NECESSIDADE DE INSTITUTOS DE PESQUISA SOCIAL NO BRASIL
O SR. GILBERTO FREYRE – Que será o Instituto Joaquim Nabuco? Uma instituição de interêsse apenas acadêmico? Uma casa de antiquários em ponto grande e com caráter oficial? Uma peça a mais na burocracia federal? Não; será principalmente um centro de estudo vivo, de pesquisa de campo, anexo, talvez, à Universidade do Recife e à da Bahia, e no qual se estude o homem regional das zonas rurais do Norte. êsse estudo visará um conhecimento geral do homem regional das mesmas zonas: antropométrico, etnológico, etnográfico, folclórico, sociológico, econômico.
O Sr. Ataliba Nogueira – Vê o nobre Deputado que o objetivo que acaba de enunciar, como sendo do projetado Instituto Joaquim Nabuco, é o mesmo de algumas cadeiras das nossas Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras.
O SR. GILBERTO FREYRE – Obrigado a V. Ex.ª pelo luminoso aparte. Retomando porém, minhas considerações: o Instituto projetado incluirá a investigação de recursos e hábitos regionais de alimentação, o que permitirá, no fim de algum tempo, retificações e soluções econômicas para as deficiências atuais de dieta. A importância científica do material que se reunirá através dêsse estudo será grande e de interêsse para professôres e estudantes de várias escolas: das de Direito, das de Medicina, das de Agronomia, das de Filosofia. Mas, grande será também o seu valor prático.
Em Portugal, quando o sábio Leite de Vasconcelos, mestre de Etnografia e Etnologia, que ainda conheci velhinho, mas admirável de vivacidade e lucidez, dirigindo o Museu Etnológico de Lisboa, teve de defender-se da acusação de estar fazendo obra apenas de antiquário, ensinou com paciência de professor de primeiras letras, aos "imediatistas" como a Etnografia junta à importância científica o valor prático. E o fêz salientando que, através das pesquisas realizadas por etnógrafos, é o legislador ou o político, e não apenas o sociólogo, que fica habilitado a dirigir, interpretar e servir a população estudada, "sem contrariar tendências naturais que sejam úteis".
Êste ponto é importante. Muito legislador, político, magistrado, engenheiro, pedagogo, arquiteto, faz leis, toma medidas de govêrno, dá sentenças, levanta casas, traça planos de urbanismo, introduz novidades estrangeiras no sistema escolar, sem reconhecer de perto essas "tendências úteis" da população, que só o estudo científico de suas condições de vida e de cultura material e imaterial pode revelar.
O Sr. Alde Sampaio – V. Ex.ª dá licença para um aparte?
O SR. GILBERTO FREYRE – Pois não; com todo o prazer.
O Sr. Alde Sampaio – Basta ver o panorama do Brasil, que tem sempre calcado suas leis em estudos de outros países, deixando de lado aquilo que realmente caracteriza a nossa nacionalidade.
O Sr. Ataliba Nogueira – Mas a culpa é de alguns professôres universitários, que não compreendem o valor das pesquisas científicas que lhes incumbe promover, preferindo o comodismo dos livros e investigações estrangeiras. Não há necessidade do nôvo Instituto que se pretende criar, segundo o meu modo de pensar.
O Sr. Dolor de Andrade – é um ponto de vista de V. Ex.ª, respeitável, sem dúvida.
O Sr. Ataliba Nogueira – Sim, é minha opinião, aliás muito modesta.
O SR. GILBERTO FREYRE – Mais uma vez agradeço os luminosos reparos de V. Ex.ª.
O Sr. Ataliba Nogueira – V. Ex.ª não fere o ponto principal. Não se deve perder de vista que a Cátedra é que compete estudar tais assuntos e não ao nôvo Instituto.
O SR. GILBERTO FREYRE – Agradecendo aos nobres Deputados os seus brilhantes apartes, retomarei minhas considerações.
