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Assinatura de Gilberto Freyre
Discursos e Palestras  



MEU AMIGO GURVITCH


     Conferência proferida na Faculdade de Direito de Caruaru
a 11 de agôsto de 1971, sob a presidência do Prof.
Pinto Ferreira e por iniciativa do Prof. Tabosa de Almeida.

Agradeço aos dirigentes desta Escola a oportunidade, que hoje me ofereceram, de um primeiro contacto com seus professôres, com seus estudantes e com tôda a amável gente desta cidade - cidade por tantos motivos já famosa pelo que assinala na geografia cultural do Brasil - mais sensível a assuntos intelectuais. Meus agradecimentos ao jovem e brilhante professor de Direito que acaba de saudar-me de modo tão expressivo e cujo nome marca uma herança tão ilustre: a de JOSé ISIDORO MARTINS JúNIOR.

Aqui floresce, há anos, um conjunto de atividades universitárias em ambiente que sociológicamente se definiria como rurbano: saudável misto de urbano e de rural. Não surgiu êsse conjunto de improviso. Representa o esfôrço ingente e, por vêzes, heróico, do Professor TABOSA DE ALMEIDA, ao qual cedo se associou, como colaborador valoroso, um mestre de Direito e um douto em Sociologia do renome nacional e até internacional de PINTO FERREIRA.

É esfôrço que, com os sucessivos triunfos alcançados, já se tornou realização estável. Caruaru está, definitivamente, na geografia cultural do Brasil, tanto quanto Campinas, como Juiz de Fora, como Ribeirão Prêto, como Santa Maria (do Rio Grande do Sul), como Ponta Grossa, como São José dos Campos, como Vassouras, como Campina Grande, entre as várias expressões urbanas de atividade intelectual nas quais os estudos superiores estão, entre nós, se descentralizando, com maior ou menor vigor, em benefício de outras populações, além das urbanas. Fenômeno que, nos seus começos, atraiu a atenção do sábio sociólogo-jurista europeu no seu outono de vida tão interessado no Brasil, sôbre cuja personalidade de criador, e não apenas sistematizador, de saberes sociológicos, ligados aos jurídicos, procurarei hoje discorrer em tom menos de aula do que de "charla". Refiro-me a GEORGES GURVITCH.

     Um dos meus orgulhos é o de ter trazido GEORGES GURVITCH ao Brasil, para um segundo contato com o nosso país. Consegui que êle fôsse convidado a proferir conferências sôbre Sociologia do Direito, na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais da então Universidade do Recife; sôbre Sociologia Científica e Sociologia Filosófica, no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais; e também sôbre Sociologia do Direito, na Casa Ruy Barbosa, no Rio de Janeiro, onde o acolheu com as devidas atenções o então Ministro da Educação.

0 primeiro contato com o Brasil não deixara em GURVITCH impressão muito favorável. Admirara a beleza quase mítica do Rio. Constatara o também já meio mítico progresso de São Paulo. Mas não conseguira identificar, no país visitado um tanto turisticamente, uma cultura diferente da européia ou resistente à ianque que despertasse nêle interêsse de sociólogo: o constante sociólogo em profundidade que era, quer na França, quer viajando no estrangeiro.

Seu segundo contato com o Brasil foi o que lhe proporcionou o gôsto de identificar, no nosso país, como sociólogo, uma cultura nacional. Não se limitou, então, a demorar-se uns dias no Rio e a rever o Centro Sul do país: veio ao Nordeste. Conheceu o Recife, Olinda, Pernambuco. Foi até à Paraiba. Planejou mesmo conviver com caboclos da Paraíba, residindo todo um longo mês numa casa rústica, coberta de palha, entre coqueiros. E ai meditando e escrevendo. Um plano romântico, Mas que resultou impossível de ser realizado pelo mestre da Sorbonne desgarrado no trópico brasileiro.

Instalados os GURVITCH - o Professor e a espôsa - na sua casa agreste, em vez de passarem a conviver com caboclos, viram-se procurados por urbanistas mais ou menos intelectualizados que iam quase turisticamente vê-los, conhecê-los, admirá-los de perto, chegando ao retiro dos GURVITCH a qualquer momento, interrompendo-os nos seus trabalhos e nos seus sócios, nas suas refeições regadas a água de côco e nos seus cochilos: ecológicos cochilos em rêdes frescas, alvas, cheirosas, bem nordestinas.

De modo que fracassou o sonho do sábio de ser, no meio dos coqueiros do Nordeste, um GAUGUIN de nova espécie, que em vez de pintar mulheres de côr, convivesse com gente cabocla, participasse de seus jantares de peixe frito com farofa, saisse com um dêsses nativos, jangadeiro, mar afora, em brasileiríssima jangada, numa aventura extraordinàriamente afoita para um europeu residente há anos em sua sombria, super-civilizada, Paris. Que tudo isso estava no plano de GURVITCH. Mas dêsse plano romântico, pouco conseguiria êle realizar. Realizaria, entretanto, o bastante para que deixasse o Brasil mais tropical que pôde conhecer, saudoso da sua paisagern e da sua gente.

Era governador do Estado da Paraíba um intelectual que acolheu GURVITCH com a maior simpatia: o também meu amigo JOSé AMÉRICO DE ALMEIDA. GURVITCH, aos seus devaneios gauguinescos, juntava, então, outro: sonhava com a fundação, na capital da Paraíba, onde encontrara, no govêrno do Estado, homem tão compreensivo, de uma espécie de filial brasileira da Escola Normal Superior de Paris, de que a grande escola francesa cuidaria com carinho materno, se tivesse êxito o convênio que êle propunha entre o Brasil e a França. Lirismo do bom. A mim a idéia pareceu excelente porém para o Brasil de então era - repito - lírica. 0 próprio JOSé AMÉRICO DE ALMEIDA por ela não se entusiasmou. Estava já com esta mosca azul a zumbir-lhe num dos ouvidos ilustres: ser o fundador de uma Universidade na Paraíba. Tôda uma grandiosa universidade. No que parece ter acertado: a Universidade por êle fundada fêz honra ao fundador.

A proposta de GURVITCH vinha ao encontro de idéia minha já antiga - minha, e com relação especificamente ao Nordeste, também do paraibano ODILON NESTOR -de modo ideal: uma filial da Escola Normal Superior de Paris, na capital da Paraiba, orientada e, em parte, sustentada pela insigne escola-mãe, seria a Faculdade de Filosofia senão única, principal, de uma Universidade federal regional que se organizasse no Nordeste, espalhando-se estratègicamente por vários pontos da região - inclusive Caruaru - e tendo no Recife apenas o seu ponto metropolitano de coordenação. Do Recife se aproveitariam, além da vantagern de metrôpole regional, além da já existente Faculdade de Direito, por sua tradição, e a de Medicina, com seus hospitais metropolitanos, para os quais afluem doentes de tôda região nordestina.

