ARTE, CIÊNCIA E TRÓPICO
Prefácio
Reunem as
páginas que se seguem não só três conferências
proferidas pelo autor, em maio de 1959 no Instituto de Arte Contemporânea
do Museu de Arte de São Paulo, a convite de um dos seus jovens e
esclarecidos diretores - Renato Tavares de Magalhães Gouvêa:
por sugestão, aliás, do Professor P. A. Bardi - como as
conferências - trabalhos revistos e consideràvelmente
aumentados para esta sua publicação - com que, meses antes,
iniciara pequeno curso pioneiro de Sociologia da Arte na Universidade do Recife:
curso realizado por iniciativa do então Diretor da Escola de Arquitetura
e de Belas Artes e atual Reitor da mesma Universidade, Professor João
Alfredo da Costa Lima, e no qual se inscreveram, além de numerosos
estudantes, médicos, engenheiros, advogados e professôres.
A essas cinco conferências, junta-se ainda outra, proferida em 1958 na Universidade da Bahia, sôbre assunto, também, de Sociologia aplicada à Arte; e Arte desenvolvida no trópico, dentro de ambiente sócio-cultural semelhante ao brasileiro; ou seja, hispano-tropical. Daí ajustar-se, também ela, tanto ao título com que, por iniciativa do Editor Martins, vão agora publicados os cincos trabalhos que se seguem - todos ousada e deficientemente pioneiros - como ao seu subtítulo, aliás um pouco mais moderado que o título : "Em Tôrno de Alguns Problemas de Sociologia da Arte". Inclusive a arte do homem - ou da mulher - rural em várias áreas hispano-tropicais.
Acompanham a publicação dos mesmos trabalhos 36 fotografias, algumas do opulento arquivo da Agência Geral do Ultramar, de Lisboa, que aparecem pela primeira vez no Brasil - e aqui ficam os agradecimentos do autor ao diretor da Agência, pela gentileza com que lhe forneceu cópias de tão valiosas fotografias; outras, da coleção do próprio autor e por êle trazidas do Oriente e da África; uma, de Lula Cardoso Ayres e duas, de Pierre Verger, sôbre assuntos brasileiros. Várias delas - como as relativas a penteados, a "lenço" ou xales de mulheres e algumas das que fixam trajos de pessoas ou imagens de santos - foram apanhadas especialmente para que ilustrassem observações do autor: observações que constam dos trabalhos que se seguem. Do mesmo modo que as conferências, são material, em grande parte, inédito. E dignas, talvez, pelo menos por seu ineditismo, de alguma atenção brasileira.
São trabalhos - as conferências e as fotografias que as ilustram - que, por serem, dentro dos seus limites, modesta contribuição para o desenvolvimento quanto possível científico, por um lado, de uma Tropicologia, ainda em ordenação ( e dentro da qual se venha a admitir como subciência, uma Hispano ou uma Luso-tropicologia), por outro lado, de uma Sociologia da Arte aplicada a espaços e tempos tropicais, não deixam de ser animados de uma mensagem quase política. E essa mensagem, dirigida principalmente aos brasileiros de São Paulo, centro, sob vários aspectos, da civilização luso-tropical e até hispano-tropical - assunto que o autor esperava discutir êste ano, na Europa, em conclave de caráter ao mesmo tempo filosófico e científico, com o Professor Arnold Toynbee, já interessado no assunto - de que o Brasil é hoje se não lider, um dos líderes. Pensa o autor que o líder . E sendo assim, lhe parece caber atualmente a São Paulo - aos seus artistas e aos seus intelectuais ligados aos seus líderes industriais, aos seus líderes operários mais esclarecidos, aos seus líderes religiosos, agrários e políticos pròpriamente ditos - a responsabilidade máxima no aperfeiçoamento e na expansão de artes - e não apenas técnicas - e de meios jornalísticos, cinematográficos e radiofônicos de expressão e de comunicação que, de artes e técnicas brasileiras, se tornem artes e técnicas luso-tropicais e, mais do que isso, hispano-tropicais, no seu alcance e na sua capacidade de corresponderem, como artes e técnicas, a tendências, aspirações e necessidades de tropicalização de vestuário, de penteados, de arquitetura, de escultura, de pintura, de música, de teatro, de literatura, de culinária, da parte de populações afins da brasileira na sua ecologia, na etnia e na sua cultura. São populações espalhadas por áreas tropicais não-brasileiras mas, quase sempre, portuguêsas ou hispânicas nas suas origens européias, da América, da África, do Oriente; e que se voltam para o Brasil e para o seu grande centro agrário-industrial - São Paulo - como para um orientador da modernização da vida, da cultura e da economia a que, várias delas, aspiram. São Paulo não lhes deve faltar, fechando-se num estreito e, além de estreito, superficial americanismo, por alguns sociólogos considerado equivalente de "progressismo" ou de "dinamimismo".
Essa modernização não deve implicar repúdio de valores e de estilos tradicionais de vida, já característicos da adaptação do hispano - particularmente do português - ao meio tropical: e sim na conciliação de tais valores e estilos com as solicitações de um tipo moderno - predominantemente industrial, urbano e automatizado de vida. Quem mais apto que o paulista, ao mesmo tempo telúrico e dinâmico nas suas tendências mais características, para realizar pioneiramente essa conciliação, através não só de técnicas como de artes, para todo o mundo hispano-tropical?
G.F.
STO. ANTôNIO DE
APIPUCOS 1959 - 1961
Fonte: FREYRE, Gilberto. Arte, ciência e trópico: em tôrno de alguns problemas de sociologia da arte. São Paulo: Martins, 1962. 126p.
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