6 CONFERÊNCIAS EM BUSCA DE UM LEITOR
Prefácio
O autor, depois de reler as conferências que proferiu já há anos e que o editor José Olympio reúne agora em livro, sente-se obrigado a dizer que, pelo menos com relação a duas delas, se continua fiel aos conceitos gerais ai esboçados – o conceito de Modernidade, na arte política, em oposição ao de modernice, numa, o de mineiridade, noutra – teria, em face de um país agora menos sob uma constituição que sob uma revolução, que distinguir e subdistinguir quanto à aplicação, em certos pontos, dos mesmos conceitos, á atual situação do Brasil. Afinal, sua filosofia das ciências sociais sendo a situacional, não é senão coerente com essa filosofia, ao insistir em que os conceitos gerais têm, quando aplicados a situações específicas, que sofrer alterações em suas aplicações, conforme a situação a que se apliquem.
Assim, repetindo que, atualmente, como há dezesseis ou dezessete anos, a Modernidade, como norma de arte política, deve, no Brasil, se sobrepor a modernices radicais – a ismos ou a anti-ismos radicais, que se apresentem, aliás falsamente, como moderníssimos, sendo, de fato, já arcaicos – o autor observaria, de semelhante modernidade, não dever significar, de modo algum, falta de ânimo do brasileiro para atitudes francas de renovação do sistema nacional de convivência, nuns casos, e a favor de reabilitação de valôres nacionais de sempre, noutros casos. Ânimo quem em suas formas mais vivas de expressão, sendo caraterístico de paulistas, de pernambucanos e de rio-grandenses-do-sul, representa, nos nossos dias, uma atitude tão reclamada por um Brasil em fase de renovação, como o ânimo mineiro ou baiano de inteligente conciliação e de cauteloso ajustamento de antagonismos.
Aliás, o ano de 1964 ficará marcando o comêço de uma presença na vida se não política, cívica, do nosso País, que altera as antigas imagens de tipos regionalmente diversos de brasileiros, considerados em suas projeções sôbre a mesma vida cívica ou política nacional. Essa nova presença é a da mulher.
O ânimo de insurreição da mulher brasileira, em face de um govêrno que se vinha notabilizando por desmandos evidentemente contrários aos interêsses nacionais – quer quanto a infiltrações Comunistas, ou para-Comunistas, por êle permitidas e até facilitadas, na administração, nas Fôrças Armadas, nas universidades, no Itamarati, quer quanto a desfalques, negociatas e desvios de dinheiros públicos, em benefício de particulares ou de facções políticas – abriu o caminho para a execução do que ficou apurado ser a vontade da nação quase inteira, pelas Fôrças Armadas, mais uma vez a serviço dessa vontade nacional (tese há anos defendida pelo autor na conferência, incluída neste livro, "Nação e Exército".)
De modo que já há observadores da vida brasileira que destacam não ser o mineiro extremamente cauto e extremamente conciliador a imagem única que Minas Gerais – onde se iniciou, no país, o movimento revolucionário da parte das mulheres – projeta sôbre a política nacional. Essa imagem é agora completada pela da mulher mineira decidida e vibrante no seu modo de intervir na vida cívica do seu Estado e do seu País. De modo que há nôvo aspecto a ser considerado por quem deseje voltar a versar, de ponto de vista sociológico, o tema "Ordem, Liberdade e Mineiridade".
O Brasil hoje, em fase de renovação de vida, de reabilitação de valôres e de reajustamento além de econômico, social, que dificilmente poderão ser realizados dentro de rígido ou bizantino legalismo ou de um mineirismo antes estático do que dinâmico e antes jurídico que social no seu "senso de ordem" tanto quanto na sua noção de "liberdade", reclama de seus líderes o máximo de sabedoria política de que sejam capazes. A alguns de nós parece que essa sabedoria estaria, em parte, na arte de saber o líder atual conciliar, contemporizar, harmonizar antagonismos; mas em parte, também, noutra arte, ainda mais difícil do que essa: a de não transigir o homem o govêrno brasileiro que represente, com representa o de agora, menos uma constituição estática, que uma revolução dinâmica, senão naquilo em que possa transigir sem dano para os grandes interêsses nacionais agora em perigoso jôgo, sendo firme e decidido quanto ao que, nos objetivos da Revolução atual, precise de estar acima de transigências e de transações com partidos, com grupos ou com facções a serviço exclusivo de interêsses, se não antinacionais, subnacionais, além de anti-revolucionários.
Fonte: FREYRE, Gilberto. 6 Conferências em busca de um leitor. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965. 196p.
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