Longas foram nossas conversas sôbre o assunto. Mas também êste sonho gurvitchiano ficou naquele domínio de fantasias no qual têm desaparecido, ignorados e inéditos, tantos projetos bons de sociólogos mais ou menos românticos, por falta de apoio extra-sociológico dos intitulados homens práticos.

Problemas - êsses das relações entre cientistas ou pensadores e homens dos chamados práticos - que, aliás, GURVITCH e eu, tinhamos considerado, juntamente com outros seis cientistas e pensadores sociais - ao todo oito, de várias especialidades - no conclave organizado em Paris, em 1948, pelo então diretor da UNESCO, o, sábio JULIAN HUXLEY, para urn intenso estudo em conjunto, das chamadas às "tensões internacionais", naqueles dias, tão agudas. Estudo do qual resultassern sugestões de possível valor prático que aliás viriarn a ser reunidos em livro publicado ern várias línguas, embora não naportuguêsa. 0 desinteresse do Brasil por uma obra coletiva a que não faltara a presença de um brasileiro.

Foi um conclave interessantíssimo. Dêle participaram, além de GURVITCH, um filósofo norueguês, NAES, o psiquiatra angloamericano SULLIVAN, o famoso sociólogo alemão HORKMEIMER, urn mestre de Harvard, de Psicologia Social - GORDON ALLPORT - um psicanalista inglês - RICHMAN -um sociólogo economista soviético - SZALAI - todos, com uma exceção, única, figuras do maior destaque nas suas especialidades; e tidos por altamente representativos dos diferentes saberes convocados para tão importantes reunião. Nenhum de nós representava Estado-Nação, muito menos govêrno. Nenhurn de nós ali se encontrava por escolha oficial do seu govêrno ou do seu país. Tinhamos sido escolhidos como representantes - ou supostos representantes - daqueles diferentes saberes considerados básicos ou essenciais para o estudo de "tensões internacionais": o antropológico, o sociológico -o ocidental e o soviético - o psicológico, o psiquiátrico, o filosófico.

Foi nessa reunião que conheci pessoalmente GURVITCH. Encontro que quase resultou em inimizade entre nós. é que, sem mais aquela, o lustre mestre de Sociológico do Direito da Sorbonne acusou-me de ter sido convocado para aquela reunão indevidamente, não - acentuou - por não ser competente em Ciências Sociais - era-o, decerto, segundo êle - mas pelo fato de, como político, no meu país, não ter isenção para o trato do problema a ser ali discutido com tôda a crueza científica ou todo o rigor científico-filosófico. Atitude de uma estreiteza absoluta. E MAX WEBER politico? E ORTEGA politico? E KARL MARX politico?

A acusação me apanhou de surpresa. Brutalmente. GURVITCH falava ern tom áspero. Enfático. Zangado. Recordando casos europeus de sociólogos prejudicados de todo em sua ciência pelo fato de serern políticos. Pareceu-me, a certo instante, ver reincarnado nêle certo demagogo do Recife, aliás meu amigo; e terrível nesse gênero de oratória. Refiro-me ao velho JOÃO BARRETO DE MENEZES, filho de TOBIAS BARRETO. No físico, na fisionomia, quando zangado, no próprio tom de voz, GURVITCH se assemelhou então aos meus olhos e aos meus ouvidos - paradoxo dos paradoxos - ao demagogo brasileiro, filho do grande TOBIAS BARRETO. E talvez tivesse alguma coisa, na aparência e na personalidade vulcânica, do próprio TOBIAS. é que sob sua cidadania francesa continuava a haver, além de um judeu excomungado, um russo irredutível, que conhecera LENINE e crescera na mesma aldeia, com VISINSKY. Um VISINSKY que viria a detestar com tôda a sua ira de homern capaz de grandes ódios, tanto quanto de grandes afetos. Porque havia em GURVITCH um passional que a ciência não conseguiu nunca disciplinar num indivíduo sem paixões.

Que fazer, sendo o único - repito - não-europeu no conclave, diante de ataque frontal que me apanhava em cheio, deixando-me pensei - diante dos menos informados, dentre aquêles sábios famosos, a respeito dos meus pobres trabalhos, na situação de um intelectual sulamericano que se enfeitasse com o título de "cientista social", ou de pensador, para melhor escalar, posições, vantagens, honrarias dentro e fora do país? Pelo que procurei falar correspondendo ao mito, já um tanto formado em tôrno de mim, de ser um brasileiro apolíneo, mais inglês que latino nas minhas maneiras e no meu modo de discursar e de comportar-me. Explicaria calma e pausadamente, com todo o "sense of humour" de que fôsse capaz, até que ponto poderia ser considerado político. Também até que ponto seria impróprio, um cientista ou pensador social ser político.

Político de facção, ou mesmo de partido, não era, nem sequer comprometido com qualquer ideologia organizada, expliquei. 0 Professor GURVITCH, para acusar-me de ser "político" no sentido pejorativo que, como sociólogo, atribuira à expressão, baseava-se no fato de ser eu membro do Parlamento Nacional do Brasil e de ter sido, Constituinte de 1946: um constituinte que modestamente concorrera para a elaboração de uma Constituição, para o meu país, em que havia inovações de saber sociológico tendentes a reduzir tensões ou desajustamentos sociais. Exemplo: o alargamento dos direitos dos brasileiros, naturalizados, pelo qual eu me batera fundado em argumentos sociológicos, como fundado nos mesmos argumentos me batera por uma conciliação, também antes sociológica do que meramente política, entre a charnada "livre emprêsa" e o máximo de valorização e dignificações ao, trabalho humano e da pessoa do trabalhador. As ligações de Sociologia do Direito, aprendidas com Mestre GEORGES GURVITCH, vinham sendo para mim particularmente valiosas - salientei - em atividades modestas, mas não de todo inúteis, de parlamentar a meu modo.

Não me iniciara eu em tais atividades como membro de um partido. Nem como adepto de uma ideologia sistemática nem procurando ser Constituinte. Nem buscando ingressar no Parlamento do meu país. Nem, tão pouco, pedindo votos ou cortejando eleitores. E sim por imposição, dos estudantes universitários do meu Estado. Nada mais nada menos do que isto: por imposição dêsses estudantes sem que tal imposição importasse em qualquer específico compromisso meu, ou definida obrigação de minha parte, para qualquer líder ou partido político. Talvez fôsse caso único. Mas era o meu caso.

Fui, mal acabara de falar, cumprimentado com entusiasmo por todos os participantes do conclave: pelo próprio RICHMAN, homem sempre de cara de poucos amigos. Muito por HORKHEIMER. GURVITCH transfigurou-se. E no fim da reunião apertou-me a mão, calorosamente. Saímos juntos do casarão da Avenida Kleber. E fêz questão de acompanhar-me ao meu hotel.