Às vezes, o que se suspeita a ôlho nu ser a realidade é falso. Os indivíduos que, só por estarem no alto de um cargo oficial importante ou dentro da ortodoxia de um sistema ideológico, se imaginam donos da Verdade, senhores "do que se deve fazer" com relação a isto e a respeito daquilo, muitas vêzes se enganam sôbre a população que pretendem dirigir, reformar ou mesmo servir com suas leis, seus atos, suas iniciativas. Não há saber de gabinete ou ortodoxia ideológica que faça as vêzes de investigação científica, de pesquisa de campo, da colheita de material sociológico, folclórico, etnográfico, sôbre determinada população. Pitié não concebe que se faça hoje legislação uniforme sem se considerar o regional. Malinowski já mostrou como a pesquisa regional contraria a generalização dos ortodoxos da psicanálise. Lowie salienta que as pesquisas regionais abrem brechas enormes em generalizações marxistas. De "uniformismo" padecendo ainda os brasileiros, como tenho tido ocasião de observar na elaboração das leis na Câmara dos Deputados. Nossos juristas, nossos legisladores, nossos educadores, nossos homens de govêrno, precisam de que dois ou três institutos dedicados ao estudo do homem brasileiro, nas duas ou três principais em que o Brasil pode ser antropológica e socialmente dividido, lhes forneçam com segurança científica informações sôbre as diferentes populações regionais do País: suas tradições vivas, suas condições materiais de vida, seus hábitos, seus usos, suas tendências características, suas necessidades, suas possibilidades.
O Sr. Ataliba Nogueira – V. Ex.ª, mestre na matéria, não ignora que tudo isso é já objeto do programa de duas ou três cátedras existentes nas Faculdades de Filosofia. Não há necessidade, absolutamente, da criação de nôvo Instituto, a menos que êle se integre na Universidade.
O Sr. GILBERTO FREYRE – Muito agradecido a V. Ex.ª pela informação.
Mas não é apenas para nossos juristas, legisladores, educadores, engenheiros, arquitetos e homens de govêrno, que êsse material terá valor prático; também para nossos médicos, industriais e comerciantes. A êstes, a investigação científica poderá indicar, na população brasileira, diferenças regionais nas predominâncias de altura e de forma do corpo, de forma de cabeça e de pé, de proporções de braços ou pernas, de tipo de cabelo, de conformação de dentes, que interessam ao fabricante de roupa feita, de chapéu, de chapéu-de-sol, de sapato, de chinelo, de móvel, de meia, de cama, de escôva de cabelo, de pente, de escôva para dentes, do mesmo modo que outras informações podem orientar êsses e outros industriais e comerciantes – aos de alimentos, brinquedos, rêdes, etc. – quanto a predominâncias nos gestos de côr entre as populações das diversas áreas brasileiras, predominância de interêsse especial para os fabricantes de tecido. Por aí se vê quanto é considerável o valor prático de um instituto de pesquisa social como deverá ser o Joaquim Nabuco, no Norte.
É claro que tal instituto deverá ter o seu museu de etnografia matuta e sertaneja, de arte popular, de indústria caseira. Mas só um indivíduo com a visão estreitamente acadêmica do que seja Ciência Social considerará inútil ou apenas divertida ou recreativa a reunião de semelhante material. Será obra de maior interêsse científico e prático a de reunir-se, com critério científico, o material mais relacionado com a vida e com o trabalho das nossas populações regionais. Tipos de habitação, de rêdes de dormir, de rêdes de pesca, de barcos como os do Rio São Francisco – cuja figura de barqueiro reclama estudo especial – de brinquedos de menino, de mamulengo, de louça, de trajo, de chapéu, de alpercata, de faca, de cachimbo, de tecido, de bordado, de renda chamada da terra ou do Ceará, receitas de remédios, alimentos, doces, bebidas, crendices, superstições, tudo isso tem interêsse científico, artístico, cultural, social, prático. Enganam-se os reformadores de gabinete que vêem em tudo isso apenas divertimento para os olhos dos turistas ou dos antiquários. Da gente do povo do Brasil pode-se dizer o que da gente do povo português disse uma vez outro mestre lusitano, Joaquim de Vasconcelos: "O povo ainda é hoje o nosso maior artista. êle conserva o segrêdo de processos técnicos, a ciência de valiosas receitas, a inteligência de fenômenos importantes, enfim, inúmeros conhecimentos que nunca foram escritos e avaliados como merecem".
