ASSOMBRAÇÕES DO RECIFE VELHO
Prefácio
Quem se surpreender com um livro sobre assombrações, de escritor que tem na sociologia (como outros na medicina ou na engenharia) seu mais constante ponto de apoio – embora seja principalmente escritor e não sociólogo – que contenha sua surpresa ou modere seu espanto. Pois não há contradição radical entre sociologia e história, mesmo quando a história deixa de ser de revoluções para torna-se de assombrações.
Já existe, aliás, uma Sociology of the supernatural, trabalho de um mestre, Luigi Sturzo, aparecido em 1943. Admitido, como alguns hoje admitem em sociologia, que a convicção pode fazer sociologicamente as vezes da realidade, admite-se que possa haver associação por meios psíquicos, mesmo imaginários, de vivos com mortos. Formariam eles "sociedades" de que seria possível fazer-se o estudo sociológico, como já se faz (forçando um pouco o critério dominante na investigação dos fatos sociológicos, que é o antropocêntrico) o estudo de sociedades animais e até de vegetais em suas relações com as humanas.
Não é descabido, nem em sociologia nem em psicologia social, considerar-se o fato de que não há sociedade ou cultura humana da qual esteja ausente a preocupação dos vivos com os mortos. E essa preocupação, quase sempre, sob alguma forma de participação dos mortos nas atividades dos vivos. O próprio positivismo admite que "os vivos" sejam "governados pelos mortos" . A gente mais simples admite a participação dos mortos na sua vida sob a forma de "visagens" ou "assombrações" em que as supostas manifestações de espíritos de mortos às vezes se confundem com supostas aparições do próprio demônio. Ou de pequenos e médios demônios, desde que o mundo demoníaco tem também sua hierarquia. Demônios, no Brasil, disfarçados às vezes em bodes, cabras, cabriolas, mulas-sem-cabeça, lobisomens, boitatás, porcos, queixadas, cachorros, cães, ou gatos de olhos de fogo, quibungos, papões, mãos-de-cabelo, cobras-norato, almas-de-gato, capelobos, papa-figos. Toda uma fauna infernal que se a sociologia do sobre-natural descesse do divino ou do angélico ao misticamente bestial, teria que considerar como "sociedade" a seu modo animal. O encontro dos dois extremos : o supra e o infra-humano. Em compensação, a tradição oral guarda a lembrança de aparições, no Recife ou nos seus arredores, de santos, da própria Virgem, do próprio Senhor Bom Jesus até a simples soldados, embora nenhum tenha se tornado arremedo sequer de Joana d’Arc: a não ser que se queira idealizar a este ponto o herói demasiadamente humano que foi Fernandes Vieira.
Há hoje no nosso país, como em outros países, quem não se sinta nunca só mas sempre acompanhado por anjos da guarda ou por espíritos de mortos bons ou de demônios, amigos ou inimigos. Será ou não uma forma de socialidade, digna de estudo sociológico por pesquisador que, sem se interessar diretamente pela pesquisa psíquica, se interesse pela repercussão do psíquico sobre o comportamento de indivíduos obcecados ou dominados pela crença de viverem na companhia ou na sociedade de espíritos de mortos, ou de demônios que acreditam caminharem a seu lado, conversarem com eles, inspirarem-lhes atitudes de pessoas vivas e até lhes aparecerem em ocasiões excepcionalmente importantes, advertindo-os de perigo, confortando-os ou aterrorizando-os ? É este outro aspecto sob o qual as chamadas assombrações, visagens ou aparições, ou seja, o convívio que certos vivos supõem manter tranqüilamente com espíritos de pessoas mortas, conhecidas ou estranhas, ou com anjos, demônios, santos, podem ser estudadas sociologicamente. Pois não deixa de ser uma forma de convivência.
Não vamos a tanto neste ensaio. As páginas que se seguem não são de sociologia alguma do sobrenatural. São elas tão modestas em suas pretensões que não representam contribuições, mesmo pequena, para qualquer nova sociologia de inter-relações psíquicas, em fase de aventurosa formação.
