EM TÔRNO DE UM NOVO CONCEITO DE TROPICALISMO
Apresentação
Palavras de apresentação, proferidas pelo Director do
Instituto de Estudos Brasileiros da Faculdade de Letras de Coimbra, Prof. Doutor Álvaro
J. da Costa Pimpão:
A circunstância de me ter sido confiada há pouco a
direcção do Instituto de Estudos Brasileiros, da Faculdade de Letras, fez recair sobre
mim o encargo, aliás muito honroso, de apresentar à eminente figura do pensamento e das
letras do Brasil, que vai dentro em pouco falar-nos sobre um Novo conceito de
tropicalismo, e em nome desta Universidade, as nossas efusivas saudações. Tem sido
timbre da Universidade de Coimbra - e como natural consequência do lugar que lhe é
assinalado entre as instituições científicas do País - acolher com interesse e
simpatia os homens de ciência que lhe dão a honra da sua visita; não se estranhará,
porém, que, no caso presente, a Universidade ponha um acento particular no acolhimento
que reservou a Gilberto Freyre. Para explicar isto, bastaria recordar aqui aquelas
palavras que o insigne Mestre pronunciou em 1940 no Gabinete Português de Leitura de
Pernambuco, e que podem ser lidas na edição portuguesa de O Mundo que o Português
criou, a seguir a este ensaio e sob o título Uma Cultura ameaçada: a
luso-brasileira:
"O tempo é dos que repelem o intelectualismo
puro, o esteticismo puro, o cientifismo puro, o historicismo puro, para impor aos que
estudam problemas sociais e questões humanas não só o dever de explicar em voz alta e
clara e não tímida e fanhosamente acadêmica, verdades das chamadas lógicas ou
experimentais - . . . - como até o de animar sentimentos que, sem serem rigorosamente
experimentais, são, entretanto, realidades tremendas para a vida, a sociedade, a cultura
dos povos ameaçados pela negação dos mesmos sentimentos, os quais seriam substituídos
por outros menos lógicos".
Homem de ciência dos mais autênticos de que o Brasil e as
Américas se orgulham, o Autor de Casa Grande & Senzala, de Sobrados e
Mucambos, de Nordeste, de O Mundo que o Português criou, de Interpretação
do Brasil, é também possuidor de um forte sentimento da sua brasilidade, isto
é, do seu tipo "cultural" de raiz lusitana, amadurecido sob os trópicos e ao
contacto de outras raças. A sua filosofia do "fusionismo" étnico e social
brasileiro, parte da severa análise sociológica da era da colonização, principalmente
documentada no livro admirável que se chama Casa Grande & Senzala, e em Sobrados
e Mucambos, para se elevar à contemplação desse "clima sentimental e de
cultura que quase não varia da Ásia portuguesa ao Brasil, nem da África portuguesa a
Cabo Verde", dessa "força - como se exprime ainda Gilberto Freyre - que, em
todas suas áreas se impõe aos artistas, aos intelectuais, aos poetas, como uma
"consciência de espécie" - que une os luso-descendentes uns aos outros".
Foi decerto para adquirir novas provas deste seu modo de
conceber a "unidade" civilizadora que se formou da acção expansionista dos
Portugueses que o ilustre conferente desta tarde acaba de percorrer, em longa e demorada
peregrinação, todo o nosso Império.
Como chegou Gilberto Freyre a esta visão superior, trans e
supranacional, da capacidade colonizadora e assimiladora do Português? É interessante
referi-lo: Partindo do sentimento (ainda e sempre o sentimento a colorir de
"simpatia" o pensamento de Gilberto Freyre) do valor da sua "região",
do seu "Nordeste", do seu "Pernambuco", mais particularmente, do seu
"Recife". Mais uma vez se comprova que a melhor forma de atingir o
"humano", não o "humano" artificiosamente uno dos
"humanitaristas", mas o "humano" complexo e vário da Humanidade,
consiste em partir de si, do seu ambiente, das suas tradições e da sua história
própria. "Vamos a ser nós", "Vamos a ver por nós", dizia Almeida
Garrett. Sem prejuízo do seu objectivismo crítico e do seu vigor científico, adquiridos
na formação universitária de Colúmbia, pode afirmar-se que Gilberto Freyre é um
"neo-garrettista". Têm-lhe chamado "romântico" - e ele não repele a
designação. Quer dizer: o nome de Gilberto Freyre é inseparável do movimento
"regionalista" e "tradicionalista" do Recife, e de que participaram um
José Lins do Rego, um José Américo de Almeida, o Jorge de Lima de Essa negra Fulô,
um Cícero Dias, um Luís Jardim, e tantos outros. Não admira, pois, que o nosso
conferente de hoje tenha escrito num dos seus mais formosos livros: "Uma região pode
ser polìticamente menos de que uma nação. Mas vitalmente e culturalmente é mais de que
uma nação; é mais fundamental de que a nação como condição de vida e como meio de
expressão ou de criação humana" (Interpretação do Brasil, pág. 140).