Triste do povo que não tem governos, legisladores, intelectuais, artistas, médicos, arquitetos, cientistas, industriais que compreendam o valor do que é regional, popular e tradicional na vida dêsse povo; e não compreendendo êsse valor, abandonam-se à estandardização de todos os seus estilos de vida. Dêsse abandono e da imposição de estilos estranhos, é que resulta a descaracterização das culturas nacionais ou regionais apoiadas em bases naturais de diferenciação. Mais nosso que o petróleo deve ser considerado o conjunto dos valôres populares e tradicionais de cultura que, desprestigiados e desaproveitados pelos nossos homens de govêrno, artistas, arquitetos, educadores, intelectuais, industriais, nos deixarão à mercê de tôdas as estandardizações. Seríamos, então, uma terra de todos os que se interessassem em gozá-la sem sequer se preocuparem com a responsabilidade de possui-la.
Não nos esqueçamos de que museus sociais ou museu do homem, como o dirigido na França por Mestre Rivet, institutos de pesquisa social, centros de estudos regionais de Sociologia, Etnologia, Etnografia, etc., existem hoje nos países mais adiantados e não apenas naqueles onde o tradicionalismo é uma espécie de saudosismo: saudade ou nostalgia das glórias ou simplesmente dos usos do passado. Existem tais institutos e museus na Suécia, na Argentina, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na União Soviética; existiam na Alemanha pré-hitlerista que teve alguns dos seus admiráveis centros de estudo antropológico destruídos ou deturpados pelos aventureiros nazistas.
O Sr. Ataliba Nogueira – Da enumeração que V. Ex.ª acaba de fazer, em vários dos países citados, são particulares os Institutos e não do Estado.
O Sr. Dolor de Andrade – Qual o inconveniente que V. Ex.ª descobre, se, no Brasil, a iniciativa fôr de fonte estatal?
O Sr. Ataliba Nogueira – A verba de dois milhões de cruzeiros será diminuta para a organização do Instituto eficiente e para as pesquisas.
O Sr. Dolor de Andrade – V. Ex.ª, então, leu o Projeto por alto.
O Sr. Lino Machado – O nobre Deputado pretende fazer economia com o Projeto; entretanto, vota tanta coisa irregular...
O Sr. GILBERTO FREYRE – Na Itália, o Instituto Oriental de Nápoles, na Grã-Bretanha, o Royal Anthropological Institute, para não falarmos no Museu Britânico, na Alemanha, o Museu Etnográfico de Berlim, o Instituto de Antropologia Kaiser Wilhelm, o Instituto de Frankfort dedicado ao estudo de povos e culturas africanas, tornaram-se exemplos de como institutos dêsse gênero podem tornar-se úteis não só à cultura nacional, com à administração de populações retardadas.
Sabe-se que, na União Soviética, dá-se hoje grande e inteligente atenção ao estudo e ao estímulo das formas regionais de vida, respeitando-se, no plano cultural, e até certo ponto, no político, culturas tradicionais, nacionais ou regionais. Estudam-se cuidadosamente as várias populações que constituem a hoje imensa união de repúblicas chamadas socialistas.
O Professor Rivet, na Encyclopédie Française (1926), destacava que a União Soviética, achando-se diante de problemas oferecidos por povos retardados em sua cultura ou em sua economia, decidiu organizar o estudo de Antropologia nas principais capitais das Repúblicas Unidas. Moscou possui hoje bom instituto antropológico.
