GUERRA, PAZ E CIÊNCIA
Foi na verdade uma reunião extraordinária aquela de que tive a honra de participar, em Paris, de 27 de junho a 9 de julho. Tendo sido convocada pela Unesco, que é hoje, sob a direção do
cientista inglês Julian Huxley, uma das expressões mais avançadas da Organização das
Nações Unidas, fugiu de tal modo ao convencionalismo das reuniões puramente oficiais,
por um lado, e ao academismo das reuniões de Ciências, Artes e Letras da antiga Liga das
Nações, por outro lado, que os observadores de assuntos internacionais concordam em que,
com êsse conclave, surgiu não só uma nova técnica, como um novo tipo de conferência
de alcance ou sentido mundial.
É que, em primeiro lugar, as potências que se fizeram representar, ou que foram chamadas a participar da Conferência, não foram as que se caracterizam pelo poder material configurado política e nacionalmente por Estado ou Govêrno mas as que exprimem o esfôrço supra-nacional e supra-político do homem de hoje para conhecer-se e integrar-se como indivíduo e como pessoa. Potências que, em vez de se chamarem França ou Grã-Bretanha, Estados Unidos ou Brasil, chamam-se Antropologia,
Psicologia, Sociologia, Economia, Psiquiatria.
Dizendo potências, não exagero. Tanto que poderia ir além e chamá-las supra-potências, de tal modo superiores elas são, como poder integrador das culturas humanas, aos simples estados e até às nações que, por mais poderosas, são efêmeras dentro das civilizações a que têm correspondido diferentes tipos de ciências ou para-ciências do homem, precedidas ou acompanhadas por
expressões estéticas e interpretações filosóficas e religiosas das relações dos
homens com a natureza, com a sobrenatureza e entre si. E se é certo que várias ciências
do homem têm sido utilizadas por estados ou nações como se fôssem simples servas de
formas apenas políticas ou, como diria o Professor A. Berle Junior, apenas policiais, de
nacionalismo ou de estatismo, é também certo que essas expressões de poder político
ou, antes, de poder econômico configurado política ou policialmente, têm encontrado nas
ciências do homem inimigo constante de seus excessos, de tal modo revelam tais ciências
o que há de precário em mitos política ou policialmente úteis a grupos dominantes.
Entre êsses mitos, certas teorias de superioridade ou pureza de raça, certas teorias de
superioridade ou pureza de casta, certas interpretações das relações inter-humanas
condicionadas pelo espaço físico como as oferecidas pela geo-política mais
estreitamente nacionalista ou mais pseudo cientìficamente imperialista.
A Conferência de Cientistas Sociais, convocada
pela Unesco, foi corajosamente experimental em sua técnica. Ainda que, acadêmicamente,
todos os convocados se conhecessem através de livros ou artigos publicados em revistas
científicas e a Conferência tivesse se iniciado com a revelação ou a recordação da
biografia acadêmica de cada um, o ambiente dos trabalhos teria permanecido, até quase o
fim das reuniões, de reserva ou cerimônia, se um dos convocados, o psicanalista inglês
John Rickman, não houvesse sugerido que às biografias acadêmicas se acrescentassem umas
como auto-biografias íntimas: as chamadas life histories que psicólogos e
sociólogos tanto se deliciam em colhêr dos outros. Desta vez o feitiço alcançou os
feiticeiros. Os cientistas tornaram-se de algum modo seus próprios pacientes. Acreditava
o psicanalista Rickman que daí emergeriam traços de predisposições, preconceitos e
talvez de complexos: dos que em psicanálise são considerados tão importantes para a
revelação de personalidades. E a psicanálise, diga-se de passagem, longe de ter morrido
com seus mestres um tanto rígidos de Viena, renova-se e amplia-se hoje, em Londres, onde
vêm se empreendendo até estudos da correlação do fenômeno político com a repressão
e a frustração de impulsos nos indivíduos, como a obra de Glover, War, Sadism and
Pacifism. Tais estudos pecam evidentemente pelo excesso de biologismo; mas não deixam
de ser sugestivos para o cientista social atento a exageros de seita entre psicanalistas,
mesmo inglêses.
À base das revelações provocadas pela sugestão do Dr. Rickman acreditava-se que seria relativamente fácil identificar, nos convocados, característicos de personalidade e relações e conflitos do indivíduo com o meio ou a cultura nacional e com outros meios e culturas. Foi o que de certo modo aconteceu. Colhidas as histórias pessoais, o ambiente do Conclave tornou-se imediatamente
quase o de conversa entre velhos amigos, embora fôssem numerosos, até o fim da
Conferência, que durou duas semanas, os choques do psiquiatra de Londres com o marxista
húngaro, catedrático de Sociologia de Economia da Universidade de Budapest; os choques
de formação intelectual de europeus com americanos; os choques, de natureza
principalmente linguística, de inglêses com americanos dos Estados Unidos; os choques de
orientação e de terminologia de sociólogos com psicólogos, economistas e psiquiatras.
Outra inovação de técnica da Conferência de
Paris foi a relativa à semântica, assunto a que se está dedicando hoje, nos estudos
sociais, como todos aqui sabem, grande atenção. Desde o trabalho de Ogden e Richards
sôbre The Meaning of Meaning, o de Hayakawa, Languague in Action, as
páginas de vulgarização de Stuart Chase sôbre a "tirania das palavras", que
essa atenção só tem feito aumentar. E ainda há pouco George Bernard Shaw salientava em
carta dirigida a um jornal de Londres: "a presente confusão de línguas está nos
conduzindo diretamente a uma guerra..." Ora, a "confusão de línguas" a
que se refere Shaw é confusão de palavras. Ou confusão de linguagem.
Parece haver, realmente, antes uma traição que
uma "tirania" de palavras contra à qual precisamos de estar particularmente
vigilantes em conferências, debates e discussões internacionais de filosofia, ciência,
arte e política. As modernas pesquisas de semântica em relação com a psicologia, a
filosofia e a política indicam, na verdade, que linguagem e lógica são de tal modo
arbitrárias e relativas, de tal modo condicionadas pelo passado e pela situação sociais
e culturais de cada um, de tal modo contidas pelo que Ogden e Richards chamam
"triângulo de Referência", segundo o qual as palavras só têm significado
exato quando a palavra, quem a emprega e o objeto a que se refere são todos considerados,
que, descontados os exageros do semanticismo, não nos devemos esquivar ao novo método de
análise e de crítica desenvolvido pela semântica.