Foi o estudo do regime patriarcal do Nordeste brasileiro e da
sua dissolução, do ambiente doméstico expresso na casa grande e na senzala, e depois no
sobrado e no mucambo, da civilização do açúcar, do latifúndio, do senhores de engenho
e dos escravos, que o levou à sua interpretação do Brasil e à do mundo que o
Português criou. Foi o estudo do "Nordeste" - da casa grande aos doces e bolos
dos engenhos - que o levou a descobrir a "brasilidade", do Rio Grande do Sul, a
"brasilidade" essencial das outras províncias, a assombrosa "unidade"
das "variedades" expressas pela região. Foi o estudo do seu
"Nordeste", em confronto com o das outras regiões do Brasil, que o levou a uma
solução nova do problema da língua, solução transnacional "que correspondesse
aos desejos de aproximação e ao mesmo tempo aos de diversidade dos povos da América, da
África, da Ásia, das ilhas que formam com Portugal uma unidade essencial de sentimento e
de cultura" - como diz Gilberto Freyre - o que não significaria transigência com
aquele espírito estreito que, a pretexto de "regionalismo" ou mesmo de
"nacionalismo", mais não faz do que despojar a língua portuguesa dos seus
caracteres de inteligibilidade universal, das suas condições de órgão transmissor de
uma "cultura", que não é já hoje particularmente brasileira, nem é
particularmente portuguesa, mas luso-brasileira.
A obra de Gilberto Freyre, mais do que uma obra puramente
científica, é, pela sua raiz "humana", e partindo dos seus caracteres
científicos, uma obra destinada a promover a formação de um novo estado de consciência
colectiva - supranacional, se quiserem - com base, na tradição comum de
"cultura".
É essencialmente (e sem prejuízo do seu grande valor
estético) uma obra de "compreensão" - que nos redime dos maus juízos que
sobre a nossa capacidade colonizadora tantas vezes têm sido formulados. E se, pela minha
formação particular, não me sobeja competência para analisar o método do historiador
e sociólogo que temos a honra de ver entre nós, reivindico para mim orgulhosamente a
capacidade de admirar sem reservas o pensador e o escritor que tanta horas de conforto e
de exaltação me tem proporcionado.
Em tôrno de um novo conceito de tropicalismo
Ao voltar hoje à Coimbra que em dia remoto conheci com olhos
de adolescente, ocorre-me a expressão casuística que alguém inventou para consolo dos
homens da minha idade: "mocidade da velhice". Volto na "mocidade da
velhice" à velha e sempre moça Coimbra pela qual, adolescente, me apaixonei tão de
súbito que nunca ninguém experimentou por uma cidade tão agudo amor à primeira vista.
Vinha de outras universidades e a beca de recém-formado em
Colúmbia era então para mim como um tapete voador que por mágica me transportasse de
uma cidade acadêmica a outra. Transportou-me de Colúmbia a Harvard, de Harvard a Oxford,
de Oxford a Estrasburgo, de Estrasburgo a Paris, de Paris a Berlim, de Berlim a Madrid, de
Madrid a Salamanca, de Salamanca a Coimbra, sem que o universitário tivesse então outro
cuidado na vida senão o de procurar surpreender com olhos ainda de moço independente das
convenções dos homens feitos e ainda livre das responsabilidades dos mestres acabados,
não só os valores clássicos guardados a sombra de velhas escolas como, principalmente,
as inquietações dos homens novos, espalhados em universidades, reunidos em cafés,
organizados em clubes revolucionários, nem sempre alegres à entrada dos cabarets,
hesitantes à porta das igrejas, dos mosteiros e dos seminários.
Confesso que desapontou-me naquele ano já remoto a pouca
inquietação que encontrei em Coimbra. Aonde estavam os irmãos mais moços de Antero? Os
contemporâneos de Péguy? Os camaradas de Otto Braun? Procurei-os entre os estudantes que
então conheci mas quase nenhum pude encontrar, curioso daqueles Franceses agitados pela
palavra e renovados pelo sacrifício dos Psichari e dos Péguy, daqueles Ingleses ainda
quentes da influência de Rupert Brooke, daqueles Alemães tocados pelo fervor de Otto
Braun, daqueles Espanhóis influenciados pelo sempre moço Unamuno, daqueles
Norte-Americanos da ansiedade intelectual de Randolph Bourne e de Van Wyck Brooks.
Defeito, certamente, mais do cigano de passagem por esta velha Coimbra cheia do pudor de
sua inquietação em torno das ideias e transbordante só do seu lirismo, que dos
estudantes, então alunos desta Universidade, tantos deles, anos depois, notáveis nas
letras, no pensamento, na política, nas ciências portuguesas. O que não deixei de
encontrar nos estudantes e nos professores, alguns ainda moços e já sábios, que então
conheci, foi a doçura lusitana que em Coimbra sempre tem humanizado o saber dos melhores
estudantes e dos melhores sábios: saber noutros centros de estudo, às vezes tão
separado da vida a ponto de parecerem as próprias ciências dos homens e das sociedades
vivas ramos da mais melancólica e absorvente das arqueológicas.
Recordando meu primeiro contacto de cigano de beca -
"scholar-gipsy" - com esta doce e materna Coimbra de moços de batinas
românticas e de portuguesíssimas ceias, também românticas, de bacalhau e vinho verde,
recordo o começo de minha readaptação ao Brasil, depois de longos anos de estudo no
estrangeiro: principalmente entre Anglo-Saxões. Ao voltar ao Brasil por Portugal, foi
como se voltasse, desde Portugal, à realidade única de que andava há anos afastado,
mais pelo corpo do que pela alma: a realidade luso-brasileira. Desde aqueles primeiros
dias em Coimbra que me senti na verdade restituído de corpo e alma ao Brasil: um Brasil
em grande parte formado por esta Coimbra - pelos seus mestres e seus doutores - e não
apenas pelos príncipes e homens de estado de Lisboa e pelos homens bons e maus do Porto
ou de Viana.