O Sr. Maciel de Castro – No particular, a Argentina está bem mais adiantada do que nós.
O Sr. GILBERTO FREYRE – Muito mais.
O Sr. Maciel de Castro – Basta citar o Museu Etnológico de La Plata, um dos mais conhecidos do mundo.
O Sr. GILBERTO FREYRE – Exatamente. Muito agradecido ao aparte de V. Ex.ª.
Leningrado possui também seu museu antropológico; Kiew outro instituto antropológico. Há um Comitê especial para o estudo das populações da U.R.S.S. Graças aos auxílios do Govêrno Central e dos diversos governos da União, numerosas exposições etnográficas já foram organizadas; já se corrigiram em vários pontos as cartas etnográficas do país; vêm-se publicando gramáticas de línguas e dialetos provinciais; vem-se organizando o registro dos cantos populares. E de cada população retardada na sua cultura ou na sua economia, o Govêrno escolhe indivíduos que, educados, possam voltar ao meio nativo e ajudar seus comprovincianos no seu desenvolvimento intelectual e social.
Por tôda a parte se têm feito pesquisas e inquéritos científicos para apurar as tendências ou pendores dos diferentes grupos étnicos regionais. Verificando entre certos grupos o pendor para o nomadismo, as causas dêsse nomadismo têm sido estudadas, fazendo-se os necessários esforços no sentido da estabilização dos nômades por meio do desenvolvimento da agricultura e da substituição de tendas por casas sólidas. Como resultado de obras de institutos de pesquisa antropológica já se conseguiu, na União Soviética, tal desenvolvimento de condições de higiene em áreas de populações retardadas, que o acréscimo nessas áreas chegou a ser de 24% de população.
Enfim, a Etnologia, a Antropologia, a Etnografia têm sido empregada na Rússia, como meio do que o Professor Rivet chama de "penetração da civilização", levada a populações retardadas. E os resultados têm sido semelhantes, talvez superiores, sob o aspecto social quantitativo, aos obtidos nos Estados Unidos, pela Smithsonian Institution e pelo Serviço de Proteção Social às populações primitivas daquele país; e, no México, pelo instituto que ali vem cuidando das populações indígenas e mestiças nas áreas rurais sob a direção do sábio Manuel Gamio.
O brado de alerta que, em 1934, demos, no Brasil, contra o desdém de governos, de particulares ricos e da Igreja pelas populações rurais das áreas de monocultura latifundiária, o mestre de psiquiatria social Ulysses Pernambucano de Mello, e dois ou três outros – brado poucos meses depois reforçado com voz mais eloqüente e prestigiosa: a do eminente Sr. João Mangabeira – ficou quase sem eco nos meios oficiais. Apenas despertou esforços isolados de particulares menos retardados na sua mentalidade e no seu espírito cristão.
O Sr. Ataliba Nogueira – V. Ex.ª está a par do lugar onde melhor ecoou o brado dos estudiosos citados, entre os quais V. Ex.ª . Foi São Paulo. êsse Estado subvencionou serviços de investigações etnográficas e antropológicas. Fê-lo, porém, sem as desvincular das respectivas cátedras e serviços universitários. é o único ponto de minha divergência com o Projeto.
O Sr. Lino Machado – Então, o nobre colega deve ver com muita simpatia o Projeto e não se manifestar contra êle.
O Sr. Ataliba Nogueira – A idéia é magnífica. Devemos, porém, entregar essa missão em todos os setores às Universidades, às Faculdades de Ciências. Isto da parte do Estado, pois fora das Universidades é e deve sempre ser livre a iniciativa privada.
O Sr. GILBERTO FREYRE – Muito agradecido a V. Ex.ª. Continuando a honrar-me com sua atenção o nobre Deputado verá que não desprezo a iniciativa privada.