Na Conferência de Paris, uma das assistentes do
Professor Allport, mestre de Psicologia Social da Universidade de Harvard, acompanhou
tôdas as discussões e todos os trabalhos, particularmente atenta à diversidade de
sentido de palavras empregadas por cientistas sociais de diferentes tradições e meios
culturais com aparente identidade de significado. Em certos momentos essas palavras
provocaram tempestades das chamadas em copo d'água, dada a sua diversidade de significado
íntimo. Pluralismo, por exemplo. Havia quem só empregasse a palavra no sentido de
pluralismo moral de personalidade ou de pluralidade de egos; havia quem a empregasse no
sentido, quase oposto, de pluralismo cultural. Uma tremenda contradição de sentido por
traz do acôrdo simplesmente verbal. E essa contradição devida antes a confusão de
linguagem do que de língua.
Verificou-se que numa conferência de ciências
sociais sôa falso o desdém do personagem de Shakespeare pelas palavras: ao célebre
"que há num nome?", a propósito da rosa chamar-se rosa, já se opõe, aliás,
um tanto humorìsticamente, o caso do indivíduo de tal modo alérgico a rosas que
desmaiava diante das de papel só por parecerem rosas e se chamarem rosas. Donde a
importância de aparências e de denominações. Despresadas, essas aparências ou
denominações podem vingar-se de nós, lançando-nos em confusões e conflitos
terríveis.
A vigilância crítica ao emprêgo de palavras e
o início do Conclave com revelações pessoais e não apenas convencionalmente
acadêmicas da vida dos convocados, indicam quanto foi nova a técnica de conferência
seguida em Paris: quanto os oito cientistas sociais ali reunidos pela Unesco procuraram
resguardar-se de traições do passado pessoal-social de cada um e do vocabulário
correspondente a êsse passado; quanto foram, ou procuraram ser, severos na análise e na
crítica de si próprios. E é curioso o fato de que as biografias extra-acadêmicas
revelaram que dos oito cientistas convocados três haviam conhecido a prisão política;
três haviam sido psicanalisados; dois se encontravam de algum modo ligados a atividades
políticas.
Se me perguntarem, porém, qual a impressão mais
forte que trago da Conferência dos Oito Cientistas Sociais reunidos em Paris responderei
que é menos a de análise que a de síntese. Foi imenso o esfôrço de análise; maior,
ainda, foi a preocupação de síntese. Sinal do tempo. Pois o que mais se procura hoje
nas ciências do homem é síntese sem sacrifício, é claro, do constante esfôrço de
análise e sem prejuízo, é também evidente, das como soberanias que representam, dentro
de sua constelação científica - a das ciências do homem - as várias ciências
geralmente chamadas sociais. E a Conferência de Paris, convocada, como foi, para o fim
especial de se estudarem as tensões entre os grupos humanos, em geral, e os nacionais, em
particular - tensões que de ordinário resultam em conflitos armados - serviu para
acentuar interessante correlação: que à tendência para a síntese ou integração
entre as ciências do homem corresponde a tendência para a síntese ou a integração
entre os grupos em que se apresenta fragmentada a sociedade humana. Inclusive os grupos
nacionais. Afinal as ciências sociais têm isto de comum com os grupos sociais, inclusive
as nações e os Estados-nações: existem, e desenvolveram-se em grupos separados e até
em soberanias, como expressões da necessidade experimentada pelo homem de conhecer-se e
de organizar-se como pessoa e como grupo, partindo do particular para o geral. Exagerado o
conceito de soberania tanto naquelas formas especiais de conhecimento como nestas formas
especiais de organização, a ponto de, nas primeiras, ter se chegado ao sacrifício do
social ao econômico, por exemplo, e, nas últimas, ao sacrifício do humano ao nacional,
ou do social e, ao mesmo tempo, pessoal ao impessoalmente estatal, é explicável a
reação que hoje se verifica contra tais exageros de conceitos de soberania científica e
de soberania política tornados obsoletos pela crescente interdependência entre as
ciências e pela igualmente acentuada interdependência entre as nações; e no sentido do
que poderíamos denominar um critério pan-humano tanto de ciência social como de
organização social. O que não deve ser confundido com utopias de ciência social única
ou de organização social cosmopolita. É possível que cheguemos um dia a essa unidade.
Mas depois de atravessada a fase, em que nos encontramos, orientada pelo critério de
área: áreas de conjuntos de ciências e áreas de conjuntos de nações.
O que, na verdade, se procura hoje é uma
síntese dentro da realidade de interdependência que dia a dia se faz sentir mais
poderosamente tanto sôbre os que estudam o homem social como sôbre os que organizam,
comandam ou dirigem grupos sociais. Inclusive os grupos nacionais. E para que esta
síntese se realize fecunda e creadoramente, correspondendo às necessidades ou às
condições de uma nova fase de relações inter-humanas, não é preciso que nos
coloquemos em oposição radical nem às soberanias entre as ciências especiais do homem
nem as soberanias entre os grupos nacionais de homens: apenas contra seus excessos de
especialismo ou particularismo, de separatismo, de autonomismo e até de imperialismo. Que
êste existe entre as ciências tanto quanto entre as nações. De vez em quando uma
pretende absorver as demais: no século XIX foi a tendência da biologia e no atual é o
pendor da economia depois de ter sido o da sociologia.
Para haver um maior e mais exato conhecimento
científico do homem e uma organização social dos homens mais sòlidamente baseada
sôbre êsse conhecimento, não sei de moderno cientista social nenhum que se veja
obrigado por espírito ou critério científico a advogar o desaparecimento das ciências
sociais especiais para que reine, em seu lugar, uma ciência social única; ou o
desaparecimento imediato de nações-estados, ou de culturas nacionais ou regionais, para
que, em seu lugar, comece a florescer messiânicamente uma sociedade ou cultura
indistintamente cosmopolita, sem antagonismos regionais nem diferenças nacionais entre
grupos. Não vai a tanto a superação de velhos conceitos de soberania pelos impostos por
irrecusáveis condições modernas de interdependência - interdependência e não
uniformidade - social e cultural entre os homens. Encontra-se, entretanto, em situação
de melancólico arcaismo quem hoje insiste em estudar um problema econômico, por exemplo,
ou político, ou jurídico, à revelia do complexo social ou psicosocial ou ecológico que
o envolve; ou em procurar dirigir um estado ou a política de uma nação ou orientar o
seu direito ou a sua economia ou a sua defesa militar à revelia das novas e complexas
relações entre os grupos humanos. Relações condicionadas por técnicas tão
violentamente novas de transporte, de produção e de guerra que o espaço físico, e não
apenas o social, é hoje diferente, como problema humano, do que foi até 1914: o fim
sociológico e psicológico da era Vitoriana - ou da Pax Britânica - e o comêço da fase
mais difícil de transição para o período, em que talvez já nos encontramos hoje, de
Pax Americana ou Anglo-Americana.