Coimbra marcou o Brasil de muitas virtudes e - perdoai a
irreverência - de alguns defeitos ainda hoje visíveis a olho nu no carácter do
Brasileiro. Ninguém, com um pouco de saber ou informação sociológica, ousará dizer,
do ponto de vista sociológico, onde precisamente acabam as virtudes e começam os
defeitos de um povo, de uma instituição ou simplesmente de um reduzido grupo social,
seja este uma constelação de sábios ou uma súcia de gangsters. Virtudes e
defeitos, como quase tudo que concorre para um complexo sociológico, interpenetram-se.
Separá-los é quebrar ou despedaçar complexos que só inteiros têm vida ou significado.
De Coimbra é possível que se tenha comunicado ao Brasil,
como a Índia, um excesso de academicismo ou um bisantinismo jurídico-literário às
vezes prejudicial a formação luso-indiana, como à luso-americana. Mas sem os bacharéis
ou doutores de Coimbra não se imagina a vitória esplêndida de latinidade no Oriente que
é a Índia Portuguesa, como não se imagina, no Brasil, a igualmente esplêndida unidade
de cultura predominantemente latina e lusitana, sobre espaço tão vasto: tão física e
socialmente vasto. O bacharel em Direito, formado a principio só em Coimbra, depois,
principalmente, no Recife e em São Paulo mas, ainda aí, à sombra das tradições de
Coimbra, teve no Brasil uma função de unificador de cultura e de sociedade em
formação, merecedora de estudo especializado e minucioso, que definitivamente a
consagre, caracterizando-a. Todo o excesso de academicismo, todo o bacharelismo exagerado,
todo o bisantinismo perigosamente retórico é perdoado ao bacharel ou doutor de Coimbra
que na Índia como no Brasil antigo e hoje, em África, desempenha através da
magistratura, da advocacia, do magistério, das procuradorias, da imprensa, aquela
função difícil e, às vezes, até heróica, de unificador de sociedade e de cultura, em
terras e entre populações ainda novas ou ainda indecisas. Unificador que valoriza em
meios ásperos ou confusos a civilidade, a polidez, a urbanidade, a latinidade, a
lusitanidade, contra as soluções simplistas de problemas complexos, oferecidas ou
impostas por pioneiros sem muitas letras, nem jurídicas nem, literalmente, literárias;
ou por autodidactas, furiosos no seu modo de ser anti-académicos.
Mais de uma vez tenho sido elogiado ou criticado pelo que se
denomina meu anti-academicismo. É bom que esclareça desta tribuna, gloriosamente
académica, que nunca fui anti-académico; e que sempre procurei distinguir entre a
condição de anti-académico - que me repugna tanto quanto a de anti-clerical - e a de
inacadémico, que é, afinal, a minha.
Pertenço à família universitária e disto me orgulho. Fiz
na Universidade de Colúmbia - a mais cosmopolita das universidades modernas e na época
em que tive a fortuna de frequentá-la, o centro mais avançado de estudo de Ciências
Sociais e de Direito, com Boas, na cátedra principal de Antropologia, Giddings, na de
Sociologia, Selligman, na de Economia, Dewey, na de Filosofia Social, John Bassett Moore
na de Direito Internacional, Dunning, na de Filosofia do Direito - as cadeiras essenciais
ao mestrado e ao doutorado naquelas ciências, depois de me haver bacharelado na
Universidade de Baylor. Frequentei depois dos estudos sistemáticos em Colúmbia, cursos
extraordinários aí e em várias universidades europeias. Segui o curso de Zimmern, de
Oxford, de Ciência Política. Sempre encontrei como estudante, nas universidades,
americanas ou europeias, ambiente congenial; e a elas tenho voltado, como professor
extraordinário, com o mesmo prazer de quem se sente pessoa de casa, e não estranho, em
tal ambiente.
Não sou, em face dessas quase catedrais que são as
universidades, nem um défroqué que tenha renegado, rasgado, amarfanhado ou desprezado a
beca - quase uma segunda pele ou uma segunda natureza, nos homens de formação académica
- nem um anti-académico que, depois de longos anos de estudo universitários, pretenda
fazer-se passar vaidosa e arrogantemente por autodidacta, para assim parecer de todo
original no seu possível saber e nas audácias do seu pensamento. Honra-me a beca e
honram-me as insígnias universitárias que não escondo, embora não as ostente, por não
ser académica minha carreira, nem académica minha vocação. Honra-me a formação
universitária que me pôs em contacto com mestres, tradições ou métodos já apurados
de estudo e de investigação: conjunto de valores que difìcilmente encontra um
indivíduo fora das universidades.
O que desde a adolescência me repugna é a mística ou a
superstição brasileira dos títulos decorativamente académicos de tal modos usados e
abusados em meu País que, sobre esse uso ou abuso, tem-se constituído quase uma casta,
separada dos outros homens não pelo valor ou pela capacidade para as formas mais altas e
mais puras de trabalho ou de criação intelectual mas simplesmente pela posse - a posse
material, a posse mecânica, a posse por estudo a prazo fixo - de diploma ou de título.
Os títulos académicos assim usados é que parecem a alguns de nós, críticos do
academicismo exagerado, tão arcaicos, no mundo socialmente democrático em que começamos
há anos a viver e no qual a posição de cada homem é marcada pelo trabalho de que é
principalmente capaz, como os títulos de nobreza, hoje francamente de sabor etnográfico,
não só na América como na própria Europa e até na Ásia: Nehru repele o tratamento de
"Pandit". Estamos, na verdade, num mundo em que soa falso tudo que é sugestão
de casta ou privilégio social. Define a cada um de nós sua condição de homem de
trabalho: não só ao engenheiro a condição de engenheiro, como ao médico a condição
de médico, ao advogado a condição de advogado, ao agrónomo a condição de agrónomo,
ao professor a condição de professor, ao jornalista a condição de jornalista, ao
escritor a condição de escritor. Donde o arcaísmo dos títulos académicos quando deles
se abusa ou sob eles se esconde a condição de homem de trabalho do indivíduo de
formação universitária.