Não consegui, porém, convencer, nem mesmo particulares excepcionais, da necessidade da criação imediata de um instituto de pesquisa social para atender às necessidades das nossas populações rurais mais abandonadas e devastadas por doenças que eram e, admitida uma exceção ou outra, continuam senhores absolutas das águas, dos restos de matas e das margens dos rios da região.
Mais feliz no apêlo que, em 1935, dirigiu, em Portugal, aos seus compatriotas, foi o Professor Lima Basto que ali iniciou verdadeiro movimento no sentido de estudos ou pesquisas semelhantes às imaginadas por nós para o Brasil. Embora não tenha recebido do Estado ou da Igreja todo o apoio que seria de esperar, o movimento animado em Portugal pelo Professor Lima Basto resultou numa série, já hoje vasta, de inquéritos monográficos sôbre as condições de vida da população rural portuguêsa, inquéritos de extremo valor para qualquer obra mais arrojada naquele país.
Entre nós, desde 1934, médicos, agrônomos, engenheiros, sociólogos, educadores, vêm-se preocupando, em esforços infelizmente dispersos, com as condições de vida e as necessidades da nossa gente rural e procurando trazer a contribuição de diferentes especialidades científicas para a solução de problemas tão complexos.
O Sr. Maciel de Castro – Como o nobre orador está citando nomes de diversos cientistas que se dedicaram à Etnologia no Brasil, desejo lembrar o do grande precursor dêsses estudos na Bahia – Nina Rodrigues, que se aprofundou nesse ramo da Ciência, investigando a etnologia dos africanos dêsse Estado e sendo o fundador de uma das mais notáveis escolas do gênero, que tem tido diversos continuadores entre os quais o Professor Artur Ramos.
O Sr. GILBERTO FREYRE – Não há dúvida de que foi um grande pioneiro, e, já agora, quero citar o nome de outro notável mestre – Roquette-Pinto.
Impõe-se a coordenação dêsses esforços separados ou a mobilização dessas competências especializadas para a obra comum de "democratizar-se o solo", como dizia Nabuco, libertando-se, assim, nossas populações rurais mais retardadas, das sobrevivências feudais ou medievais, de servidão, de miséria, de ignorância em que ainda há pouco as surpreendeu, nas zonas mais devastadas pela monocultura, o olhar sociològicamente clínico do Padre Joseph Lebret. A obra, porém, de democratização do nosso solo só poderá ser realizada com proveito para a comunidade inteira, e não apenas para qualquer dos seus subgrupos, sob orientação científica. Só a Ciência é capaz de lhe dar perspectiva ou equilíbrio, evitando que o furor demagógico se desmande em esforços parciais, improvisados ou precipitados. Era essa obra de equilíbrio e Ciência que, em plano já especializado de orientação do trabalho rural, vinha sendo realizada em relação a área mais adiantada do que a nossa, na cultura de suas populações rurais, pelo Instituto de Pomritz, na Alemanha, filiado ao Instituto Internacional de Agricultura, com sede em Roma, e ao qual se deve a publicação L’Organisation du travail agricole en Europe.
O Brasil que, mais do que a Alemanha, é, à semelhança da União Soviética, imensa reunião de províncias ou de regiões diversas, algumas de populações retardadas na sua economia ou na sua cultura, e cada uma com tradições, problemas, recursos humanos e de cultura e formas de linguagem, cujo conhecimento exato interessa ao brasileiro em geral, e, em particular, aos artistas, aos intelectuais, aos educadores, aos dirigentes da Nação e aos Estados, aos legisladores, aos médicos, aos engenheiros, aos comerciantes e fabricantes de roupa, calçado, chapéu, móvel, vasilhame doméstico ou de cozinha, alimento em conserva, bebidas, material escolar, o Brasil – dizia eu – não deve ficar sem centros de estudos ou pesquisa regional que nos permitam fazer obra sólida de valorização e orientação das populações das diversas regiões, a começar pelas rurais, tão necessitadas do nosso socorro urgente, tão feridas nas suas raízes, tão ameaçadas nas suas bases.
