andrade. Mas tendo havido antecipações inesquecíveis nesse sentido: a dos governos estaduais de Pernambuco e da Bahia.
Registre-se mais ter se verificado em Pernambuco o primeiro uso brasileiro da então raríssima, palavra, em sentido moderno, ecologia, tão ligado ao desenvolvimento de uma museologia situacional. Surgiu em livro publicado no Rio, em 1937, de autor pernambucano, intitulado Nordeste. Livro museológico nas suas ilustrações: a principal, a de vasto sobrado patriarcalmente recifense, apresentado no seu exato espaço ecológico e com os anexos complementares, entre os quais cocheira da qual se tem a impressão de estar para sair landau ou vitória, com boleeiro - pormenor museológico - de chapéu alto. E livro em que se brada pioneiramente contra poluição de ares e de águas. Em que se denuncia a poluição do rio Capibaribe, por despejos de caldas de usinas arrogantemente poderosas e acintosamente desdenhosas do bem-estar público. Ciosas só de seus lucros privados. Capitalismo do que se passou a denominar selvagem em contraste com os, na época, já neocapitalismos atentos a responsabilidades sociais.
Atitudes críticas que valeram ao autor de Nordeste não poucas veementes denúncias de estar a serviço de um antibrasileiro Comunismo. Comunismo que podia ser antibrasileiro. Porém menos, talvez, que o Capitalismo selvagem, por algum tempo, quase de todo solto no Brasil. Solto e fazendo o que lhe dava a gana fazer.
0 governo Estácio Coimbra criara, na Escola Normal de Pernambuco, a primeira cadeira de Sociologia, acompanhada de pioneiríssima, no Brasil, pesquisa de campo, com alunas sendo vistas, com seu mestre, por ruas de gente pobre ou de gente apenas média. Alunas e mestre verificando não terem crianças recifenses, lugares onde brincar sem o perigo de ser atropeladas. De onde uma das mais notáveis iniciativas do Governador de então: a criação do primeiro playground no Brasil.
Antes do Rio de Janeiro. Antes de São Paulo. Antes de Belo Horizonte. Um modernismo mas um modernismo regionalista e tradicionalista. Com jogos e brinquedos, ao mesmo tempo que regionais, tradicionais. Playground que os triunfadores de 1930 não hesitaram em extinguir do modo mais ostensivamente cheio de ódio. ódio a um governo derrubado que importou em ultraje às crianças do Recife. Voltaram a não ter onde brincarem. Felizmente sobreviveram, do governo Estácio Coimbra, a pioneira cadeira de Sociologia, na Escola Normal do Estado e o pioneiro Museu sociocultural instalado em antiga mansão de família ilustre.
É evidente estar ainda para ser dado, no Brasil, um justo destaque, sistematicamente museológico, é apresentação de tipos característicos de residências brasileiras, das tradicionais às recentes. Ao Recife, abrilhanta ainda, além da presença do sobradão de João Alfredo, a da bela casa, na Madalena, que foi de João Cardoso Ayres. E mais: a de Delmiro Gouveia, em Apipucos. A de Francisco Guimardes - um primor de neoclássico - em Casa Forte. E em Olinda, duas jóias: os sobrados Mouriscos do século XVI. C evidente faltar ainda, igual destaque, aos meios tradicionais de transporte pessoal -por palanquim, por carro de boi, por cavalo, por cabriolé - com acréscimo, aos tradicionais, dos sucessivamente modernizadores e superadores dos crescentemente arcáicos. Recorde-se, neste particular, o excelente Museu do Trem: iniciativa do Engenheiro Emerson Jatobd com a orientar, do museológica da Fundação Joaquim Nabuco.
A propósito do que pode-se lamentar ter perdido a capital de Pernambuco oportunidade magnífica de ter surgido com valioso museu de carruagens de qualidades, ao ter se verificado a decadência definitiva, na segunda década do século atual, da famosa supercocheira, além de superempresa funerária, que foi a monumental Casa Agra: a celebrada em poema célebre de Augusto dos Anjos.