Ao expressar-me assim não me alisto entre os que confundem
ensino universitário com ensino profissional ou ensino prático. Ao contrário: sou dos
que pensam, com Ortega y Gasset, que a missão das universidades, distancia-se da de
escolas puramente dedicadas a formar técnicos ou profissionais para significar formação
de elites intelectuais e de líderes. O que não devemos confundir é a formação de tais
elites e de tais líderes com a deformação dos filhos de ricos ou semi-ricos em casta
académica: casta a quem os títulos dêem privilégios que nem sempre correspondam à
capacidade de pensar, de dirigir, de guiar, de esclarecer e de pesquisar dos titulados.
Pelo que cada um deve ser conhecido ou designado pelo que principalmente faz ou realmente
é e não por título ou diploma, tantas vezes fictício ou apenas decorativo, adquirido
em academia.
Daí não me tocar, por exemplo, a designação ilustre de
"professor" com que às vezes sou honrado pela imprensa generosa deste País.
Professor ou catedrático tenho tido a honra de ser, é certo, de algumas universidades do
meu País e do estrangeiro; mas extraordinàriamente. Excepcionalmente. Nunca quis ser
permanentemente professor ou catedrático de universidade. Sempre senti para a condição
permanente de professor a pobreza e mesmo a falta de aptidão ou vocação académica. O
que sempre quis ser foi escritor. E escritor é hoje a palavra que me define a condição
principal na vida. De escrever é que principalmente vivo. Para escrever é que
principalmente vivo. Um malicioso diria que tenho sido professor extraordinário e
escritor ordinário. E não deixaria de ser exacto na sua classificação, nem mesmo na
sua malícia. Apenas o consolo de poder apresentar-me como escritor, mesmo ordinário, nas
respostas aos inquéritos oficiais de estatística, representa para mim a realização de
um sonho que data da remota meninice. E bem sabeis o gosto que há nos sonhos de meninice
realizados pelo adulto.
Escritor quanto possível independente. Independente de
compromissos com instituições, partidos, credos, academias e mesmo universidades, embora
com estas e com as gerações novas de estudantes sempre em contacto e, com seus
problemas, sempre preocupado. Alguns dos meus ensaios, tenho-os elaborado em ambiente
universitário, revelando a outros indivíduos, empenhados no estudo e no esclarecimento
dos mesmos temas, ideias só depois comunicadas ao público. Ouvindo em meios
universitários críticas de mestres já velhos e objeções de colegas ainda estudantes
é que tenho esboçado algumas das ideias que, reunidas, após, em livros, constituem um
começo de tentativa de filosofia de história que, sendo inacadémica, não é, de modo
algum, anti-académica nos seus processos de elaboração ou sistematização.
Daí, sentir-me a vontade para neste meio, nobremente
universitário, esboçar algumas sugestões em torno de novo conceito de tropicalismo:
sugestões das quais talvez resulte um ensaio há anos planeado. A ideia desse ensaio
avivou-a recente viagem através de algumas das principais áreas do Ultramar Português,
a convite do eminente Ministro Sarmento Rodrigues, também ele ligado pela adolescência e
pelo estudo à Coimbra. Em contacto com essas áreas tropicais, irmãs do Brasil, senti
que se esclareceram ou confirmaram em mim algumas já velhas antecipações em torno de
novo conceito de tropicalismo, tema que há anos me seduz tanto como a reinterpretação
do lusismo, de nacional transferido a plano supranacional.
Na verdade, creio ter encontrado nesta viagem a expressão que
me faltava para caracterizar aquele tipo de civilização lusitana que, vitoriosa nos
trópicos, constitui hoje toda uma civilização em fase ainda de expansão; e que, embora
mal identificada pelo Professor Arnold Toynbee, em sua obra monumental sobre as
civilizações, é, decerto, entre as civilizações modernas, uma das mais cheias de
possibilidades e virtudes. Essa expressão - luso-tropical - parece corresponder ao facto
de vir a expansão lusitana na África, na Ásia, na América, manifestando evidente
pendor, da parte do Português, pela aclimação como que voluptuosa e não apenas
interessada em áreas tropicais ou em terras quentes. Donde não se poder falar em
tropicalismo moderno sem se destacar a acção do Português como pioneiro de modernas
civilizações tropicais: aquelas em que a valores e sangues tropicais juntam-se, em novas
combinações, valores e sangues europeus. O caso da Índia Portuguesa. O caso do Brasil.
O caso de províncias portuguesas na África, onde as mesmas combinações, com outras
substâncias, mas sob formas sociològicamente iguais às que se encontram na Índia e no
Brasil e através de processos sociològicamente idênticos, começam a afirmar-se.
Essa vitória de formas e de processos portugueses de
constituição e desenvolvimento de sociedades e culturas - formas predominantemente
europeias e cristãs, mas, a seu modo, plurais, isto é, com considerável aproveitamento
de valores nativos e considerável tolerância de credos e etiquetas e substâncias
acatólicas - veio contribuir para novo conceito de tropicalismo entre os Europeus, no
meio dos quais tanto se generalizara o preconceito de serem os trópicos de todo
inadequados à aclimação ou sobrevivência dos valores um tanto arbitràriamente
considerados "civilizados", em oposição aos "primitivos", ou
"bárbaros" que seriam todos os não-europeus. Principalmente a maioria dos
tropicais.