É claro que ao nos referirmos a Pax Americana,
ou Anglo-Americana, não nos entregamos à idéia simplista de um mundo de tal modo
dominado pelo poder americano ou anglo-americano que, à sombra dêsse domínio, cessem as
diferenças de nação para nação, de grupo para grupo, de cultura para cultura; e no
qual não seja preciso dar novo sentido, novos rumos, novas direções às tensões ou
conflitos entre grupos e culturas diferentes. Com êsse problema de ajustamento de
diferenças - ajustamento e não tentativa simplista ou policial de eliminação de
antagonismos - muito se preocuparam os oito cientistas sociais reunidos em Paris para o
estudo, do ponto de vista de suas ciências, daquelas tensões.
Creio poder dizer-se que o critério dominante
entre os referidos cientistas foi, com relação à ciência e à filosofia da ciência de
cada um e do conjunto das ciências do homem, semelhante ao critério que há anos
defende, em sociologia do direito, o professor holandês Krabbe. Êsse critério, sendo
funcional, é também pluralista; e sendo pluralista é também federalista. Para
harmonizar tais contrários se faz necessário, como no comêço de tôda era social e
culturalmente de síntese, a ausência de rigidez nas preocupações de unidade
filosófica. Só assim poderá ser maior que hoje - poderá ser máxima - "a
capacidade de ajustamento de necessidades e pontos de vista diversos", a que se
refere outro mestre moderno de ciência social, o Professor Merriam. Inter-relacionismo,
sim; mas não uniformismo com sacrifício do que é original, próprio, diferente, nos
grupos em que se divide a sociedade humana. Internacionalismo sim ou inter-regionalismo;
mas não cosmopolitismo estandardizador.
É, pelo menos, o que se vem concluindo das
pesquisas e estudos do problema de diversidade entre os grupos humanos, condicionada por
formas nacionais de organização e de cultura dia a dia superadas pelas trans-nacionais,
isto é, por formas correspondentes a áreas ou regiões que compreendem conjuntos de
nações. Dentro das culturas histórica, cultural, e não apenas geopolìticamente,
condicionadas em culturas nacionais, e da intimidade de vida que essas culturas assim
condicionadas criam para o homem - e para a qual se faz necessária, como lembra o
Professor Sibley, "certa medida de independência política" - desenvolve-se a
creatividade artística e literária de um modo que seria arriscado substituir, ou
procurar substituir, por condições de universalismo abstrato: o puro e simples
cosmopolitanismo desejado pelos utopistas da marca de Wells. Há quem, do ponto de vista
psicológico, considere que, dentro das condições de comunicação ainda dominantes, o
que é remota e indistintamente universal não captura da imaginação do homem o que ela
possui de melhor, de mais vivo, de mais criador, necessário, como parece ser, a essa
imaginação criadora, o contacto com a vida sob formas particulares de experiências
íntimas que são, de modo geral, as historicamente nacionais. A essas experiências é
que alguns de nós opomos, como psicológica e sociològicamente mais importantes que elas
- experiências nacionais - é as configurações regionais de cultura, mesmo quando
predominantemente folclóricas. Pois estas comportam civilizações ou culturas
trans-nacionais; e não apenas nações ou simples e efêmeros Estados-nações. Assim
consideradas, as culturas ou civilizações regionais, - regionais no sentido antes de
trans-nacionais que de subnacionais - são as unidades de estudo histórico a que se
refere o Professor A. J. Toynbee ao sugerir que a sociedade ocidental, caracterizada
sociològicamente pelo Cristianismo, a bisantiana, de que a Rússia é parte e, hoje,
essência, a islâmica, a indú, o extremo Oriente são as verdadeiras unidades de estudo,
em qualquer esfôrço de compreensão da história humana. De estudo e - acrescente-se -
de ação ou reorganização política, evidente, como é, que, politicamente, nos
encontramos hoje menos diante de um mundo dividido em nações do que em áreas naturais e
de cultura. Dessas áreas umas se apresentam mais psicológica, social, ou
geogràficamente predispostas ou sujeitas à influência do poder imenso dos Estados
Unidos ligado ao da Comunidade Britânica - cujas formas preferidas de vida são dentro
das tradições greco-romanas e cristãs, as predominantemente personalistas quando não
individualistas; outras à pressão ou ao impacto do poder russo, ou soviético, que é
outro poder enorme e cujo sentido principal de vida e de cultura é o macissamente
coletivista.
Aqui se torna oportuno observar que, do critério
geopolítico de estudo das relações internacionais, se destacam aspectos que, isolados,
se apresentam com validade científica, embora, em conjunto, sua configuração seja antes
a de pseudo-ciência a serviço de interêsse político que a de ciência tanto quanto
possível independente de fins imediatamente políticos. Um dêsses aspectos é o de
"áreas contiguas", critério que de algum modo coincide com o de um autêntico
geógrafo moderno, especializado em geografia política, - o Professor Bowman - ao
referir-se à influência sôbre as condições de vida humana e de vida internacional das
combinações regionais de tipo de solo, exemplo das várias combinações regionais que
constituem áreas não só naturais como de cultura.
E Burnham - cujas coincidências de pontos de
vista com os geopolíticos já têm sido salientadas pelos críticos - observa o fato de
que as modernas descobertas técnicas tornaram os estados nacionais e os próprios
impérios, anacronismos, para, em seu lugar, se esboçarem organizações políticas por
áreas ou regiões. Principalmente acrescente-se a Burnham - por áreas de cultura que
não raro superam as naturais, contrariando o ecologismo de Geddes.
É em face dessa situação que vários de nós
consideramos de extrema importância o fato de dentro da civilização ocidental - uma
civilização de área embora universalista em suas intenções e caracterizada
sociològicamente pelo Cristianismo - levantar-se hoje o poder renovador e, ao mesmo
tempo, integrador, representado por experiências ou aventuras de síntese, isto é, de
combinação de solidarismo com personalismo e de nacionalismo com federalismo, como a
experiência britânica. A essa experiência de origem ocidental parece, de algum modo,
corresponder a experiência, na Ásia, da civilização indu, ou indiana, onde ela se
encontra com a islâmica, no sentido de uma reorganização ou recombinação dos valores
dessas duas civilizações.