Data daí uma amizade que, de 1948 até 1966, só fêz solidificar-se. Aumentar. Tornou-se definitiva quando consegui que êle viesse ao Brasil pela segunda vez e demorasse no Nordeste. Almoçasse e jantasse na nossa casa. Passeasse pelo nosso sítio rústico. Vivesse entre meus livros. Escrevesse na minha mesa que Ihe pareceu mais cheia de papéis em aparente desordern do que a sua.

Não me esquecerei nunca das honras e das generosidades que desde 1948 passei a receber dêsse pensador genial. Dêsse sábio, magnífico. Dêsse sociólogo do tipo criador de sociólogo, Mas homern não só de entusiasmo difícil como terrivelmente crítico de sociólogos, de juristas, de cientistas sociais nos quais encontrasse, ou julgasse encontrar - e sua perspicácia era diabólica - mediocridade a pretender ser genialidade; ou repetição de trabalho alheio a fazer as vêzes de originalidade.

Foi êsse terrivel GURVITCH que me apresentou ao numeroso público - tôda uma multidão, aos sentados juntando-se muitos de pé - que se reuniu, num dos salões da Sorbonne, para ouvir-me, em 1956. êle que, no mesmo ano, foi o participante mais ativo do seminário europeu em tôrno das minhas idéias, dos meus métodos de análise e da minha interpretação do Homern situado, daquilo - enfirn - que o Professor ROGER BASTIDE chamou o meu "humanismo científico". Seminário que se realizou no Castelo de Cerisy, de Mme. HOURGON-DESJARDIN, com a presença de alguns dos maiores mestres de Filosofia, de Sociologia e de Literatura da Sorbonne; e sob a completa indiferença - como era de esperar - da Embaixada do Brasil em Paris, do Govêrno do Brasil, da imprensa brasileira. Embora o seminário se prolongasse durante uma semana inteira de discussões interessantíssimas, com intervenções sempre magistrais de GURVITCH sôbre as idéias e os métodos sociológicos do seu colega brasileiro, a única repercussão que o acontecimento intelectual tão importante obteve no Brasil - para espanto dêle, GURVITCH, e de outros mestres da Sorborme - foi a notícia, em conhecida revista ilustrada do Rio - aliás, de gente aparentemente minha amiga - de que "acontecera" no Castelo de Cerisy um "noite folclórica brasileira". Malícia? - é possível que sim. Mas é possível que simples expressão de indiferença por acontecimentos de alguma importância intelectual para o Brasil da parte da imprensa brasileira destas últimas décadas.

Devo dizer que, a essa altura, já GURVITCH incluira, um sociólogo brasileiro, homenageando à América Latina - entre os membros do conselho diretor da excelente publicação de Filosofia e de Ciências Sociais, por êle dirigida durante longos anos, Cahiers Internationaux de Sociologie. Antes, já fizera o mesmo brasileiro colaborador dos seus Arquivos de Jurisprudência e de Sociologia.

Nossas idéias sôbre as relações entre sociologia e Direito coincidiam em vários pontos: justamente aquêle em que mais nos afastávamos das noções mais mediocramente convencionais, ainda dominantes no Direito Público e em outros Direitos, tanto no Brasil como em países mais desenvolvidos que o nosso. Sob êsse ponto de vista, observava êle no Brasil, no seu primeiro contato com o Rio e com São Paulo, a extrema voga entre nós de uma jurisprudência pouco condicionada pelo estudo sociológico de fenômenos jurídicos.

Foi também de GURVITCH - de GURVITCH e de LUCIEN FEBVRE, outro grande mestre francês, muito vivo na minha saudade - que partiu a idéia de consagrar-me a França, membro, Doutor H. D. advertindo-me êle, desde 1953: "quando se faz, no plano inteiramente intelectual, um doutoramento pela Sorbonne é processo tão longo que pode ser comparado aos de canonização na Igreja Católica. Não estranhe a demora". Podia, porém - acrescentou - considerarme desde logo Doutor da Sorbonne. Não estranhei a demora que se seguiu.

0 doutoramento viria a ocorrer, ritualmente, em 1965. Em novembro de 1965. GURVITCH esperou-me em Paris com a sua mais fraterna alegria de amigo generoso já antigo. Mas esperou-me em vão: o govêrno brasileiro não cumpriu, ao que parece, o acôrdo, com a Sorbonne. De GURVITCH, eu recebera longo telegrama, pedindo-me para, no dia mesmo da solenidade do doutoramento, proferir uma conferência no chamado Laboratório de Sociologia da Universidade. Estavam êle, o Reitor e os demais mestres da grande Universidade, certos de que o Govêrno Brasileiro, advertido pelas suas duas Embaixadas em Paris, já cuidara de me suprir da passagem transatlântica para receber pessoalmente, no anfiteatro da Sorbonne, as insígnias daquele honroso grau: seriamos, minha mulher e eu, hóspedes de honra, na França, da Universidade de Paris e do Govêno Francês. 0 Govêrno brasileiro, porém, não cuidou nem de leve do assunto. Nem ao menos, ante o fracasso do Govêrno do Rio de Janeiro, o então Embaixador do Brasil junto ao Govêrno da República Francesa atendeu, numa elementar cortesia, ao meu pedido de receber, por mim, as insígnias doutorais. Ausentou-se da solenidade. Deixou sem resposta. a carta que Ihe escrevi. Portou-se ainda pior do que o seu digno colega, o Embaixador do Brasil em Londres, que também, na mesma época, primara pela ausência, quer da cerimônia do meu doutoramento na Universidade de Sussex, quer do banquete que a Universidade me ofereceu no Palácio Real de Brighton, homenageando menos a mim - é de supor-se - que a cultura brasileira. Uma cultura a que várias vêzes tem faltado, nas suas relações com europeus, o acompanhamento da educação: isto é, daquelas boas maneiras que OLIVEIRA LIMA considerava essenciais à comunidade humana.

Era devido a essa espécie de comportamento para com intelectuais, sábios, artistas, da parte de" políticos" e dessa outra espécie de " políticos" convencionais que são, de ordinário, os diplomatas, que GURVITCH, em quem o sentimento de dignidade da sua condição intelectual chegava a extremos antes espanhóis do que russos - ou franceses - mantinha-se tão altivamente desdenhoso. Inclusive -- repita-se - de VISINSKI, de sua mesma província russa, cujo caráter, depois de adulto e político não admirava. Também conhecera na Alemanha LENINE, de quem não guardava impressão forte como intelectual marxista - e quem mais profundo conhecedor das idéias de MARX e do marxismo que GURVITCH? - embora reconhecesse no líder soviético qualidades incomuns de homem de ação. Mas sem que essas qualidades chegassem para anular seus preconceitos contra LENINE, o político-intelectual.

Extraordinário, êsse GURVITCH que, nascido e crescido na Rússia, tanto quanto SOROKIN - seu contemporâneo - teve parte da sua formação intelectual realizada na Alemanha para, ainda "no meio do caminho da vida", integrar-se na França, enquanto SOROKIN se integraria nos Estados Unidos. Seu afrancesamento não foi menos completo que a anglosaxonização do polonês MALINOWSKI, embora como o outro se conservarem, nuns tantos pontos, irredutivelmente russo um e outro polonês.