Veio até aos nossos ouvidos - até aos ouvidos dos homens de
hoje - o velho conceito de tropicalismo: negação de quanto fosse primor ou excelência
de civilização, inclusive de arte, vinda dos trópicos. O que fosse tropical seria
necessàriamente bárbaro, desordenado, grosseiro, exuberante, derramado, desmedido,
agreste. De um sol a doer como fogo nos olhos dos homens só poderia resultar excesso. De
uma luz a ferir-nos a vista como se fosse flama só poderia resultar desequilíbrio. De
cores a gritarem como loucas só poderia resultar alucinação. O extremo oposto a
civilização europeia mais requintada, caracterizada na composição das suas próprias
paisagens e não apenas na elaboração das suas obras de arte e de pensamento, nas suas
modas de traje e não apenas nos seus estilos de habitação, pelo que se supunha a
suprema manifestação de gosto civilizado: a medida, a simetria, a ordem, a suavidade, a nuance,
a penumbra.
Na segunda metade do século XIX, usou-se e abusou-se na
Europa da expressão "tropicalismo" como expressão pejorativa ou depreciativa.
A má eloquência era "tropicalismo". "Tropicalismo" a má literatura.
"Tropicalismo" a música, a pintura, a arquitectura menos conformadas com as
ideias francesas de medida, com os padrões Vitorianos de colorido, com os estilos
italianos e vienenses de graça ou elegância de expressão ou composição musical.
Mas precisamente dessa época de europeísmo ao mesmo tempo
arrogante e cético - arrogante nos seus principais homens de acção e cético quanto a
excelência da civilização europeia em alguns dos seus artistas e pensadores mais
subtilmente revolucionários - data uma série de tentativas audaciosas de reabilitação,
nas artes, de valores tropicais. Ao "pas la couleur, rien que la nuance" dos
penumbristas mais violentamente anti-tropicais correspondeu toda uma voluptuosa e às
vezes exagerada afirmação de gosto pelo sol, pela cor e pela luz tropical da parte de
pintores ainda mais violentamente corajosos no seu tropicalismo que os devotos da penumbra
no seu anti-tropicalismo ou no seu penumbrismo. Estava iniciada do modo mais visível a
reabilitação de valores tropicais. Outras reabilitações se seguiriam com uma crescente
e múltipla valorização da cor: a cor das mulheres e dos homens e não apenas a das
flores, dos frutos, das árvores, das águas e a dos céus. Valorização sociológica e
não apenas estética ou sensual da cor, por valorização sociológica da cor devendo-se
compreender aquela que começou a reconhecer nas gentes amarelas, pardas, vermelhas,
pretas, por meio de estudos comparados de sociologia das culturas, portadores de valores
superiores e não apenas inferiores aos dos brancos ou Europeus. Obra de valorização que
marcou os começos da moderna Etnologia, da moderna Sociologia, da moderna Antropologia,
cujos estudos concorreram com trabalhos de artistas plásticos e audácias experimentais
de arquitectos para a valorização do homem e da casa tropicais e não apenas da paisagem
e da natureza.
Esse novo conceito de tropicalismo e, ao mesmo tempo, de
melanismo - conceito apologético, em oposição ao depreciativo ou pejorativo - assinala
a revolta dos Europeus menos convencionais a predominância dos chamados valores
paleotécnicos em sua vida, sua paisagem e sua cultura. A predominância desses valores
acentuara-se com a Revolução Industrial, com a primeira fase de mecanização das
indústrias, com a vitória da produção, ou da economia carbonífera, burguesa e urbana
sobre a rústica e rural. A predominância de tais valores criara um tal narcisismo
europeu que o não-europeu passara a ser considerado fatalmente inferior e desprezível; a
cor viva fatalmente inferior à discreta; o vermelho nos trajos, na cor das casas, no
ornamento das pessoas, bárbaro, em oposição ao róseo, ao cinzento ou ao azul escuro
considerados elegantemente civilizados. O narcisismo europeu da era carbonífera foi,
assim, arianista e anti-melanista. Inimigo das cores vivas nas coisas e do pardo, do roxo,
do vermelho, do preto nas pessoas. E coerente com o seu anti-melanismo, foi
anti-tropicalista no sentido de não reconhecer nas populações e culturas tropicais
senão populações e culturas inferiores e servis; ancilares das populações e culturas
europeias, imperiais, nórdicas.
O novo conceito de tropicalismo, reagindo contra o antigo,
seria uma reabilitação também do melanismo, nem todo ele patológico, como viria a
demonstrar no século XX a Antropologia; nem todo ele característico de diabos ou estigma
de anjos maus, como já demonstrara a pintura não só descritiva como interpretativa dos
Gauguin, voltada para as mulheres, os homens, os adolescentes de cor como para
afirmações de beleza e de ternura humanas senão superiores às de beleza de corpo e de
alma dos brancos, a elas iguais em efeitos plásticos e em manifestações de afectividade
e de cordialidade através de brilhos de olhar e de doçuras de sorrir, dificilmente
encontradas entre brancos e Europeus; ou nos habitantes de climas frios, brumosos,
cinzentos. Antropologia, Sociologia, Literatura, Pintura, Escultura, Medicina, Agronomia
modernas europeias vêm procurando, nos últimos decénios, fixar e interpretar nas
gentes, nos usos, nas coisas e nas paisagens tropicais valores humanos e de cultura, não
mais como curiosidades etnográficas ou exotismos pitorescos, porém como expressões de
desconhecida, ignorada ou desprezada área de sensibilidade e de cultura humanas, das
quais o europeu e o moderno têm o que aprender, o que assimilar, o que absorver pelo amor
compreensivo e não pela conquista simplista.