Quando muito, acrescentam uma ou outra novidade, miúda, mas mesmo assim de algum interesse, à literatura ou ao folclore do sobrenatural no Brasil. Uma ou outra achega à história íntima da cidade do Recife, cujo ambiente está tão impregnado de assombração quanto o de Salvador de feitiço ou o do Rio de Janeiro de buena dicha: buena dicha não só de cigana como de macumbeira e de cartomante requintada. É que o Rio recorre ao sobrenatural principalmente para ver o futuro; enquanto no Recife o sobrenatural é sobretudo uma perseguição do presente pelo passado. Na Bahia é sobretudo um aliado atual, vivo, presente da África contra a Europa no resto de guerra fria entre as duas culturas, felizmente quase de todo harmonizadas em síntese magnificamente brasileira.
Não é de hoje que o assunto interessa o autor. Em 1929 dirigia ele o velho jornal A província, do Recife – o artigo, bravo e bom jornal de José Mariano e José Maria, de Joaquim Nabuco e Carneiro Vilela – quando foi uma noite procurado por sisudo morador de sobrado de São José: homem que há meio século era assinante daquele diário "liberal". Que conhecera Nabuco. Que fora companheiro de luta de José Mariano e de Maciel Pinheiro. Que seguira devotamente todos os folhetins de Carneiro Vilela. Que continuava amigo de Manuel Caetano: sobrevivente dos dias mais combativos do jornal.
O que o bom homem desejava do novo diretor do jornal era simplesmente que este insignificante mortal conseguisse do então chefe de polícia que acabasse com as assombrações na casa de São José onde morava o velho admirador de Nabuco, o antigo entusiasta de José Mariano. Estávamos na época em que se atribuía ao presidente da República, aliás brasileiro honrado e homem de bem, o critério de considerar toda agitação brasileira de operários contra as explorações de patrões, simples questão de polícia. O diretor d’A província tinha diante de si, naquela noite de 1929, um cidadão igualmente honrado que, acreditando em espíritos maus e zombeteiros, acreditava ao mesmo tempo em solução policial para as assombrações de sua casa. Não admitia que fossem obra de ladrões . Nem de malandros. Nem de namorados da crioula da casa. Estava certo de que eram espíritos. Mas espíritos maus que a polícia poderia conter, expulsar, talvez liquidar a facão. O velho liberal chegava ao fim da vida acreditando no poder sobrenatural da polícia .
Não recomendou o autor do caso à polícia para solução, mas simplesmente para indagação. Recomendou-o principalmente a um psiquiatra seu amigo que passou a interessar-se pelo assunto – casas mal-assombradas do Recife – do ponto de vista de sua especialidade; e reuniu, ao que parece, bom material, hoje talvez disperso.
Ao mesmo tempo, porém, o diretor d’A província teve a idéia de encarregar o repórter policial do jornal, que o Oscar Melo, de vasculhar nos arquivos e nas tradições policiais da cidade o que houvesse de mais interessante sobre o assunto: casas mal-assombradas e casos de assombração. Queixas contra espíritos desordeiros. Denúncias contra ruídos de almas penadas. Pedidos à polícia para resolver questões violentamente psíquicas. Que lhe trouxesse tudo isso copiado. O chefe de polícia de então – Eurico de Souza Leão – era pessoa amiga e facilitaria as cópias.
E antes mesmo das primeiras notas serem trazidos pelo repórter para o diretor do jornal reduzi-las a histórias de sabor o mais possível popular, iniciou A província uma série de artigos, a respeito do assunto: artigos que fizeram algum ruído, embora apenas provinciano. O primeiro foi sobre a Cruz do Patrão. O poeta Manuel Bandeira escreveu do Rio à direção d’A província que estava encantando com a idéia: toda uma série de artigos sobre o sobrenatural no passado recifense. Mas o poeta Manuel Bandeira era então colaborador do velho jornal do Recife, e, portanto, contaminado de provincianismo. Tanto que já escrevera o poema imortal que é "Evocação do Recife".