Ajustou-se GURVITCH à França. Ajustou-se à França, talvez mais do que SOROKIN - aos Estados Unidos. Precisava, na verdade, da liberdade, da independência, do a-vontade, tanto intelectual como pessoal que a França, esplêndidamente, lhe daria. E retribuir a generosidade francêsa, tornando-se um sociólogo que, a ser dada uma configuração nacional ao seu tipo de sociologia - sociologia criadora ao mesmo tempo que sociologia em profundidade - é um sociólogo principalmente francês: um dos maiores sociólogos franceses de todos os tempos.

Quase tôda a sua obra está escrita nessa admirável língua francesa, cujo domínio, no escrever, parece ter adquirido de modo quase completo, depurando-se de possíveis excessos russos, de retórica sociologica e de possíveis exageros germânicos, de cientifismo ou de filosofismo também sociólogico. Daí apresentar-se, em sua expressão, ou em sua linguagem de sociólogo, um mestre de precisão e de clareza, a quem não prejudica nenhuma pedantaria, por um lado, nem, por outro, nenhuma leviandade. Tem já qualquer coisa de clássico a obra que nos deixa êsse pensador, êsse sábio, êsse didata, que, entretanto, em sua personalidade, era um tanto romântico: característico que êle talvez não reconhecesse, em si mesmo, preferindo ser tido ou havido por um completo realista. Certa vez, refutando o qualitificativo de " pessimista à la russe" que eu lhe atribuí, foi no que insistiu: em sua objetividade de realista.

Objetividade relativa. Nem, aliás, é mais do que relativa a objetividade de todo aquêle sociólogo ou cientista social que não seja puramente estatístico no seu modo de ser sociólogo ou cientista social.

Havia em GURVITCH um filósofo, um psicólogo, um humanista, a dar profundidade, ao mesmo tempo que subjetividade da melhor, a sua sociologia. BERGSON deixou sua marca em GURVITCH que foi, entre os modernos sociólogos, o mais preocupado com o problema do tempo em sociologia. Daí o interêsse com que se interessou pelo meu modo de considerar o problema da interpenetração de tempos. no livro Ordem e Progresso, destacado pelo seu colega da Sorborme, o Professor ROGER BASTIDE, em comentário publicado em Cahiers Internationaux de Sociologie como contribuição para uma nova Sociologia que venha a denominar-se "Sociologia do tempo".

Foi êste um dos assuntos mais presentes nas nossas conversas, nos dias que passamos juntos na sua casa de campo da Normandia. Dias para mim inesquecíveis. Eu vinha do Castelo de Cerisy prostrado por uma terrível alergia à humidade da velha casa do século XII o médico me aconselhara ar livre, sol, floresta. Os GURVITCH nos acolheram, a mim e à minha mulher, do modo mais fraterno; e me proporcionaram não só a vida ao ar livre, de que eu então necessitava, como cuidados os mais amigos.

0 por vêzes terrível, agressivo, áspero, - o Professor TALCOTT PARSONS foi dos que atrairam algumas de suas críticas mais acres - GURVITCH sabia ser afetuoso e até terno com os amigos. Sabia ser amigo em profundidade. Juntar a amizade leal à admiração generosa.

Perdi, com a sua morte, um dos melhores amigos que tenho tido na vida; e que têm sido, em sua maior parte, estrangeiros. Nós, brasileiros, somos bons pais, bons filhos, bons irmãos, bons sogros, bons cunhados, bons genros. Em afetividade familial, ninguém nos excede. Mas na de filos, ou mesmo de hetairos, somos com algumas notáveis exceções - fracos. Incipientes. Deficientes. 0 Brasil não é um país de grandes e profundas amizades, embora, entre nós, sejam fáceis as simples camaradagens, ao lado daqueles afetos de família.

GEORGES GURVITCH era um intelectual que, no afã de objetividade no trato de matéria da sua especialidade ou de matérias afins, juntava explosões de subjetividade: inclusive as afetivas. Foi homem tanto, capaz de inimizades radicais como de amizades fraternas com colegas, com oficiais do mesmo ofício, com intelectuais, como êle, embora de pontos de vista por vêzes diferentes dos seus, preocupados com os mesmos problemas de filosofia e de ciência que o preocupavam.

Não me esqueço, a êsse propósito, de certo episódio ocorrido no Castelo de Cerisy, onde Mme. HOURGON-DESJARDIN reunira figuras de alta expressão intelectual para considerarem, durante tôda uma semana de reuniões diárias, idéias, métodos e linguagem caracteris da obra de um autor brasileiro, posto, numa honra excepcional para o Brasil - embora com evidente excesso de generosidade para o mesmo autor - no mesmo nível, dentro dos programas de reuniões de Cerisy, dos TOYNBEES e dos HEIDEGGER. é que lá GURVITCH teve de defrontar-se com insigne Existencialista Católico, -GABRIEL MARCEL - contra quem se tomara de verdadeiro ódio: um ódio sociológico que substituia, no caso, o teológico. MARCEL, não quis deixar de exprimir seu interêsse pela obra do autor brasileiro que, em 56, foi objeto de um tão interessante seminário em Cerisy, presidido pelo então maior mestre de filosofia entre os próprios da Sorbonne: GOUHIER. Ao avistá-lo, porém, tomando café comigo e com Mme. CLARA MALRAUX, então recenseparada de ANDRé MALRAUX e cheia de interesse pelas idéias e pelo aspecto literário dos trabalhos do autor brasileiro, considerado no Seminário de 1956, GURVITCH procurou a castelã para dizer-lhe ser-lhe impossível permanecer num seminário amesquinhado na sua dignidade intelectual pela presença de um GABRIEL MARCEL. MARCEL, a seu ver, não era nada. Não significava coisa alguma. Como concordar em defrontar-se com êle num conclave a que não devia faltar altura intelectual?

A verdade é que retirou-se imediatamente, depois de ter sido, nas reuniões do Seminário, a figura mais inquieta e mais inquietante. E de ter dito, a propósito do autor brasileiro em discurssão no mesmo seminário, palavras extremamente honrosas para a sociologia, a antropologia, os estudos de Direito e a filosofia, no Brasil.

0 Brasil passara a ser, desde 1948, um país pelo qual o seu interêsse, com o tempo, vinha se aprofundando. Quis muito ser procurado, em Paris, por intelectuais brasileiros. Meu último encontro com êle, na velha capital da França que fazia dêle um parisiense sem extinguir a parte numa da sua personalidade, foi no apartamento de CÍCERO DIAS. Conhecera CÍCERO DIAS por meu intermédio. Sentiu na arte de DIAS alguma coisa de trópico sublimado que o encantou. Era um intelectual aberto às seduções da arte. Mais foi um boreal que o trópico conquistou. Os coqueiros do Nordeste tornaram-se uma das suas melhores recordações de um Brasil do qual não deixou de levar para a França umas cerâmicazinhas de Caruaru com que eu lhe presenteara.