Desta atitude moderna de Europeus, para os quais
"tropicalismo" é palavra com sentido diverso do pejorativo, até há pouco tão
corrente entre eles, deve-se considerar pioneiro o grande ensaísta francês com sangue,
talvez, português ou raiz lusitana que foi Montaigne. Sua obra tem alguma coisa de
introdução a uma sociologia das culturas sob critério rasgadamente moderno, na qual o
tropical aparecesse como valor digno de respeito e não apenas como elemento provocador de
curiosidade. Mas se, debaixo desse ponto de vista, Montaigne surge quase sòzinho das
literaturas mais castiçamente europeias, ao seu caso corresponde, na literatura em
língua portuguesa, toda uma constelação de precursores do que hoje poderemos denominar
tropicalismo positivo, em contraste com o outro e hoje arcaico, o negativo. Dessa
constelação destaque-se, como precursor de um exotismo logo alongado num orientalismo e
num tropicalismo em que a ideia do exótico desaparece sob a de diferença, mas não
inferioridade, de cultura ou de capacidade humana. Fernão Mendes Pinto. Críticos
autorizados de hoje chegam a considerá-lo mais humano e mais universal pelo interesse que
desperta em todos os homens e não apenas nos Portugueses, do que o próprio Camões,
talvez demasiadamente nacionalista no seu lusismo e demasiadamente político no seu
nacionalismo, embora fosse já um lusismo colorido pela sensibilidade ao trópico e pelo
amor a mulher escura.
Mas a Mendes Pinto há que juntar vários outros, estes já
definidamente luso-tropicais no seu modo amoroso de ver com olhos lusitanos valores dos
trópicos: mulheres, homens, animais, plantas, drogas, casas, alimentos, usos. Ver,
estudar, descrever, compreender, interpretar, assimilar, adoptar, modificar. O caso de
Garcia da Orta. O de Gaspar Correia. O de Frei Cristóvão de Lisboa. O de Gabriel Soares
de Sousa. O de Pero de Magalhães Gândavo. O de Azurara. O de Álvaro Velho. O de
Nóbrega. O de António Vieira. O de Pero Vaz de Caminha, autor da carta em que vem
descrito, com exemplar luso-tropicalismo, o primeiro contacto dos Portugueses com a terra
chamada hoje Brasil: carta que fala das primeiras Ameríndias doces e nuas, vistas e
admiradas e talvez amadas e fecundadas pelos Lusos. Vêm elas aí retratadas como rivais
das mulheres mais elegantes da Rua Nova de Lisboa: exaltadas e não humilhadas.
Luso-tropicalismo do mais puro e do mais amoroso. Pois do Português pode-se com
exactidão dizer que cedo deixou de ser na cultura um povo exclusivamente europeu para
tornar-se a gente luso-tropical que continua a ser e que encontrou nos trópicos zonas
naturais e congeniais de expansão, ao motivo económico e ao motivo religioso e político
de expansão tendo-se juntado sempre o gosto, ausente noutros Europeus expansionistas, de
viver, amar, procrear e crear filhos nos trópicos, confraternizando com mulheres, homens
e valores tropicais e não apenas explorando os homens, devastando os valores, violando as
mulheres das terras conquistadas.
Falam-nos as velhas crônicas portuguesas dos
"lançados" em África e noutras terras tropicais. Os lançados em África eram
menos lanças do que homens simplesmente homens. Simplesmente de carne. Simplesmente
pecadores: um ou outro santo como esse luso-tropical típico que foi João de Brito, do
qual se diz que chegara a pintar-se de pardo para parecer indiano ou tropical. Menos
guerreiros do que Portugueses simplesmente portugueses, abrasados pelo gosto de todas as
aventuras: as de amor e fazer filhos semi-portugueses e semi-cristãos tanto quanto as de
encontrar ouro, marfim, pimenta. Encontraram ouro e marfim, pimenta e drogas. Fecundaram
mulheres. Confraternizaram com os homens tropicais. Adoptaram muitos dos seus usos e
alimentos, alguns dos quais por intermédio principalmente de Portugal ou de
Luso-Tropicais, comunicaram-se a Europeus do norte: a rede, o bangué, a mandioca, a
pimenta, o urucú, o pau-brasil, a seringa. E muito concorreram os Portugueses para a
divulgação na Europa, do cachimbo, do leque, do chapéu-de-sol. Valores
caracteristicamente tropicais em sua função de harmonizar o homem com o clima quente ou
de defender o homem do excesso de sol. Valores que se tornaram luso-tropicais através
daquela confraternização do Lusitano com os trópicos, que desde o século XV tornou-se
constante e cotidiana - rotina e não mais aventura - na vida e na cultura portuguesas.
Que desde então destacou os Portugueses da sua condição de puros ou quase puros
Europeus para ecológica e sociològicamente integrá-los numa condição nova e única,
de povo luso-tropical, com responsabilidades, compromissos e problemas extra-europeus de
vida e não apenas de economia; de cultura e não apenas de política. Responsabilidades
não à maneira das responsabilidades extra-europeias dos povos imperiais da Europa, mas
de modo todo singular: o tropical fraternalmente inseparável do luso; o extra-europeu
consorte do europeu. Tais as características do que se pode denominar hoje de
civilização luso-tropical: complexo que, social e culturalmente, inclui o Brasil, todo
ele nascido do amor português ao trópico: aos valores tropicais de vida e de cultura na
sua plenitude e não apenas aos económicos, pitorescos e paisagísticos. Amor da parte do
Português, homem comum, tanto quanto da parte do Português, homem superior ou homem de
génio.