A experiência britânica se apresenta a alguns
observadores como suscetível de se estender, quase sem violência, àqueles espaços
sociais da mesma área de civilização - a sociològicamente cristã - mais apegados ao
privativismo e ao capitalismo nas suas formas cruamente ortodoxas, tornando possível,
através dessa expansão, homens de várias nações - em conjunto, as tècnicamente mais
avançadas de hoje - enfrentarem o problema de liberdade de emprêsa em suas relações
com as crescentes necessidades de socialização de economia - problema hoje envolvido de
um lado e de outro pelo que o grande pensador católico e inglês que é Toynbee, chama
"fanatismo semi-religioso" - como problema dos que o mesmo Toynbee denomina
"problemas práticos" ou de "circunstância e adaptação". Por outro
lado, a experiência indoislâmica, na Ásia, talvez se desenvolva na necessária ponte
entre o personalismo cristão e o coletivismo oriental; e não apenas entre as áreas indu
e islâmica de civilização que, separadas politicamente, talvez se harmonizem melhor nos
seus contrastes ou antagonismos mais profundos. Daí a importância dessa experiência
parecer a alguns de nós regional ou inter-regionalmente tão grande quanto a da
experiência britânica. Mesmo com a Irlanda Católica agindo politicamente contra o
esfôrço comum, a experiência britânica representa uma obra imensa de equilíbrio de
antagonismos ou de harmonização de contrários.
Na Conferência de Paris foi evidentemente o
critério de síntese e de tentativa de compreensão e harmonização de contrários que
orientou os trabalhos e os debates, como resultado não de um programa formal ou
oficialmente estabelecido por quem quer que fôsse, mas em consequência do que um dos
observadores presentes às reuniões, o economista inglês Martin, chamou de "science
oblige".
Realmente a ciência obriga o verdadeiro
cientista a uma constante atitude de compreensão e de tolerância que coincide com a
atitude a que se sente obrigado também, suponho eu, o verdadeiro artista político ou
jurídico: a de procura do que é comum entre indivíduos ou grupos, escolas ou sistemas
rigidamente antagônicos, para sôbre essa base construirem-se combinações novas. Arte
em que o inglês ou o britânico permanece, ao meu vêr, mestre sem igual. Êle é hoje o
baiano da política internacional, da qual o norte-americano é uma espécie de paulista e
o russo, uma espécie de gaúcho à moda antiga.
Entre os oito cientistas sociais reunidos em
Paris se achavam, como já referi, um marxista húngaro e um psicanalista inglês,
representantes de dois sistemas geralmente considerados fechados e que, mais de uma vez,
chocaram-se no Conclave, antagônicos, como são, em suas bases filosóficas. Mas de tal
modo a "ciência obriga" que marxistas e psicanalistas, quando autênticos
cientistas, confundem-se com os demais homens de ciência no gôsto de objetividade, no de
tolerância, no de cooperação, no de crítica franca e até rude porém, quanto
possível, construtiva. E o mesmo teria acontecido se entre os cientistas sociais
convocados pela Unesco estivesse um historiador-sociólogo como o inglês Toynbee que,
sendo Católico-romano, é também cientista social.
Devo, a esta altura, insistir no fato de que a
escolha de cientistas sociais para a Conferência de Paris se fêz não só à revelia de
credos como apolítica, anacional e até inacademicamente: nem governos, nem as próprias
comissões nacionais da Unesco, nem academias de ciências foram consultados a respeito
dos indivíduos convocados. O critério de escolha foi, quanto possível, científico,
isto é, o de valor ou de significação científica atribuída justa ou generosamente ao
convocado por seus confrades acadêmicos e inacadêmicos. O que se procurou foi reunir
representantes de ciências conciliando-se, de certo modo, êsse critério principal - o
de mestres, ou supostos mestres, de especialidades, preocupados com o problema de síntese
na sua constelação científica - com o critério de representação de áreas ou
civilizações transnacionais.
Por isto mesmo é que, na primeira vez que fui
convocado a falar no Conclave de Paris - cuja língua oficial foi a inglêsa, embora a
francesa se fizesse ouvir freqüentemente - levantei duas objeções não ao critério de
composição mas à composição do grupo tal como se apresentou na sua forma definitiva.
Estranhei que, no mesmo grupo, não se encontrasse um cientista social do Oriente: um
cientista social como o indiano Mukerjee, por exemplo, grande mestre de sociologia e
economia que nos teria trazido uma tradição de saber ou de indagação sociológica
diferente da ocidental. E estranhei a ausência de um cientista social-mulher. Não que a
ciência social tenha raça ou sexo: não tem, evidentemente. Tôda ela é ciência do
homem como a geologia é sempre ciência da terra, quer o geólogo seja mulher, quer seja
homem, quer seja montanhês, quer seja praieiro. Mas sabemos que o Oriente tem seus
próprios pontos de partida para o estudo dos problemas sociais do homem. Sabemos,
igualmente, que, no estudo das chamadas sociedades ou culturas primitivas, as mulheres
têm tido, como cientistas sociais, acesso ao conhecimento de zonas de comportamento
humano ou de intimidade social, fechadas à pesquisa ou à investigação dos cientistas
do sexo masculino. E são zonas que cientificamente se relacionam com o estudo das
tensões entre grupos ou nações. Tais reparos críticos mereceram a consideração do
presidente do Conclave, o Professor Cantril, da Universidade de Princeton. Informou êle
terem os organizadores da Conferência cogitado de convidar para suas reuniões ilustre
antropologista inglêsa - e as antropologistas inglêsas e americanas, diga-se de
passagem, são, como as romancistas, rivais dos homens na análise do comportamento
humano, superando-os em vários pontos. A convidada é que, infelizmente, não pôde
atender ao convite que lhe dirigiram de Paris os diretores da Unesco, empenhados num
esfôrço verdadeiramente heróico de organização.
Seja dito de passagem que o fato de ter sede em
Paris não significa que a Unesco desfrute hoje, na França ou na Europa Latina, do
prestígio que merece; e que não desfruta tão pouco nos Estados Unidos ou na
Grã-Bretanha, na Ásia ou na América chamada latina, nos países escandinavos ou nos
balcânicos. Vários são os elementos que a hostilizam. Ou que pretendem reduzi-la à
insignificância das organizações decorativas, fazendo silêncio em tôrno de suas
atividades. Não é só no Brasil que certos elementos sectariamente políticos se
insinuam hoje nos jornais, nas revistas, nas agências telegráficas, nos rádios, nos
cinemas para dominarem o noticiário e até as reportagens fotográficas e
cinematográficas, ora deformando fatos, e mesmo fisionomias - alongadas ou arredondadas
pela técnica da caricatura fotográfica ou cinematográfica, deformadora também de
gestos ou movimentos no sentido de tornar caricaturescos ou ridículos certos homens do
dia - ora fazendo silêncio em volta de acontecimentos ou de personalidades em evidência,
no interêsse de uma ideologia e de uma política que seguem hoje, como já lembrou o
Professor Laski, a técnica de infiltração seguida outrora, segundo êle, por jesuítas
políticos.
