A PRESENÇA DO AÇÚCAR NA FORMAÇÃO BRASILEIRA
Prefácio
Reúne este pequeno livro seis ensaios sobre o açúcar brasileiro – isto é, o açúcar com o qual o Brasil de fato nasceu e cresceu econômica e socialmente, após os dias aventurosos do pau-de-tinta e antes das minas e do café o terem ultrapassado em importância econômico, sem deixarem de sofrer sua influência abrasileirante em áreas decisivas de organização social e de definição cultural. São ensaios em que avulta a parte inédita, embora trechos de vários deles tenham sido já publicados em revistas ou obras coletivas. E não são evitadas repetições: defeito tão do autor. Algumas terão seu valor, pelo destaque que dão insistentemente a certas recorrências ou ocorrências.
O fato de se apresentarem esses trechos em conjunto, porém, juntando-se a considerável parte de todo inédita, lhes dá, talvez, uma configuração – vá a palavra um tanto pedante – gestaltiana, que unifica, além de possivelmente dinamizar, as sugestões que cada um apresenta, como que para, juntas, tais sugestões constituírem um todo panoramicamente sociológico, ou apenas parassociológico, em torno de assunto tão ligado à formação brasileira – em geral. Pois nessa formação grande foi a marca da presença do açúcar, quer como fator especificamente econômico, quer com base de todo um tipo de sociedade e de toda uma forma de família. O tipo de sociedade e a forma de famílias patriarcais – que desde o século XVI condicionaram as origens e os primeiros desenvolvimentos pré-nacionais do Brasil mais econômica e socialmente estáveis. Condicionam não apenas esses desenvolvimentos pré-nacionais mas os nacionais que a eles se seguiram no século XIX, manifestando-se suas influências nos começos do século atual e atuando algumas das suas sobrevivências sobre o Brasil dos próprios dias que atualmente vivemos.
Uma das expressões desse complexo ( açúcar – sociedade patriarcal – Brasil, pré-nação e nação) foi, desde o referido século XVI, a casa-grande de engenho que, como forma de expressão arquitetônica de um tipo social de vida, serviria de modelo a casas de residência senhoril ou quase senhoril em áreas caracterizadas por outras atividades econômicas: fazendo de gado, fazenda de cacau, estância, fazenda de café. Um prolongamento da arquitetura de residência que teve seu início nas plantações de cana completado pelas fábricas de açúcar, nos engenhos patriarcais que tiveram seu núcleo em Pernambuco, quando este era a Nova Lusitânia -- abrangia quase todo o atual Nordeste e parte da Bahia desde 1817. Isto sem se desconhecer o ato de que a denominada civilização do açúcar teve outro começo de importância histórica em área onde hoje economicamente renasce: no Sul, em São Vicente. Nem se despreze o relevo que, também no Sul, mesma civilização adquiriu no Rio de Janeiro. O primado quer histórico-social, quer sociológico, como fonte de um tipo de civilização tão criador de valores de importância nacional, além da regional, parece, entretanto, caber ao Nordeste.
Fonte: FREYRE, Gilberto. A Presença do açúcar na formação brasileira. Rio de Janeiro: Instituto do Açúcar e do Álcool, 1975. 212p. (Coleção Canavieira, 16).
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