Impressionou-me, de volta de estudos universitários no estrangeiro, a visita, que me proporcionou simpático sobrevivente da fidalga dinastia dos Agra, ao depósito, como que de ferro velho, de velhos carros não só fúnebres ou de acompanhamento de enterros ilustres, como de casamento, de batizado, de visita, de passeio, de corso de Carnaval. Alguns deles, eminentemente históricos. Outros socialmente característicos por qualidades e tradições. Vários com heráldicas e estéticas lanternas de prata. Não poucos ainda deixando-se admirar por forros de veludo ou de pelúcia e por tapetes finos.
Ainda apalpei, como que a colecionar contactos com carruagens ilustres, o landau em que foi recebido no Recife, um Osório ainda quente de feitos gloriosos na Guerra com o Paraguai. O cupê forrado de cor de rosa em que rodou, atraindo admirações, a chamada Condessinha, filha do Conde da Boa Vista. O também cupê que foi presente do Cardeal Arcoverde a Dom Sebastião Leme, quando Leme tornou-se Arcebispo de Olinda e do Recife. Várias outras carruagens de qualidade. Acentue-se que heráldicas. Fidalgas. De fabrico inglês. E sem que Ihes faltassem esplendores de prata da melhor.
Note-se da Capital de Pernambuco que, como cidade quase perfeitamente plana, foi de ecologia ideal para carruagens de qualidade. Os palanquins sobreviveram em Olinda, como em Salvador e no próprio Rio de Janeiro, sob o aspecto de transporte fidalgo, harmonizado a ladeiras. Enquanto o Recife foi cidade de moradores aristocráticos e ricos, que puderam antecipar-se no uso de carruagens elegantes e até heráldicas, a rodarem, como em espaço ideal, por espaço urbanamente piano.
Daí o grande número de carruagens dessa categoria social e esteticamente superior que acumulou-se no burgo recifense a serviço de moradores cujo status passou a ser avaliado, não só através de pajens e mucamas bem apresentados, no século XIX, como através de carruagens de luxo, de qualidade, estáticas, que pudessem ostentar esse ilustres moradores. Algumas dessas carruagens, de origens britânicas que, são elas, as recomendavam a apreços e a estimas de brasileiros conhecedores do assunto.
Essas carruagens poderiam ter constituído um excelente museu recifense, parente brasileiro do dos coches de Lisboa. Por que, em época de grandes lucros pernambucanos com o açúcar - o após à Primeira Grande Guerra, por exemplo - não surgiu, no Recife, quem tivesse tal idéia? Falei no assunto a Estácio Coimbra: governador atento a assuntos artisticamente culturais, ao contrário de Manoel Borba, como seu antecessor e de Agamenon Magalhães, como seu sucessor. Dois sagazes políticos indiferentes a tais assuntos. Mas, no caso, também Estácio Coimbra deixou de se sensibilizar pela sugestão que Ihe fiz. Foi como se eu lhe propusesse resvalar em total arcaísmo.
Aliás, o que se sugere quanto ao que poderia ter sido um museu recifense de carruagens, pode-se sugerir a respeito das muitas e algumas superiormente belas, varandas de ferro, tão características dos sobrados particularmente altos, esguios, magros, do Recife - alguns de seis e até sete andares - desde quando, por influência britânica, exportadores tanto de ferro como de vidro, verificou-se um quase total remédio brasileiro à madeira. Madeira em cujo uso em muxarabis refletiu-se influência árabe ou moura. A influência árabe ou moura de que são testemunhos dois bons sobrados olindenses, tudo indica que sobreviventes de incêndios de igrejas e casas, da velha cidade, pelo invasor holandês.
Com essas varandas de ferro, que fizeram do Recife cidade tropical, neste particular, parente de cidades espanholas, desde o século XVII enobrecidas, em suas casas de residência, por heráldicas, estéticas, artísticas varandas de um ferro por vezes de um negro violeta, a Capital de Pernambuco poderia ter se dado ao luxo no caso dessas varandas, menos difícil que no das carruagens - de ter se abrilhantado com a presença de outro museu especializado. Um museu de varandas de ferro outrora, repita-se, de belos e característicos sobrados, na Capital de Pernambuco, tão nobres, tão fidalgos, tão aristocráticos, quanto grades e portões em algumas casas-grandes do interior pernambucano. Alguns desses sobrados, acusando, nos seus telhados, influência holandesa reveladora da falta, entre esses norteeuropeus, de capacidade de adaptação ao trópico. Assunto abordado pioneiramente no livro Sobrados e Mucambos e estudado com minúcia quase germânica pelo Professor Aderbal Jurema no seu sugestivo 0 Sobrado na Paisagem do Recife.