E é natural que dentro da Unesco se choquem
ainda, como se vêm chocando, rivalidades ou vaidades nacionais ou simplesmente humanas
que, como todos sabem, não são menores entre intelectuais, artistas e até cientistas do
que entre políticos; ou do que entre atrizes; ou entre mulheres simplesmente bonitas.
Decidiram os organizadores da Conferência de
Cientistas Sociais de Paris que ela se realizasse sem a presença de público ou de
representantes da imprensa. E foi como se realizou: sem publicidade que pudesse perturbar
de qualquer modo os debates e os trabalhos; ou excitar os participantes à demonstração
de arte oratória com possíveis erupções de brios nacionalistas, de vaidades
acadêmicas ou de furores de especialismo científico. Pois o que principalmente se
procurou em Paris já disse que foi que antropologistas, psicólogos, sociologos,
economistas, considerassem o mais possível os problemas de nacionalismo e
internacionalismo modernos, mais como cientistas sociais, do que como especialistas desta
ou daquela ciência social particular ou autônoma; e que inglêses, francês,
norte-americanos, norueguês, húngaro, brasileiro, não fôssem ali representantes de
nações ou de governos, mas de ciências; e essas, como já salientei, sem fronteiras
rígidas de um especialismo para outro.
Dada a circunstância de terem sido os cientistas
convocados para a Conferência de Paris, mestres, quase todos, nas suas especialidades,
compreende-se a importância e a significação atribuídas aos seus trabalhos e às
conclusões a que chegaram dentro de um ambiente raro de independência, de franqueza, de
desembaraço de convenções diplomáticas e de compromissos ou obrigações com governos
nacionais ou partidos políticos. No almôço oferecido no Palácio da Avenida Kleber pelo
Diretor Geral da Unesco, o Professor Julian Huxley, aos oitos cientistas sociais
convocados, no dia em que foi anunciada a redação final do chamado "common
Statement", assinado por todos e a ser completado por livro que será publicado breve
em inglês e em francês - livro onde cada um daqueles cientistas aparecerá com um
capítulo de sua responsabilidade individual, cuja primeira redação em língua inglêsa
foi um dos trabalhos realizados durante a Conferência - pôde o Professor Huxley
salientar a importância dêsses trabalhos e a significação daquele Statement.
E o que se diz da conferência nos meios da
Unesco é que foi a intelectualmente mais fecunda das realizadas até hoje por essa
organização das Nações Unidas, devendo ser apenas completada em pormenores pelo
trabalho de reuniões de peritos em educação e noutras técnicas. Peritos que serão
convocados com êsse objetivo e em obediência a resoluções da Conferência Geral do
México.
O brasileiro que teve a honra de participar dos
trabalhos da Conferência de Paris, não como brasileiro, mas como estudante já antigo de
sociologia, pode falar da mesma Conferência como de um triunfo, pelo menos de técnica,
por ter sido apenas um auxiliar de trabalho realizado por mestres. Êsse pequeno auxílio,
exprimiu-se em duas ou três sugestões que constam do chamado "common
Statement", resumido em doze itens. Uma das sugestões imodestamente recordarei aqui
ter sido considerada de importância capital pelos mestres reunidos em Paris: a que se
refere ao reconhecimento de direitos de minorias etnicas em nações ou comunidades onde
êsses direitos - situados há anos, em conferência internacional, por ilustre jurista
brasileiro, Afrânio de Melo Franco, em zona diversa daquela em que os colocaria o
sudetismo - sejam ainda negados ou assumam a forma de favor ou caridade de grupos
dominantes a dominados e mesmo de natos a naturalizados. O caso de americanos de origem
africana ou asiática em face dos de origem européia, nos Estados Unidos, por exemplo. O
caso de grupos mantidos ainda em status colonial quando já se revelam aptos para a
vida autônoma. O caso de restrições excessivas aos direitos dos cidadãos
naturalizados, inclusive as que se referem ao reconhecimento de diplomas estrangeiros, ao
exercício de profissões e atividades industriais e ao desempenho de cargos públicos
pelos naturalizados. Em virtude da mesma sugestão é que consta da Declaração ou do
"Statement" dos oito Cientistas Sociais da Conferência de Paris a afirmativa de
que não são compatíveis com a paz mundial nem "a exploração colonial", nem
"a opressão" - opressão ou exploração por metrópole, note-se bem, e não
tutela antes por várias que por uma nação única, como a tutela ainda necessitada por
certos grupos sub-nacionais, no seu próprio interêsse - de sub-nações ou de minorias
por grupos politicamente dominantes. E mais: como cientistas sociais os Oito de Paris
afirmam, na referida Declaração e em conseqüência daquela sugestão, não conhecerem
evidência de qualquer grupo étnico ser inerentemente inferior. A repulsa científica ao
racismo, tantas vêzes o aliado mais perigoso do que a resolução da Conferência Geral
do México chama "nacionalismo agressivo"; e o principal responsável por
exclusões raramente justificáveis ou sequer explicáveis de indivíduos de grupo étnico
ou cultural oprimido, segregado ou mantido em estado de subserviência, de carreiras,
ofícios ou profissões conservadas pelo grupo étnico ou cultural dominante como
privilégio de casta, de "raça" ou de cultura "superior",
"pura" ou mesmo messiânica.
Outra daquelas sugestões por mim esboçadas e
lançadas à discussão e que constam da Declaração dos Oito sob a forma de
recomendações, é a que se refere à necessidade de cooperação entre cientistas
sociais. Cooperação sob a forma de estudos e de organizações de estudo ou pesquisa
social em plano ou esfera regional - e transnacional ou internacional, quase sempre,
embora em alguns casos subnacional: velha idéia levantada há anos que tive o gôsto de
ver agora consagrada por sábios da autoridade e da responsabilidade dos reunidos em
Paris.
É evidente que um dos objetivos dessa
recomendação da Conferência é libertar quanto possível os estudos científicos do
homem da excessiva pressão oficial - isto é, governamental, estatal ou
estatal-partidária nos regimes de partido único - ou mesmo nacional quando a nacional é
das que sistemàticamente sacrificam o humano ao nacional e se extremam em deformação
nacionalista da antropologia, da psicologia, da sociologia ou da economia. É
desnacionalizar tais estudos quando pervertidos pelo nacionalismo ou, como diria o Sr.