Pois enquanto, ainda hoje, o amor completo aos trópicos é,
da parte de Ingleses, de Alemães, de Holandeses e até de Franceses e Italianos, um amor
de homens excepcionais e até anormais pela sensualidade, pela santidade ou pelo saber, da
parte dos Portugueses, ha séculos que é um amor de homens simples e comuns e não apenas
da parte de artistas, sábios e santos. Da parte de milhares de Antónios e Manuéis,
Pedros e Joões, Sousas e Silvas, e não apenas da parte de extraordinários Joões de
Brito e Afonsos de Albuquerque. Da parte de homens normais e não apenas da parte de
anormais.
Curioso é o contraste entre lançados nórdicos em terras
tropicais e lançados lusitanos. Estes quase sempre avantajaram-se àqueles na capacidade
de multiplicarem-se em filhos mestiços e de espalharem rudimentos de fala portuguesa e de
religião cristã: sinal de sua maior aptidão para confraternizarem com a gente tropical.
Enquanto ainda hoje, da parte dos Nórdicos, os que verdadeiramente têm confraternizado
com a gente tropical, aceitando-a como irmã e não como serva, misturando os seus valores
europeus de cultura com os da gente dos trópicos, juntando na maior das intimidades, que
é a do amor, seus corpos de brancos puros aos corpos pardos, avermelhados, roxos, pretos,
morenos, dos tropicais; ainda hoje - retorno à ideia - os Europeus do norte com essa
capacidade completa de integração na vida e na cultura dos tropicais são, quase sempre,
grandes santos como, na realidade, alguns missionários, ou grandes pecadores. Indivíduos
excêntricos, excepcionais, anormais. Estéreis uns e outros no seu amor intenso pelas
gentes de cor. Vários deles, homossexuais como o extraordinário Lawrence de Arábia,
para não falar no tropicalista de viagens apenas voluptuosas pelos trópicos que foi
Gide: Nórdicos ou Norte-Europeus com a capacidade, tão aguda no homossexual, de
compreensão súbita do exótico, do estranho, do diferente, mas com a incapacidade,
igualmente característica do homossexual, para fecundar gostosamente mulheres de cor,
para multiplicar-se em filhos numerosos, para perpetuar-se em descendência multicor.
Capacidade tão do Português nos trópicos. Capacidade de multiplicação em filhos
semi-lusitanos e de perpetuação de valores lusitanos e cristãos em áreas tropicais
que, mesmo depois de polìticamente separadas de Portugal ou dominadas política e
econòmicamente por outros Europeus, continuam animadas pela presença lusitana, tanto na
face dos homens como na face das paisagens. Luso-tropicalismo à margem do próprio
complexo luso-tropical de civilização a que já se fez referência. É como se cada
terra tropical fecundada por uma só gota de sangue português ou animada por um só
salpico de cultura portuguesa fosse uma terra predisposta à florescência daquele
complexo luso-tropical de civilização.
O que não tem acontecido em outras terras. Noutras terras
acontece quase sempre ao Português o mesmo que a outros povos. Desaparece ou dissolve-se.
O clima frio fá-lo contrair-se, amarfanhar-se, banalizar-se em ex-português. Muda de
nome em vez de dar o nome cristão ou de família - os velhos nomes portugueses de
António, Manuel, Sousa, Fernandes, Silva, tão espalhados por todas as terras tropicais -
até a indivíduos sem o seu sangue, só seus afilhados de baptismo e de crisma.
Falo do que tenho visto. Nos meus dias de professor na
Universidade de Stanford, conheci nos Estados-Unidos vários descendentes de Portugueses
que já não eram Portugueses nem nos nomes mas tristonhos ex-Portugueses. Não se
chamavam João e Francisco porém John e Francis. Não falavam mais português porém só
inglês: pressão, bem sei, de uma civilização mais forte que as tropicais em seus
instrumentos e técnicas de uniformização de cultura ou de convivência nacional. Mas
também incapacidade como que psíquica, do Português para continuar gostosamente
português em clima frio. A incapacidade que afastou o conquistador português, de Terra
Nova e da África do Sul para deixá-lo concentrar-se, mais contente da vida e mais
natural na sua expansão ultramarina, nas terras e entre as populações mais tropicais e
mais quentes da América, da Ásia e da África.
Tropicalismo. Luso-tropicalismo. Velha antecipação
portuguesa da ideia que hoje se aviva entre Nórdicos, homens de estudo e homens de
acção, quer na Europa, quer nos Estados-Unidos, de que o trópico é espaço
fìsicamente adequado ao desenvolvimento de civilizações predominantemente europeias em
suas formas ou equivalentes das europeias, em sua capacidade de desenvolvimento técnico e
intelectual. De que do trópico pode a civilização europeia, hoje em crise, assimilar
valores de cultura e de raça que a revigorem para, em novas combinações de formas -
tanto formas de homens como de convivência humana - e através de novos portadores dessas
combinações, continuar a ser civilização hìbridamente vigorosa, viva e creadora; e
não curiosidade de museu.
E o que a alguns de nós, homens de estudo brasileiros, que
admiramos quase narcisistamente nos Portugueses seu tropicalismo, impressiona hoje é o
facto de já não ocupar Portugal o lugar que lhe toca, por direito de nascença e direito
de conquista de país líder na ampliação, na modernização e na sistematização de
estudos tropicais ou tropicalistas. Neste meu recente contacto com o Ultramar Português
desapontou-me mais de uma vez a ausência ou fraqueza desses estudos tão necessários ao
maior vigor de acção e à maior segurança de realização de iniciativas daqueles que
na Ásia e na África põem toda a sua energia, todo o seu espírito público, todo seu
gosto bom de aventura, toda sua velha tenacidade ou constância lusitana, no esforço de
governar, de administrar, de lavrar, de plantar, de moer, de criar gado, de educar menino,
de assimilar indígena, de cristianizar gentio, de moralizar mestiço, de ampliar cidades,
de sanear terrenos, de combater pragas, de higienizar serviços de água e de esgotos.