Agora, algumas indiscreções sôbre GURVITCH: um GURVITCH que por vêzes como que se deliciava em confessar-me seus gostos e seus desgostos.

Não era entusiasta de LUCIEN FEBVRE, não compreendendo que fôsse FEBVRE quem prefaciasse a edição francesa de Casa-Grande & Senzala, por GALLIMARD. Tão pouco morria de amores por RAYMOND ARON: tão amigo de Mme. HOURGON-DESJARDIN quanto outrora ANDRé GIDE, GURVITCH apenas a toleraria, pois estava longe de ser um "homem do mundo". Além do seu desaprêço já recordado, por TALCOTT PARSONS, pode ser recordado sua pouca admiração pelo modo do Professor ROGER BASTIDE ser sociólogo. Interessou-se pelas inovações, no setor sociológico, de MORENO. Mas foi um breve interêsse, êsse, seu. Admirava os seus colegas do Cabiers Internationaux de Sociologie. Dentre os sociólogos mais jovens, nenhum mais da sua admiração do que JEAN DUVIGNAUD. Também foi admirador, além de amigo, de FERNAND BRAUDEL e de GEORGES BALANDIER. A maioria dos sociólogos dos Estados Unidos, parecia-lhe faltar densidade. Sorria de certos transbordamentos extra-sociológicos de SOROKIN; mas sem deixar de respeitá-lo.

E é bom que eu recorde aqui sua indignação contra a gerência do Grande Hotel do Recife - parecia, querer agredi-la - quando à sua primeira refeição no mesmo hotel, faltavam frutas da terra à sobremesa. êle vinha da Europa com tôda a sua gula de boreal aguçada neste desejo - desde o seu primeiro dia no Recife fartar-se de frutas tropicais. Atenuei seu desapontamento, fazendo vir do Mercado de São José para o então mal administrado hotel, com pretensões a elegante, bananas e pinhas. E no dia seguinte, em Apipucos, minha mulher e eu iniciamos o casal GURVITCH em várias outras frutas da terra e também em refrescos. Refrescos de maracujá e de cajá. Água de côco. Sorvete de coração da índia. Era uma delicia vê--los se iniciarem nesses regalos do trópico como se fôssem duas crianças.

Qual a repercussão da segunda visita de GURVITCH ao Brasil - visita que marcou sua descoberta do Nordeste? Na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Recife, não, creio que as conferências do mestre da Sorbonne que, até hoje, maior dignidade intelectual deu à Sociologia do Direito, tenham sido o acontecimento que deveriam ter sido. Poucos os professôres que as assistiram. Poucos os estudantes. Raros, entre professôres e estudantes, que verdadeiramente já lhe conhecessem a obra extraordinária: o caso de um PINTO FERREIRA, o de um CLAUDIO SOUTO o de um LOURIVAL VILANOVA, entre outros. Uma indiferença geral, de resto muito de acôrdo com o fato de virem algumas das tradicionais faculdades brasileiras de Ciências Jurídicas e Sociais perdendo o seu antigo esplendor de centros de curiosidade intelectual e de estudo, além de técnico, humanístico, de problemas jurídico-políticos ou jurídico-sociais. 0 que não quer dizer que nela tenham deixado de professar, ensinar, doutrinar mestres autênticos, ou que lhes faltem estudantes em quem a inteligência se junte o empenho de saber, e êstes, quando da visita de GURVITCH a Pernambuco e à Paraiba - onde êle também proferiu notável conferência - souberam compreender a importância da oportunidade que lhes era dada: a de ouvirem um GURVITCH.

Agradaram a GURVITCH, além dos encontros com professôres e estudantes de Direito dessa espécie, os contactos que teve com mestres e estudantes da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco e com pesquisadores e assistentes de pesquisa do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Apenas aos diálogos que o conferencista desejou manter com êsses seus pequenos públicos, faltaram facilidades de comunicação: nem GURVITCH conhecia a língua portuguêsa nem a língua francesa continuava, como outrora, a segunda, para efeitos intelectuais, de professôres e de estudantes do Recife. Raros os provetos ou jovens que puderam dialogar com êle em francês sôbre a sociometria de MORENO ou a sociologia do Direito de ROSCOE POUND ou a atualidade da teoria francesa dos "fenômenos sociais totais": assuntos que considerara em suas conferências. A SAMUEL MAC DOWELL - os MAC DOWELL receberam magnificamente os GURVITCH na sua mansão de Camaragibe - não faltava o domínio sôbre a língua francesa: domínio perfeito. Mas desconhecia essas atualidades sociológicas.

Mesmo assim - mesmo tendo faltado a GURVITCH, no Brasil, os públicos compreensivos e bem informados que êle merecia - quando se escrever a história intelectual mais recente do Nordeste, em particular do Brasil, em geral, da década 50, não deixará do registro dos acontecimentos que a notabilizaram, de constar o das visitas, ao nosso país, de GEORGES GURVITCH. Dos sábios mais famosos, europeus ou anglobrasileiros, que têm visitado o nosso país nos últimos setenta anos e aqui proferido conferências sôbre assuntos sociais - urn FERRERO, um JULIAN HUXLEY, um FERRI, um DUMAS, urn RADCLIFF-BROWN, um GREGORIO MARANON, de um SALVADOR MADARIAGA, um ARNOLD TOYNBEE, para só recordar êses nenhum de maior importância do que GEORGES GURVITCH. 0 que êle criou como pensador, o que realizou como sociólogo, as perspectivas que abriu aos estudos sociais como sociólogo, as perspectivas que abriu aos estudos sociais como mestre de universidades - principalmente da Sorbonne - e como escritor a quem não faltava o poder de comunicação, situam-no entre as grandes forças intelectuais não só da França como da Europa na sua época. Sem êle a Sociologia, em geral, e a Sociologia de Direito, de modo especialíssimo, teriam deixado de alcançar alguns dos melhores triunfos que conquistaram no último meio século.

 


SAUDAÇÃO A GILBERTO FREYRE

Saudação feita ao Prof. GILBERTO FREYRE,
em nome da Congregação da Faculdade
de Direito de Caruaru, quando das solenidades
realizadas no dia 11 de agôsto de 1971, em homenagem
à data assinalativa da fundação dos
Cursos Jurídicos no Brasil.

Izidoro Martins Souto
Prof. da Faculdade de Direito de Caruaru.

Dois eventos de grande realce para esta Faculdade mesclam-se, nesta data, de modo a evidenciar que a mesma, mercê do dinamismo do ilustre professor e ex-parlamentar TABOSA DE ALMEIDA, permance fiel à sua tradição e ao mais valioso dos seus propósitos, qual seja, o de promover a intensificação do processo cultural de Caruaru, cujas bases aqui estão fixadas nesta Escola de Ensino Superior.