Prudente de Morais, neto, "nossismo", sabido, como é, que há uma mística
"nossista" dentro de cada uma das ciências sociais. Não que em ciências como
as sociais seja possível, ou sequer desejável, fazer desaparecer do cientista a
condição de nacional ou de cidadão que o faz participar mais ìntimamente da
experiência de determinado grupo ou do passado de determinada comunidade tornando-o, em
mais de um caso, particularmente apto à compreensão e à interpretação de aspectos
sutis ou esquivos dêsse passado e daquela experiência. Evidentemente, porém, é tempo
de procurarmos conter o excessivo desenvolvimento das chamadas "sociologia
chilena", "sociologia peruana", "sociologia boliviana",
"sociologia brasileira", "sociologia francesa", "sociologia
alemã", tão fáceis de ser prejudicadas em suas qualidades científicas pelo
sentido não só extremamente nacional como virulentamente nacionalista, ou
"nossista" de algumas de suas tendências. O campo de pesquisas do cientista
social exige limites de área para maior consistência científica de seus estudos. Tudo
nos leva a crêr, porém, que tanto no interêsse técnico da pesquisa, como no da
desnacionalização daquelas ciências sociais, hoje demasiadamente nacionalizadas e até
intoxicadas por excessos de nacionalismo ou de partidarismo político identificado com
interêsses nacionais, o que uma organização como a Unesco pode e deve estimular nas
modernas ciências sociais é a tendência aos estudos regionais ou transnacionais, em que
o critério da área política, administrativa, nacional ceda a primasia ao de área ou
região natural, ecológica ou cultural.
A área ou região assim considerada é quase
sempre transnacional embora possa ser sub-nacional. Exemplo de região ou área
transnacional: a amazônica. De subnacional: a do vale do Tennessee, nos Estados Unidos.
Ou a do Brasil Central. Sob o critério de área trans-nacional é que se poderia estudar
hoje, com perspectivas mais amplas, o que sobrevive do ameríndio na América, por
exemplo; ou o que se verifica, no mesmo continente, de influência ou sobrevivência do
africano trazido para aqui como escravo; ou do sistema de monocultura, em geral
latifundiária e escravocrata, representado pelo açúcar, comum a vários países como o
cacau, o café, a pecuária foram, ou são, comuns a outras nações americanas. São
experiências monocultoras cujas semelhanças e diferenças de forma sociológica e de
conteúdo econômico, etnográfico, cultural, reclamam estudo em conjunto no próprio
interêsse da tentativa de solução de problemas atuais de desajustamento social em
largos trechos da América. Problemas cujas raízes mergulham nesse passado ainda recente
e antes transnacional que nacional.
Para a recomendação de que se estendam e se
aprofundem os estudos científicos de fatos e problemas sociais, em plano internacional,
procurei contribuir com outra sugestão: a de que se acrescentasse à revisão, sob êsse
critério, de livros escolares de história e de geografia, a das próprias biografias de
heróis nacionais, tantas vêzes fonte ou combustível de que fartamente se alimentam os
ódios entre as nações, os preconceitos entre as raças, as antipatias entre os povos,
os "nacionalismos agressivos" ou virulentos. Essa sugestão, que suponho nova ou
original, aparece desenvolvida no capítulo que deixei escrito para o livro a ser
publicado pela Unesco como expressão e documentação do que foi a Conferência de
Ciências Sociais de Paris. Aí se propõe que se levantem biografias de heróis nacionais
em que figuras às vêzes deformadas por mitos nacionalistas, no interêsse belicoso de
uma nação, ou de um grupo dominante dessa nação, sofram revisão crítica que, sem
procurar diminuir o que houve de grandeza humana em tais figuras, busque apresentá-las de
vários pontos de vista nacionais: os das nações diretamente alcançadas pela ação ou
pela projeção das figuras estudadas. Seriam biografias de caráter tanto quanto
possível transnacional e inter-científico, em cuja elaboração se unissem ao
historiador, o sociólogo, o psicólogo, o economista, o psiquiatra. Poderiam elas
concorrer poderosamente para a melhor compreensão entre os povos.
Reclamam-nas figuras como Joana d'Arc, Cromwell,
Felipe H, Huss, Solano López, Rosas. Solano - grande figura americana - bem mereceria que
o estudasse um grupo inter-científico e, ao mesmo tempo, internacional de competentes.
Grupo a que não faltasse um mestre de psicologia e em que ao cientista paraguaio, ao
argentino, ao brasileiro, ao uruguaio, se juntasse um norueguês ou suíço, por exemplo,
tão distante quanto possível da influência inflamável do herói paraguaio sôbre a
experiência nacional dos seus antepassados ou compatriotas.
Outra das minhas intervenções nos trabalhos da
Conferência de Paris que me julgo no dever de relatar aqui - já que o ilustre Presidente
da Comissão Nacional da Unesco no Brasil, o Dr. Levi Carneiro, quis que eu vos falasse
sôbre o assunto nesta casa ilustre, com a presença de tão eminentes figuras brasileiras
e estrangeiras, a começar por Sua Ex.ª, o Sr. Ministro Raul Fernandes - foi a de
procurar mostrar quanto é justa, do ponto de vista de países como o Brasil, a idéia
levantada na Conferência Geral do México, de publicar a Unesco livros sôbre os estilos
de vida dos vários grupos nacionais. Mas livros - pedi licença para lembrar aos
cientistas sociais reunidos, em Paris - que concorram para o conhecimento, por outros
povos, menos das glórias excepcionais de que se envaideçam as nações retratadas que do
passado e do caráter da sua gente considerados em seus aspectos mais expressivamente
cotidianos: suas tradições populares, sua alimentação, sua organização de família,
suas danças, seus divertimentos, seus animais domésticos, sua arte popular, sua música,
seus cultos, seus ritos, suas superstições, os brinquedos dos seus meninos, todo o
conjunto de pequenos hábitos e pequenos fatos que formam o lastro da cultura e do
caráter de um povo.
Em países como o Brasil, de imigração, e
necessitado de que indivíduos de outros povos venham aqui estabelecer-se, impõe-se essa
forma de conhecimento dos adventícios. Pouco importa ao brasileiro médio saber, por
exemplo, quais os feitos excepcionais dos heróis da Polônia ou da Hungria. Mas muito lhe
importa conhecer como é que vive na Polônia ou na Hungria a gente do povo, o homem
comum, o pequeno lavrador, de que maneira é êle católico ou cristão, como se alimenta,
qual o caráter ou o estilo de suas danças, de seus folguedos, de suas casas, de seu
trajo, de suas associações. Nada como a história social para aproximar um povo do outro
- tal a maneira humana por que as semelhanças e as diferenças entre os dois emergem do
fundo das configurações nacionais, neutralizando a ação da história estreitamente
política que é, quase sempre, no sentido apologético ou messiânico de exaltar uma
nação, diminuindo e até detractando ou humilhando as demais. Pelo que permiti-me
insistir na conveniência da Unesco procurar estimular o estudo científico da história e
das ciências sociais onde quer que êle se encontre pouco desenvolvido ou deformado por
aquelas caricaturas de ciências sociais que são a história apologética, ou ufanista,
segundo a qual a nação exaltada jamais perdeu guerra ou batalha para nação vizinha ou
desavinda; a geografia que atribui à nação do geógrafo e do govêrno nacional que lhe
encomendou o livro tôdas as riquezas quando não o direito geo-político a tôdas as
expansões econômicamente proveitosas ao grupo dominante e não apenas estratègicamente
convenientes ao interêsse nacional confundido com o de nações contíguas; a
antropologia e a sociologia que exaltam e até divinizam uma raça, ou suposta raça, em
detrimento das demais, com objetivos mìsticamente nacionalistas, expansionistas ou
imperialistas.