Encontrei admiráveis esforços, mas vários deles, isolados. Vários deles, esforços
dispersos. Insuficientes os homens de estudo em várias áreas. Insuficientes e às vezes
tristonhamente burocráticos os missionários. E dentre os grémios de cultura só o
Centro de Estudos da Guiné me pareceu verdadeiramente integrado na sua missão de
congregar homens de especialidades diversas para estudos tropicais sob critério regional.
E resolvi, com o direito de falar claro aos Portugueses que me
dá o meu já velho amor a Portugal - igual ao meu amor ao Brasil - não descer desta
tribuna - a mais alta, a mais nobre, a mais ilustre tribuna a que um homem de estudo pode
subir neste País - sem, a propósito de tropicalismo, perguntar um tanto à maneira do
vosso António Nobre: "Que é dos homens de estudo de Portugal, onde estão eles que
não vão estudar de modo mais intenso os trópicos lusitanos?" Pois o Ultramar
Português precisa deles tanto quanto de homens de acção. O Ultramar Português clama
por antropólogos, geógrafos, etnógrafos, sociólogos, botânicos, economistas,
geólogos, ecólogos que se especializem por áreas, em estudos lusos-tropicais. Que
dediquem a vida a esses estudos.
Não se compreende que o pioneiro do tropicalismo, em estudos
e não apenas em realizações, deixe a outros povos, só agora voltados para os estudos
tropicais, o comando desses estudos. Não se compreende que seja publicada em língua
francesa, e não na portuguesa, a revista de cultura tropical chamada Tropique.
Como não se compreende que o ardor missionário, o fervor pela conquista de povos
tropicais para o Cristianismo, tenha declinado tanto entre os Portugueses que, no conflito
verdadeiramente dramático que hoje se desenrola em terras africanas em torno das almas
dos povos animistas, em fase de rápida desintegração das culturas ancestrais, a energia
mais viva seja a eslâmica, expressão, aliás, de belas virtudes árabes, parentes das
hispânicas.
Todos nós, Hispanos, desejamos que se conservem como anteparo
ao mau asiatismo e ao mau - não ao bom - americanismo, essas belas virtudes da gente
árabe. Mas a todos nós, Cristãos e não apenas Hispanos, repugna o facto de que a
acção missionária eslâmica esteja a absorver a expansão ou a energia cristã.
Nessa energia cristã, na Guiné e noutras áreas, é para
lamentar que a inteligência e o saber portugueses - outrora tão brilhantes que
missionário português era quase sinónimo de sábio português nos trópicos - sejam
hoje representados por tão poucos que parece ter-se quase apagado em Portugal a flama
inspiradora daquelas missões de estudo dos velhos tempos - de estudo e não apenas de
catequese - que eram as Católicas, de padres portugueses, alguns com casas inteiras em
Coimbra. Orientalistas, tropicalistas, sábios.
A Coimbra toca, talvez, a maior das responsabilidades no
movimento universitário de revalorização, de intensificação e de ampliação, já a
tardar, dos estudos tropicalistas em Portugal. Movimento que complete o esforço,
admirável aliás, da Junta de Investigações e de outros órgãos oficiais consagrados,
dentro dos seus limites, ao estudo de assuntos ultramarinos.
São muitas as terras, muitas as populações, muitos os
valores, muitas as tradições, muitos os problemas que clamam por aqueles estudos: pela
sua sistematização, pela sua intensificação e pela sua ampliação com base
universitária e com a adesão, a fé, o fervor da melhor mocidade universitária de
Portugal. Os novos homens de estudo portugueses - os de Coimbra em particular - não
faltarão, decerto, a esse clamor. O homem da Macedónia será ouvido pelo da Lusitânia.
Palavras de agradecimento do Ex.mo Senhor Reitor da
Universidade, Doutor Maximino Correia:
Senhor Dr. GILBERTO FREYRE
Em nome da Universidade de Coimbra e de todos os que tiveram a ventura e o prazer de o escutar, agradeço a magnifica lição que aqui nos trouxe.
Ela foi mais um precioso elemento a juntar a tantos que os excepcionais poderes de observação e de expressão de V. Ex.a têm acumulado à volta da prodigiosa acção dos Portugueses em terras extra-ibéricas.
Ninguém até hoje soube, como V. Ex., examinar os factos, analisar, relacionar, concatenar tudo o que respeite à vida nas suas múltiplas facetas, desde a puramente vegetativa, até às mais sublimadas actividades do espírito, para construir um síntese luminosa e dignificante para a gente lusa.
E ninguém como V. Ex.ª soube dar a essa síntese, uma expressão verbal tão clara e simples, tão lógica e convincente.
Neste aspecto, a actividade de V. Ex.ª, tudo o que tão brilhantemente tem dito e escrito, concedendo-lhe foros, - sinceramente o afirmo - de Professor e Escritor extraordinário, constitui um meritório trabalho, pelo qual, todos nós, devemos ser-lhe gratos.
Em sinal dessa gratidão, tenho a honra de depor nas mãos de V. Ex.a a medalha comemorativa do IV Centenário da Instalação definitiva da Universidade em Coimbra e um exemplar da História da nossa Alma-Mater.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Em tôrno de um novo conceito de tropicalismo. Coimbra, 24 jan. 1952.
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