Incluindo no projeto em discussão a criação de um instituto de pesquisa social entre as comemorações do centenário do nascimento de Joaquim Nabuco, visei mais de um objetivo. Em primeiro lugar, acrescentar ao efêmero e ao convencional das cerimônias simplesmente festivas e acadêmicas do centenário do grande brasileiro alguma coisa de duradouro e fora das convenções. Em segundo lugar, destacar em Nabuco um aspecto geralmente esquecido. êsse aspecto é o do homem público preocupado – num Brasil em que os políticos, homens de govêrno e intelectuais só cogitavam de soluções superficialmente políticas e jurídicas dos problemas – com a questão social no seu sentido já moderno. Principalmente com a valorização do trabalhador rural, e não apenas do operário das cidades; com a valorização da gente média do interior, e não apenas com a defesa do operário de blusa das capitais. Em todos êsses elementos abandonados da população brasileira, Joaquim Nabuco começou a enxergar valôres a serem amparados e prestigiados. Teve uma visão larga, pan-humana, do problema do homem brasileiro, que ultrapassava o sectarismo estreito de "Redenção de Raça", ou de "Redenção de Classe", em que se têm deixado prender outros reformadores sociais. Explico-me: redentorismo de Raça quer aqui dizer o sectarismo dos que fizeram do Abolicionismo uma seita, julgando que tudo se resolvia com a libertação do homem de côr ou de raça africana, do cativeiro. Redentorismo de Classe significa o sectarismo dos que vêem apenas a necessidade de amparar-se o operário de macacão das cidades, e esquecem o homem médio, o homem do interior, o lavrador pequeno e médio, o intelectual pauperizado, o estudante pobre, o trabalhador rural. Esquecem a classe média, cada dia mais abandonada, entre nós, como destaquei, há dois anos, em pequeno discurso proferido em Belo Horizonte, e, em maio do ano passado, no meu primeiro discurso sôbre o centenário de Nabuco, apresentado à Mesa desta Casa.
O Sr. Odilon Soares – Queria juntar meus aplausos ao belo discurso que V. Ex.ª está pronunciando. Homenagem alguma mais digna poderíamos prestar a êste grande espírito do que com a criação de uma coisa prática: o Instituto. Antevejo o que êle produzirá num país como o nosso, em que não cuidamos dessas coisas. é preciso prever. Com muita razão, V. Ex.ª critica o vêzo de se procurar enxergar sempre o imediatismo das vantagens decorrentes de um êrro. Todos sabemos que a simples verdade pode trazer vantagens. Era o que desejava dizer, aplaudindo a bela exposição de V. Ex.ª.
O Sr. GILBERTO FREYRE – Fico muito agradecido ao aparte inteligente e generoso de V. Ex.ª.
O Sr. Odilon Soares – é bondade de V. Ex.ª.
O Sr. Ataliba Nogueira – Permite V. Ex.ª um aparte? Sei que é uma impertinência...
O Sr. GILBERTO FREYRE – De modo algum. Com prazer.
O Sr. Ataliba Nogueira – ... mas queira que V. Ex.ª elucidasse se é, ou não, contrário à integração do Instituto na Universidade, pois, de outro modo, a estamos desvalorizando, visto como tem ela por precípuo objetivo investigar a Ciência.
O Sr. GILBERTO FREYRE – Por que a sede do Instituto na cidade do Recife? Por uma questão de critério regional de pesquisa, que é um critério científico. E não por bairrismo político ou capricho sentimental. O Brasil necessita de dois ou três institutos de pesquisa social, para o estudo científico do homem brasileiro, e não de um só. Institutos que correspondam às regiões mais características em que a Nação se divide antropológica, social e culturalmente, e das quais o Norte agrário, por onde mais se estende no Brasil a monocultura latifundiária e escravocrática e, a seu modo, feudal, é certamente uma.