E todos os oito cientistas sociais reunidos em
Paris mostraram-se de acôrdo quanto à possibilidade de se por a serviço da maior
aproximação entre os povos, o que as técnicas de informação rápida - rádio,
televisão, jornal, cinema, revista - nos oferecem hoje como meio de contato entre o
cientista e a massa. Em medicina social, por exemplo, já muito se vem conseguindo, nos
últimos anos, através do emprêgo dos métodos de propaganda e de persuasão tornados
famosos por grandes emprêsas industriais e comerciais com relação aos seus produtos e
pelo Nazismo com relação aos valores que quis exaltar - a chamada raça superior, por
exemplo - ou quis negar: a chamada raça judaica, entre outros. O Professor Julian Huxley
lembra, num dos seus ensaios, os bons resultados já obtidos, nos Estados Unidos, através
da técnica de propaganda, na campanha contra o câncer; e, na Grã-Bretanha, pela
Sociedade Médica Britânica, na sua campanha a favor do maior uso do leite. Não seria
exagero dizer-se da guerra que é em ponto grande, na escala social, o que é o câncer; e
que, contra a guerra, como contra o câncer, pode-se esclarecer o público quanto aos
primeiros sintomas ou sinais de alarme que tornem possível à ciência dominar o mal em
numerosos casos, havendo, é claro, colaboração do doente ou dos doentes. Creio que não
há excesso de simplismo comparativo em dizer-se que, verificada a freqüência de
irritação ou de inflamação nas zonas de maior sensibilidade nas relações entre dois
grupos humanos ou duas nações, ou dois grupos de nações, deve-se procurar fazer,
sempre que possível, obra de profilaxia contra a guerra, como se faz, em situações
semelhantes, com relação a indivíduos, obra de prevenção e até de tratamento
precoce. Afinal, da paz entre as nações e da saúde entre os homens se pode dizer como
da democracia já escreveu o Professor Benes: que é um bem sempre em perigo. Pelo que
necessitamos de defender tais valores sempre em perigo com todos os recursos científicos
à nossa disposição e tôdas as técnicas de contato da ciência com a massa.
O que o charlatanismo sociológico, sob os
rótulos de arianismo ou geopoliticismo, por exemplo, tem conseguido divulgar através de
técnicas de persuassão de massa derivadas de conhecimentos científicos acumulados pelo
psicólogo ou pelo sociólogo moderno - e um dos maiores especialistas no estudo
psicológico do boato, do sussuro, do diz-que-diz, e do modo científico de lidar-se com o
boato ou o sussuro estava presente à reunião de Paris - pode e deve ser utilizado pelo
cientista autêntico na divulgação do que cientìficamente se conhece da chamada
natureza humana. Por exemplo: que, tanto quanto se saiba nas ciências do homem, não é
uma natureza, a humana, fatalmente predisposta à guerra, como espalha velho boato muito
divulgado, aliás, pela voz persuassiva de Nietzsche. Em outras palavras: que não se
conhece, em nenhuma daquelas ciências, instinto especìficamente belicoso ou guerreiro de
tal modo determinado pela mesma natureza que torne as guerras entre as nações ou os
conflitos armados, entre grupos, fatalidade biológica, inseparável da própria base
física, das próprias raízes da condição humana. Que não se conhece raça cuja
superioridade se derive de sua maior capacidade ou particular aptidão para a guerra. Que
não há evidência, em ciência alguma, das chamadas do homem, de ser qualquer raça
inerentemente inferior - ou superior - às demais.
Da chamada natureza humana se pode, na verdade,
salientar que, segundo os estudos mais recentes vêm indicando, é mais homem que
natureza; e como homem, isto é, como homem social, mais plástica e dinâmica do que
alguns imaginam. Não deixa nunca de ser natureza mas é sobretudo cultura.
Pode ser modificada ou alterada, no que tem de
plástica, por meios sociais, culturais a psicológicos como, na verdade, o vem sendo
através do que se conhece das variações de caráter nacional na história humana. O
exemplo do russo em pouco tempo transformado, em várias áreas da Rússia, em povo
predominantemente industrial, sob o regime soviético. O do inglês, exemplo moderno de
gente ordeira, quando já foi um dos povos mais agitados por insurreições. O do judeu na
Palestina moderna, onde se vem revelando, contra sua tradição noutros países, povo
agrário e até guerreiro, às vêzes calabreado em terrorista. São grupos nacionais que
têm por assim dizer mudado de sexo e não apenas de idade social e psicológica, passando
da passividade à atividade, da feminilidade à masculinidade social e de caráter; e não
apenas da adolescência à maturidade política.
Aqui, descemos ao mais fundo do assunto. Foi,
aliás, indo às raízes mesmas dos problemas em discussão que os cientistas sociais
reunidos em Paris, puderam afirmar que há "necessidades vitais comuns a todos os
homens que precisam de ser satisfeitas para que a paz seja estabelecida e mantida";
que "em tôda parte os homens buscam libertar-se da doença e da fome, da
insegurança e do mêdo"; que o problema da paz é o problema de se conservarem os
inevitáveis estados de tensão ou agressividade entre grupos e nações em plano, ou em
proporções tais, que possam ser dominados e, ao mesmo tempo, dirigidos para fins pessoal
e socialmente construtivos; que esse objetivo, na realidade imenso, não poderá ser
alcançado por "esforços isolados" ou "reformas de superfície";
"que são essenciais, alterações de organização social e de modos de
pensar"; que para o mesmo fim se faz necessário "planejar e orientar o uso do
poder e dos recursos de produção tendo em vista o máximo de justiça social" e
considerando se o fato de que "desigualdades econômicas, inseguranças e
frustrações criam conflitos entre grupos e entre nações" e permitem que "as
soluções mais que simplistas" e os "apelos de demagogos" sugestionem as
massas, enganadas também com "falsas imagens" de outras nações ou grupos
etnicos, através de propagandas e de boatos contra essas nações e êsses grupos.