0 primeiro, filia-se ás justas homenagens que são tributadas ao dia onze de agôsto, como marco assinalativo que é da fundação dos cursos jurídicos no Brasil, operada no ano de 1827, quando passaram a funcionar as duas Escolas pioneiras - a de Olinda e a de São Paulo - graças ao judicioso espírito de iniciativa de FERNANDES PINHEIRO, Visconde de São Leopoldo, então constituinte e ministro de Estado.

0 outro evento traduz-se na presença honrosa, entre nós, da eminente figura de GILBERTO FREYRE, que comparece A CASA DE TABOSA para brindar-nos com a leitura de uma brilhante conferência, subordinada à temática "MEU AMIGO GEORGES GURVITCH", o professor PINTO FERREIRA, no uso de suas prerrogativas, na qualidade de Diretor desta Faculdade, incumbiu-nos da complexa tarefa de promover uma saudação ao insigne mestre, em nome da Congregação, como se nós não fôssemos o menos indicado membro que integra o corpo docente da mesma.

Para desempenho de tal missão, é de notar que o encargo muito melhor estaria acondicionado, se afeto ficasse ao próprio Prof. PINTO FERREIRA, pela amplitude e notória projeção dos seus conhecimentos, ancorados, inclusive, nas mesmas ramificações do profundo saber sociológico, em que se embasam as obras mestras do conferencista, na sua sistemática conjuntiva.

Mas, meus senhores, se o estopim explodiu em nossas mãos, só nos resta a esperança de sermos perdoados, ao final, desde que qualquer trabalho referente ao luminoso autor de "CASA GRANDE & SENZALA", ainda que sem as características de um estudo, importaria em erudição de grau maior, o que, evidentemente, nos falta.

A indicação do nosso nome para apresentar o nobre conferencista facultou-nos, no entanto, a via própria para saldar uma dívida: a de manifestar-lhe, alto e bom som, tôda a gratidão da familia MARTINS JÚNIOR, a que pertencemos, pelas imensas provas de carinho e entusiasmo que sempre votou ao saudoso e emérito pernambucano, constituindo-se, para melhor dizer, em diversos momentos históricos, a voz étnica que se fêz baluarte, na defesa da atualização daquele jurísta sociólogo.

Com a mesma admiração, pois, impõe-se que lhe tributemos também o testemunho do mais fundo reconhecimento, como homenagem ambivalente ao seu reconhecido valor espiritual.

Feitas estas considerações, de ordem preliminar, passaremos ao objetivo colimado.

A figura de GILBERTO FREYRE, notadamente no campo da ciência sociológica, consagra uma personalidade marcante, cujo valor é, desde logo, dimensionado pela densidade de suas monumentais obras já publicadas nesse domínio, muitas das quais, desde as suas primeiras edições, adquiriram o caráter de universalidade tão específico e imanente às obras clássicas, como as de DURKHEIM, SORDKIN, MAX WEBER, SIMMEL, PARETO e tantas outras, que constituem o cerne do pensamento sociológico contemporâneo.

Pode-se asseverar que, graças à sua autoridade inconteste dentro da cientificidade do social, inaugurou no Brasil um ciclo nôvo de estudos sociológicos, que marcou, inclusive, uma etapa de definição para os rumos da Sociologia brasileira, situando-a numa posição superestrutural e de evidente preeminência no contexto da América Latina.

As suas excelentes contribuições ao campo da mesma, assinaladas a partir da publicação da sua célebre obra "CASA GRANDE & SENZALA", em 1933, eis que nos possibilitaram, pela primeira vez, a efetuar um balanço do que há de mais representativo no complexo cultural brasileiro, tal como se apresenta na modernidade, ou seja, como resultante da evolução e de transformações étnico-culturais; e, ainda, o de ter pleno conhecimento de todos os aspectos regionais da culturação correlacionados ao todo nacional.

Daí o magno sentido das seguintes e eloquentes palavras do saudoso escritor OLÍVIO MONTENEGRO, ao prefaciar uma das obras do eminente conferencista: "Os estudos de história, antropologia social e sociologia do Brasil, antes de GILBERTO FREYRE, eram coisa bem diferente do que passaram a ser depois dêle: depois de sua CASA GRANDE & SENZALA, ou mesmo quando surgiram muitos dos seus principais e magníficos ensaios incluídos em REGIãO E TRADIçãO. Com êles, a história brasileira já começa a se enriquecer em muitos dos seus aspectos sociais, de uma paisagem esplendidamente viva e de uma interpretação nova, original".

Com a citada obra "CASA GRANDE & SENZALA, que já surgiu clássica, no dizer enfático de ROQUETE PINTO, e que representa, segundo PAULO DOURADO DE GUSMÃO, o mais arrojado pensamento sociológico latino-americano e ocidental, já traduzida para vários idiomas, ficou assinalado para nós, também, o marco inicial das multiformes concepções estruturadas na área fecunda da Antropologia Cultural.

Essa projeção saliente que o autor detem na vanguarda da abordagem de conceitos e teorizações, inerentes àquele ramo autônomo da Sociologia, projeta-o em um sentido de filiação paralela à Escola Antropológica norte-americana, representada por GOLDENWEISER, BOAS e WISSLER; à germânica, defendida por GRAEBNER, FOY, SCHMIDT e outros; e à francesa, por VACHER DE LAPOUGE.

A formalização metodológica de tais escolas está cristalizada no método histórico-cultural, cujo funcionalismo concorre para melhor apreensão dos estudos das ciências sociais, no que tange às pesquisas sôbre os estágios de cultura dos povos, usos, costumes e civilização, decorrendo dai o estabelecimento de critérios científicos, sem os grilhões a conceitos preestabelecidos, a que se abroquelavam os prosélitos do Evolucionismo.

Nesse sentido, podemos conceber que a sua obra "CASA GRANDE & SENZALA" alicerçou o seu suporte básico, sobretudo, nas construções de uma verdadeira sociologia genética, ao tipificar, através daqueles métodos, a estrutura, o funcionamento e as características da sociedade patriarcal brasileira, com a devida adequação às instituições políticas e administrativas que herdamos da colônia, à vista do regime de colonização portuguêsa então imperante.

Temos, com efeito, conglobada ali a mais compacta e integral visão da estrutura colonial pátria em seu "nisus" formativo, de modo a oferecer a global compreenão dos aspectos espaciais do nosso desenvolvimento histórico-social e, máxime da nossa formação nativa.

Do próprio título do livro - di-lo a escritora MARIA DO CARMO TAVARES DE MIRANDA, em recente e substancioso estudo sôbre o autor - "decorre tôda a fôrça de uma autêntica teoria da formação humana do brasileiro. As novas visões da experiência do homem e de sua história, ali, implicam-se no método Gilberteano da interpretação de nossa origem. E com êle ressalta a marca da temporalidade em tôda experiência. Cada experiência tem a sua história, possui seu lugar e seu momento..."