Ora, o Recife foi por muito tempo a capital, se não econômica, intelectual, de tôda essa região, sem considerarmos, é claro, a Bahia que, ainda hoje marcada pela majestade de antiga sede do Govêrno-Geral escapa, como cidade, à categoria de metrópole regional. O Recife foi a cidade onde Nabuco, filho de pernambucana e de baiano, nasceu; onde se familiarizou com os problemas do operário; de onde estudou o problema da escravidão e do que chamou "monopólio territorial". A cidade onde se desenvolveu seu trabalhismo, seu socialismo, sua preocupação com a questão social do nosso País. Daí parecer justo que o Recife seja a sede de um instituto destinado a estudar o problema do trabalhador rural e do pequeno lavrador, na região onde mais fortemente se vêm fazendo sentir, no Brasil, os efeitos do latifúndio, da monocultura e do regime semifeudal de trabalho, que Nabuco sabia não poder ser resolvido mágica ou repentinamente pelo 13 de Maio.
O Instituto de que cogita o projeto que apresentei à Câmara e que mereceu a assinatura de tantas das figuras mais eminentes do Parlamento Brasileiro, homens de partidos, ideologias e regiões diversos, visa o estudo antropológico das condições de vida do trabalhador e do pequeno lavrador, para que êsse estudo seja aproveitado pelo Congresso, pelos Governos Federal e Estaduais, pela Igreja e pelos particulares, no sentido do melhoramento dessas condições. Por conseguinte, para a valorização do homem brasileiro e da economia brasileira através da valorização de uma das populações e economias regionais mais necessitadas de auxílio, não no seu interêsse particular ou exclusivo, mas no interêsse do Brasil inteiro.
O projeto sôbre o centenário de Nabuco, por nós apresentado a esta Casa, cogita também de prêmios que despertem o interêsse da gente de estudo, fazendo-a voltar-se para a meio esquecida figura do homem público preocupado com a questão social, que tanto engrandeceu o Brasil. De prêmios no valor de cento e cinqüenta mil cruzeiros para os três melhores ensaios sôbre a vida, a obra ou a personalidade de Nabuco. E também de uma seleção, para edição popular de grande tiragem e a preço baixo, de escritos e discursos do grande brasileiro, que forem considerados de maior interêsse social e popular, por uma comissão a ser nomeada pelo Sr. Ministro da Educação.
O projeto inteiro visa pôr em foco o Joaquim Nabuco renovador social, um tanto obscurecido pelo relêvo que se tem dado ao Nabuco embaixador, ao Nabuco requintado homem do mundo. A verdade é que Nabuco foi, mais que qualquer homem público do seu tempo, sensível às necessidades populares e às aspirações da gente de trabalho do Brasil. Foi um intérprete vigoroso e lúcido dessas necessidades e aspirações. êsse aspecto da sua personalidade é que deve ser pôsto em relêvo pelo Parlamento do Brasil e pelos Ministérios da Educação e do Trabalho, por ocasião das comemorações do centenário do seu nascimento. A Academia de Letras, os Institutos Históricos, o Itamarati saberão comemorar o Nabuco acadêmico, o Nabuco homem do mundo, o Nabuco diplomata, que foi, como nenhum outro brasileiro do seu tempo, uma expressão de elegância e de requinte intelectual e, ao mesmo tempo, social. Mas o Nabuco, se não maior, mais digno de ser comemorado pelo Parlamento, foi o outro: o da campanha abolicionista, o lutador pela Justiça Social, o escritor que soube batalhar sem demagogia, nem vulgaridade, pela valorização do homem do povo, da gente média, do operário, numa época em que raros enxergavam outra "questão social" no Brasil, senão o Abolicionismo ou a redenção do escravo africano.
(Muito bem, muito bem; palmas.)
Fonte: Freyre, Gilberto. Necessidade de institutos de pesquisa social no Brasil. Discurso proferido na Câmara Federal, Rio de Janeiro, 4 dez. 1948.
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