Concordaram mais os oitos cientistas reunidos em
Paris em que concorrem ainda hoje para as guerras entre nações, "muitos dos mitos,
tradições e símbolos de orgulho nacional transmitidos de geração a geração".
Referência - é evidente - não só aos leões, às águias, aos dragões, às serpentes,
aos lemas e a outras afirmações arrogantes de nacionalismo, quando não de imperialismo,
em bandeiras, escudos e brazões nacionais, como a símbolos menos ostensivos de
nacionalismo agressivo. São símbolos, muitos dêles, de tal modo nacionalistas que
dificultam "o livre movimento de pensamento através de fronteiras políticas do que
é, na verdade, um mundo interdependente". Daí a necessidade de um ensino que se
oponha ao mito de ser sempre perfeito e justo o que é nacional, ou o que "é
nosso"; e que estimule, em vez de impedir, o exame, a análise, a própria crítica
de tôdas as formas de vida social, inclusive as nacionais.
É claro que não se trata de uma parte do mundo
seguir de modo absoluto tais recomendações baseadas sobre o que é cientificamente
possível fazer-se a favor de maior "compreensão internacional", à revelia do
que faça a outra parte. Creio que nenhum dos oito cientistas sociais reunidos em Paris
esqueceu-se, um momento, e considerando o problema a seu modo, do êrro da Grã-Bretanha,
sob o primeiro govêrno socialista: o êrro de entregar-se a um pacifismo quase lírico, a
uma política ingênuamente evangélica de desarmamento, enquanto, na Alemanha, poderoso
grupo nacionalista preparava a nação derrotada na primeira Grande Guerra para a
vitória, que quase foi sua, na segunda.
Outro tema importante da Declaração de Paris é
o que se refere à objetividade nas ciências sociais, impossível de ser alcançada -
concordaram em afirmar os cientistas reunidos pela Unesco - "onde quer que fôrças
econômicas ou políticas induzam o investigador a aceitar pontos de vista estreitos e
partidários". Daí reconhecerem todos a necessidade dos centros regionais e
transnacionais de pesquiza a que já me referi e de recomendarem a criação não só de
institutos mundiais de ciências sociais sob auspícios internacionais, como de uma
universidade internacional.
E é claro que os cientistas reunidos em Paris
não se conservaram silenciosos diante do problema que representam para as relações
entre o nacionalismo e o internacionalismo moderno, recentes invenções nas ciências
físicas e biologicas, de que a técnica de guerra vem se aproveitando. Concordaram em que
seus companheiros de estudo científico, biológos, químicos e físicos, não são
responsáveis pelo destino dado aos resultados de suas pesquizas. Êsse é um destino
condicionado pelas fôrças sociais e de cultura que, hoje, se não determinam, orientam o
uso que se faz da ciência. Não é a ciência em si mas o uso social da ciência o
problema ou o drama que nos deve inquietar. O laboratório entra no drama um tanto como o
sofá na anedota célebre. O laboratório está a serviço da virtude ou do crime conforme
o uso social que os homens façam dele. Para o esclarecimento do problema do uso social da
ciência - problemas cuja solução cabe antes à filosofia, à religião, à ética, à
política do que a ciência social - é que o cientista social pode concorrer,
contribuindo para que os homens adquiram maior conhecimento exato de si próprios, como
indivíduos e como pessoas, e mais larga e, ao mesmo tempo, mais exata visão do todo
social e humano a que pertencem; contribuindo para que os homens se apercebam de que
nação alguma é hoje independente das demais.
As principais conclusões a que chegaram os oito cientistas sociais que a Unesco acaba de reunir em Paris homens de diferentes ciências sociais, de diferentes áreas de cultura, de diferentes filosofias sociais - é o que parecem confirmar: que fora da interdependência não poderemos caminhar sem perigo de morte. Interdependência ou morte.
Aquelas conclusões já disse que serão apresentadas e desenvolvidas em livro a aparecer breve sôbre a conferência que foi talvez a mais livre de compromissos governamentais das que até hoje se reuniram à sombra de uma organisação destinada a ser mais de povos que de governos. Diga-se de passagem, porém - saliente-se mesmo - que o fato de depender ela ainda dos governos nacionais que a
constituem e a manteem só faz honrar esses governos. Pois fossem êles dos que
despòticamente reduzem as ciências a suas servas e conferências como a que acaba de
reunir-se em Paris seriam impossíveis. Por exemplos da importância dêste se pode
concluir que de nações e de governos como os que hoje formam a Unesco é que mais
podemos e devemos esperar no sentido de maior "compreensão internacional".
Não será decerto o livro que reunirá os trabalhos dos cientistas sociais convocados pela Unesco para essa conferência excepcional um novo livro de São Cipriano.
O Conclave de Paris não foi um ajuntamento de feiticeiros envolvidos misteriosamente em becas de professores ou capelos de doutores, como em mantos pretos de bruxos. Não surgiu dêle nenhuma receita mágica de endireitar Mouras Tortas ou de ressuscitar Brancas de Neves ou de despertar para novas realidades, Belas Adormecidas nos bosques. Dos cientistas sociais ali reunidos creio que nenhum se julga aparelhado por sua ciência a acabar da noite para o dia com os "nacionalismos
agressivos" e substituí-los pela "compreensão internacional" de que se
cogitou na Conferência Geral do México. Não se sentiram êles em momento algum um grupo
de mágicos capazes de fazer sair de repente das cartolas ou dos chapéus de feltro dos
estadistas, em vez de serpentes de guerra, pombas de paz. Mas todos - mesmo o Professor
Georges Gurvitch, o sábio mestre de Sociologia do Direito da Universidade de Strasbourg e
da Escola de Altos Estudos de Paris, que do princípio ao fim da conferência fêz ouvir,
ora em inglês, ora em francês, sua voz insistente de pessimista lúcido, de homem
nascido na Rússia - a terra onde os romances, ao contrário dos norte-americanos, nunca
terminam bem - e intelectualmente amadurecido na França - o país por excelência dos
críticos e dos céticos e aquele onde os romances quase nunca terminam nem bem nem mal,
pois mal chegam a principiar, tornando-se logo sátira com Voltaire, história com
Flaubert, Balzac e Proust, autobiografia com Benjamim Constant e Gide - todos concordaram,
ou concordam, em que ciências e cientistas sociais podem concorrer para dar às tensões
entre grupos e entre nações, sentidos ou direções novas e mais pessoal e socialmente
construtivas que as condicionadas pelas formas ainda dominantes de organização e de
pensamento sociais.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Guerra, paz e ciência. Rio de Janeiro, 28 jul. 1948.
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