Em área distinta, no âmbito da ciência de Savigny, MARTINS JÚNIOR eis que utilizou os mesmos procesos sociológicos, recorrendo aos princípios da sociologia genética para, nas admiráveis páginas da sua "HISTORIA GERAL DO DIREITO", traçar o desenvolvimento do direito objetivo entre as raças inferiores e perquirir, com o emprêgo dos métodos do criticismo naturalista, não só a gênese, como os Costumes, institutos jurídicos e as legislações de diferentes povos, compreendidos da fase das velhas monarquias da Raça Amarela e da América pré-colombiana até a do Direito Moderno.

Vê-se, pois, que o que MARTINS JÚNIOR fêz no terreno da Sociologia Jurídica - hoje campo de preocupação intensiva de renomados autores como GEORGES GURVITCH, TIMASHEFF, EISENMANN e outros - GILBERTO FREYRE o fêz dentro da sistemática sociológica própriamente dita, figurando ambos, assim, como desbravadores de dois espaços interpenetrantes - o jurídico e o social condicionados ao conhecimento científico especializado.

Mas, o que pretendemos realçar aqui, com relação, à obra Gilberteana, em seu todo estrutural, é o seu conteúdo profundamente interligado aos problemas da culturologia e com condicionamento a diversos angulos de visualização sociológica, pelo que o conduz, sobretudo, a professar uma sociologia diferencial, revelatória da vocação hodierna dessa ciência, como seja, a de não mais gravitar em tôrno de grupos econômicos em conflito e não mais convolar-se em coordenadas de bases materiais, como suporte a superestruturas ideológicas.

Resulta diferencial - e não poderia deixar de sê-lo - porque morfológica, de estrutura, de organização, de tipos, finalmente, de análise percuciente de relações culturais, ecológica ou regional, à maneira das construções de SAUER, R. MUKERJEE, JEAN ROCHE e do preclaro Prof. SOUZA BARROS, todos ecologistas sociais que se têm detido nas investigações de relações regionais de espaço e de processos de adaptação do homem à natureza.

Tais investigações, com efeito, vamos encontrá-las como fator presente em muitos dos seus estudos sociológicos em Ecologia, que se concentram em tôrno de interações sociais, quer em confronto ou em contraste com a projeção geográfica sôbre as relações subsistentes entre o homem e o meio.

Profundo pesquisador dos aspectos sociológicos da Ecologia Humana que, no dizer de J. A. QUINN, em sua obra "The Nature of Human Ecology", podem ser definidos como um campo especializado de análise sociológica, que filtra as arestas impessoais sub-sociais da estrutura comunal - tanto espacial como funcional - específico para investigar a natureza e formas dos processos pelos quais essa estrutura subsocial surge e se modifica; e, ainda, por entender como PARK, que os índices ecológicos proporcionam um meio de estudar os fenômenos sociais complexos através de dados objetivos; tal o levou a escrever a sugestiva obra NORDESTE, onde, agudamente e de forma impressionista, delineia um vivo traço ecológico do Nordeste brasileiro, ou antes, do Nordeste agrário, carreado de tôda a sua paisagem típica - geográfica, cultural e humanística - outrora bêrço da civilização pátria.

A ampla identificação que mantém com os fenômenos sócio-culturais, dentro da sua polaridade dinâmica, eis que o tem feito incursionar, com igual constância, aos domínios da Sociologia da História, que se situa como parte inseparável da Sociologia da Cultura, em obras do feitio de: "INGLESES NO BRASIL" e "UM ENGENHEIRO FRANCÊS NO BRASIL", onde analisa a influência alienígena sôbre a vida e a paisagem cultural brasileira; "0 MUNDO QUE 0 PORTUGUêS CRIOU", excelente estudo que fixa aspectos da influência da mestiçagem sôbre as relações sociais e de cultura entre portugueses e lusodescendentes, bem como a importância dos dados históricos-sociais e culturais decorrentes dessas relações; e, como ocorreu em seu vigoroso ensaio "NÓS E A EUROPA GERMÂNICA", há pouco editado, ao debater os multidimensionais aspectos da inter-relação do Brasil e, em particular, de Pernambuco, com a Europa Germânica, no curso do século XIX.

Daí, também, a explicação para o comum e acentuado traço antropológico, linearmente cultural, que se observa gravitante em quase todos os seus fundamentais estudos de interpretação sociológica, ou, apenasmente, de história social, como por exemplo, nos seus não menos notáveis trabalhos "SOBRADOS E MUCAMBOS" e "ORDEM E PROGRESSO", onde à complementada a temática basilar desenvolvida em "CASA GRANDE & SENZALA"; "INTERPRETAÇÃO DO BRASIL", uma síntese luminosa sôbre a formação histórica e social brasileira, como processo de amalgamento de raças e culturas, inclusive, com amplo visionamento dos antecedentes europeus que se plasmaram ao contexto nacional; "PROBLEMAS BRASILEIROS DE ANTROPOLOGIA" e "SOCIOLOGIA", em que ainda expõe a sua tese sôbre a influência da família patriarcal, agrária e escravocrata no desenvolvimento da nossa civilização; "AVENTURA E ROTINA", em cujas páginas discorre magnificamente sôbre o colonialismo cultural; "ANTROPOLOGIA SOCIAL E ANTROPOLOGIA CULTURAL", estudo de caráter definitário doutrinário, que foi objeto, inclusive, de uma de suas conferências pronunciadas na Universidade do Distrito Federal; "RACE MIXTURE AND CULTURAL INTERPENETRATION: THE BRASILIAN EXAMPLE", um ensaio sôbre aspectos de aculturação; e, finalmente, "THE RACIAL FACTOR IN CONTEMPORARY POLITICS", excelente contribuição sôbre relações de raças apresentadas á Unidade de Pesquisa para o estudo das sociedades multirraciais, na Universidade de Sussex, por solicitação do famoso antropólogo FERNANDO HENRIQUES.

Das suas múltiplas contribuições prestadas aos estudos da Sociologia, cumpre-nos pôr em relêvo a formulação do seu nôvo conceito de tropicalismo - conceito apologótico, antagónico ao depreciativo - que o levou a defender a criação de uma ou mais ciências especiais, no âmbito da tropicologia, com finalidade tendente a compreender, não só a simbiose luso-tropical (luso-tropicologia), como a hispano-tropical (hispano-tropicologia), do que traçou as linhas diretoras nas obras "UM BRASILEIRO EM TERRAS PORTUGUESAS" e no sugestivo ensaio, "A PROPóSITO, DE MORÃO ROSA E PIMENTA".

Se, porém, a sua atuação se configura marcante na esfera sociológica, não menos valorosa o tem sido no complexo da vida literária brasileira, pois concorreu decisivamente para integrá-la em novos delineamentos, com sentido orgânicamente nacional, ao pugnar pela sua concreta modelação regionalista, conectando-a, em têrmos defintivos, à sistemática dos postulados revolucionários da Escola Moderna, que abrolharam em 1922, no Sul, sob o comando de MÁRIO DE ANDRADE.