Pode-se supor, de algumas das varandas de sobrados do Recife do século XIX, terem sido trabalho da Fundação Inglesa, durante anos, em fecunda atividade, na Capital de Pernambuco. Atividade concentrada em préstimos tecnicamente valiosos, aos engenhos da então Província, necessitados de máquinas que correspondessem ecologicamente ao êxito, em época tão economicamente próspera, na velha Província, da indústria do açúcar. Mas sem deixar de contribuir a Fundação para a dignidade da Capital com, além de varandas de sobrados, portões, alguns magníficos, bonitas grades de resguardo a jardins eurotropicais, precursores dos que viriam notabilizar o muito recifense Roberto Burle-Marx, e com também muito recifenses aldrabas de portas, fechaduras, ferrolhos, ferros de amarrar cavalos A entrada de edifícios. Objetos que constam das preciosidades desse gênero, salvas de esquecimento, pelo Museu do Homem do Nordeste da Fundação Joaquim Nabuco, ao lado de ferros de orixás afrobrasileiros, entre os quais, Exus, de membros virís em arrogante ereção. Lamente-se do Museu da Fundação Joaquim Nabuco não ter surgido antes do dia em que surgiu, dando nova perspectiva à museologia brasileira, em continuação ao primeiro museu do Pais de orientação sociocultural: iniciativa ainda de governo lúcido da, por vezes, injustiçada República Velha.
Quando se diz "homem e casa" é preciso que se especifique não se tratar só do indivíduo do século masculino e adulto. Também da mulher. Também da criança. Também do velho.
A ligação do ser humano com a casa não se faz somente ou singularmente através do adulto do sexo masculino. Lembre-se da ligação da mulher com a casa ser a mais longa, a mais íntima, a mais profunda.
Circunstâncias a que o museólogo precisa de estar orteguianamente atento. Pluralidade. O ser humano, que o museólogo apresenta em suas ligações com a casa, é um ser plural que se manifesta pluralmente através dessas ligações.
Já houve quem sugerisse da fotografia da figura humana que é sempre uma sociofotografia. 0 ser humano aparece condicionado pela sua ligação com objeto que o socializa: montado, de botas, a cavalo; junto a uma cadeira antiga que o une á família ou a uma mesa que define seu trabalho; lendo um livro; tocando um violão; vestido para ir à missa. Socializações que o humanizam, personalizam, regionalizam, prende-o a cotidianos.
Personalizações, regionalizações, caracterizações sociais que se tornam mais importantes com reproduções de figuras humanas que sejam objetos de apresentações museológicas. A museologia não prescinde de contextos em que sejam apresentadas essas reproduções de seres humanos: homens, mulheres, crianças, adultos, provectos. Precisa cada um deles de ser socializado, aculturado, regionalizado, pelo móvel ou objeto outro que o acompanhe, que o caracterize, que o defina.
A museologia, quando antropológica, é antropologia social, antropologia cultural, antropologia ecológica. Complexa, portanto. Abrangente. Quanto possível, total.
Documentação o mais possível vibrante, de vida, surpreendida nos seus à-vontades. 0 mais possível existencial. Vivente. Convivente.
Reveladora de intimidades. De cotidianos. De tempos a fluírem ou captados em exatos momentos típicos ou característicos.
A museologia que concorda em apresentar o homem, sua vida, sua cultura, em posições solenemente estáticas, atraiçoa o que nela é, além de ciência, arte. Arte mais agilmente interpretativa que apenas descritiva.
Gilberto Freyre
Fonte: FREYRE, Gilberto. Cultura e museus. Recife, 16 out. 1984.
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