Aquelas reportagens, A província organizou-as – como organizara a série Crimes célebres em Pernambuco – como pequena contribuição para a história íntima da cidade e da província. Algumas aparecem de tal modo refundidas nas páginas que se seguem que é mesmo como se fossem matéria nova. Foram ouvidos outros informantes a respeito dos casos que aqui se contam. Representam elas, na sua forma atual, um esforço não só jornalístico como de pesquisa histórica no qual o diretor do diário teve a auxiliá-lo, além daquele bom repórter policial, o por algum tempo seu cozinheiro, o preto José Pedro, filho de velho capanga de José Mariano; a também, por algum tempo, sua vizinha, macumbeira célebre, Josefina Minha-Fé; e os seus queridos amigos Pedro Paranhos e Júlio Belo, conhecedores de muita intimidade do velho Recife: inclusive casos de assombração.
Outras histórias se juntam agora às desenvolvidas das reportagens de 29. Numerosas outras. Quase todas recolhidas diretamente de boas fonte orais. De velhos e honestos moradores da cidade, entre os quais dona Maroquinha Tasso, há pouco falecida na sua casa de Apipucos aos 86 anos de idade e que era a ternura em pessoa; o velho Brotherhood, figura simpática de anglo-pernambucano há anos falecido; o preto velho Manuel Santana; o dr. Alfredo Freyre; o coronel João Cardoso Aires; o capitão Adolfo Costa.
Também o adolescente apaixonado pelas tradições do Recife que é Evaldo Carneiro Leão Cabral de Melo recolheu de gente antiga informações, que me transmitiu, sobre assombramentos célebres. Um caso me foi contado pelo meu amigo Carlos Humberto Carneiro da Cunha. E quatro ou cinco casos foram recolhidos em páginas de cronistas coloniais ou do tempo do Império e não da tradição oral ou popular. Nem dos arquivos policiais.
A todos os colaboradores, os agradecimentos do organizador deste livro de histórias que não deixam de ser história: história de uma cidade tão célebre pelas assombrações como pelas revoluções. Agradecimentos, também, a Lula Cardoso Aires, o ilustrador admirável que como nenhum outro parece sentir o que há ao mesmo tempo de humano e de pernambucano em histórias de almas-do-outro-mundo como as reunidas aqui.
Investindo, com razão, contra certezas sectárias e sistematizações doutrinárias em torno de mistérios ainda esquivos ao estudo científico, sábios como mestre Silva Melo vão talvez ao extremo de assegurar que isso de assombração, de fantasma, de morto aparecendo ou falando a vivo, é tudo ilusão. Fantasia como o lobisomem, a mula-sem-cabeça, o boitatá. Mas sábios igualmente ilustres como Walter F. Prince nos têm mostrado, em páginas como as de The enchanted boundary, a paciência, o rigor, o cuidado com que desde 1882 – isto é, desde a fundação da British Society for Psychic Research – se realizam pesquisas em torno do chamado sobrenatural, sem que se tenha chegado à conclusão de nada haver do que os rigoristas da terminologia chamam de sobrenatural. E nessa expressão, sobrenormal, cabe muito mistério.
O filósofo inglês Joad é também dos nossos dias : mas não sabe como desprezar-se o mistério.
No ensaio que escreveu para refutar a tese chamada de "pré-logicismo", o francês Oliver Leroy lembra que a negação absoluta dos "fenômenos ocultos" é atitude recente na história do pensamento humano: tão recente que seria precipitação considerá-la "final". A propósito do que recorda Raymond Michelet as palavras do velho Carlyle: " The reign of Wonder is perennial, indestructible in man; only at certain stages (as the present) it is, for some short reason, a reign in partibus infidelum." Palavras às quais se poderiam acrescentar as célebres de Shakespeare e Cervantes, em bocas de personagens igualmente célebres criados por eles.
O mistério continua conosco, homens do século XX, embora diminuído pela luz elétrica e por outras luzes. Por que desconhecê-lo ou desprezá-lo em dias tão críticos não só para certas fantasias psíquicas como para certas verdades científicas, como os dias que atravessamos?
G.F
Santo Antônio de Apipucos,1951.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Assombrações do Recife velho. Ilustrado por Lula Cardoso Ayres. Rio de Janeiro: Condé, 1955. 124p.
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