Essa tendência assaz renovadora, que traduziu uma nova tomada de posição da obra artístico-literária nacional, nasceu e se corporificou, entre nós pernambucanos, nas espirais do MOVIMENTO REGIONALISTA de 1926, do qual se fêz êle o grande artífice e o autor de um célebre MANIFESTO, que preconizou as premissas fundamentais da doutrina.

Foi um Movimento, como lembra expressivamente MAURO MOTA em sua "GEOGRAFIA LITERÁRIA", comandado pelos estudos de GILBERTO FREYRE e por GILBERTO FREYRE em pessoa, denunciando uma fase nova na cultura brasileira, aí tida não em têrmos de localização geográfica ou cronológica, mas, em têrmos do espírito mais autenticamente brasileiro.

No campo da literatura, eis que estês a pontificar, também, como autor de obras de inegável valor literário, sobressaindo-se para nós "DONA SINHÁ E 0 FILHO PADRE", que constitui uma renovação da técnica urbana do romance, tendo como "underground" o pátio de São José do Ribamar; e, ainda, "ASSOMBRAçÕES DO RECIFE VELHO", que se alinha como uma poderosa análise social, não obstante a sua natureza ficcionista. Por fim, lembrariamos "TALVEZ POESIA", sua grande revelação como Sociólogo do verso.

0 insigne conferencista, cujo valor se distende universalmente, não detern em si, todavia, apenas a auréola e projeção ultra-nacional de suas obras. Muitos títulos honoríficos, comendas e honrarias o têm consagrado com a personalidade expressiva a justapô-lo nos mais altos escalões dos conhecimentos humanos ou no mais elevado grau de mestre.

Embora seja impossível uma remissão a todos e difícil a adoção de um critério seletivo a respeito, poder-se-ia anotar as seguintes:

- é Bacharel pela Universidade de Baylor, em Ciências Políticas e Sociais;

- Especializado em estudos de mestrado e doutorado pela Universidade de Colômbia;

- Tem o título de Dr. Honoris Causa pela mesma Universidade e pela de Sussex, da Inglaterra. Também o de doutoral pela Universidade de Munster e a de Doutor Máximo pela Universidade de Coimbra;

- é integrante de várias Instituições Científicas, dentre as quais a AMERICAN ANTHROPOLOGICAL ASSOCIATION, AMERICAN PHILOSOPHICAL SOCIETY e AMERICAN SOCIOLOGICAL SOCIETY;

- Compõe as conselhos diretores de algumas sociedades editoriais estrangeiras, inclusive a da Revista, "Cabiers Internationaux de Sociologie", editada em Paris;

- Já participou de numerosos conclaves, simpósios e conferências internacionais, a exemplo do "Conclave dos Oito", que reuniu em Paris oito grandes especialistas mundiais em Ciências do Homem;

- No Brasil, já participou, também, de muitos Congressos, tendo recentemente prestado a seu brilhante concurso aos 1º e 2º Colóquios de Estudos Teuto-Brasileiros, reunidos, respectivamente, em Porto Alegre e no Recife;

- Já representou a Brasil junto à Assembléia Geral das Nações Unidas, onde exerceu as funções de membro da Comissão Social e Cultural, concorrendo, com um discurso proferido em inglês, para modificar a posição política da O.N.U, que até então se concentrava na negativa de vedar assistência a Estados não europeus;

- é perito em Belas Artes da Diretoria do Patrimônio Histórico, Artistico Nacional e Consultor do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística;

- é detentor, dentre outros, dos seguintes prêmios, pelo valor permanente atribuido à sua obra: ASPEN e AMSFIELD WOLFF, conferidos pelos Estados Unidos; LA MADONINA, considerado a Prêmio NOBEL da Itália; e MOINHO SANTISTA DE CIÊNCIAS SOCIAIS EM GERAL, no Brasil;

- Foi o organizador do 1º Congresso Afro-brasileiro de Estudos, realizado em 1933, quando ficou consagrado por ROQUETE PINTO como o Jovem mestre da Nova Escola do Recife;

- Foi fundador do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, em funcionamento no Recife, criado face a projeto de Lei por êle próprio apresentado quando Deputado Federal;

- Inaugurou e regeu muitas cátedras, inclusive a de Antropologia Social na Univerdidade do Distrito Federal;

- Tem a sua obra estudada na Sorbonne, honra raramente concedida a escritores vivos, e, ainda, traduzida para vários idiomas;

- Já proferiu uma série de luminosas conferências, tanto no Brasil como no exterior, bem como cursos notáveis em diversos centros culturais europeus, onde até mesmo já dirigiu seminários de estudos pós-doutorais;

- Tem recebido distinções excepcionais pelas Universidades de Oxford, Cambridge, Edimburgo, Londres, Glasgow, na Inglaterra e na Escócia; pelas Universidades de Madrid, Escorial e Salamanca, na Espanha; pela Sorbonne, na França; pela Universidade de Berlim, na Alemanha; pela Universidade de Utrect e pelo Real Instituto dos Trópicos, na Holanda;

- Tem sido convidado por inúmeras Instituições Culturais estrangeiras para participar de Seminários, Simpósios e reuniões de pensadores e cientistas sociais;

- Já lhe foram oferecidas cátedras nas Universidades de Harvard e Colúmbia, tendo-as recusado por não desejar se ausentar do Brasil;

- é escritor que tem militado intensamente na imprensa nacional e estrangeira, colaborando em jornais e periódicos de maior projeção, sempre com trabalhos da melhor cepa;

- Foi deputado federal, pelo Estado de Pernambuco, na legislatura 1946-1950, tendo apresentado várias emendas de interesse sociológico à Carta Magna de 1946.

Tal o porte do eminente conferencista que aqui se apresenta.

Prof. GILBERTO FREYRE

Esta saudação que ora vos faço tem, apenas, o mérito de atender a uma formalidade cerimonial, porque, em verdade, não vem aditar nada de nôvo ao vosso galardão e se perde mesmo dentre as vozes maiores das autoridades máximas que, tanto no Brasil como no estrangeiro, já se pronunciaram lùcidamente sôbre os vossos méritos e a vossa magna obra.

Todavia, porta um alto sentido: o de cientificar-vos de que o município de Caruaru e, em particular, esta Faculdade, não obstante se condensarem em uma área cultural muito pequena do Hinterland nordestino, sabem abrir as suas portas com as mesmas dimensões da áreas culturais onde estão implantados os centros universitários internacionalmente famosos e mais evoluidos, que tanto tendes visitado, para receber, ouvir, admirar e não esquecer jamais os ensinamentos eruditos dos grandes Mestres, como os que ministrareis através da vossa conferência.

Sêde benvindo, Sociólogo GILBERTO FREYRE.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Meu amigo Gurvitch. Caruaru, 11 ago. 1971.

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